Aila Sampaio – Versos

Mentira
Aíla Sampaio ¹

 
O desespero do mar
a quebrar nas pedras
é não poder tocar o céu
e viver essa ilusão
que os nossos olhos criaram
num ponto distante
 
Igual é o meu motivo
de ser triste:
ser lua e saber-te sol
viver da tua luz
sem poder ver que é
em mim que ela inside
 
De nada adianta eu pensar
que és minha fonte de vida
se o que eu sonhava – o eclipse –
é mentira, tal
o encontro do céu com o mar
na distraída linha do horizonte.
 
¹ Aíla Sampaio
* Cariri, Ce.
Poetisa e Mestra em Literatura
Professora da Universidade de Fortaleza
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Aíla Sampaio – Versos na tarde – 03/07/2016

De outro tempo
Aíla Sampaio¹

Há em mim uma casa desabitada
perdida no abandono dos ventos
que sopram sem direção

há portas que batem silenciosas
atrás de um adeus sem data,
lágrimas nas paredes retintas
e trancas enferrujadas nos portais

há hera entranhada nas vigas,
nos muros e em minha alma,
fechando porteiras,
lacrando janelas
misturando-se ao musgo
que no jardim cresceu

Há em mim um silêncio quase sagrado
e a memória de um tempo que não é o meu.

¹Aíla Sampaio
* Fortaleza, Ce.
Mestra em Literatura.
Professora do Curso de Letras da Unifor


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Aila Sampaio – Versos na tarde – 17/12/2015

Ah destino!
Aíla Sampaio¹

Enquanto te debulhas em marcar
o meu próximo passo,
um pássaro me oferta suas asas
e o sol arrefece seus raios
para me ver alçar vôo.

E quando penso que enfim driblei
a tua fúria, tu, agasalhado na
imponderável sina, não respeitas
o meu desejo de rasgar as distâncias.
Ris da minha pretensão de querer
arrebentar as amarras
e astuciosamente planejas a minha queda.

E tão bruscamente me fazes enxergar
que era de crepom o pássaro e inconsistentes
as asas, que esqueço de te condenar
e me censuro por sonhar tão alto.

¹Aíla Sampaio
* Fortaleza, Ce.
Mestra em Literatura.
Professora do Curso de Letras da Unifor


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Aíla Sampaio – Reflexões na tarde – 12/06/2014

Namorar…
Aíla Sampaio

12 de junho, dia dos namorados. A gente sabe que é mais uma data para movimentar o comércio, alimentar o consumo, mas nem se rebela, por que é tão sublime a causa… namorar é bom demais. É colocar o pé no acelerador da vida. Olhar nos olhos e ter vontade de atravessar o mundo de mãos dadas, a pé, a pão e água. Dormir ao relento e não adoecer com o sereno. Abrir o mar com o pensamento, andar sobre as águas, pairar nas nuvens com a leveza dos deuses. Namorar é atravessar esquinas perigosas sem medo, é sobreviver ao perigo das epidemias, estar acima do bem e do mal.

Essa visão romântica do namoro é a forma mais sutil de dizer que todas as catástrofes têm menor impacto quando estamos amando e sendo amados. Quando incontestavelmente admitimos que o outro não é perfeito e, nem por isso, seu beijo perde o sabor; quando não o enxergamos como um deus todo-poderoso – incorruptível pelas limitações humanas – mas apenas como um ser vulnerável, capaz de errar. Aceitamos suas manias, seus ranços, porque o amor ensina a respeitar sem autoflagelação. Aceitamos suas falhas e notamos que as nossas também são aceitas, conversadas sem dor. Sabe-se que a pessoa nem tem a beleza do Brad ou da Jolie, mas é muito mais poderosa que eles, porque nos arrebata com um simples olhar. Namorar é injetar sangue novo nas veias, ingerir um complexo vitamínico sem problema de superdosagem, recarregar as baterias gastas, reciclar as turbinas maltratadas em tantos pousos forçados.

Namorar é partilhar emoções, gostos, cheiros; olhar o horizonte perdido na linha entre o céu e o mar, e crer que se pode chegar lá. Namorar é dividir pra somar, multiplicando-se. É segurar a mão pra atravessar a rua ou para ajudar a suportar uma derrota. É olhar nos olhos e ver o mundo num caleidoscópio mágico que gira sem parar e nunca perde as cores, nunca apaga a luz. É abraçar apertado com vontade de não soltar mais, mas soltar sempre, respeitar as distâncias, os silêncios, dar liberdade sem cobranças e ficar seguro. Só vale a pena namorar quem nos considera, nos dá tranquilidade e uma paz infinita; quem não representa, não age como se a vida fosse um jogo e você só uma peça dele.

Às vezes nem é preciso o toque físico, namoramos uma fotografia, uma imagem guardada na memória, o flash de um momento mágico em que captamos a alma de alguém. Alguém que preenche as nossas lembranças, que nos acompanha nos pensamentos… basta tocar ‘aquela’ música, sentir ‘aquele’ cheiro… basta simplesmente acordar o desejo de estar perto, e tudo em volta cria ‘aquele’ rosto amado que nunca se mistura à multidão. Somos capazes de identificá-lo em qualquer tribo, em qualquer lugar, em qualquer tempo, entre milhares, milhões. E namoramos de olhos fechados, por conta das artimanhas da imaginação que funde real e fantasia.

Mas o amor não é fantasia, não a que se usa quando se quer, pra representar o teatro da vida. O amor é a pele que veste nossa alma, é o sangue que escorre em nossas veias. Ninguém ama pela metade ou só de vez em quando. Quem ama sabe do poder das tempestades, dos cataclismas, dos avassaladores riscos de sofrer, mas ama, namora o amor e o dono desse amor. Pode até desistir do amado… nunca do sentimento que tem por ele. Namora a incerteza e a desilusão, mas lava-as com as lágrimas e namora a esperança, essa velhinha de cabelos brancos e óculos, que nos motiva a sonhar mesmo quando os pesadelos se anunciam.

Aíla Sampaio
* Fortaleza, Ce.
Mestra em Literatura.
Professora do Curso de Letras da Unifor


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Aíla Sampaio – Versos na tarde – 13/05/2014

Desisto de ti
Aíla Sampaio ¹

Desisto de ti, da tua impossibilidade
da esperança de contemplarmos a lua
sem olhar o relógio.
Desisto do que achei que eras e do que és
– inconstante amor da maturidade –
verdade mentirosa do meu coração.
Desisto de não poder estar contigo
dos beijos que não me deste, da nossa canção,
desisto do amanhã que não me prometeste
dos poemas de amor que escrevi escondido…
Desisto do sol que não brilhará nas manhãs
em que te procurarei entre os meus conhecidos
e só verei um estranho a quem não devo amar.
Desisto da inútil espera, esse castigo,
de mergulhar nos teus olhos de mar
e neles me afogar de tanto desejo
Desisto das nossas guerras, dos tratados de paz
da vontade de que nossas mãos envelhecessem juntas…
Dos adiamentos, dos teus medos, das tuas fugas
dos teus segredos e das perguntas que a vida nos faz
Desisto de vez de sentir saudade
Da tua imagem que aos poucos se desfaz
em ilusões e dores que sei de cor.
Só não desisto do meu amor
Porque não posso, não sou capaz…
Ele é maior que eu… é meu bem maior!

¹Aíla Sampaio
* Fortaleza, Ce.
Mestra em Literatura.
Professora do Curso de Letras da Unifor


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Aíla Sampaio – Versos na tarde – 03/04/2014

Intervalo
Aíla Sampaio ¹

Entre o que foste e o que és
há meu olhar mudando de horizonte
como pontes que se movem
para outros acessos, para outro mar.

Há silêncios intempestivos
como os dos ventos dos desertos
como os do amor incerto
entre o que foste e o que serás.

¹ Aíla Sampaio
* Fortaleza, Ce.
Mestra em Literatura.
Professora do Curso de Letras da Unifor
http://literaila.blogspot.com/


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Aíla Sampaio – Versos na tarde – 07/03/2014

Novos mares
Aíla Sampaio ¹

É preciso que a verdade pouse suas garras
sobre as incertezas
para que a vã espera se desfaça.
É preciso que o vento leve mar adentro
a tristeza do engano
para que não morra antes do tempo
a beleza da vida que a dor desgasta

É preciso que eu leia no teu silêncio
uma despedida
para que em mim sobreviva o desejo
de mergulhar noutros olhares;
para que eu reencontre meu norte
e, mesmo com a bússola perdida,
consiga navegar, refeita, novos mares.

¹ Aíla Sampaio
* Fortaleza, Ce.
Mestra em Literatura.
Professora do Curso de Letras da Unifor

blog De Olhos Entreabertos


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Aíla Sampaio – Versos na tarde – 25/09/2017

Um dia, meu bem
Aíla Sampaio ¹

Um dia, meu bem,
terei poderes para fazer tudo o que quero:
construirei um jardim aonde possamos sentar
e eu te contarei as histórias
que Sherazade se esqueceu de narrar.

Tu serás um rei e habitarás o meu castelo.
Passearemos, todos os dias, para colher flores
e, quando quiseres entrar para a ceia,
estenderei tapetes vermelhos por onde fores pisar.

Nada farei por nenhum outro
que à minha janela bata por meus amores.
Só para ti abrirei as portas do meu corpo
só tua mão, como súdita, beijarei.
Noites adentro desfiarei meu rosário
e cobrirei teu leito de rosas,
velarei teu sono como uma cigarra noturna
que canta para afastar os males e as dores.

Roubarei as cores do arco-íris para fazer tuas vestes,
lavarei teus pés quando chegares cansado
Farei preces para que nunca mais me digas adeus
e fiques, para sempre ao meu lado.

Um dia, tu serás meu e eu farei de ti um Deus!

¹ Aíla Sampaio
* CE. – 1965
Poetisa e Mestra em Literatura
Professora da Unifor – Universidade de Fortaleza, Ceará
->Blog


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Aíla Sampaio – Versos na tarde

Mentira
Aíla Sampaio ¹

O desespero do mar
a quebrar nas pedras
é não poder tocar o céu
e viver essa ilusão
que os nossos olhos criaram
num ponto distante

Igual é o meu motivo
de ser triste:
ser lua e saber-te sol
viver da tua luz
sem poder ver que é
em mim que ela inside

De nada adianta eu pensar
que és minha fonte de vida
se o que eu sonhava – o eclipse –
é mentira, tal
o encontro do céu com o mar
na distraída linha do horizonte.

¹ Aíla Sampaio
Poetisa e Mestra em Literatura
Professora da Unifor – Universidade de Fortaleza, Ceará
Blog ->> http://literaila.blogspot.com/2009/05/intervalo.html


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Aíla Sampaio – Versos na tarde

Regresso a ti
Aíla Sampaio ¹ 

Regresso a ti
como se nunca tivesse partido.
É o mesmo cais ancorado em minha memória
que piso outra vez;
é a mesma aurora
que desponta no horizonte perdido
onde outrora buscaste meus olhos.

Tanto tempo urdindo a teia das ausências
e eu não esqueci uma senha sequer
de acesso ao teu corpo e à tua alma.

¹ Aíla Sampaio
* Fortaleza, CE.
Poetisa e Mestra em Literatura
Professora da Unifor – Universidade de Fortaleza, Ceará
Blog De olhos entreabertos ->> http://literaila.blogspot.com/2011/07/toa.html


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