A vida na primeira favela da Alemanha

Às margens do rio Spree, no bairro berlinense de Kreuzberg, um terreno baldio, mais ou menos do tamanho de um campo de futebol, chama a atenção no meio de empreendimentos imobiliários modernos e luxuosos.

Lá, entre o mato que não para de crescer, na esquina das ruas Cuvry e Schlesische, tendas e barracas se amontoam, formando aquilo que a imprensa local chamou de “a primeira favela da Alemanha”.
Primeira “favela” de Berlim reúne sem-tetos e ativistas contra gentrificação. Moradores rejeitam o termo favela e preferem se referir ao local como acampamento.

Os cerca de 60 moradores da “Cuvry”, como o local foi apelidado, não gostam de se referir ao local como favela. Eles preferem chamá-lo de acampamento.

A localização das barracas não parece seguir uma lógica. No entanto, imigrantes da Romênia e da Bulgária ficam numa área separada do restante dos habitantes. Os primeiros moradores chegaram em meados de 2012, depois de uma série de projetos para ocupar o terreno não ter ido para frente.

Há duas entradas e cartazes espalhados por todos os cantos avisando que fotos são proibidas. A proibição atrapalha passeios guiados especializados em grafite, já que no local estão dois dos principais murais de arte de rua de Berlim, feitos pelo grafiteiro italiano Blu.

“Quando trago meus grupos aqui, já aviso para eles guardarem as câmeras para evitar problemas com os moradores”, conta a guia turística Caro Eickhoff.

Habitação típica da Cuvry, terreno onde moram cerca de 60 pessoas na região central de Berlim.

A comunidade é fechada, e os habitantes são muito reticentes na hora de dar entrevistas. A grande maioria se recusa a falar com jornalistas. Os poucos que cederam aos pedidos de entrevista pediram para não ser identificados.

“Muita gente aqui já teve más experiências com a mídia, então prefere não falar”, diz uma jovem alemã que mora na Cuvry há oito meses. Vinda do interior da Alemanha para estudar em Berlim, ela procurava o endereço de um albergue na região quando ficou sabendo do acampamento.

“Minha primeira noite aqui foi dentro daquele barraco”, diz ela, apontando para uma estrutura rudimentar de madeira que, durante o dia, abriga uma biblioteca comunitária. Agora, ela divide uma tenda com dois amigos e mantém uma horta em seu pequeno quintal, onde planta tomates, pepinos e rabanetes.

Seu principal projeto para o futuro é conseguir montar uma barraca para morar sozinha. “Se depender de mim, não saio mais daqui. Essas pessoas viraram minha família.”

Em tese, qualquer um pode morar na Cuvry. De acordo com alguns moradores, quem quiser montar uma barraca no local só precisa conversar com os futuros vizinhos para verificar se o espaço está realmente livre.

Também não há uma liderança definida, e tudo é decidido em reuniões plenárias entre os moradores – desde os responsáveis por pequenos reparos nas moradias até como separar o lixo na hora de fazer a reciclagem.

As discussões são, em sua maioria, feitas em inglês por conta da mistura de nacionalidades. Não há água encanada e os banheiros são improvisados, com buracos feitos no chão.

Drogas e violência

A DW Brasil visitou o local em duas ocasiões: um domingo e uma terça-feira, sempre no período da tarde. É possível ver garrafas de bebidas alcoólicas em todos os cantos – há até um bar funcionando no local. Todas as noites, uma fogueira é acesa, e, com alguma frequência, festas são realizadas. O uso de drogas é comum.

“Passo minhas tardes sempre aqui, fumando maconha e relaxando”, conta um imigrante africano de Gâmbia que pediu para não ser identificado. Um outro morador do local, que se identificou como Philip, até mostrou o lugar preferido de alguns moradores para o consumo de drogas – uma área escondida, no meio do mato, com sofás e poltronas amontoadas.

“Moro aqui há mais ou menos um ano e é perfeito porque, além de ser de graça, também tenho amigos”, explica Philip. Segundo ele, no verão há mais moradores do que o normal – durante o rigoroso inverno alemão, o número de habitantes da Cuvry cai pela metade.

A jovem alemã que acompanhou a DW Brasil durante uma das visitas ao local disse que, apesar de o clima entre os moradores ser tranquilo na maior parte do tempo, o consumo de drogas ainda é um problema. “O que me incomoda mais são as crianças que moram aqui. Um lugar assim não é o melhor ambiente para alguém crescer.”

Gentrificação

A ocupação do terreno onde a Cuvry está instalada começou em 2012, depois de artistas, ativistas e sem-teto se mudarem para o local seguindo manifestações contra a construção de um shopping center. O projeto foi interrompido após protestos dos moradores de Kreuzberg contra a gentrificação do bairro.

O impasse, porém, continua até os dias de hoje, e os moradores da Cuvry estão constantemente sob ameaça de despejo.

Há até um abaixo-assinado na internet, no site www.change.org, que pede que o local seja transformado num parque. “Queremos discutir com os habitantes, com os vizinhos e com a cidade a criação de um parque semipúblico que também funcionaria como um espaço para moradia de refugiados, sem-teto, artistas e pessoas que querem viver fora do sistema ‘normal’”, afirma o texto do abaixo-assinado.
“Sabemos que há um problema de violência e alcoolismo entre alguns dos habitantes dessa área e nós apreciamos a tolerância e paciência de nossos vizinhos e esperamos poder evitar a ação policial ou o despejo dos moradores”, diz o documento.

Num vídeo da campanha pelo abaixo-assinado, postado no YouTube, um dos porta-vozes da comunidade, identificado apenas como Sascha, diz que muitos dos que moram na Cuvry estão ali para lutar contra a gentrificação de Berlim.

“Nós ocupamos este espaço para mostrar que há um estilo de vida diferente do estilo de vida pregado pelo ‘sistema’”, diz ele. “Esta é uma luta contra os investidores que querem explorar a nossa cidade.”

Pandemia expõe desigualdade social na Alemanha

Bloco residencial em Berlim foi colocado em quarentena

Mais de 1.500 casos do novo coronavírus num frigorífico no estado da Renânia do Norte-Vestfália, mais de 100 num conjunto residencial em Berlim e 120 infecções entre residentes de um prédio em Göttingen, na Baixa Saxônia, são os mais recentes surtos de covid-19 na Alemanha. Apesar de registrados em diferentes cidades, os três têm algo incomum: atingem as camadas mais carentes da população.

No primeiro, mais de um quinto dos trabalhadores do frigorífico Tönnies, localizado no distrito de Gütersloh, contraiu o coronavírus. O local foi fechado, e milhares de funcionários deveriam entrar em quarentena, mas a empresa não foi capaz de fornecer os endereços de todos os empregados, pois grande parte deles é terceirizada, vinda de países do Leste Europeu com contratos temporários.

Alguns conjuntos residenciais onde vivem esses trabalhadores temporários foram cercados por grades para impor a quarentena obrigatória. As condições de moradia nesses locais não são as melhores, com muitos moradores para poucos metros quadrados, impossibilitando o distanciamento social. Soma-se a isso o medo de ficar sem receber salários com o fechamento do frigorífico.

Esse não foi o primeiro surto em frigoríficos na Alemanha, mas o maior até o momento, e ele trouxe novamente à tona o debate sobre as precárias práticas de trabalho no setor, as terceirizações que possibilitam a exploração da mão de obra, com salários baixos, e as condições de moradia dos trabalhadores temporários estrangeiros, vindo principalmente da Polônia, Romênia e Bulgária.

Os outros dois surtos recentes na Alemanha ocorreram em regiões residenciais que concentram as camadas mais carentes da população, onde muitos dos moradores dependem de benefícios sociais para sobreviver.

Em Berlim, a onda de infecções atingiu em cheio um conjunto residencial no bairro Neukölln, onde um quarto da população está abaixo da linha de pobreza – atualmente estipulada em 1.004 euros líquidos por mês na capital alemã. No prédio, vivem muitas famílias de imigrantes. Alguns dos apartamentos de dois quartos, sala e cozinha abrigam até dez pessoas.

Em Göttingen, a situação é semelhante. Cerca de 700 pessoas moram no prédio onde cerca de 120 casos foram registrados, e muitos dos moradores são imigrantes. O prédio foi isolado com grades, e as entradas e saídas foram bloqueadas para evitar que moradores furem a quarentena.

Tanto em Berlim quanto em Göttingen todos os moradores foram colocados em quarentena. Sobretudo em Göttingen, onde as portas foram bloqueadas, a medida fez muitos se perguntarem se atitudes semelhantes seriam tomadas em bairros residenciais onde vive a população mais abastada.

Os três surtos recentes expõem as desigualdades sociais presentes na Alemanha, que, apesar de não estarem tão escancaradas ou serem tão graves quanto no Brasil, também existem.

No caso do frigorífico, o surto trouxe à tona os altos custos sociais da carne de porco barata vendida na Alemanha, que só é possível de ser produzida com baixos salários e imigrantes que aceitem trabalhar e viver em condições precárias. Os surtos no setor impulsionaram novamente o debate sobre como proteger esses trabalhadores. Ainda não é possível saber se a situação atual impulsionará uma reflexão entre os alemães sobre o preço que pagam pelo bife no mercado e sobre como esses hábitos de consumo impactam a cadeia produtiva.

Já os prédios colocados em confinamento obrigatório em Berlim e Göttingen mostram a exclusão existente no setor imobiliário, onde muitos dividem espaços pequenos – por não terem condições de pagar aluguéis de apartamentos maiores ou por não serem aceitos como inquilinos em outros locais.

Na capital alemã, a questão da moradia foi um tema bastante abordado quando o governo traçou as estratégias de confinamento para conter a disseminação da covid-19. A principal questão era como manter uma quarentena relativamente “saudável” em apartamentos pequenos onde viviam grandes famílias com crianças. Por isso, a decisão aqui foi permitir que passeios e atividades ao ar livre em parques nesse período.

A exclusão no setor imobiliário e as condições de trabalho na indústria da carne são velhos conhecidos, mas a pandemia chamou atenção e deu uma nova dimensão para esses problemas. Resta agora saber se ela trará alguma mudança positiva em relação a eles.

Arquitetura – Konzerthaus Blaibach, Munique, Alemanha

No final do verão de 2014, o centro de concertos e cultura foi aberto na pequena cidade de Blaibach, na Floresta da Baviera.

A sala de concertos, que é na maior parte subterrânea, comporta 200 espectadores.

A sala de concertos foi projetada pelo arquiteto de Munique Peter Haimerl.

Concertos clássicos, eventos culturais e exposições acontecem no edifício incomum e minimalista.

“Ficou completamente claro para nós que queríamos construir o melhor salão do mundo aqui; arquitetonicamente, acusticamente”.

E é claro que também deve se encaixar no local. ”- Peter Haimerl sobre a sala de concertos em Blaibach.

Alemanha inicia primeiro teste de vacina contra coronavírus

Com mais de 2,5 milhões de pessoas agora infectadas em todo o mundo na pandemia de COVID-19, a Alemanha autorizou o primeiro ensaio clínico de uma vacina contra o coronavírus.

O ministro da Saúde da Alemanha, Jens Spahn, anunciou os primeiros ensaios clínicos de uma vacina contra o coronavírus. O Instituto Paul Ehrlich (PEI), a autoridade reguladora que ajuda a desenvolver e autoriza vacinas na Alemanha, aprovou o primeiro ensaio clínico do BNT162b1, uma vacina contra o vírus SARS-CoV-2.

Foi desenvolvido pelo pesquisador e imunologista do câncer Ugur Sahin e sua equipe na empresa farmacêutica BioNTech, e baseia-se em pesquisas anteriores em imunologia do câncer. Sahin ensinou anteriormente na Universidade de Mainz antes de se tornar CEO da BioNTech.

Leia mais: O coronavírus realmente se originou em um laboratório chinês?

Em uma teleconferência conjunta na quarta-feira com pesquisadores do Instituto Paul Ehrlich, Sahin disse que o BNT162b1 constitui a chamada vacina de RNA.

Ele explicou que a informação genética inócua do vírus SARS-CoV-2 é transferida para as células humanas com a ajuda de nanopartículas lipídicas, um sistema de entrega de genes não virais. As células transformam essas informações genéticas em uma proteína, que deve estimular a reação imunológica do corpo ao novo coronavrius.

Inúmeras vacinas em desenvolvimento

Além do BNT162b1, que está agora na fase de testes do estágio 1, a BioNTech – em conjunto com a Pfizer – está trabalhando em três outras vacinas de mRNA semelhantes. Enquanto isso, o chefe da PEI, Klaus Cichutek, disse que outras empresas farmacêuticas também estão desenvolvendo vacinas contra o SARS-CoV-2, com base em uma variedade de plataformas de vacinas na Europa, China e Estados Unidos.

Leia mais: Soluções de tecnologia de direção pandêmica na África Subsaariana

Os primeiros exames médicos do BNT162b1 envolverão 200 voluntários saudáveis entre as idades de 18 e 55 anos. O objetivo é determinar a resposta imune e se a vacina causa efeitos colaterais indesejados.

“Ensaios de candidatos a vacinas em humanos são um marco importante no caminho para vacinas seguras e eficazes novamente.

Personalidades alemãs pedem libertação de Assange

Ex-ministros, jornalistas e escritores argumentam que não há garantia de que o processo do australiano seja tratado de forma isenta pelas Justiças do Reino Unido e EUA. Relator da ONU vê “evidente perseguição política”.    

Manifestação de apoio a Julian Assange em LondresAssange está preso desde abril de 2019 na prisão de alta segurança de Belmarsh, em Londres

Mais de 130 políticos, jornalistas, escritores e artistas, a maioria da Alemanha, exigiram nesta quinta-feira (06/02) a libertação imediata do whistleblower Julian Assange, de 48 anos, que está preso no Reino Unido e pode ser extraditado para os Estados Unidos.

Os organizadores da ação argumentam que Assange deve ser libertado por razões humanitárias e porque não há garantias de que o caso transcorra em conformidade com os princípios do Estado de direito.

O jornalista investigativo Günter Wallraff, promotor da iniciativa, disse que não se trata apenas do destino do fundador do site WikiLeaks, mas da defesa da liberdade de imprensa e de opinião e, portanto, da democracia.

Walraff disse que, “se jornalistas e denunciantes precisam temer a perseguição, a prisão ou até mesmo por suas vidas ao revelarem crimes do Estado, então o quarto poder está mais do que em perigo”.

O ex-ministro alemão do Exterior Sigmar Gabriel declarou que, no caso específico de Assange, aparentemente não há garantia de um processo que respeite os princípios elementares do Estado de direito por causa de razões políticas, tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido.

Gabriel disse que Assange não está em condições de se preparar física e mentalmente para a sua defesa e nem mesmo tem acesso adequado a seus advogados.

Entre os signatários da declaração em favor de Assange estão dez ex-ministros da Alemanha e uma vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, a austríaca Elfride Jelinek.

Os signatários se baseiam em declarações do relator especial das Nações Unidas para a Tortura, Nils Melzer, que fez graves acusações contra autoridades do Reino Unido, da Suécia, dos Estados Unidos e do Equador.

Para ele, as acusações da Suécia contra Assange careciam de fundamento, e o caso do australiano está sendo usado para servir de exemplo e intimidar jornalistas.

Melzer disse que a acusação de estupro feita contra Assange na Suécia foi inventada. “Basta arranhar um pouquinho a superfície para que as contradições aparecem”, declarou à emissora alemã ZDF. Segundo ele, protocolos de interrogatórios foram falsificados, e Assange não teve a chance de se defender.

A Suécia arquivou o caso em novembro passado, e os promotores disseram que, por isso, não comentariam as declarações de Melzer.

O relator da ONU criticou que, no Reino Unido, depois de deixar a embaixada do Equador, Assange foi condenado às pressas. “É evidente que se trata de perseguição política”, declarou ele a um site suíço. “As penas previstas superam em muito as do tribunal para crimes de guerra de Haia”, comentou, em referência às acusações nos Estados Unidos.

Em entrevista à DW, Melzer acusou a Suécia, o Reino Unido, os Estados Unidos e o Equador de manipularem a Justiça. “Eu relutei muito antes de vir a público com uma declaração como essa porque pensei que ninguém vai acreditar em mim. Mas eu tenho as evidências.”

Assange está preso desde abril de 2019 na prisão de alta segurança de Belmarsh, em Londres. Os Estados Unidos pediram a sua extradição. Ele é acusado de ajudar a whistleblower Chelsea Manning – que então ainda se chamava Bradley Manning – a divulgar material secreto das missões americanas no Iraque e no Afeganistão.

Assange pode pegar até 175 anos de prisão se for condenado em todas as 18 acusações nos Estados Unidos. A audiência sobre a sua extradição ocorrerá em 24 de fevereiro.

AS/dpa/lusa

Noite dos Cristais,Direitos Humanos,História,Alemanha,Pogroms,Hitler,Judeus,Nazistas,Genocídio,Crimes contra a humanidade,Solução Final

Nazismo: “Noite dos Cristais” e o silêncio dos alemães

O pogrom contra os judeus da Alemanha nazista completa 80 anos. Sabendo que o episódio teve muitos espectadores passivos, o jornalista Felix Steiner se questiona, como muitos alemães: como minha família reagiu na época?Noite dos Cristais,Direitos Humanos,História,Alemanha,Pogroms,Hitler,Judeus,Nazistas,Genocídio,Crimes contra a humanidade,Solução Final

Judeus são forçados a carregar estrela de Davi no pogrom de 1938:na Alemanha
Pogroms de 1938: mandantes, agressores e espectadores

Meu pai era uma enciclopédia ambulante da história local e sabia tornar emocionantes as suas histórias. O que eu sei sobre a minha terra natal e as minhas origens aprendi com ele.

Ele também me contou várias vezes como vivenciou os pogroms, em nível nacional, de novembro de 1938. Na cidadezinha do sudoeste alemão em que eu cresci, a violência contra os judeus não começou na noite de 9 de novembro, mas no início da tarde do dia seguinte.

Na época, meu pai frequentava o primeiro ano primário, e no fim da aula o professor aconselhou as crianças a evitarem a sinagoga e as casas dos judeus, no caminho de casa. Melhor dar a volta nesses lugares, pois poderia ficar perigoso.

Naturalmente, como seria de se esperar de meninos de 6 ou 7 anos, meu pai e os amigos tomaram o aviso protetor como um convite para conferir o que poderia haver de tão perigoso, no meio do dia, num lugarzinho provinciano.

Eles se depararam com uma sinagoga em chamas, que o corpo de bombeiros não foi apagar, vitrines destroçadas e as lojas devastadas dos comerciantes judeus. E testemunharam como toda a mobília de uma família judaica foi jogada na rua, pela janela do primeiro andar.

O que aconteceu na cidadezinha com menos de 30 habitantes judeus está hoje perfeitamente documentado e registrado em livros. Mas o que eu gostaria de perguntar mais uma vez ao meu pai é como os meus avós reagiram ao relato do filho mais velho sobre o que acontecera ali, em plena luz do dia.

Será que tentaram explicar aquilo que, do ponto de vista atual, é inexplicável? Como comentaram o fato de que, a menos de 300 metros da nossa casa, mulheres e crianças tiveram a porta de entrada posta abaixo e todo o mobiliário feito em pedaços?

Os homens judeus, por sua vez, já haviam sido presos na madrugada do 10 de novembro e enviados num trem para o campo de concentração de Dachau.

Sendo honesto comigo mesmo, eu nem quero saber de nada disso. Nem preciso perguntar, porque, em princípio, já sei as respostas. Não, meus avós não eram nazistas convictos, disso eu tenho certeza. Mas eles olharam para o outro lado e se calaram, assim como milhões de outros alemães. É raro pais de quatro crianças pequenas se tornarem mártires.

E da existência do campo de Dachau e do que acontecia lá, eles sabiam desde que, em 1933, o prefeito e vários conselheiros municipais social-democratas foram presos, ao longo de semanas. Além disso, tratava-se de judeus: o que nós, católicos, tínhamos a ver com eles? Arriscar-nos por causa deles?

A exclusão e privação dos judeus de seus direitos não começou só em novembro de 1938. Já algumas semanas antes da tomada de poder por Adolf Hitler, pichava-se “Não comprem dos judeus” nas vitrines dos negociantes semitas; funcionários judeus foram demitidos; médicos, advogados e jornalistas foram proibidos de trabalhar. Além disso, vieram as leis raciais de Nurembergue, desapropriação e muitas outras coisas.

O 9 e 10 de novembro de 1938 foi a transição para o terror declarado, diante dos olhos de todo o povo. E também a minha família assistiu calada. Isso me aflige e envergonha. Mesmo 80 anos depois.
DW

Brecht – Versos na tarde – 11/06/2017

Então
Brecht¹

Ele se revela uma farsa. Tomo
A balança da sua justiça e mostro
Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
Que me encontro entre os despossuídos, quando
Tramam a revolta.
Eles me advertiram e me tomaram
O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
Eles foram me caçar, mas
Em minha casa
Encontraram apenas escritos que expunham
Suas tramas contra o povo. Então
Enviaram uma ordem de prisão
Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa.
Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos possuidores.
Mas os despossuídos
Lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por bom motivo.

¹Eugen Berthold Friedrich Brecht
* Augsburg, Alemanha – 10 de Fevereiro de 1898

+ Berlim, Alemanha – 14 de Agosto de 1956

Conheça a Biografia de Brecht

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O quanto de Hitler há em Wagner?

Ditador nazista era fã ardoroso da música do compositor e presença constante no Festival de Bayreuth, que inicia série de simpósios destinados à análise crítica da obra de Wagner.

default

Hitler entre Winifred e Wieland Wagner, na abertura do Festival de Bayreuth, em 24 de julho de 1938[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Na tela, um convidado simpático, gentil e elegante, trajando smoking e gravata borboleta, conversa de forma descontraída com a diretora do festival e com os netos de Wagner. De repente, um alerta interrompe a exibição: “Parem o filme! Desligue o celular! Gravações são estritamente proibidas!” Pouco depois, a exibição é retomada.

As gravações são proibidas durante a exibição dessa película histórica no Museu Richard Wagner, na Casa Wahnfried, em Bayreuth, porque uma possível difusão pela internet significaria uma infração aos direitos de imagem de uma das pessoas que aparecem nela: Verena Wagner, a última neta viva de Richard Wagner. O filme pertence ao espólio de um outro neto, Wolfgang Wagner, que o gravou quando tinha apenas 16 anos. A gravação foi exibida durante o simpósio Wagner no Nacional-Socialismo – sobre a questão do pecado original na arte.

O que se vê na tela são imagens do Festival de Bayreuth de 1936: a subida até o Teatro do Festival, no alto da colina; o diretor Heinz Tietjen; o ministro da Propaganda, Josef Goebbels; o dirigente Wilhelm Furtwängler; uma sorridente Winifred Wagner, a diretora do festival e mãe de Wolfgang. E, depois da apresentação, o Führer no palco, ao lado do coral e dos solistas, recebendo os aplausos da plateia. A saudação nazista é feita várias vezes. Quem assiste às imagens não consegue evitar o desconforto de ver Hitler ser apresentado como uma pessoa agradável e simpática.

Wagner no palco como antissemita

Já quem esperava que o simpósio sobre Wagner e o nazismo trouxesse revelações sensacionais saiu dele decepcionado. O tema também não é nenhuma novidade em Bayreuth, como lembra o diretor do festival, Sven Friedrich. Ao longo dos próximos anos, a temática deverá ser aprofundada, em seus vários aspectos, na série de simpósios “Discurso Bayreuth”, que integra a programação paralela do festival.

Richard und Cosima WagnerRichard e Cosima Wagner

Já nos anos 1980 e 1990 houve uma exposição e um simpósio com o nome Hitler e os judeus. Nas proximidades do busto de Richard Wagner, na Colina Verde, ainda pode ser vista a exposição Vozes caladas, de 2012, sobre os colaboradores judeus do Festival de Bayreuth e o que aconteceu com eles. E, desde a abertura do Museu Richard Wagner, em 2015, o local tematiza também a evolução das convicções ideológicas do compositor.

Mas o assunto está longe de ter se esgotado. Declarações como “mas Wagner não tem culpa disso” ou “vamos ignorar toda essa imundice que foi associada a Wagner” podem ser ouvidas ainda hoje. Friedrich lembrou a “dimensão metapolítica da obra de Wagner, que a tornou assimilável pelos nazistas”.

O simpósio começou com um debate intenso sobre a atual encenação de Os mestres cantores de Nurembergue, sob responsabilidade do dirigente australiano Barrie Kosky, que tem raízes judaicas. Ele apresentou Wagner no palco, pela primeira vez, como um antissemita e, com os seus cenários – por exemplo o salão dos Julgamentos de Nurembergue –, incluiu o histórico de encenações da obra na sua interpretação.

Para a autora alemã Irmela von der Lühe, a encenação de Kosky é a concretização de uma exigência que o escritor Thomas Mann fizera já em 1947. Ao palestrar sobre as relações entre Mann e Bayreuth, Von der Lühe lembrou que o Prêmio Nobel de Literatura de 1929, que então vivia no exílio californiano, rejeitou o convite para ser presidente de honra de uma planejada fundação para a reabilitação do desacreditado Festival de Bayreuth, ao menos “enquanto não estiver às claras tudo o que houver sobre o pecado original de Bayreuth”.

Encenação tematiza antissemitismo de Wagner

E em 2017 já está tudo às claras? O espólio de Wolfgang Wagner foi entregue ao arquivo histórico da Baviera em 2013 e levará anos para ser estudado. Outras fontes devem estar faltando, o que não se sabe exatamente. Mas uma encenação como esta de Kosky teria sido possível em 1951, na reabertura do Festival de Bayreuth? Em vez de uma enfrentamento crítico com o histórico da obra, o que se viu então foi uma encenação descompromissada e focada no aspecto mítico, a cargo de Wieland Wagner.

Trata-se de repressão do passado? Uma coisa é certa: havia muitos convidados do exterior na reinauguração, sobretudo da França, e entre eles muitos judeus que sobreviveram ao Holocausto e eram admiradores fervorosos de Wagner. O reinício do Festival de Bayreuth foi acompanhado com interesse em todo o mundo.

Uma questão de música ou ideias?

Em 1949, Thomas Mann escreveu, numa carta:  “Está lá – na fanfarrice, no eterno ficar dando discurso, na necessidade de falar mais alto que os outros, de querer dar palpite em tudo – uma inominada imodéstia que serviu de modelo a Hitler – com certeza, há muito ‘Hitler’ em Wagner.”

Ainda assim, Mann via Wagner mais como um cosmopolita europeu do que como um proto-nazista. E muito antes da catástrofe da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, esse crítico de primeira hora de Hitler escreveu: “A ideia de que esse velhaco idiota por lá desfrute de um romantismo heroico-açucarado é repulsiva para além de todas as medidas.”

Com frequência se constata que o espírito no qual Wagner escreveu suas obras é, desde o início, racial e antissemita. Esse aspecto foi abordado na palestra Hitler e sua Bayreuth à parte: Richard Wagner como analista do século 20, da escritora suíça Micha Brumlik. Segundo ela, no artista há “processos pré-conscientes e inconscientes que se incorporam em seu trabalho, e o que se manifesta é mais do que o autor pretendia.”

O uso que os nazistas fizeram de Wagner e a bajulação do Festival de Bayreuth em torno de Hitler costumam ser apresentados como mal-entendidos ou relativizados com o argumento do distanciamento histórico, afinal Wagner morreu em 1883.

Em 1923, porém, o genro de Wagner, Houston Stewart Chamberlain, e a nora do compositor, Winifred Wagner, saudaram Hitler como o novo Parsifal e o novo messias da Alemanha.

Já em 1925, o Festival de Bayreuth foi politizado com a presença de Hitler. O historiador e nacionalista Chamberlain era considerado um “precursor de Hitler” e justificava suas teses racistas com a superioridade da música alemã. Nesse sentido, ele argumentava que, como os alemães eram gigantes na música, também deveriam ser gigantes na política.

Foi o discurso inflamado de Wagner ou a sua aversão a judeus que inspiraram Hitler? O simpósio tocou apenas de leve nessa questão central. Sabe-se que Wagner tornou o antissemitismo socialmente palatável nos círculos burgueses com seu panfleto O judaísmo e a música.

Mas ele também elogiou os judeus, chamando-os de “os mais nobres entre nós”. O que Cosima Wagner, que sobreviveu ao marido em quase meio século e que agrupava nacionalistas germanófilos em torno de si, assimilou diretamente de Richard Wagner? O quanto ela selecionou entre as inúmeras declarações contraditórias do compositor? Esse seria um tema para um próximo simpósio.

Futebol – Alemanha – 7×0 não foi ao acaso

Opinião: Alemanha não produz jogadores de “time B”Alemanha vence Copa das Confederações na Rússia sem a maioria de seus principais jogadores

Alemanha vence Copa das Confederações na Rússia sem a maioria de seus principais jogadores

Conquista da Copa das Confederações e do Europeu sub-21 são resultados de anos de trabalho fora dos gramados, inexistente em várias potências do futebol mundial, opina Ross Dunbar.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O futebol alemão vive um momento de glória após vencer dois torneios internacionais em 48 horas. Essas vitórias, porém, já vinham sendo trabalhadas há muito tempo.

A Copa das Confederações foi erguida em São Petersburgo neste domingo, após a vitória de 1 a 0 sobre o Chile, enquanto na sexta-feira, a equipe alemã sub-21, cheia de estrelas, venceu o Europeu da categoria, derrotando a excelente Espanha pelo mesmo placar.

Ross Dunbar, da redação de esportes da DWE ainda poderá vir mais. O sub-19 começa nesta segunda-feira a disputa pelo Campeonato Europeu, enquanto a seleção feminina iniciará no final do mês a busca pelo sétimo título europeu seguido. A Alemanha também enviou uma equipe forte para a Copa do Mundo sub-20, que acabou sendo vencida pela Inglaterra.

A impressão é que, apesar das impressionantes seleções de todas as partes do mundo, os campeões mundiais vinham treinando uma equipe reserva no mais alto nível.

Manuel Neuer, Mats Hummels, Jérôme Boateng, Leroy Sané, Mesut Özil, Toni Kroos, Thomas Müller e outros receberam uma merecida folga neste verão europeu, enquanto o técnico Joachim Löw promovia mudanças para o torneio na Rússia.

A maioria destes jogadores estava no centro da campanha vitoriosa na Copa do Mundo de 2014 e é inquestionável que a maior parte deles ainda será protagonista em 2018, na cabeça de Löw. Mas, seria tolo afirmar que eles são os únicos jogadores alemães de padrão internacional.

Löw não precisou vasculhar as profundezas do futebol alemão para encontrar um time para a Copa das Confederações. Os 11 titulares que jogaram a final tinham média de idade de 24 anos, ou seja, longe de serem adolescentes.

Os 11 da seleção alemã vitoriosa somam 193 aparições em partidas de seleção, totalizando entre eles mais de 2 mil jogos em times de ponta em algumas das principais ligas da Europa.

Jonas Hector e Joshua Kimmich têm sido as primeiras escolhas de Löw para as laterais desde a Eurocopa de 2016. Julian Draxler, vencedor da Bola de Ouro como o melhor jogador do torneio na Rússia, possui experiência de alto nível em um punhado de clubes diferentes.

O vencedor da Chuteira de Ouro do torneio, Timo Werner, marcou 21 gols na última temporada da Bundesliga, o campeonato alemão, pelo RB Leipzig, que estará na próxima Liga dos Campeões da Europa após terminar a competição em segundo lugar.

Leon Goretzka e Lars Stindl tiveram temporadas excepcionais na Bundesliga. O goleiro Marc-André ter Stegen defende o Barcelona, enquanto Sebastian Rudy e Niklas Süle, que ajudaram o Hoffenheim a chegar em quarto lugar na Bundesliga, jogarão pelo Bayern de Munique na próxima temporada. Nenhum destes jogadores chega a ser um novato, nem mesmo algo próximo disso.

Mas, nada disso pode ser definido como apenas sorte. A Federação Alemã de Futebol (DFB) merece aplausos por investir nas categorias de base. O programa de desenvolvimento dos jovens jogadores alemães foi transformado e relançado em 2013 com a visão estratégica de aumentar os padrões profissionais e trazer uniformidade a todas as federações regionais da Alemanha.

As academias de futebol devem seguir padrões rigorosos estabelecidos pela DFB e consultores externos. Na temporada 2015-16, os clubes alemães investiram mais de 150 milhões de euros em seus departamentos para o desenvolvimento de jovens atletas.

Para a nação mais robusta da Europa, com uma população de 81 milhões de habitantes, dar impulso a um bom número de profissionais bem treinados e de grande talento não chega a ser um feito extraordinário. A atual fartura de jogadores de alto nível é uma recompensa do planejamento racional em longo prazo, inexistente em várias das outras principais potências do futebol mundial.

Considerar a equipe vencedora da Copa das Confederações como um time “B” seria um desrespeito com tudo o que os alemães conquistaram na última década.

A Alemanha não produz jogadores “B”, mas sim, vencedores. Essa tendência já está estabelecida e continuará ainda pelos próximos anos.
DW