Antisemitismo,Judeus,Preconceito

O anti-semitismo coloca em risco todos nós. Não podemos nos dar ao luxo de ser complacentes

Sábado – exatamente uma semana após o terrível ataque em Pittsburgh – Eu tive o privilégio de assistir um serviço de Shabat em uma sinagoga em Londres para mostrar solidariedade com a comunidade judaica, tanto aqui como em todo o mundo. Oramos por todos os afetados – as famílias, os amigos e a comunidade judaica em geral. Hoje à noite, também me orgulho de estar falando no jantar anual do Conselho dos Deputados dos Judeus Britânicos – uma grande organização que faz um trabalho incrível em defesa da comunidade judaica em nosso país.

Compreensivelmente, muitos londrinos judeus – e comunidades judaicas em todo o mundo – não estão apenas lamentando as vítimas do terrível ataque em Pittsburgh, mas preocupados com o que isso significa para sua própria segurança. Uma sinagoga deve ser sempre um santuário, um lugar onde você se sinta seguro para adorar e praticar sua fé em paz.

O perverso ataque terrorista teve como alvo inocentes americanos judeus, mas pareceu um ataque a todos nós – ao nosso modo de vida e às liberdades que nos são caras. A luta contra o anti-semitismo não é apenas proteger a comunidade judaica; é uma luta em nome de todos. O anti-semitismo é uma ameaça aos nossos valores, à coesão de nossas comunidades e a toda a nossa sociedade.

Infelizmente, o aumento do anti – semitismo e da extrema direita não pode ser tratado simplesmente como uma tendência passageira. O Community Security Trust informou que os incidentes antissemitas em todo o Reino Unido estão em um nível recorde, com o número de casos registrados em Londres aumentando em quase 200% desde 2011.

Sabemos de nossa história que ignoramos esses incidentes por nossa conta e onde o anti-semitismo, deixado para apodrecer, pode levar. E sabemos de nossa história que um aumento do anti-semitismo e do extremismo de direita geralmente vem com o aumento de outras formas de crime e divisão de ódio – coincidindo com um cenário de dificuldades econômicas, populismo nacionalista e incerteza política.

Antissemitismo,Judeus,Preconceito
 “Os políticos, neste país e em todo o mundo, devem abster-se de usar a linguagem da divisão para promover suas causas políticas.” Foto: Frank Mattia / ZUMA Wire / REX / Shutterstock

Preocupante, todos os sinais de aviso estão aqui novamente, por isso é vital que tomemos medidas agora.

Em Londres, estou fazendo tudo o que posso para combater o anti-semitismo. Sob minha liderança, a polícia do Met está adotando uma abordagem de tolerância zero ao antissemitismo , onde quer que ocorra. Isso inclui dentro do Partido Trabalhista , não importa o quão estranho os outros possam achar isso. Eu também criei um programa contra o extremismo violento na Prefeitura, que está trabalhando para impedir a disseminação de ideologias extremistas de todos os tipos.

Mas devemos também encorajar a todos, de todas as fés e de todas as origens, a desempenhar seu papel na derrota desse aumento do ódio. Isso inclui políticos, neste país e em todo o mundo, abstendo-se de usar a linguagem da divisão para promover suas causas políticas. Veja como o presidente Trump está usando a imigração como forma de aumentar o medo dos imigrantes e dar credibilidade às teorias da conspiração antes das eleições parlamentares americanas desta semana. Este é um dos piores exemplos nos últimos tempos deste tipo de comportamento irresponsável e prejudicial.

Também tem revelado quantas pessoas da comunidade judaica em Pittsburgh criticaram Trump após o ataque – porque sabem que sua retórica e ações nos últimos anos têm facilitado a ascensão da extrema direita em todos os EUA , o que encorajou alguns que desejam semear as sementes do ódio.

Depressivamente, visões extremas agora estão se infiltrando no mainstream, com os partidos populistas nacionalistas ganhando força nos EUA, em toda a Europa e agora no Brasil . Precisamos despertar para essa ameaça da extrema direita e da política de culpa e recriminação que está se infiltrando em nossos debates nacionais.

Uma grande parte de qualquer solução será atacar as causas profundas de por que mais e mais pessoas estão se sentindo deixadas para trás pela globalização, levando-as a culpar “o outro” por seus males. Mas também precisamos agir imediatamente para consertar as crescentes divisões em nossa sociedade.

Tenho orgulho de representar uma cidade global tão voltada para o futuro. No geral, não apenas toleramos as diferenças em Londres , nós as respeitamos e as celebramos. Mas ainda estamos longe de ser perfeitos – nossas comunidades vêm mudando rapidamente e nosso senso de coesão social está sendo testado como nunca antes.

Uma das lições de todo o mundo é que uma abordagem de “mãos livres” para a integração social simplesmente não funciona. E sem ação, a situação só piorará. É por isso que acredito que uma das tarefas mais importantes agora é tomar medidas proativas para construir comunidades mais fortes e mais integradas. Isso significa que precisamos começar a encorajar e facilitar uma integração social maior, sempre que pudermos – para fortalecer laços sociais e laços de confiança entre pessoas de todas as fés, raças, idades e origens.

Não vai haver uma solução rápida para este problema: é um dos desafios que definem o século XXI. Mas eu ainda estou otimista de que se nós tratá-lo com a seriedade que merece, podemos reprimir o anti-semitismo, deter a marcha do populismo extrema direita e nacionalistas e fazer uma diferença real na formação de comunidades mais fortes – mostrando que a esperança, unidade e amor sempre pode superar o medo, a divisão e o ódio.

 Sadiq Khan é o prefeito de Londres

Quem matou Alberto Nisman?

Em janeiro deste ano, um promotor argentino foi encontrado sem vida ao redor de uma poça de sangue no banheiro de seu apartamento, dias antes de divulgar um relatório contra o governo da presidente Cristina Kirchner. O correspondente da BBC Wyre Davies foi até Buenos Aires para entender as circunstâncias dessa estranha morte que continua a abalar a Argentina.

(Reuters)

No início deste ano, em meio a um período crítico em que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, tentava recuperar a combalida economia do país, de olho nas eleições de outubro, um episódio atingiu o centro nervoso do governo.

Dentro de um luxuoso apartamento na área portuária de Buenos Aires, um promotor de 51 anos chamado Alberto Nisman se preparava para divulgar um relatório polêmico. Ele acusaria o governo argentino de ajudar a acobertar o pior ataque terrorista da história do país.

Horas antes de ele apresentar o relatório ao Congresso, Nisman foi encontrado morto em seu apartamento, localizado no 13º andar de um prédio luxuoso da capital Buenos Aires, com um único disparo na cabeça. Rapidamente, os argentinos começaram a se questionar: foi um suicídio ou um assassinato?

E se realmente tiver sido um assassinato, quem estaria por trás de sua morte? A resposta a essa pergunta encontra-se em uma sucessão de fatos ocorridos há 21 anos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Leia mais: Promotor que acusou Cristina Kirchner é achado morto; entenda o caso

Atentado

(AFP)
Ataque a bomba destruiu a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) em 1994

No dia 18 de julho de 1994, um ataque a bomba destruiu a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), o principal centro comunitário judaico do país. A explosão foi tão forte que o prédio ruiu, matando 85 pessoas.

Muitas das provas foram perdidas ou contaminadas, ora deliberadamente ou por incompetência, e nunca ninguém foi condenado pelo envolvimento no atentado.

O ataque atingiu o coração da comunidade judaica, com cerca de 400 mil integrantes, uma das maiores fora de Israel. O prédio foi então reconstruído sob forte esquema de segurança com altos muros que impedem qualquer nova ameaça.

Nisman, um promotor midiático e por vezes obsessivo, vinha investigando o atentado há mais de uma década, tentando solucionar um caso para o qual ninguém ainda havia conseguido encontrar respostas.

(AFP)
Explosão foi tão forte que o prédio ruiu, matando 85 pessoas

Mas, nos últimos meses, o promotor começou a angariar inimigos no alto escalão do governo argentino.

Alegando que houve uma tentativa de acobertar a suposta participação do Irã no atentado, Nisman abriu um processo criminal contra a presidente argentina, Cristina Kirchner, e o chanceler do país, Hector Timerman.

O promotor confiava em poucas pessoas e ocasionalmente trabalhava de seu apartamento. Ele estava ali no dia 18 de janeiro deste ano quando foi encontrado morto.

Flagrado deitado em seu banheiro cercado de uma poça de sangue e com uma arma próxima a seu corpo, muitas pessoas com boas conexões na Argentina imediatamente presumiram que Nisman havia se suicidado. Até a própria presidente Kirchner, em sua página no Facebook, sugeriu que o procurador tinha ceifado a sua própria vida.

Leia mais: Argentina: Atentado investigado por promotor morto segue impune; entenda

Outro lado

(BBC)
Ex-companheira de Nisman, juíza argentina Sandra Arroyo Salgado recusa-se a aceitar versão oficial sobre morte de promotor

Mas uma pessoa se recusa a acreditar nisso desde o início. Ex-companheira de Nisman, Sandra Arroyo Salgado viveu com o promotor por 17 anos e é mãe de suas duas filhas.

“Não tenho dúvida, de que por causa do jeito que ele era, sua personalidade, ele nunca tiraria a própria vida”, disse ela à BBC em uma entrevista exclusiva em sua casa, localizada em um subúrbio chique nos arredores de Buenos Aires.

“Ele era extremamente cuidadoso com sua saúde e tinha medo de morrer jovem. Por isso, quando me contaram que ele tinha sido encontrado morto e uma arma foi encontrada no local, sabia que alguém o havia matado”.

(BBC)
Polícia permitiu que mãe de Nisman lavasse pratos sujos que haviam sido deixados na pia

No momento da morte de Nisman, Salgado estava em viagem ao exterior e, quando voltou à Argentina, ficou surpresa com a rápida velocidade do exame post mortem e o insucesso em preservar as provas encontradas no apartamento do promotor.

Assim, embora ela e Nisman estivessem separados, Salgado ─ que é juíza ─ começou suas próprias investigações.

“A única coisa que estamos buscando é a verdade”, disse ela. “Minha equipe de investigadores analisou as fotos e o vídeo da autopsia oficial e chegou à conclusão que a morte de Alberto certamente não foi acidental”.

“É como se as autoridades responsáveis pela investigação estivessem ignorando completamente o fato de que Alberto foi encontrado morto apenas quatro dias depois de ter acusado a presidente do país de nada menos do que um possível acobertamento de um ataque terrorista que resultou na morte de 85 pessoas”.

Leia mais: Por que a morte do promotor argentino deixa tantas dúvidas

Provas

Arma que matou Nisman era uma antiga Bersa calibre 22

Dezenas de imagens foram registradas pela polícia argentina no apartamento de Nisman. Elas apontavam para uma total falta de preparo das autoridades.

Algumas imagens mostram várias pessoas andando pelo apartamento, sem qualquer roupa especial. As evidências foram inapropriadamente manipuladas. Por exemplo, em dado momento, a polícia permitiu que a mãe de Nisman lavasse os pratos sujos que haviam sido deixados na pia e que, muito possivelmente, teriam pistas que ajudariam a desvendar o mistério.

A equipe de Salgado também alega que as digitais não foram tiradas de provas consideradas “chave” como um computador que, segundo ela, investigadores ligaram sem a devida cautela.

A arma achada na cena também parece ter sido manipulada e deixada em outro lugar, de novo longe do procedimento padrão nesses casos.

Apenas depois da insistência de Salgado foi que um teste à base de Luminol (substância química que permite identificar vestígios de sangue) foi realizado semanas depois da morte de Nisman. O teste mostrou que houve uma tentativa de lavar o sangue de algum objeto na pia do banheiro.

Mas a mulher a cargo da investigação oficial sobre a morte de Nisman, a também promotora Viviana Fein, nega que tenha havido qualquer procedimento incorreto por parte da polícia.

“É comum na Argentina não usar essas roupas especiais”, disse Fein à BBC. “Já estive em muitas cenas como essa e não usei o tipo de roupa que os especialistas usam simplesmente porque não tocamos em nada. Não havia sangue em nenhum lugar fora do banheiro, o lugar onde Nisman morreu”.

A rivalidade entre as duas mulheres ─ Sandra Arroyo Salgado e Viviana Fein ─ atraiu as atenções do país. Acredita-se que investigação oficial conduzida por Fein provavelmente chegará à conclusão de que Nisman se matou, mas a equipe liderada por Salgado alega que as provas sugerem justamente o contrário.

Leia mais: Argentina: caso Nisman reacende desconfiança sobre agentes de inteligência

Ferimento

Uma das peças desse quebra-cabeças, contudo, é o ferimento causado pela bala que transpassou a cabeça de Nisman.

Muitos suicidas que se matam com armas de fogo efetuam o disparo posicionando a arma ao lado da cabeça ou de frente a ela. Mas a bala que matou Nisman entrou por cima, e por trás de sua orelha direita ─ um cenário não impossível, mas altamente improvável, dizem especialistas.

Outras dúvidas foram lançadas sobre a posição em que a arma foi encontrada. As fotografias tiradas de Nisman pela polícia mostram o corpo contorcido do promotor deitado em uma poça de sangue no banheiro, com a arma debaixo de seu ombro esquerdo, embora o disparo tenha perfurado o lado direito de sua cabeça.

“Uma possibilidade, se ele disparou contra si mesmo, seria que a arma tivesse caído, ou sido lançada para o lado”, diz Ignacio Prieto, um dos principais repórteres investigativos da Argentina. “Mas é difícil imaginar como a arma poderia ter feito uma trajetória de 180 graus; é muito estranho”.

Na opinião de Prieto, o cenário aponta para o envolvimento de outras pessoas na morte do promotor ─ uma teoria, diz ele, amparada por criminologistas da Interpol, a polícia internacional.

“Os especialistas dizem que a cena foi montada, eles colocaram o corpo de uma certa forma, a arma de outra e até usaram uma toalha para arrumar o corpo”.

Testes também não encontraram vestígios de pólvora na mão de Nisman.

Leia mais: ‘Não vão me intimidar’, diz Cristina em pronunciamento sobre Nisman

Revólver do qual partiu tiro que matou Nisman pertencia ao técnico de computador Diego Lagomarsino

Técnico de informática

A arma que matou Nisman era uma antiga Bersa calibre 22. O revólver pertencia a um técnico de computador de 38 anos, Diego Lagomarsino, que trabalhava com o promotor.

Em uma entrevista coletiva caótica depois que o corpo foi descoberto, Lagomarsino negou ser parte de uma conspiração para matar seu chefe. Posteriormente, ele contou à BBC sua versão dos acontecimentos ─ que Nisman lhe pediu a arma emprestada porque não confiava mais nos guarda-costas da polícia que o acompanhavam e queria proteger suas filhas.

“Eu não tinha escolha. Alberto era um homem difícil de dizer não”, conta.

Lagomarsino diz que levou a arma ao apartamento de Nisman na noite de 17 de janeiro, um sábado, e então saiu. Ele acrescenta que talvez tenha sido a última pessoa a ver o promotor vivo antes de sua morte por volta do meio-dia de domingo, tal como indica a autopsia.

Mas Sandra Arroyo Salgado diz que Lagomarsino tem mais explicações a dar depois que seus investigadores concluíram que Nisman morreu muito mais cedo, na noite de sábado.

Nisman vinha falando quase sem parar ao telefone com jornalistas e políticos nos dias anteriores a sua potencialmente explosiva acareação no Congresso ─ que deveria ocorrer na segunda-feira ─, mas na noite de sábado esse homem ativo permaneceu atipicamente em silêncio. O jornal de domingo permaneceu intocado do lado de fora de seu apartamento. Por quê?

“Acredito que a hora em que ele morreu foi quando ele parou de fazer telefonemas, porque ele era uma pessoa que falava constantemente ao telefone”, diz a ex-mulher.

“É inconcebível, inconcebível que ele não tenha feito uma única chamada por tantas horas. A primeira coisa que ele fazia de manhã, durante todo o tempo em que estivemos juntos, era pegar o jornal, lê-lo e era exatamente o que ele faria já que as notícias sobre ele pipocavam na imprensa”.

Leia mais: Investigação de morte de promotor argentino ganha ares de romance policial

Protestos

Um mês depois de Nisman ter sido encontrado morto, argentinos foram às ruas protestar contra impunidade

As dúvidas sobre se o caso está sendo investigado de forma imparcial e independente estão sendo sentidas por toda a sociedade argentina.

Exatamente um mês depois que o corpo de Nisman foi encontrado, centenas de milhares de argentinos caminharam sob chuva torrencial por Buenos Aires, protestando contra a impunidade ─ um sentimento de que, mais uma vez, outro crime de grandes proporções inevitavelmente permaneceria sem solução por causa da incompetência judicial e a interferência política.

Por outro lado, a presidente Cristina Fernandéz de Kirchner não parece se incomodar com as dúvidas sobre a isonomia do processo.

Conhecida pelo temperamento combativo, ela tem repetidamente ridicularizado manifestantes e críticos. Sugerindo, inclusive, que alguém tenha matado Nisman como forma de minar seu governo, Kirchner condenou o ex-promotor e seu relatório.

A tensão entre eles data de pelo menos janeiro de 2013, quando a Argentina assinou um acordo com o Irã, estabelecendo a criação de uma “comissão da verdade” para uma investigação conjunta do atentado à Amia. Nisman, que trabalhou sobre o caso por 17 anos e acusou formalmente várias figuras iranianas de alto escalão em 2006, não pôde conter sua raiva.

Tensão entre Nisman e Kirchner era antiga

No rádio e na TV, ele acusou Kirchner e seu chanceler, Hector Timerman, de agir inconstitucional e ilegalmente para interferir no processo judicial.

Nisman argumentaria mais tarde que o governo estava tentando firmar um pacto com Teerã como forma de aumentar o comércio bilateral entre os dois países e ajudar a combalida economia argentina.

Timerman, que tal como Nisman é judeu, disse à BBC ser “inconcebível” que ele, de todas as pessoas, trairia as memórias daqueles que morreram no atentado à bomba e disse que as acusações de Nisman contra ele e a presidente não tinham fundamento.

“Sei que ele rascunhou uma ordem de prisão contra mim e eu me defenderei no tribunal. Somente confio na lei, eu irei ao tribunal para provar minha inocência”, diz Timerman, para quem o relatório de Nisman é um documento juridicamente incorreto.

“Fizemos mais do que qualquer outro governo para buscar os culpados por esse terrível crime contra a Amia, mais do que qualquer outro governo”, retruca.

Sabe-se, por documentos liberados pelo Wikileaks, que Nisman visitava regularmente a embaixada americana em Buenos Aires. Ele teria tido acesso a briefings secretos de inteligência que provavelmente influenciaram sua investigação sobre o ataque. Nisman também teria ligações estreitas com o serviço secreto de Israel, a Mossad.

Depois que Nisman morreu, Timerman enviou cartas abertas a Washington e a Israel, alertando os dois países a não intervirem em assuntos internos da Argentina.

“Acredito que há países cujos serviços de inteligência operam em outros países sem a autorização desses últimos”, disse o chanceler argentino.

Questionado pela BBC sobre se o envio das cartas tem relação com o caso Nisman, Timerman foi lacônico.

“Não enviamos cartas sem provas”, retrucou.

Leia mais: Por que a morte do promotor argentino deixa tantas dúvidas

Agência de inteligência

Ex-diretor de operações de agência de inteligência da Argentina colaborava com Nisman; hoje ele está foragido

O que não está sob dúvida é o papel desempenhado pela agência de inteligência interna da Argentina na vida do promotor e, para alguns, em sua morte também.

Ao longo de décadas, o diretor de operações da SI, como a agência é conhecida, foi Antonio “Jaime” Stiuso, um homem tão esquivo quanto a única imagem que existe dele.

Ele trabalhou conjuntamente com Nisman no caso Amia, fornecendo ao promotor escutas telefônicas e outras informações sensíveis sobre o caso.

Assim como Nisman, Stiuso também caiu em desgraça com o governo após se opor ao controverso acordo com o Irã e quando as divisões chegaram à SI, ele foi demitido. Agora está foragido e acredita-se que tenha deixado o país.

Talvez Nisman tenha pagado um preço alto por tomar um lado num jogo perigoso.

Para célebre juiz argentino Luiz Moreno Ocampo, caso Nisman expôs lado negro do funcionamento do sistema de inteligência

O famoso juiz argentino Luis Moreno Ocampo tem um interesse especial na história. Ele diz que, durante a ressaca dos anos de chumbo da ditadura argentina, espiões exerciam um enorme poder sobre o sistema judiciário, do qual Nisman fazia parte.

“Nas décadas de 1970 e 1980, o nosso sistema de inteligência funcionava como um braço das atrocidades cometidas pela ditadura. Isso já acabou”, insiste Moreno Ocampo.

“Mas o caso Nisman expôs que governos democráticos não mudaram o funcionamento do sistema de inteligência. Eles não estão mais cometendo atrocidades, mas gerenciam dinheiro para fins políticos, espionam membros da oposição, controlam juízes e promotores que querem investigar o governo. É isso que temos aqui. E o caso Nisman expôs isso”, opina.

Segredos

Governo argentino quer engavetar caso Nisman

Numa cidade cheia de segredos e suspeitas, a única pessoa que realmente se aproximou de Nisman e, diz ele, deu ao promotor a arma da qual sairia o tiro fatal foi o técnico de informática Diego Lagomarsino. Mas alguns acreditam que ele também era um agente de inteligência.

Lagomarsino teve, como chegou a ser levantado, um papel na morte de Nisman?

“Não”, disse ele enfaticamente à BBC. Seu trabalho era meramente cuidar do computador do promotor argentino.

“Tenho a verdade ao meu lado, eu sei que não fiz isso e isso deixa a minha consciência livre. Deus sabe que eu não fiz isso. Eu sei que não fiz isso. E tudo será provado no final”, afirma Lagomarsino, com a voz embargada.

Integrantes do governo argentino iniciaram campanha de difamação de Nisman

“Quando tudo isso tiver terminado, eles pedirão perdão a mim. Eu os perdoarei”, acrescenta.

Esse assassinato vem chacoalhando a Argentina, mas em ano de eleição, o governo do país parece ansioso para encerrar o caso rapidamente e engavetá-lo para sempre.

Integrantes do governo se lançaram numa campanha de difamação de Nisman, acusando-o de ser mulherengo e desviar recursos públicos de seu gabinete. Fotos dele ao lado de jovens mulheres, aparentemente tiradas de seu telefone celular, foram vazadas à imprensa argentina.

Enquanto isso, a investigação de Nisman sobre o acobertamento do caso Amia foi oficialmente arquivada.

A ex-mulher do promotor relembra à BBC uma conversa entre ele e sua filha mais velha dias antes de sua morte, em que ele enfatizava a importância do relatório.

“Ele disse a ela: Eu estou trabalhando por algum tempo em algo muito importante. Você ficará orgulhosa do meu trabalho”, conta Salgado, repetindo a conversa entre pai e filha.

“Mas às vezes na vida não escolhemos os momentos em que as coisas acontecem, e tenho de apresentar esse relatório agora, é um grande projeto sobre o qual venho trabalhando por muito tempo e há um risco de que, se eu não o fizer agora, é possível que eu nunca consiga mostrá-lo para o Congresso, e que eu perca o meu emprego”, acrescentou Nisman à filha.

Nisman nunca chegou a apresentar o documento ao Congresso argentino. O relatório foi desacreditado por alguns, mas outros que conheciam Nisman dizem que ele estava convencido de que estava perto da verdade e certamente não se suicidaria.

Diante de tantas informações, sobram perguntas.

Caso Nisman talvez nunca seja solucionado

Fidel Castro condena anti-semitismo do Irã

Irã deveria abandonar anti-semitismo, afirma Fidel Castro

Em entrevista a revista americana, ex-líder cubano diz que Ahmadinejad deveria tentar entender a perseguição aos judeus.

O ex-presidente cubano Fidel Castro disse em entrevista a uma revista americana que o Irã e o seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad, deveriam abandonar o anti-semitismo e tentar entender os motivos pelos quais os judeus foram perseguidos em todo o mundo ao longo da história.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Castro convidou o jornalista Jeffrey Goldberg, da revista americana The Atlantic Monthly, para uma conversa em Havana, depois de ter lido um artigo seu sobre as relações entre Israel e Irã.

O ex-presidente cubano está afastado do poder desde 2006 devido a problemas de saúde. Ele renunciou ao cargo em favor do seu irmão, Raúl Castro, que hoje governa Cuba.

Nas últimas semanas, Fidel Castro tem demonstrado que seu estado de saúde melhorou. No mês passado, o líder fez seu primeiro discurso no Parlamento nos últimos quatro anos.

Na semana passada, ele falou a milhares de estudantes da Universidade de Havana. Nas duas ocasiões, Fidel abordou o risco de uma guerra nuclear envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel.

Recado

Na entrevista para a Atlantic Monthly, cuja primeira parte foi publicada no site da revista na terça-feira, Fidel diz que nenhum povo foi tão perseguido na história quanto os judeus.

“Os judeus tiveram uma existência muito pior que a nossa. Não há nada que se compare ao Holocausto”, disse Castro a Goldberg, que é especializado em Oriente Médio. Em seguida, Fidel Castro pede que o jornalista passe o recado para Ahmadinejad.

Em um trecho da entrevista, Fidel faz uma autocrítica sobre a sua posição na crise dos mísseis, durante a Guerra Fria.

Em 1962, a União Soviética instalou uma base militar em Cuba para apontar mísseis para os Estados Unidos, no momento mais tenso da Guerra Fria, quando as duas superpotências quase entraram em guerra nuclear.

“Depois que eu vi o que eu vi, e sabendo o que eu sei hoje, eu sei que aquilo não valia a pena”, disse Fidel à revista.

BBC/Agência Estado

Repúdio à visita do presidente do Irã Ahmadinejad

É compreensível o repúdio da comunidade judaica à visita do presidente do Irã, Ahmadinejad, ao Brasil.

Ahmadinejad prega a aniquilação de Israel, o que é inaceitável.

Sob o comando de Ahmadinejad, o governo do Irã, secretamente para evitar protestos, enforcou uma jovem artista plástica de 23 anos, condenada por um crime, cujas provas periciais indicam que ela não cometeu o crime.

Os judeus, os democratas e os humanistas, têm todo o direito, e o dever, de repudiarem pacificamente, a visita do “himileriano” presidente anti-semita iraniano.

O Brasil é um país democrático, membro da ONU e obedece às normas diplomáticas internacionais. O Presidente do Irã é o chefe de um estado com o qual o Brasil, e mais dezenas de outros países, matêm relações diplomáticas.

O Irã é um estado assassino, sensório, que enforca homossexuais e quaisquer outros dissidentes.

Portanto, não é compreensível que o Brasil receba com deferências exageradas, além das meramente exigidas pela diplomacia, um dirigente incendiário, que nega o holocausto e prega a aniquilação do Estado de Israel, esse, o único país democrático na conturbada região do oriente médio.

O editor