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Meio Ambiente: Pesquisadores vivem ameaças como na ditadura

Radicada na Bélgica, professora da USP que estuda papel nocivo dos agrotóxicos na produção de alimentos diz que ficou impossível permanecer no Brasil em meio a “terrorismo psicológico”.

Foram dois anos em que a geógrafa brasileira Larissa Mies Bombardi, professora da Universidade de São Paulo (USP), não conseguia dormir em paz. O pesadelo começou com o lançamento, na Europa, da versão em inglês do seu atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Ao levar para fora do país o cenário dos agrotóxicos na produção de alimentos no Brasil, ela contribuiu para aumentar a pressão internacional sobre o setor. “A maior rede de orgânicos da Escandinávia passou a boicotar produtos brasileiros por conta do meu trabalho”, relata.

A geógrafa passou a viver uma rotina de ameaças e enfrentou uma série de posicionamentos contrários de instituições ligadas ao setor agropecuário.

“Teve um e-mail de uma pessoa que se identificou como piloto de avião. Era uma mensagem muito ambígua, falava que ‘se a professora diz que pulverização aérea não é uma coisa segura, então eu convido a professora a dar uma voltinha no avião pra ver como tem segurança'”, conta.

No ano passado, sua casa foi assaltada. Bombardi tomou a decisão de sair do país. Transferiu-se para a Bélgica e segue sua carreira acadêmica na Universidade Livre de Bruxelas. Em entrevista à DW Brasil, ela dá detalhes sobre as ameças sofridas.

DW Brasil: Ameaças e um assalto… Quando você percebeu que era hora de deixar o Brasil?

Larissa Mies Bombardi: Depois que eu lancei em inglês o atlas [Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia], em 2019, foi a primeira vez que perdi o sono. Entendi que havia um risco e começaram as intimidações, umas mais veladas, outras menos. Precisava me proteger, proteger meus filhos e ficar fora do Brasil.

Pode descrever alguma ameaça que recebeu?

Foram várias coisas, mas teve um e-mail de uma pessoa que se identificou como piloto de avião. Era uma mensagem muito ambígua, falava que “se a professora diz que pulverização aérea não é uma coisa segura, então eu convido a professora a dar uma voltinha no avião pra ver como tem segurança”. […] Então a maior rede de orgânicos da Escandinávia [a Paradiset, da Suécia] passou a boicotar produtos brasileiros por conta do meu trabalho. Um professor da USP, Wagner Ribeiro, falou que eu não podia lidar com isso sozinha.

Como a USP se posicionou?

Esse professor contatou a diretora da faculdade [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a FFLCH], que nos recebeu e pediu um dossiê. Na manhã seguinte, ela contatou o reitor, que concordou que eu precisava deixar o país, seguir por um período meu percurso acadêmico fora. A reitoria se mostrou sensível e ofereceu a guarda universitária para me proteger. Não quis, achei que emocionalmente seria muito pesado lidar com isso. Recebi orientações de lideranças de movimentos sociais para evitar as mesmas rotinas, os mesmos caminhos.

No fim do ano [de 2019], fui convidada a falar no Parlamento Europeu, numa conferência sobre o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Ali me falaram que lidar com esses temas no Brasil era muito perigoso. Eu respondi que nunca tinha sido efetivamente ameaçada. “Mas não precisa, as coisas não acontecem com aviso sempre”, ouvi de volta.

Fiquei gelada, mas ainda falei: “Sou professora universitária, branca, tenho esse viés de classe e, infelizmente, do racismo estrutural que existe no Brasil.” Ouvi então que “Zuzu Angel [(1921-1976), estilista, vítima da ditadura brasileira] também era branca”. O plano passou a ser me mudar [para a Europa] em março [de 2020]. Mas aí veio a pandemia, precisamos adiar.

Em agosto do ano passado, sua casa foi assaltada… Acredita que uma coisa tenha relação com a outra?

Nunca vou saber se foi relacionado ao meu trabalho ou não. Mas levaram pouquíssimas coisas, o laptop que eu usava, que era velho. Não tinha sentido, estava defasado. Mas vasculharam minha casa por três horas, mantendo minha mãe e me mantendo sob tortura psicológica. Foi horrível. Vasculharam a casa inteira. Foi muito pesado, mas não sei se tem a ver com uma tentativa de intimidação ou com uma busca de dados.

Você está na Bélgica neste ano de 2021. Segue vinculada à USP?

Aprovei um projeto de pós-doutorado na Universidade Livre de Bruxelas, é um projeto sobre green criminology na Amazônia, um trabalho sobre conflitos ambientais. A reitoria [da USP] autorizou meu afastamento e estou trabalhando neste tema. Em maio lancei um novo atlas no Parlamento Europeu sobre as relações comerciais entre Mercosul e União Europeia. Chama-se Geografia das assimetrias, colonialismo molecular e círculo de envenenamento.

O que significam esses conceitos?

Mostro esse lugar de colônia que o Mercosul ocupa dentro da economia mundial, em especial na relação com a União Europeia. Colonialismo molecular, porque, se antes havia esse saque das riquezas naturais da América Latina, agora ele continua mas não é só um impacto físico, é um impacto químico, por causa dos agrotóxicos. Colonialismo molecular porque essas substâncias atingem nossas moléculas, causam um dano sem precedentes, de uma crueldade que a gente nunca tinha visto.

Essa suposta modernidade da agricultura, ela traz um ônus que nos oblitera, que potencialmente altera nossos corpos por conta de substâncias que não são autorizadas na União Europeia mas são vendidas por empresas da União Europeia, sem pudor em vender [para países como o Brasil] substâncias que são proibidas em seus próprios países por conta dos danos à saúde e ao meio ambiente.

Como foi a pressão sofrida quando você publicou uma pesquisa relacionando a covid-19 à suinocultura?

Publicamos no ano passado dois artigos sobre as possíveis correlações entre suinocultura e covid-19. Vimos uma certa correspondência espacial em Santa Catarina, ou seja, áreas com maior densidade de criação de porcos também eram áreas com maior número de casos, proporcionalmente, de covid. Ficou um trabalho interessante, mas apenas levantamos a hipótese de que os vírus não teriam sido trazidos pelos morcegos, mas pelos porcos, via morcegos, já que há muitas similaridades [dos humanos] com os porcos. E os porcos vivem praticamente imunodeprimidos, com todos os animais criados de maneira intensiva. Eles não têm como exercer seus hábitos mais básicos e então — vou falar com cuidado, entre aspas — eles “podem ser” laboratórios de vírus. São animais que defecam e comem no mesmo local […].

Associação Brasileira de Proteína Animal escreveu uma carta para a USP [desqualificando o trabalho da professora], a Embrapa também produziu uma nota técnica… Mas a gente estava trabalhando com uma hipótese, em momento algum afirmando ser algo definitivo. Encerramos o texto dizendo que é preciso mais pesquisas. Não tem outro jeito de caminhar na ciência se não for buscando hipóteses, né? É assim que a gente caminha. Estou há quase 15 anos na USP e nunca vi isso de perto, como estou vendo. Essa atmosfera invasiva das entidades se acharem no direito de contestar pesquisa, de fazer ameaça… Isso é ameaça à minha carreira.

Você se considera exilada?

Sim, de alguma forma me considero exilada porque [faz uma longa pausa] simplesmente ficou impossível permanecer no Brasil lidando com essa temática. É um terrorismo psicológico gigante, e eu precisava proteger a mim e aos meus filhos. Foi um alívio gigante sair do Brasil, e isso ilustra a condição de exílio.

Está muito desesperador e eu sei que não sou só eu, há outros pesquisadores que passam por coisas parecidas, de ameaças institucionais a ameaças externas. Isso ficou muito claro a partir do governo [do atual presidente Jair] Bolsonaro, ficou nítido. É uma indecência, a gente não tem tranquilidade para fazer pesquisa. A última vez que a gente viu isso foi quando? Na ditadura. A única diferença é que agora aparentemente vivemos num regime democrático. Mas, no fundo, estamos vivendo um período de exceção.

Planeja um dia voltar ao Brasil?

Não. Pelo menos não até o fim deste governo.

Pesticidas vetados na UE são detectados em frutas vindas do Brasil

Greenpeace identifica substâncias proibidas na Europa em frutas brasileiras vendidas na Alemanha, algumas produzidas por empresas alemãs. Organização critica “dupla moral” e alerta para efeitos do acordo UE-Mercosul.

Beleza tóxica? Estudo acusou agrotóxicos em 59 de 70 frutas tropicais analisadas

A organização ambiental Greenpeace mandou examinar amostras de frutas do Brasil comercializadas na Alemanha em busca de vestígios de agrotóxicos, e o alarmante resultado foi apresentado num relatório nesta quarta-feira (19/05): de 70 vegetais testados, 59 acusaram a presença de 35 diferentes substâncias pesticidas, sendo 11 delas não permitidas na União Europeia.

As mangas, mamãos, melões, figos e limões verdes comprados entre abril e maio em diversas partes da Alemanha foram submetidos a dois laboratórios independentes. Dois terços das amostras, continham resíduos de mais de um pesticida, com um mamão chegando a apresentar nove tipos diferentes. Em quatro casos os níveis ultrapassavam os limites permitidos.

Mais da metade das substâncias detectadas, 21 de 35, pertencem ao grupo dos pesticidas classificados como altamente perigosos para a saúde e o meio ambiente (HHP, na sigla em inglês).

Entre as substâncias detectadas que não são permitidas na União Europeia estão os inseticidas Imidacloprid e Chlorfenapyr, fabricadas pelas alemãs Bayer e Basf. No total, a Bayer fabrica 12 dos agrotóxicos encontrados, e a Basf, sete.

“Também as gigantes alemãs da química prejudicam seres humanos, animais e a natureza no Brasil. Um ciclo tóxico, pois, por sua vez, os vegetais contaminados vão parar na nossa salada de frutas na Alemanha”, criticou Jürgen Knirsch, especialista em comércio da Greenpeace, citado pelo jornal Süddeutsche Zeitung.

O relatório do Greenpeace destaca que o Brasil é o terceiro maior consumidor de pesticidas do mundo e utiliza muitas substâncias que não são permitidas na UE. Em 2019, 44% das substâncias aprovadas no Brasil não eram liberadas na UE. Além disso, 70% dos pesticidas usados no Brasil são classificados como altamente perigosos.

“Em abril de 2021, 3.231 pesticidas eram aprovados no Brasil. O governo Bolsonaro emitiu o recorde de 1.172 autorizações em apenas 845 dias de governo, sendo responsável por 36% de todos os pesticidas que podem ser comercializados legalmente no Brasil”, diz o texto.

Golpe para o acordo UE-Mercosul?

O achado é especialmente explosivo no contexto do planejado acordo de livre comércio UE-Mercosul. Com ele, o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai esperam obter melhores chances para seus produtos agrários nos mercados da Europa, enquanto os Estados-membros da UE contam exportar mais pesticidas, automóveis e outras mercadorias.

O Greenpeace reivindica uma suspensão do acordo, sobre o qual os ministros europeus do Comércio deverão deliberar ainda nesta penúltima semana de maio, em Bruxelas. O tratado UE-Mercosul é controverso: mesmo entre os governos europeus e no Parlamento Europeu encontra-se resistência veemente a ele.

Críticos acusam o governo brasileiro de promover o desmatamento na Amazônia, e que um acordo comercial poderia ainda agravar o problema. O mesmo se aplicaria à venda de pesticidas para a América do Sul: segundo o Greenpeace, em 2019 foi exportado um volume de pelo menos 915 bilhões de euros para os países do Mercosul.

Depois do Reino Unido e da França, a Alemanha é a terceira maior exportadora do setor para a região: em 2020, cerca de 12% dos agrotóxicos permitidos no Brasil foram vendidos pela Bayer e a Basf. O Greenpeace condena a “dupla moral alemã”.

“Mais de dois terços das substâncias vendidas por firmas alemãs no Brasil são classificadas como pesticidas altamente perigosos”, diz Knirsch. Diversos deles estão proibidos na UE, “apesar disso, a Alemanha permite a exportação de pesticidas tóxicos para o Brasil, e os conglomerados químicos alemães lucram com isso”.

As fabricantes se defenderam das acusações: segundo um porta-voz, “já desde 2012, a Bayer não vende mais agrotóxicos classificados como altamente tóxicos pela Organização Mundial de Saúde”. Tanto ela quanto a Basf ofereceriam há anos, em todo o mundo, cursos para que os agricultores empreguem os pesticidas devidamente.

Segundo o Süddeutsche Zeitung, uma representante da Basf declarou: “A segurança dos gêneros alimentícios é essencial para nós. Confiamos nas autoridades e nos sistemas de monitoramento de alimentos para examinarem e assegurarem a disponibilidade de produtos seguros e saudáveis.”

Os números chocantes que o desperdício de alimentos deixa no mundo

A maior parte do desperdício de alimentos – equivalente a 61% – vem das famílias.

Qual é a primeira coisa que você faz quando abre a geladeira e vê que há um alimento que já expirou ou que parece ruim? Possivelmente, sua resposta rápida é: jogue fora.

Mas você já parou para analisar quais são as consequências de desperdiçar comida?

Se sua resposta for não, não se preocupe, pois a verdade é que a verdadeira escala de desperdício de alimentos no mundo e seu impacto não foram totalmente medidos até hoje.

Esta é uma das conclusões do mais recente e abrangente relatório sobre o assunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da organização britânica WRAP de resíduos.

12 inovações para acabar com o desperdício de alimentos
O chamado “Índice de Desperdício de Alimentos 2021” expõe um número quase assustador: em 2019, eram 931 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados. Isso sugere que 17% da produção total de alimentos do mundo foi para o lixo.

Para avaliar ainda mais esses números, pode ser útil entender sua equivalência de peso: 23 milhões de caminhões de 40 toneladas totalmente carregados com alimentos, que alinhados dariam a volta na Terra sete vezes.

De onde vem o alimento descartado?
De acordo com os resultados do estudo liderado pela ONU, a maior parte do desperdício de alimentos – o equivalente a 61% – vem das famílias. Ou seja, das casas de cada um de nós. Daquela maçã que talvez você comprou mais e decidiu se desfazer dela. Ou aquela banana que, depois de passar dias na sua cozinha, ficou preta.

Então, 26% pertence ao setor de food service, por exemplo, restaurantes, hotéis ou estabelecimentos de ensino. E, por fim, 13% vem do comércio, como supermercados ou pequenas lojas.

Usando dados sobre desperdício de alimentos de 54 países, os pesquisadores chegaram a uma das conclusões mais impressionantes de seu estudo: os níveis de resíduos no nível familiar são semelhantes em países de alta renda, média alta e média baixa.

Por exemplo, a Nigéria é um dos países do mundo onde mais alimentos são jogados fora, com 189 quilos per capita por ano. Algo semelhante ocorre em Ruanda, onde a cifra chega a 164 quilos per capita.

A Holanda e a Bélgica, por outro lado, perdem 50 quilos per capita por ano, enquanto nos Estados Unidos são 59.

A conclusão, então, é clara: isso não é mais um problema apenas para os países ricos, onde os consumidores simplesmente compram mais do que podem comer. Agora, é também daqueles países que estão em desenvolvimento.

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Estima-se que 17% dos alimentos disponíveis no mundo acabam sendo jogados fora.

“O que sabemos agora é que para os países de renda média o desperdício de alimentos domésticos é substancial. E isso muda completamente o que antes pensávamos ser apenas um problema em países de alta renda”, explica Tom à BBC Mundo Quested, analista da WRAP e outra dos autores do relatório.

O que está acontecendo na América Latina?

A maioria dos países latino-americanos não possui informações robustas sobre o desperdício de alimentos. Isso é um problema porque, sem dados, é impossível dimensionar o assunto.

O que é dieta flexitarista e por que ela é a chave para salvar o planeta
Os pesquisadores conseguiram reunir informações em sete pontos geográficos diferentes, pertencentes a apenas 4 países da América do Sul: Belize, Brasil, México e Colômbia.

De acordo com os resultados, Belize desperdiça 53 quilos por pessoa por ano, enquanto no Brasil eram 60, no México 94 e na Colômbia 70.

“Os resultados na América Latina sugerem que há uma quantidade substancial de desperdício de alimentos, principalmente das famílias. O continente ainda tem um longo caminho a percorrer para enfrentar o problema porque precisa entender o que está acontecendo em suas fronteiras para agir “, explica Tom Quested.

No entanto, relatórios anteriores sobre desperdício de alimentos na América Latina e no Caribe não são muito encorajadores.

De acordo com estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), publicado em outubro de 2019, o continente é responsável por 20% do volume global de alimentos que se perdem desde a colheita até chegar ao varejo.

Isso significaria que a região perderia cerca de 12% de seus alimentos.

Quais são os efeitos do desperdício de alimentos no mundo?
Se 17% dos alimentos disponíveis no mundo forem jogados fora, espera-se que haja um forte impacto econômico, social e ambiental.

Segundo a ONU, estima-se que entre 8 e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa estão associadas a alimentos que não são consumidos.

Quanta comida é desperdiçada na América Latina?
“O impacto ambiental é enorme. Para se ter uma ideia da escala disso, se o desperdício de alimentos fosse um país, seria o terceiro maior emissor do planeta, atrás apenas da China e dos Estados Unidos”, diz Richard Swannell. , diretor da WRAP.

“Portanto, o desperdício de alimentos impulsiona a mudança climática”, acrescenta ele à BBC Mundo.

A responsabilidade pelo desperdício de alimentos nas mudanças climáticas é medida adicionando-se todo o processo a um determinado produto.

Segundo a ONU, estima-se que entre 8 e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa estão associadas a alimentos que não são consumidos.

Por exemplo, se for um vegetal, devemos pensar na cadeia por trás dele para que chegue a uma casa: da terra onde é cultivada (terras que muitas vezes são fundamentais para o habitat natural de uma determinada região) aos fertilizantes, os processo de embalagem, armazenamento (que geralmente requer baixas temperaturas que dependem do combustível), transporte, etc.

O mesmo é verdade para a carne, para a qual uma enorme cadeia de produção e processamento é necessária antes de chegar à boca do consumidor.

Por outro lado, em termos econômicos, o desperdício de alimentos não afeta apenas o bolso do consumidor (pois ele está pagando por um produto que não está comendo), mas também o mercado em geral.

“O aumento da demanda pelos produtos impulsiona os preços para todos”, explica Tom Quested.

Richard Swannell, entretanto, acrescenta que “uma família média do Reino Unido desperdiça cerca de 700 libras (US $ 970) em comida a cada ano. Isso é cerca de US $ 80 por mês em alimentos que não são consumidos.”

Assim, reduzir as perdas poderia diminuir os custos de produção, pois o sistema de produção se tornaria mais eficiente.

O impacto social também é brutal se considerarmos o grande número de pessoas que não têm acesso a alimentos de qualidade no mundo.

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690 milhões de pessoas passaram fome em 2019, de acordo com a FAO. Na foto, uma mulher e uma criança procuram comida no meio do lixo.

De acordo com a FAO, 690 milhões de pessoas passaram fome em 2019, um número que deve aumentar drasticamente após a pandemia do coronavírus. Além disso, 3 bilhões de pessoas não podem pagar por uma dieta saudável.

Assim, a contradição entre desperdício de alimentos e falta de alimentos é clara.

“Precisamos encorajar mais doações de alimentos de boa qualidade para aqueles que precisam. E isso é algo muito importante, que deve ser uma prioridade crescente após a pandemia”, disse Swannell.

‘Vendi as panelas para comprar pão e pé de galinha’: os relatos da fome no Brasil às vésperas do novo auxílio emergencial menor

EPA
Inflação de alimentos cresceu três vezes mais do que índice oficial

Na terça-feira (16/3), Fernanda Ferreira da Fonseca, 60 anos, recolheu pela casa algumas panelas velhas e as levou a um centro de reciclagem perto de casa, no bairro Jardim Imperial, em Atibaia (SP).

Com os R$ 30 que lhe pagaram pelo material, comprou um pacote de pão e 5 quilos de pé de galinha, que vão virar almoço e jantar para ela e o marido até o fim da semana.

“Pra outra semana eu não tenho mais panela pra vender. Não sei o que vou fazer.”

Os R$ 179 que recebeu do Bolsa Família no fim de fevereiro foram embora rapidamente: R$ 90 por um botijão de gás, R$ 40 pra pagar a conta de energia e outra parte para quitar duas contas de água atrasadas.”Não tem papel higiênico aqui em casa, virou artigo de luxo. A gente vem cortando um lençol velho para levar ao banheiro.”

Diagnosticada com artrose e fibromialgia, ela não pode trabalhar. O marido, caminhoneiro, está desempregado desde 2019 e também tem problemas de saúde.

Ambos deram entrada no Benefício de Prestação Continuada (BPC), mas ainda não tiveram retorno do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

Assim como outros 56 milhões de brasileiros, Fernanda parou de receber o auxílio emergencial em dezembro. Teve acesso a cinco parcelas de R$ 600 e a outras quatro de R$ 300, quando o benefício foi reduzido.

O marido, apesar de também elegível ao auxílio, teve de esperar nove meses para receber os pagamentos. A liberação foi inicialmente bloqueada porque constava erroneamente no sistema que ele estava recebendo seguro-desemprego. Em dezembro, após uma ordem judicial, o benefício foi liberado.

Desde janeiro, o casal sobrevive com os R$ 179 que recebe pelo Bolsa Família.

Naquele mês, eles conseguiram uma das cestas básicas que vinham sendo distribuídas no bairro. Depois disso, com o volume limitado de doações e aumento da demanda, ficou mais difícil.

“Aqui estão dando prioridade pra quem tem criança, e eu entendo”, diz Fernanda. “Estou dentro de casa passando fome, já passei da fase de ‘necessidade’.”

Os 5kg de pés de galinha que Fernanda comprou com a venda das panelas serão almoço e jantar para ela o marido até o fim da semana

Nos três meses em que o país levou para negociar a liberação de outras quatro parcelas do auxílio emergencial, a combinação entre desemprego elevado e inflação ascendente trouxe a fome de volta às casas de milhões de pessoas.

Na semana passada, o Congresso aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite o financiamento do novo auxílio. O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o valor médio ficaria em R$ 250, mas as cotas devem variar entre R$ 150 e R$ 375.

A Medida Provisória com os detalhes sobre o benefício, cuja publicação é necessária para que se iniciem os pagamentos, foi assinada nesta quinta (18/3), após dias de expectativas frustradas. Conforme o comunicado enviado pela Secretaria Especial de Comunicação Social, o presidente Jair Bolsonaro deve apresentá-la ao Congresso no fim da tarde.

“Assinando ou não (a medida), eles continuam almoçando e jantando lá em Brasília, né?”, desabafa Fernanda, que há dias espera notícias sobre a retomada dos pagamentos.

‘A comida acaba e a fila continua’

Uma pesquisa feita pelo Data Favela, uma parceria entre Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa), em fevereiro apontou que, entre os 16 milhões de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens básicos do orçamento com o fim do auxílio emergencial, como comida e material de limpeza.

Outros 68% afirmaram que, nos 15 dias anteriores à pesquisa, em ao menos um faltou dinheiro para comprar comida. 8 em cada 10 famílias disseram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas básicas durante os meses de pandemia se não tivessem recebido doações.

As estatísticas se materializam nas filas por refeições e cestas básicas em diferentes regiões do país.

Na capital paulista, no entanto, o número de marmitas distribuídas por dia na favela de Paraisópolis caiu de 10 mil para algo entre 500 a 800.

REUTERS
Última parcela do auxílio emergencial foi paga em dezembro

“Tem dia que a comida acaba e a fila continua, que as pessoas ficam brigando lá fora”, diz o líder comunitário Gilson Rodrigues.

A queda no volume de doações — recolhidas, entre outros canais, pelos sites novaparaisopolis.com.br e g10favelas.com.br — também afetou outros serviços que as lideranças comunitárias vinham prestando, entre elas as ambulâncias e as equipes médicas que assistiam a população.

Os veículos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não entram na comunidade na zona sul de São Paulo, onde vivem cerca de 100 mil pessoas. Os moradores já entraram na Justiça para reivindicar o atendimento durante a pandemia, mas, na falta de uma resposta, os vizinhos se ajudam como podem com carros de passeio.

Nos últimos dias, se multiplicaram nas redes sociais as campanhas de arrecadação de recursos para colocar comida na mesa dos brasileiros mais vulneráveis. Entre elas estão a Tem Gente com Fome, cuja meta é auxiliar cerca de 220 mil famílias pelos próximos quatro meses.

Alta dos alimentos três vezes maior que inflação oficial
Comer ficou significativamente mais caro de um ano para cá no Brasil.

Os preços de alimentos e bebidas estão em média 15% mais altos nos 12 meses encerrados em fevereiro, quase três vezes a inflação oficial, que atingiu 5,2%, conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Os 15% de aumento médio na categoria alimentos e bebidas, já elevado, esconde altas ainda maiores, como a do arroz, que ficou quase 70% mais caro nos últimos 12 meses, do feijão preto (50%), da batata inglesa (47%), da cebola (69%), do limão (79%).

O aumento da inflação de alimentos tem impacto especialmente sobre as famílias mais pobres, que têm um percentual maior da renda comprometida com itens básicos – e, agora, no momento mais agudo da pandemia, terão acesso a um auxílio financeiro significativamente menor.

Paola Carvalho, da organização Rede Brasileira de Renda Básica, que vinha pressionando o governo para que mantivesse o auxílio em seu formato original, ressalta que os R$ 150 que serão pagos a milhões de famílias nos próximos quatro meses é menos de 25% do valor de uma cesta básica, que custa em média R$ 620, conforme o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).
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Campanhas para tentar ajudar famílias vulneráveis têm se multiplicado nas últimas semanas

“Esse valor empurra as pessoas para a rua.”

Para ela, a lógica do auxílio emergencial deveria ser diferente das demais políticas de transferência de renda, já que teoricamente também tem como objetivo garantir o mínimo de subsistência para que as pessoas não precisem sair para trabalhar e, assim, contribuir para o esforço de tentar controlar a circulação do vírus no país.

“Seria possível baixar o benefício a partir do momento em que a população estivesse imunizada, não agora, quando a gente está no pior momento da pandemia”, acrescenta Paola.

O economista Vinícius Botelho concorda que, “quanto menor o valor, menor a potência do benefício para tirar as pessoas temporariamente da força de trabalho”, o que, para ele, reforça a urgência de se acelerar a imunização contra covid-19 no país.

“A gente continuar usando auxílio emergencial como estratégia de distanciamento social é muito caro”, avalia.

Urgente também é a necessidade de se pensar em uma política para a redução estrutural da pobreza no país, que retoma a trajetória de crescimento após uma breve interrupção em 2020.

No fim do ano passado, diante da iminência do fim do pagamento do auxílio emergencial, o economista calculou o impacto potencial da suspensão do benefício: cerca de 3,4 milhões cairiam na extrema pobreza em 2021, levando em conta o patamar de renda de US$ 1,90 por dia usado pelo Banco Mundial.

A extensão do auxílio por mais quatro meses muda pouco a perspectiva, já que a despesa com o benefício será significativamente menor, de R$ 44 bilhões, ante R$ 290 bilhões pagos em 2020.

Além disso, as perspectivas de reação da economia, que embasaram as estimativas do estudo, têm se deteriorado neste primeiro trimestre – o que dificulta a saída das famílias da condição de vulnerabilidade.

“A notícia mais assustadora não é nem quantidade de pessoas, mas o fato de que esse aumento pode ser permanente se a trajetória de renda per capita não acelerar”, diz o doutorando em economia dos negócios pelo Insper.

A pobreza extrema no Brasil vinha em uma crescente desde 2014. Teve uma interrupção temporária em 2020, por conta do auxílio emergencial – que transferiu um volume de recursos para famílias de baixa renda, mas que é insustentável do ponto de vista fiscal no médio prazo -, e deve retomar a trajetória.

Quanto mais o país demora para controlar a pandemia, diz o especialista, pior o cenário: os efeitos que deveriam ser temporários vão ganhando cicatrizes – as empresas que não conseguem mais se manter em operação à espera do retorno à “normalidade”, por exemplo – e isso acaba tendo reflexo sobre a geração de emprego e renda e, em última instância, sobre a pobreza.

Rio de Janeiro: Megacidade brasileira experimentando descarte de lixo ecologicamente correto

Na periferia norte do Rio de Janeiro, longe das vastas faixas de areia branca da icônica praia de Copacabana, mangas machucadas e douradas, pimentões murchados e um cacho de mandioca se misturam com lascas de madeira.

A transformação da gestão do lixo poderia desempenhar um papel no cumprimento da meta de carbono líquido zero do Rio de Janeiro? A cidade está explorando uma nova forma de processar resíduos de alimentos, com um projeto que é o primeiro do tipo na América Latina.

Estátua no Rio de Janeiro, megacidade no Brasil (picture-alliance / GES / M. Gilliar)

Megacidade brasileira experimentando descarte de lixo ecologicamente correto.

Esses podem não parecer ingredientes especiais, mas um projeto experimental na megacidade brasileira está explorando se queimar esse lixo poderia ser parte de uma receita para atingir sua meta de carbono zero até 2050.

“Caso contrário, todos esses alimentos estariam sendo jogados fora”, diz Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju, que abriga a primeira unidade de “biometanização” da América Latina.

Um forte cheiro ácido preenche o ar do armazém no calor do meio-dia, quando Ferreira acena com uma empilhadeira. “É muito potencial perdido. Precisamos fazer isso em todo o país”, acrescenta.

Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de desperdício de alimentos do mundo, descartando cerca de 30% de todas as frutas e vegetais colhidos. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, cerca de 40 mil toneladas de alimentos são jogados fora todos os dias no país, onde se decompõem em aterros sanitários, liberando quantidades significativas de metano.

No entanto, o Rio de Janeiro, uma cidade de cerca de 6,7 milhões, também é uma das mais de 70 cidades em todo o mundo que se comprometeram a se tornar “neutras em carbono” até 2050. As cidades são responsáveis ​​por cerca de 75% das emissões de CO2, de acordo com as Nações Unidas, e mais de dois terços da energia que consumimos.

Gerando energia a partir de resíduos orgânicos

O projeto piloto do Ecoparque, lançado em dezembro de 2018 pela Comlurb, departamento de resíduos municipais do Rio de Janeiro, transforma matéria orgânica – quase totalmente resíduo de alimentos – em biogás por meio de um processo que gera eletricidade, biocombustíveis e composto para serem usados ​​como fertilizante na agricultura e silvicultura, e produz emissões mínimas.

Processando entre 35 e 50 toneladas de resíduos por dia, a fábrica gera energia suficiente para se alimentar, a maior instalação de resíduos no local e a frota da empresa de 19 veículos elétricos. Isso equivale a mais de 1.000 residências com base no consumo médio no Brasil, Ferreira diz.

A fábrica recebe resíduos orgânicos de supermercados e barracas de rua de frutas e verduras do centro da cidade, mas também tratou do lixo doméstico e até descartou hambúrgueres e batatas fritas do festival Rock in Rio de outubro.

Um gasoduto transportando gás para ser transformado em eletricidade

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de resíduos alimentares do mundo

Sete reatores do Ecoparque, todos do tamanho aproximado de contêineres, são usados ​​para processar os resíduos. Em um processo escalonado, cada um recebe lixo orgânico e é lacrado por duas a três semanas, com a introdução de bactérias para decompor a matéria e produzir metano. O gás é então armazenado em um grande recipiente acima da instalação e posteriormente convertido em eletricidade.

“A ideia do Ecoparque é ter um local de experimentação de novas tecnologias que possam, no futuro – e se tiverem demonstrado sua viabilidade econômica, financeira e ambiental – ser adotadas pela Comlurb, fazendo com que cada vez menos resíduos sejam descartados em aterros sanitários ”, afirma José Henrique Monteiro Penido, responsável pela área de sustentabilidade ambiental da Comlurb. “O modelo pode ser replicado nas cidades e ter um impacto positivo para todo o país”.

Segundo a Comlurb, esse é o “primeiro passo” para lidar com as 5 mil toneladas de lixo orgânico que o Rio de Janeiro produz a cada dia. Com um empréstimo não reembolsável do Fundo Brasileiro de Desenvolvimento Tecnológico, e desenvolvido em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais, o plano é expandir esse modelo para outras cidades do Brasil e da América Latina.

Equipamento que mede a qualidade do gás sendo produzido

“No geral, é um sinal muito positivo e não tenho dúvidas de que é escalável”, disse Richard Lowes, pesquisador de política energética da Universidade de Exeter. “Parece ser um processo eficiente com controles muito medidos sobre a produção. Quando os resíduos alimentares vão para aterros, podem produzir metano, um poderoso gás de efeito estufa – mas com esse processo você obtém a energia e não as emissões. ”

Alcançando as metas climáticas

O processo de biometanização por si só, no entanto, não será suficiente para reduzir significativamente a pegada ambiental do Brasil, Lowes diz: “Seria melhor se esses resíduos simplesmente não fossem produzidos em primeiro lugar. Se não houvesse resíduos, não haveria a necessidade de processar qualquer coisa. Temos a tendência de ser uma sociedade muito desperdiçadora e devemos nos concentrar em reduzi-la. ”

Ainda assim, o município acredita que pode ajudar a atingir sua meta de reduzir as emissões das mudanças climáticas em 20% entre 2005 e 2020, como parte da iniciativa C40 Cities, uma rede de cidades que impulsiona a ação climática. No âmbito do Programa de Desenvolvimento da Cidade de Baixo Carbono do Rio de Janeiro, a cidade lançou nos últimos anos um projeto de reflorestamento urbano para plantar 12 milhões de árvores e um esquema municipal de compartilhamento de bicicletas, o Bike Rio, enquanto expande a rede de caminhos da cidade.

O projeto marca um raro lampejo de positividade para o país em meio ao desmatamento de uma década na Amazônia e às críticas à falta de compromisso do Brasil com os principais objetivos climáticos na COP25, a recente conferência em Madrid.

No Ecoparque, a equipe busca constantemente a melhoria dos níveis de eficiência, utilizando eletrônicos, sensores e medidores que auxiliam no controle e na otimização da produção de biogás em sua busca pela produção de energia sustentável. A esperança é que uma instalação como esta seja construída para cada 50.000 pessoas no país.

“Há dois caminhos a seguir”, diz o pesquisador Ferreira. “Podemos seguir em frente com o sistema atual de grandes instalações de resíduos que requerem uma quantidade significativa de transporte, ou podemos descentralizar o processo e construir um em cada cidade do Brasil.”

Supermercados alemães pedem que Berlim pressione Bolsonaro

Gigantes do varejo expressam preocupação com o desmatamento no Brasil e pedem que governo Merkel cobre uma mudança de rumo na política ambiental de Bolsonaro.

Supermercados afirmam evitar soja brasileira e preferir produtos de produção sustentável

Duas das maiores cadeias de supermercados da Alemanha, Edeka e Lidl, manifestaram preocupação com o desmatamento no Brasil e pediram que o governo alemão pressione o governo do presidente Jair Bolsonaro a conter a devastação ambiental.

“Tendo em vista o aumento da demanda global por soja e os desenvolvimentos na região amazônica, compartilhamos suas preocupações”, diz uma carta da Lidl enviada à eurodeputada alemã Anna Cavazzini, uma crítica ferrenha da política ambiental de Bolsonaro.

“A rede Edeka está observando os acontecimentos no Brasil com grande preocupação”, diz a outra rede, também em carta enviada à eurodeputada.

No documento, a Edeka também afirma que pediu que produtores de soja brasileiros se comprometam a atuar para que áreas do Cerrado não sejam destruídas e convertidas em zonas de cultivo.

A Edeka afirmou ainda que, enquanto membro da Federação Alemã do Comércio de Alimentos (BVLH), pediu que o governo da chanceler federal alemã, Angela Merkel, pressionasse o governo Bolsonaro a agir para conter o desmatamento e dar prioridade à proteção florestal.

A rede Lidl também é membro da federação que apresentou o pedido ao governo alemão. “Na nossa visão, o desmatamento não é o único aspecto problemático, mas também o fato de que monoculturas em larga escala e uso intenso de pesticidas empobrece o solo e favorece a erosão”, disse o conglomerado.

Ambas as redes ainda afirmaram que estão comprometidas com a adoção de “cadeias de abastecimento sem desmatamento”. A Lidl, por sua vez, afirmou que o grupo prefere soja da União Europeia (UE) e incentiva a mudança para um cultivo de soja mais sustentável no Brasil.

De acordo com o jornal alemão Taz, que publicou uma reportagem sobre o posicionamento das duas redes, a declaração dos dois conglomerados pode aumentar a pressão para que o governo alemão reavalie seu rumo em relação ao Brasil.

No mês passado, Merkel acenou retirar seu apoio à retificação do acordo de livre comércio da UE com o Mercosul, referindo-se ao desmatamento da Amazônia. Entretanto, ela ainda não desistiu de modo definitivo do tratado.

Em maio, as principais redes de supermercados do Reino Unido ameaçaram boicotar produtos brasileiros se o Congresso Nacional aprovasse a polêmica lei de regularização fundiária, conhecida a “MP da grilagem”, posteriormente convertida em projeto de lei.

A carta aberta tem cerca de 40 signatários, incluindo algumas das redes de supermercados mais importantes do Reino Unido, como Tesco, Sainsbury’s, Morrisons e Marks & Spencer, além da rede Burger King, do fundo público de pensões sueco AP7 e de outras empresas de gestão de investimentos.

MD/ots

Na Europa, as mudanças climáticas trazem novas culturas, novas idéias

À medida que o clima da Europa mudar nas próximas décadas, algumas regiões terão cada vez mais dificuldade em sustentar as culturas tradicionais.

Mas com novas variedades e estratégias, alguns agricultores estão plantando de olho no futuro.

Com verões mais quentes, tempestades severas e períodos secos prolongados nas previsões, as perspectivas para os agricultores da Europa são assustadoras.

Prevê-se que as temperaturas médias anuais aumentem de 1 a 5,5 graus Celsius (1,5 a 10 graus Fahrenheit), com o aquecimento mais forte projetado no sul do continente nos meses de verão.

Um relatório de setembro de 2019 da Agência Europeia do Meio Ambiente (AEA) observou que o estresse térmico, eventos climáticos extremos como inundações repentinas e tempestades de granizo e escassez de água já mudaram as condições para várias culturas na Europa – especialmente para os alimentos básicos do Mediterrâneo, como azeitonas e uvas para vinho.

Enquanto isso, lugares no norte da Europa podem ter benefícios agrícolas com as mudanças climáticas, incluindo estações de crescimento mais longas e um período mais curto de geada “permitindo o cultivo de novas culturas e variedades”, afirmou o relatório. As terras cultiváveis adequadas ao redor do Mar Báltico podem mais que dobrar até 2100, de 32% da área atual para cerca de 76%, com certas culturas agora comuns ao sul da Europa criando raízes mais ao norte.

Reino Unido, vinhos escandinavos

Essas mudanças climáticas já deram frutos – literalmente. No estado alemão do norte da Baixa Saxônia, onde as temperaturas médias subiram quase 2 graus Celsius nas últimas décadas, alguns agricultores começaram a cultivar frutas tipicamente encontradas mais ao sul, como damascos e nectarinas. E o cultivo do vinho, tipicamente associado a mais encostas do sul da França, Espanha e Itália, agora está decolando em lugares como Dinamarca, Suécia e Reino Unido.

A Ryedale Vineyards, no nordeste da Inglaterra, produz vinhos britânicos desde 2006. Como uma das vinícolas mais ao norte do Reino Unido, depende principalmente de variedades híbridas resistentes a doenças, mais adequadas às regiões mais frias do norte da Europa.

A tendência de aquecimento das últimas décadas viu a indústria vinícola do Reino Unido quadruplicar em tamanho desde 2000, com as vinhas inglesas produzindo cerca de 13,2 milhões de garrafas em 2018. Mas a mudança climática apresenta outros desafios, incluindo padrões climáticos incomuns e aumento do risco de doenças associadas a verões mais úmidos. que estão ligadas às mudanças climáticas.

“Eventos climáticos imprevisíveis, secas e intensas tempestades de verão são um problema real e parecem ter aumentado em frequência”, disse Jon Fletcher, que administra a Ryedale Vineyards com sua família. Ele listou os desafios: geadas tardias, tempestades de granizo destrutivas e períodos de seca que podem durar meses. “Este ano já tivemos o maio mais ensolarado já registrado e nenhuma chuva há dois meses, então o clima imprevisível continua.”

“As mudanças climáticas representam um risco para a sustentabilidade do gerenciamento de vinhedos em escala global e, principalmente, na Europa”, disse Josep Maria Sole, do VISCA (Aplicativo Integrado de Clima Inteligente para Vinhas), um projeto financiado pela UE que visa ajudar a indústria vinícola da Europa desenvolver estratégias de adaptação a médio e longo prazo. Ele disse que as áreas produtoras de vinho sofrerão cada vez mais com intensas ondas de calor e secas e, em certas regiões da Espanha, geadas mais intensas na primavera, que podem danificar os brotos das videiras.

Blaz Kurnik, especialista em impactos das mudanças climáticas e adaptação no EEE, disse que essas temperaturas mais altas, especialmente os invernos mais quentes, também favorecem a introdução de novas doenças e pragas, incluindo a mosca da oliveira. Enxames crescentes estão ameaçando a indústria de azeite da Europa, responsável por cerca de três quartos do suprimento mundial. “No pior cenário, até 80% das oliveiras [italianas] serão afetadas por isso todos os anos”, disse Kurnik, acrescentando que as moscas também estavam infestando os olivais da Espanha.

Lichia, mamão: estas são as culturas futuras da Europa?
Manga, abacate e lichia: as futuras culturas comerciais da Europa?

A Itália, que ocupa a segunda posição no mundo em produção de azeite, teve uma colheita desastrosa em 2018. O mau tempo e a geada fizeram com que a produção caísse 57%, representando uma perda de quase € 1 bilhão (US $ 1,13 bilhão).

A Sicília é uma das principais regiões produtoras de azeite da Itália, juntamente com a Calábria e a Apúlia. Mas alguns agricultores começaram a focar sua atenção em culturas nativas das regiões tropicais, incluindo mangas, abacate e lichia.

As culturas tropicais foram introduzidas pela primeira vez na Sicília na década de 1970, mas nos últimos anos houve um crescimento exponencial dessas culturas e a introdução de novas espécies como o mamão, substituindo as frutas cítricas que “não são mais remunerativas”, disse Vittorio Farina, professor associado de agricultura na Universidade de Palermo.

“O clima favorável de muitas áreas da bacia do Mediterrâneo está promovendo o cultivo de frutas tropicais”.  “De fato, a produção predominante de manga e abacate está concentrada nos países tropicais, mas recentemente seu cultivo se espalhou fora das regiões geográficas tradicionais para a bacia do Mediterrâneo e, em particular, no Egito, Israel, África do Sul, Europa, principalmente Espanha e Itália”.

Farina disse que uma sucessão de invernos mais amenos favoreceu a expansão dos pomares de manga, abacate e mamão destinados aos mercados de exportação mais ao norte, embora os verões mais secos correspondentes e os eventos climáticos extremos continuem sendo um desafio.

“O problema da escassez de recursos hídricos para a agricultura impõe cada vez mais a introdução de espécies com pouca demanda de água”, afirmou Farina, sugerindo a possível introdução de frutas como a pêra. “Para a maioria das outras espécies tropicais, a irrigação nos meses quentes nas áreas secas é uma condição essencial para a obtenção de um produto de qualidade”. Farina disse que estava testando estratégias de irrigação de precisão para limitar a pegada hídrica das culturas tropicais.

 

Estamos comendo golfinhos, tartarugas e aves marinhas?

O que seu almoço tem a ver com golfinhos,
tartarugas e aves marinhas?

Se você achou essa pergunta sem sentido, precisamos conversar sobre pesca acidental. Este é um grave problema ambiental, que está contribuindo com a extinção de espécies no Brasil e no mundo. A pesca acidental ou captura acidental (bycatch, em inglês) pode ser definida como espécies que são capturadas de forma não intencional nas pescarias.

Para entendermos melhor este conceito, podemos pensar em um tiro ao alvo. O centro corresponde às “espécies-alvo” – aquelas com interesse econômico e comercial -, enquanto o entorno é repleto de outros animais que podem ser atingidos acidentalmente. Se considerarmos a pesca, há um desafio adicional nos arremessos: já que não vemos o que está no fundo do mar, é como se lançássemos os dardos com olhos vendados.

Por serem pouco seletivos, os artefatos utilizados na pesca acabam capturando muitos outros animais. Entre estes artefatos estão: redes de arrasto de fundo, que são arrastadas pelo fundo do mar para capturar principalmente camarões; redes de emalhe, que ficam esticadas na coluna d’água e capturam animais de passagem; e o espinhel, uma sequência de anzóis (20 a 300) presos em um cabo que permanece esticado em diferentes profundidades.

Ilustração de diferentes artefatos de pesca: (A) Arrasto de fundo; (B) Redes de emalhe; e (C) Espinhel. Fonte: adaptado de CEPSUL/IBAMA.

A consequente quantidade de animais capturados de forma não intencional é alarmante. Segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), entre 2010 e 2014 foram 9,1 milhões de toneladas de animais capturados por pesca acidental no mundo. Isso equivale a 3.600 piscinas olímpicas cheias de animais que serão descartados – mortos ou feridos. Uma das espécies-alvo com maior taxa de captura acidental associada é o camarão: neste caso, são capturados até 20 quilos de outros animais para cada quilo de camarão comercializado.

A triste realidade da captura acidental: são milhões de animais mortos a cada ano. Fonte: adaptado de Natural Environment Research Council; Food & Agriculture Organization of the United Nations.
De acordo com o mesmo relatório, as regiões que mais contribuem com a captura acidental no mundo estão no Hemisfério Norte: entre a Groenlândia e Noruega (nordeste do Oceano Atlântico); e na extensão costeira do Japão e leste da Rússia (noroeste do Oceano Pacífico). Ambas somam aproximadamente 40% da pesca acidental global. Contudo, é no Atlântico Sul Ocidental – região que inclui a costa brasileira e que se estende até o limite com a Antártica – que se encontra a faixa com a maior taxa de descarte. Isso quer dizer para cada tonelada de pescado comercializado, há uma maior proporção de animais descartados associada.

Distribuição das taxas de descarte pesqueiro no mundo (toneladas de descarte por toneladas de pesca). As estrelas vermelhas indicam as regiões com maior captura acidental absoluta (em toneladas). Fonte: adaptado de Natural Environment Research Council; Food & Agriculture Organization of the United Nations.
Que espécies são vítimas dos arremessos errados?

Os animais capturados de forma acidental incluem diversas espécies: podem ser peixes que não serão consumidos ou com tamanho muito pequeno, além de aves marinhas, tubarões, golfinhos, tartarugas marinhas, baleias. Muitos destes animais ficam presos nas redes e acabam morrendo por estresse ou afogamento.

Uma característica comum entre várias espécies que são capturadas acidentalmente é que estes animais se reproduzem em ritmos lentos. Isto quer dizer que têm poucos filhotes por vez e sua gestação é demorada. Dessa forma, ao terem as populações reduzidas, sua recuperação será lenta. Essas perdas são ainda mais graves quando falamos em espécies ameaçadas e que já têm populações pequenas.

A toninha (Pontoporia blainvillei) é um exemplo de animal que atende a todos esses pré-requisitos preocupantes: está entre os golfinhos mais ameaçados do mundo, as fêmeas têm apenas um filhote a cada dois anos e sua gestação dura 11 meses. Estes golfinhos só existem em águas rasas do Brasil, Argentina e Uruguai e suas populações estão diminuindo em função de várias ameaças. Dentre elas, a pesca acidental figura como principal causa de suas mortes.
Toninhas mortas por estresse, asfixia e afogamento após emalhe em rede de pesca. Foto: Santiago Anguita/PMP-BS/UDESC.

Toninha grávida, morta por afogamento e com marcas de emalhe em rede de pesca. Foto: PMP-BS/Univille.

As capturas desta espécie são alarmantes, pois além da população reduzida, a maioria dos animais que ficam presos em redes é jovem. Isto acontece porque indivíduos jovens ainda não desenvolveram de forma ampla o seu sentido de ecolocalização (capacidade de perceber o ambiente através dos sons e dos ecos produzidos). Como estes animais não conseguem detectar a presença das redes, acabam sendo as principais vítimas. Para a população, perder indivíduos jovens é inestimável: além da redução no número de indivíduos, estes jovens mortos não tiveram a oportunidade de se reproduzirem e deixarem descendentes.

A pesca acidental e suas consequências são problemas tão graves quanto complexos, mas a atenção que lhes é dada está longe de ser proporcional. Ao olhamos para o Brasil, o horizonte de solução parece ainda mais distante, já que sequer temos estatística pesqueira básica. Se quisermos uma mudança promissora nesse tiro ao alvo e a garantia de um oceano com vida, é imprescindível resgatarmos nossa gestão pesqueira da deriva.

Fonte: Instituto VIVA Verde e Azul.

*Textos produzidos pelos(as) alunos(as) da disciplina “Conservação da Biodiversidade no Antropoceno”, ministrada no Programa de pós-graduação em Ecologia da UFSC, pela Profa. Dra. Michele de Sá Dechoum (UFSC) e pela Dra. Paula Drummond de Castro (Labjor – UNICAMP). 

Este texto foi escrito por:

Larissa Dalpaz é bióloga, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFSC e bolsista “STOP Bycatch” do Instituto Viva Verde Azul.

Mario Tagliari é biólogo, doutorando do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFSC e idealizador do projeto de divulgação científica Ciência no Bar.

Samuel Costa é biólogo, Mestre em Ciências Ambientais e Professor do Instituto Federal de Santa Catarina.

China quer comida. O Brasil paga o preço.

A questão é Global: Segurança Alimentar demanda esforços nacionais,
e têm um impacto muito além
das fronteiras de qualquer país.

A Amazônia tende a evocar uma visão edênica – de uma terra misteriosa e impenetrável, cheia de feras selvagens, de onças a sucuris. Uma região rica em flora não descoberta. Mas parte disso é incongruente com essa reputação, onde grandes caminhões passam por postos de gasolina em ruínas e cobertos de sujeira, e onde as terras antes cheias de árvores e a promessa de aventura na selva se transformaram em pastagem de gado ou campo de soja.

Uma estrada chamada BR-163

Acesse o Google Maps e aumente o zoom para o estado de Mato Grosso e encontre o fio fino da estrada que atravessa o estado. Ramificando-se, existem linhas marrons perpendiculares, todas elas inconfundivelmente desmatadas, cortando e contrastando com a floresta verde escura. Essa rodovia é onde a agricultura e a selva amazônica se encontram.

A floresta tropical no Brasil foi progressivamente vítima da demanda global por soja e carne bovina. E o maior cliente do país para ambos é a China. A história da Amazônia se enredou não apenas com a história da fraca proteção do Brasil em sua fronteira florestal, mas também com a ascensão dessa nova superpotência e sua estratégia de segurança alimentar.

A soja é o elo fraco da China, a principal commodity de alimentos de que precisa no mundo exterior.


O país importa a safra, que costuma usar para alimentar seus porcos, e as empresas estatais chinesas também investem diretamente na cadeia de suprimentos do Brasil, para que o país sul-americano possa aumentar suas próprias exportações.

Árvore de noz brasileira morta em pé em uma fazenda de gado. A região vive da pecuária e da indústria madeireira. A região é a cidade Apiacas no Norte de Mato Grosso.

Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Essa crescente fome de soja incentivou os garimpeiros brasileiros a manter o ritmo arrasando a selva intocada, acelerando o desmatamento.

Essa dinâmica destaca algumas das tensões inerentes ao desafio de combater as mudanças climáticas. A classe média da China tem uma fome crescente de carne, levando a um aumento na demanda por soja.

Para um país que se comprometeu a honrar o Acordo de Paris, as medidas de segurança alimentar da China são contrárias aos seus esforços ambientais, embora o acordo climático vise reduzir as emissões nacionais de carbono, ele não responde pelas atividades e responsabilidades dos signatários de outros países. países. E o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, argumenta que o país deve priorizar o crescimento econômico, mesmo que isso acarrete o custo de destruir a maior floresta tropical do planeta.

Sinop, uma próspera comunidade de 140.000 habitantes no norte de Mato Grosso e um centro de agricultura industrial, simboliza essa transformação.

O local está em um estágio de desenvolvimento – o Burger King realizou sua grande inauguração aqui recentemente e o McDonald’s está a caminho – mas também é uma economia avançada com comunidades pavimentadas e com casas de milionários construídas para com sofisticação  em meados do século XX.

Junto com a soja e o gado, uma cidade extensa deslocou a floresta exuberante, batendo contra o deserto, e os moradores se orgulham disso.

“Somos campeões da soja e do gado”, vangloria-se Daniel Brolese. “A demanda da China é o que tranquiliza os agricultores aqui”. Brolese, vice-prefeito de assuntos econômicos. Ele percorre a cidade apontando quadras particulares de tênis e vôlei de praia. Nas calçadas, carros de luxo, de um Corvette Stingray a um Porsche Cayenne.

Periodicamente, ele faz uma pausa na turnê para se concentrar em um novo projeto que, segundo ele, catapultará Sinop ainda mais e ajudará a impulsionar mais exportações para a China. “Ferrogrão”, diz ele, “não é questão importante para o desenvolvimento”.

Ele está se referindo a uma ferrovia que os produtores sonham há muito: Ferrogrão – o “trem de grãos” – em português – transportaria soja do interior da Amazônia para seus portos fluviais ao longo do rio Tapajós e depois para o Oceano Atlântico. Há muito desejado pelos agronegócios e autoridades daqui, o projeto nunca teve o capital político e financeiro necessário do governo federal para avançar – os oponentes argumentaram que isso custou muito e beneficiou muito poucos. Mas duas coisas se juntaram que podem finalmente tornar Ferrogrão uma realidade: a eleição de Bolsonaro e a China.

Mas os garimpeiros aproveitaram o fraco estado de direito e a aplicação de políticas ambientais para encontrar uma maneira criativa de continuar lucrando.

Primeiro eles destruíam árvores para dar lugar ao gado e, depois de alguns anos usando os campos como pastagens, eles os converteria para cultivar soja.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

A rigor, a terra não seria mais “recém-colhida” e a moratória da soja se manteria. Mesmo os agronegócios comprometidos com a moratória lutam com a responsabilidade ao coletar informações. A criação de gado agora é oficialmente o maior motor do desmatamento na Amazônia, tanto porque existe uma demanda internacional crescente genuína por carne bovina quanto porque os desenvolvedores estão planejando um eventual desenvolvimento da soja.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita