Anne Sexton – Poesia

Boa noite.
Disse a poeta ao analista
Anne Sexton

Meu negócio são as palavras. Elas são como rótulos,
moedas, ou, melhor ainda, um enxame de abelhas.
Confesso que apenas a fonte das coisas me arrebenta,
contar palavras como se fossem abelhas mortas no sótão,
desprovidas dos olhos amarelos e das asas secas.
Preciso esquecer sempre como uma palavra consegue
pegar uma outra, manejar uma outra, até que eu tenha
algo que poderia ter dito…
mas não disse.

Seu negócio é observar minhas palavras. Mas eu
não admito nada. Faço o meu melhor, por exemplo,
quando escrevi o elogio do caça-níquel
aquela noite em Nevada; contando como o prêmio mágico
veio no tintinar de três sinos, na tela da sorte.

Mas se você disser que não é bem assim,
então fico fraca, lembrando como minhas mãos estavam estranhas
e ridículas e carregadas com todo aquele
dinheiro de faz-de-conta.

Pintura de Alice Leach

Anne Sexton – Poesia

Boa noite
Para meu amante, voltando para a esposa
Anne Sexton

Ela está toda lá.
Ela foi fundida com cuidado para você
E moldada a partir da sua infância
Moldada a partir das suas cem colegiais favoritas.

Ela sempre esteve lá, querido.
Ela é, de fato, um primor.
Fogos de artifício num fevereiro tedioso
e tão real quanto uma panela de ferro.

Vamos admitir, eu fui momentânea.
Um luxo. Um veleiro vermelho brilhando no porto.
Meu cabelo subindo feito fumaça pela janela do carro.
Pequenas ostras fora de época.

Ela é mais do que isso. Ela é o que você tem de ter,
amadureceu em você seu lado prático, tropical.
Isso não é um experimento. Ela é pura harmonia
Ela cuida de remos e forquetas para o barco,

colocou flores silvestres na janela pro café
sentou-se no oleiro ao meio-dia
fez sentar os três filhos sob a lua
três querubins de Michelangelo

feitos com as pernas arreganhadas
nos meses terríveis na capela.
Se você espiar, as crianças estão lá,
como balões delicados descansando no teto.

Ela carregou cada uma pelo corredor
depois do jantar, as cabeças meio caídas,
duas pernas protestando, corpo a corpo,
seu rosto corado por causa do ninar e do soninho delas.

Eu lhe dou seu coração de volta
Eu lhe dou permissão —

para o fusível dentro dela, pulsando
com raiva na sujeira, para a cachorra nela
e o enterro de suas feridas —
para o enterro de sua feridinha vermelha, viva —

para o pequeno clarão abaixo das costelas dela
para o marujo bêbado que aguarda no pulso esquerdo dela
para o joelho de mãe, a meia-calça,
a cinta-liga, para o chamado -—

o curioso chamado
quando você se afunda em peitos e braços
e puxa a fita laranja do cabelo dela
e responde ao chamado, ao curioso chamado.

Ela é tão nua e singular.
Ela é a soma de você e seu sonho.
Escale-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.

Quanto a mim, sou aquarela.
Lavável.

Pintura de Frank Cadogan Cowper