Golpe via Skype visa árabes com proposta de sexo online

“Com uma garota assim, você perde a cabeça”, relata vítima de extorsão

Homem assistindo pornô

Certa noite, um jovem palestino foi levado a tirar a roupa e a se masturbar em frente a uma webcam.

Sua história – vivenciada por diversos homens árabes, alvos de um esquema de extorsão que está se tornando comum – foi revelada como parte de uma nova série da BBC.

O material aborda um fenômeno novo e perturbador que faz uso de imagens privadas ou explícitas para ameaçar, chantagear e envergonhar jovens que vivem em algumas das sociedades mais conservadoras do mundo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O relato abaixo foi feito por Samir (nome fictício), uma das vítimas do esquema, praticado principalmente por chantagistas baseados no Marrocos.

AVISO: essa reportagem contém descrições de atos sexuais

“Eu estava sozinho em casa. Uma garota me adicionou no Facebook. Não achei nada estranho. Sempre recebo pedidos de amizade de ex-colegas de escola que não conheço muito bem.”

“No dia seguinte, ela me envia uma mensagem dizendo: Olá, como está você? Eu vi seu perfil e gostei de você‘. Então, olhei o perfil dela e, confesso, ela era bastante atraente.”

“Nessa noite ela começou a me enviar mensagens pelo Skype. Disse que tinha 23 anos de idade, que seus pais já haviam morrido e que morava com sua irmã no Líbano.”

“Ela disse que estava entediada porque não estava estudando nem trabalhando e que sua irmã era muito severa. Perguntei o que ela fazia para passar o tempo e ela respondeu que gostava de sexo. Disse que adorava sexo.”

“Comecei a pensar que isso ficaria interessante. Estava curioso, mas ainda desconfiado porque a facilidade com que ela falava de sexo com um desconhecido me soava estranha.”

“Mas eu estava entediado, sem nada para fazer, e minha namorada estava viajando. Decidi ver onde aquilo iria parar.”

“Então ela me perguntou se eu tinha uma webcam. Liguei o meu vídeo e perguntei: ‘Eu posso ver você também?‘ Então ela ligou o vídeo e, quando eu olhei para ela, ela se revelou ser muito bonita. Com uma garota assim, você perde a cabeça.”

“Nossa conversa foi apenas via mensagens, pois ela disse que a irmã dela poderia nos escutar. Enquanto teclávamos, ela me disse que estava ficando excitada com a conversa.”

“Eu estava achando que, por estar com sua irmã, no sul do Líbano, ela estaria se sentindo frustrada e, por isso, estaria a procura de encontros sexuais pela internet”.

“Então ela me pediu para eu mostrar o meu pênis. Eu mostrei. Aí eu disse: ‘Ok, sua vez.’ Então ela deitou na cama, tirou a roupa e começou a se masturbar.”

“Eu nunca tinha visto algo parecido. Foi tão fácil. Bom demais para ser verdade.”

YouTube
“Imagine se minha mãe tivesse visto? Eu me jogaria da janela por vergonha,” diz jovem vítima de golpe online – Foto AFP

“Comecei a me masturbar também. Ela me disse para colocar a câmera na minha cara, porque isso a deixava excitada. Então eu intercalava o vídeo, mostrando a minha face e o meu pênis. Após alguns minutos ela fingiu ter um orgasmo.”

“Ainda nua, ela retornou ao teclado e veio conversar comigo. Ela me perguntou o que eu faço e digo que trabalhava em um mercado em Milão”.

“‘Ah, você deve ser rico,’ ela respondeu.”

“Bem, eu vivo bem,’ respondi.”

“Então ela disse que sua irmã estava chegando. Vestiu-se e desconectou.”

“Meia hora mais tarde recebi a seguinte mensagem via Facebook: ‘Escute, eu sou um homem e gravei um vídeo seu se masturbando. Você quer vê-lo? Ele me enviou. Era uma gravação de cinco minutos onde apareço me masturbando.”

“Então ele diz: tenho uma lista de amigos e familiares seus no Facebook – sua mãe, sua irmã, seus primos. Você tem uma semana para me enviar 5 mil euros. Caso contrário, eles receberão o vídeo.”

“Fiquei em choque. Meu primeiro pensamento foi enviar imediatamente o dinheiro. Mas decidi cancelá-lo, ou cancelá-la, como contato no Skype. Na mesma hora, recebi uma mensagem via WhatsApp: ‘Estou aqui’, dizia.”

“Comecei a negociar com ele. Disse que não tinha 5 mil euros. Ele respondeu: ‘É claro que você tem dinheiro, você tem um bom trabalho na Europa. Disse que aquilo era uma mentira para impressionar uma garota. Eu sou um entregador de pizza.”

“Ele pareceu se convencer e disse: “Pode até ser verdade, mas não me importo. Você tem uma semana para me enviar 2 mil euros ou vou enviar o vídeo para sua família.”

“Tentei me acalmar e raciocinar. Se enviasse o dinheiro, o que impediria ele de voltar e pedir mais?

Foi então que me ocorreu que se ele enviasse o vídeo para meus contatos – pessoas que não são amigas dele – o arquivo iria parar na caixa de lixo onde ninguém confere.”

“Mesmo que conferissem, quem abriria um arquivo de vídeo de um desconhecido?Poderia ser um vírus.”

“Então eu fiquei com duas alternativas. Enviar o dinheiro mesmo sem garantia de que ele não voltaria para me pedir mais ou recusar e torcer para que ninguém olhasse o vídeo.”

“O dia em que o prazo venceria chegou e ele me mandou uma mensagem dizendo que iria fazer o upload do vídeo no YouTube. ‘Vá em frente. Não me importo mais,’ disse a ele.”

“Então mudei meus ajustes de privacidade para que ninguém publicasse na minha timeline ou me vinculasse a algo sem meu consenso.”

“Então ele me enviou o link para o vídeo via WhatsApp. Vi novamente. Eu me masturbando no YouTube. Fiquei enjoado.”

“Imediatamente comecei a denunciar o vídeo ao YouTube por conteúdo sexual. Eu denunciei, fechei a página, recarreguei o link e denunciei novamente. Sem parar, uma vez atrás da outra.”

Omar, chantagista
“Pedimos a ele que tire suas roupas e que faça gestos obscenos,” revela um dos chantagistas

“Ele me enviou a mensagem dizendo que estava a ponto de enviar meu vídeo para meus familiares via Facebook se não pagasse. Eu disse: ‘Vá em frente. Envie!'”

“Eu não poderia pagar os 2 mil euros. Isso passaria para 5 mil e depois sabe-se lá que valor ele iria querer. Ele ficou indignado e começou a me enviar insultos e dizer que iria mandar meu vídeo para minha mãe e todos que conheço”

“Continuei denunciando o vídeo. Também fiquei conferindo o número de visualizações para me certificar de que ninguém mais havia visto. Após uma hora o YouTube derrubou o vídeo.”

“Até onde posso dizer, todos os acessos foram meus, exceto por um. Pode ter sido a pessoa assistindo logo que fez o upload. Ou um dos meus familiares.”

“Nunca saberei ao certo, mas nunca ninguém me disse nada. Talvez algum familiar homem tenha assistido, mas nunca disse a ninguém.”

“Se minha tia tivesse assistido, ela espalharia para toda a família. Imagine se minha mãe tivesse visto? Eu me jogaria da janela por vergonha.”

“Depois que o vídeo foi derrubado pelo YouTube, a pessoa não entrou mais em contato. Acho que ele foi atrás de alguém com mais potencial.”

“Lembro que certa vez perguntei por que ele ficava tentando pegar um cara pobre e ele me disse: ‘Você acha que não miro nos caras ricos do Golfo Pérsico? Claro que sim. Você tem sorte. Posso ver pelo seu Facebook que você não é casado. Eu estaria pedindo muito mais dinheiro se esse fosse o caso.”‘

“Acho que (a extorsão) acabou, mas volta e meia entro no YouTube para ver se o vídeo foi recarregado.”

Cidade de chantagistas

É provável que a “garota libanesa de 23 anos de idade” que seduziu Samir pelo Skype na verdade seja um homem jovem de Oued Zem – uma cidade pequena no centro do Marrocos que se tornou famosa por ser a “capital da indústria da extorsão sexual”.

Os chantagistas de Oued Zem caçam vítimas no Facebook. Assim que um homem responde à chamada de vídeo, eles ativam um software que mostra para a vítima um vídeo pré-gravado, retirado de site pornô.

Eles são tão familiarizados com o vídeo que conseguem teclar com suas vítimas exatamente nos momentos em que a garota aparece teclando no computador.

“Pedimos a ele que tire suas roupas e que faça gestos obscenos,” revela Omar (nome fictício), um dos chantagistas.

“É importante que seus órgãos genitais fiquem visíveis enquanto ele faz esses gestos,” diz.

Omar revela também uma habilidade profissional. “Passamos 20 minutos no chat, 20 minutos gravando e 20 minutos ameaçando – chantageando e negociando. Todos pagam,” garante Omar.

Oued Zem Marrocos
Oued Zem, no Marrocos, é antro de chantagistas que atuam na internet

“O ponto fraco dos árabes é o sexo. Você encontra a fraqueza deles e passa a explorá-las. Outro ponto fraco é quando são casados. Também há aqueles que são bastante religiosos.”

“Você vê se o cara se parece com um sheik, carregando o Corão, e pensa: ‘Não, ele não cairá nessa. E quando você tenta, ele cai na armadilha.”

A atividade rende a Omar em torno de US$ 500 (cerca de R$ 1,5 mil) por dia. Muitos jovens na cidade se dedicam à prática de extorsão.

As ruas da cidade são repletas de carros alemães e motocicletas japonesas. Há restaurantes e cafés para atender a demanda de famílias de novos ricos.

A cidade também abriga pelo menos 50 escritórios de transferência internacional de dinheiro. O gerente de um deles afirma receber em torno de US$ 8,5 mil (R$ 26,7 mil) por dia e que a vasta maioria é proveniente de extorsão.

No Reino Unido, Wayne May administra uma comunidade online chamada Scam Survivors (Sobreviventes de Golpes). O grupo oferece ajuda a vítimas de extorsões.

Desde 2012, ele diz ter recebido mais de 14 mil pedidos de ajuda provenientes do mundo todo. Muitas das vítimas são jovens árabes e as chantagens partem do Marrocos.

A cidade de Oued Zem vivia das remessas de dinheiro de moradores que foram trabalhar na Europa. Mas, depois da crise econômica de 2008, essas remessas diminuíram.

Essa foi a mesma época do advento das redes sociais, quando o Facebook e as webcams se tornaram ferramentas de comunicação diária.

Salaheddin El-Kennan, um ativista, não culpa os jovens da cidade por faturarem com extorsão. Segundo ele, os índices de desemprego na cidade chegam a 60%.

“Escolhi não fazer chantagem porque considero incompatível com os valores marroquinos e islâmicos,” disse ele.
Com dados da BBC

Grafiteiras árabes que derrubam muros

Artistas de rua do Egito e da Síria refletem o olhar feminino em espaços públicos

A grafiteira palestina Laila Ayawi durante participação na Jordânia, em 2014.
A grafiteira palestina Laila Ayawi durante participação na Jordânia, em 2014. Mia Gröndahl

Os muros nem sempre escondem realidades.

Nas ruas de Alexandria, Sanaa ou Amã, as mesmas paredes capazes de engessar papéis de gênero também podem, graças ao grafite, dar visibilidade às mulheres.

Com essa intenção, nasceu em 2013, no Egito, o Sit al-hita (as mulheres das paredes, em dialeto árabe egípcio) um grupo de cerca de 60 grafiteiros — principalmente mulheres, mas também há homens — de várias partes do mundo árabe que se reúnem a cada ano para levar o universo feminino ao espaço público através da arte de rua.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Até agora, pintaram muros no Cairo, Copenhague e Amã, a última vez em novembro de 2015, graças ao financiamento dos Governos sueco e dinamarquês.

Os grafites políticos ganharam força na paisagem urbana do Egito com a eclosão da Primavera Árabe, em 2011. Com a revolta contra Hosni Mubarak, os muros começaram a refletir mensagens contrárias ao regime ou em homenagem aos mortos na repressão. Faltava, no entanto, metade da população.

A jornalista e fotógrafa sueca Mia Gröndahl documentou os grafites no país para seu livroRevolution Graffiti: Street Art of the New Egypt (Revolução Grafite: Arte de Rua do Novo Egito) e descobriu que, de 17.000, somente cerca de 250 ilustrações eram representadas por mulheres. Foi então quando decidiu fundar o Sit al-hita com o egípcio-canadense Angie Balata.

Os grafites que surgem dos encontros nem sempre trazem reivindicações ou mensagens feministas. Os exemplos vão desde uma mulher amordaçada e amarrada até uma simples borboleta colorida. Às vezes, tem a ver apenas em permitir que o olhar feminino ocupe espaços que normalmente são negados.

Dina Saadi, por exemplo, ilustrou um coração alado com uma fechadura, o símbolo da mulher e o slogan “Liberte sua paixão”. “Como feminista convicta, sempre tento encorajar as mulheres a superar limites com minha arte”, explica Saadi, que nasceu na Rússia, cresceu na Síria e, logo após o início da guerra civil, se mudou para Dubai, onde agora trabalha como diretora artística.

“Não se trata apenas de representar as mulheres. O simples fato de que os homens vejam uma mulher pintando na rua em cima de um guindaste de 50 metros acima do solo envia uma mensagem”, diz Gröndahl.

Muitas das grafiteiras do grupo também criam em formatos tradicionais, mas a força da arte de rua é precisamente não necessitar do papel ativo do espectador (ir ao museu ou à galeria), podendo ser visualizada por todos os pedestres, incomodando-os ou não. É o caso dos slogans com spray contra o assédio sexual no Egito, abuso sofrido por 99,3% das mulheres no país.

A palestina Laila Ayawi não pretende perturbar com seus traços os homens do campo de refugiados de Irbid, na Jordânia. Pelo contrário. “Sei que vivo em uma sociedade conservadora e não vejo minha comunidade como inimiga”, diz. Ayawi sempre pede permissão antes de usar o spray e evita representar o corpo feminino em espaços públicos.

Sua revolução particular tem a ver com “pintar mulheres fortes”. “Gosto de focar no positivo. Não nos representar como vítimas ou frágeis, e sim dizer às outras mulheres: ‘Você tem uma voz no mundo e deve ser ouvida’”, afirma.

Nur Qussini prefere os símbolos. As cadeiras que desenha representam, diz, a tradição das sociedades da Jordânia e do Catar, nas quais passou seus 27 anos de vida.

“Falo por meio de conceitos, mas sobre histórias reais. Falo, por exemplo, de duas de minhas amigas agredidas por seus maridos que não podem se divorciar, porque seria uma vergonha para suas famílias. Por isso gosto tanto de pintar na rua, porque não tem a ver apenas em acrescentar beleza, mas também enviar uma mensagem.”
Fonte:El País