Patativa do Assaré – Versos na tarde – 24/02/2016

Aos Poetas Clássicos
Patativa do Assaré¹

Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.


Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.


No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.


Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.


Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.


Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.


Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.


Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.


Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.


Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.

Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.


Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.


Antônio Gonçalves da Silva – Patativa do Assaré
* Assaré,Ceará, Br – 1909 d.C
+ Assaré,Ceará, Br – 2002 d.C


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Patativa do Assaré – Versos na tarde – 30/01/2014

A festa da natureza
Patativa do Assaré¹

Chegando o tempo do inverno,
Tudo é amoroso e terno,
Sentindo o Pai Eterno
Sua bondade sem fim.
O nosso sertão amado,
Estrumicado e pelado,
Fica logo transformado
No mais bonito jardim.

Neste quadro de beleza
A gente vê com certeza
Que a musga da natureza
Tem riqueza de incantá.
Do campo até na floresta
As ave se manifesta
Compondo a sagrada orquesta
Desta festa naturá.

Tudo é paz, tudo é carinho,
Na construção de seus ninho,
Canta alegre os passarinho
As mais sonora canção.
E o camponês prazentero
Vai prantá fejão ligero,
Pois é o que vinga premero
Nas terras do meu sertão

1Antônio Gonçalves da Silva
* Assaré, Ceará, – 05 de Março de 1909 d.C
+ Assaré, Ceará, – 08 de Julho de 2002 d.C

>> biografia de Patativa do Assaré


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Patativa do Assaré – Versos na tarde – 23/01/2014

A terra dos posseiros de Deus
Patativa do Assaré¹

Esta terra é desmedida
e devia ser comum,
Devia ser repartida
um toco pra cada um,
mode morar sossegado.
Eu já tenho imaginado
Que a baixa, o sertão e a serra,
Devia sê coisa nossa;
Quem não trabalha na roça,
Que diabo é que quer com a terra?

¹Antônio Gonçalves da Silva
* Assaré, Ceará, – 05 de Março de 1909 d.C
+ Assaré, Ceará, – 08 de Julho de 2002 d.C

>> biografia de Patativa do Assaré


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Patativa do Assaré – Versos na tarde – 03/12/2013

Outros olhos
Patativa do Assaré¹

Teus olhos Maria Loura,
Teus olhos Maria Morena,
Teus olhos Maria Ruiva
Não cabem no meu poema!

Porque no meu poema
(no poema que escreverei)
Só cabem os olhos dela,
Daquela que sempre amei!…

Por isso, Maria Loura,
Por isso, Maria Morena,
Por isso, Maria Ruiva,
Fitar-me não vale a pena!

Só cabem no meu poema
Os olhos da minha amada;
Olhos negros, olhos claros,
De rubis… de esmeralda!…

¹Antônio Gonçalves da Silva
* Assaré, Ceará, Br. – 1909 d.C
+ Assaré, Ceará, Br. – 2002 d.C

>> biografia de Patativa do Assaré


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Patativa do Assaré – Versos na tarde – 07/05/2013

Saudade
Patativa do Assaré¹

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.

¹Antônio Gonçalves da Silva
* Assaré, Ceará – 1909 d.C
+ Assaré, Ceará – 2002 d.C

>>biografia de Patativa do Assaré


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Patativa do Assaré – Versos na tarde

Óios redondo
Patativa do Assaré ¹

Nesta vida aperriada
Pra me livrá das furada
Destes teus óios redondo,
Caboca onde é que eu me soco
Caboca onde eu me coloco?
Caboca onde é que eu me escondo?

Pra me esquecê dos teus óio
Eu canto, eu grito, eu abóio,
Faço tudo que é preciso,
Mas por onde eu vou passando
Sinto teus óio briando
Por dentro do meu juízo.

Meu padecê, minha cruz,
É tuas bolsa de luz
Que me dêxa incandiado,
Estas duas jóias prima
Com a força de dois íma
Me puxando pra teu lado.

Vendo os teus óio prefeito
Sinto entrando no meu peito
Dois ferrão de marimbondo
Caboca, não seja ingrata,
Tu me martrata e me mata
Com esses óio redondo.

Me tire desta sentença,
Tu só parece que pensa
Que eu não tenho coração,
Tu me amofina e me aleja
De ruêdera, de inveja,
De ciúme e de paixão.

Sabe quá é a meizinha
Pra essa doença minha?
Pregunta que eu te respondo,
Era se tu me quisesse
E de coração me desse
Estes teus óio redondo.

¹ Antônio Gonçalves da Silva
* Assaré, Ceará, – 05 de Março de 1909 d.C
+ Assaré, Ceará, – 08 de Julho de 2002 d.C

>> biografia de Patativa do Assaré

Patativa do Assaré – Versos na tarde

O Peixe
Patativa do Assaré ¹

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a insconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.

O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.

Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!

¹ Antônio Gonçalves da Silva
* Assaré, Ceará, – 05 de Março de 1909 d.C
+ Assaré, Ceará, – 08 de Julho de 2002 d.C

>> biografia de Patativa do Assaré