A Guerra que as Espécies Humanas não Podem Perder

“Até 2035, o ponto sem retorno poderá ser ultrapassado”, escreveu Matthew Burrows, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência, em um relatório no ano passado sobre riscos globais nos próximos quinze anos. Esse é o ponto após o qual impedir que a temperatura da Terra suba dois graus Celsius – ou 3,6 graus Fahrenheit – será extremamente difícil, se não impossível.

O gelo na Antártida está derretendo seis vezes mais rápido do que quarenta anos atrás, resultando em mais partos de icebergs – com riscos existenciais.

O iceberg que afundou o Titanic no Atlântico, em 1912, foi considerado um mero “pedaço de energia”, ou um pedaço menor de gelo flutuante; derreteu dentro de alguns anos. Os que vimos na Antártida eram enormes.

A Antártida é geralmente um continente poderosamente silencioso, exceto pelos ventos fortes ou pelas ondas no litoral.

“Os seres humanos serão apenas um pontinho no espaço da história da Terra”, disse Wayne Ranney, naturalista e geólogo. A única questão é quanto tempo o blip será.”

Na semana passada, a temperatura na Antártica atingiu quase setenta graus – a mais quente da história. Não foi por acaso de um dia. Famoso por suas paisagens de neve, o continente mais frio, selvagem, ventoso, mais alto e mais misterioso da Terra tem experimentado uma onda de calor. Alguns dias antes, uma estação meteorológica antártica registrou temperaturas em meados dos anos sessenta. Estava mais frio em Washington, DC. Imagens do norte da Antártica capturavam vastas faixas de terreno marrom estéril, desprovido de gelo e com apenas pequenos trechos de neve em forma de poça.

O problema não é se um novo recorde foi estabelecido: “é a tendência de longo prazo que torna mais provável a ocorrência desses registros com mais frequência”, John Nielsen-Gammon, diretor do Centro de Estudos Climáticos do Texas no Texas A. & M Universidade, disse esta semana. “É como uma floresta em que as árvores crescem constantemente e as árvores morrem, mas se elas começarem a morrer mais rápido do que podem voltar a crescer, você acabará perdendo a floresta”. “O mesmo se aplica às geleiras. As geleiras fluem para o oceano e se rompem, mas se elas se quebram mais rapidamente, a geleira recua e você perde gelo – e então o nível do mar sobe ao redor do mundo.”

O iceberg que sai da Antártica faz parte de um processo chamado parto. É normal e é uma etapa necessária no ciclo da natureza, exceto que agora está acontecendo muito mais rápido e em partes maiores – com riscos existenciais. Agora, o gelo na Antártica está derretendo seis vezes mais rápido do que há quarenta anos, afirma Eric Rignot, cientista da Terra na Universidade da Califórnia, Irvine, e co-autor de um grande estudo sobre a saúde do gelo no continente.

À medida que o clima esquenta, quanto e com que rapidez as geleiras da Terra derreterão?

Neste mês, um iceberg medindo mais de 160 quilômetros quadrados – o tamanho da ilha mediterrânea de Malta ou o dobro do tamanho de Washington, DC – interrompeu a geleira Pine Island (carinhosamente conhecida como porco, abreviada) na Antártida Ocidental. Em seguida, dividiu-se em pequenos “leitões”, de acordo com a Agência Espacial Européia, que os rastreava por satélite. O maior leitão tinha quase quarenta quilômetros quadrados.

O continente congelado é dividido em Antártica Ocidental e Antártica Oriental. (O Pólo Sul fica na Antártida Oriental.) A maior parte do derretimento e grande parte dos grandes partos aconteceu no oeste e ao longo de sua península de oitocentas milhas. Mas, em setembro, um iceberg de mais de seiscentos quilômetros quadrados – ou vinte e sete vezes o tamanho de Manhattan – partiu da plataforma de gelo Amery, na Antártida Oriental.

Dois outros grandes icebergs estão sendo rastreados à medida que suas fendas se tornam visíveis do espaço. Um é um porco no oeste, o outro está se formando na plataforma de gelo Brunt, no leste.

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Cavidade de grandes proporções ameaça geleira na Antártida

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Geleira Thwaites fica na Antártida Ocidental

Cientistas descobriram uma imensa cavidade na base da geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, cuja acelerada taxa de crescimento surpreendeu. Segundo estudo publicado nesta semana pela revista científica Science Advances, a cavidade tem quatro quilômetros de largura, dez quilômetros de extensão e 350 metros de altura.

Os cientistas já suspeitavam da existência de vãos entre a geleira e a base rochosa do Thwaites, por onde passa água do oceano que derrete o gelo de baixo para cima. Contudo, satélites com radares capazes de penetrar o gelo revelaram um espaço muito maior que o esperado.

“[O tamanho de] uma cavidade abaixo de uma geleira tem um papel importante no derretimento”, disse o principal autor do estudo, Pietro Mililo, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. “Quanto mais calor e água conseguem chegar embaixo da geleira, mais rápido ele derrete.”

Parte do projeto Operation IceBridge, da Nasa, os satélites mostraram que a cavidade tem capacidade para abrigar 14 bilhões de toneladas de gelo, mas a maior parte dele derreteu nos últimos três anos.

Também foram usadas espaçonaves italianas e alemãs equipadas com radares que conseguem medir as mudanças sob a geleira por comparação entre imagens. O uso das ferramentas mostrou que a geleira está descolando da sua base rochosa desde 1992.

Anteriormente, os modelos usados pelos cientistas usavam uma forma fixa para representar a cavidade, sem considerar alterações e aumento de tamanho, o que os levava a subestimar a velocidade do derretimento.

Com tamanho total semelhante ao do estado da Flórida, nos Estados Unidos, a geleira é atualmente responsável por cerca de 4% do aumento do nível do mar. Caso ele derreta totalmente, o mar subiria 65 centímetros. Se o mesmo ocorrer com geleiras vizinhas que atualmente são contidos pelo Thwaites, o avanço seria de 2,4 metros.

“Entender os detalhes de como o oceano derrete essa geleira é essencial para projetar o seu impacto no aumento do nível do mar nas próximas décadas”, disse o coautor do estudo Eric Rignot, da Universidade da Califórnia, Irvine, e do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa.

Cientistas dizem ter encontrado abismo gigantesco escondido sob o gelo da Antártida

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Mapa, em inglês, mostra área onde ficaria cânion oculto na Antártida
Sinais de sua presença foram encontrados nas formações da superfície do continente gelado, em uma região inexplorada chamada Terra da Princesa Elizabeth.

Se confirmada, em uma pesquisa geofísica formal que está em andamento, a rede sinuosa de cânions teria cerca de mil quilômetros de comprimento e, em alguns trechos, até 1 km de profundidade.

Essas dimensões fariam da formação algo maior que o famoso Grand Canyon, nos Estados Unidos.

“Sabemos, com base em outras áreas da Antártida, que as formas que o gelo assume na superfície são obviamente dependentes do que existe abaixo dele. Isso porque o gelo flui a partir dessas formações”, explicou o pesquisador Stewart Jamieson, da Universidade de Durham, no Reino Unido.

“Quando olhamos para a Terra da Princesa Elizabeth a partir de dados de satélite, há aparentemente algumas características na superfície gelada que, para nós, lembram muito a existência de um cânion”, continua o especialista.

“Nós rastreamos formações rochosas do centro da Terra da Princesa Elizabeth até a costa, no sentido norte. Trata-se de um sistema bastante substancial”, afirmou ele à BBC.

Há ainda suspeitas de que a rede de cânions seja conectada a um lago subglacial, também desconhecido, que cobriria uma área de até 1,25 mil quilômetros quadrados.

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A Terra da Princesa Elizabeth (Princess Elizabeth Land, no mapa em inglês) é uma das áreas menos exploradas da Antártida, e novo foco dos times internacionais de cientistas

A interpretação inicial que aponta a existência do sistema de cânions é baseada em informações de radar, colhidas em dois locais.

Esses radares conseguem ver através das camadas de gelo, chegando à cama de rochas abaixo delas.

A suspeita é consistente, afirma o professor do Imperial College London (Reino Unido), um dos integrantes da equipe.

“Descobrir um novo abismo gigantesco, que supera o Grand Canyon, é uma perspectiva tentadora”, afirmou.

“Geocientistas na Antártida estão fazendo experimentos para confirmar o que nós estamos vendo nos dados iniciais, e esperamos anunciar nossas descobertas em um encontro do ICECAP2 (grupo de colaboração internacional que explora a área centro-leste da Antártida) no fim de 2016.”

Pesquisas

A maior parte da Antártida é alvo de pesquisas geofísicas que têm registrado a topografia do continente.

Mas ainda há duas áreas ainda muito desconhecidas: a Terra da Princesa Elizabeth, onde se encontraria o cânion, e a Recovery Basin (“Bacia de recuperação”, em tradução literal).

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Aeronaves com sensores sobrevoam a Antártida para mapear topografia local (Foto: ICECAP2)

Ambas ficam no leste da Antártida e são agora alvo de intenso estudo.

Equipes internacionais – compostos por cientistas de Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, China e outros países – estão usando aeronaves com sensores para sobrevoar centenas de quilômetros quadrados da superfície gelada.

Quando o rastreamento estiver completo, os pesquisadores terão uma visão abrangente de como a paisagem da Antártida realmente é debaixo de todo o gelo.

Esse conhecimento é fundamental para tentar entender como o continente gelado pode reagir em um mundo mais quente, por exemplo.
Jonathan Amos/BBC