Será que o homem é mesmo o animal mais inteligente do planeta?

Não que elas consigam distinguir os traços cubistas ou paisagens ligeiramente desfocadas. Afinal, são criaturas cujos cérebros são menores do que uma cabeça de alfinete. Mas, devidamente treinadas, elas podem distinguir entre os dois artistas através de diferentes misturas açucaradas que pesquisadores colocaram por trás dos quadros.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Essa capacidade de “reconhecer” um estilo artístico é apenas uma em uma longa lista de feitos incríveis desses insetos. Abelhas podem contar até quatro, são capazes de “ler” sinais complexos, aprendem pela observação e conversam entre si usando um código secreto (a “dança das abelhas”).

ElefanteElefantes estão entre os animais que reconhecem seu próprio reflexo

Quando buscam por alimentos, as abelhas conseguem medir a distância até diferentes flores e planejam suas rotas para colher o máximo possível de néctar com o mínimo esforço.

Dentro da colmeia, são responsáveis por tarefas como limpar, cuidar dos mortos e até resfriar o ar, já que coletam água para refrescar o local nos dias de calor.

O cérebro humano tem quase 100 mil vezes mais neurônios do que o das abelhas. Mas a base de muitos de nossos comportamentos mais valorizados pode ser observada nas atividades conjuntas de uma colmeia.

Por que, então, temos tanta massa cinzenta em nosso crânio? No que isso nos diferencia dos outros animais?

Memória e empatia

AbelhaApesar de realizarem tarefas complexas, abelhas não podem planejar o futuro

Cerca de 20% de tudo o que comemos é usado para fornecer energia para as trocas elétricas entre as 100 bilhões de células cinzentas que temos no organismo. Se um cérebro grande não nos trouxesse vantagens, seria um enorme desperdício.

E há alguns benefícios evidentes. O primeiro deles é o fato de nos tornar mais eficientes nas atividades que garantem nossa sobrevivência.

Enquanto as abelhas precisam considerar cada objeto isoladamente, para medir as distâncias, outros animais têm a capacidade cerebral de processar tudo de uma só vez. Ou seja, podemos realizar várias tarefas ao mesmo tempo.

Um cérebro maior também aumenta a quantidade de informações que podemos memorizar. Uma abelha só consegue fazer um punhado de associações indicando a presença de alimento, enquanto um pombo pode aprender a reconhecer mais de 1,8 mil imagens – e isso não é nada se comparado ao conhecimento humano.

E, claro, se olharmos tudo o que a civilização humana já conquistou ao longo de sua história, podemos concluir que temos alguma habilidade particularmente especial que falta em outros animais.

Cultura, tecnologia, altruísmo e muitas outras qualidades já foram apontadas como sinais da grandiosidade humana. Mas quanto mais observarmos, mais curta fica essa lista.

Os macacos, por exemplo, são capazes de usar pedras para quebrar a casca de nozes, enquanto corvos podem “fabricar” um gancho a partir de um graveto para apanhar comida.

Até mesmo seres invertebrados têm sua inteligência. Alguns polvos podem recolher cascas de coco no mar para usá-las como abrigo.

Enquanto isso, uma fêmea de chimpanzé na Zâmbia foi flagrada usando na orelha um pequeno amontoado de capim – apenas porque ela achou que era algo bonito. Logo depois, outras fêmeas do grupo passaram a copiá-la, usando esse adorno que, para alguns pesquisadores, representa uma forma de expressão cultural.

Muitos seres também parecem ter um sentido natural de justiça, e podem até sentir empatia por outros, o que sugere uma vida emocional rica e que até pouco tempo atrás achávamos que era exclusiva do homem. Basta ver o caso de uma baleia cachalote que recentemente foi vista salvando uma foca de um ataque de orcas.

E a consciência?

Talvez a resposta esteja na “noção de si mesmo”, ou na habilidade de um ser vivo de se reconhecer como um indivíduo. Esse “olhar para o próprio umbigo” é uma forma rudimentar de consciência.

De todas as qualidades que podem nos tornar únicos, essa autoconsciência é a mais difícil de medir com certeza. Um teste simples pode identificar essa capacidade: fazer uma mancha de tinta no rosto do animal e depois colocá-lo na frente do espelho; se ele percebe a marca e tenta esfregá-la, é possível crer que ele reconhece seu reflexo, o que sugere que ele formou algum tipo de conceito de si mesmo.

O ser humano só desenvolve essa capacidade a partir dos 18 meses de idade. Mas alguns animais demonstraram ter esse tipo de autoconsciência, como bonobos, chimpanzés, orangotangos, gorilas, pegas, golfinhos e orcas.

Afinal, somos ou não especiais?

Temos, sim, algumas habilidades que nenhum outro animal tem, e a melhor maneira de enxergar isso é pensar na conversa entre uma família na hora do jantar.

A primeira é o simples fato de podermos falar. Não importa quais as experiências que você teve ao longo do dia, é possível encontrar palavras para expressar seus sentimentos e descrever acontecimentos para outras pessoas. Nenhum outro animal consegue se comunicar com tanta facilidade. E mesmo se não pudermos encontrar a melhor palavra para definir algo, podemos inventar uma.

O mais notável, no entanto, é que a maior parte de nossas conversas revolvem em torno do passado ou do futuro.

Além da memória “semântica”, que nos permite lembrar dos fatos, temos também uma memória “episódica” – a capacidade de reviver eventos do passado mentalmente, retratando-os com detalhes multissensoriais. É a diferença entre saber que Paris é a capital da França e ser capaz de lembrar do que viu e ouviu quando visitou o Museu do Louvre pela primeira vez.

E essa capacidade de pensar no passado também nos permite imaginar o futuro, pois nos baseamos em experiências para prever o que pode acontecer.

Nenhum outro animal parece ter uma memória pessoal tão elaborada, combinada com a capacidade de planejar várias ações com antecedêcia. Até mesmo as abelhas, com suas complexas tarefas no lar, provavelmente só estão reagindo às circunstâncias presentes.

Assim como a linguagem, a capacidade de “viajar no tempo” com a mente nos permite compartilhar experiências e expectativas com outras pessoas, construindo redes de conhecimento que se expandem a cada nova geração. Ciência, arquitetura, tecnologia, escrita – ou seja, tudo o que permite que você leia este texto – seriam impossíveis sem isso.
David Robson/BBC Future

O esqueleto que pode decifrar origem de objeto mais misterioso da história da tecnologia

O chamado mecanismo de Anticitera é um dos artefatos mais misteriosos da história da tecnologia. E não é para menos.

Mecanismo de AnticiteraObjeto de bronze corroído não é maior do que um laptop moderno e parece uma máquina do futuro. Image copyrightREUTERS

Criado há 2 mil anos na Grécia Antiga, este objeto de bronze corroído não é maior do que um laptop moderno e parece uma máquina do futuro.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Em junho deste ano, um grupo de cientistas conseguiu decifrar um enigma, que desde a sua descoberta, em 1900, não havia sido solucionado: para que servia?

Arqueólogos submarinos encontraram parte de um esqueleto no lugar onde foi descoberto o mecanismo de Anticitera
Arqueólogos submarinos encontraram parte de um esqueleto no lugar onde foi descoberto o mecanismo de Anticitera – Image copyrightREUTERS

O “primeiro computador criado pela raça humana”, tal como descreveram seus descobridores, era utilizado com fins astronômicos, como rastrear complexos movimentos da Lua e dos planetas.

Agora, um grupo de arqueólogos submarinos deu um passo adiante: recuperar restos de um esqueleto humano localizado em um barco naufragado na ilha grega de Symi, onde estava este artefato enigmático.

Ilha grega de Symi
O mecanismo de Anticitera foi descoberto no ano de 1900 em um barco naufragado na ilha grega de Symi

Enigma

Segundo publicou nesta segunda-feira a revista científica Nature, os ossos desenterrados estão em ótimo estado de preservação.

Por causa disso, os cientistas já puderam determinar que os restos pertencem a um homem jovem, ao redor de 20 anos.

Ele foi batizado de Pamphilos, que, em grego, significa “amigos de todos”.

Mecanismo de Anticitera
Futuros exames de DNA podem ajudar a desvendar mistérios que envolvem o mecanismo de Anticitera

Segundo os pesquisadores, futuros exames de DNA poderiam ajudar a desvendar alguns dos mistérios que envolvem o mecanismo de Anticitera, como a origem geográfica dos ancentrais de Pamphilos e, portanto, do artefato.

Também seria possível saber detalhes físicos do jovem (cor de pele e olhos, por exemplo) e até que tipo de atividades ele realizava ou quais condições de vida tinha devido ao estado de seus ossos.

Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro?

É fácil presumir que o mundo digital se resume a pixels e códigos, diretamente oposto ao caráter físico de livros, por exemplo. Brewster Khale sabe que a realidade é bem diferente. “Digital não é imaterial como muitas pessoas pensam”, explica o americano, um misto de analista de sistemas, empreendedor virtual e ativista online.

GettyA cultura digital poderá resistir ao passar dos séculos? Image copyright Getty

Kahle é o fundador do Internet Archive, uma espécie de museu da informação digital. De artigos de revista escaneados a vídeos e URLs, a quantidade de dados acumulados já ocupa mais de 20 milhões de gigabytes de espaço.

E tudo isso está armazenado em discos rígidos, CDs e fitas magnéticas, todas ocupando uma série de armazéns mantidos pelo Internet Archive em diversos lugares ao redor do mundo.

Mas o espaço físico ocupado não é o único problema: discos rígidos duram menos do que se imagina. O material de que são feitos, inclusive componentes eletrônicos, eventualmente vai degradar e parar de funcionar. CDs podem sofrer um tipo de “ferrugem” que limita sua vida útil plena a cinco anos de idade.

Poeira

E, se nossa cultura hoje é predominantemente digital, como é que vai resistir ao passar dos séculos? Como preservaremos informações sobre instituições, sociedades, culturas e descobertas científicas? Como futuros arqueólogos vão estudar como vivemos?

Uma possibilidade é que eles examinem nosso DNA, preservado deliberadamente em “fósseis sintéticos”. No futuro, a tendência é que seja cada vez mais barato “ler” o código genético que define todos os organismos vivos. Na Suíça, Robert Grass e Reinhard Heckel, do centro de pesquisas ETH, de Zurique, desenvolveram um método de “gravar” o DNA.

GettyMesmo tijolos e cimento se degradam – Image copyright Getty

Como isso funciona sem que o DNA se deteriore? “Se você deixar o DNA exposto, ele começa a degradar em seis meses. Então, nosso desafio é encontrar uma forma de estabilizá-lo”, afirma Grass.

A solução é a “fossilização”: Grass e seus colegas queriam encontrar material que não fosse reativo e que tivesse resistência. No mundo natural, o DNA é mais bem preservado em ossos e em baixas temperaturas.

Isso explica por que pesquisadores recentemente puderam analisar DNA encontrado em ossos de um cavalo de 700 mil anos de idade. Mas se o fosfato de cálcio nos ossos tem uma boa estrutura química para encapsular o DNA, a substância conta com uma grande desvantagem: dissolve na água.

A equipe do ETH escolheu o vidro como material para o fóssil sintético, mais precisamente a sílica, sua matéria-prima. Embora um painel ou garrafa de vidro sejam frágeis, o tipo usado pelos suíços é extremamente resistente por ser incrivelmente pequeno – na verdade, é basicamente pó. Cada partícula contendo um punhado de DNA tem apenas 150 nanômetros de largura. Congelamento, impacto ou compressão não teria efeito sobre elas.

Elas podem até resistir a temperaturas extremamente altas, mas com um problema: o DNA contido nelas é afetado. Grass diz que o limite de resistência é 200 graus, e isso quer dizer que, enquanto as partículas sobreviveriam a um incêndio, os dados que elas contêm seriam destruídos.

GettyO DNA pode ser usado para fazer fósseis sintéticos

A melhor temperatura para armazenar os “fósseis sintéticos” para evitar os efeitos do tempo seria 18 graus negativos.

E se analisar os dados é uma tarefa fácil, o mesmo não se pode dizer de sua extração das placas de sílica. Este processo exige uma técnica especial baseada na imersão das partículas em uma solução à base de flúor.

Seria necessário deixar instruções para que os dados sejam acessíveis para os arqueólogos do futuro. “Seria como gravar instruções em uma pedra”, diz Glass.

Este é um tipo de problema que outros cientistas tentam resolver. Kahle cita o Disco de Rosetta – um arquivo de mais de 1500 línguas que seria registrado em um disco metálico. Explicações sobre seu funcionamento fariam parte do material, que seria disposto em formado de espiral. Mas o disco teria o formato bem maior que nanopartículas. A equipe de Grass precisa trabalhar em pistas para as futuras gerações.

Mas seu projeto permite vislumbrar o armazenamento confiável de informações por milhares e talvez milhões de anos. Só que o custo de registrar o DNA ainda é alto. “Você precisa escolher o que registrar e definir sua importância, uma escolha extremamente difícil”, afirma o cientista.

Getty
O que nosso lixo dirá sobre nós? Image copyright Getty

Há ainda o fato de que nem sempre nossas escolhas são as mais corretas. O lixo, por exemplo, tem sido uma mina de ouro para arqueólogos buscando entender como gerações passadas viveram. Mas se o lixo de hoje vai sobreviver por milênios é outra história.

Mas mesmo que nossa civilização vire pó, esse pó vai contar uma história. Pois ele conterá DNA e uma riqueza de informações.

O que o “Homo naledi” pode dizer sobre a evolução humana?

Fruto de acaso e tenacidade, a sensacional descoberta na África do Sul incita a repensar a teoria evolutiva. Uma linhagem única, de Lucy até o ser humano moderno, parece menos provável do que nunca.

A notícia movimentou a comunidade científica: numa caverna da África do Sul encontrou-se um inesperado elo perdido na evolução humana, o Homo naledi, datando de entre 100 mil e 2 milhões de anos, como anunciou a revista online eLife nesta quinta-feira (10/09).

Devido a suas dimensões e circunstâncias, o achado dos fósseis, em si, já teve algo de espetacular: após uma descoberta acidental em 2013, mais de 1.500 ossos foram retirados da Câmara Dinaledi, a 30 metros de profundidade, no sítio arqueológico conhecido como “Berço da Humanidade”. As escavações levaram 21 dias, envolvendo mais de 60 especialistas.

Mais sensacional ainda, porém, é o potencial efeito do evento sobre a ciência. Com os estudos a seu respeito ainda a pleno vapor, o Homo naledi já abala as bases teóricas da evolução, forçando a revisão de algumas quase certezas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Mas o que torna tão revolucionária essa recente adição à árvore genealógica da humanidade?

Entre Lucy e o Homo erectus

Baseado exclusivamente em erráticas exumações de fósseis, os conhecimentos sobre as origens doHomo sapiens ainda são esparsos e fragmentados.


Osso de maxilar de 2,8 milhões de anos, encontrado em 2013, próximo ao sítio de Lucy

No extremo da linha do tempo, estão os astralopitecos, primatas com características quase humanas, datando cerca de 3 milhões de anos. Seu representante mais famoso é Lucy, o esqueleto de um Australopithecus afarensisdesenterrado na Etiópia em 1974.

O ancestral cronologicamente mais próximo do homem moderno é o Homo erectus, cujos vestígios fósseis mais antigos contam 1,9 milhão de anos, e os mais recentes, 70 mil anos. Dele se sabe que usava ferramentas, sabia fazer fogo e – segundo a teoria mais em voga – se difundiu a partir da África por toda a Eurásia.

Um milhão de anos de escuridão

Entre os australopitecos e o H. erectus há uma nebulosa lacuna de aproximadamente 1 milhão de anos. Foi nesse ínterim que, misteriosamente, um ágil animal bípede se transformou num ser capaz de usar a própria mente para influenciar o meio ambiente em favor próprio – ou para a própria destruição. Como? A ciência não poupa esforços para responder isso – até hoje sem sucesso.

Ligeiramente anterior ao H. erectus é o Homo habilis, que se crê já utilizasse ferramentas. Desde a descoberta de seus fósseis na Tanzânia, na década de 1960, e mais tarde no Quênia, essa espécie é a que inaugura a incerta árvore genealógica humana, que teria raízes na África Oriental.

Antes do H. habilis, a história do homem se perde no breu do desconhecimento. Outros fósseis do gênero Homo encontrados são escassos demais para serem definidos como uma espécie. Como formulou um cientista: eles caberiam facilmente numa caixa de sapatos, e ainda haveria lugar para os calçados.

Antropólogo na contramão

O paleoantropólogo americano Lee Berger é um dos numerosos pesquisadores que dedicam a vida a desvendar o enigma da evolução humana. Contudo, tanto seus meios e hipóteses muitas vezes heterodoxos quanto um certo excesso de ambição carreirista o transformaram em persona non gratapara parte da comunidade científica.

Berger bate de frente com seus colegas, por exemplo, ao insistir que as raízes humanas se encontrariam na África do Sul, e não no leste do continente, como se tende a acreditar. Assim, depois de um achado relevante no “Berço da Humanidade” em 2008, ele contratou geólogos para continuarem a busca de fósseis, além de pedir aos praticantes do cavernismo na região sul-africana que comunicassem qualquer achado promissor.


Reconstituição hipotética de um “Homo naledi”

A importância de ser esquelético

Em 2013, os cavernistas amadores Steven Tucker e Rick Hunter exploravam o sistema espeleológico de Rising Star. Apesar de esse labirinto de canais e cavernas a quase de 50 quilômetros a noroeste de Johanesburgo estar bastante bem mapeado, ambos esperavam encontrar uma passagem menos conhecida. Além disso, sabiam do apelo de Lee Berger.

Por um misto de curiosidade e acaso, a uma profundidade de 30 metros os dois se depararam com a Câmara Dinaledi (naledi significa “estrela”, no idioma sesotho). Lá, a 90 metros da entrada, detectaram os primeiros fósseis do improvável elo perdido.

Um acaso feliz foi Tucker e Hunter serem extremamente magros, praticamente só ossos e músculos, pois, no caminho até o Homo naledi, eles tiveram que atravessar passagens medindo apenas 18 centímetros de largura. Um pouco mais de gordura, e o tesouro de Rising Star talvez ainda permanecesse oculto por muito tempo.

Quase humano – mas nem tanto

Depois dessa primeira revelação, Berger conquistou o apoio Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, da National Geographic Society e da Fundação Nacional Sul-Africana de Pesquisa para a exploração.

Nos trabalhos de escavação subsequentes, vieram à tona cerca de 1.550 fósseis – inclusive 190 dentes de aspecto surpreendentemente humano –, pertencentes a um total de 15 indivíduos. Tal abundância de vestígios é inédita: as demais espécies de Homo são conhecidas, em geral, apenas por fragmentos de esqueletos.

Ainda assim, o H. naledi continua guardando numerosos mistérios. Um dos principais é a idade dos fósseis, que pode ser de 100 mil a 3 milhões de anos. Essa incerteza impede que se avalie com precisão o papel dessa espécie no trajeto evolutivo até o Homo sapiens.

Sua aparência também apresenta uma desconcertante combinação de características simiescas e humanas. Os hominídeos adultos eram relativamente esbeltos, com até 1,5 metro de altura e pesando por volta de 45 quilos. Suas pernas eram mais longas e rosto mais caracteristicamente humano do que os de outros hominídeos. As palmas das mãos, polegares, pulsos eram bem semelhantes aos dos seres humanos, e os pés, praticamente indistinguíveis destes.

Por outro lado, seus dedos eram curvados, sendo ainda adaptados a escalar árvores, da mesma forma que os ombros e a pélvis. Além disso, apesar de o crânio apresentar forma humanoide, seu cérebro não era maior do que uma laranja.

Rituais fúnebres?


Dente de 560 mil anos achado por jovens na França

Um detalhe desconcerta em especial os pesquisadores envolvidos no projeto: o exame do terreno e, sobretudo, a ausência de outras entradas indicam que os 15 indivíduos teriam sido depositados após a morte na quase inacessível Câmara Dinaledi. Isso significaria que o Homo naledi já praticava rituais fúnebres – uma atividade até então considerada exclusiva doHomo sapiens e do Neandertal.

Três tentativas de determinar a idade do achado já foram realizadas, sem sucesso, e a quarta está em andamento. Caso tenha 2 milhões de anos ou mais, esta será a primeira aparição do gênero Homo documentada por mais do que uns poucos fragmentos. Se contar menos de 1 milhão de anos, será preciso repensar toda a evolução humana.

Evolução: corrente trançada, árvore ramificada

Para a antropóloga Tracy Kivell, da Universidade de Kent, a constatação central é que “essa ideia de que temos essa linhagem única, uma linha desde Lucy, indo até o Homo habilis, Homo erectus e até os humanos, simplesmente não é mais uma hipótese viável”, comentou ao site britânico Wired. “A árvore evolutiva é muito cheia de galhos.”

O visionário pai de todo o projeto, o paleoantropólogo Lee Berger, comentou à TV americana CNN estar certo de que “ainda há centenas, se não milhares de restos de Homo naledi” no fundo do complexo espeleológico na África do Sul.

Também para ele a evolução não é linear, e sim “uma corrente trançada”: “A descoberta absolutamente coloca em questão o que nos torna humanos. E eu não acho que ainda possamos dizer que sabemos o que é que torna.”
DW

A não isenção da isenção

Você violaria a lei mesmo ocupando um cargo com um salário de 500 mil por mês, como gerente da maior companhia de esterco do mundo? Pergunta o diabo.Ética,Blog do Mesquita

Se olharmos o fato racionalmente, pelas lentes do neodarwinismo e da neurociência, a resposta é “não!”. Prevalece, diz o interrogado, a minha isenção em relação às propinas e ofertas fora da curva. Fico preso ao meu cargo. E, tal como um ator de novela, eu seria devotado ao meu papel.

Mas, continua o diabo, e se o diretor da peça por ambição, ideologia, incompetência e mediocridade entender que o drama, digamos, uma comédia tivesse que virar uma tragédia e, para tanto, embaralhasse o texto da peça?

Nesse caso, insiste o demo, você toparia deixar de lado a isenção devida ao papel e ao enredo, embolsando, além do seu maravilhoso salário, imensas fortunas recebidas “por fora”, recursos adicionados a, por exemplo, uma refinaria de esterco em construção?

Ou seja, você diria um “não” ao seu compromisso moral com a empresa e toparia ter uma invejável conta bancária, uma cobertura em Ipanema e uma offshore num paraíso fiscal socialista? Além de garantir uma vida de nobre para seus filhinhos?[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Bem, nesse caso — pondera o interrogado pigarreando —, sabedor do objetivo de sabotar a peça e compreendendo que o esterco é matéria valiosa e procurada, eu começaria a duvidar.

Como assim?

Eis um dado crítico. No nosso país, a isenção não é apenas uma questão de seguir uma lei e honrar um cargo. Ela varia de acordo com quem você se enturma. Se o aval para abandonar a isenção ética vem de um adversário, surge a letra da lei; mas se ele vem de um companheiro — eu, como a grande maioria, faço de tudo! A regra legal será dispensada e englobada por um outro tipo de ética. Pois, neste caso, a dominação patrimonial ou carismática, fundada na ética da tradição familiar e do dar e receber, neutralizaria a esfera burocrática, justificando a tentação da falcatrua. A lei se curva diante dos amigos. Ademais, ela é, por natureza, desigual, pois protege quem ocupa certos cargos.

Então — insiste satanás, que está na lista dos 50 a serem investigados — nessas circunstâncias, a não isenção da isenção é uma norma?

Sim, porque o sistema atua por meio de múltiplas éticas e cada cargo ou pessoa as invoca em momentos e circunstâncias diferenciadas.

Então, ficar isento é impossível? Conclui o demônio.

Não, mas é recomendável. Como aquele famoso personagem da “Montanha Mágica”, de Thomas Mann, o campo chamado de “político” no Brasil, se caracteriza pelo hábito da falta de hábito. Deste modo, o bom político, como o bom malandro, tem como referência o velho Pedro Malasartes: ele não é isento porque ele segue a ética de jamais ser isento. O malandro, você conhece isso muito bem, só é honesto por malandragem!

Como acreditar em isenções se o Executivo aparelhou a até não mais poder todo o sistema, inclusive o Judiciário? Em quem acreditar ou confiar eis a questão?

Sobrou o Legislativo, que entra em conflito com o Executivo por falta do que um sensível político nordestino (eles são craques…) chamou falta absoluta de gosto pela “pequena política” abominada pela presidente.

Como seguir normas, prosseguiu o interrogado, num sistema também legitimado pelo patrimonialismo e, nele, pelas simpatias pessoais que cruzam todas as fronteiras debaixo de uma ética de simpatias, afinidades e favores? Tudo isso que somente agora, devido ao tamanho do escândalo, começa a ser politizado por via jurídica, no Brasil?

Realmente, diz o cão, num mundo de barões que, no entanto, amam a legitimidade da jurisprudência teológica lusa, o dono (ou dona) do país tem que aparar arestas. Se não se faz esse papel, o sistema entra em crise. Ele emperra não por uma ausência de ética, mas pela invocação de todas elas simultaneamente.

O diabo afirma: Lula foi capaz de governar embaralhando todas as isenções. Usou todas as éticas e hoje acena com a força bruta. É dessa liberdade sem freio, herança de um viés escravocrata e aristocrático, que faz nascer essa insuportável ambiguidade política na forma de populismo e demagogia. Delas resulta não um povo governado, mas possuído (ou patriarcalmente “cuidado”) numa perversão da democracia. Dilma, porém, não consegue se comunicar…

Mas eu quero confessar! Explodiu o interrogado. Eu roubo em nome do partido para ajudar o povo pobre.

Então, arrisca satanás, a corrupção se legitima em nome de uma causa maior. Mas como jogar se os times se confundem e não há isenção? Se empresas importantes foram sujeito e objeto de acordos escusos com o governo? E a parte lúcida do estádio clama por normas sem as quais não há vida civilizada?

Os exércitos acionados por Lula já destruíram um centro de pesquisa convocando ao palco o mais tenebroso ator da política: a violência. Com ela, e disso eu entendo! — advertiu o diabo —, não há isenção ou salvação!
Por: Roberto da Matta, Antropólogo

Policial mais alto da Índia vira celebridade e sonha em ser lutador

Rajesh Kumar, de 38 anos e 2,23 metros de altura e 155 kg, é considerado o policial mais alto da Índia. Ele treina 6 horas por dia e come 40 ovos, 5 litros de leite e 3 kg de frango.

Rajesh Kumar, de 38 anos e 2,23 metros de altura, é considerado o policial mais alto da Índia (Foto: © COVER ASIA PRESS/IBERPRESS)

Considerado o policial mais alto da Índia, Rajesh Kumar, de 38 anos e 2,23 metros de altura, é uma figura conhecida entre os moradores de Gurgaon, onde trabalha como guarda de trânsito.

Apesar de trabalhar como policial, ele sonha em se tornar um lutador, e para isso se exercita por seis horas diárias, segundo a imprensa local.

Apesar de sua figura intimidadora, o pai de dois filhos, que se tornou policial em janeiro, virou uma celebridade na cidade, encantando pedestres que param para pedir seu autógrafo.

De acordo com a India TV News, Kumar é o terceiro homem mais alto do país, e possui um apetite voraz. Pesando 155 kg, ele consome diariamente 40 ovos, 3 kg de frango, 5 litros de leite e 4 kg de frutas todos os dias.

A alta conta no fim do mês é paga com seu salário e com ganhos provenientes da agricultura.

Manejar o tráfego em Gurgaon, cidade notória por seu recorde de acidentes, é um trabalho difícil.

Mas Kumar gosta do desafio e tem em “The Great Khali”, famoso lutador indiano, uma inspiração.

“Eu quero copiar o sucesso do Great Khali, que também foi recrutado como policial. Meu objetivo é me tornar um lutador de renome mundial como ele”, disse Kumar ao jornal “The Times of India”.

Para isso, ele já faz treinamentos específicos há um ano e meio.
G1


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Guerra contra o cérebro

O cérebro: prova de evolução, mas não para todos

Um grupo de neurocientistas está convicto de que a mente é algo imaterial, que está além do cérebro e que seria o lugar da consciência das forças sobrenaturais.

Reunidos em simpósio, alguns deles classificaram o momento como uma “guerra cultural”, isto é, uma disputa decisiva entre pesquisadores materialistas, que são os bandidos, e os pesquisadores não-materialistas, que são os mocinhos.

Segundo a New Scientist, o movimento não-materialista está tentando ressuscitar o dualismo cartesiano, idéia segundo a qual cérebro e mente são coisas fundamentalmente distintas. O objetivo é colocar a ciência a serviço da busca pela alma.

Cientistas desse grupo assinaram um manifesto chamado “Dissensão científica do darwinismo”, em que sustentam a tese do “design inteligente” – que tem no presidente Bush um de seus maiores entusiastas e que sugere que a vida é complexa demais para ser explicada somente pela evolução.


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O prazer do poder segundo Humberto Eco

Umberto Eco: O novo prazer do poder

Umberto Eco ¹

Os eleitores estavam acostumados com que a vida dos políticos fosse governada por dois princípios, o primeiro deles é melhor resumido por um apimentado ditado italiano: “Megghiu cumannari c’a fottiri”.

Traduzindo de uma forma casta, isso quer dizer: “exercer o poder é melhor do que sexo”. O outro é que os homens poderosos normalmente desejavam mulheres como Mata Hari, Sarah Bernhardt ou Marilyn Monroe.

O que é espantoso é que muitos políticos ou empresários de hoje não sucumbem, digamos, à tentação de desviar dinheiro de obras públicas, mas, sim, às seduções de prostitutas de luxo que comandam somas mais altas do que as exigidas por Madame de Pompadour em sua época. E se essas garotas de programa profissionais não são de seu agrado, eles procuram outras que fornecem serviços mais especializados.

Além disso, muitos parecem buscar o poder especificamente com esperança de demonstrá-lo entre quatro paredes. Veja bem, grandes homens em toda a história não foram indiferentes aos prazeres da carne.

Aqui na Itália, embora alguns líderes políticos de outrora tenham talvez observado uma certa austeridade, Júlio César ia alegremente para a cama com centuriões, nobres romanas e rainhas egípcias igualmente.

Isso também vale para outros lugares: o Rei Sol tinha amantes em abundância, o rei Victor Emmanuel 2º da Itália perseguia a sua Rosina e, quanto ao presidente norte-americano John F. Kennedy… Quanto menos dissermos, melhor.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Entretanto, esses homens pensavam nas mulheres (ou nos garotos) como uma espécie de descanso e recreação para um bom soldado. Em outras palavras, a ordem do dia era conquistar o país da Báctria, humilhar o chefe gaulês Vercingetorix, dominar todos os inimigos desde os Alpes até as Pirâmides, ou unir a Itália.

O sexo era um bônus, como um martíni servido no final de um dia exaustivo. Por outro lado, hoje em dia, os homens no poder parecem desejar em primeiro lugar, e acima de tudo, passar uma noite festejando com dançarinas de boate, e as grandes iniciativas nunca fazem parte do cenário.

Se os heróis do passado liam Plutarco para se divertir, seus colegas modernos sintonizam certos canais de TV depois da meia noite ou entram em sites sugestivos na internet. Uma recente pesquisa para buscar informações sobre o padre e místico italiano Padre Pio de Pietrelcina na internet gerou 1,4 milhão de resultados. Nada mal.

Mas uma busca por pornografia encontrou 130 milhões (sim, 130 milhões) de sites. Uma vez que “Jesus” é um termo de busca mais específico do que “pornografia”, decidi buscar a palavra “religião” para poder comparar: a busca produziu pouco mais de 9 milhões de sites como resultado – uma gota num balde se comparada à “pornografia”.

O que é possível encontrar nesses 130 milhões de sites pornográficos? As opções mais básicas respondem vividamente ao “quem, o quê, onde, quando e porque” do sexo. O restante são sites dedicados a todo tipo de coisas, desde várias formas de incesto (que deixaria Édipo e Jocasta constrangidos) até fetiches incomuns.

A pornografia pode ter uma função positiva: fornecendo uma válvula de escape para aqueles que, por algum motivo, não praticam o ato em si, ou então reacendendo a vida sexual de casais com relacionamentos mornos. Mas ela também pode iludi-lo, fazendo-o acreditar que uma garota de programa cara pode fazer coisas que Friné, a cortesã mais famosa do mundo clássico, nunca teria imaginado.

Não estou me referindo apenas aos 42% de italianos que usam a internet, de acordo com a União Internacional de Telecomunicação; todos os dias, os demais 58% podem assistir na tela de suas TVs coisas que são dez vezes mais estimulantes do que qualquer coisa que estivesse disponível a um rico empresário de Milão dos anos 40.

Hoje, as pessoas estão muito mais expostas ao sexo do que seus avós estavam. Considere um pobre padre de paróquia: houve um tempo em que a única mulher que ele via era a empregada doméstica, e tudo o que ele lia era o jornal católico “L’Osservatore Romano”. Hoje há garotas com trajes mínimos na TV todas as noites.

Então, será que existe algum motivo para não pensar que esse incessante estímulo ao desejo também está afetando os funcionários do governo, causando uma mutação da espécie e modificando o próprio propósito de seu papel na sociedade?

¹ Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista.
O livro mais recente e Umberto Eco é “História da Feiura“. Ele também é autor dos bestsellers internacionais “Baudolino”, “O Nome da Rosa” e “O Pêndulo de Foulcault”, entre outros. Traduzido do italiano por Alastair McEwen.

O genocídio que arrepiou o “mundo”

Genocídio de Nativos na América do Sul

A história, sabe-se, é escrita pelos vencedores. Mas, os vencidos, também deixam registros que com o tempo vêm a lume.

Historiadores e antropólogos permitem que a versão bilateral dos fatos seja conhecida.

Poucas pessoas no Brasil se dão conta da proporção da mortandade de índios nas Américas, em especial nas selvas da América do Sul, após a chegada dos europeus ao Novo Mundo com suas armas e vírus.

E se esse genocídio tivesse sido grande o bastante para afetar o clima do planeta, ou pelo menos o do Velho Mundo?

<= Índios sul-americanos em ilustração de livro didático americano de 1914 (Reprodução/Wikipedia)

A hipótese chocante foi levantada por Richard Nevle e Dennis Bird, da Universidade Stanford. Está em trabalho apresentado anteontem na reunião anual da União Geofísica Americana, segundo leio em comunicado da universidade: a chamada Pequena Era Glacial, iniciada em meados do século 17, poderia ter resultado do morticínio após a diminuição drástica das áreas cultivadas pelas populações desaparecidas, com o conseqüente reflorestamento natural das áreas abandonadas.

Ao crescer, árvores e qualquer tipo de planta retiram CO2 (gás carbônico, principal agente do efeito estufa) da atmosfera.

Quando uma floresta alcança sua maturidade, por assim dizer, esse “seqüestro” de carbono tende a cessar, porque os vegetais o retiram de dia, ao fazer fotossíntese, e o devolvem à noite, ao respirar, com um saldo próximo de zero.

Esse balanço se altera, porém, quando uma área degradada de floresta é abandonada e a mata rebrota: durante alguns anos, ou décadas, o saldo de carbono seqüestrado será positivo, enquanto a maturidade não chegar.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Nevle e Bird acham que o genocídio foi extenso o bastante para retirar uma quantidade significativa de carbono da atmosfera, a ponto de gerar um efeito refrigerador do clima que teria sido sentido na Europa nos séculos que se sucederam à ocupação das Américas.

Mas não teria sido o único fator – eles calcularam que a mortandade pode ter respondido por 10-50% do resfriamento de cerca de 1 grau Celsius em alguns períodos dos séculos que se seguiram.

Outros fatores teriam contribuído, como erupções vulcânicas, que também podem favorecer o resfriamento.

Os pesquisadores de Stanford foram um pouco além do que muitos poderiam considerar um mero chute, ou correlação sem vínculo causal provável.

Sabendo que o processo de fotossíntese tende a consumir versões (isótopos) mais leves de átomos de carbono, eles verificaram que nas amostras estratigráficas estudadas a diminuição quantitativa de carbono também se correlaciona com um aumento relativo na proporção do isótopo mais pesado, o que reforça sua hipótese.

Não dá para omitir que a idéia pareceu e ainda parece fantasiosa. Um tanto inacreditável.

Vai ver é porque, para a maior parte dos brasileiros, persiste uma resistência a encarar o quanto há de horrível no passado do país e o quanto disso se perpetua no presente.

bolg Ciência em dia – por Marcelo Leite

Notas de uma magra trincheira

As manifestações cujo término eu espero que seja o voto contra tudo isso que ai está, nas eleições, tem arcabouços bem marcados.
Roberto DaMatta ¹, O Globo

Não estamos mais diante de um movimento milenarista embandeirado nas chamadas “grandes ideias” que carimbaram o século 19 e pariram pogroms, holocausto, duas guerras mundiais e ditaduras no século 20, mas diante de um protesto pelo bom senso. Assistimos a uma convocação em rede para propor um novo estilo de governar.

O verdadeiro significado de um mundo em rede não é o seu lado formal, como enfatizam alguns dos seus teóricos, mas é o que as redes circulam como drama sem o teste dos preconceitos. Sobretudo dos tabus teóricos segundo os quais uma coisa deve vir depois da outra. Mentira.

O movimento mostra como coisas aparentemente pequenas servem de texto para grandes causas. A realidade de um mundo conectado não é a rede, é a impossibilidade de profetizar o futuro ao lado da certeza de que a política exige honradez para ser praticada. A rede somente revela que suportar a vida continua a ser — como dizia Freud — o primeiro dever dos vivos.

O que o povo quer é ônibus confiável e barato, se possível, gratuito; menos corrupção, segurança, saúde e educação. Ora, esse é o programa dos partidos no poder e, no entanto, é essa demanda que forma o centro das manifestações.

O que há de novo? Primeiro, como observa Elio Gaspari, a ausência dos famosos, dos santos e dos que sabem tudo. As passeatas que se alastram como um carnaval cívico não são englobadas por nenhuma organização poderosa: governo, partido político, sindicato, MST, movimento estudantil ou algum grupo cósmico-religioso clamando pelo fim do preconceito de gênero, do sofrimento ou do pecado.

O que temos visto é a reunião na rua (não num palácio, universidade, assembleia e fórum político) de milhares de miniprotestos, os quais, mesmo quando escritos em linguagem pitoresca, falam de coisas práticas e são apresentados individualmente.

Há uma recusa significativa aos partidos políticos justamente porque eles são o sinal do imobilismo e do enriquecimento em nome da mudança. O movimento traz à tona lugares comuns esquecidos pelos políticos no poder (e hoje, com a tal coalizão, só há uma minoria fora dele).

A manifestação não é um manifesto contra a democracia liberal, mas ao estilo de como essa democracia tem se concretizado no Brasil. Ela denuncia a ausência de encontro da sociedade com o governo.

Governo que, no Brasil de Lula e Dilma, tem sido muito mais um instrumento de aristocratização do que de resolução de problemas, o próprio sucesso que o sistema tem apresentando como o do poder de compra e da estabilidade monetária.

O bom senso não tem partido. Ele é uma simples conta de chegar entre meios e fins. Não se impede uma guerra com missas do mesmo modo que não bastam leis, politicas públicas de redistribuição de renda e instituições, pois é preciso honestidade e motivação para fazê-las funcionar e, assim, torná-las um instrumento da sociedade como um todo.

Não adianta uma Constituição inspirada na gloriosa França da Bastilha sem franceses para colocá-la em prática! Por isso o bom senso faz parte das rotinas democráticas, conforme viu Tocqueville.

Segurança, educação, transporte confiável e cumprimento de promessas feitas pelo próprio governo petista que está — eis um ponto implicitamente lembrado pelos manifestantes — no poder e que governa o Brasil.

Não há mais como eleger um bode expiatório para incompetências (inflação, desmantelamento da Petrobras), escândalos, mensalão sem desfecho; obras superfaturadas de toda ordem, bem como os elos espúrios entre grandes empresários e políticos. De PECs que visam claramente a castrar o poder de apuração do povo, ampliando a zona cinzenta de uma intolerável impunidade, etc., etc., etc…

Quando uma coisa tão básica como a rua sai de sua função normal de trânsito entre o lar e o trabalho, percebemos a gravidade do problema. Ao lado da passeata, houve vandalismo. Mas, pergunto eu com meus companheiros de trincheiras magras, Jorge Moreno e Luiz Werneck Vianna, quem atirou a primeira pedra?

Quem disse que o “bicho ia pegar?” Quem errou ao mudar a data do Bolsa Família, levando milhares aos balcões da Caixa Econômica Federal no bojo do boato de que o beneficio ia acabar ou, pelo contrário — e isso não pode ser suprimido —, ia ser dado em dobro? A quem interessa impedir a criação de novos partidos e tem feito tudo para eles sejam legalmente sufocados?

O que ocorreu com os 1,3 milhão de votos no sentido de impedir a posse do atual presidente do Senado? Como lembra Jorge Moreno, 1,2 milhão saíram às ruas, mas quem jogou os votos legais na lata do lixo?

Quem vandaliza? Eis o que não pode calar se quisermos ter um mínimo de sinceridade quando, antes de dormir, nos olhamos no espelho. Quem, afinal de contas tem, como perguntou outro dia Dora Kramer, a faca e o queijo na mão?
¹ Roberto DaMatta é antropólogo.