Amazônia e a morte silenciosa do acordo UE-Mercosul

Merkel pôs em xeque o pacto comercial devido às queimadas na Amazônia. Ao ignorarem o alerta, governos sul-americanos deixam claro seu desinteresse na implementação do tratado. Também na Europa o silêncio predominou.

Ato em Amsterdã: críticas de Merkel se juntam aos protestos exigindo medidas do governo brasileiro contra o desmatamento

Faz exatamente um ano desde que o presidente francês, Emmanuel Macron, atacou o Brasil pela primeira vez por causa dos incêndios na Amazônia, durante a cúpula do G7 na França. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, disse agora que tem dúvidas sobre se o acordo comercial da União Europeia (UE) com o Mercosul ainda pode ser implementado. O motivo são as queimadas na região amazônica.

As “sérias dúvidas” de Merkel se encaixam na corrente de muitos outros críticos que há um ano vêm exigindo cada vez mais veementemente que o governo brasileiro tome medidas contra o desmatamento. Primeiro foram as organizações ambientais, depois os embaixadores da Noruega e da Alemanha e, finalmente, agora fundos, bancos e empresas que pediram ao governo de Jair Bolsonaro que tome uma atitude.

Mas as reações do governo até hoje são as mesmas: afirma que faz o suficiente para proteger a Amazônia; responde que a Europa e os Estados Unidos já desmataram tudo o que tinham; quer oferecer parques nacionais a empresas privadas estrangeiras, para que elas possam proteger o meio ambiente. Afinal, o que o mundo estaria disposto a pagar pela proteção da floresta tropical?

Os militares, segundo o governo, protegerão a floresta de maneira mais eficaz do que as autoridades responsáveis. É preciso poder garantir aos pobres, como os indígenas da Amazônia, uma vida digna, algo que só seria possível com empresas e através de atividades econômicas. Assim soam os argumentos dos ministros quando comentam o tema.

Na verdade, nada mudou em um ano: nos últimos 12 meses até agosto deste ano, as queimadas aumentaram em cerca de um terço em relação ao mesmo período do ano passado. Portanto, é perfeitamente compreensível que a chanceler federal alemã se junte aos críticos. Suas advertências têm peso.

Até poucos dias atrás, Merkel era uma das mais importantes defensoras do acordo UE-Mercosul dentro do bloco. Ela havia defendido publicamente no ano passado o pacto contra as críticas do Bundestag, a câmara baixa do Parlamento alemão: nenhuma árvore a menos seria derrubada na Amazônia se o acordo não se concretizasse – era essa, mais ou menos, sua argumentação. Com a presidência do Conselho da UE exercida pela Alemanha até o final do ano, muitos esperavam que o acordo pudesse ainda dar um passo adiante em direção à ratificação.

Isso agora se tornou mais difícil. Merkel pode não ter batido o martelo ainda, mas deixou claro que o Brasil precisa se mexer. Assim, ela aumenta a pressão para tentar salvar o acordo comercial. Mas até o fim de dezembro não deve acontecer muita coisa.

Ainda mais surpreendente é o completo silêncio na América do Sul. Nenhum dos quatro governos do Mercosul comentou as críticas da chanceler alemã. Também na imprensa suas críticas encontraram pouca ressonância. A conclusão só pode ser uma: na América do Sul, nenhum dos quatro países parceiros está realmente interessado no acordo. Mesmo nas declarações dos quatro presidentes nas últimas semanas e meses, o acordo não aparece mais sequer de forma secundária.

Isso não é diferente na Europa. Na verdade, seria de se esperar que os interessados no acordo se manifestassem depois das críticas de Merkel. Ou seja, as associações industriais, as empresas de médio porte, as montadoras, os grupos de construção civil, a indústria química – todos aqueles que fazem há 20 anos campanha pela abertura do mercado na América do Sul e pela maior associação econômica mundial. Mas também na Europa o silêncio predominou, com exceção de algumas declarações de protocolo.

Portanto, tudo indica que o acordo entre a Europa e o Mercosul terá uma morte silenciosa.

O que não é algo incomum na América Latina. “Já houve muitos funerais para alianças regionais na América Latina”, disse o uruguaio Enrique V. Iglesias, que foi presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) por muitos anos. “Mas nenhum enterro.”


Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

Pandemia: 40% dos países pobres não apoiam estudantes vulneráveis

De acordo com relatório da Unesco, 40% dos países mais pobres não apoiam os estudantes de menor renda, negros e com deficiência em meio à pandemia

A pandemia de Covid-19 aumentou a exclusão de estudantes, segundo o Relatório de Monitoramento Global da Educação 2020, realizado pela Unesco.

O estudo busca monitorar os avanços de 209 países no caminho para alcançar as metas de educação da ONU da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O documento indica que 40% dos países mais pobres – de baixa e média-baixa – não apoiam os alunos de menor renda, negros e com deficiência em meio ao isolamento social, não garantindo o básico, como acesso a dispositivos tecnológicos para o estudo remoto ou a adequação das aulas às deficiências.

De acordo com o texto, 258 milhões de crianças e jovens foram excluídos da educação, sendo a pobreza o principal obstáculo no acesso.

Nos países de renda baixa e média, os adolescentes que pertencem aos 20% mais ricos da sociedade têm três vezes mais chances de concluir o primeiro nível da educação secundária, em relação aos mais pobres.

Na América Latina e no Caribe, 9% dos países não têm oferecido suporte aos estudantes mais vulneráveis em meio à crise. A Unesco não indicou em que grupo o Brasil se classifica nem divulgou a lista dos países que não dão suporte aos alunos.

No mundo, um em cada quatro alunos de 15 anos informa que se sente excluído da escola. Além disso, 335 milhões de meninas vão para escolas que não lhes oferece serviços de água, saneamento e higiene dos quais necessitam para ir às aulas no período menstrual.

O relatório aponta que, em 10 países de renda baixa e média, estima-se que crianças com deficiências tenham uma probabilidade 19% menor de obter proficiência mínima em leitura do que aquelas que não têm deficiências.

No total, apenas 41 países reconhecem oficialmente a língua de sinais. No Brasil, por exemplo, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida em lei. Cerca de um quarto dos países possui leis que determinam que crianças com deficiências sejam instruídas em contextos separados.

Ao abordar o Brasil, o relatório destaca a exclusão dos indígenas e alunos com deficiência. Atualmente, apenas 40% das escolas primárias recebem esses estudantes no país.

O relatório também indica outra preocupação no caso brasileiro: a exposição de alunos à violência e ao homicídio na região em que vivem e estudam.

O documento reforça que quase metade dos países de renda baixa e média não reúne dados educacionais suficientes sobre crianças com deficiência.

No entanto, há resultados políticos. O número de países latino-americanos que incluíram pelo menos uma questão sobre etnia em seu censo cresceu de 6, em 1980, para 12, em 2000. Somente a República Dominicana não inclui essa questão na região.

Em relação ao Brasil, o relatório ressalta o aumento de estudantes com deficiência nas escolas regulares de 23%, em 2003, para 81%, em 2015.

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Crise econômica devido ao coronavírus: os 30 países cujas economias crescerão este ano, apesar da pandemia

Ao infectar milhões de pessoas e fazer com que os governos confinem suas populações, o novo coronavírus deixou economias em todo o mundo na enfermaria de terapia intensiva.

Em um relatório recente, o Banco Mundial alertou que a pandemia da covid-19 causará a maior crise econômica do mundo desde pelo menos 1870 e ameaça causar um aumento drástico nos níveis de pobreza em todo o mundo.

Mas para 30 países este ano será de crescimento, embora abaixo do esperado, com raras exceções (veja a lista no final deste artigo).

Uma dessas exceções é a Guiana, um país vizinho ao Brasil, que deverá apresentar crescimento de mais de 50% neste ano, o maior do mundo, devido ao início da exploração de petróleo.

A descoberta de enormes reservas de petróleo na Guiana pode mudar o futuro do país.
O país também será o único a crescer na América Latina e no Caribe.

Das regiões do mundo, apenas o Leste Asiático e o Pacífico apresentarão crescimento (0,5%), principalmente devido à China. No entanto, a gigante asiática deve crescer apenas 1%, uma pequena taxa em comparação aos anos anteriores.

Apesar disso, o Banco Mundial espera que o PIB global diminua 5,2% este ano, mais que o dobro do registrado na crise financeira de 2008.

“Cinco razões”

Mas então, o que está por trás do crescimento desses 30 países este ano?

“Os poucos mercados emergentes e economias em desenvolvimento que devem evitar contrações na atividade econômica este ano tendem a ser menos abertos, mais agrícolas e menos dependentes do setor de serviços”, disseram economistas do Banco Mundial.

Coronavírus e a economia: três diferenças principais entre a Grande Recessão de 2008 e a atual crise causada pela pandemia
E citam cinco pontos para explicar por que esses países crescerão:

1. Menos integração no comércio mundial

Segundo economistas, esses países são “significativamente menos integrados ao comércio mundial, ajudando a isolá-los parcialmente dos graves efeitos globais da queda da demanda externa”.

“As taxas de exportação / PIB nesses países são aproximadamente 35% inferiores à média dos países emergentes e em desenvolvimento, e as atuais taxas de comércio / PIB (importações mais exportações) são aproximadamente 25% mais baixas”, afirmam.

2. Maior dependência da agricultura

Segundo economistas, esses países tendem a ser mais dependentes do setor agrícola, que foi “menos exposto, em média, à queda induzida pela pandemia nos preços das commodities; os preços dos produtos agrícolas caíram apenas marginalmente, em comparação com as quedas acentuadas observadas nos preços dos produtos industriais ”.

“Os setores agrícolas das economias que devem crescer este ano representam mais que o dobro do tamanho (128%) da média dos países emergentes e em desenvolvimento”, afirmam.

A maioria dos países que crescerá este ano está localizada no que é chamado de África Subsaariana.

3. Setor de serviços menor

Esses países também tendem a ter setores de serviços “aproximadamente 20% inferiores à média dos países emergentes e em desenvolvimento”, afirmam economistas.

“Os setores de serviços são particularmente afetados pela pandemia, pois várias atividades envolvendo interações foram interrompidas devido à distância social”, afirmam.

4. Menor dependência do turismo

“Essas economias também são visivelmente menos vulneráveis ​​ao colapso das viagens e turismo globais, já que seus setores de turismo são metade do tamanho da média dos países emergentes e em desenvolvimento”.

5. Menos impacto da pandemia

Segundo economistas, “embora a capacidade de teste dificulte a comparação confiável de surtos entre países, (…) o tamanho dos surtos (em relação ao tamanho da população) nas economias que devem crescer este ano Era aproximadamente 75% menor que a média dos países emergentes e em desenvolvimento quando publicamos o relatório “.

Além disso, havia menos restrições de movimento nesses países, ao contrário do resto do mundo.

“As restrições nessas economias também foram 20% menos rigorosas que a média dos países emergentes e em desenvolvimento”.

África subsaariana

A maioria dos países que crescerá este ano está na África Subsaariana.

Como em outros países, os profissionais de saúde na África do Sul exigem maior proteção para combater a covid-19.

Apesar de dependerem das exportações de produtos industriais (metais, minerais e petróleo), são nações menos integradas ao comércio mundial e mais dependentes da agricultura, o que ajuda a isolá-los parcialmente dos graves efeitos globais da economia. demanda externa em queda “, dizem economistas.

“Cerca de dois terços das 31 economias que devem crescer em 2020 estão na África Subsaariana, onde representam aproximadamente um quarto do PIB da região”.

“Para os países da África Subsaariana, existem razões estruturais, incluindo relativamente menos integração à economia mundial por meio de canais comerciais e alta dependência da agricultura, o que deve proporcionar alguma forma de isolamento”, destacam.

No entanto, eles apontam que “mesmo para as economias que devem se expandir em 2020, o crescimento será muito menor que a tendência, uma média de quase 4 pontos percentuais abaixo das taxas médias de crescimento de 2015-19”.

Segundo economistas, os países que devem crescer este ano tendem a ser mais dependentes do setor agrícola
Além disso, existem outros fatores em jogo, segundo economistas.

Os surtos de Covid-19 foram “mais baixos do que em outras regiões” e as restrições para ficar em casa foram, em média, “10% menos rigorosas”.

“No entanto, um dos principais riscos para as perspectivas na África Subsaariana é que esses surtos domésticos não são controlados e estão aumentando de tamanho”, indicam.

“Dadas as várias vulnerabilidades subjacentes da região, incluindo sistemas de saúde fracos e subfinanciados, uma pandemia mais prolongada com surtos maiores pode ser devastadora para a atividade na região”, alertam eles.

“No cenário negativo que estimamos, onde a pandemia não é controlada, o número de economias na África Subsaariana que crescerá em 2020 cairá 75%”, afirmam.

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Crise histórica já se delineia na América Latina

Democracias e Estado de Direito sob pressão, população mais pobre, grave recessão: no mundo pós-pandemia, região estará diante dos maiores desafios políticos e econômicos dos últimos 50 anos.

Ambulante no México: região deve continuar a sofrer com desempenho fraco da economia

Com um atraso de três meses em relação à Europa, a América Latina está prestes a se tornar o epicentro global da crise de coronavírus. Provavelmente, levará até julho para que as infecções por covid-19 se estabilizem. No Brasil, o pico de mortes não é esperado até o início de agosto.

Nesse cenário, já são possíveis algumas previsões de como a América Latina vai mudar como resultado da crise.

A região está entrando em sua pior recessão desde as crises de endividamento dos anos 1980. A situação é surpreendentemente parecida como a daquela época. Hoje, como então, a dívida externa dos Estados está aumentando rapidamente ‒ atualmente devido às medidas sociais resultantes do combate à covid-19, no passado por causa dos investimentos estatais.

Também desta vez, caíram a demanda e os preços do petróleo, assim como de alguns produtos agrícolas e de mineração. Para um exportador de commodities energéticas e não energéticas como a América do Sul, essa é uma péssima combinação, porque a capacidade de honrar suas dívidas está diminuindo.

Serão inevitáveis novas crises da dívida externa, algo que Equador e Argentina estão tentando agora evitar com negociações. Resta saber como os investidores financeiros e os bancos multilaterais de desenvolvimento reagirão a uma crise regional de endividamento.

Os investidores financeiros privados já estão retirando seu capital da região. Como investidor, a China poderia aproveitar a situação e emprestar dinheiro a países que perderam sua credibilidade, em troca de garantias nas áreas de agricultura, mineração e energia.

O enfraquecimento das moedas também está impedindo que se façam futuros empréstimos no exterior. Os juros e os pagamentos em dólares tornaram-se proibitivamente caros para todos aqueles que não ganham na moeda americana. Os pesos e o real mais fracos também têm vantagens: os déficits da balança comercial, por exemplo, se reduzem mais rapidamente porque os países (possivelmente) importam menos.

No entanto, a região dificilmente poderá aproveitar a principal vantagem de uma moeda fraca: após a crise, a América Latina não vai se tornar automaticamente um local competitivo simplesmente porque os custos caíram. Isso vale especialmente para o setor industrial.

Devido ao atraso tecnológico e às futuras cadeias produtivas globais mais curtas, é provável que a América do Sul se torne novamente um mero exportador de matérias-primas. Ainda não se sabe se a América Central e o México se beneficiarão de uma moeda mais fraca como fornecedores para os Estados Unidos. No entanto, isso parece improvável, dada a política isolacionista no norte do continente.

O controle estatal sobre a economia vai aumentar: por meio de impostos mais altos ou de empresas apoiadas pelo poder público. O alto desemprego e a crescente pobreza encolherão a distribuição de renda e, portanto, também o consumo. Além das exportações de matérias-primas, o principal motor de crescimento da América Latina cambaleia: a demanda das 630 milhões de pessoas.

Para investidores, ficará menos atraente investir na produção de bens de consumo na América Latina. Até recentemente, latino-americanos ansiosos para consumir ainda eram o principal incentivo para construir ou comprar fábricas na região. Esse argumento está agora perdendo força.

Os governos não conseguirão resistir à tentação de manter ou mesmo ampliar a autoridade adquirida durante a crise de coronavírus. Atualmente, isso pode ser observado em todos os países. No México, por exemplo, o presidente López Obrador saúda os efeitos benéficos da covid-19, que reduzem a influência excessiva do setor empresarial no país. Ao mesmo tempo, ele expande o controle estatal sobre a economia, como na Argentina e no Brasil.

O Estado de Direito e a democracia estão sofrendo pressão em todos os países, não importa o direcionamento político dos diferentes governos. A independência do Judiciário está sendo corroída, enquanto a mídia é assediada e os parlamentos, em que os governos não têm maioria, são hostilizados.

É provável que a tendência autoritária tenha continuidade diante da ameaça de novos distúrbios sociais, como foram vistos no ano passado em Chile, Equador, Colômbia e Bolívia. Os protestos deverão continuar, provavelmente, na era pós-coronavírus ‒ possivelmente com uma intensidade ainda maior, porque as consequências sociais da crise serão severas.

Se novas manifestações surgirem no final do ano, os governos não deverão hesitar em reprimi-las com o argumento de uma emergência nacional ou de uma grave crise. Durante a pandemia de coronavírus, os governos descobriram que a liderança autoritária foi bem recebida por um grande número de pessoas. É tentador apostar nos novos instrumentos.

Sem dúvidas: a América Latina enfrenta os maiores desafios políticos e econômicos dos últimos 50 anos.

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Coronavírus: crise causada pela pandemia levará 30 milhões de latino-americanos à pobreza

Para especialista, mulheres e os novos pobres serão os mais prejudicados pelos efeitos econômicos e sociais da pandemia do novo coronavírus.


Direito de imagemAFP
A secretária-executiva da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Alicia Bárcena, disse que as mulheres e os novos pobres serão os mais prejudicados pelos efeitos econômicos e sociais da pandemia do novo coronavírus.

Em entrevista ela disse que na quarentena muitas sofrem violência de gênero. Além disso, as mulheres têm tido jornadas mais longas, com tarefas extras como a maior atenção às crianças em casa, já que elas estão sem aulas.

E, muitas vezes, estas tarefas são somadas, em função da pandemia, ao trabalho em esquema de home office. A pandemia mostrou ainda que mais de 70% dos profissionais da área de saúde são mulheres e é hora de cuidar ainda mais delas, disse.

Bárcena repassou as novas projeções econômicas da Cepal para a América Latina, com uma queda de 5,3% do PIB da região, que é a pior da sua história desde a Grande Depressão na década de 1920.

A queda empurrará quase 30 milhões para a pobreza na América Latina, incluindo aqueles que tinham saído da pobreza na época do boom das commodities, até 2014.

Os dados da instituição ligada às Nações Unidas (ONU) foram feitos a partir da previsão de queda de 3,8% do PIB da Estados Unidos, a maior economia do mundo. A situação poderia ser mais grave, admitiu Bárcena, se o comportamento da economia americana for pior, como prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI).

BBC News Brasil – Devido aos efeitos da pandemia do novo coronavírus, a economia da América Latina cairá 5,3% e a da América do Sul cerca de 5,2% neste ano, segundo o relatório da Cepal. A economia regional já tinha problemas, com baixo crescimento ou recessão, dependendo do país…

Alicia Bárcena– É verdade. A região já vinha com crescimento baixo e suas políticas fiscais tinham espaços limitados. Existem fatores internos e externos que afetaram a região, ainda mais agora na pandemia.

Do ponto de vista externo, a queda enorme dos sócios comerciais da região, como China, Estados Unidos e Europa. São economias que frearam suas demandas agregadas e houve um desabamento das exportações da nossa região (para estes sócios comerciais).

Em segundo lugar, houve uma queda nos preços das commodities. Veja o caso do petróleo, por exemplo. Mesmo falando de preços no mercado futuro, este é um produto muito importante para a região, principalmente a América do Sul (Venezuela e Brasil, por exemplo) e México que são exportadores de petróleo e de commodities em geral.

Em terceiro lugar, temos a forte queda do turismo. Obviamente, não há viagens, voos, enfim.Direito de imagem EPA/MARCELO MACHADO DE MELO
Comércio fechado na região central de São Paulo

E em quarto lugar, temos a queda das remessas (de imigrantes para seus familiares) e isso afeta, principalmente, a América Central e o México. E, por último, há uma grande aversão ao risco por parte dos movimentos financeiros (que buscam os Estados Unidos, por exemplo).

Na nossa região, entre 2018 e 2019, houve uma diferença de menos US$ 80 bilhões de financiamento e saída de capitais da região. Ou seja, existem os efeitos da pandemia na região e no mundo inteiro, mas nossa região já vinha com problemas.

BBC News Brasil – No relatório da Cepal, afirma-se que o desemprego será de cerca de 11% e que a pobreza aumentará. Com isso, surgem os novos pobres. Aqueles que já tinham saído das classes D ou E e chegado a C estão em risco pelo efeito da pandemia?

Bárcena– Acho que o aumento da pobreza virá exatamente destes setores que tinham conseguido sair da pobreza e da pobreza extrema e que vão voltar a esta condição.

Além disso, pelo que vemos da problemática da América Latina e do Caribe, é que muita gente que saiu da pobreza continua num estado de muita vulnerabilidade. E já não têm o perfil para os programas de apoio dos governos como, por exemplo, o Bolsa Família, as transferências, que exigem certas condições, para os mais vulneráveis.

Com o aumento de 186 milhões para 214 milhões de pobres, estamos falando de quase 30 milhões de pobres a mais na região. Nesse número, está incluída a pobreza extrema. A região tinha conseguido avançar, mas agora estamos preocupados porque estamos numa situação de retrocesso.

BBC News Brasil – A pandemia leva a região para a época de antes do boom das commodities (2000-2014)?

Bárcena– Não sei se voltaremos a aquela época, de antes das commodities. Com o boom das commodities conseguimos tirar mais de 40 milhões de pessoas da pobreza. Mas, definitivamente, temos um problema. Estamos voltando a um quadro no qual a região já tinha deixado para trás.Direito de imagemREUTERS – Economias como a do México têm uma relação muito direta com os Estados Unidos, que sofrerá forte baque

BBC News Brasil – O desemprego chegará a cerca de 11,5% na região, após incremento de 3,4% em relação a 2019, e o numero de desempregados chegaria a 37,7 milhões, ainda de acordo com o relatório, e o PBI regional terá forte retrocesso. Mas a Cepal ressalva que isto ocorrerá se a economia americana recuar 3,8%. O que pode acontecer então se a queda da economia dos Estados Unidos for ainda maior?

Bárcena– Se a economia americana (a maior do mundo) cair mais, o impacto na região será muito severo. E, principalmente, para economias como a do México e as da América Central que têm uma relação muito direta com os Estados Unidos.

Nós fizemos nossa projeção com este índice de 3,8%, mas o Fundo Monetário Internacional fez projeção de (queda) de 5,9%. A situação seria muito mais complicada.

BBC News Brasil – Quais são as alternativas para tentar amenizar a tragédia social na região?

Bárcena– Uma das coisas que já estão fazendo na região é proteger o emprego e os salários. Acho que essa é a parte mais importante das medidas que estão sendo tomadas pelos países. Manter o emprego dos trabalhadores formais, mas também dos informais.

A região tem 53% de pessoas que trabalham na informalidade. Essas pessoas também precisam de apoio. E as pequenas e médias empresas também precisam de proteção. Porque é importante evitar a perda da capacidade produtiva da região.

Na década de 1980, a década perdida da América Latina, levamos cinco anos para recuperar a renda per capita, entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990. Mas demoramos 25 anos para recuperar as cifras de pobreza.

O fundamental é proteger os mais vulneráveis. Em 2002, a região tinha cerca de 226 milhões de pobres e a região conseguiu diminuir esta cifra fortemente entre 2002 e 2014. E chegou a ter, em certo momento, 174 milhões de pobres. E agora estamos falando de 214 milhões de pobres (como efeito da pandemia).

BBC News Brasil – Esse número de 214 milhões de pobres, com os cálculos feitos a partir da queda de 3,8% da economia americana?

Bárcena– Exato. De 186 milhões de pobres a 214 milhões de pobres na América Latina (não incluindo o Caribe). Estamos falando agora de um aumento de quase 30 milhões de pobres.

BBC News Brasil 30 milhões neste ano?

Bárcena– Sim, de aumento.REUTERS/ADRIANO MACHADO – Os restaurantes estão na lista de empresas que sofrer mais com a crise.

BBC News Brasil – Em que países, principalmente, estão estes 30 milhões de novos pobres? No Brasil? No México? Que são os maiores países da região?

Bárcena– É difícil precisar. Nós fizemos o cálculo a partir da elasticidade do crescimento e do emprego, a partir do PIB. Mas ainda estamos calculando país por país.

Entre os informais estão manicures, eletricistas, os que vivem de fazer bicos. Eles poderiam ser os novos pobres? A pandemia dificulta o trabalho de muitos deles.

As pessoas que trabalham por conta própria não têm contrato, não têm salários fixos. Têm que sair todos os dias para buscar sua fonte de renda. Por um lado, são trabalhadores informais. O setor informal inclui muitos segmentos como vendedores ambulantes e os independentes, por exemplo. E muitos são vulneráveis.

BBC News Brasil – Agora também se afirma que esta será uma década perdida para a América Latina. (O FMI disse, na semana passada, que a região poderia ter uma nova década perdida que iria de 2015 a 2025). Qual a diferença para aquela dos anos 1980? A tecnologia? Ou a atual poderia ser mais dramática com problemas como o aumento da violência?

Bárcena– A década perdida dos 1980 começou com os problemas da dívida e dos preços do petróleo. Foi uma combinação de crises, que incluiu os índices de inflação alta e hiperinflação em vários países da região.

Foram criadas desde então instituições econômicas muito mais sólidas, como bancos centrais independentes. Acho que a crise de agora é diferente. Não é de bancos, é de pessoas.

O problema público é global, uma pandemia muito letal e existe muita incerteza. Não sabemos quanto tempo vai durar, quando será realmente o pico. Não temos respostas. E os países estão tentando reagir com estímulos fiscais muito importantes, mas a magnitude da queda deste ano só nos levaria ao que aconteceu em 1914.

BBC News Brasil – A Grande Depressão.

Bárcena– Exatamente. É tão grave o que está acontecendo que deveríamos pensar naquele período, 1914-1930.

Para especialista, problemas internos impedem que a China seja motor da economia global depois da crise

BBC News Brasil – Pode ocorrer agora aumento da criminalidade a partir da maior gravidade da situação social?

Bárcena– Acho que é o que os governos estão tentando evitar. Tentam melhorar a renda dos mais vulneráveis para que não exista um circulo vicioso de pobreza, violência etc.

BBC News Brasil – Além dos auxílios que os governos da região estão dando aos mais vulneráveis, o que mais pode ser feito?

Bárcena– A renegociação das dívidas das pessoas físicas. Ou seja, são ações de emergência. Mas é importante pensar também como vamos fazer depois da pandemia, que não sabemos quanto vai durar. Uma saída importante é como o Brasil está fazendo com a renda básica (auxílio de emergência) e pensar no médio prazo quais serão os setores mais dinâmicos que podem coordenar com os demais setores.

Acho que se buscará cada vez mais diversificar a produção em setores da indústria, como a automotiva, por exemplo. E com o home office deveremos pensar em como reduzir também a desigualdade digital. A área digital será cada vez mais importante. E ainda intensificar a maior integração comercial na região.

BBC News Brasil – A China tem forte presença na região. Foi lá que foi detectado o novo coronavírus e o país não crescerá como antes. Este fato também preocupa e contribui para a situação econômica complicada da região?

Bárcena– Acho, sim, preocupante. Nós estimamos que a China não crescerá mais que 1,8%. A China é um dos principais sócios comerciais da região e por isso sua reativação é muito importante. Acho que a China não voltará a ser o motor que foi depois da crise de 2008. Mas ainda assim terá papel importante.

BBC News Brasil – Por que a senhora diz que a China não será o mesmo motor que em 2008?

Bárcena– Essa agora é uma crise diferente. No caso da China, muitas empresas ficaram paradas (por causa das medidas contra o novo coronavírus). Não sabemos como será sua recuperação, se terá ou não as mesmas cadeias de valor que tinha antes. Não sabemos. Em 2008 e em 2009, a China tomou medidas importantes, com estímulos fiscais e crédito. A China colocou muito dinheiro naquela recuperação.

BBC News Brasil – A senhora entende que o confinamento devido ao novo coronavírus provoca maior desigualdade de gênero. Por quê?

Bárcena– Primeiro, 71% das pessoas dos serviços médicos são mulheres. Ao mesmo tempo, aumentou a pressão contra as mulheres com a pandemia. Agora, elas são responsáveis pelos adultos, pelos idosos, pelas crianças. Elas devem apoiar seus filhos na parte escolar, porque às vezes os parceiros ajudam e às vezes não.

Aumentou a pressão contra as mulheres nas casas. Ou porque têm que fazer home office ou porque o trabalho aumentou porque as crianças não estão indo ao colégio. Então, elas têm uma pressão dobrada. Além disso, existe a violência doméstica e esse é um assunto muito preocupante nessa pandemia.

BBC News Brasil – A violência de gênero na quarentena. Feminicídio…

Bárcena– Feminicídio, exatamente. Elas são as que mais estão sofrendo os efeitos desta pandemia.

BBC News Brasil – Mas a presença de 71% de mulheres entre os profissionais da área de saúde não seria algo positivo?

Bárcena– Claro que é positivo. Mas por isso mesmo elas precisam de mais apoio e que a sociedade entenda que é muito importante apoiar as mulheres neste momento tão forte. Porque hoje as mulheres têm maior pressão e mais responsabilidade e são as que, de alguma maneira, mais estão sofrendo esta crise.

BBC News Brasil – Ou seja, sobrecarga de trabalho e salários baixos em comparação com cargos similares com homens.

Bárcena– Às vezes, elas não têm um salário fixo ou quando têm salário existe a diferença salarial com os homens. O que nos preocupa é o aprofundamento das desigualdades provocada pela pandemia. As mulheres, os povos indígenas, as pessoas que não têm nenhum tipo de assistência de saúde ou previdência social.

BBC News Brasil – A crise da pandemia evidenciou a necessidade de investimentos na saúde pública?

Bárcena– Sim. E como os países não estavam investindo o que era recomendável. A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que é preciso investir 6% do PIB e nossos países estão investindo cerca de 2% ou 2,5% do PIB na área da saúde. E isso é muito importante.