Procurador Gurgel reluta em se declarar impedido no caso Cachoeira

Dr. Roberto Gurgel - Procurador Geral da República

A correta decisão do ministro Ricardo Lewandowski de liberar, –para a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e o Conselho de Ética do Senado—, todas as peças da investigação policial sigilosa sobre o chamado caso Carlinhos Cachoeira resultou em uma enxurrada de vazamentos à imprensa. As peças se referem às operações Vegas, — que apesar da gravidade dormiu no gabinete de Gurgel de 2009 a 2012—, e Monte Carlo.

Na essência, o sigilo é imposto no interesse da investigação.

Um vazamento, –como sabem até os rábulas de porta de cadeia de periferia–, pode prejudicar uma apuração criminal.

Por isso, e finda a investigação, o inquérito deveria, mas isso não acontece no Brasil, ser levantado.

Entre nós e infelizmente ,o sigilo visa manter distante do conhecimento público falcatruas apuradas por poderosos e potentes que gozam de foro privilegiado.

Por evidente, as increpações,– contidas no inquérito policial e se objeto de ação penal–, ficam sujeitos à confirmação no devido processo legal, que tem na ampla defesa a sua pedra angular e na presunção de não culpabilidade (não se confunde, como já escrevi milhões de vezes, com a presunção de inocência, não acolhida na Constituição brasileira) uma garantia fundamental.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Das várias interceptações telefônicas realizadas, uma chama a atenção em especial. Ela mostra como a organização criminal de Carlinhos Cachoeira era tentacular, como a Cosa Nostra, quer a siciliana, quer a siculo-norte-americana.

Ambas têm o polvo (la piovra) como símbolo.

De pronto, friso, que me refiro, — sobre a atenção especial–, ao teor da interceptação publicada hoje na coluna do Ilimar Franco do jornal O Globo e sobre a conversa entre Cachoeira e o governador Marconi Perillo.

Antes da divulgação da peça, Perillo sustentava que apenas uma vez atendeu Cachoeira e por ter ele pedido uma audiência. A revelação contida na supramencionada coluna do Ilimar Franco mostra a mentira de Perillo.

E basta atentar para a consideração de Perillo para com Cachoeira, na conversa interceptada e que segue:
“Parabéns. Que Deus continue te abençoando ai, te dando saúde, sorte. Um grande abraço prá você, viu” .

Não me refiro, ainda, à “cachaçada” relatada por Demóstenes, num jantar entre ele, Cachoeira e Perillo, tudo conforme contado, ainda, na citada coluna do Ilimar Franco e publicada na edição de hoje do O Globo.

Também não me refiro à gravação que revela mais uma das mil farsas do senador Demóstenes Torres.

O senador, quando divulgado o escândalo, sustentou que havia conversado para Cachoeira para ajudar numa pendência entre o seu suplemento no Senado e o bicheiro.

Na coluna do Jorge Bastos Moreno, intitulada “Nhenhenhém” e publicada no O Globo de hoje, está revelado que a companheira e convivente de Cachoeira, Andressa Mendonça, era casada com Wilder Pedro de Morais, ex-sócio de Cachoeira e suplemente do senador Demóstenes Torres.

Como se percebe, Demóstenes até aceitou, como suplemente de senador, pessoa da organização delinquencial de Cachoeira.

O fato grave a chamar a atenção diz respeito ao litígio pouco digno, segundo os dados revelados, entre o procurador geral da República, Roberto Gurgel, e o senador Demóstenes.

Gurgel, como circulou por todo ministério Público, teve a recondução no cargo de procurador-geral da República cuidada por Antonio Palocci, então ministro-chefe da Casa Civil.

Quando estourou o escândalo Palocci, o procurador Gurgel, inusitadamente, enviou-lhe um ofício para explicar as gravíssimas suspeitas que pesavam contra ele.

Palocci, que preferiu silenciar sobre os clientes da sua imobiliária (ele tinha uma imobiliária que não cuidava de imóveis), respondeu que tinha feito fortuna com assessoria dada na sua empresa e quando estava fora do governo.

Gurgel, por incrível que possa parecer, não requisitou inquérito apuratório e determinou o arquivamento do escândalo Palocci.

Sobre essa conduta de Gurgel, o senador Torres, com o discurso correto e apoio da sociedade civil que luta pela restauração da moralidade pública, criticou o procurador geral da República (a escolha para a função é do presidente da República pela nossa Constituição) com veemência.

Na interceptada conversa entre Cachoeira e Demóstenes, publicada na edição de hoje do jornal O Estado de S.Paulo, ficou clara a verdadeira razão do protesto de Demóstenes contra Gurgel, do plenário do Senado: -“Se não der nele, ele (Gurgel) começa a pegar a gente , entendeu ? (a interceptação é de 7 de julho de 2011).

Trocado em miúdos essa conversa entre Demóstenes e Cachoeira, fica patente a pressão em razão de Gurgel estar com o inquérito Vegas, que apurou a atuação criminosa de Cachoeira e já envolvia Demóstenes.

Não passou muito tempo para Demóstenes concordar, no Senado e expressamente, com a recondução de Gurgel. E Gurgel, por coincidência ou não, ficou com o inquérito Vegas no seu gabinete de 2009 a 2012. Só mexeu nele quando pressionado por cobrança de parlamentares baseada na Operação Monte Carlo.

Ontem, Gurgel informou, com relação a Demóstenes e envolvimento no esquema Cachoeira, “ que R$1 milhão foi depositado” na cona do senador.

Gurgel fez a afirmação sem ainda ter a movimentação da conta-corrente de Demóstes, que nega haver recebido.

Com a experiência que possui, Gurgel deveria esperar para verificar a movimentação bancária de Demóstenes, pois, se não verdadeira o mencionado, acaba por favorecer, “encher a bola” o senador, ou mehor, de um farsante do tipo tartufo de Molière.

De boa cautela, até porque “embalou” e fez adormecer no seu gabinete o caso Vegas, que Gurgel se desse por impedido e deixasse de atuar, com o caso sendo passado ao seu substituto. Afinal, Gurgel atua como representante da sociedade civil e é, pelo forro privilegiado de Demóstenes, o único que poderá propor ação penal pública contra ele.

Nesse quadro de “bas-fond” do Irajá, pontifica, também, o petista Humberto Costa, relator na Comissão de Ética no processo por quebra de decoro parlamentar contra Demóstenes. Costa anunciou que não irá usar dados de interceptações telefônicas colhidas na operação Monte Carlo.

Em outras palavras, vai aliviar para o lado de Demóstenes, ou seja, se contentará, no relatório, com fatos indecorosos menores, como o exubeante presente de casamento escolhido pelo senador Demóstenes e pago e importado por Cachoeira.

Pano rápido. Viva o Brasil.
Wálter Fanganiello Maierovitch/Terra Magazine
Jurista e membro das Academia Paulista de História e Ac. Paulista de Letras Jurídicas; desembargador aposentado do TJ-SP.Colunista de CartaCapital, comentarista na CBN e assessor internacional para UE

Dilma, cadê a Faxineira Ética?

Pede-se notícias.
Pede-se a quem souber do paradeiro da Faxineira Ética que avise à sua residência no Palácio do Alvorada, sem número, Brasília.

Previna urgente mãe solitária e erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar a Faxineira Ética, de 64 anos, que apareça, que escreva, que mande dizer onde está. Faz tanta falta!

Foi outro dia.

Numa sexta-feira, a revista VEJA começou a circular com uma reportagem sobre falcatruas no Ministério do Transporte.

Dizia que tudo ali parecia ter apodrecido.

E dava conta da descompostura aplicada pela presidente Dilma Rousseff naquela mesma semana em poderosos chefões do ministério.

A Faxineira Ética nasceu no dia seguinte.
Antes que os primeiros exemplares da revista desembarcassem em Brasília, Dilma cortou cabeças de funcionários graduados do ministério.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Poupou o ministro, que 10 dias depois pediu demissão. No prazo de uma ou duas semanas rolaram mais de 20 cabeças.

Dilma fechou seu primeiro ano de governo com a marca histórica de ter demitido um ministro de Estado a cada dois meses – e todos por suspeita de corrupção.

A saber: Antonio Palocci (Casa Civil), Alfredo Nascimento (Transportes), Pedro Novais (Turismo), Orlando Silva (Esporte) e Carlos Lupi (Trabalho).

É verdade que nenhum deles até hoje foi punido e sequer processado por improbidade administrativa. Mas quem esperava que fosse? Neste país?

Alguém foi punido pela tragédia que matou mais de mil pessoas na região serrana do Rio de Janeiro no início de 2011? Quem autorizou ali construções em locais sujeitos a deslocamentos de terra?

Sob pressão dos seus aliados, a faxineira ética ensaiou sair de cena antes de decepar a última cabeça – a de Lupi. O ministro pintou, bordou, desafiou-a e ela engoliu tudo calada.

Foi grosso: “Duvido que ela me tire. Nem na reforma ministerial”. Vulgar: “Sou osso duro de roer”. E por fim, cafajeste: “Desculpe se fui agressivo. Dilma, eu te amo”.

Lupi só rodou porque a Comissão de Ética da presidência da República aconselhou Dilma a demiti-lo. Para não ficar mal na foto, ela aceitou o conselho, mas prometeu furiosa a seus auxiliares mais próximos que nunca mais a Comissão terá peito para fazê-la passar por outro vexame como aquele. A conferir em breve.

A aposentadoria da Faxineira Ética data do início de dezembro último quando O GLOBO denunciou que Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, havia embolsado algo como R$ 2 milhões entre 2009 e 2010 por consultorias que nunca prestou.

Pimentel é o queridinho de Dilma e seu ex-companheiro de luta armada contra a ditadura de 64. Para não demiti-lo, Dilma engoliu o que disse: “Meu governo não tem compromisso com práticas inadequadas, com malfeitos e com corrupção. É tolerância zero”. E deu forma a uma nova teoria que pode ser resumida assim:

– O que estão acusando [Pimentel], não tem nada a ver com meu governo.

Dito de outra forma: se algum ato de bandidagem macula seu passado, você não está impedido de fazer parte do governo de Dilma. Estará se tiver cometido o ato no exercício do cargo que Dilma lhe deu. De acordo?

A teoria de Dilma espera o endosso da Comissão de Ética da presidência.

Você ouviu alguma palavra de Dilma sobre a compra milionária e irregular de lanchas pelo Ministério da Pesca que depois constrangeu o vendedor a doar uma boa grana para o PT de Santa Catarina?

Ou você a ouviu falar em varrer o ministério da Saúde só por que um assessor de mais de 20 anos do ministro foi subornado por deputados cariocas?

O escândalo protagonizado pelo ex-bicheiro Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) envolve, pelo menos, mais meia dúzia de deputados federais, empresários e um governador.

A oposição quer uma CPI para ir fundo no lamaçal – logo ela que tinha em Demóstenes uma de suas estrelas.

Dilma teme que a CPI desestabilize sua base de sustentação dentro do Congresso. Teme que uma eventual cassação do mandasto de Demóstenes também desestabilize.

Melhor não mexer com essas coisas. Quanto à faxineira desaparecida…

Suplica-se ao repórter-amador, ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte, até mesmo aos senhores ricos, que tenham pena da mãe aflita e lhe restituam a filha volatilizada ou pelo menos dêem informações. É de média altura, gordinha, morena, dentes alvos, vestidinho simples. Sumida há mais de três meses.

PS: Algumas passagens deste artigo foram claramente plagiadas do poema “Desaparecimento de Luísa Porto”, de Carlos Drummond de Andrade.
por Ricardo Noblat 

Demóstenes e o ministro Lewandowski

Senador Demóstenes Torres - Ministro Ricardo Lewandowski, STF/TSE - Foto Folha de S.Paulo

Continuo intrigado com o silêncio do PSDB e do PT sobre essa enxurrada de corrupção que envolve o outrora ícone da moralidade do DEM. A turma do mensalão — essa era a hora de ir à forra com a velha desculpa do “somos todos iguais” — também silencia, e, inexplicavelmente, quando o senador do DEM subiu a tribuna do senado, em meados de março, para apresentar a mais ‘desmilingüida’ desculpa, todos os senadores do PT fizeram apartes em solidariedade com o navegante da cachoeira.

Outro silêncio intrigante é o da “grande mídia” que não investiga as ligações do cachoeirense contraventor com órgão semanal da imprensa Tupiniquim. Por que tanto silêncio?
José Mesquita – Editor


O destino de Demóstenes Torres revelou-se caprichoso.

Quando ainda posava de nadador, notabilizou-se pela crítica destemida. Agora que se sabe que nasceu para afogado, o ex-Demóstenes encontra-se submetido às decisões de dois alvos de sua insolência: Roberto Gurgel, chamado por ele de “covarde”, e Ricardo Lewandowski, comparado a uma balilarina do grupo É o Tchan.

Em junho do ano passado, Demóstenes assinou com outros senadores de oposição representação contra Antonio Palocci, o ex-chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff. Endereçada ao procurador-geral da República Roberto Gurgel, a peça pedia a abertura de inquérito para apurar o enriquecimento de Palocci como consultor.

Gurgel mandou a petição ao arquivo.

Entrevistei Demóstenes. Abespinhado, o senador disse que o chefe do Ministério Público Federal “se acovardou”.

Acusou-o de usar “os mesmos argumentos do Palocci para, praticamente, absolver o ministro.”

Pegou pesado: “É como se o Palocci tivesse escrito a decisão para ele.”

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Nessa época, o mandato de Gurgel na Procuradoria estava na bica de expirar. Ele dependia de uma decisão de Dilma para ser reconduzido ao cargo. Demóstenes bateu abaixo da linha da cintura. Língua crispada, disse que o procurador-geral livrara Palocci da grelha de olho na recondução.

“Isso ficou, na minha opinião, evidente. É uma pena. Muitas vezes, é mais honroso perder um cargo pela coragem do que ser reconduzido por uma aparente conivência. O procurador-geral, na minha opinião, se acovardou”. Àquela altura, a voz do senador já soava nos grampos que fariam dele um ex-Demóstenes.

Sem suspeitar que a gaveta de Gurgel guardava desde 2009 um inquérito da Polícia Federal apinhado de diálogos vadios travados com o amigo Carlinhos Cachoeira, Demóstenes rememorou na entrevista passagens dignificantes de sua biografia.

“Em 1988, eu era um jovem promotor. Pegava ônibus em Arraias [ex-município de Goiás, hoje incorporado ao Tocantins] e vinha a Brasília para defender a autonomia do Ministério Público. Vinha brigar na Constituinte para que o Ministério Público conquistasse sua autonomia.”

Prosseguiu: “Conquistamos o que tanto queríamos. E agora o Ministério Público continua se comportando como se fosse um órgão do governo! Fico me questionando se valeu a pena toda a luta que tivemos. A decisão do procurador-geral foi muito arriscada para a estabilidade política e para a própria democracia.”

Demóstenes esmiuçou o raciocínio: “Ao agir como instituição de governo, o Ministério Público compromete a sobriedade que se espera dele. Submete-se a juízos políticos. Os indícios existem e a investigação [contra Palocci] não foi aberta.”

Acrescentou, em timbre premonitório: “Amanhã, o que o procurador-geral não viu hoje no caso do Palocci, ele pode enxergar numa representação contra um senador ou um deputado de oposição acusado de enriquecimento ilícito. Essas coisas não podem ser subjetivas.”

O destino, essa fração de segundo em que o sinal muda de verde para amarelo e o sujeito decide se para ou avança, já havia piscado para Demóstenes. Enquanto o senador vergastava o procurador-geral, a Polícia Federal o escutava em novos grampos, dessa vez na Operação Monte Carlo.

Os diálogos com Cachoeira não deixavam dúvida. Demóstenes convertera-se em ex-Demóstenes. O crítico de Gurgel decidira avançar o sinal vermelho. Submetido ao novo inquérito, o procurador-geral juntou-o ao primeiro, misturou as conversas de 2009 às de 2011 e representou contra o senador no STF.

Por mal dos pecados, a petição de Gurgel desceu à mesa do ministro Ricardo Lewandowski. Logo ele, outro alvo da língua viperina de Demóstenes. O desafeto do senador apalpou a peça na tarde da última quarta-feira (28). Menos de 24 horas depois, já havia determinado a abertura de investigação, ordenando ao Banco Central que quebrasse o sigilo bancário do ex-Demóstenes.

Seis meses antes, em setembro de 2011, Demóstenes indignara-se com o comportamento de Lewandowski na presidência da sessão de julgamento do pedido de registro do PSD de Gilberto Kassab, no TSE. Desertor do DEM, Kassab prevalecia sobre a tentativa de sua ex-legenda de bloquear a criação do novo partido.

Encerrada a sessão, entrevistei Demóstenes. Ele soou, de novo, implacável. Evocando o passado de advogado sindical de Lewandowski, o senador levantou dúvidas quanto à isenção do magistrado: “Foi a primeira vez que eu vi um ministro de tribunal voltar aos tempos de advogado para defender abertamente a criação de um partido.”

Demóstenes foi à jugular: “O Lewandowski fez lembrar seus tempos de advogado de sindicato. Ele pode cobrar honorários do Kassab.” Depois, o senador fez troça. Criou uma analogia para facilitar o entendimento do modo como vira a sessão do TSE. Enxergara no plenário uma apresentação do antigo grupo musical ‘É o Tchan’, aquele conjunto de axé em que a bailarina loira rivalizava com a dançarina morena.

Viu em Lewandowski uma das bailarinas. Enxergou no ministro Marco Aurélio Mello a outra dançarina. “Todo mundo que assitiu pela TV Justiça teve a oportunidade de ver o Lewandowski dançando na boquinha da garrafa e o Marco Aurélio se esforçando para segurar o Tchan.”

Referia-se ao debate que opôs Lewandowski a Marco Aurélio. O primeiro tentando apressar o registro do PSD. O outro defendendo o respeito ao rito processual do TSE. Agora, na pele de relator do processo contra o ex-Demóstenes, Lewandowski dança ao ritmo do toque de caixa.

Além de mostrar a Demóstenes que quem nasceu para afogar-se na amizade com Cachoeira não merece chega a nadador, o destino acomodou o senador no mesmo barco de Gurgel e Lewandowski. Mas só o ex-Demóstenes está na água.
blog Josias de Souza

PSDB, a geleia inodora da oposição, e as eleições de 2014

Quanto mais o tempo passa, mais me admiro com aqueles que imaginam ser a realidade política brasileira composta de partidos governistas e oposicionistas.

Nada mais ingênuo. Ou simplesmente incapacidade de ler a história dos partidos políticos na Taba dos Tupiniquins?

Tome-se, como exemplo, PT e PSDB. Nada mais siamês que tucanos emplumados e ‘vermelhinhos esquerdoides’.
Do lado da turma do PT, ‘ex-somos-contra-tudo-e-qualquer-coisa’, nenhuma surpresa.
Afinal, disse-o bem Lord Acton, “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Do lado dos emplumados do bico grande, o que esperar de um partido que abriga um ex-stalinista — ex-stalinista, parece gozação de cientista político desvairado — da liliputiana dimensão de um Alberto Goldman?
A essas alturas, mirando 2014, “certo cara” deve estar rido à socapa, como diria um literato machadiano.

José Mesquita – Editor


A alma subterrânea da oposição oficial
Blog de Augusto Nunes

Divulgado no fim de dezembro pela direção do PSDB, o “balanço crítico do primeiro ano do governo Dilma Rousseff” é dividido em 13 tópicos.

Nenhum deles trata dos seis ministros que perderam o emprego por envolvimento em grossas bandalheiras.

Tem 3.226 palavras.

Corrupção não figura entre elas. Desapareceu durante a revisão do texto original redigido por Alberto Goldman.

“A presidente é tolerante com a corrupção”, constatou o ex-vice-governador de São Paulo.
“O ex-ministro Palocci, nas palavras da presidente, saiu porque quis”, exemplificou.
Tanto a constatação quanto o exemplo foram censurados por tucanos empoleirados em galhos mais altos.

Tampouco sobreviveram ao crivo dos poltrões vocacionais três adjetivos que ajudavam a retratar o desempenho do Planalto nos últimos 12 meses: “medíocre”, “amorfo” e “insípido”.

Mais respeito com a presidenta, certamente protestou algum devoto de Geraldo Alckmin.”[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A constrangedora sucessão de fracassos” fustigada por Goldman reapareceu no balanço aprovado pelos chefes do partido fantasiada de “sérios problemas em diversas áreas”.

Os censores acharam igualmente grosseiro qualificar o período de “nono ano do governo Lula”, ou registrar que Dilma age como “fantoche”.

Não se faz isso com uma dama, deve ter ponderado um discípulo de Aécio Neves.

E as duas verdades foram para o ralo.

Concebido para revelar ao Brasil a face escura dos donos do poder, o documento só serviu para escancarar a alma subalterna dos oposicionistas mais governista da história republicana.

Uns e outros vão desaparecer nos escombros da Era da Mediocridade.

Tópicos do dia – 12/12/2011

10:36:18
Francenildo, o caseiro
Em 2012 fará seis anos que o processo do caseiro Francenildo, o da casa de saliência frequentada pelo Palocci em Brasília, se arrasta na justiça. A Caixa Econômica já foi condenada a pagar R$600 mil a Francenildo, e apelou, estando a ação parada no TRF. Estima Wlicio Nascimento, advogado do caseiro, que o desfecho ainda demore cerca de oito anos.
Francenildo, pai de dois filhos, está desempregado desde o escândalo. Já Palocci…

10:41:31
Imoralidade! Parlamentares se dão aumento de 148%
Em pouco mais de duas horas, o Congresso Nacional aprovou o aumento salarial de deputados federais, senadores, ministros e do presidente da República e de seu vice. Pelo projeto de decreto legislativo votado ontem, os vencimentos dos parlamentares foram equiparados aos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), hoje em R$ 26,7 mil. A mesma proposta fixou esse valor como teto para os cargos do primeiro escalão do Executivo. Assim, os reajustes a serem aplicados variam entre 61,8% e 148,6%. O maior percentual será para os ministros de Estado, que hoje recebem R$ 10,7 mil. A decisão foi tomada entre gritos de euforia e aplausos. Mas também houve constrangimentos. O PSol foi a única legenda a orientar o voto contrário.
“Essa decisão é um desatino. Exagerada, aprofunda o abismo entre parlamento e sociedade”, protestou o deputado Chico Alencar (PSol-RJ).
Correio Braziliense

16:40:45
Tribunal do Júri vai julgar acusados da morte da juiza Patrícia Acioli

O juiz da 3ª Vara Criminal de Niterói, RJ, Peterson Barroso Simão, decidiu que os 11 acusados de participarem do assassinato da juíza Patríca Acioli serão julgados pelo Tribunal do Júri.

O magistrado também negou todos os pedidos de liberdade aos réus e determinou a transferência de três presos: Jeferson de Araújo Miranda, que aceitou a deleção premiada, será levado da carceragem da Delegacia Antisequestro do Rio (DAS) para um presídio de segurança máxima no Rio. Já Cláudio Luiz Silva de Oliveira e de Daniel Santos Benitez Lopez vão para um presídio de segurança máxima federal, pelo prazo inicial de 180 dias.

O grupo responde por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, mediante emboscada e com o objetivo de assegurar a impunidade do arsenal de crimes), além de formação de quadrilha armada, com execeção do acusado Handerson Lents Henriques da Silva.

Os outros réus são: Sérgio Costa Júnior, Jovanis Falcão Júnior, Charles Azevedo Tavares, Alex Ribeiro Pereira, Júnior Cezar de Medeiros, Carlos Adílio Maciel Santos e Sammy dos Santos Quintanilha.


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Dilma Rousseff e a limpeza nos ministérios

Conduta uniforme

Ideal mesmo seria que a presidente Dilma Rousseff aproveitasse o ensejo de mais um escândalo para dar um jeito no festival de condutas desviantes que assola a Esplanada dos Ministérios.

Ao todo, até agora, aos dez meses incompletos de governo, foram seis: Antonio Palocci e o espetáculo do crescimento patrimonial; Alfredo Nascimento e as obras superfaturadas nos Transportes; Wagner Rossi e o direcionamento de licitações na Agricultura; Pedro Novais e o uso particular de dinheiro público; o Ministério do Turismo e a prisão de 35 servidores acusados de corrupção; Orlando Silva e os convênios fraudulentos no Esporte.

Se somados à lista os episódios temporariamente arquivados de favorecimento partidário na distribuição de verbas públicas no Ministério do Trabalho e da denúncia contra o ministro das Cidades de pagamento de mesada a deputados em troca de apoio, a conclusão é a de que os partidos que compõem a coalizão do governo se equivalem no quesito produção de escândalos.

São dois do PMDB, um do PC do B, um do PR, um do PP, um do PDT e um do PT. Como se vê, há uniformidade de conduta no primeiro escalão. Por enquanto, só ficou de fora o PSB, que ocupa a pasta da Integração Nacional.

E que não se diga que o “dedo podre” pertence ao ex-presidente Lula porque, não obstante a coincidência de os atingidos terem sido todos, direta ou indiretamente, apadrinhados por ele, nesse caso não há hipótese de se transferir responsabilidade: além de ter aceitado nomear cada um deles, Dilma Rousseff era, no dizer do próprio Lula, a “alma” da gestão anterior que, no dizer da propaganda eleitoral, seguiria em ritmo de continuidade.

O problema é a regra que precisa vir de cima. A presidente não impôs uma nova norma pela qual toda transgressão seria castigada. Tanto é que a “base” entrou em estado de prontidão ameaçando revolta quando houve o ensaio de “faxina” e de imediato se avisou aos navegantes que as trocas de ministros ficavam automaticamente adiadas para a reforma de janeiro.

A rigor, as demissões não podem ser consideradas uma punição em regra. Rendem a perda do emprego aos alvos principais, mas a engrenagem continua funcionando como antes de os fatos consumados terem sido postos à porta do gabinete presidencial pela imprensa.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Falou-se ontem o dia inteiro que Orlando Silva estava fora do ministério. Teria uma conversa com a presidente assim que ela chegasse do exterior e tudo se resolveria ali.

A questão é: tudo o quê, a demissão do ministro? Francamente, chega a ser irrelevante. Soa, antes, como o cumprimento de um ritual conhecido, cujo objetivo principal é tirar o foco da denúncia da vez.

Demitido o ministro, o assunto perde o interesse, protestos o sentido, todo mundo se dá mais ou menos por satisfeito e mais cedo ou mais tarde começa tudo outra vez.

A imprensa denuncia, o governo alega presunção de inocência, o acusado se defende, o acusador é desqualificado, os fatos atropelam o palácio, que, por sua vez, os coloca no escaninho do esquecimento com mais uma demissão que renderá à presidente Dilma dividendos públicos pela intransigência em relação a “malfeitorias”.

E assim a enganação vira regra geral: o governo finge que toma providências, o País finge que acredita e a farra continua.

Notáveis. A presidente não comenta nem com os próximos os nomes que teria em mente para compor a Comissão da Verdade, cujo relatório de autoria do senador Aloysio Nunes Ferreira foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Pelo projeto, que o governo gostaria de ver votado até dezembro, não podem participar dirigentes partidários. Excetuados, no entanto, os ocupantes de cargos honoríficos.

De onde um ministro aventa a possibilidade de Dilma vir a convidar o ex-presidente Fernando Henrique para integrar o grupo que durante dois anos trabalhará na recuperação da história das agressões aos direitos humanos durante o regime militar de 1964.

A ideia da presidente é escalar um elenco suprapartidário.

Dora Kramer/O Estado de S.Paulo

Itamar Franco: um presidente que não tolerava corrupção

Itamar Franco: nacionalista e corajoso, o país chora sua perda.


Saudades do presidente Itamar Franco, o único que afastava qualquer ministro suspeito de irregularidade, até que provasse ser inocente.

Itamar Franco, presidente da República de 1992 a 1994, morreu aos 81 anos neste sábado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde estava internado desde o dia 21 de maio, quando foi diagnosticado com leucemia.

Segundo o hospital, Itamar morreu às 10h15 após acidente vascular cerebral.

O corpo será transferido para Juiz de Fora (MG), para ser velado e depois para Belo Horizonte, cidade na qual, por desejo do presidente, o corpo será cremado, após receber homenagens no Palácio da Liberdade.

Eleito senador pelo PPS de Minas Gerais no ano passado, Itamar estava licenciado do cargo desde que foi internado, em maio deste ano.

Realmente não se faz mais político como Itamar Franco.

Nacionalista e corajoso, foi o criador do Plano Real, que salvou a economia do país e é responsável por seu crescimento atual, fez um governo brilhante.

Ficou apenas dois anos no governo.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Imaginem se tivesse ficado oito, como FHC e Lula.

Depois, como governador de Minas, lembrem-se de sua atitude de convocar a PM de Minas para impedir que Furnas fosse privatizada, quem faria igual?

Em matéria de probidade administrativa, nunca se viu nada parecido na política brasileira.

Ele jamais admitiu que qualquer membro do governo, especialmente do primeiro escalão, fosse colocado sob suspeita de irregularidade.

Afastava o ministro imediatamente, até que o caso foi totalmente investigado.

Itamar Franco não teve dúvidas de demitir um de seus amigos mais próximos, Henrique Hargreaves, mineiro de Juiz de Fora, que era Chefe da Casa Civil.

Hargreaves foi acusado na CPI dos Anões, e Itamar o afastou em 5 de outubro de 1992.

Só o readmitiu mais de um ano depois, em 1º de novembro de 1993, quando ficou comprovado que Hargreaves havia sido acusado injustamente.

O mais importante e interessante nisso tudo é que a amizade entre Itamar e Hargeaves resistiu a tudo.

Quando ele foi novamente nomeado para a Chefia da Casa Civil, o presidente mandou estender um tapete vermelho na entrada do Palácio do Planalto, para recebê-lo de volta.

E ainda agora trabalhavam juntos.

Hargreaves, que depois foi secretário de Estado quando Itamar governou Minas Gerais, atualmente era seu assessor no Senado.

A acusação contra Hargreaves era uma bobagem, não pode nem ser comparada à situação de Antonio Palocci, por exemplo, que verdadeiramente enriqueceu no desempenho de funções públicas, seja como “consultor” (sinônimo de lobista e traficante de influência) ou “corretor imobiliário”.

Palocci, que já tinha um passado nebuloso na prefeitura de Ribeirão Preto, onde ficaram famosas suas relações com a empresa de lixo Leão & Leão, confirmou o currículo ao atuar como ministro da Fazenda, quando se dedicava a frequentar a mansão que seus amigos de Ribeirão Preto alugaram para fazer lobby, traficar influência em Brasília e praticar sexo com profissionais.

Demitido por Lula, Palocci ficou no ostracismo até a campanha de Dilma, à qual foi discretamente integrado, mas dela emergindo como todo-poderoso chefe da Casa Civil, cargo não muito recomendável nos últimos tempos, desde que foi entregue a José Dirceu e depois a Erenice Guerra, outros excepcionais especialistas em consultorias e tráfico de influência.

E só foi demitido porque não havia mais como sustentá-lo.

Que diferença para Itamar Franco, minha gente.

Carlos Newton/Tribuna da Imprensa

->>aqui biografia de Itamar Franco

Presidente Dilma, anote o nome deles!

Presidente Dilma, que coisa feia, hein?

Resistiu bravamente à pressão do ex-presidente Lula e agora está sucumbindo vergonhosamente à pressão combinada dos ex-presidentes Fernando Collor e José Sarney.

Semana passada, apesar do bafo salvador de Lula, que carimbou Antônio Palocci como “o Pelé da Economia”, Dilma defenestrou o poderoso ministro-chefe do Gabinete Civil, aquele que caiu no governo passado por estuprar o sigilo do caseiro e que voltou a cair neste governo pela comovente defesa da virgindade de seu próprio sigilo.

Esta semana começa com Dilma se dispondo a manter o abjeto ‘sigilo eterno’ (sic) sobre documentos oficiais, uma ignomínia que atravessou incólume os 16 anos de governo somados do sociólogo FHC e do metalúrgico Lula, uma dupla que garantia ter um pé na cozinha da esquerda mais consciente.

Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Fernando Collor sentou em cima do projeto original de Dilma, que quebrava a eternidade do sigilo e permitia o máximo de 50 anos de segredo.

“É temerário”, repudiou o senador das Alagoas, alegando “constrangimentos diplomáticos” para fatos como a ditadura militar (1964-1985), o Estado Novo getulista (1937-1945) e até a Guerra do Paraguai (1864-1870), episódio este ocorrido há século e meio e que levou à morte 50 mil brasileiros.

Presidente do Senado Federal, José Sarney vem agora em socorro de seu temerário sucessor no Palácio do Planalto, alegando que segredos eternos evitariam lesões nas relações diplomáticas do Brasil com seus vizinhos.

“Documentos que fazem parte de nossa história diplomática, que tenham articulações como Rio Branco teve que fazer muitas vezes, não podem ser revelados, senão vamos abrir feridas”, explicou, sem explicar nada, o cuidadoso Sarney, que nasceu 18 anos após o falecimento do Barão do Rio Branco (1845-1912).

Diante da curiosidade geral, cabe a pergunta: que feridas, cara-pálida?[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O que poderia sangrar tanto nossa diplomacia? Que bobagens teria cometido o bom barão, o homem que redesenhou nossas fronteiras, para merecer esta santa proteção do bem informado Sarney?

Dias atrás Sarney expurgou da exposição oficial do ‘túnel do tempo’ do Senado o glorioso impeachment de Collor — o único afastamento legal de um presidente em 122 anos de República —, relegado por seu solidário colega de sigilo como um simples ‘incidente’, talvez uma ferida a ser escondida.

É sempre bom lembrar que, dentro de 48 dias, completam-se dois anos em que o jornal O Estado de S.Paulo vive sob a censura patrocinada pela família Sarney, que deseja um sigilo eterno para as estripulias do filho do senador, Fernando, indiciado na (agora secreta) ‘Operação Boi-Barrica’ da Polícia Federal por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e caixa 2.

Sabemos todos o que teme no presente o senador Sarney, mas ninguém imagina o que no passado pode assustar tanto o senador Collor, que aparenta um personagem bifronte da política brasileira.

Na tribuna, com voz grave e empostada, porte ereto e ternos sem vinco que parecem recém saídos da lavanderia, Collor pode ser confundido com um lorde inglês desavindo num parlamento qualquer ao sul do Equador. De repente, porém, Collor pode perder a compostura, o palavreado e a elegância para revelar seu lado mais tosco, mais agreste, mais indecoroso.

Como fez em 2009, quando ganhou a imortalidade dos anais para um fétido discurso, no plenário do Senado, onde confessava que estava ‘obrando, obrando e obrando” na cabeça de um colunista da revista Veja. Como fez em 2010, quando ameaçou enfiar a mão na cara de um repórter da IstoÉ, num telefonema gravado onde o polido senador distinguia o jornalista como “filho da puta”.

Sabemos todos o que são Sarney e Collor. O que não se sabe, porém, é o que pretende Dilma Rousseff ao capitular diante de argumentos tão pífios de uma dupla de ex-presidentes tão contestados por episódios tão polêmicos no passado e no presente.

Dilma fez muito bem ao seu governo ao seu livrar, em boa hora, de Palocci. Dilma faz muito mal à sua biografia ao se render tão facilmente aos desígnios pouco claros de Collor e Sarney.

A presidente da República deveria respeitar mais sua própria história, bem mais exemplar do que seus dois oblíquos aliados e antecessores. Dilma combateu de armas na mão o regime militar que Collor e Sarney, no verdor da idade e no fervor da utilidade, apoiaram sem peias, nem meias medidas.

Um foi jovem da ARENA, outro foi cacique da velha ARENA. Dilma foi ao limite do sangue para combater essa gente e aquele regime.

Agora mesmo, 39 documentos sustentam uma ação civil pública na 4ª Vara Cível de São Paulo contra três oficiais do Exército e um da PM paulista, integrantes da Operação Bandeirante (OBAN), mãe do DOI-CODI da rua Tutóia, símbolo maior da repressão da regime.

O grupo é acusado pela morte de seis presos políticos e pela tortura em outros 20. Um dos acusados pelo suplício é o tenente-coronel reformado do Exército Maurício Lopes Lima, uma das presas torturadas é uma guerrilheira de 22 anos da VAR-Palmares chamada Dilma Rousseff.

Com o cinismo típico de sua turma, o coronel Lopes Lima deu uma entrevista, em novembro passado, logo após a eleição de Dilma: “Se eu soubesse naquela época (1970) que ela seria presidente, eu teria pedido – ‘Anota aí meu nome, eu sou bonzinho’”, admitiu ao jornal Tribuna de Santos.

O coronel teve o seu nome anotado pela história, como queria, mas com certeza não era bonzinho — apesar da fantasia de pacato veranista que hoje desfila nas águas mansas da praia das Astúrias, no Guarujá do litoral paulista, onde vive.

O frade dominicano Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, sobreviveu a terríveis torturas no DOPS do delegado Fleury. O que restava dele foi levado ao DOI-CODI do coronel Lopes Lima, que o deixou sob o trato de seis homens de sua equipe e do inefável pau-de-arara. No seu depoimento, frei Tito contou: “O capitão Maurício veio me buscar em companhia de dois policiais: ‘Você agora vai conhecer a sucursal do inferno’, ele me disse”.

Meses depois, cada vez mais atormentado pelos fantasmas da tortura, frei Tito foi para o exílio e acabou se enforcando numa árvore de um mosteiro nos arredores de Lyon, França, em 1974, um mês antes de completar 30 anos.

Agora, com a candura dos impunes, o coronel que teve seu nome anotado por Dilma e frei Tito reconhece: “Tortura no Brasil era a coisa mais corriqueira que tinha. Toda delegacia tinha seu pau-de-arara. Dizer que não houve tortura é mentira, mas dizer que todo delegado torturava também é mentira. Dependia da índole”.

Dilma conhecia bem a índole da turma do capitão Lopes Lima, que ela mesma impugnou como testemunha de acusação no seu processo da Justiça Militar: “O capitão é torturador e, portanto, não pode ser testemunha”, alegou Dilma, com lógica exemplar e o nome do bonzinho Lopes Lima devidamente anotado.

Apesar da natureza de seu algoz, Dilma sobreviveu a 22 dias de tortura e superou o trauma da dor. Quatro décadas e uma ditadura depois, em vez de escalar os galhos do balouçante desespero de Tito, Dilma subiu a rampa do Planalto como primeira mulher eleita presidente sobre o chão sólido da democracia.

Os homens que machucaram e atormentaram gente como Tito e Dilma eram simpatizantes, aliados, partidários e defensores do regime sustentado pela ARENA de gente como Sarney e Collor.

Entende-se, claramente, porque Sarney e Collor defendem o sigilo eterno.

O que não se entende, presidente Dilma, é como a senhora possa estar ao lado dessa gente, depois de tudo o que a senhora fez, depois de tudo o que eles fizeram.

Os nomes deles, presidente Dilma, estão todos anotados.

Sarney e Collor, presidente, não eram bonzinhos. Nunca foram.

Por favor, anote aí!

Luiz Cláudio Cunha é jornalista. E anota.
cunha.luizclaudio@gmail.com
blog do Noblat

Palocci é inquilino desatento

O multiplicador Palocci, entre outros danos, está desconstruindo a figura de executiva implacável da Presidente da República.

O que foi duramente construído ao longo da vida, e magistralmente lapidado pelos marqueteiros, é transformado em bijuteria pelo médico e financista ocupante, de teimoso, da Casa Civil.

Aliás, o PT tem revelado, ao longo de sua (dele) história de partido político, uma atávica atração pelo suicídio político.

Sem que se saiba Freudianamente por que, entroniza na vitrine do governo federal um cidadão que arrasta atrás de si suspeitas, as mais diversas, desde a administração da cidade de St. André, passando pelo “affair” do caseiro Francenildo, e desaguando na, até agora, inexplicável multiplicação dos pães.

O Ministro alega fidelidade a seus (dele) clientes. E à população que lhe paga o salário? Nenhuma?

O Editor


Há 20 dias, o país havia sido informado de que Antonio Palocci é um talentosíssimo consultor. Um azougue nas artimanhas da consultoria privada. Neste final de semana, descobriu-se que o chefe da Casa Civil, principal ministro do governo Dilma Rousseff, é também um inquilino descuidado.

O assombroso êxito de Palocci no mercado das consultorias está expresso em cifras que, reveladas pela Folha, ardem inexplicadas nas manchetes. Em 2006, o patrimônio declarado do ministro, então deputado federal, era de R$ 375 mil. Abriu a consultoria Projeto. E deslanchou.

Só no ano eleitoral de 2010, a consultoria companheira de Palocci rendeu-lhe R$ 20 milhões, metade nos dois últimos meses do ano. Próspero, Palocci comprou em São Paulo uma sala (R$ 882 mil) e um apartamento (R$ 6,6 milhões). Em quatro anos, multiplicou o patrimônio por vinte.

O apartamento adquirido pelo ministro é coisa fina. Fica no Edifício Dante Alighieri (foto lá no alto), Alameda Itu, bairro dos Jardins, o mais chique da cidade. Ocupa todo o andar. Mede 493 m². Dispõe, por exemplo, de oito quartos, seis banheiros e terraço. Tem lareira. Na garagem, cinco vagas.

Pois bem. Embora tenha se tornado feliz proprietário do imóvel milionário, Palocci optou por não fixar residência nele. O ministro preferiu acomodar-se com a família num apartamento alugado. Fica em Moema, outro bairro elegante da capital paulista.

Coisa igualmente fina. Avaliado em R$ 4 milhões, o imóvel mede 640m². Tem quatro suítes, três salas e um par de lareiras. Notícia veiculada por Veja informou que o apartamento alugado por Palocci está registrado em nome de uma empresa de fachada.

Chama-se Lion Franquia e Participações Ltda.. Nos últimos três anos, usou endereços falsos. Tomada pelos registros oficiais, a Lion tem dois sócios: Dayvini Costa Nunes (99,5%), 23 anos; e Felipe Garcia dos Santos (0,5%), 17 anos. “Laranjas”, escreveu Veja.

A reportagem da revista alcançou Dayvini. Encontrou-o numa casa simples, de fundos, na periferia de Mauá, cidade do ABC paulista. Dono de remuneração mensal de R$ 700, Dayvini não tem bolso compatível com a posse de um apartamento de R$ 4 milhões.

Entrevistado, disse desconhecer o imóvel. Apossando-se dele, venderia, pagaria as dívidas, compraria casa para a família e custearia os estudos. Ouvido na quinta-feira, Dayvini tocou o telefone para a redação de Veja na sexta para desdizer-se.

Admitiu que mentira na véspera. Sabia do imóvel. Tornara-se laranja de um tio, Gesmo Siqueira dos Santos. Por que mentiu? Eis o comentário de Dayvini:

“Desde que você falou comigo, não consigo dormir, por causa dessas coisas que envolvem pessoas com quem não tenho como brigar, como o Palocci, entendeu? Eu não tenho como bater de frente com essas pessoas. Sou laranja”.

Abalroado pela novidade, Palocci emitiu uma nota, mais uma. No texto, informa que chegou ao imóvel por indicação da imobiliária Plaza Brasil. A Plaza negou que houvesse procurado imóvel para Palocci. A assessoria do ministro divulgou recibo.

Teriam sido desembolsados R$ 8 mil pelos préstimos que a Plaza diz não ter prestado. Palocci diz ter firmado contrato de locação com os “proprietários” do apartamento: Gesmo Siqueira dos Santos e a mulher dele, Elisabeth Costa Garcia.

Além de Palocci, Gesmo e Elisabeth, firma o documento representante da Morumbi Administradora de Imóveis. Celebrado em 1º de setembro de 2007, o contrato foi renovado em 1º de fevereiro de 2010.

Dessa vez, diz a nota do ministro, “entre Antonio Palocci Filho e a Morumbi Administradoras de Bens, sucessora da Morumbi Administradora de Imóveis”.

Gesmo é tio de Dayvini e pai de Felipe, os dois “sócios” da Lion, a empresa que hoje aparece como “proprietária” do imóvel ocupado por Palocci. Em declaração à Folha, Gesmo disse ter transferido a firma Lion para o sobrinho e o filho para evitar que seus problemas financeiros contagiassem o negócio.

Em sua nota, Palocci diz que nunca teve “contato com os proprietários” do imóvel. Tratou da locação com a imobiliária Morumbi. Para complicar, descobriu-se que a empresa forneceu endereço falso à Receita Federal: Rua Lídia Simões Cabral, 43.

Há no local uma placa oferecendo aulas de inglês. O endereço serve de residência à família de um argentino. Gesmo, o “proprietário” que Palocci diz desconhecer é personagem de biografia conturbada (confira aqui).

Cabe a pergunta: como Palocci, consultor a$tuto, pôde ser tão relapso na escolha de seus locadores? “O ministro, assim como qualquer outro locatário, não pode ser responsabilizado por atos ou antecedentes do seu locador”, responde Palocci na nota.

Então, tá! Ficamos assim. Lavrem-se as atas.

blog Josias de Souza