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A ESQUERDA LATINO-AMERICANA PRECISA DAR UMA RESPOSTA SOBRE A AMAZÔNIA: SERÁ QUE ELA CONSEGUE REJEITAR PETRÓLEO, PECUÁRIA E MINERAÇÃO?

O CAPÍTULO DA história da América Latina que teve início em 1998 com celebrações na Venezuela terminou com um golpe e violência na Bolívia. Como ocorre com todas as ondas, a “maré rosa” recua para revelar um terreno transformado. O cenário do movimento de esquerda que produziu governos socialistas variados em uma dúzia de países está quebrado e desiludido. As Américas Central e do Sul enfrentam uma direita ressurgente e o retorno da austeridade, muitas vezes por meio de ataques com gás lacrimogêneo. Esse estado de desordem marca também o terreno literal do continente: as florestas e montanhas foram abertas e rasgadas, seus minerais e hidrocarbonetos enviados para portos e embarcados para o exterior em nome de um projeto socialista cujas realizações se mostraram frágeis, temporárias e superficiais.

Compreensivelmente, nos últimos tempos, a preocupação global com o futuro da Amazônia se concentrou no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro acelerou a destruição da floresta tropical com alegria fascista. Mas, sob o arrepiante desprezo desse regime pela natureza, tratando-a como sendo apenas um estoque de recursos a serem colhidos, existe uma verdade inquietante: sua agenda de extração desenfreada representa uma diferença de grau e estilo, e não de tipo, daquela adotada nas últimas duas décadas por todos os principais países amazônicos. Isso inclui os governos da maré rosa de Venezuela, Bolívia, Equador e Brasil, que promoveram a mineração, a extração de petróleo e a agricultura industrial com a mesma diligência que seus colegas neoliberais no Peru e na Colômbia.

Examinar esse legado não é descartar os ganhos sociais que ele tornou possível, ainda que brevemente. Esses ganhos foram reais e, em alguns casos, impressionantes. Os novos gastos estatais em saúde, educação e programas de subsídios por bloco melhoraram a vida de muitos milhões de pessoas em uma região definida pela imensa desigualdade e uma profunda pobreza endêmica. E, no entanto, como muitos observaram desde o início, esses ganhos só poderiam ser efêmeros, com base nos aumentos orçamentários de um boom de commodities único de uma década impulsionado pela China e, em menor grau, pela Índia. Mesmo antes dos preços do minério e do petróleo começarem a cair em 2012, as coalizões por trás de muitos governos da maré rosa começaram a desmoronar sob as contradições e trocas do que o cientista social uruguaio Eduardo Gudynas, um crítico precoce e influente da maré rosa à esquerda, chamado “neoextrativismo”. Acabou que essa versão do extrativismo, apesar de defendida de varandas de palácios ornadas com bandeiras socialistas e anti-imperialistas, não era tão diferente do modelo praticado por séculos de domínio colonial, militar e neoliberal. Sua principal inovação foi negociar cortes maiores nas crescentes exportações de recursos primários.

Campo de mineração de ouro informal Esperança IV, perto do território indígena Menkragnoti, no Pará, em 28 de agosto de 2019.

Campo de mineração de ouro informal Esperança IV, perto do território indígena Menkragnoti, no Pará, em 28 de agosto de 2019.
Foto: João Laet/AFP via Getty Images

Os rendimentos dos pontos percentuais extras foram muito bons enquanto duraram. Eles também obscureceram o fracasso em avançar um projeto de esquerda democrática para desafiar cinco séculos de espoliação, desapropriação e dependência sistêmicas. O neoextrativismo “possibilitou formas importantes de inclusão socioeconômica e empoderamento político para as massas, ao mesmo tempo em que prejudicou transformações mais radicais”, conclui Thea Riofrancos em “Resource Radicals” (Radicais de recursos), seu próximo estudo sobre a política do extrativismo da maré rosa.

Na Bolívia e no Brasil, as florestas estão em chamas.

No lugar dessas transformações mais radicais, o neoextrativismo acelerou o ciclo de destruição exigido pelo papel histórico da região na economia global. As consequências políticas e ecológicas disso foram mais acentuadas nas florestas tropicais, florestas secas e nas cordilheiras ocidentais que são as fontes do sistema amazônico. À medida que os leilões de mineração e petróleo se multiplicavam, as coalizões de trabalhadores urbanos, pequenos agricultores e povos indígenas se separaram.

“Esquerda ou direita, a ideologia é a mesma: roube nossa terra e destrua o meio ambiente”, disse José Gregorio Díaz Mirabal, coordenador venezuelano da federação de organizações indígenas da Amazônia, ou Coica. “Na Bolívia e no Brasil, as florestas estão em chamas.”

O RELATO DESSA história ocorre, como tudo agora, à luz da crise climática. Como o extrativismo condena a floresta amazônica, um bioma central para qualquer solução concebível para essa crise, uma nova esquerda latino-americana terá de rejeitá-la.

Essa ideia não é nova. Os debates sobre como a América Latina poderia costurar suas veias e criar alternativas a um modelo de “desenvolvimento” ocidental baseado nas exportações de commodities foram centrais para o firmamento de movimentos sociais que os partidos da maré rosa levaram ao poder. Durante os anos 1990, ativistas, estudiosos e figuras políticas da região se empenharam em buscar críticas à globalização e à armadilha extrativista. Antes de Hugo Chávez anunciar a chegada do nacionalismo de recursos “anti-imperialista”, assegurando a estatura da Venezuela e financiando programas antipobreza com rendimentos do petróleo e de projetos de mineração no sul do país, as figuras mais inspiradoras da esquerda latina e global foram os zapatistas no sul México, que exigiam um “mundo onde cabem muitos mundos”. Em centenas de reuniões em cidades pequenas e grandes capitais – das quais o Fórum Social Mundial era apenas o maior –, as bandeiras de arco-íris de grupos indígenas recém-politizados misturavam-se a símbolos socialistas e bolivarianos nos debates sobre como construir uma nova América Latina, que seria socialmente justa e ecologicamente sábia.

Cerca de 30 mil pessoas se reúnem em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 2002, em uma marcha para inaugurar oficialmente o Fórum Social Mundial de cinco dias.

Cerca de 30 mil pessoas se reúnem em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 2002, em uma marcha para inaugurar oficialmente o Fórum Social Mundial de cinco dias. Foto: Douglas Engle/AP

O novo pensamento encontrou sua expressão mais completa no conceito de buen vivir. Como princípio político ou ideologia organizadora, “viver bem” é uma espécie de fusão de ideias indígenas e ocidentais sobre limites, solidariedade, fontes de felicidade humana e equilíbrio da natureza. A expressão sugere uma forte crítica ao mercado, ao pensamento de curto prazo, o materialismo e a exploração das pessoas e do meio ambiente. Foi promovida e adotada pelos governos de Cuba, Venezuela, Argentina, Paraguai, Uruguai e Peru, mas está mais estreitamente associado à Bolívia e ao Equador. Os ex-presidentes Evo Morales e Rafael Correa fizeram campanha em plataformas buen vivir e consagraram o conceito em suas respectivas constituições da maré rosa.

O uso de símbolos e ideias indígenas estava dilapidado quando conheci Alberto Acosta em uma marcha de protesto na cidade de Zamora, no sul do Equador, no final de 2012. Economista de alta estatura, com uma postura um tanto severa, Acosta foi o primeiro ministro de minas e energia de Correa e presidiu a convenção que ganhou as manchetes globais pela inclusão do buen vivir e seus semelhantes “direitos da natureza” na constituição de 2008. Três anos depois, Acosta havia deixado o governo e, desde então, presidiu diferentes tipos de conferências, como a “Movimentos sociais pela democracia e pela vida”, reunidas para organizar a oposição de esquerda a Correa e ao neoextrativismo da maré rosa.

Na manhã em que o entrevistei, ele falou enquanto marchava atrás da bandeira de sete partidos aliados de esquerda que haviam sido fundados em oposição ou deixado a coalizão “Unidade” de Correa. “Não há nada de novo no plano de desenvolvimento de Correa”, ele me disse. “Ele cita os teóricos das escolas dependentista, mas sua ideia é o mesmo modelo econômico de periferia central de exportação de matérias-primas. Ele substituiu o tio Sam pelo tio Chen” – a China – “para sustentar seus programas sociais e sua posição política à custa do desenvolvimento real. Nós resistimos a esse modelo da mesma forma como resistimos ao neoliberalismo.”

Como o extrativismo condena a floresta amazônica, uma nova esquerda latino-americana terá de rejeitá-la.

Eu estava no Equador na época fazendo uma reportagem que ilustrava a crítica. O governo de Correa havia aprovado planos para uma megamina de cobre e ouro a céu aberto na Cordilheira do Condor, um importante ponto biológico, corredor de espécies e divisor de águas no noroeste da Amazônia que abrigava milhares de povos indígenas, majoritariamente Shuar, e agricultores mestiços. A mina, então nos estágios iniciais de construção por um conglomerado chinês chamado ECSA, já estava deslocando comunidades. Quando concluída, deslocaria muito mais e poluiria a terra e a água de quem lá permanecesse. Correa criminalizou a oposição ao projeto e atacou seus críticos como patetas e agentes imperialistas. Em Quito, um ativista da ONG Clínica Ambiental me mostrou o nome de centenas de ativistas que estavam na prisão ou encarcerados. “Como Correa representa a esquerda, fazer oposição a ele rende acusações de se estar apoiando o antigo regime que levou todos à falência. Mas ele provou ser neoliberal com toques redistributivos. Ele evitou pactos com os EUA, mas vendeu o país para a China.”

Na Bolívia, uma versão mais suave da mesma dinâmica começou a ocorrer em 2012. A expansão da mineração e da agricultura industrial pelo governo de Morales causou deserções precoces de figuras-chave nos movimentos sociais forjados durante as chamadas guerras de água e gás do início dos anos 2000, antes de levar Morales ao poder. A grande oportunidade veio em 2011, quando Morales anunciou planos para construir uma estrada de 300 quilômetros através das florestas tropicais primárias do território indígena Isiboro Sécure. O governo alegou que seu objetivo era fornecer melhores serviços sociais para aldeias remotas, mas os grupos indígenas bolivianos entenderam corretamente a rodovia como parte de um projeto de longo prazo para industrializar as florestas de terras baixas, eventualmente conectando-as à rede de transporte da Amazônia encontrada nos documentos de planejamento de um superprojeto liderado pelo Brasil chamado Iniciativa para a integração da infraestrutura regional da América do Sul, ou IIRSA. (A rodovia é financiada pelo BNDES e acompanha de perto as terras sobre as quais a gigante petrolífera brasileira Petrobras detém direitos de exploração.) À medida que a resistência se espalhava, Morales invadiu os escritórios de grupos indígenas que se opunham à rodovia e substituiu à força os líderes por aliados seus. Ele acusou publicamente seus críticos, incluindo o antigo presidente da Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia Adolfo Chávez de serem “agentes da USAID” – a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional – e os acusou de crimes graves. Eles se esconderam até que a Suprema Corte do país reverteu as acusações.

Da esquerda para a direita: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente do Equador, Rafael Correa, chegam a um desfile militar em comemoração aos 200 anos do início do movimento de independência da Bolívia em La Paz, em 16 de julho de 2009.

Da esquerda para a direita: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente do Equador, Rafael Correa, chegam a um desfile militar em comemoração aos 200 anos do início do movimento de independência da Bolívia em La Paz, em 16 de julho de 2009.
Foto: Patricio Crooker/AP

“Nós apoiávamos Morales e Correa porque os partidos de esquerda prometeram respeitar nossos direitos, mas eles quebraram as promessas e enfraqueceram nossas organizações”, disse-me Chávez recentemente. “Tínhamos um plano coerente para ajudar o governo a construir indústrias sustentáveis que protegessem as florestas e os rios. Os padrões nunca mudaram. Ainda estamos sujeitos a transnacionais que têm igualmente relações com partidos de esquerda e direita igualmente.”

Não foram apenas os autodeclarados países bolivarianos da maré rosa que adotaram o neoextrativismo. No Brasil, os governos do Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff reforçaram as proteções em grandes áreas da Amazônia, ao mesmo tempo em que adotaram a visão de longo prazo da IIRSA: uma região pontilhada de barragens para abastecer as operações de mineração e conectada por estradas e ferrovias para facilitar o fluxo cada vez maior de matérias-primas para os portos nas costas do Atlântico e do Pacífico. Nas duas administrações, a mineração se expandiu por todo o país, inclusive na Amazônia. Mas foi outra expansão mais silenciosa que provavelmente teve o maior impacto climático: o “deserto verde” da agricultura industrial continuou a consumir as florestas secas e savanas remanescentes do Cerrado, um sumidouro de carbono que antes era maciço, mas que desaparece rapidamente, que se espalha por meia dúzia de estados no planalto central do Brasil.

O desafio enfrentado por uma esquerda pós-extrativista transformacional é assustador. Para tomar e manter o poder, precisará responder à acusação de Correa de que os defensores do pós-extrativismo querem que os pobres do continente vivam como “mendigos em um saco de ouro”. Será necessária uma visão e um plano para resolver o enigma proposto pelo acadêmico de esquerda e crítico de Correa, Pablo Ospina Peralta: “Como se revoluciona a economia quando o governo depende da saúde da economia que procura revolucionar?”
Quaisquer que sejam as especificidades da resposta, o caso se beneficiará das falhas de séculos de extrativismo. A América Latina, onde foi concebido o condomínio fechado, é a região mais desigual do mundo, com profunda pobreza estrutural cada vez mais agravada pela poluição e pelos efeitos da crise climática. O fato de que essas questões podem ser fortemente emparelhadas ficou visível no mês passado nas ruas de Quito, no Equador. Após uma greve de 11 dias em protesto contra um pacote de austeridade anunciado, o presidente Lenin Moreno, que sucedeu Correa em 2017, cedeu ao encontro com líderes indígenas que estavam à frente dos protestos de rua em oposição à proposta de cortes sociais e reformas trabalhistas – e pelo fim da exploração de petróleo e da mineração na Amazônia. No Chile, onde a devastação causada por décadas de mineração desenfreada tornou-se impossível de ignorar, manifestantes urbanos estão agitando bandeiras mapuches, cujo simbolismo colorido de buen vivir retrata sangue indígena, terra, sol, montanhas cobertas de neve e esperança.

A América Latina detém quase metade do cobre e da prata do mundo, um quarto do níquel e da bauxita, e reservas dispersas de metais “tecnológicos” usados em computadores, painéis solares e células de combustível de última geração.

“Algo está se agitando”, disse Arturo Escobar, estudioso colombiano-americano cujo livro de 1995 “Encountering Development (Encontrando o desenvolvimento)”, deu forma a debates emergentes sobre desenvolvimento e crescimento. “Existem fissuras visivelmente crescentes no consenso dominante sobre o modelo político, econômico e de desenvolvimento, incluindo o ‘consenso sobre commodities’ dos anos 2000 e 2010 que causou uma devastação ecológica maciça. As pessoas estão novamente falando de uma crise civilizacional, que, na melhor das hipóteses, leva à possibilidade de uma nova época que questione as antigas suposições e se mova em direção a uma política de buen vivir – com orientação mais comunitária, ecológica e espiritual.”

Pode parecer absurdo que possa surgir um movimento para construir uma nova ordem social e satisfaça as necessidades humanas enquanto protege e regenera os rios e florestas. Mas não é mais irrealista do que acreditar que uma economia baseada no consumo e no crescimento possa alcançar o equilíbrio ecológico.

Dragas no rio Madre de Dios, no território indígena de Tacana, perto de La Paz, na Bolívia, em 31 de agosto de 2019.

Dragas no rio Madre de Dios, no território indígena de Tacana, perto de La Paz, na Bolívia, em 31 de agosto de 2019.
Foto: Ernesto Benavides/AFP via Getty Images

As chances de sucesso de tal movimento dependerão do sucesso de movimentos aliados em outros lugares. Os mercados de commodities escreveram grande parte da história da América Latina, e a demanda global por matérias-primas continuará a exercer uma poderosa influência. Isso será verdade mesmo em uma versão “esverdeada” do sistema atual. Uma mudança global dos combustíveis fósseis pouparia a Amazônia de mais devastação do desenvolvimento de petróleo e gás, mas não de ser aberta para monoculturas ou destruída na busca por metais raros para construir iPhones com carregamento solar atualizados anualmente e o mais recente SUV de desempenho totalmente elétrico da Jaguar. Um sistema baseado em crescimento que funcione em uma rede descarbonizada ainda exigirá insumos massivos dos materiais primários encontrados nos solos e rochas dos nove países da Amazônia. A América Latina detém quase metade do cobre e da prata do mundo, um quarto do níquel e da bauxita (alumínio), e reservas dispersas de metais “tecnológicos” usados em computadores, painéis solares e células de combustível de última geração. Em um artigo recente sobre a indústria de lítio da Bolívia para a New Republic, a colaboradora do Intercept, Kate Aronoff, observa que alimentar a economia atual com energias renováveis consumiria as reservas mundiais de lítio em um período muito curto de tempo. Tentar manter uma versão “verde” da sociedade de consumo global pode levar a uma disputa por metais raros capaz de fazer com que as ondas de extrativismo anteriores pareçam suaves em comparação.

Se a América Latina se recusasse a abrir suas veias para esses recursos, encerraria seu papel como banco de recursos global, que começou de maneira não consensual com as economias escravistas do século XVI, que carregavam navios europeus com ouro, prata e açúcar. Existem pequenos precedentes para essa recusa. El Salvador proibiu toda a mineração de metais em 2017 para proteger sua água. A Costa Rica há muito tempo aplica uma proibição limitada de mineração. Em todos os países onde a mineração é desenfreada, os movimentos estão se organizando por trás de agendas pós-extrativistas, guiadas pelos valores ecossocialistas do buen vivir.

Os grupos indígenas são apenas parte deste projeto, mas estão na frente e desempenham um papel único. Eles trazem um conhecimento vivo de alternativas e são os que estão ameaçados mais diretamente com a extinção. Uma das vozes indígenas mais proeminentes de um curso diferente é Juan Carlos Jintiach, coordenador de planejamento econômico da COICA e, muitas vezes, a única voz indígena presente em ambientes como a Convenção sobre Diversidade Biológica, as Nações Unidas e o Banco Mundial. Ele não é ingênuo nem resignado, mas se concentra nas gestações das emergências sobrepostas do momento.

“Este é um momento confuso e arriscado”, disse Jintiach. “É um momento que exige mobilizações sociais que transcendam esquerda e direita e nos conectem uns aos outros e com a terra. O buen vivir contém os conceitos, mas é uma linguagem que a outra sociedade nem sempre entende. Estamos construindo alianças para mostrar que há outra maneira. Não é nossa luta, é de todos. Neste momento, há uma tempestade, uma forte tempestade. Mas, no momento em que acordarmos, veremos o céu.”

Alexander Zaitchik/ITB-Tradução: Cássia Zanon

Protestos,Blog do Mesquita 01

Colômbia: A morte de um jovem símbolo dos protestos na Colômbia, atingido por bomba de gás da polícia

Manifestante de 18 anos foi atingido durante manifestação pacífica contra o Governo de Iván Duque. Seu óbito foi confirmado no dia em que ele se formaria no ensino médio.

Jovens fazem homenagem a Dilan Cruz, atingido por bomba de gás lacrimogêneo na Colômbia. J. ZARAMA (EFE)

Dilan Cruz, jovem que se tornou o rosto simbólico dos protestos na Colômbia, morreu justamente no dia em que se formaria no ensino médio, na segunda-feira, e enquanto muitos estudantes como ele continuavam marchando pelas ruas de Bogotá com panelas e palavras de ordem contra o Governo de Iván Duque e o Esquadrão Móvel Antimotins da polícia, que no último sábado disparou contra Cruz no centro da capital colombiana durante uma passeata pacífica.

A notícia correu como um raio doloroso entre milhares de jovens colombianos que passaram diante do centro médico onde ele estava internado. Nos últimos dias, lhe dirigiam gritos de “Força Dilan” e “Somos todos Dilan”, rezavam e lhe deixavam flores e velas em seu nome. No domingo, seu estado era grave, mas muitos ainda tinham esperanças na sua recuperação. Na noite de segunda, porém, os médicos alertaram que seu estado era crítico, e finalmente anunciaram seu óbito.

O presidente Iván Duque lamentou a morte do estudante, de 18 anos. “Expressamos nossas sinceras condolências à sua mãe, seu avô e suas duas irmãs. Reitero minha solidariedade a esta família”, disse o mandatário, que no sábado se viu obrigado a falar do caso e anunciar uma investigação contra o policial envolvido.

Esse não foi a primeira ocorrência conhecida de uso excessivo da força policial nos atuais protestos, mas se tornou a mais simbólica da atual onda de manifestações, iniciada há cinco dias. Apesar de terem surgido alguns focos isolados de violência, as manifestações —sobretudo os panelaços— foram majoritariamente pacíficas. A indignação popular após a divulgação das imagens do jovem Cruz caindo no asfalto obrigou o presidente colombiano a se pronunciar e a lamentar os fatos. “Ordenei a investigação urgente deste caso para esclarecer rapidamente o ocorrido e determinar responsabilidades. Nossa solidariedade à sua família”, escreveu Duque no Twitter.

Dilan cursava o último ano do ensino médio no Colégio Ricaurte IED, na zona sul da capital. Sua irmã, Denis Cruz, recebeu seu diploma em um ato emotivo. “Queremos que isso que aconteceu com Dilan não seja motivo para mais distúrbios, para armar mais violência, absolutamente, queremos que isso seja um estopim para acabar com a violência, com tudo de ruim que está acontecendo neste momento no país”, disse a moça à beira das lágrimas durante a cerimônia de formatura. “Assim como todos, Dilan também quer a paz”, afirmou.

Depois de ouvir as palavras de Denis, com quem tinha conversado por telefone na véspera, o presidente Duque publicou nesta segunda-feira um comunicado manifestando que se identifica “plenamente com sua mensagem”. “Denis pediu que tenhamos Dilan em nossas orações, e assim fizemos. Estou seguro de que milhões de colombianos estamos elevando preces a Deus por sua vida e por sua família”, disse o mandatário minutos antes do anúncio da morte do jovem.

Esse fato, junto a “um significativo número de pessoas detidas arbitrariamente e feridas gravemente”, já levou a oposição e coletivos de advogados a alertarem a Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre a grave situação dos últimos dias na Colômbia. O caso de Dilan não é único. A polícia admitiu que houve 12 questionamentos, e em Cali cidadãos denunciaram que Duván Villegas, outro estudante que levou um tiro durante o toque de recolher nessa cidade, está sem mobilidade nas pernas, em estado delicado.

Protestos,Blog do Mesquita 01

O “milagre chileno” se choca com a realidade

Custo de vida, salários, previdência e os sistemas privados de saúde e educação se sobrepõem à melhora da renda no imaginário coletivo do país sul-americano.

Manifestante segura cartaz onde se lê: “Viver no Chile custa o olho da cara”.
Manifestante segura cartaz onde se lê: “Viver no Chile custa o olho da cara”.

Eat the rich, coma os ricos. Poucas pichações são tão eloquentes sobre o momento que atravessa um país como a que apareceu recentemente na fachada de um hotel em Santiago. Uma mensagem direta, em inglês —para que ninguém, nem dentro nem fora, pudesse alegar a barreira idiomática— e com dois claros destinatários: as classes acomodadas de uma nação que arde em protestos há três semanas, e os turistas e homens de negócios que visitam a capital chilena num de seus períodos mais conturbados em muitos anos.

O Chile quer justiça social e a quer já, depois de décadas de promessas descumpridas e de, nas palavras da economista do desenvolvimento Nora Lustig, “um modelo privatizador dos serviços públicos que deixou muita gente de fora”. O ano de 2019, como dizia outra das muitas pichações políticas que se multiplicam nas ruas da cidade, será recordado como o momento em que “o Chile acordou”.

As receitas econômicas aplicadas nas últimas quatro décadas resultaram em uma onda de elogios dos principais organismos internacionais, consagrando o Chile com a bitola do “milagre econômico” da região por antonomásia, por suas saudáveis taxas de crescimento econômico e por ter obtido, em tempo recorde, uma das maiores rendas per capita da América Latina – posição eternamente em disputa com o Panamá. Mas o caso chileno é paradigmático de uma máxima que nunca convém esquecer na economia: que a renda per capita – que levou um bom número de economistas a compará-lo à Coreia do Sul, talvez o grande caso de sucesso contemporâneo em escala global, não é suficiente como termômetro do bem-estar real e da fragmentação socioeconômica de um território.

A era dourada do crescimento chileno descansou sobre dois pilares: o cobre – é o maior produtor global, uma bênção da qual, entretanto, não conseguiu se diversificar com sucesso – e uma fé inabalável no livre mercado: lidera os rankings latino-americanos em facilidade para fazer negócios, e a ideologia do laissez faire –marca da casa da escola de Chicago, que, como constata Lisa North, professora emérita de Ciência Política na Universidade de York (Toronto), encontrou no Chile dAugusto Pinochet um terreno especialmente fértil para sua entrada na região. “Houve, sobretudo no exterior, uma supervalorização do modelo chileno: se o processo liberalizante tivesse sido acompanhado de uma maior concorrência econômica, o bem-estar resultante teria sido muito maior. Aqui, porém, ocorreu uma alta concentração, de modo que a riqueza ficou em poucas mãos”, critica Gonzalo Martner, ex-embaixador e ex-presidente do Partido Socialista.

Longe dos padrões da OCDE – “com os quais deveria se comparar o Chile de hoje”, acrescenta Lustig, professora na Universidade Tulane (Nova Orleans, EUA) –, mas acima de outros grandes países americanos onde a desigualdade campeia, como o México e os EUA – a disparidade de renda tem caído, mas permanece em níveis “inaceitáveis”. A isso se soma uma classe média (ao menos de acordo com os dados) cada vez mais descontente. “Com o modelo liberal e o Estado apenas como subsidiário, que só intervém quando a pessoa não tem praticamente nada, há um grupo que não é nem pobre nem rico, que quase não tem acesso a serviços públicos”, observa o consultor independente de administrações públicas Andras Uthoff. Os cartões-postais do mal-estar surgem assim que se desce à rua:

Emprego, custo da vida e educação

O caso de Raquel Sotomayor, de 30 anos e moradores de Puerto Montt – mais de 1.000 quilômetros ao sul de Santiago –, e seu marido é paradigmático de três facetas do problema social chileno: emprego, custo da vida e educação. Formada há dois anos num curso profissionalizante de assistente social, tem dois filhos pequenos, de um e dois anos, e não encontra trabalho. Seu marido, Jonathan (31 anos), ganha 420.000 pesos chilenos (pouco menos de 2.200 reais, compatível com a média da população, cerca de 2.250 reais, segundo os dados reunidos pela Fundação Sol) como professor de Educação Física. Para poder estudar em uma universidade pública, fez um financiamento bancário com aval do Estado, uma prática comum entre os estudantes chilenos. “Nasceu nossa menina, atrasamos uma mensalidade, aí a mensalidade dobrou. Somando os juros, ficou impossível pagarmos”, conta Sotomayor. Sua dívida hoje ultrapassa os 11 milhões de pesos (57.300 reais) e cresce a cada dia por causa dos juros. Em abril do ano que vem, será ela que terá que começar a pagar o seu financiamento, sem nem sequer ter um trabalho.

O encarecimento generalizado da vida agrava sua precariedade. Na falta de estatísticas detalhadas, vale o método empírico: um passeio por Santiago e outro pela Cidade do México bastam para perceber uma importante disparidade em alguns dos principais produtos básicos, com preços mais semelhantes com os de uma capital europeia que os de uma cidade latino-americana. Santiago é, segundo a consultoria Mercer, a terceira metrópole latino-americana mais cara para viver, depois de Montevidéu e San Juan (Porto Rico).

Três coordenadas temporais sobre a origem dos problemas de emprego e educação: em 1979, a ditadura de Pinochet – sob a batuta de José Piñera, ministro naquela época e irmão do hoje presidente – aprova uma completa reformulação das regras trabalhistas, com forte redução da proteção aos trabalhadores, às organizações sindicais e à negociação coletiva; em 1980, abrem-se as portas à criação de universidades privadas sem fins lucrativos, sem maiores exigências sobre qualidade nem preço. “A liberalização do mercado da educação superior fez aumentar muitíssimo os preços e concentrar a oferta na capital”, observa a pesquisadora Claudia Sanhueza; em 1990, na véspera de entregar o poder, o regime de Pinochet dá prevalência à liberdade de educação escolar sobre o direito dos estudantes a obtê-la, permitindo sem maiores restrições a entrada de entes privados na administração de colégios com recursos públicos, sem garantias de qualidade. A educação vira um bom negócio.

Aposentadorias

Norma Ojeda é professora aposentada, tem 76 anos e vive em San Bernardo, no sul da capital chilena, com seu marido doente. Trabalhou ininterruptamente durante 38 anos na educação municipal, e seu último salário, em 2005, foi de 680.000 pesos (3.450 reais). Quando recebeu sua primeira pensão, lhe saltaram as lágrimas: era menos de um terço da sua remuneração da ativa. “Mas depois não chorei mais: a dignidade acima de tudo”, conclui. Sua realidade não é de forma alguma uma exceção: desde a conversão do sistema de pensões a um de capitalização individual – em 1981, obra também de José Piñera – cada pessoa faz um esforço individual de economia e, ao terminar sua vida profissional, recebe uma pensão em função do dinheiro que conseguiu acumular e da perícia das administradoras privadas. O resultado da reforma foi uma queda sucessiva no valor das pensões, muito longe dos níveis prometidos há 40 anos. Apesar das reformas introduzidas já na democracia, os pensionistas continuam sofrendo os rigores de uma reviravolta radical no sistema que está na origem do descontentamento de amplas camadas da sociedade.

Saúde

Nas concentrações de protesto iniciadas em outubro, tornaram-se habituais os cartazes que aludem à má qualidade da saúde pública. “Por você, mamãe… que foi chamada para a cirurgia quando a velávamos” lia-se na cartolina erguida por uma moça. Um paradoxo para o país que fundou o primeiro sistema nacional de saúde da América Latina, na década de 1950. Entretanto, um quarto de século depois de sua entrada em vigor, o regime militar o desmontou, desconcentrando-o em 27 serviços independentes: foi “um golpe sobre a linha de comando institucional”, nas palavras de Álvaro Erazo, o primeiro ministro da Saúde de Michelle Bachelet. Em 1981 viria a estocada final, e dupla: com a criação das instituições de saúde preventiva, que aliviavam o Estado de certas funções e que funcionam sob preceitos de livre concorrência, e que, na prática, representam a privatização da seguridade social; e com a transferência dos centros de atendimento primário para os municípios, desmembrando toda a malha sanitária nacional. “Foi um golpe duro a uma experiência que tinha tido grandes resultados sanitários e que era admirada por sanitaristas de todo o mundo”, critica Erazo.

A diretora-executiva da Fundação GIST, Piga Fernández, devolve a discussão à atualidade. “A desigualdade [na saúde] é tremenda: se você tiver os recursos, saúde privada e acesso a seguros complementares, não tem problema em conseguir os medicamentos dos quais necessita. Mas o filme é diferente para as pessoas que estamos no sistema público de saúde: se você tiver dinheiro vive; se não, morre.”

Economia,Blog do Mesquita

A crise do milagre chileno

O modelo adotado pela economia mais próspera da América do Sul tem um paradoxo: cada vez que a pobreza diminuía, a desigualdade aumentava. E uma população mais culta e com capacidade de expressão não aguentou.    

Chile Santiago Proteste gegen Regierung (picture-alliance/AP Photo/R. Abd)

Nos últimos 30 anos, o Chile construiu uma imagem internacional que o credenciou como um dos países mais estáveis da América Latina. Sua economia é, entre outros aspectos, reconhecida por uma destacada indústria vitivinícola, agrícola, pesqueira e mineira – o país é o maior exportador de cobre do mundo. As realizações em termos de redução significativa da pobreza e de desenvolvimento econômico foram vistas como um modelo exemplar para a região.

Nos últimos meses, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, adquiriu maior relevância internacional e midiática depois de participar de várias cúpulas internacionais com autoridades como Emmanuel Macron, Angela Merkel e Theresa May, e até foi premiado por sua “liderança na luta contra a mudança climática”. Nesse cenário, a Conferência sobre Mudança Climática (COP25) e o Fórum de Cooperação Ásia-Pacífico (APEC), que foram cancelados, teriam sido duas grandes oportunidades para continuar propagando de alguma forma a imagem positiva do país em nível global.

O parodoxo

O retorno à democracia em 1990 permitiu que o país fizesse transformações que o levaram a reduzir consideravelmente as taxas de pobreza (de 40% para 8,6%, de acordo com a Pesquisa Casen 2017). De fato, na região, o Chile é o país com maior mobilidade social da OCDE e um dos países com maior PIB da América Latina. Isso é inquestionável entre especialistas.

“O Chile provou ser um país com estabilidade macroeconômica significativa. Os investidores estrangeiros podem vir a investir com regras claras do jogo, quando esse investimento é respeitado como tal. Basicamente, é uma economia que, embora pequena, tem uma boa porta de entrada para as economias latino-americanas”, diz Juan Pablo Swett, economista e presidente da Associação de Empresários Latino-Americanos (ASELA).

Carlos Ruiz, sociólogo e acadêmico da Universidade do Chile, explica que houve um ciclo muito forte de exportação de matérias-primas, o que produziu um grande crescimento, gerando um milagre chileno que começou no final da década de 1980. Isso, diz o especialista, levou a uma redução significativa da pobreza. “O paradoxo é que cada vez que a pobreza era reduzida, a desigualdade aumentava”, comenta.

Jatos d'água contra manifestantes: protestos tomaram por semanas as ruas Jatos d’água contra manifestantes: protestos tomaram por semanas as ruas

O outro lado da moeda é que, de acordo com os indicadores do Banco Mundial, o Chile é um dos dez países mais desiguais do planeta. A grande convulsão social pela qual o país está passando expôs as deficiências do sistema político-econômico chileno, afetando subitamente a imagem do país no exterior.

“A suspensão da COP25 e da APEC se deve às circunstâncias difíceis que nosso país viveu e que todos os chilenos viveram nas últimas semanas”, segundo as palavras do presidente chileno, implicando que o país não tem as condições necessárias para proteger a segurança dos visitantes.

“Nos últimos dias, o país passou por uma grande mudança interna que teve repercussões na imagem internacional. Embora o padrão econômico dos chilenos tenha aumentado, há um sentimento de profunda desigualdade, que é a única questão da qual o Chile não se encarregou: a distribuição econômica. Mais do que questionar o modelo econômico chileno: é o abuso, a concentração da riqueza. É uma revolução social, não uma revolução econômica”, comenta o economista Swett.

Carlos Ruiz, por sua vez, assegura que “não houve um verdadeiro milagre”, mas sim um milagre monopolizado por poucos. “Ele deixou um pouco de renda fluir para alguns lados, mas o grosso ficou com muito poucos, e diante disso explodiu uma sociedade, que agora é muito mais culta, com capacidade de expressão e organização”, explica.

Confiança abalada

Empresários e investidores lamentam a situação social do Chile. A solução para eles é uma: resolver problemas sociais para recuperar a confiança.

Darwin Alvarado, economista e diretor executivo da Ubicuo Comunicaciones, diz: “Quem decidir investir no país neste momento vai pensar sobre isso, porque primeiro é preciso cumprir as condições para a mudança”.

Para ele, são necessárias estabilidade e regras claras, porque é disso que os investidores estão sempre à procura: “Isso permite que eles tomem decisões de investimento para ter retornos esperados. Entre agora e março deve ficar claro qual o caminho que o Chile vai seguir, o que lhe permitirá voltar a gerar confiança nos investidores e ver o Chile como um bom país para investir.”

Swett, por sua vez, acredita que “o Chile continuará a crescer, as oportunidades seguirão e as regras macroeconômicas serão bastante sólidas”. Ele afirma que “o que o mundo quer ver do Chile para restabelecer a confiança é um maior Estado de direito, sem violações dos direitos humanos.” Estas são, segundo o economista, as imagens que o mundo está à espera para recuperar a confiança no Chile.

Sob Macri, Argentina tem seis novos pobres a cada minuto

Em 12 meses, Argentina somou 9.028 novos pobres por dia; no total, existem 15,8 milhões de pobres no país, nas zonas urbana e rural.Idiota,Tiro no pé,Blog do Mesquita,Economia,Brasil

A pobreza na Argentina aumentou 8,1% em apenas um ano, afetando agora 35,4% da população, o índice mais alto de todo o mandato do presidente Mauricio Macri. Nesss período, 3 milhões e 250 mil pessoas caíram da classe média para a classe baixa, isto é, mais de 9.000 pessoas por dia.

O número é uma média entre os dois primeiros trimestres deste ano. No primeiro trimestre, a pobreza aumentou a 34,1%; no segundo, 36,7. No total, existem 14,4 milhões de pobres na Argentina, considerando apenas os que se concentram nas cidades. O número pula para 15,8 milhões ao se incluir a zona rural.

Já o número de indigentes, aqueles que estão abaixo da pobreza, passou de 4.9% a 7,7% e atinge 3,1 milhões de pessoas, um milhão a mais em 12 meses.

Outro número alarmante: 52,6% das 9,5 milhões de crianças argentinas menores de 14 anos são pobres, comprometendo o futuro do país. A indigência infantil também aumentou de 8% para 13,1% em um ano.

Derrocada social

Em dezembro de 2015, a pobreza atingia 29% da população, segundo o Observatório da Dívida Social da Universidade Católica. O então governo de Cristina Kirchner (2007-2015), que era acusado pela oposição de manipular os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC), tinha deixado de divulgar o índice.

“Esses 10 pontos de diferença entre 2017 e hoje são explicados pela classe média baixa que tinha conseguido sair da pobreza e que agora voltou a essa situação. Já parte da classe baixa caiu para a indigência e depende cada vez mais da emergência de programas sociais. O mal humor nesses segmentos é grande”, explica à RFI Agustín Salvia, diretor do Observatório da Dívida Social.

No final de 2017, Macri havia conseguido reduzir a pobreza a 25,7%. Com isso, ganhou as eleições legislativas e já era considerado reeleito pelos analistas políticos.

“Em 2017, este governo teve um dos índices mais baixos do século 21 em matéria de pobreza: 25%. Mas esses são resultados conjunturais que a Argentina consegue quando a inflação diminui, quando o emprego aumenta e quando os salários ganham um pouco perante a inflação, como em 2017”, observa Salvia. “Não são soluções estruturais para pobreza”, sublinha o acadêmico.

Tudo mudou a partir de abril de 2018. A economia entrou em turbulência com desvalorizações da moeda e a inflação, já alta, ganhou ainda mais fôlego. O país acentuou a sua “estanflação”, combinação letal de estagnação com inflação.

Em um ano, a cesta básica aumentou 59,3% enquanto os salários aumentaram 32% em média. Ou seja: a inflação destruiu o poder de consumo, que caiu pela metade. No segundo semestre de 2018, a destruição do poder aquisitivo continuou, embora menos: a cesta aumentou 25,4% enquanto os salários subiram 19%.

“A situação é complicada porque o processo de inflação faz com que os salários fiquem constantemente abaixo dos preços. Ao mesmo tempo, a estagnação no mercado de trabalho faz com que não haja a possibilidade de compensar, nos lares pobres ou nas classes médias, as quedas na capacidade de consumo”, avalia Salvia.

Macri chegou ao poder prometendo “pobreza zero”, mas número de pobres explodiu no país

Ponto fraco de Macri

O aumento da pobreza é o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” do presidente Macri, que foi eleito em 2015 com a promessa de reduzir a zero a pobreza. “Pobreza Zero” era um de seus lemas de campanha.

“Este governo acreditou que, através de uma política de abertura econômica, conseguiria atrair os investimentos produtivos que nunca chegaram, a não ser para o endividamento. Isso gerou uma crise econômica, fazendo com que os objetivos de recuperar a economia, de gerar emprego, de baixar a inflação e a pobreza não fossem atingidos”, aponta Agustín Salvia.

O próprio Macri, quando assumiu o cargo, em dezembro de 2015, pediu para ser avaliado, ao final do seu governo, sobre seu combate à pobreza. Esse fracasso, acreditam os analistas, é o responsável pela reviravolta na política argentina e pela derrota que se desenha nas eleições presidenciais de 27 de outubro.

Situação ainda pior

Em agosto passado, a inflação chegou a 4% e a projeção é que atinja 6% em setembro. Em agosto, o peso argentino sofreu uma nova desvalorização de 30% como consequência do resultado eleitoral das primárias, que revelaram uma provável derrota do presidente Mauricio Macri para o candidato Alberto Fernández.

O desemprego continua a crescer, a inflação não dá trégua e não há perspectiva de crescimento econômico no horizonte. Nos últimos 12 meses, a inflação acumula alta de 54,5%.

Um simples exercício matemático permite calcular que os 3,250 milhões de pessoas que caíram da classe média baixa para a classe baixa fizeram-no a uma média de 9 mil pessoas por dia ou seis novos pobres por minuto. No tempo gasto para a leitura até este ponto do texto, cerca de 24 pessoas tornaram-se pobres na Argentina.

E o ritmo não arrefece. Pelos cálculos extraoficiais, a pobreza já está em 38% e pode terminar o ano atingindo 40% da população.

“A pobreza ainda não chegou ao seu teto”, adverte o diretor do Observatório da Dívida Social, Agustín Salvia. “A pobreza vem crescendo: 32% no quarto trimestre de 2018, 34% no primeiro de 2019 e 36% no segundo de 2019. Estamos no terceiro trimestre com um efeito crítico da desvalorização e da estagnação que se agravou a partir de agosto e que, neste contexto, estaríamos próximos de 38% de pobreza”, calcula.

“A saída estrutural não pode ser visualizada. Não há capacidade para sair desta situação apenas com a estabilização econômica. Para diminuir a pobreza estrutural, será preciso um programa de desenvolvimento”, indica Salvia.

O governo Macri tenta minimizar o impacto dos números. A ministra do Desenvolvimento Social, Carolina Stanley, argumenta que a situação estrutural melhorou em termos de acesso à saúde, à educação e à rede de água e esgoto.

“Não podemos negar que houve uma melhora substancial em matéria de rede de água e esgoto, de acesso à educação e à saúde, de moradia e até de meio ambiente. Essas melhoras foram importantes, mas não suficientes. Quando olhamos para outros aspectos do bem-estar social, as melhoras não foram tão relevantes”, conclui Agustín Salvia.

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Por que Juan Guaidó vive um de seus piores momentos desde que se proclamou presidente da Venezuela

Juan Guaidó, que lidera a oposição venezuelana desde janeiro e chegou a ser a grande esperança dos adversários do chavismo, vive um de seus piores momentos.

 e questionamentos de apoiadores e aliados por três grandes fatores: esgotamento de seu poder de mobilização popular, negociações entre partidos de sua coalizão e o governo de Nicolás Maduro e críticas a fotos em que Guaidó aparece ao lado de paramilitares na Colômbia.

Oito meses se passaram desde que o líder da oposição de declarou presidente interino da Venezuela, e agora precisa lidar com aliados que de um lado cobram mais moderação e diálogo e de outro, uma radicalização maior para derrubar Maduro.

Hoje, nenhum desses extremos avança.

A última tentativa de diálogo dos emissários de Guaidó com o governo (em Barbados e sob a mediação de Noruega) fracassou há duas semanas e, por outro lado, não se vê mais as concentrações massivas de oposicionistas nas ruas da Venezuela, como ocorreu em fevereiro e maio.

Outro revés recente para ele foi a demissão de um de seus maiores e mais aguerridos apoiadores, o americano John Bolton, que deixou o posto de conselheiro de segurança nacional no governo de Donald Trump.

John BoltonDireito de imagem GETTY IMAGES
Com a saída de John Bolton (foto) do governo americano, Guaidó perdeu um de seus mais importantes aliados na Casa Branca

De sua parte, Guaidó, que se mantém como presidente da Assembleia Nacional, insiste na legitimidade de sua liderança e defende que a única instância válida para uma eventual negociação com o governo Maduro deve passar pelo Legislativo.

Guaidó se agarra também ao fato de que 50 países o reconhecem como o presidente de fato da Venezuela, e que nações latino-americanas reiteraram esse apoio nesta terça-feira na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Apesar de todos esses problemas, o líder oposicionista ainda conta com o apoio majoritário dos partidos antichavistas.

Mas ele terá capacidade e iniciativa para recuperar o poder de mobilização que demonstrou no primeiro semestre?

De janeiro a maio

A jogada audaciosa de se proclamar “presidente encarregado” em janeiro surpreendeu, e a grande expectativa que se criou em torno de Guaidó se traduziu imediatamente em enormes mobilizações de opositores.

Logo surgiu o “comboio humanitário” em fevereiro, organizado a partir da Colômbia, com 20 caminhões com centenas de toneladas de doações internacionais. A iniciativa, porém, não passou da fronteira em razão do cerco montado por Maduro à época.

Juan Guidó em um dos caminhões com mantimentosDireito de imagem GETTY IMAGES
Juan Guaidó liderou uma ‘caravana humanitária’ na Colômbia em direção à Venezuela

A grande maioria dos alimentos, remédios e produtos de limpeza doados naquela ocasião era oriunda dos Estados Unidos, seu maior aliado internacional.

Guaidó fez um gesto ousado: burlou autoridades para atravessou a fronteira e se encontrar com os presidentes de três países da região (Colômbia, Chile e Paraguai) e oficiais americanos.

Ao longo dessas semanas, a coalizão de países do continente conhecida como Grupo de Lima reiterava seu apoio ao opositor, e a Organização dos Estados Americanos (OEA) abriu as portas ao embaixador do “presidente encarregado”.

No fim de abril, Guaidó anunciou a fase final do que chamou de Operação Liberdade e novamente convocou a população para manifestações em Caracas.

Ao lado de Leopoldo López, seu mentor político libertado da prisão naquela ocasião, e de uma multidão nas ruas da capital venezuelana, Guaidó não conseguiu concretizar seu objetivo de cercar Nicolás Maduro no Palácio de Miraflores.

Leopoldo LópezDireito de imagem GETTY IMAGES
Leopoldo López, libertado numa ofensiva de Juan Guaidó, é um dos mentores políticos do autoproclamado presidente

Jesús “Chúo” Torrealba, ex-secretário-geral da coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD), explicou à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, que até aquele ponto era visível a efervescência nas ruas, algo que já não é mais visto hoje.

“Certamente não estamos mais no momento de maior ebulição do respaldo social a Guaidó.(…) Nesse ponto de vista, não é o melhor momento dele, mas ele ainda preserva um capital político muito importante”, afirma Torrealba, um dos responsáveis por levar Guaidó ao comando da Assembleia Nacional.

Por esse motivo, defende, o líder oposicionista é o “único político venezuelano que poderia ser o rosto de uma proposta de mudança democrática” e que a Assembleia Nacional é a instituição com mais legitimidade para integrar esse processo.

Mas Torrealba adverte que “isso não é eterno e pode se esgotar”.

As três facções da oposição

Como a Fase Final agora é só uma lembrança, as mobilizações posteriores de Guaidó tiveram gradativamente menos adesão, ainda que manifestações locais com demandas específicas façam parte do cotidiano venezuelano.

Nos meses seguintes, governo e oposição iniciaram um diálogo em Barbados, mas o processo foi abandonado em agosto por Maduro e em setembro por Guaidó.

Em seguida, autoridades da gestão Maduro e quatro partidos opositores anunciaram que chegaram a um acordo que incluía, entre outros pontos, a reincorporação de deputados chavistas à Assembleia Nacional e a reestruturação do Conselho Nacional Eleitoral.

Entrevistados pela BBC News Mundo que acompanharam de perto o que aconteceu argumentam que é nesse momento em que, silenciosamente, as diferenças entre as três alas da oposição venezuelana — a moderada, a de centro e a radical — se aprofundam com maior velocidade.

anúncio do acordoDireito de imagem EPA
Em 16 de setembro, parte da oposição fechou um acordo com o governo Maduro, movimento contestado por outra fatia dos oposicionistas

Membro do partido Cambiemos, Timoteo Zambrano é um dos integrantes do grupo que decidiu firmar o acordo anunciado em 16 de setembro com autoridades do governo venezuelano.

Ele questiona Guaidó e seu entorno, e os acusa de optar por uma política linha-dura em vez de se concentrar nos problemas cotidianos da população e sair em busca de resultados tangíveis.

“Houve muita promessa e nada se concretizou. Não se conseguiu algo com que a gente possa resolver os problemas”, afirmou Zambrano.

O deputado atribui a isso a paulatina perda de força do líder oposicionista e a movimentação de outros políticos da oposição em busca de alternativas.

“É preciso atender a emergência social, sem isso há uma desconexão com o povo.”

Zambrano afirma que não se está em busca “de caudilhos nem de líderes messiânicos” e relata ter dito a Guaidó que “se ele chegasse à Presidência da Assembleia Nacional sob o mesmo esquema daqueles que estiveram antes, não alcancaria o que busca fazer”.

Jesús Torrealba afirma que muitos dos planos e ações adotados desde que Guaidó se proclamou presidente não foram consensuais. “Mas tal consenso não existe na realidade.”

Guaidó se situa no grupo mais ao centro no espectro político da oposição venezuelana, situado entre a fatia que defende negociações permanentes com Maduro e aquela que mantém o radicalismo para derrubar o governo.

MaduroDireito de imagem GETTY IMAGES
Nicolás Maduro abandonou o diálogo com Guaidó em agosto deste ano

O tempo como inimigo

No quartel-general da oposição, a Assembleia Nacional, aponta-se que o tempo é o principal problema do “presidente interino”.

Para Manuela Bolívar, deputada do mesmo partido de Guaidó (Vontade Popular, ou Voluntad Popular em espanhol), o passar dos meses amplia tanto a crise social quanto a pressão sobre seu movimento para encontrar uma solução.

“É claro que vivemos momentos difíceis e é claro que muita gente exige que essa solução seja imediata. Há uma angústia, sem dúvida, ninguém está negando isso. Sabemos como o tempo nos afeta como cidadãos e como políticos”, disse Bolívar à BBC News Mundo.

Ela afirma que é por isso que a oposição ensaiou diversas fórmulas “constitucionais, pacíficas e institucionais” ao longo do tempo.

“Estamos tentando tudo. Na Venezuela estamos tentando tudo que nos permita caminhar juntos para uma transição”, diz.

Bolívar avalia que o tempo também joga contra o governo porque “divide o regime, o enfraquece e racha a estrutura totalitária”.

A parlamentar afirma que hoje é difícil fazer sondagens da opinião pública. “As pessoas não sabem se, ao responder a uma pesquisa, o Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência) está te escutando e vai te retirar dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção que oferece os únicos alimentos que chegam a alguns lugares do país.”

Ela também questiona a representatividade e a importância dos quatro partidos que decidiram negociar em separado com o governo Maduro, mesmo tendo obtido seus votos no âmbito de uma coalizão.

Problemas graves para Guaidó

Além das manifestações de rua, divisões e tentativas fracassadas de diálogo, dois incidentes concretos levantaram dúvidas sobre o discurso de transparência e a luta contra a corrupção defendida com insistência pelo “presidente interino”.

Primeiro, em junho deste ano, um caso de supostos desvios de recursos atingiu dois de seus emissários na Colômbia.

As alegações tinham a ver com uma suspeita de desvio de fundos voltados ao apoio à migração venezuelana em solo colombiano e fizeram com que os dois envolvidos fossem afastados de suas funções imediatamente à época.

A decisão foi tomada pelo próprio Guaidó e acompanhada por uma ação judicial movida em Bogotá por seu “embaixador encarregado” solicitando à Promotoria colombiana que investigasse o caso.

O escândalo foi rapidamente capitalizado pelo partido no poder, que acusou os adversários de criar uma rede de corrupção e apresentar um discurso contraditório sobre transparência e honestidade.

Guaidó e presidentes latino-americanosDireito de imagem GETTY IMAGES
Guaidó apareciou de surpresa na Colômbia em 22 de fevereiro

À época, o correspondente da BBC News Mundo na Venezuela, Guillermo Olmo, descreveu o episódio como um golpe “onde dói” em Guaidó, já que uma de suas principais bandeiras era sua promessa de acabar com a corrupção.

Esse caso levou a questionamentos de aliados do líder oposicionista, como o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, que cobrou explicações.

A dor de cabeça mais recente de Guaidó surgiu com a publicação de fotos nas quais ele aparece com pessoas apontadas como integrantes do grupo paramilitar colombiano Los Rastrojos.

As imagens foram tiradas em 22 de fevereiro, quando Guaidó entrou na Colômbia por um atalho para liderar a caravana de caminhões com ajuda internacional que seria barrada na fronteira com a Venezuela.

Em uma das imagens, é possível ver um homem carregando algo parecido com uma arma.

Por mais de uma semana, as fotografias se tornaram o principal instrumento do chavismo para desqualificar o presidente da Assembleia Nacional e acusá-lo de ligação com criminosos colombianos.

Na Colômbia, os analistas políticos Sandra Borda e Fernando Posada afirmam que essas fotografias provocaram no mínimo questionamentos em torno da figura do político venezuelano.

GuaidóDireito de imagem REPRODUÇÃO
Imagens (de autoria desconhecida) geraram uma série de acusações contra Juan Guaidó

“É bem provável que Guaidó não soubesse com quem estava sendo fotografado, mas também é sabido que a fronteira é tomada por esses grupos, e não ter suspeitado de um revólver na cintura é um comportamento ingênuo e até politicamente irresponsável “, escreveu a cientista política em sua coluna no jornal colombiano El Tiempo.

Para Posada, em entrevista à BBC News Mundo, as imagens “geraram muitas dúvidas”.

O líder da oposição venezuelana imediatamente rejeitou as acusações de que tinha ligação com paramilitares, e o governo colombiano (aliado de Guaidó) garantiu que o “presidente interino” só recebeu apoio de oficiais depois de já ter entrado no território colombiano.

Novas mobilizações?

Em 23 de setembro, completaram-se oito meses desde que Guaidó prestou juramento como “presidente interino”.

Depois de tudo que aconteceu, o líder com o maior apoio na oposição afirma que “a ditadura foi derrotada em muitas áreas” e prometeu manter seu movimento coeso.

O venezuelano disse na semana passada que está focado em uma “solução urgente” para seu país e reafirmou ter o apoio do “mundo livre”, referindo-se aos mais de 50 países que o reconhecem como a mais alta autoridade executiva do país.

A proposta do oponente é a criação de um “Conselho Plural do Estado” que convocaria eleições presidenciais, desde que Maduro aceitasse deixar o poder antes.

Em troca, Guaidó se oferece para abandonar sua ofensiva como “presidente interino”.

Essa oferta já foi rejeitada nas negociações de Barbados pelo chavismo, mas o homem que ainda encarna as maiores esperanças da oposição não desiste.

É por isso que ele pede “mais apoio e pressão” da comunidade internacional.

Mas especialmente dos próprios venezuelanos.
BBC

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Venezuela: por que a falta de água é mais grave e perigosa do que os apagões

América Latina,Energia,Economia,Blog do Mesquita,Maduro,VenezuelaDireito de imagemGETTY IMAGES 

Protestos se multiplicaram na Venezuela por causa de interrupções nos serviços de água e luz

Desde o primeiro grande apagão de uma série que afetou a Venezuela, há quatro semanas, até a última terça-feira, o edifício onde mora Cláudia* só recebeu água por um total de três horas.

As diversas interrupções no serviço energético registradas desde 7 de março tiveram um efeito devastador no fornecimento.

E, segundo os especialistas, também poderiam causar uma catástrofe sanitária.

Cláudia, que pediu para não ser identificada com seu nome verdadeiro pois teme represálias, mora em um bairro de classe média da segunda cidade mais importante da Venezuela, que também é a mais afetada por essa crise.

“A cidade venezuelana com os problemas mais sérios é Maracaibo”, diz José María de Viana, engenheiro civil que, de 1992 a 1999, foi presidente da Hidrocapital, a companhia de água da capital, Caracas.

Venezuelanos recolhem água de rioDireito de imagemEPA
Segundo especialistas, crise hídrica pode gerar ‘catástrofe de saúde’

A importância da água

A cidade também é a capital de Zulia, um Estado com grande importância econômica para a Venezuela, pois de seu subsolo se extrai o principal recurso do país: o petróleo.

Mas agora, no meio dessa grave crise, alguns de seus moradores estão encontrando um recurso ainda mais cobiçado sob a terra: a água.

É o caso de Cláudia e seus vizinhos, que após os primeiros dias sem eletricidade contrataram uma empresa para investigar se era possível construir um poço em seu prédio.

Eles tiveram sorte: a cerca de 40 metros de profundidade, encontraram água fresca, limpa e adequada para consumo humano.

Por causa disso, têm agora uma fonte própria de fornecimento, o que lhes permite dispensar caminhões-pipa caros, que cobram entre US$ 500 (R$ 1.920) e US$ 750 (R$ 2.880) para encher a cisterna do prédio.

Uma fortuna em um país onde o salário mínimo em janeiro do ano passado foi de US$ 20 (R$ 77).

As altas temperaturas de Maracaibo tornam os problemas de luz e água mais graves.

“A questão dos poços não é inteiramente nova, eles foram construídos na cidade há cerca de 10 anos, existem em algumas fazendas, clubes e prédios. Em Maracaibo, o risco é de encontrar água salgada. A nossa é doce e de alta qualidade”, diz Cláudia.

Cláudia, que é engenheira de profissão, casada e mãe de dois filhos adolescentes, reconhece que em meio à crise vivida por Maracaibo, sua situação é privilegiada. A família pagou para que um gerador fosse instalado em casa.

Isso permite que a geladeira continue funcionando, mas não o ar-condicionado, um item quase indispensável em uma cidade onde as temperaturas máximas podem chegar a 44º.

Perfuração de petróleo em MaracaiboDireito de imagemAFP
Em Maracaibo, conhecida pela exploração do petróleo, moradores perfuram subterrâneo em busca de água

Caos na saúde

O caso de Cláudia e de seus vizinhos é uma exceção em meio à grave crise dos serviços públicos que se aprofunda na Venezuela.

Em Caracas, a crise hídrica levou milhares de pessoas a buscar água no poluído Rio Guaire, que atravessa a capital e recebe grande parte de seu esgoto.

Viana alerta que há pessoas que coletam água de algumas nascentes nas colinas da cidade que parece estar limpa, mas está contaminada.

A falta de água também afeta as unidades hospitalares pelo país.

“Temos dificuldades com o abastecimento de água em alguns de nossos centros hospitalares”, admitiu no domingo passado o ministro da Saúde, Carlos Alvarado, que garantiu que o governo vem monitorando a situação.

A reportagem da BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, tentou entrar em contato, sem sucesso, com a ministra de Águas da Venezuela, Evelyn Vasquez, e com a companhia que serve Caracas, a Hidrocapital.

Enquanto isso, a imprensa local continua a colher relatos de casos graves de desabastecimento.

Homem carrega galões de água em cima de motoDireito de imagemGETTY IMAGES
Busca por água tem sido cada vez mais difícil

“Temos relatos de hospitais e unidades pediátricas onde os banheiros estão fechados, médicos que não podem lavar as mãos para realizar procedimentos; não há água nas cozinhas para preparar comida para os pacientes”, disse Susana Raffalli, nutricionista e consultor da Fundação Cáritas, em entrevista à rádio Éxitos FM na segunda-feira.

Raffalli destacou o risco de consumo de água contaminada, já que as crianças podem morrer mais rapidamente por causa de diarreia do que por falta de comida.

“Mais do que a falta de eletricidade, o acesso limitado à água pode gerar uma catástrofe de saúde em breve”, disse a especialista.

Viana, por outro lado, alerta para outros perigos.

“A falta de água é muito mais grave do que a falta de eletricidade; quando você não tem água por vários dias, começa a ter problemas de saúde em sua casa”, diz ele.

“O sistema de saúde necessita de um volume mínimo de água para funcionar, se você não tem como proceder com a higiene habitual e vive num clima tropical, então acaba enfrentando uma série de doenças e possíveis infecções”, explica.

Outro risco é de que, sem água nos esgotos, animais e insetos que vivam nos subterrâneos venham à superfície para buscar alimento.

O especialista indica que essas falhas também geram ameaças à paz social, pois podem levar a protestos descontrolados.

“A água é um gatilho para o descontentamento popular, a angústia de uma crise gera processos sociais muito complicados, incluindo rebeliões e protestos”, adverte.

Venezuelanos fazem filas para obter águaDireito de imagemGETTY IMAGES
Venezuelanos fazem filas para obter água

‘Tragédia evitável’

Viana afirma que a crise que afeta a prestação desses serviços públicos na Venezuela é completamente sem precedentes.

“Pela duração que teve e pelo número de pessoas afetadas, esta é a tragédia civil mais importante em tempos de paz sem ter sido causada por um desastre natural”, diz ele.

“Isso aconteceu em locais que estão em guerra ou atingidos por terremotos. Já nós temos 30 milhões de pessoas afetadas e isso nunca havia acontecido na Venezuela “, diz ele.

O especialista também diz que a crise poderia ter sido evitada.

“Várias cidades da Venezuela tinham usinas termelétricas movidas a combustíveis fósseis que eram acionadas quando havia um problema de transmissão. Ou seja, o sistema de geração de energia está projetado para que essa situação não dure mais do que três ou quatro horas”, diz.

“O que aconteceu é que essas usinas não estavam funcionando, quase 80% da capacidade das usinas termelétricas no país está fora de serviço”, afirma.

De Viana explica que no caso da água acontece o mesmo e que, de fato, o sistema de abastecimento da capital venezuelana tem três reservatórios criados dentro da cidade para responder a situações de emergência, mas que não estão em funcionamento.

“Caracas está em uma zona sísmica e aqueles que projetaram os sistemas previram que, antes de um grande terremoto, a cidade poderia deixar de receber suprimentos de fontes distantes por uma ou duas semanas”, explica ele.

“A Venezuela possui sistemas de emergência de água e eletricidade. O problema é que nada disso funcionou desde o apagão, levando a população civil a sofrer sem medida”, afirma.

Homens carregam caminhão com água em MaracaiboDireito de imagemGETTY IMAGES
Crise que afeta a prestação desses serviços públicos na Venezuela é completamente ‘sem precedentes’, diz especialista

“Esse é o resultado de um processo muito longo de deterioração, de destruição institucional de empresas profissionais de alta qualidade, bem como de um longo acúmulo de trabalhos de reparo e manutenção que não foram concluídos. Como resultado, os sistemas que deveriam estar funcionando não estão e um pequeno acidente se transforma em algo terrível”, diz Viana.

O governo, no entanto, afirma que todos esses problemas são fruto de uma “guerra elétrica” e de atos de sabotagem que visam a prejudicá-lo, embora, até agora, não tenha mostrado provas disso.

O futuro

Quase quatro semanas após grande apagão, o sistema elétrico venezuelano ainda não foi estabilizado, registrando constantes interrupções, prejudicando o restabelecimento do abastecimento de água na capital e no restante do país.

E a tarefa não é fácil.

O sistema de bombeamento de água para abastecer toda a Venezuela consome cerca de 10% de toda a eletricidade gerada no país.

Crise hídrica faz com que pessoas busquem água de fontes insalubresDireito de imagemGETTY IMAGES
Crise hídrica faz com que pessoas busquem água de fontes insalubres

Sendo assim, seriam necessários 600 megawatts de energia apenas para restabelecer o serviço em Caracas, estima Viana.

Isso explica por que, embora na capital venezuelana o serviço elétrico tenha se normalizado, o mesmo não aconteceu com o abastecimento de água.

Enquanto isso, Cláudia continua com sua família em Maracaibo sem cair na tentação de usar seu passaporte europeu para emigrar.

Jovem carrega galão de água em CaracasDireito de imagemGETTY IMAGES
Governo venezuelano culpa ‘sabotagem estrangeira’ por crise

“Para as pessoas que estão fora é muito difícil entender como continuamos vivendo aqui”, reconhece ela.

“Há dias em que nos sentimos mal, mas mantemos o otimismo. O venezuelano continua sendo solidário e acreditamos que as coisas vão mudar para melhor. Quando isso acontecer, a Venezuela será a terra das oportunidades, porque vamos ter de reconstruí-la”, conclui.
Por Ángel Bermúdez

Brasil,Economia,Impostos,Blog do Mesquita

Brasil só perde para Cuba na lista de países da América Latina que mais pagam impostos

Brasil,Economia,Impostos,Blog do Mesquita

A carga tributária brasileira chegou a 32,4% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2017, segundo dados da Receita Federal. Na comparação com 2016, a carga teve uma leve alta de aproximadamente 0,2 ponto percentual, puxada, principalmente, pelo aumento dos impostos sobre combustíveis.

Brasil tem carga tributária no patamar de países desenvolvidos, que devolvem os impostos à sociedade na forma de serviços de maior qualidade

Em Cuba, país da América Latina onde os cidadãos mais pagam impostos em comparação ao PIB, esse percentual atingiu 41,7% em 2016, de acordo com o ranking da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Em Davos, durante sua primeira viagem internacional como presidente, Jair Bolsonaro repetiu uma promessa de campanha: reduzir e simplificar a carga tributária brasileira. Logo nos primeiros dias do governo Bolsonaro chegou a anunciar aumento da alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) a uma fração mínima – o presidente, contudo, foi desmentido por integrantes de sua equipe, que disseram Bolsonaro se equivocou.

A elevada carga tributária brasileira sempre foi vista como um problema.

Carga tributária na América Latina

(% do PIB)

Lugar País Impostos
1 Cuba 41,7
2 Brasil 32,2
3 Argentina 31,3
4 Uruguai 27,9
5 Bolívia 26
6 Nicarágua 22,6
7 Costa Rica 22,2
8 Honduras 21,4
9 Equador 20,5
10 Chile 20,4
11 Colômbia 19,8
12 El Salvador 17,9
13 Paraguai 17,5
14 México 17,2
15 Panamá 16,6
16 Peru 16,1
17 Venezuela 14,4
18 República Dominicana 13,7
19 Guatemala 12,6
20 Haiti sem info
Fonte: OCDE (2016, últimos dados disponíveis)

A carga média dos países da OCDE, o grupo que reúne os países mas ricos do mundo, foi de 34,3% do PIB em 2016. O valor está acima dos 32,2% contabilizados no Brasil naquele ano. Mas a média dos países latino-americanos e caribenhos é de 23%, o que põe o Brasil no segundo lugar do ranking regional.

Os países onde se pagam menos impostos na América Latina são: Guatemala (12,6% do PIB), República Dominicana (13,7%) e Peru (16,1%), de acordo com os dados de 2016, os últimos disponibilizados pela OCDE.

No outro extremo, estão Cuba (41,7% do PIB), Brasil (32,2%) e Argentina (31,3%)

Especialistas consideram Cuba uma exceção, já que o país vive há décadas sob o embargo comercial imposto pelos Estados Unidos e somente nos últimos dez anos começou intensificar a abertura de sua economia.

Brasil, Argentina e Uruguai, por sua vez, compartilham características comuns em relação à carga tributária.

Mulher caminhandoDireito de imagem GETTY IMAGES
A elevada carga tributária brasileira sempre foi vista como um problema

“Os três têm altas alíquotas de impostos, tanto o imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas quanto os impostos sobre bens e serviços”, diz Santiago Diaz de Sarralde, diretor de Estudos e Pesquisas do Centro Interamericano de Administrações Tributárias (Ciat), com sede no Panamá.

Sarralde diz que a elevada carga tributária permitiu que os três países bancassem mais gastos sociais. “Mas os efeitos de uma alta carga tributária são muito variados de acordo com cada país”, diz ele.

“Há países mais desenvolvidos que funcionam melhor com impostos mais altos, ou com elevada pressão fiscal. Outros funcionam com taxas menores”.

Segundo a OCDE, a Islândia, Dinamarca, França, Bélgica, Suécia e Finlândia estão entre os países onde mais se pagam imposto. São também lugares conhecidos por oferecer a seus cidadãos fortes redes de proteção social e, na avaliação de Santiago Diaz de Sarralde. Ele diz ainda que essas são economias consideradas bastante competitivas.

FinlandesesDireito de imagem GETTY IMAGES
A carga média dos países da OCDE, grupo que reúne os países mais ricos, foi de 34,3% do PIB em 2016

O especialista afirma que é preciso avaliar não apenas a arrecadação, mas o tipo de imposto e como esses países gastam e lidam com o déficit público. “Afinal, são diferentes modelos de sociedade”, observa Sarralde.

As estatísticas de 2016 indicaram uma queda da carga tributária em 0,3 ponto em comparação com o ano anterior na América Latina. Mas a série histórica mostra uma tendência de crescimento.

“Nas últimas três décadas, a carga tributária aumentou na região”, afirma Sarralde.

Se em 2016, a região arrecadou, em média, o equivalente a 23% do PIB em impostos, nos anos 1990 esse montante era 16 pontos percentuais mais baixo.

Mulher caminhando na GuatemalaDireito de imagem GETTY IMAGES
Os cidadãos da Guatemala são os que menos pagam impostos na América Latina

Desafios tributários

Na América Latina há uma grande disparidade da carga tributária. Há países em que se pagam mais de 30% do PIB, e lugares onde o valor total equivale a 12%.

A carga tributária varia de acordo com o nível de renda do país. Alberto Barreix, economista-chefe de gestão fiscal do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) lembra que o outro lado da moeda são os gastos do governo.

cofrinho ao lado de notasDireito de imagem GETTY IMAGES
Especialistas avaliam que há espaço para cobrar mais impostos na América Latina

“As despesas cresceram muito mais e é por isso que temos situações fiscais complexas”, disse Barreix, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC. “Há muitos países onde há espaço fiscal para aumentar os impostos. Em alguns, o IVA (imposto sobre valor agregado) e, na maioria dos países, é o imposto de renda.”

Um dos maiores desafios é, segundo Barreix, reduzir a evasão e a sonegação.

E a tendência regional é aumentar, aos poucos, os impostos à medida que a renda dos países aumenta. Barreix, no entanto, adverte: “o problema com o imposto de renda pessoal é que, se eu tiver taxas muito altas, vou contra a poupança”. “É por isso que há espaço para aumentar os impostos, mas você precisa fazer isso com cuidado.”
BBC

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Como a Escola de Chicago transformou país latino-americano em laboratório do neoliberalismo

Bolsonaro,Brasil,Chile,Economia,Capitalismo,Liberalismo,Escola de ChicagoPolítica econômica implementada pelo governo militar segue causando polêmica no Chile

O golpe de Estado que depôs o presidente socialista Salvador Allende em 1973 e iniciou o governo do general Augusto Pinochet marcou um ponto de inflexão na economia chilena.

No lugar do Estado de bem-estar social e regulador, foi ganhando força um projeto macroeconômico de viés desestatizante, liderado por grupo de jovens economistas apelidados jocosamente de “Chicago Boys”. Nesta guinada neoliberal sob Pinochet, conviviam relativas liberdades econômicas e repressão violenta a direitos civis.

Privatizações, abertura ao mercado externo, reforma trabalhista e redução do gasto público e do papel do Estado em áreas-chave, como saúde e educação. As sementes da implementação dos itens dessa cartilha desestatizante foram plantadas pelos Estados Unidos duas décadas antes no Chile.

Em 1955, professores da Escola de Chicago visitaram o país a fim de firmar convênios. Nos anos seguintes, passaram a influenciar a formulação de políticas econômicas por meio principalmente de alunos que foram bolsistas em Chicago, escola que atribuía a crise econômica ao excessivo intervencionismo estatal na atividade produtiva privada.

O contexto geopolítico da Guerra Fria favoreceu a transformação do Chile em uma espécie de laboratório neoliberal por quase uma década, com influência até hoje na economia chilena, a exemplo da obsessão com equilíbrio fiscal e controle inflacionário.

A experiência se tornou exemplar – para o bem e para o mal – na América Latina. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PSL), que visitou o Chile neste fim de semana, fez elogios ao governo Pinochet, que inspira a proposta de reforma da Previdência formulada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, este também um dos Chicago Boys.

Mas quem eram esses jovens economistas chilenos e qual foi o impacto da política neoliberal inspirada em Milton Friedman, principal nome da Escola de Chicago e prêmio Nobel de Economia?

Escola de Chicago x Keynes

No pós-guerra, a escola econômica dominante era ligada ao britânico John Maynard Keynes (1883-1946). Em oposição à ortodoxia liberal que dominara o pensamento econômico europeu e o americano até o início dos anos 1930, os keynesianos representavam o principal paradigma heterodoxo.

Em Chicago, um grupo de economistas afirmava que a origem dos desastres econômicos daquele século não estava em limites do capitalismo, mas na mão pesada do Estado.

Milton Friedman e Frank Knight, professores de Chicago, se associaram ao economista austríaco Friedrich von Hayek, num grupo que acusava o Estado de bem-estar social de fortalecer o marxismo na União Soviética e em outros países.

Manifestante con imagem de PinochetDireito de imagem AFP
Apesar de violações de direitos humanos, Pinochet ainda tem apoiadores no Chile

Para Friedman, o desemprego, obsessão da escola dominante keynesiana, era resultado das políticas assistenciais do Estado de bem-estar, que desestimulariam os menos arrojados a procurarem trabalho.

Ascensão dos economistas e ‘soft power’ dos EUA

Segundo o economista Felipe Alejandro Guerrero Rojas, em dissertação de mestrado em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná, os profissionais formados em Economia avançaram em posições centrais no aparelho do Estado chileno, em vagas antes ocupadas por advogados e engenheiros.

Na esteira da tecnocracia que teve início nos anos 1960, esses profissionais se consolidaram a partir da década de 1970 também como uma elite política no país.

Parte importante dos economistas chilenos desse período foi influenciada pela Escola de Chicago, que levou sua agenda ao país em 1955. Naquele ano, uma missão de professores americanos visitou Santiago a fim de firmar convênio com Universidade Católica do Chile.

A partir dali, haveria bolsas de estudos para alunos chilenos nos Estados Unidos, subsidiadas pelo governo americano, e estágios no Chile para professores de Chicago.

As universidades passaram a estudar também os problemas econômicos chilenos, como inflação, desenvolvimento agrícola, investimento público e balança comercial. E a elaborar propostas.

Quando retornaram do período de estudos em Chicago, os jovens economistas chilenos formaram um grupo organizado e alguns deles se tornariam professores da Universidade Católica do Chile. A atuação se aproximou também da política, com um flerte com o candidato de direita à Presidência Jorge Alessandri, que seria derrotado pelo socialista Salvador Allende, desenvolvimentista que ampliou o papel do Estado.

Patrulha militarDireito de imagem AFP
Chile vivia forte turbulência socioeconômica quando golpe militar foi decretado

Esse processo é interrompido em 11 de setembro de 1973 com o golpe de Estado, apoiado também pelos neoliberais, que inicialmente se tornaram assessores técnicos dos homens de confiança dos militares colocados nos postos-chave no governo Pinochet – cargos que os Chicago Boys ocupariam mais à frente.

Segundo Guerrero Rojas, os Chicago Boys também trouxeram mudanças na tomada de decisão do Estado chileno a partir de princípios “técnicos e científicos”, e não mais por postulados políticos e ideológicos. “Esse modelo tinha a pretensão de construir uma ‘sociedade tecnificada’; uma sociedade onde os mais capacitados tomam decisões técnicas para as quais foram treinados”, afirma em seu estudo.

E completa: “A partir desse modelo, os Chicago Boys puderam se constituir como elite política e desenvolver políticas baseadas nos princípios neoliberais. Mesmo com a redemocratização e a vitória dos partidos de oposição ao governo de Pinochet nas eleições de 1990, o governo da Concertación não conseguiu romper com essa forma de Estado”.

Que mudanças os Chicago Boys implementaram no Chile?

No início dos anos 1970, sob Allende, a economia do Chile era marcada por dependência da exportação de minérios, altas barreiras alfandegárias, aumento de gastos públicos e salários, controle de preços e expropriação de empresas.

Como consequência, a política econômica resultou em hiperinflação (em 1973, chegou aos 606% anuais), aumento do déficit público e do desemprego, redução das reservas cambiais e desindustrialização.

O golpe que derrubou Allende foi seguido de ajustes econômicos gradativos, influenciados pelos Chicago Boys.

“O Chile foi pioneiro na adoção do neoliberalismo: os princípios de interesse individual, propriedade privada e supremacia do mercado financeiro foram implementados aqui antes mesmo do Consenso de Washington, de 1989 [quando foi formulado um ‘receituário’ de medidas neoliberais à América Latina, como privatizações, austeridade fiscal e reformas tributárias]”, afirmou o professor de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de Valparaíso Guillermo Holzmann.

Paulo GuedesDireito de imagem AFP
Ministro da Economia de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes foi professor no Chile durante ditadura militar de Pinochet

O avanço da influência dos Chicago Boys viveu um ápice em 1975, quando Milton Friedman visitou o Chile, fez conferências e se reuniu com Pinochet. O economista de Chicago buscava também convencer o militar a adotar, em vez de uma mudanças paulatinas, um “tratamento de choque” neoliberal para recuperar a economia. A pressão deu certo.

A estratégia passava por equilíbrio fiscal, desregulamentação, abertura ao capital externo e controle de inflação, entre outras medidas. Era o oposto do antecessor Allende. Previsto por Friedman, o choque foi duro naquele ano, e o PIB caiu 13,3%. Dois anos depois, porém, o Chile voltou a um crescimento consistente no patamar de 7%.

Qual foi o resultado da experiência neoliberal?

“É complexo analisar o desempenho econômico do governo militar chileno”, disse Steve Hanke, acadêmico da Universidade Johns Hopkins que assessorou diversos governos latino-americanos. “Nos primeiros anos da era Pinochet houve um ‘boom’, quando as medidas iniciais ajudaram a estabilizar o caos da economia socialista.”

Para ele, é “evidente” que a atual prosperidade chilena se baseia em medidas adotadas durante a era Pinochet. Hanke cita como exemplo a continuidade do sistema de seguridade social baseado em fundos de previdência privada, um dos programas emblemáticos do governo militar.

General PinochetDireito de imagem AFP
Chicago Boys’ comandaram a guinada neoliberal implementada durante o governo autoritário de Pinochet

Mas houve uma guinada já durante o governo militar. “Uma parte importante das medidas neoliberais implementadas no início dos anos 1970 foram revertidas nos anos 1980 pelo próprio governo militar. Um exemplo muito claro disso foi sua política de desregulamentação financeira e mudanças no tipo de câmbio. Ambas, que favoreciam o capital financeiro, levaram o Chile a uma crise na década seguinte e acabaram revertidas”, afirmou Óscar Landerretche, da Universidade do Chile.

Segundo ele, após a ditadura, “não havia seguro de saúde universal, seguro-desemprego, gratuidade no ensino superior, nem pilares solidários no sistema de previdência”.

No setor previdenciário, a mudança para um regime de capitalização – no qual cada indivíduo faz sua própria poupança – também causou forte impacto social anos depois. Quando o novo modelo começou a produzir os seus primeiros aposentados, o valor das aposentadorias se mostrou baixo: 90,9% recebem menos de 149.435 pesos (cerca de R$ 694,08).

O período, classificado por alguns economistas como “milagre econômico”, durou até 1982, ano em que o Chile sofreu uma queda recorde do PIB (13,4%) e a duplicação da inflação. A economia chilena só se recuperaria em 1984, quando começaria a chamada “era dourada”.

Gráfico com o crescimento do PIB de Chile e Brasil

Apesar de todos os avanços de indicadores econômicos no governo militar, a distribuição de renda praticamente não mudou – a desigualdade se tornaria alvo das principais mudanças adotadas na redemocratização chilena, com aumento do gasto público sem desequilíbrio fiscal.

“Essas políticas neoliberais acabam resultando em concentração de renda. Apenas um grupo movimenta a economia, enquanto você precisa de estímulo às outras classes consumirem. Após a ditadura militar, os governos passam a criar uma série de políticas socioeconômicas para reduzir essa desigualdade social”, afirmou Guerrero Rojas, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná.

Noah Smith, colunista da agência de notícias Bloomberg, resumiu o debate em um tuíte em novembro do ano passado.

“O crescimento anualizado do PIB real per capita no Chile sob Pinochet (1973-1990) foi de 1,6%. O crescimento anualizado do PIB real per capita no Chile nos 17 anos posteriores a Pinochet (1990-2007) chegou a 4,36%. Pinochet está bastante superdimensionado”, escreveu ele.
BBC

China,Venezuela,Economia,Maduro,América Latina,Política internacional,Blog do Mesquita

Crise na Venezuela: Quais são os interesses da China no país latino-americano?

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A relação entre Xi e Maduro remonta à época de Chávez, quando o atual presidente venezuelano era titular da pasta de Relações Exteriores

Mesmo a milhares de quilômetros de distância, a China não perde de vista o que está acontecendo na Venezuela.

Ao lado da Rússia e Turquia, o país asiático tem sido um dos maiores defensores de Nicolás Maduro na crise política, social e econômica que se agravou depois que o líder da oposição Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela.

Embora Pequim não tenha sido tão direta quanto a Rússia de Putin, as declarações do governo chinês são interpretadas por especialistas como um endosso a Maduro, cuja reeleição tem a legitimidade contestada pelos opositores.

“A China apoia os esforços realizados pelo governo da Venezuela para manter a soberania, a independência e a estabilidade nacional”, declarou Hua Chunying, porta-voz do ministério das Relações Exteriores, em entrevista realizada um dia após a autoproclamação de Guaidó em Caracas.

Hua também enfatizou que Pequim “se opõe à interferência estrangeira nos assuntos da Venezuela”, em uma mensagem indireta aos Estados Unidos, o primeiro país a reconhecer Guaidó e a estimular uma pressão internacional contra Maduro.

Fiel à sua política de não interferir em assuntos internos, a China se limitou a pedir calma aos envolvidos, mas sua preocupação com o resultado dessa situação tem crescido.

Pequim é o principal credor do governo venezuelano e tem muitas fichas no país sul-americano, conforme explicaram especialistas consultados pela BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Um trunfo chamado petróleo

Chavez e Hu Jintao caminham em tapete vermelho com expressão facil séria, observados por militares em cerimôniaDireito de imagem GETTY IMAGES
Hu Jintao e Hugo Chávez; início da aproximação entre os dois países foi uma espécie de mutualismo

Os atuais estreitos laços entre China e Venezuela começaram a se formar no começo dos anos 2000.

Caracas, ainda sob Hugo Chávez, tentava diversificar os países para os quais exporta sua principal fonte de riqueza, o petróleo.

Pequim, em franco crescimento econômico desde sua abertura nos anos 1980, começava a procurar novas fontes de recursos para suprir a demanda de sua grande população.

Naquele momento, a China já era um dos principais importadores de petróleo do mundo.

“O petróleo é a razão mais fundamental para o encontro entre China e Venezuela. A China precisava de uma grande quantidade de petróleo, e a Venezuela tinha isso”, resumiu à BBC News Mundo Matt Ferchen, estudioso do papel da China em países em desenvolvimento no Centro Carnegie-Tsinghua de Políticas Globais.

A relação floresceu baseada principalmente em “acordos de financiamento pelo petróleo”, lembra Ferchen, que considera o laço cultivado com Caracas um erro de Pequim, diferente de outras aproximações com países produtores de petróleo.

De 2007 a 2018, Pequim emprestou ao país latino-americano mais de US$ 67 bilhões (cerca de R$ 256 bilhões, em valores não corrigidos), de acordo com os dados mais recentes do centro de estudos Diálogo Interamericano e da Universidade de Boston.

Nos primeiros anos, essa cooperação parecia beneficiar ambos os governos, mas a morte de Chávez em 2013 “mudou as coisas dramaticamente”, diz o analista do centro Carnegie-Tsinghua.

Na fase atual, os preços do petróleo caíram e a situação econômica da Venezuela piorou muito, chegando ao quadro atual em que sustenta o título de inflação mais alta do mundo e onde há sérios problemas de escassez de mercadorias, como remédios e alimentos.

A situação levou Caracas, agora com Nicolás Maduro no poder, a violar cláusulas acordadas com Pequim e solicitar maiores “períodos de carência”.

Dezenas de venezuelanos gritam e seguram bandeira do país em protesto na ruaDireito de imagem GETTY IMAGES
A crise se instalou na Venezuela há alguns anos, mas se agravou desde janeiro com uma enorme pressão internacional

Segundo diferentes fontes, o país sul-americano ainda deve à potência asiática quase US$ 20 bilhões.

“Há um grande risco (para a China na Venezuela)”, diz Cui Shoujun, diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Renmin da China, um dos mais prestigiados do país.

Cui concorda que Pequim está preocupada com a situação e acredita que “ninguém pode garantir” o que acontecerá com os acordos entre os dois países se houver uma mudança de governo na Venezuela.

No entanto, Cui é um dos que pensa que Maduro está fazendo a coisa certa: “Diplomaticamente, a China deve apoiar Maduro – ele é o líder legítimo da Venezuela”, defende.

Do outro lado do tabuleiro, os EUA

Segundo os analistas, além do petróleo, há um quê a mais na relação da China com a Venezuela, à diferença de seus laços com outros produtores de petróleo.

Desde sua chegada ao poder em 2013, o presidente Xi Jinping expandiu a influência chinesa na América Latina, jogada vista por alguns especialistas como uma tentativa de contrabalançar a influência de Washington na região.

“Nos últimos quatro ou cinco anos, o presidente Xi tentou projetar o soft power (em tradução livre, algo como “poder sutil”, um conceito que indica formas de influência nas relações internacionais diferentes de outras mais contundentes, como ações militares e comerciais) chinês por todos os rincões do mundo e colocou um interesse em especial na América do Sul, porque é o quintal dos Estados Unidos”, avalia Willy Lam, um analista veterano da política chinesa.

“É uma maneira de intimidar Washington, dizendo algo como: avise aos americanos que a República Popular da China é capaz de influenciar países próximos aos EUA.”

Lam, professor da Universidade Chinesa de Hong Kong, também aponta semelhanças nas ideologias dos dois governos, um cenário que lembra os laços com Cuba.

Por anos, fontes próximas ao governo em Pequim negam que a ideologia tenha importância nas Relações Exteriores conduzidas por Xi, insistindo que o presidente age com pragmatismo.

De todo modo, a maioria dos entrevistados destaca o apoio mútuo que ambos os países sustentam na arena da política internacional, especialmente em um momento onde Pequim está tentando se projetar como líder da globalização.

Donald Trump olha para o lado durante reunião em ambiente internoDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente do EUA, Donald Trump; a disputa entre a China e os EUA não é apenas comercial mas também por influência

Próximos passos

A crise na Venezuela continua e a pressão internacional para que Nicolás Maduro deixe o poder, também.

O presidente venezuelano afirma ser alvo de uma tentativa de golpe de Estado orquestrada por Washington e refuta a convocação das eleições presidenciais, como pede a oposição.

A China, por outro lado, parece começar a se mover.

No início de fevereiro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, disse que Pequim “tem mantido estreita comunicação com todas as partes de diferentes maneiras sobre a situação na Venezuela”.

“Independente de como a situação vá evoluir, a cooperação China-Venezuela não deve ser prejudicada”, afirmou, sem mais detalhes.

Montagem mostra fotos de Guaidó e MaduroDireito de imagem GETTY IMAGES
O enfrentamento liderado por Guaidó (na foto, à esq.) e Maduro expõe os riscos dos investimentos chineses na Venezuela, segundo analistas

Segundo o pesquisador Cui Shoujun, há evidências de que as autoridades chinesas têm se aproximado da oposição venezuelana, tentando abrir uma espécie de canal de diálogo.

O jornal americano The Wall Street Journal publicou reportagem em que relata reuniões em Washington entre diplomatas chineses e representantes da oposição venezuelana.

Nesses encontros, segundo uma fonte próxima, houve menções a “períodos de prorrogação” para pagamento de dívidas e também a uma maior transparência nos acordos – algo que não costuma soar como uma postura do regime chinês.

Confrontada com esta informação em uma entrevista, uma representante do Ministério das Relações Exteriores da China a classificou de “notícia falsa”.

Na opinião de Margaret Myers, diretora no centro de estudos Diálogo Interamericano, Pequim continua apoiando Maduro simplesmente por causa da estabilidade e para “proteger seus próprios bens”.

Segundo ela, as autoridades chinesas tentaram recentemente se envolver mais no setor de petróleo da Venezuela.

Myers lembra a visita de Maduro à China no ano passado e afirma que, então, Pequim concordou em conceder outro empréstimo de US$ 5 bilhões para “incrementar a produção de petróleo”, conforme confirmou o centro de estudos.

Nas palavras de Myers, “a maior parte do que a China está fazendo ultimamente é para tentar garantir o fornecimento de petróleo e o pagamento dos empréstimos existentes”.

“Não é um sinal de apoio político.”