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Maduro reprime protesto da oposição na Venezuela

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Polícia reprime protesto e impede apoiadores de Guaidó de montar palanque

Manifestação convocada pelo líder opositor, Juan Guaidó, foi dispersa com gás lacrimogêneo pela polícia em Caracas. União Europeia poderá endurecer sanções contra Nicolás Maduro, diz ministro alemão.

A polícia venezuelana utilizou gás lacrimogêneo para dispersar uma manifestação convocada para este sábado (09/03), em Caracas, pelo líder da oposição e autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó.

Os manifestantes recuaram, mas optaram por permanecer nas imediações do local marcado para a realização da concentração, na Avenida Victoria.

Anteriormente, a equipe de Guaidó havia denunciado que não tiveram permissão para instalar um palanque na área, e que três pessoas que transportavam as estruturas foram detidas e o material confiscado.

Guaidó reagiu no Twitter afirmando que o governo de Nicolás Maduro terá “uma surpresa”, já que os opositores continuarão na rua.

“Pretendem gerar desgaste, mas já não têm como conter um povo que está decidido a acabar com a usurpação. E hoje o vamos demonstrar nas ruas”, acrescentou o opositor no Twitter.

A manifestação, convocada em todo o país, faz parte da pressão cada vez maior para forçar Maduro a deixar o poder, que ocupa desde 2013. Além disso, ela acontece depois de um apagão que deixou a maioria dos venezuelanos sem luz.

A eletricidade foi restabelecida na madrugada deste sábado em algumas zonas de Caracas, porém, alguns bairros da capital venezuelana e mais de metade do país continuam sem energia há mais de 40 horas.

Maduro também convocou para este sábado uma concentração na capital venezuelana. Vários apoiadores do presidente em exercício ocuparam as ruas de Caracas, vestidos de vermelho, cor associada à revolução.

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro, quando o opositor e presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente interino e declarou que assumiria os poderes executivos de Nicolás Maduro.

Guaidó contou de imediato com o apoio dos Estados Unidos, prometeu formar um governo de transição e organizar eleições livres. Cerca de 50 países, incluindo o Brasil e a maioria dos países da União Europeia reconheceram Guaidó como presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, afirmou neste sábado que a União Europeia (UE) está disposta, caso necessário, a endurecer as sanções contra o governo de Nicolás Maduro.

“Na União Europeia estamos dispostos a impor sanções adicionais se for necessário”, disse o ministro em entrevista ao jornal berlinense Tagesspiegel.

Maas acrescentou que “é importante que a pressão internacional se mantenha elevada” e afirmou que a UE não participará da tática dilatória usada por Maduro. O apoio da UE ao líder da Assembleia Nacional venezuelana, Juan Guaidó, é “irrefutável”, assegurou.

Guaidó havia exigido um endurecimento das sanções contra Maduro, depois que este declarou “persona non grata” o embaixador da Alemanha na Venezuela, Daniel Kriener.

CA/efe/lusa

FBI: Crimes de ódio nos EUA crescem e atingem principalmente negros e judeus

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No mês passado, 11 pessoas foram mortas no ataque mais letal contra judeus na história dos EUA
O número de casos classificados pelo FBI como crimes de ódio nos Estados Unidos cresceram 17% em 2017, na comparação com 2016. De acordo com os dados da polícia federal americana, é o terceiro ano consecutivo em que há aumento neste tipo de incidente, definido por ser motivado por preconceito.

Órgãos oficiais registraram 7.175 crimes de ódio no ano passado, contra 6.121 em 2016. O aumento destes crimes é atribuído em parte à adição de cerca de mil departamentos de polícia que passaram a registrar esses incidentes.

Por que este professor americano sustenta que é mito o discurso de que armas são eficazes para defesa pessoal.

O relatório constatou que o crescimento de casos afetou especialmente negros e judeus.

Dos ataques registrados em 2017, aqueles motivados por questões raciais (um total de 4.131) concentram-se em incidentes envolvendo vítimas negras (2.013).

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O procurador-geral interino dos EUA, Matthew Whitaker, caracterizou o relatório como um “apelo à ação” e condenou os crimes como “violações desprezíveis de nossos valores centrais como americanos”.Comportamento,Racismo,Negros,Judeus,América

O que mais o relatório mostra?
Segundo o relatório, 59,6% dos incidentes foram motivados por preconceito contra raça, etnia ou ascendência.

Crimes de ódio religioso constituíram 20,6% dos ataques; aqueles contra orientação sexual representaram 15,8%.

O FBI define crimes de ódio como uma “ofensa criminal contra uma pessoa ou propriedade motivada, no todo ou em parte, por um preconceito contra uma raça, religião, deficiência, orientação sexual, etnia, gênero ou identidade de gênero”.

Os dados de 2017 apontam que 5 mil ataques registrados foram feitos por meio de intimidação ou agressão.

Cerca de 3 mil tinham como alvo propriedades, o que inclui vandalismo e roubo.

Crimes de ódio contra judeus tiveram um aumento de 37% em relação a 2016.

A publicação vem um mês depois que 11 judeus foram mortos por um atirador que invadiu uma sinagoga em Pittsburgh, fazendo deste o ataque mais mortífero contra judeus na história dos EUA. O suspeito foi acusado de dezenas de crimes de ódio.

Crimes contra afroamericanos tiveram um aumento de 16%.

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Cartaz em protesto nos EUA pede união de pessoas com origens étnicas diferentes na defesa dos direitos humanos

Como foram as reações aos dados?
Defensores dos direitos civis dizem que os números são subestimados, já que muitas vítimas optam por não apresentar denúncias; além disso, estas organizações apontam que muitas corporações não mantêm estatísticas precisas ou confiáveis.

Jonathan Greenblatt, da Liga Judaica Antidifamação, disse que o relatório “acrescenta evidências de que mais deve ser feito para enfrentar o clima divisivo do ódio na América.”

“Isso começa com líderes de todas as esferas da vida e de todos os setores da sociedade condenando vigorosamente o antissemitismo, o fanatismo e o ódio sempre que ele ocorre”.

A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) classificou os dados como “estarrecedores” e apontou que eles deveriam exigir “atenção total do Congresso”.

Amazônia: Os Brasileiros choramos por ti

O sofrimento da Amazônia em imagens
Fotografias de Daniel Beltrá

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Pequena porção de terras cultiváveis perto de Santarém (PA).


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Marcas em formato de árvores deixadas pela água na terra nas margens do rio Amazonas.


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Panorâmica de uma mina de ouro ao sul do Parque Nacional das Montanhas de Tumucumaque.


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Panorâmica de uma zona de pântanos ao norte do Estado brasileiro do Amapá.


Amazônia,Blog do Mesquita,Fotografias,Daniel Beltra 01Bosque ao sudoeste de Macapá


Amazônia,Blog do Mesquita,Fotografias,Daniel Beltra 01 Amazônia,Blog do Mesquita,Fotografias,Daniel Beltra 01

Península no meio do Jari, afluente do rio Amazonas.


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Terras baixas alagadas perto das desembocaduras do rio Amazonas e o rio Araguari, no Brasil.


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O ramo ocidental do Rio Uaçá serpenteia através da selva, ao oeste do Parque Nacional do Cabo Orange, no Brasil.


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Árvores de mangue caídos ao longo das margens do rio Amazonas, a 80 km ao nordeste de Macapá (AP).


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Troncos empilhados no porto da capital, Macapá.


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Águas carregadas de sedimentos que se estendem 280 quilômetros ao longo da costa, a partir da desembocadura do rio Amazonas.


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Debandada de uma revoada de guarás.

A maior selva tropical do mundo está lutando há décadas para sobreviver à exportação maciça de seus recursos

A quem interessa nossa ignorância?

Corruptos e desonestos lucram com a ignorânciaEnsino público no Brasil

Alunos em uma sala de aula. DANIEL CASTELLANO SMCS

A manutenção do péssimo modelo de educação pública interessa, e muito, aos desonestos e corruptos, que formam a grande maioria dos nossos dirigentes

Por Luiz Ruffato

Esse cenário de ceticismo se explica em duas frentes. A primeira, a falta de novidades entre os nomes apresentados – a única “renovação” é um candidato que prega… o retorno aos tempos da ditadura militar! Todos os outros, sem exceção, são políticos manjados, que já tiveram a oportunidade de mostrar a que vieram. A segunda questão é que, devido à sensação de que não conseguimos nunca, como coletividade, avançar na resolução dos nossos problemas básicos, caímos naquele estado de autocomiseração: se aqui, em se plantando tudo dá, quem colhe os frutos são sempre os mesmos…

 

Ora, se a conclusão acima reflete uma verdade, essa verdade é relativa, não absoluta. Embora o Brasil apresente uma das maiores diferenças entre ricos e pobres do planeta – segundo o IBGE, a média de renda mensal real de 1% da população (R$ 27.085) equivale a 33,6 vezes ao recebido pela metade da população que ganha menos (R$ 747) –, a única solução para todos os problemas encontra-se no fortalecimento da nossa débil democracia. Ou seja, somos nós os responsáveis tanto pelos caminhos percorridos até aqui, como pelos que serão trilhados no futuro.

Para mim, o cerne do problema encontra-se no péssimo sistema de educação pública que adotamos. É sabido que um em cada quatro brasileiros não sabe ler e escrever ou não compreende textos simples. Além disso, o Brasil ocupa o 65º lugar entre 70 países avaliados pelo PISA, programa internacional que analisa o desempenho de alunos de 15 anos dos sistemas público e privado de ensino. A falta de escolaridade é um impedimento não só para o crescimento individual – mas também para o desenvolvimento coletivo.

A pessoa que não tem acesso a um ensino de qualidade não consegue usufruir do mundo em sua plenitude. A noção de subjetividade, ou seja, aquela que permite que compreendamos a realidade a partir da complexidade da nossa própria existência, deriva do contato com formas mais elaboradas de conhecimento, que adquirimos por meio da educação formal. Sem educação, com as exceções de praxe, dificilmente galgamos o estatuto de cidadãos – tornamo-nos meramente estatísticas, seja na hora de apertar botões na urna eletrônica, seja na hora de ocupar o lugar na urna funerária.

A ignorância, advinda da falta de escolaridade, explica a mediocridade na qual nossa sociedade encontra-se atolada. O obscurantismo, que aceita respostas simples para perguntas complexas, seja no campo religioso, seja no campo artístico, seja no campo político, mina a tentativa de construirmos um Brasil multicultural e pluriétnico. Ao contrário, empurra-nos para o pensamento hegemônico, fundamentalista e simplório. O resultado, a História nos mostra, é sempre catastrófico.

A manutenção do péssimo modelo de educação pública interessa, e muito, aos desonestos e corruptos, que formam a grande maioria dos nossos dirigentes. É a forma mais fácil de a elite – seja ela política, econômica ou intelectual – garantir seus privilégios, que não são poucos. Ainda restam nove meses para exigirmos dos candidatos compromissos com mudanças substantivas pelo menos do nosso sistema escolar. No entanto, para isso, desde já, somos nós que temos de arregaçar as mangas.

Project Veritas: Você sabe o que é?

O grupo conservador que profissionalizou a guerra de informação nos EUA

James O’Keefe durante evento em 2015.James O’Keefe durante evento em 2015. PABLO MARTINEZ MONSIVAIS AP

O mais recente alvo do ‘Project Veritas’ foi o jornal ‘The Washington Post’, que acusa a organização de criar um factoide sobre um senador republicano para deslegitimar a empresa

Nada parece conter James O’Keefe em sua aversão pelo mundo progressista. Em 2009, ele se fez passar por um cafetão em um encontro com a organização social Acorn. No ano passado, tentou simular em um telefonema ser um húngaro se colocando à disposição para colaborar com a fundação do magnata George Soros, na órbita do Partido Democrata, mas não desligou o telefone direito e acabou revelando, sem saber, o próprio golpe. Agora, tudo indica que ele está por trás da tentativa de levar o jornal The Washington Post a publicar uma informação mentirosa ao noticiar o relato de uma suposta vítima de um falso affairesexual de Roy Moore, o candidato republicano ao Senado pelo Alabama, atacado por uma onda de acusações de assédio sexual.

O’Keefe, de 33 anos, se apresenta como um “jornalista de guerrilha”. Ele encarna o princípio de que, para atacar os círculos progressistas, tudo é válido. O meio utilizado – a mentira – justifica esse fim, que ele chama de revelar a “corrupção e desonestidade”. É uma personalidade emergente no mundo da direita norte-americana sem complexos, que aposta na ruptura e na atuação antiestablishment, próxima do presidente Donald Trump. Não surpreende, portanto, o fato de que seu mentor tenha sido Andrew Breitbart, criador do site ultraconservador que leva o seu nome e que é hoje dirigido por Steve Bannon, figura de destaque na campanha eleitoral de Trump e de seus meses iniciais na Casa Branca.

Project Veritas, organização conservadora fundada por O’Keefe em 2010, promete investigações explosivas contra os grandes veículos de imprensa norte-americanos. Ele os define como “Pravda”, nome do jornal oficial da União Soviética. E promete desmascarar uma mina de supostas verdades. Além do Post, alguns de seus alvos foram a rádio NPR, a rede CNN e o jornal The New York Times.

O último objetivo era aparentemente ajudar Moore, que Trump apoiou apesar das acusações sexuais contra ele, e tirar a legitimidade do Post, que divulgou as acusações que colocaram o político contra a parede. Uma mulher contatou o jornal alegando que manteve uma relação sexual com Moore em 1992, engravidou e abortou aos 15 anos.

O jornal descobriu, no entanto, que a mulher havia mentido sobre sua identidade e, na segunda-feira, a viu entrando na sede do Project Veritas, em Nova York. Paralelamente, o Post divulgou um vídeo, feito com câmera escondida, do encontro entre essa mulher e uma repórter do jornal, que a pressionava a respeito das inconsistências de seu relato e perguntava o que a tinha levado a contar aquela história.

O’Keefe evitou confirmar se a mulher trabalhava para sua organização. E contra-atacou a aparente descoberta de sua armação divulgando outro vídeo com câmera escondida em que um repórter do Post critica a linha editorial do jornal por sua dureza contra Trump. O jornalista disse que acreditava estar falando com estudantes.

O’Keefe vive mergulhado em polêmica, sempre acusado de mentir e exagerar suas descobertas. Formado em Filosofia, ganhou fama em 2009 no caso da Acorn. Munido de uma câmera escondida, foi acompanhado de uma mulher, que disse ser uma prostituta menor de idade, a várias reuniões com a organização que ajuda pessoas de baixa renda. Ambos disseram buscar assessoria para aparentar que seria legal a prostituição de uma imigrante. E os trabalhadores lhes deram conselhos. Houve demissões e consequências políticas. A Câmara de Representantes cortou os recursos federais da Acorn, que acabou sendo dissolvida.

Entretanto, o jovem acabou se desculpando por essas gravações e teve de pagar 100.000 dólares (320.000 reais) depois de ser processado por um funcionário da Acorn, que denunciou que não tinha dado autorização para ser gravado, como requer a lei da Califórnia.

Os problemas legais se repetiram em 2010. O’Keefe foi detido por entrar com identidade falsa no gabinete de uma senadora democrata e condenado a três anos de liberdade condicional e uma multa.

As irregularidades, no entanto, não frearam o jovem direitista. Muito pelo contrário. Em 2016, o Project Veritas recebeu 4,8 milhões de dólares em doações e tinha 38 funcionários. Em uma oferta de trabalho em seu site, buscam-se jornalistas dispostos a trabalhar disfarçados. Por ser uma organização sem fins lucrativos, não é obrigado a divulgar a identidade de seus doadores. Segundo o Post, um dos doadores em 2015 foi a fundação Trump, que doou 10.000 dólares.

No ano passado, a campanha do republicano se beneficiou implicitamente do trabalho do Project Veritas. O chefe de uma organização próxima ao Partido Democrata renunciou depois que O’Keefe divulgou um vídeo em que falavam de supostos métodos para tentar incitar a violência em comícios de Trump.
Joan Faus/ElPais

Drogas – Heroína está afundando os Estados Unidos

Os EUA nas garras da heroínaLuis Orozco, 24 anos, nesta semana em Miami

Luis Orozco, 24 anos, nesta semana em Miami P. D. LL.
Nesse gueto de Miami, a cocaína é chamada de girl – menina — e a heroína, de boy – menino.

Presidente Donald Trump declara epidemia de opiáceos como emergência nacional. O EL PAÍS conversou com três dependentes químicos e com um quarto que superou o vício.
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“Quer boy?”, pergunta um traficante. Pois todos os brancos que aparecem nas ruas desoladas do bairro negro de Overtown querem, precisam urgentemente do boy.

Manhã úmida, nublada, quente. Um ruivo anda de bicicleta. Não consegue parar. Está atrás da sua dose. “Depois, se você quiser, dou cem entrevistas”. E sai pedalando.

Jason, filho de cubanos, 30 anos. Não revela o sobrenome. Não quer ser fotografado. Mas conta: “Comecei com os comprimidos e depois passei para a manteiga. E quando você experimenta a manteiga, não quer mais saber dos comprimidos”. “Manteiga” é o boy. Jason jogava beisebol. Vem “de boa família”. Sua irmã está se formando em advocacia. Jason: “Ainda estou tentando entender que merda que aconteceu com a minha vida!”.´

São os Estados Unidos. É a epidemia de heroína, de opiáceos sintéticos que vem da China como mísseis tomahawk em pó, dos analgésicos viciantes da indústria farmacêutica receitados como se fossem balas – cerca de 300 milhões de comprimidos por ano desde 2000. A epidemia que Trump decretou como emergência nacional em 10 de agosto.

É essa torrente numérica: 35.000 mortos – cerca de cem por dia — por causa de overdose de heroína e outros opiáceos em 2016, ano que bateu um recorde histórico de mortes causadas por drogas: 60.000, mais do que em toda a Guerra do Vietnã; no Estado de West Virginia, em 2015, o índice foi de 36 mortos por opiáceos para cada 100.000 habitantes, superior ao de 30 por 100.000 homicídios registrados na Guatemala no mesmo ano. Um assessor de Trump sintetiza: “É um 11 de Setembro a cada três semanas”.

“Sou uma menina de vilarejo”

Cary Morissette, 28 anos
Cary Morissette, 28 anos P. D. LL.
Estava comprometida, ia me casar, ter filhos. Era gerente de um Wendy’s…

Cary Morissette tem 28 anos, é dependente desde os 20. Está cansada: “Quando você acorda de manhã, primeiro toma o café da manhã e depois escova os dentes. Eu acordo suando, primeiro vomito e depois, se não guardei nada do dia anterior, saio para comprar a minha dose”.

Passa um outro traficante, oferece a sua droga, mostra seus dentes cheios de ouro.

Cary, com seus dentes estropiados, é de Maine. Belo, cheio de florestas, na fronteira com o Canadá, um dos Estados mais atingidos pela epidemia. “Sou uma menina de vilarejo, o típico lugar onde todos se conhecem”. Pupilas dilatadas. Como no caso de Jason, ela conta que a sua é uma “boa família americana”.

“Que fazia esporte – softball –, tinha “um pai incrível”, “irmãs maravilhosas”. De repente, um dia, começou a fumar cocaína em pedra feito uma desesperada e depois passou a ingerir heroína na veia. “Estava comprometida, ia me casar, ter filhos. Era gerente de um Wendy’s [dá uma risada, desdenhando o mérito de seu cargo na rede de hambúrgueres], mas ia abrir a minha própria doceria para fazer bolos de casamento”.

Ela sua, sua muito. “Veja como estou agora. Cheia de infecções”.

Uma amiga, bastante pálida, se aproxima. “Eu comecei com comprimidos”. Característica típica da questão: brancos que se viciaram em pílulas. E daí passaram para o cavalo.

Cary não quer parar para pensar sobre o motivo dessa epidemia nos EUA. Simplesmente diz: “Isso é nojento”. Mas sua amiga comenta: “É porque nós somos os mais viciados do mundo e só sabemos desfrutar em excesso. Como os obesos são com a comida, nós somos com isso”.

Jesse Thompson, 24 anos
Jesse Thompson, 24 anos P. D. LL.

Você não faz ideia de como o Hermitage é bonita. Mas, se eu tivesse ficado mais um dia ali, acabaria morto

“Os comprimidos eram o céu”

Ele tem 24 anos, não consegue entender como não morreu e agradece a Deus por já estar limpo há um ano e meio. Jesse Thompson, “inter-racial, pai branco e mãe negra”, nascido em Hermitage (Pensilvânia, outro estado afetado). Graciosa, cheia de sol, um verdadeiro pomar de centros de reabilitação, confim peninsular aonde fugir para tentar renascer é um ponto de atração para drogados de todo o país. Foi aqui que Thompson se livrou das “garras da heroína” e agora trabalha ajudando dependentes.

“Você não faz ideia de como Hermitage é bonita. Mas, se eu tivesse ficado mais um dia ali, estaria morto”.

Jogava futebol americano. Foi operado. Deram-lhe analgésicos. “Com os primeiros comprimidos, eu entendi que tinha encontrado o que precisava. Eu me sentia no céu, invencível, como se ninguém pudesse me atingir”. Depois de alguns meses as receitas acabaram e ele foi tentar comprar comprimidos de um amigo do colégio. “Ele não tinha mais e disse: ‘mas tenho heroína’. Eu não estava aguentando a crise de abstinência das pílulas e então respondi: ‘Me dá isso já’”. E, como um “animal viciado”, chegou a gastar mais de 200 dólares por dia com heroína. Queimava todo o salário ganho como funcionário de uma construtora e ainda roubava mais mil por semana do cartão de crédito da mãe.

Luis Orozco, 24 anos
Luis Orozco, 24 anos ANTONI BELCHI
Tudo que lhe vendem agora, mesmo dizendo que é heroína, é fentanil. É terrível

Jesse foi frequentador assíduo de Overtown. Agora não é mais. A entrevista foi dada em um bairro tranquilo, enquanto desfrutava de um hambúrguer com bacon. Acompanha tudo sobre a epidemia, combate na linha de frente contra ela e prevê: “Isso não vai parar. Vai piorar. Pode acreditar”.

“Ando entre a vida e a morte”

Carly diz seu nome, mas não o sobrenome. “Coloque Carly R.”. Tem 36 anos, usa drogas desde os 19, é de Miami. Já esteve 11 vezes em clínicas de reabilitação. Tem rosto de criança. Chora ao falar da família. “Tive tudo o que queria, mas era uma menina problemática”.

Por mais nociva que a droga seja, ela se queixa de que a heroína anda escassa. “Tudo que vendem para você hoje, mesmo dizendo que é heroína, é fentanil. É terrível”. Trata-se do opiáceo sintético que inundou o mercado. Uma dose de fentanil, além de ser mais barata, é 50 vezes mais forte do que uma de heroína. Está na origem da grande onda atual de overdose.

“Sei que ando entre a vida e a morte”, diz ela, que nos últimos meses se viu duas vezes à beira da morte, mas foi socorrida por paramédicos com Narcan, um spray nasal que reverte a overdose. “Meus amigos tombaram feito moscas. Morreram uns 15. Na primeira vez que injetei heroína foi uma delícia”, lembra. “Foi com uma ex-namorada, que agora está morta”.

Luis Orozco, 24 anos.
Luis Orozco, 24 anos. P. D. LL.
Se o médico não tivesse me dado os comprimidos, talvez eu não acabasse desse jeito

Carly R. – boné, calças largas de rapper, crucifixo no peito — explica que o “barato” da heroína é prolongado, enquanto o de fentanil é breve e intenso. “Acaba logo e você quer mais uma dose”, diz. “Rapidinho, rapidinho!”, estala os dedos.

“De repente a luz se apaga para você”

Dentro da van da ONG Needle Exchange – do lado de fora, seis policiais revistam três drogados deitados em uma calçada por onde não passa ninguém -, Luis Orozco, 24 anos, nascido em Los Angeles de pais mexicanos, diz que “no meu caso foi depressão, man”.

Os que estão em pior situação, como ele, são os que moram em Overtown, em algum quartinho qualquer ou sobre papelões a céu aberto. Os enfermeiros da ONG dizem que os que têm dinheiro ou que ainda não chegaram ao fundo do poço passam de carro logo cedo – “a caminho do trabalho” –, compram sua heroína e “se injetam no escritório”. Alguns também trocam suas seringas na van. Muito rapidamente. “Nem olham para você”.

Luis desce da van. De uma família “normal, sempre trabalhando e pagando as biles [bills, contas]”, caminha por Overtown com o auxílio de um andador. É diabético. Foi operado há algumas semanas para extrair pus de um tornozelo e tem uma ferida aberta na cabeça que não consegue cicatrizar. Uma mãe passa, com duas crianças com uniforme de escola. As crianças olham com estranheza para Luis, que sorri simpaticamente.

Ele também começou com comprimidos. “Se o médico não tivesse me dado aquilo, talvez eu não acabasse desse jeito”. Tem medo de morrer por causa de uma overdose de fentanil. “Dizem que é tranquilo, Mas de repente a luz se apaga para você”.

Sua mãe morreu em 2015. O pai mora com uma irmã, em Miami. Dizem para ele deixar Overtowm e ir morar com eles. “Vem pra casa”, insiste o pai. “E ele fica chateado porque eu prefiro ficar aqui”. “Você pode me oferecer uma cama, ar-condicionado, uma geladeira cheia de comida e TV a cabo, mas eu prefiro ficar aqui, perto da droga, para estar aqui quando me bater o desespero para tê-la, que é quando você se sente como se fosse um peixe sem oxigênio”, conta, aflito, cheio de olheiras, trajando uma camiseta escura estampada com o desenho de uma morte com a foice, enrolada em uma bandeira dos EUA.

A PRAGA MAIS BRANCA

A epidemia cresce entre os brancos. Em 2001, 0,34% das pessoas brancas e 0,32% de não-brancas consumiam heroína. Em 2013, a diferença dobrou: 1,9% dos brancos, 1,05% dos não-brancos. Em 1999, 70% das pessoas mortas por causa da droga eram brancas. O dado, em 2015, é de 82%. A razão médica é o aumento maior da dependência a remédios contra a dor entre os brancos; a social, segundo os analistas, seria a pauperização econômica da classe média em um país cada vez mais desigual.
PABLO DE LLANO/ElPais

Gestão Doria: investigar corrupção? Nem pensar

Saída de secretário e controladora que investigavam corrupção em SP abre crise na gestão Doria

Gestão João Doria

Saída de Natalini da Secretaria do Meio Ambiente faz conselheiros da área renunciarem. Ele havia enviado denúncias de irregularidades para controladora de São Paulo, também demitido.

A demissão de mais um secretário da gestão João Doria  na Prefeitura de São Paulo trouxe uma nova crise de imagem ao Governo municipal nesta semana. Gilberto Natalini, vereador do Partido Verde (PV), foi demitido da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para, segundo a versão oficial, acomodar outro partido aliado da base governista na Câmara.

A saída dele acontece após a denuncia de indícios de corrupção dentro da pasta, que levaram a secretaria a adotar procedimentos mais rígidos de licenciamento ambiental desagradando construtoras.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Natalini deixa o Governo dias depois da demissão da controladora-geral do município, Laura Mendes de Barros, que investigava as denúncias feitas pela área ambiental da gestão.

Ela também liderava outra investigação relacionada a suspeitas de cobrança de propina de funcionários da prefeitura para liberar propagandas proibidas pela Lei Cidade Limpa. A prefeitura afirmou, segundo os veículos nacionais, que a demissão dela se deu “por questões administrativas operacionais”.  

O ex-secretário ambiental, que reassumiu nesta semana sua cadeira na Câmara Municipal, contou ao EL PAÍS que entregou um documento à Controladoria-Geral do Município no que indicava irregularidades encontradas na pasta.

“É um relato sobre um levantamento que nós fizemos de problemas no licenciamento ambiental em São Paulo. Encaminhamos para a controladoria para eles fazerem uma investigação e comprovar ou não os indícios que a gente descobriu”, diz ele.

Entre as irregularidades, aponta o ex-secretário, estão erros administrativos e suspeitas de facilitações para determinados tipos de processos.

“Quando eu entrei, identificamos que acontecia. Investigamos, trocamos as pessoas [envolvidas] em maio. Tudo junto à controladoria, para onde enviamos o relatório e onde continuou a investigação”, destaca ele, que diz que o número de funcionários com cargos importantes demitidos chegou a oito. 

Depois das denúncias, o vereador diz que os processos ficaram mais rígidos, e o setor imobiliário passou a pressioná-lo nos últimos dois meses.

“Depois que eu encaminhei para a investigação nós mudamos a metodologia local e imprimimos ali os ritos da lei. Lógico que cumprindo a lei, demora mais para sair a licença. E começou a ter reclamação do setor de incorporação imobiliária.

Começaram a reclamar que estava demorando muito e eu disse que estava demorando porque estávamos fazendo vistorias e não laudos fajutos com vistorias fajutas, pedindo a documentação completa”, ressalta.

“Eles ficaram muito nervosos, muito bravos, dizendo que a gente estava parando o mercado imobiliário”, ressalta ele, que afirma não ter havido conversas com Doria sobre o tema.

“O prefeito me chamou, falou que precisava fazer um rearranjo político-partidário, que estava negociando com outro partido e precisava do cargo”.

A conversa aconteceu na quinta-feira, dia 17 de agosto, depois de ele próprio ter procurado o prefeito para confirmar a informação dada por um jornalista de que seu cargo estava sendo negociado.

Natalini evita associar sua saída às pressões da construtora ou às denúncias de corrupção. O atual secretário da pasta, Fernando Von Zuben, que assumiu o lugar do vereador, ao menos por enquanto provisoriamente, diz que a secretaria está funcionando normalmente, que a demissão se deu por um rearranjo político e que a pasta está implementando um procedimento eletrônico que até outubro deve reduzir o processo de licenciamento ambiental dos 400 dias atuais para 80 dias úteis, só permitindo que eles sejam iniciados com todos os documentos corretos.

“Tudo está sendo investigado”, ressalta ele. “As pressões ocorrem aqui diariamente. Elas vêm de sindicatos de funcionários, de organizações não-governamentais, de conselhos de parques, de autoridades, de vereadores, de empreiteiras, de pequenas e médias empresas. Isso faz parte da democracia em qualquer país democrático do mundo”, diz ele.

“A pressão existe e todas as que eu presenciei foram de grupos querendo que as coisas andassem, mas nunca nenhum tipo fora da normalidade.”

Após a demissão do ex-secretário, entretanto, cinco dos sete membros do Conselho Gestor da secretaria ambiental renunciaram a seus cargos. Segundo o site G1, que teve acesso à carta de renúncia coletiva, o grupo afirmou que discorda “da demonstração de desprestígio da área ambiental da Prefeitura de São Paulo nos últimos quatro anos”.

O advogado de 85 anos que quer governar o Brasil sem partidos políticos

Modesto Carvalhosa lidera movimento sem partido para “quebrar revezamento de facções corruptas”O advogado Modesto Carvalhosa em seu escritório, em São Paulo.

O advogado Modesto Carvalhosa em seu escritório, em São Paulo.
FERNANDO CAVALCANTI

Campanha quase quixotesca quer correr por fora na intrincada disputa de um eventual pós-Temer

“Queremos mais Brasil, e menos Brasília”, resume Modesto Carvalhosa. Aos 85 anos, o advogado que se formou na área de direito societário, militou na preservação do patrimônio histórico e acabou se especializando no combate à corrupção encabeça um movimento que tem a pretensão de governar o Brasil sem partidos políticos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Nascida do incômodo com a interminável crise política brasileira, a mobilização começa a partir de um influente mas pequeno grupo de advogados de São Paulo, que pretendem expandir o clamor em torno de uma “candidatura da sociedade civil” à presidência da República para todo o país nos próximos meses.

A candidatura de Carvalhosa é apresentada como opção para uma eleição indireta, que só será realizada pelo Congresso Nacional caso Michel Temer não termine o mandato, uma opção que o Planalto quer evitar a todo custo ainda no comando de uma cambaleante coalizão que exibe lastro no Legislativo.

O advogado, que apesar da idade avançada apresenta uma vitalidade impressionante, se baseia no Pacto de São José — mais precisamente no seu artigo 23 — para defender a possibilidade de se candidatar sem ter filiação partidária.

O pacto, fruto da Comissão Americana de Direitos Humanos (1969), prevê que “a lei pode regular o exercício dos direitos e oportunidades [de votar e ser eleito] exclusivamente por motivo de idade, nacionalidade, residência, idioma, instrução, capacidade civil ou mental, ou condenação, por juiz competente, em processo penal”.

Como não há previsão de limite por conta de situação partidária no pacto internacional, não haveria impedimento para uma candidatura “civil”, avaliam os apoiadores de Carvalhosa, apesar de a legislação eleitoral brasileira dizer que “para concorrer às eleições, o candidato deverá (…) estar com a filiação deferida pelo partido no mínimo seis meses antes da data da eleição”.

Independentemente da viabilidade da tal candidatura civil — que depende da queda do presidente — Carvalhosa enxerga no movimento uma forma de abrir perspectivas para o país, cujos partidos e políticos perderam seja lá o que ainda tinham de admirável após a Operação Lava Jato.

“A decisão do Tribunal Superior Eleitoral [que absolveu a chapa Dilma-Temer] não melhora a estabilidade do Temer. Ela aprofunda sua ilegitimidade”, avalia Carvalhosa, que enxerga o Judiciário arrastado para uma crise que já reunia o Executivo, o Legislativo e o Ministério Público, ferido pela forma como o acordo de delação da JBS foi fechado — a cúpula da empresa ganhou perdão judicial mesmo após confessar crimes.

“É preciso restabelecer a honra do país, que está afetada em todos seus segmentos institucionais, e a autoestima da população, que está humilhada.” Para o advogado, só “gente de fora” pode “quebrar esse revezamento de facções corruptas que se sucedem”.

Propostas

A proposta, que soa quase quixotesca na intrincada crise política com tantos interesses na mesa, é baseada, diz ele, numa avaliação de cenário internacional. Emmanuel Macron se elegeu na França por um partido criado meses antes da eleição, desbancando as legendas tradicionais. Nos Estados Unidos, Donald Trump se impôs como outsider ao Partido Republicano.

Carvalhosa defende que a sociedade civil brasileira tem nomes para assumir o país, “três ou quatro de alto nível para cada cargo”, e sua candidatura já teria inclusive o apoio de renomados economistas e políticos, entre eles ex-ministros, mas que ainda não se sentem confortáveis para expor seus nomes.

Por enquanto, os nomes de maior vulto são os de Hélio Bicudo, um dos signatários do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias e o ex-ministro do Superior Tribunal Militar Flávio Bierrenbach.

Os defensores de sua candidatura, que têm se articulado em busca de apoio para divulgar a ideia, também esperam o engajamento de movimentos como o Vem pra Rua, entre outros surgidos durante o período de ocaso do Governo Dilma Rousseff.

Além de escantear os partidos políticos, o movimento em torno de Carvalhosa se estrutura em cima de bases como a diminuição de cargos de confiança para no máximo 100 (hoje são cerca de 100.000) e reformas política e da administração pública, por meio de uma constituinte.

O advogado defende o teto para limite de gastos e a reforma trabalhista, mas acha que a reforma previdenciária tem de voltar a seu leito inicial, para afetar estados e municípios, “mas não com aquela aberração de que você tem de trabalhar 450 anos para ter um salário mínimo”. “A ideia é restaurar a confiabilidade do Governo e recuperar o papel do chefe de Estado”, sintetiza.

Militância

O homem que hoje pleiteia liderar a sociedade civil contra um mundo político-partidário em crise começou a atuar como advogado em 1958, no ramo do direito societário. Na década de 1970, liderou um movimento para impedir a destruição do edifício histórico do Colégio Caetano de Campos, em São Paulo.

A partir de então, se engajou na defesa do patrimônio histórico, e presidiu o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo) de 1984 a 1987. O tema da corrupção entraria em sua vida na década seguinte, quando participou de uma comissão especial do Governo Itamar Franco para verificar as ramificações do escândalo dos Anões do Orçamento, sobre fraudes no Orçamento da União.

O advogado conta que trabalhou durante todo o ano de 1994 “dentro do Palácio do Planalto”, de onde tirou a inspiração para seu Livro negro da corrupção (Paz e Terra), agraciado com o Prêmio Jabuti.

Uma das conclusões daquela comissão de notáveis foi de que deveria haver uma quebra das relações entre o agente público e o contratante da obra, o que ocorreria por meio da implantação de um sistema chamado performance bond, “Se isso tivesse sido adotado em 1994, talvez nós tivéssemos um novo quadro no setor de obras públicas.” Mas nada daquele diagnóstico foi aplicado — o que Carvalhosa põe na conta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Desde então, o advogado diz que houve uma evolução na organização da corrupção no país sob o PT, ainda que as delações premiadas apontem para um azeitado esquema de desvios funcionando bem antes de 2003. “Havia na tradição corruptiva brasileira a questão de sempre dar 10% do valor das obras para os políticos e altos funcionários, mas não era uma coisa organizada.

O que ocorreu no governo petista foi a organização do crime da corrupção”, critica um bem humorado senhor de cabelos e bigodes brancos em seu escritório no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Carvalhosa recebeu o El PAÍS na tarde de sexta-feira em que o TSE absolveu a chapa Dilma-Temer. No dia anterior, tinha ido dar uma entrevista — das muitas que tem concedido — no Rio de Janeiro. Na semana seguinte, iria para Brasília.

A disposição preocupa a esposa, Claudia Correa, mas Carvalhosa não demonstra cansaço. E está atento a tudo, questiona a toda hora sobre o andamento do julgamento do TSE. Algum político o agrada? “[A deputada federal Luiza] Erundina é a mulher mais correta que eu já conheci na minha vida em matéria de política”, responde.

Carvalhosa trabalhou com a então prefeita de São Paulo entre 1989 e 1993. Ele conta que, à época, “o Tribunal de Contas do Município era dominado pelos malufistas, que reprovavam as contas dela, como se fosse uma criminosa”. O advogado trabalhou na defesa da hoje deputada do PSOL, “uma exceção em matéria de integridade”, mas que teria perdido o rumo.

Carvalhosa também poupa o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) e o ex-senador Pedro Simon. E enxerga com bons olhos uma possível candidatura do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, “um doido do bem, uma metralhadora giratória”. Talvez a mesma descrição, feita de forma carinhosa pelo advogado, coubesse ao próprio Carvalhosa, que, assim como Barbosa, não tem poupado quase ninguém em suas entrevistas e, aos 85 anos, se dispõe a liderar a abertura de novas perspectivas para um país que não parece capaz de encontrar saídas no mundo político-partidário.

Stratolaunch o maior avião do mundo

Maior avião do mundo sai à pista

o avião mais grande do mundoO Stratolaunch, fora do hangar no deserto de Mojave. APRIL KELLER AFP

O Stratolaunch, do cofundador da Microsoft Paul Allen, foi projetado para colocar foguetes em órbita

O avião Stratolaunch, uma gigantesca aeronave de duas cabines e uma asa de 117 metros de envergadura, criado para colocar foguetes em órbita, saiu na quarta-feira, dia 31 de maio, pela primeira vez do hangar onde está sendo montado no deserto de Mojave (Califórnia) para seus primeiros testes.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O maior equipamento voador já construído é um projeto da companhia Stratolaunch Systems, do multimilionário filantropo e cofundador da Microsoft Paul Allen. O lançamento de teste está previsto para 2019.

O maior avião do mundo é formado por dois corpos, unidos por sua asa de 117 metros — mais do que o comprimento de um campo de futebol profissional —, mede 72 metros da ponta à cauda e sua altura máxima é de 15 metros na cauda.

Tem seis motores como os usados por um Boeing 747 e pesa 227 toneladas. Foi criado para carregar foguetes e satélites a baixas órbitas da Terra, desde que a carga não pese mais de 590 toneladas. O aspecto é de um catamarã aéreo.

O avião se desloca por terra graças a suas 28 rodas, com as quais terá de percorrer e tomar velocidade de decolagem durante os 3,6 quilômetros de pista de que vai precisar para alçar voo, diante dos dois quilômetros necessários para um avião comercial convencional.

Já no ar, o plano consiste em subir até uma altitude máxima de 10,6 quilômetros, colocar a carga em órbita e voltar.

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“Isso marca o fim da fase inicial de construção da aeronave e o início da fase de testes em terra (…): motores e taxiamento [deslocamento pela pista] antes do primeiro voo”, afirmou Jean Floyd, presidente da empresa, em um comunicado em função do início da fase de teses.

“O Stratolaunch está em vias de realizar seu primeiro teste de lançamento [ao espaço] em 2019”, afirmou Floyd.

O plano é colocar em órbita um foguete Pegasus XL, usado normalmente para transportar satélites. O foguete iria para decolagem no meio das duas fuselagens do avião gigantesco.

“Isso marca um passo histórico em nosso trabalho para alcançar a visão de Paul G. Allen de dar acesso à órbita baixa da Terra”, acrescentou o executivo.

O comunicado da empresa anuncia que nos próximos meses “começarão os testes de terra e voo” nas pistas do Mojave. O objetivo é fazer a primeira demonstração de lançamento em 2019.
Com dados do El Pais

Doria afundou na droga: A cracolândia acabou?

Com ações apressadas e improvisadas, cracolândia torna-se a primeira pedra no sapato de DoriaPoliciais fizeram uma megaoperação na região da Cracolândia, em São Paulo, no domingo passado.

Policiais fizeram uma megaoperação na região da Cracolândia, em São Paulo, no domingo passado. PAULO WHITAKER REUTERS

Decisões levadas a cabo ao longo desta semana expuseram série de contradições da Administração do prefeito e de seu plano para tratar os dependentes químico.

“A cracolândia acabou”. Esta é a frase constantemente usada por João Doria, prefeito de São Paulo (PSDB), ao se referir ou responder a perguntas sobre esta região do centro da capital paulista. No último domingo, uma megaoperação policial em articulação com o Governo do Estado expulsou os usuários de crack e traficantes que se aglomeravam no “fluxo”, o mercado aberto de drogas que ocupava a alameda Dino Bueno e seu entorno.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Estas vias estão de fato livres agora, como diz o prefeito, mas as ações levadas a cabo nesta área ao longo da semana, muitas delas apressadas e improvisadas, expuseram uma série de contradições da Administração Doria e de seu plano para tratar os dependentes químicos – batizado de Redenção.

A questão da cracolândia voltou para os holofotes com a mesma força que a polícia limpou o local, tornando-se a primeira pedra no sapato de Doria em um momento no qual ele aparece como o principal nome do PSDB para disputar a presidência da República — uma possibilidade que ele já não nega publicamente.

A semana terminou, entretanto, com uma boa notícia para o prefeito. A Justiça autorizou o Executivo municipal a buscar e apreender, durante 30 dias, “pessoas em estado de drogadição” que estejam vagando na região da cracolândia para que sejam examinados pelas equipes multidisciplinares e, após aprovação judicial, internados compulsoriamente.

O pedido da prefeitura foi feito às pressas pela Procuradoria Municipal do Município na última terça-feira, uma vez que a operação policial de domingo fez com que os dependentes químicos se espalhassem por outros 23 pontos da cidade, segundo a Guarda Civil Metropolitana (GCM). A maioria, cerca de 600 pessoas, está aglomerada na praça Princesa Isabel, a 400 metros da antiga cracolândia.

A dispersão dificultou um dos eixos do projeto Redenção, que é o cadastramento prévio de cada usuário através “de uma abordagem contínua, de caráter não impositivo”. O próprio secretário de Saúde, Wilson Pollara, admitiu publicamente na última quinta-feira que o programa anticrack ainda estava em fase de implementação e que não estava prevista uma grande operação policial.

Aliás, o documento do projeto diz que a ação de agentes da GCM, da PM e da polícia civil agiriam na retaguarda, “para dar apoio aos servidores” que atuariam nos lugares de uso de drogas. Pollara também admitiu que ele próprio não havia sido avisado sobre as ações policias na cracolândia até o dia de sua realização. A prefeitura garante, contudo, que a dispersão vai ajudar na abordagem, uma vez que não haverá presença do tráfico.

“Isso é uma balela completa. Porque o tráfico está lá, as pessoas estão usando, a droga está chegando. A droga não chega só na cracolândia, chega a todos os lugares”, explica o promotor da Saúde Arthur Pinto Filho. O Ministério Público de São Paulo, que participou da elaboração do Redenção, vem sendo um dos principais críticos das últimas ações de Dória, ao dizer que a prefeitura abandonou seu projeto Redenção nesta última semana.

“Nós avisamos o prefeito e os secretários que a dispersão era o pior cenário que poderia acontecer. Quando eles espalham as pessoas pela cidade, acontece o óbvio: essas pessoas que tinham, umas mais e outras menos, contato com os agentes de saúde e da assistência social perdem esse vínculo”.

Além disso, argumenta o promotor, esses usuários estão “zanzando, buscando seu refúgio”. “A GCM diz que hoje estão espalhados por 23 pontos, mas em três horas podem ser 15 pontos e em cinco horas podem ser 30”. Ele também acusou a prefeitura de querer, com sua petição judicial, levar a cabo uma “caçada humana” por São Paulo sem precedentes no resto do mundo.

“O programa não iria trabalhar só com a abstinência. Iria ser com abstinência e a redução de danos. Agentes da saúde e assistentes sociais iriam, 24 horas por dia, atuar na região para fazer a aproximação, levantar cada situação e patologia. E a partir desses dados fazer um projeto terapêutico individualizado, que é o que funciona”.

A gestão Doria assegura, por sua vez, que a busca e apreensão de usuários será feita apenas em último caso e respeitando os direitos humanos. Neste sábado, o secretário da Saúde Pollara afirmou em entrevista à Globo News que os critérios de abordagem serão “psiquiátricos”, e que “aqueles que estiverem conscientes” do que estão fazendo serão “respeitados”.

Ele previu ainda que 100 pessoas deverão ser levadas compulsoriamente pelos agentes públicos. O Executivo afirma também ter aumentado consideravelmente nos últimos dias o número de assistentes sociais que estão nas ruas, algo que era visível na praça Princesa Isabel na última sexta-feira.

“A prefeitura e o Estado estão de fato tomando conta da parte social, tentando fazer a reinserção. Tem uma assistência social ativa nesses núcleos que estão se formando. Eles não fizeram só uma operação policial, está tendo sim uma segunda parte”, afirma Clarice Sandi, pesquisadora e professora da UNIFESP que trabalha com assistentes sociais na cracolândia. Ela não acredita que a dispersão em si atrapalhe no vínculo, mas sim a iniciativa da prefeitura em levar à força os usuários para avaliação médica.

“Foi um tiro no pé. Agora alguns usuários já não querem entrar nas vans e ir para albergues porque acham que vão ser internados compulsoriamente. Uma medida que considera internações em massa é de fato higienista”, diz.

Entretanto, Sandi é uma das especialistas que defendem a realização da operação policial do último domingo sob o argumento de que “algo tinha de ser feito” para estancar uma violência que, para ela, “aumentou muito nos últimos tempos”. “Não que antes fosse ok. Mas funcionários começaram a ser roubados e ameaçados. Já vi mulheres transsexuais apanhando muito. E tem muita criança lá”, conta ela.

“Óbvio que não sou a favor da policia entrar apavorando, mas estava tudo muito errado antes também. Mas só agora virou um problema de direitos humanos. Havia 150 crianças vivendo naquela região expostas aquilo e não tinha ninguém falando de direitos humanos antes”.

A megaoperação provocou, entretanto, a queda de Patrícia Bezerra da secretaria de Direitos Humanos. Na última quarta-feira ela disse, durante uma reunião com movimentos sociais que veio a público, que a ação policial havia sido “desastrosa”. No encontro, afirmou ainda: “Agora a besteira já está feita (…) Estou incomodada tanto quanto vocês. Também acho injusto”. Milton Flávio, secretário de relações institucionais, assumiu interinamente em seu lugar. Em coletiva de imprensa logo após assumir a pasta, ele se referiu aos dependentes químicos de “craqueiros”.

Outro revés sofrido pela Administração Doria foi a liminar da 3ª Vara de Fazenda Pública proibindo a o Município de lacrar e demolir compulsoriamente os edifícios desta região. Ainda que a prefeitura diga estar de acordo com a liminar, a decisão atrapalha os acelerados planos de Doria de revitalização da região da cracolândia, batizada de Nova Luz. Nesta terça, máquinas da prefeitura começaram a demolir um edifício com três pessoas dentro.

Outros moradores e comerciantes também foram desapropriados à força, tendo pouco ou nenhum tempo para retirar seus pertences. Entradas de edificações da rua Helvétia e da alameda Dino Bueno foram, segundo relatos, emparedas com pertences e até animais de estimação dentro. “Os termos de desapropriação apresentavam irregularidades, alegando problemas com com botijão de gás, falta de interruptor… Mas nenhum prazo foi dado para que esses imóveis fossem reparados”, explicou o defensor público Rafael Lessa nesta semana.

Agora, a administração Doria corre para aplicar o seu programa anticrack, o Redenção, e provar que ele respeita o seu próprio lema de Governo: o de fazer de São Paulo uma cidade mais humana. “O programa é um projeto de médio prazo com início, meio e fim que iria minguando a cracolândia. O que tem de fazer agora? A GCM e a PM devem abrir aquelas ruas e deixar aquilo decantar.

Aquela massa humana vai parar em algum lugar e se estabilizar. Quando aquilo se acalmar, aí deve começar o projeto Redenção, enquanto a polícia faz seu papel de investigação”, explica o promotor Arthur Pinto. Já Marcela (nome fictício), uma assistente social da prefeitura que atua na Cracolândia, pede cautela: “O Doria fala em acelerar São Paulo, mas não existe acelerar com essas pessoas [os dependentes químicos]. Porque se você acelera, você atropela. E vai deixando rastro para trás”.
Felipe Betim/ElPais