Rio de Janeiro: Megacidade brasileira experimentando descarte de lixo ecologicamente correto

Na periferia norte do Rio de Janeiro, longe das vastas faixas de areia branca da icônica praia de Copacabana, mangas machucadas e douradas, pimentões murchados e um cacho de mandioca se misturam com lascas de madeira.

A transformação da gestão do lixo poderia desempenhar um papel no cumprimento da meta de carbono líquido zero do Rio de Janeiro? A cidade está explorando uma nova forma de processar resíduos de alimentos, com um projeto que é o primeiro do tipo na América Latina.

Estátua no Rio de Janeiro, megacidade no Brasil (picture-alliance / GES / M. Gilliar)

Megacidade brasileira experimentando descarte de lixo ecologicamente correto.

Esses podem não parecer ingredientes especiais, mas um projeto experimental na megacidade brasileira está explorando se queimar esse lixo poderia ser parte de uma receita para atingir sua meta de carbono zero até 2050.

“Caso contrário, todos esses alimentos estariam sendo jogados fora”, diz Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju, que abriga a primeira unidade de “biometanização” da América Latina.

Um forte cheiro ácido preenche o ar do armazém no calor do meio-dia, quando Ferreira acena com uma empilhadeira. “É muito potencial perdido. Precisamos fazer isso em todo o país”, acrescenta.

Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de desperdício de alimentos do mundo, descartando cerca de 30% de todas as frutas e vegetais colhidos. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, cerca de 40 mil toneladas de alimentos são jogados fora todos os dias no país, onde se decompõem em aterros sanitários, liberando quantidades significativas de metano.

No entanto, o Rio de Janeiro, uma cidade de cerca de 6,7 milhões, também é uma das mais de 70 cidades em todo o mundo que se comprometeram a se tornar “neutras em carbono” até 2050. As cidades são responsáveis ​​por cerca de 75% das emissões de CO2, de acordo com as Nações Unidas, e mais de dois terços da energia que consumimos.

Gerando energia a partir de resíduos orgânicos

O projeto piloto do Ecoparque, lançado em dezembro de 2018 pela Comlurb, departamento de resíduos municipais do Rio de Janeiro, transforma matéria orgânica – quase totalmente resíduo de alimentos – em biogás por meio de um processo que gera eletricidade, biocombustíveis e composto para serem usados ​​como fertilizante na agricultura e silvicultura, e produz emissões mínimas.

Processando entre 35 e 50 toneladas de resíduos por dia, a fábrica gera energia suficiente para se alimentar, a maior instalação de resíduos no local e a frota da empresa de 19 veículos elétricos. Isso equivale a mais de 1.000 residências com base no consumo médio no Brasil, Ferreira diz.

A fábrica recebe resíduos orgânicos de supermercados e barracas de rua de frutas e verduras do centro da cidade, mas também tratou do lixo doméstico e até descartou hambúrgueres e batatas fritas do festival Rock in Rio de outubro.

Um gasoduto transportando gás para ser transformado em eletricidade

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de resíduos alimentares do mundo

Sete reatores do Ecoparque, todos do tamanho aproximado de contêineres, são usados ​​para processar os resíduos. Em um processo escalonado, cada um recebe lixo orgânico e é lacrado por duas a três semanas, com a introdução de bactérias para decompor a matéria e produzir metano. O gás é então armazenado em um grande recipiente acima da instalação e posteriormente convertido em eletricidade.

“A ideia do Ecoparque é ter um local de experimentação de novas tecnologias que possam, no futuro – e se tiverem demonstrado sua viabilidade econômica, financeira e ambiental – ser adotadas pela Comlurb, fazendo com que cada vez menos resíduos sejam descartados em aterros sanitários ”, afirma José Henrique Monteiro Penido, responsável pela área de sustentabilidade ambiental da Comlurb. “O modelo pode ser replicado nas cidades e ter um impacto positivo para todo o país”.

Segundo a Comlurb, esse é o “primeiro passo” para lidar com as 5 mil toneladas de lixo orgânico que o Rio de Janeiro produz a cada dia. Com um empréstimo não reembolsável do Fundo Brasileiro de Desenvolvimento Tecnológico, e desenvolvido em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais, o plano é expandir esse modelo para outras cidades do Brasil e da América Latina.

Equipamento que mede a qualidade do gás sendo produzido

“No geral, é um sinal muito positivo e não tenho dúvidas de que é escalável”, disse Richard Lowes, pesquisador de política energética da Universidade de Exeter. “Parece ser um processo eficiente com controles muito medidos sobre a produção. Quando os resíduos alimentares vão para aterros, podem produzir metano, um poderoso gás de efeito estufa – mas com esse processo você obtém a energia e não as emissões. ”

Alcançando as metas climáticas

O processo de biometanização por si só, no entanto, não será suficiente para reduzir significativamente a pegada ambiental do Brasil, Lowes diz: “Seria melhor se esses resíduos simplesmente não fossem produzidos em primeiro lugar. Se não houvesse resíduos, não haveria a necessidade de processar qualquer coisa. Temos a tendência de ser uma sociedade muito desperdiçadora e devemos nos concentrar em reduzi-la. ”

Ainda assim, o município acredita que pode ajudar a atingir sua meta de reduzir as emissões das mudanças climáticas em 20% entre 2005 e 2020, como parte da iniciativa C40 Cities, uma rede de cidades que impulsiona a ação climática. No âmbito do Programa de Desenvolvimento da Cidade de Baixo Carbono do Rio de Janeiro, a cidade lançou nos últimos anos um projeto de reflorestamento urbano para plantar 12 milhões de árvores e um esquema municipal de compartilhamento de bicicletas, o Bike Rio, enquanto expande a rede de caminhos da cidade.

O projeto marca um raro lampejo de positividade para o país em meio ao desmatamento de uma década na Amazônia e às críticas à falta de compromisso do Brasil com os principais objetivos climáticos na COP25, a recente conferência em Madrid.

No Ecoparque, a equipe busca constantemente a melhoria dos níveis de eficiência, utilizando eletrônicos, sensores e medidores que auxiliam no controle e na otimização da produção de biogás em sua busca pela produção de energia sustentável. A esperança é que uma instalação como esta seja construída para cada 50.000 pessoas no país.

“Há dois caminhos a seguir”, diz o pesquisador Ferreira. “Podemos seguir em frente com o sistema atual de grandes instalações de resíduos que requerem uma quantidade significativa de transporte, ou podemos descentralizar o processo e construir um em cada cidade do Brasil.”

Supermercados alemães pedem que Berlim pressione Bolsonaro

Gigantes do varejo expressam preocupação com o desmatamento no Brasil e pedem que governo Merkel cobre uma mudança de rumo na política ambiental de Bolsonaro.

Supermercados afirmam evitar soja brasileira e preferir produtos de produção sustentável

Duas das maiores cadeias de supermercados da Alemanha, Edeka e Lidl, manifestaram preocupação com o desmatamento no Brasil e pediram que o governo alemão pressione o governo do presidente Jair Bolsonaro a conter a devastação ambiental.

“Tendo em vista o aumento da demanda global por soja e os desenvolvimentos na região amazônica, compartilhamos suas preocupações”, diz uma carta da Lidl enviada à eurodeputada alemã Anna Cavazzini, uma crítica ferrenha da política ambiental de Bolsonaro.

“A rede Edeka está observando os acontecimentos no Brasil com grande preocupação”, diz a outra rede, também em carta enviada à eurodeputada.

No documento, a Edeka também afirma que pediu que produtores de soja brasileiros se comprometam a atuar para que áreas do Cerrado não sejam destruídas e convertidas em zonas de cultivo.

A Edeka afirmou ainda que, enquanto membro da Federação Alemã do Comércio de Alimentos (BVLH), pediu que o governo da chanceler federal alemã, Angela Merkel, pressionasse o governo Bolsonaro a agir para conter o desmatamento e dar prioridade à proteção florestal.

A rede Lidl também é membro da federação que apresentou o pedido ao governo alemão. “Na nossa visão, o desmatamento não é o único aspecto problemático, mas também o fato de que monoculturas em larga escala e uso intenso de pesticidas empobrece o solo e favorece a erosão”, disse o conglomerado.

Ambas as redes ainda afirmaram que estão comprometidas com a adoção de “cadeias de abastecimento sem desmatamento”. A Lidl, por sua vez, afirmou que o grupo prefere soja da União Europeia (UE) e incentiva a mudança para um cultivo de soja mais sustentável no Brasil.

De acordo com o jornal alemão Taz, que publicou uma reportagem sobre o posicionamento das duas redes, a declaração dos dois conglomerados pode aumentar a pressão para que o governo alemão reavalie seu rumo em relação ao Brasil.

No mês passado, Merkel acenou retirar seu apoio à retificação do acordo de livre comércio da UE com o Mercosul, referindo-se ao desmatamento da Amazônia. Entretanto, ela ainda não desistiu de modo definitivo do tratado.

Em maio, as principais redes de supermercados do Reino Unido ameaçaram boicotar produtos brasileiros se o Congresso Nacional aprovasse a polêmica lei de regularização fundiária, conhecida a “MP da grilagem”, posteriormente convertida em projeto de lei.

A carta aberta tem cerca de 40 signatários, incluindo algumas das redes de supermercados mais importantes do Reino Unido, como Tesco, Sainsbury’s, Morrisons e Marks & Spencer, além da rede Burger King, do fundo público de pensões sueco AP7 e de outras empresas de gestão de investimentos.

MD/ots

Na Europa, as mudanças climáticas trazem novas culturas, novas idéias

À medida que o clima da Europa mudar nas próximas décadas, algumas regiões terão cada vez mais dificuldade em sustentar as culturas tradicionais.

Mas com novas variedades e estratégias, alguns agricultores estão plantando de olho no futuro.

Com verões mais quentes, tempestades severas e períodos secos prolongados nas previsões, as perspectivas para os agricultores da Europa são assustadoras.

Prevê-se que as temperaturas médias anuais aumentem de 1 a 5,5 graus Celsius (1,5 a 10 graus Fahrenheit), com o aquecimento mais forte projetado no sul do continente nos meses de verão.

Um relatório de setembro de 2019 da Agência Europeia do Meio Ambiente (AEA) observou que o estresse térmico, eventos climáticos extremos como inundações repentinas e tempestades de granizo e escassez de água já mudaram as condições para várias culturas na Europa – especialmente para os alimentos básicos do Mediterrâneo, como azeitonas e uvas para vinho.

Enquanto isso, lugares no norte da Europa podem ter benefícios agrícolas com as mudanças climáticas, incluindo estações de crescimento mais longas e um período mais curto de geada “permitindo o cultivo de novas culturas e variedades”, afirmou o relatório. As terras cultiváveis adequadas ao redor do Mar Báltico podem mais que dobrar até 2100, de 32% da área atual para cerca de 76%, com certas culturas agora comuns ao sul da Europa criando raízes mais ao norte.

Reino Unido, vinhos escandinavos

Essas mudanças climáticas já deram frutos – literalmente. No estado alemão do norte da Baixa Saxônia, onde as temperaturas médias subiram quase 2 graus Celsius nas últimas décadas, alguns agricultores começaram a cultivar frutas tipicamente encontradas mais ao sul, como damascos e nectarinas. E o cultivo do vinho, tipicamente associado a mais encostas do sul da França, Espanha e Itália, agora está decolando em lugares como Dinamarca, Suécia e Reino Unido.

A Ryedale Vineyards, no nordeste da Inglaterra, produz vinhos britânicos desde 2006. Como uma das vinícolas mais ao norte do Reino Unido, depende principalmente de variedades híbridas resistentes a doenças, mais adequadas às regiões mais frias do norte da Europa.

A tendência de aquecimento das últimas décadas viu a indústria vinícola do Reino Unido quadruplicar em tamanho desde 2000, com as vinhas inglesas produzindo cerca de 13,2 milhões de garrafas em 2018. Mas a mudança climática apresenta outros desafios, incluindo padrões climáticos incomuns e aumento do risco de doenças associadas a verões mais úmidos. que estão ligadas às mudanças climáticas.

“Eventos climáticos imprevisíveis, secas e intensas tempestades de verão são um problema real e parecem ter aumentado em frequência”, disse Jon Fletcher, que administra a Ryedale Vineyards com sua família. Ele listou os desafios: geadas tardias, tempestades de granizo destrutivas e períodos de seca que podem durar meses. “Este ano já tivemos o maio mais ensolarado já registrado e nenhuma chuva há dois meses, então o clima imprevisível continua.”

“As mudanças climáticas representam um risco para a sustentabilidade do gerenciamento de vinhedos em escala global e, principalmente, na Europa”, disse Josep Maria Sole, do VISCA (Aplicativo Integrado de Clima Inteligente para Vinhas), um projeto financiado pela UE que visa ajudar a indústria vinícola da Europa desenvolver estratégias de adaptação a médio e longo prazo. Ele disse que as áreas produtoras de vinho sofrerão cada vez mais com intensas ondas de calor e secas e, em certas regiões da Espanha, geadas mais intensas na primavera, que podem danificar os brotos das videiras.

Blaz Kurnik, especialista em impactos das mudanças climáticas e adaptação no EEE, disse que essas temperaturas mais altas, especialmente os invernos mais quentes, também favorecem a introdução de novas doenças e pragas, incluindo a mosca da oliveira. Enxames crescentes estão ameaçando a indústria de azeite da Europa, responsável por cerca de três quartos do suprimento mundial. “No pior cenário, até 80% das oliveiras [italianas] serão afetadas por isso todos os anos”, disse Kurnik, acrescentando que as moscas também estavam infestando os olivais da Espanha.

Lichia, mamão: estas são as culturas futuras da Europa?
Manga, abacate e lichia: as futuras culturas comerciais da Europa?

A Itália, que ocupa a segunda posição no mundo em produção de azeite, teve uma colheita desastrosa em 2018. O mau tempo e a geada fizeram com que a produção caísse 57%, representando uma perda de quase € 1 bilhão (US $ 1,13 bilhão).

A Sicília é uma das principais regiões produtoras de azeite da Itália, juntamente com a Calábria e a Apúlia. Mas alguns agricultores começaram a focar sua atenção em culturas nativas das regiões tropicais, incluindo mangas, abacate e lichia.

As culturas tropicais foram introduzidas pela primeira vez na Sicília na década de 1970, mas nos últimos anos houve um crescimento exponencial dessas culturas e a introdução de novas espécies como o mamão, substituindo as frutas cítricas que “não são mais remunerativas”, disse Vittorio Farina, professor associado de agricultura na Universidade de Palermo.

“O clima favorável de muitas áreas da bacia do Mediterrâneo está promovendo o cultivo de frutas tropicais”.  “De fato, a produção predominante de manga e abacate está concentrada nos países tropicais, mas recentemente seu cultivo se espalhou fora das regiões geográficas tradicionais para a bacia do Mediterrâneo e, em particular, no Egito, Israel, África do Sul, Europa, principalmente Espanha e Itália”.

Farina disse que uma sucessão de invernos mais amenos favoreceu a expansão dos pomares de manga, abacate e mamão destinados aos mercados de exportação mais ao norte, embora os verões mais secos correspondentes e os eventos climáticos extremos continuem sendo um desafio.

“O problema da escassez de recursos hídricos para a agricultura impõe cada vez mais a introdução de espécies com pouca demanda de água”, afirmou Farina, sugerindo a possível introdução de frutas como a pêra. “Para a maioria das outras espécies tropicais, a irrigação nos meses quentes nas áreas secas é uma condição essencial para a obtenção de um produto de qualidade”. Farina disse que estava testando estratégias de irrigação de precisão para limitar a pegada hídrica das culturas tropicais.

 

Estamos comendo golfinhos, tartarugas e aves marinhas?

O que seu almoço tem a ver com golfinhos,
tartarugas e aves marinhas?

Se você achou essa pergunta sem sentido, precisamos conversar sobre pesca acidental. Este é um grave problema ambiental, que está contribuindo com a extinção de espécies no Brasil e no mundo. A pesca acidental ou captura acidental (bycatch, em inglês) pode ser definida como espécies que são capturadas de forma não intencional nas pescarias.

Para entendermos melhor este conceito, podemos pensar em um tiro ao alvo. O centro corresponde às “espécies-alvo” – aquelas com interesse econômico e comercial -, enquanto o entorno é repleto de outros animais que podem ser atingidos acidentalmente. Se considerarmos a pesca, há um desafio adicional nos arremessos: já que não vemos o que está no fundo do mar, é como se lançássemos os dardos com olhos vendados.

Por serem pouco seletivos, os artefatos utilizados na pesca acabam capturando muitos outros animais. Entre estes artefatos estão: redes de arrasto de fundo, que são arrastadas pelo fundo do mar para capturar principalmente camarões; redes de emalhe, que ficam esticadas na coluna d’água e capturam animais de passagem; e o espinhel, uma sequência de anzóis (20 a 300) presos em um cabo que permanece esticado em diferentes profundidades.

Ilustração de diferentes artefatos de pesca: (A) Arrasto de fundo; (B) Redes de emalhe; e (C) Espinhel. Fonte: adaptado de CEPSUL/IBAMA.

A consequente quantidade de animais capturados de forma não intencional é alarmante. Segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), entre 2010 e 2014 foram 9,1 milhões de toneladas de animais capturados por pesca acidental no mundo. Isso equivale a 3.600 piscinas olímpicas cheias de animais que serão descartados – mortos ou feridos. Uma das espécies-alvo com maior taxa de captura acidental associada é o camarão: neste caso, são capturados até 20 quilos de outros animais para cada quilo de camarão comercializado.

A triste realidade da captura acidental: são milhões de animais mortos a cada ano. Fonte: adaptado de Natural Environment Research Council; Food & Agriculture Organization of the United Nations.
De acordo com o mesmo relatório, as regiões que mais contribuem com a captura acidental no mundo estão no Hemisfério Norte: entre a Groenlândia e Noruega (nordeste do Oceano Atlântico); e na extensão costeira do Japão e leste da Rússia (noroeste do Oceano Pacífico). Ambas somam aproximadamente 40% da pesca acidental global. Contudo, é no Atlântico Sul Ocidental – região que inclui a costa brasileira e que se estende até o limite com a Antártica – que se encontra a faixa com a maior taxa de descarte. Isso quer dizer para cada tonelada de pescado comercializado, há uma maior proporção de animais descartados associada.

Distribuição das taxas de descarte pesqueiro no mundo (toneladas de descarte por toneladas de pesca). As estrelas vermelhas indicam as regiões com maior captura acidental absoluta (em toneladas). Fonte: adaptado de Natural Environment Research Council; Food & Agriculture Organization of the United Nations.
Que espécies são vítimas dos arremessos errados?

Os animais capturados de forma acidental incluem diversas espécies: podem ser peixes que não serão consumidos ou com tamanho muito pequeno, além de aves marinhas, tubarões, golfinhos, tartarugas marinhas, baleias. Muitos destes animais ficam presos nas redes e acabam morrendo por estresse ou afogamento.

Uma característica comum entre várias espécies que são capturadas acidentalmente é que estes animais se reproduzem em ritmos lentos. Isto quer dizer que têm poucos filhotes por vez e sua gestação é demorada. Dessa forma, ao terem as populações reduzidas, sua recuperação será lenta. Essas perdas são ainda mais graves quando falamos em espécies ameaçadas e que já têm populações pequenas.

A toninha (Pontoporia blainvillei) é um exemplo de animal que atende a todos esses pré-requisitos preocupantes: está entre os golfinhos mais ameaçados do mundo, as fêmeas têm apenas um filhote a cada dois anos e sua gestação dura 11 meses. Estes golfinhos só existem em águas rasas do Brasil, Argentina e Uruguai e suas populações estão diminuindo em função de várias ameaças. Dentre elas, a pesca acidental figura como principal causa de suas mortes.
Toninhas mortas por estresse, asfixia e afogamento após emalhe em rede de pesca. Foto: Santiago Anguita/PMP-BS/UDESC.

Toninha grávida, morta por afogamento e com marcas de emalhe em rede de pesca. Foto: PMP-BS/Univille.

As capturas desta espécie são alarmantes, pois além da população reduzida, a maioria dos animais que ficam presos em redes é jovem. Isto acontece porque indivíduos jovens ainda não desenvolveram de forma ampla o seu sentido de ecolocalização (capacidade de perceber o ambiente através dos sons e dos ecos produzidos). Como estes animais não conseguem detectar a presença das redes, acabam sendo as principais vítimas. Para a população, perder indivíduos jovens é inestimável: além da redução no número de indivíduos, estes jovens mortos não tiveram a oportunidade de se reproduzirem e deixarem descendentes.

A pesca acidental e suas consequências são problemas tão graves quanto complexos, mas a atenção que lhes é dada está longe de ser proporcional. Ao olhamos para o Brasil, o horizonte de solução parece ainda mais distante, já que sequer temos estatística pesqueira básica. Se quisermos uma mudança promissora nesse tiro ao alvo e a garantia de um oceano com vida, é imprescindível resgatarmos nossa gestão pesqueira da deriva.

Fonte: Instituto VIVA Verde e Azul.

*Textos produzidos pelos(as) alunos(as) da disciplina “Conservação da Biodiversidade no Antropoceno”, ministrada no Programa de pós-graduação em Ecologia da UFSC, pela Profa. Dra. Michele de Sá Dechoum (UFSC) e pela Dra. Paula Drummond de Castro (Labjor – UNICAMP). 

Este texto foi escrito por:

Larissa Dalpaz é bióloga, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFSC e bolsista “STOP Bycatch” do Instituto Viva Verde Azul.

Mario Tagliari é biólogo, doutorando do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFSC e idealizador do projeto de divulgação científica Ciência no Bar.

Samuel Costa é biólogo, Mestre em Ciências Ambientais e Professor do Instituto Federal de Santa Catarina.

China quer comida. O Brasil paga o preço.

A questão é Global: Segurança Alimentar demanda esforços nacionais,
e têm um impacto muito além
das fronteiras de qualquer país.

A Amazônia tende a evocar uma visão edênica – de uma terra misteriosa e impenetrável, cheia de feras selvagens, de onças a sucuris. Uma região rica em flora não descoberta. Mas parte disso é incongruente com essa reputação, onde grandes caminhões passam por postos de gasolina em ruínas e cobertos de sujeira, e onde as terras antes cheias de árvores e a promessa de aventura na selva se transformaram em pastagem de gado ou campo de soja.

Uma estrada chamada BR-163

Acesse o Google Maps e aumente o zoom para o estado de Mato Grosso e encontre o fio fino da estrada que atravessa o estado. Ramificando-se, existem linhas marrons perpendiculares, todas elas inconfundivelmente desmatadas, cortando e contrastando com a floresta verde escura. Essa rodovia é onde a agricultura e a selva amazônica se encontram.

A floresta tropical no Brasil foi progressivamente vítima da demanda global por soja e carne bovina. E o maior cliente do país para ambos é a China. A história da Amazônia se enredou não apenas com a história da fraca proteção do Brasil em sua fronteira florestal, mas também com a ascensão dessa nova superpotência e sua estratégia de segurança alimentar.

A soja é o elo fraco da China, a principal commodity de alimentos de que precisa no mundo exterior.


O país importa a safra, que costuma usar para alimentar seus porcos, e as empresas estatais chinesas também investem diretamente na cadeia de suprimentos do Brasil, para que o país sul-americano possa aumentar suas próprias exportações.

Árvore de noz brasileira morta em pé em uma fazenda de gado. A região vive da pecuária e da indústria madeireira. A região é a cidade Apiacas no Norte de Mato Grosso.

Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Essa crescente fome de soja incentivou os garimpeiros brasileiros a manter o ritmo arrasando a selva intocada, acelerando o desmatamento.

Essa dinâmica destaca algumas das tensões inerentes ao desafio de combater as mudanças climáticas. A classe média da China tem uma fome crescente de carne, levando a um aumento na demanda por soja.

Para um país que se comprometeu a honrar o Acordo de Paris, as medidas de segurança alimentar da China são contrárias aos seus esforços ambientais, embora o acordo climático vise reduzir as emissões nacionais de carbono, ele não responde pelas atividades e responsabilidades dos signatários de outros países. países. E o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, argumenta que o país deve priorizar o crescimento econômico, mesmo que isso acarrete o custo de destruir a maior floresta tropical do planeta.

Sinop, uma próspera comunidade de 140.000 habitantes no norte de Mato Grosso e um centro de agricultura industrial, simboliza essa transformação.

O local está em um estágio de desenvolvimento – o Burger King realizou sua grande inauguração aqui recentemente e o McDonald’s está a caminho – mas também é uma economia avançada com comunidades pavimentadas e com casas de milionários construídas para com sofisticação  em meados do século XX.

Junto com a soja e o gado, uma cidade extensa deslocou a floresta exuberante, batendo contra o deserto, e os moradores se orgulham disso.

“Somos campeões da soja e do gado”, vangloria-se Daniel Brolese. “A demanda da China é o que tranquiliza os agricultores aqui”. Brolese, vice-prefeito de assuntos econômicos. Ele percorre a cidade apontando quadras particulares de tênis e vôlei de praia. Nas calçadas, carros de luxo, de um Corvette Stingray a um Porsche Cayenne.

Periodicamente, ele faz uma pausa na turnê para se concentrar em um novo projeto que, segundo ele, catapultará Sinop ainda mais e ajudará a impulsionar mais exportações para a China. “Ferrogrão”, diz ele, “não é questão importante para o desenvolvimento”.

Ele está se referindo a uma ferrovia que os produtores sonham há muito: Ferrogrão – o “trem de grãos” – em português – transportaria soja do interior da Amazônia para seus portos fluviais ao longo do rio Tapajós e depois para o Oceano Atlântico. Há muito desejado pelos agronegócios e autoridades daqui, o projeto nunca teve o capital político e financeiro necessário do governo federal para avançar – os oponentes argumentaram que isso custou muito e beneficiou muito poucos. Mas duas coisas se juntaram que podem finalmente tornar Ferrogrão uma realidade: a eleição de Bolsonaro e a China.

Mas os garimpeiros aproveitaram o fraco estado de direito e a aplicação de políticas ambientais para encontrar uma maneira criativa de continuar lucrando.

Primeiro eles destruíam árvores para dar lugar ao gado e, depois de alguns anos usando os campos como pastagens, eles os converteria para cultivar soja.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

A rigor, a terra não seria mais “recém-colhida” e a moratória da soja se manteria. Mesmo os agronegócios comprometidos com a moratória lutam com a responsabilidade ao coletar informações. A criação de gado agora é oficialmente o maior motor do desmatamento na Amazônia, tanto porque existe uma demanda internacional crescente genuína por carne bovina quanto porque os desenvolvedores estão planejando um eventual desenvolvimento da soja.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

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Meio Ambiente: A poluição microplástica está em toda parte

A poluição por plásticos é uma preocupação global crescente. Grandes pedaços de plástico foram encontrados em quase toda parte da Terra, das praias mais visitadas às ilhas remotas e desabitadas. Como a vida selvagem é regularmente exposta à poluição por plásticos, geralmente perguntamos que efeitos os plásticos têm sobre os animais.

Com o tempo, os macroplásticos (detritos de plástico com mais de cinco milímetros de tamanho) se decompõem em pequenas partículas chamadas microplásticos (menores que cinco milímetros), que podem persistir no ambiente por centenas de anos.Ambiente,MicroPlásticos,Poluição,Oceanos,Alimentos,Blog do Mesquita 01

Sabe-se que os macroplásticos causam efeitos prejudiciais à vida selvagem. Animais individuais podem ingerir pedaços grandes ou enredar-se em itens de plástico, como equipamentos de pesca, e sufocar ou morrer de fome. Embora não haja dúvida de que os macroplásticos são prejudiciais à vida selvagem, os efeitos dos microplásticos não são tão diretos.Meio Ambiente,Plásticos,Oceanos,Poluição,Blog do Mesquita 05

Enquanto muitos estudos descobrem que os microplásticos podem afetar a expressão gênica, o crescimento, a reprodução ou a sobrevivência de um animal, outros concluem que os microplásticos não têm efeitos negativos. A falta de um consenso claro torna mais difícil para os tomadores de decisão adotarem políticas eficazes para mitigar a poluição por plásticos.

Nem todos os plásticos são iguais

Recentemente, aprofundamos a pesquisa que analisou como a poluição por plásticos afeta a vida selvagem aquática e terrestre.

Descobrimos que, embora os macroplásticos continuem causando efeitos prejudiciais a animais individuais, eles também estão causando mudanças em larga escala nas populações de animais, comunidades e ecossistemas. Por exemplo, a poluição plástica pode introduzir espécies invasoras em novos habitats transportando organismos a centenas de quilômetros de sua faixa nativa, alterando a composição das espécies em uma comunidade.Ambiente & Ecologia,Poluição,Vida Selvagem,Oceanos,Plástico

Os efeitos dos microplásticos, no entanto, são muito mais complicados. Dos estudos que incluímos em nossa revisão, quase metade (45%) constatou que os microplásticos causavam um efeito. Alguns estudos observaram que os microplásticos fizeram com que os animais tivessem vidas mais curtas, comessem menos ou nadassem mais devagar, e outros viram mudanças no número de filhotes produzidos e mudanças nos genes sendo expressos. No entanto, 55% dos estudos não detectaram efeitos.

Por que alguns estudos detectam efeitos enquanto outros não? Existem várias possibilidades. Por um lado, os pesquisadores usaram diferentes desenhos experimentais em seus experimentos de laboratório.

Há também a questão do uso do termo microplástico, que se refere a uma mistura complexa de plásticos que variam em material (como polietileno, poliestireno ou cloreto de polivinil), os produtos químicos associados a eles (incluindo aditivos, cargas e corantes), além de seu tamanho e forma. Cada uma dessas características, juntamente com a quantidade de plástico ao qual o animal é exposto no experimento, pode afetar seu potencial de detectar um efeito.

Microfibras e microesferas

Por exemplo, vimos que, quando os estudos expuseram crustáceos ao poliestireno, um tipo de plástico usado para fazer recipientes, tampas e talheres descartáveis, os crustáceos geralmente produziam mais descendentes. Mas quando foram expostos ao polietileno ou ao tereftalato de polietileno, usado para fazer sacolas plásticas e garrafas de bebidas, os crustáceos produziram menos filhos.

As microesferas são encontradas em produtos esfoliantes, como produtos de limpeza de rosto e creme dental. Vários países proibiram sua produção e venda. Crédito: Shutterstock

Vários países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos, proibiram recentemente as microesferas de plástico – as esferas e fragmentos esféricos em lavagem de rosto, esfoliação corporal e pasta de dentes – porque estavam contaminando o meio ambiente e poderiam causar efeitos negativos em animais aquáticos. Embora essa legislação reduza um tipo de microplástico no meio ambiente, é irrelevante para muitos outros.

Também descobriu-se que estudos usando partículas menores têm maior probabilidade de detectar um efeito. Isso ocorre porque partículas menores são mais facilmente consumidas por pequenos organismos ou porque podem se mover através da membrana celular e causar efeitos nocivos, como inflamação.

No que diz respeito à forma do plástico, as microfibras (de roupas ou cordas) e os fragmentos tiveram maior probabilidade de afetar negativamente o organismo em comparação com as esferas (dos produtos de limpeza facial). Por exemplo, um estudo descobriu que as microfibras eram mais tóxicas para uma espécie de camarão marinho do que fragmentos ou esferas microplásticos.

Finalmente, pode-se esperar que os animais sejam mais prejudicados quando expostos a concentrações mais altas de microplásticos. Embora seja verdade que os crustáceos tenham mais probabilidade de morrer quando expostos a doses crescentes de microplásticos, o efeito na reprodução foi mais complexo. O número de filhotes aumentou com doses extremamente altas, mas diminuiu com doses mais baixas, semelhante ao observado no ambiente.Ecologia,Plásticos,Microplásticos,Meio Ambiente,Ambiente,Natureza,Poluição,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Blog do Mesquita,Brasil

Muitos tipos, muitos resultados

Com base em nossa análise, acreditamos que pesquisas futuras precisam reconhecer a complexidade dos microplásticos e os cientistas precisam projetar seus testes estrategicamente para que possamos realmente entender como os diferentes tipos, tamanhos, formas, doses e a duração da exposição aos microplásticos afetam a vida selvagem.

Somente se tivermos uma melhor compreensão de como os diferentes tipos, formas e concentrações de microplásticos afetam a vida selvagem podemos tomar melhores decisões políticas. Se, por exemplo, as microfibras são realmente mais nocivas que as esferas, poderíamos concentrar nossa atenção em impedir que essas fibras entrem em nossas vias navegáveis ​​por fontes conhecidas, como máquinas de lavar.

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Comunidade indígena vítima de aplicação de agrotóxico será indenizada

Macaque in the trees
Comunidade Indígena Tey Jusu (Foto: Arquivo)

A Justiça Federal condenou um proprietário rural, um piloto agrícola e uma empresa a pagarem, solidariamente, R$ 150 mil à Comunidade Indígena Tey Jusu, vítima de aplicação irregular de agrotóxico.
Segundo o Ministério Público Federal, a comunidade –localizada em Caarapó (MS), 270km ao sul da capital, Campo Grande— é a primeira do estado a ser indenizada por danos morais coletivos. Eles foram condenados com base no Inquérito Policial nº 0015/2016, instaurado para apuração do delito previsto na Lei nº 7.802/98: ação ilícita de aspersão de agrotóxicos em descumprimento às exigências estabelecidas na legislação. Não é permitida a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas situadas a uma distância mínima de quinhentos metros de povoações.

O fato ocorreu em 2015. A aspersão causou, em crianças e adultos, dores de cabeça e garganta, diarreia e febre.

Os membros da comunidade relataram que o avião sobrevoou os barracos de sete famílias, derramando o agrotóxico diretamente sobre elas. Depois, sobrevoou outros barracos junto a uma plantação de milho.

Os indígenas produziram vídeos que mostram um avião agrícola em operação, utilizado na aplicação de fertilizantes e agrotóxicos, em que era possível ler o prefixo da aeronave. O piloto do avião foi identificado. O MPF constatou que foi aspergido sobre a comunidade o fungicida Nativo, classe III.

A Justiça concordou com o argumento do MPF, de que os barracos de lona dos indígenas estavam localizados a menos de 500 metros de distância do local onde ocorreu a aplicação de produtos agroquímicos.

Muitos estavam a apenas 30 ou 50 metros de distância da lavoura. Segundo o MPF, os responsáveis assumiram o risco ao executar a aplicação de agrotóxicos.

Os réus sustentaram que a culpa pela intoxicação seria das vítimas, ao argumento de que os indígenas teriam se afastado da aldeia localizada a mais de 500 metros da área de aplicação do produto para adentrar a lavoura exatamente no dia e hora da aspersão.

A Justiça considerou que os laudos apresentados pelo MPF comprovam a existência de barracos próximos à plantação e não o mero trânsito.

Por fim, a sentença afirma que a condenação por dano moral coletivo é “resultante de ofensa à coletividade indígena – lesão à honra e à dignidade -, consubstanciada na exposição, de parcela de seu grupo, à substância imprópria à saúde humana. A dignidade humana é por excelência o bem jurídico supremo. E, para sua proteção, impõe-se o dever jurídico de todos e do próprio Estado em respeitar a dignidade do próximo, seja o próximo um negro, um branco, um índio ou pertencente a qualquer outra raça ou etnia”.(Frederico Vasconcelos/FolhaPressSNG)

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Anvisa quer esconder que sua comida tem veneno

Novo relatório mostra que mais da metade dos alimentos analisados contém resíduos de agrotóxicos, mas órgão finge estar tudo sob controle

Maquiagem! É o que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez com os novos dados sobre agrotóxicos em nossa alimentação. Ao publicar o novo relatório parcial do PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos), ontem (11/12), o órgão comemorou os resultados.

Enquanto Bruno Rios, diretor adjunto da Anvisa, diz que não há nenhum alarde e que os alimentos estão seguros, a gente pergunta: “Seguro para quem?”, já que MAIS DA METADE (51%) dos alimentos analisados, como alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, cenoura, laranja, manga, pimentão, tomate e uva, continham resíduos de agrotóxicos. Além disso, alimentos importantes da dieta do brasileiro não entraram nesta primeira leva.

“A Anvisa e o governo vêm fazendo uma distorção perversa dos riscos dos agrotóxicos e comunicando alguns dados de forma absurda, para omitir muitos dos riscos que estamos correndo”, alerta Marina Lacôrte, coordenadora da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace. “O relatório do PARA, que deveria funcionar como uma ferramenta de proteção à saúde dos brasileiros, virou propaganda das falácias do agronegócio”.

Estamos comendo comida com veneno e isto não pode ser comemorado! Chega de enganar a população.

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Empresas globais e investidores defendem a Moratória da Soja

Mercado europeu manda recado para Brasil: sem a Moratória da Soja, as portas da Europa – um mercado de US$ 5 bilhões/ano – podem se fechar para o principal produto agrícola de exportação do país

Uma árvore solitária interrompe o infinito padrão de linhas formado pelos brotos de soja, em Nova Mutum, no Mato Grosso. Ali não há mais lugar para a floresta.
Plantação de soja na Amazônia : moratória ajudou a reduzir o desmatamento no bioma. ©Bruno Kelly / Greenpeace

“Nossa posição é clara: nós queremos ser capazes de continuar comprando ou investindo na indústria da soja brasileira, mas se a Moratória da Soja na Amazônia não for mantida, isso colocará em risco nossos negócios envolvendo o produto”. A frase é um recado a produtores, governo e grandes investidores (traders) operando no Brasil, e não deixa dúvidas: sem a Moratória da Soja, as portas da Europa – um mercado de US$ 5 bilhões/ano – podem se fechar para o principal produto agrícola de exportação do país.

A mensagem faz parte de uma carta aberta de mais de 80 investidores e empresas consumidoras da soja brasileira, em reação a uma campanha contra a Moratória da Soja iniciada em outubro deste ano por produtores do grão do Estado do Pará. Eles afirmam ser apoiados pelo governo Bolsonaro, que, por sua vez, tem trabalhado para enfraquecer órgãos e políticas fundamentais de combate ao desmatamento.

O Greenpeace entende que, no contexto atual, onde a governança ambiental foi fortemente reduzida no Brasil, a postura das empresas compradoras da soja brasileira é fundamental. A Moratória da Soja, vigente desde 2006, tem se mostrado eficaz em reduzir a participação da cadeia de soja no desmatamento direto na Amazônia. Essa importante ferramenta reduziu em quase 80% o desmatamento nos 95 municípios produtores do grão.

Cerrado também está ameaçado

No entanto, isso não basta: as empresas signatárias da moratória na Amazônia são as mesmas que operam sem controle no Cerrado, onde a expansão acelerada da cultura da soja traz uma série de impactos negativos, incluindo violência contra comunidades locais e desmatamento de um bioma já altamente ameaçado, como mostra o relatório recém-lançado “Cultivando Violência”, do Greenpeace Internacional.

“Vivemos em um período de emergência climática, política antiambiental e escalada de violência do campo. É inexplicável e inaceitável que as traders signatárias da Moratória na Amazônia mostrem tanta resistência em expandir o acordo para outras regiões sensíveis, como é o caso do Cerrado”, questiona Paulo Adário, estrategista sênior de florestas do Greenpeace. “Elas devem oferecer a seus clientes apenas produtos que tenham origem comprovada e livre de desmatamento e violência”.