Uruguai diz que Serra tentou ‘comprar voto’ do país para evitar que Venezuela assuma Mercosul

‘Serra disse que, se suspendêssemos transferência, nos levaria em negociações com outros países’, disse chanceler; Itamaraty ainda não comentou declarações.

“Não gostamos muito de que Serra tenha vindo visitar o Uruguai para nos dizer — ele fez disso algo público, por isso digo — que vinha com a pretensão de que se suspendesse a transferência [da Presidência do Mercosul] e que, além disso, se nós a suspendêssemos, nos levaria em negociações com outros países, tentando comprar o voto do Uruguai”, disse Novoa durante a Comissão de Assuntos Internacionais de Deputados na última quarta-feira (10/08), cuja declaração transcrita foi publicada pelo jornal local El País, que teve acesso ao documento.

Chanceler disse que Serra tentou “comprar voto” do Uruguai para evitar transferência de Presidência do Mercosul para Venezuela

Na visita ao país vizinho no início de julho, Serra esteve acompanhado do ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso para uma reunião com o presidente uruguaio Tabaré Vázquez. Em entrevista coletiva de imprensa, Serra afirmou que o Brasil faria uma “grande ofensiva” comercial na África e no Irã e queria que apenas o Uruguai, entre todos os outros países do Mercosul, participasse como “sócio”. Para tanto, o Uruguai deveria suspender a transferência da Presidência rotativa do bloco, o que a nação cisplatina não fez.

“O presidente o respondeu de maneira clara e contundente: o Uruguai cumprirá com a normativa [do bloco] e vai convocar a mudança da Presidência”, informou Novoa, dizendo que a atitude de Serra “incomodou muito” o presidente Vázquez.

“O Uruguai não iria permanecer na presidência de jeito nenhum; atendendo a norma, em seis meses, deixaríamos o cargo”, afirmou.

Opera Mundi procurou o Itamaraty, porém não obteve resposta até a conclusão deste artigo.

O ministro ainda disse que Montevidéu entende que a “Venezuela é o legítimo ocupante da presidência pró-tempore, portanto, quando convocar uma reunião o governo uruguaio irá. Se os outros não forem, a responsabilidade será deles”.

Para ele, Brasil, Paraguai e Argentina — que não reconheceram a Venezuela à frente do bloco — querem “fazer bullying” contra o país. “Eu digo com todas as letras. Eles pulam o jurídico, que contém o corpo normativo [do Mercosul], e, alegando razões que não estão aqui, querem eludir, erodir, fazer bullying contra Presidência da Venezuela. Esta é a pura verdade”, afirmou.

No entanto, o ministro uruguaio ponderou que o impasse pelo cargo do Mercosul “não poderá se repetir em dezembro, quando a Venezuela tenha que passa-lo à Argentina”.

Impasse na Presidência rotativa

Quando Montevidéu anunciou o fim de sua liderança à frente do bloco sul-americano, em 29 de julho, a Venezuela automaticamente assumiu a Presidência, apenas informando as chancelarias dos outros membros e realizando sua cerimônia de posse no dia 5 de agosto.

A atitude incomodou Brasil, Paraguai e Argentina, que não viam o processo como algo automático e alegaram que a nação passa por problemas econômicos e políticos, não cumprindo com os requisitos para liderar.

Em consequência, os três países rejeitaram a Presidência venezuelana e sugeriram um governo coletivo comandado por um conselho de embaixadores. Além disso, o Paraguai pediu uma “revisão jurídica” do protocolo de adesão de Caracas, após afirmar que houve “descumprimento das obrigações contidas nos referidos instrumentos”.

Em resposta, o Uruguai, que defende o direito de a Venezuela assumir, afirmou que “não está prevista em nenhum lugar uma Presidência coletiva”, apesar de reconhecer que o país não cumpriu “compromissos” do Protocolo de Adesão do Mercosul.

A acusação, contudo, foi rechaçada por Caracas, que classificou o pedido paraguaio como uma “manobra falsária e antijurídica” por parte da nação, aliada ao Brasil e a Argentina.

A Venezuela “não só incorporou grande parte do compêndio normativo do Mercosul” como “igualou, e na maioria dos casos superou, os Estados Partes, que, estando desde o início da fundação do Mercosul, não internalizaram todo seu acervo normativo”, disse a chancelaria venezuelana por meio de comunicado divulgado na segunda-feira (15/08).
Via Ópera Mundi

Eleições 2016:O voto não é tão racional. Veja como alguns vieses influem na sua decisão

Todos somos vítimas de vieses cognitivos, que são interpretações ilógicas da informação disponível. 

O voto não é tão racional. Veja como alguns vieses influem na sua decisão
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“Mais que erros, são atalhos, mecanismos que usamos todos os dias e funcionam muito bem para tomar decisões rápidas, mas, às vezes, nos conduzem ao erro”, explica Helena Matute, psicóloga espanhola da Universidade de Deusto, em Bilbao.

Não é fácil corrigi-los, sobretudo porque na maior parte do tempo nem sequer estamos conscientes deles. A única coisa que podemos fazer é “estar alerta e ser mais críticos”, diz Matute. Em política, a situação se agrava porque se adicionam elementos como emoção e sentimento de pertencimento.

Estes são alguns dos vieses que podem influir em nosso voto:

1. Viés de confirmação: só fazemos isso com os dados que endossam nossas ideias e somos céticos com a informação que as contradiz. Como explica Michel Shermer em The Believing Brain, primeiro nos identificamos com uma posição política e, a partir daí, interpretamos a informação para que se encaixe em nosso modelo de realidade.

2. Efeito auréola: confundimos aparência com essência. Quando nos chama a atenção um aspecto positivo de alguém (seu atrativo físico, por exemplo), tendemos a generalizá-lo para toda a pessoa. Também acontece quando escutamos opiniões políticas de atores e cantores: estendemos sua influência a áreas que não têm nada a ver com seus dotes artísticos.

3. Efeito de enquadramento: tendemos a extrair conclusões diferentes conforme o modo como os dados são apresentados. Matute nos dá um exemplo: “Se você diz que a carne tem 30% de gordura, ninguém a comprará. Mas os resultados mudam se você disser que é 70% magra, apesar de dar na mesma”.

4. A correlação ilusória: é a tendência a assumir que há relação de causa e efeito entre duas variáveis, embora não haja dados que confirmem isso. Ocorre especialmente no caso dos estereótipos e nos leva, por exemplo, a subestimar a proporção de comportamentos negativos em grupos relativamente pequenos.

5. Efeito Barnum ou Forer: é comum os candidatos se dirigirem a “esses cidadãos honrados e trabalhadores que enfrentam as adversidades e estão fartos da corrupção”. É fácil se identificar, mas somente porque tendemos a tratar as descrições vagas e genéricas como se fosse específicas e detalhadas. Os horóscopos parecem críveis por causa desse viés.

6. Custo irrecuperável: é difícil para nós mudar o voto quando estamos há anos apostando nos mesmos. Por isso as ideologias são tão rígidas. Em relação a esse viés, Matute acrescenta o efeito de ancoragem, que se dá quando opinamos em voz alta. “Já nos posicionamos, por isso custa mais mudar de opinião.”

7. Viés de atribuição: nós definimos nosso voto porque somos inteligentes e estamos informados, mas os demais não têm nem ideia e estão cheios de preconceitos.

8. Viés de autoridade: nós nos fixamos mais em quem diz algo do que em quem não diz. Este é um exemplo de viés que funciona com frequência. Faz sentido confiar em um médico, por exemplo, mas o que acontece quando dois especialistas sustentam opiniões contrárias, como ocorre atualmente em política?

9. Efeito arrastão: nós nos deixamos levar pelo que o nosso entorno opina. Se todos os nossos amigos são de esquerda, será mais difícil dizer que somos de direita (a não ser que gostemos de ser do contra).

10. Falso consenso: superestimamos o grau em que outras pessoas estão de acordo conosco.

11. O ponto cego: não estamos conscientes de nossos próprios vieses, embora os dos outros pareçam evidentes.
El País/Jaime Rubio Hanckoc