A morte dos polinizadores: Desinformação desafia o controle do uso de agrotóxicos

Frente à expansão do agronegócio, nas últimas duas décadas, e à proximidade cada vez maior entre as plantações de soja e as comunidades rurais e urbanas, o controle do uso de agrotóxicos na Região Metropolitana de Santarém enfrenta dois grandes desafios.Meio Ambiente,Agricultura,Alimentos,Agrotóxico,Abelhas,Saúde,Ecologia,Blog do Mesquita

A subnotificação de casos de intoxicação por contato com essas substâncias químicas e a desinformação que tende a ampliar os riscos socioambientais causados tanto pela manipulação como pela aplicação inadequadas de produtos tóxicos nas lavouras de Belterra, Mojuí dos Campos e Santarém, municípios integrantes dessa região do oeste paraense.

O panorama é sintetizado por Gracivane Moura, liderança que tem buscado respostas para esses dilemas enfrentados pelas populações mais vulneráveis em três frentes de atuação na região. Como presidente do Conselho Municipal de Saúde de Santarém, secretária de Políticas Sociais do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém, além de secretária do Fórum Regional de Combate ao Uso de Agrotóxicos do Baixo Amazonas. Esse é um movimento de articulação social, criado em 2017, que reúne pesquisadores e representações da sociedade civil com interesse no debate e na busca de soluções para o problema.

As ações são voltadas à orientação dos profissionais de saúde sobre como identificar possíveis interfaces entre sintomas relatados e a exposição dos pacientes às substâncias químicas usadas nos plantios, cada vez mais próximos às moradias das famílias que buscam atendimento médico. “Temos trabalhado nisso. Já estamos na terceira campanha de combate ao uso de agrotóxicos na região e desde a primeira temos trazido os agentes comunitários de saúde para atividades no Fórum”, afirma.

Ela reconhece que algumas queixas como vômito, tontura, dores de cabeça, entre outras, tendem a serem registradas, recorrentemente, como “virose”, seja por desinformação de alguns profissionais de saúde, ou por medo de retaliações à notificação compulsória de intoxicação por agrotóxicos. Desde 2011, as denominadas intoxicações exógenas (envolvem substâncias químicas como agrotóxicos, gases tóxicos e metais pesados) devem ser notificadas, conforme determinado pela Portaria Nº 104 do Ministério da Saúde.

Mas o medo de retaliações ganhou mais força diante de um episódio ocorrido na região, há pouco mais de um ano, quando uma técnica de enfermagem que realizou algumas notificações de intoxicação por agrotóxicos foi exonerada. Por medida de segurança, o nome da profissional de saúde e outros detalhes sobre esse caso não foram divulgados. No entanto, foi esclarecido que o Fórum vai buscar uma forma de reverter a exoneração por meio de ação junto ao Ministério Público.

Quanto à falta de informação sobre os riscos associados ao uso inadequado de agrotóxicos nas áreas rurais, a gravidade da situação é exemplificada pelos casos de agricultores que aplicam esses produtos químicos nas próprias pernas. Dessa forma, consideram que não serão picados por formigas durante o trabalho na lavoura. “Temos trazido essa discussão para o Fórum e também conseguido reverter alguns casos com campanhas educativas”, adianta a líder sindical.

Descalço e confiante na proteção divina

De pés descalços, vestido com roupas rasgadas e sem qualquer proteção, sob um sol a pino, o agricultor Antônio Carlos Alexandre do Nascimento, 51 anos, aplica na sua roça, os jatos de agrotóxico lançados de um equipamento de pulverização carregado nas costas. Essa demonstração evidente de risco associado à falta de informação e à vulnerabilidade social foi flagrada às margens da BR-163, no sentido Belterra-Santarém.
Antônio Carlos Alexandre do Nascimento, 51 anos, aplica na sua roça, os jatos de agrotóxico lançados de um equipamento de pulverização carregado nas costas (Elizabeth Oliveira)

Com jeito desconfiado, evitando entrar em muitos detalhes sobre a sua rotina, Nascimento relata, resumidamente, que tem trabalhado como agricultor, desde os 17 anos, sem nunca ter recebido nenhum tipo de instrução sobre como lidar com agrotóxicos. Não por acaso, as dosagens são determinadas pela sua própria intuição. Entre ramas de abóbora, para onde lança os jatos de veneno, ele afirma que se sente protegido por Deus. Por isso, não teme problemas de saúde decorrentes do contato com esses produtos químicos que sempre “ajudam a afastar uns bichinhos” dos alimentos cultivados, segundo ele, para consumo da própria família.

O biólogo, Ruy Bessa, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) relata que, nas suas aulas, costuma apresentar exemplos históricos de como nos campos de algodão, do sul dos Estados Unidos, a aplicação de agrotóxicos ocorria sem nenhum tipo de segurança, nas décadas de 1930 e 1940. Pela experiência acumulada na área de ecotoxicologia, ele afirma que, o que acontecia naquele país, no início do século passado, “continua acontecendo de forma muito corriqueira, não somente na Amazônia, mas no Brasil, em geral.”

Na opinião do professor, alguns fatores contribuem para essa realidade, dentre os quais, “muita permissividade no consumo de agrotóxico no país”. Uma ilustração dessa problemática tem envolvido, inclusive, a Portaria 43/2020 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que trata de “autorização automática” para registro de novos agrotóxicos, entre outros produtos, caso o pedido não seja analisado pela Secretaria de Defesa Agropecuária em até 60 dias. Entretanto, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou, no dia 16 de junho, a decisão do ministro Ricardo Lewandowski, pela suspensão de trechos da portaria que tratam dessa aprovação tácita, antes da sua entrada em vigor, em abril. Mas, a decisão teve caráter liminar e o mérito da ação ainda será julgado.

Outro problema mencionado pelo professor envolve uma relativa facilidade de aquisição de agrotóxicos no Brasil. Há uma legislação específica, determinando que a compra de um produto dessa natureza somente seja permitida mediante receituário de profissional habilitado (agrônomo e engenheiro florestal). Mas Bessa ressalta que, nas lojas de artigos de agropecuária, não é difícil adquirir essas substâncias, muitas vezes manipuladas e aplicadas sem critérios técnicos e sem proteção individual como nesse caso do agricultor de Belterra.

Além de ampliação da disseminação de informações para os agricultores e de ações de fiscalização de aquisição e uso, o especialista defende estudos em novas tecnologias de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), fundamentais para quem atua com a manipulação de agrotóxicos. Da mesma forma, alerta para a importância de capacitação e mobilização dos agricultores paraenses para que consigam ampliar as práticas de produção agroecológica.

Exposição humana ao uso prolongado preocupa especialistasAlimentos,Ambiente & Ecologia,Brasil,Agrotóxicos,Agricultura,Saúde

Diante de inúmeras formas de exposição ao uso prolongado de agrotóxicos, sobretudo envolvendo aplicação em larga escala, profissionais de saúde estão interessados na investigação do histórico de casos de câncer na Região Metropolitana de Santarém. Na comunidade de Boa Esperança, em Santarém, por exemplo, 12 pacientes em tratamento da doença vêm sendo diretamente acompanhados, desde 2016, por integrantes do Fórum.

Mas devido à intensificação desse debate, os integrantes do Fórum e de suas organizações parceiras têm sido cada vez mais cobrados pelos sindicatos dos produtores rurais da região. As entidades ligadas, principalmente, à cadeia da soja têm demandado a apresentação de resultados concretos de contaminação do ambiente e de impactos na saúde pública provocados por agrotóxicos utilizados nas suas atividades.

Como especialista que tem buscado intensificar investigações científicas sobre essa problemática na Região Metropolitana de Santarém, o biólogo Carlos Passos, professor da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que algumas pesquisas com esse enfoque estão em curso, embora os seus resultados não sejam alcançados de forma imediatista. São análises de mais longo prazo que, inclusive, precisam ser ampliadas em seus processos metodológicos para orientar decisões futuras.

Comprovar a contaminação por agrotóxicos desafia cientistas e juristas

Relatos de problemas provocados pela expansão agrícola na Região Metropolitana de Santarém, dentre os quais, o uso de agrotóxicos nos plantios de soja, têm sido frequentemente ouvidos pelo biólogo Ruy Bessa. Embora indícios sobre os impactos socioambientais já tenham sido levantados por alguns estudos realizados e, outros em andamento, comprovar a relação de causa e efeito dessa atividade para fins de responsabilização e adoção de novos protocolos de controle não é tarefa fácil. Parte da solução depende de monitoramento sistemático do teor de resíduos de agrotóxicos. Mas instalar um laboratório para esse fim “é um sonho” que, segundo estima, custaria pelo menos R$ 10 milhões.

Apesar do alto custo relacionado à instalação de um laboratório analítico de resíduos, “esse sonho” compartilhado pelo professor e outros atores sociais da região atenderia às demandas tanto dos órgãos de controle, que carecem de elementos comprobatórios, como da população exposta. Embora não haja nenhum acordo, no sentido de financiamento desse tipo de laboratório, Bessa considera fundamental que a iniciativa seja concretizada, futuramente, uma vez que seria benéfica para toda a sociedade.

Ele explica que a comprovação dos efeitos causados pela exposição a determinadas substâncias tóxicas é um processo que envolve grande complexidade, sendo comum, inclusive, a falta de respostas para a detecção da presença de resíduos em alguns organismos. Um exemplo nesse sentido se relaciona às análises a partir da coleta de sangue. Nesse caso, é difícil determinar se exposição a algum contaminante é recente ou se ocorreu no passado.Glifosato,Ambiente,AgroTóxicos,Meio Ambiente,Natureza,Poluição,Ecologia,Agricultura,Alimentos,Vida Selvagem,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Brasil

Por outro lado, os cabelos, as unhas, a saliva e a urina são matrizes biológicas importantes para a medição de contaminação do organismo por substâncias tóxicas. Entretanto, quando se realiza a verificação por uma dessas vias, é possível detectar o composto, ou não, ou mesmo, identificá-lo em baixas concentrações. Não por acaso, os custos desse tipo de investigação são altos e o monitoramento do problema precisa ser realizado mais ampla e continuamente, conforme recomenda o biólogo.

Diante das inúmeras dificuldades envolvidas com as análises de organismos vivos, incluindo o uso de métodos invasivos como a coleta de sangue, Bessa menciona que a água representa uma das matrizes mais fáceis de serem analisadas em processos de investigação sobre a presença de contaminantes.

Dos estudos pontuais ao ganho de escala, eis o dilema

Atento às demandas da sociedade sobre a necessidade de investigação mais ampla sobre os impactos decorrentes do uso de agrotóxicos nos plantios de soja da Região Metropolitana de Santarém, o professor Carlos Passos destaca a importância de realização de pesquisas com metodologias mais arrojadas.

Passos esclarece que, as pesquisas já realizadas, na região, não são, ainda, suficientemente avançadas, elaboradas e aprofundadas. “São pesquisas-piloto, projetos iniciais, embora essenciais para se compreender as necessidades de estudos, de fato, elaborados com metodologias mais arrojadas”, opina. Ele acrescenta que esse tipo de avanço é fundamental para que se possa analisar, mais amplamente, o grau de distribuição e de ocorrência de contaminantes no ambiente, além dos seus potenciais riscos à saúde humana.

A articulação de projetos em rede, segundo Passos, representa uma das principais demandas para o enfrentamento da realidade ainda marcada por estudos pontuais sobre essa problemática. “Até para que seja possível compreender melhor, comparativamente, como as situações vão se diferenciando, de uma região para outra, esse tipo de articulação é fundamental”, analisa. Na opinião do especialista, essa forma de atuação contribuiria para avanços no planejamento de estratégias de intervenção, visando à redução de riscos socioambientais decorrentes da expansão agrícola na Região Metropolitana de Santarém.

Pesquisas já indicaram a contaminação em leite materno

Mesmo diante de algumas limitações metodológicas referentes às pesquisas sobre os impactos do uso de agrotóxicos na Região Metropolitana de Santarém, incluindo suas escalas temporais e espaciais, além de seus altos custos, experiências já realizadas por universidades públicas sinalizam para alguns riscos que preocupam os pesquisadores.

Na dissertação de mestrado Avaliação da presença de pesticidas organoclorados em leite materno e bovino dos municípios de Mojuí dos Campos e Belterra, defendida em 2018 e coorientada por Ruy Bessa, foram identificadas cinco localidades rurais desses municípios, onde 15 amostras coletadas apresentaram resíduos dos organoclorados DDT e DDE (seu metabólito primário).Agrotóxico,meio Ambiente,Poluição,Insetos,Blog do Mesquita

O DDT é um pesticida proibido no país há mais de 30 anos. Seu nome consta na listagem da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) referente aos princípios ativos de uso não autorizado no Brasil. Entretanto, na pesquisa realizada na UFOPA, as amostras positivas (26% com resíduos de DDT e 46% com resíduos de DDE) estavam acima dos valores estabelecidos como seguros para a saúde humana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Plantação de soja em Belterra (Gabriel Siqueira)

O uso intensivo de DDT para o combate aos vetores de algumas doenças tropicais como a malária, medida que perdurou até a década de 1990, é cogitado como um dos possíveis fatores da contaminação identificada nos municípios paraenses. O solo também pode ter sido afetado pela utilização do DDT, na agricultura, até a década de 1980. Mas outras hipóteses são também mencionadas por Bessa. “A dieta das populações rurais da Amazônia, fortemente concentrada no pescado, neste cenário, capturado próximo às áreas agrícolas, pode indicar provável contaminação dos ambientes aquáticos.” Por fim, ele alerta para outro agravante: “Não se pode descartar a entrada sem registro de produtos comerciais à base de DDT, ainda largamente usados em países da Pan-Amazônia.”

A situação tem paralelo com o que se apurou em pesquisa realizada em Lucas do Rio Verde, cidade do Mato Grosso considerada um dos principais polos do agronegócio brasileiro, onde foi detectada a presença de agrotóxicos no leite materno. Naquele caso, 100% das 62 amostras analisadas apresentaram resíduos de dez substâncias presentes em agrotóxicos. A situação ganhou repercussão a partir da dissertação de mestrado intitulada Agrotóxicos em leite humano de mães residentes em Lucas do Rio Verde – MT, defendida em 2011, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sob a orientação do professor Wanderlei Pignati, referência brasileira no tema.

A pesquisa mencionada foi um dos principais desdobramentos científicos destinados à investigação de impactos decorrentes de pulverizações aéreas com agrotóxicos, realizadas em março de 2006, em Lucas do Rio Verde, por fazendeiros que estavam dessecando a soja para a colheita. Naquela época, uma nuvem tóxica foi levada pelo vento para área urbana tendo dessecado plantas e provocado surtos de intoxicações na população. A UFMT e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizaram um monitoramento no município, entre 2007 a 2014, para avaliar os impactos dessa dispersão no ambiente e na saúde humana.

As investigações de Pignati e da Fiocruz embasaram o documentário Nuvens de veneno e o professor da UFMT, juntamente com outros dois pesquisadores, relataram, em 2007, no artigo Acidente rural ampliado: o caso das “chuvas” de agrotóxicos sobre a cidade de Lucas do Rio Verde – MT esse caso emblemático em contaminação por agrotóxico no Brasil. Paralelamente, um amplo movimento da sociedade civil ganhou força, exigindo soluções e ampliação das ações de fiscalização.

O uso do glifosato também preocupa pesquisadores

Presente em várias formulações, o glifosato é líder de mercado mundialmente. No Brasil, onde lidera as vendas, são comercializados 110 produtos contendo glifosato, conforme destaca a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Nas lavouras de soja, costuma ser aplicado para combater as ervas invasoras e dessecar a oleaginosa. O professor Ruy Bessa acrescenta que há estudos adiantados, na comunidade europeia, para o seu banimento na agricultura. No entanto, em processo de reavaliação, oficializado em agosto de 2019, o governo brasileiro reduziu os níveis de toxidade, ao ser humano, de 93 produtos contendo essa substância, conforme apurado em reportagens exclusivas divulgadas pela Agência Pública de jornalismo investigativo e a ONG Repórter Brasil.

Seguindo em uma direção totalmente oposta ao entendimento do governo brasileiro, mais de 200 organizações da América Latina e do Caribe elaboraram um documento entre abril e maio deste ano, intitulado Abelhas e Agrotóxicos no qual solicitam à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) medidas urgentes para proteger as abelhas dos impactos causados pelo agronegócio.

No prólogo do documento, o agrônomo Rubens Onofre Nodari, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirma que artigos mencionados nessa publicação sugerem que os herbicidas à base de glifosato causam alteração de comportamento, redução do aprendizado olfativo e diminuição das populações de abelhas, além de aumentarem a suscetibilidade desses polinizadores a doenças, entre outros efeitos negativos.

Em função dos riscos sinalizados, o movimento formado por ambientalistas, cientistas (incluindo a física e ativista indiana Vandana Shiva) e outras representações da sociedade recomendou no documento que os Estados membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) reconheçam as abelhas como Patrimônio Nacional. Nessa demanda se ressaltou o papel que desempenham como polinizadores das principais culturas agrícolas, sendo essenciais à segurança alimentar, entre outras funções ecológicas.

Diante dessas preocupações globais e nacionais e tendo em vista que nem todos os aspectos que preocupam os pesquisadores brasileiros foram mapeados em escalas ampliadas, especificamente na Região Metropolitana de Santarém, Bessa alerta sobre a necessidade de desdobramento das pesquisas com glifosato e outras substâncias tendo esse enfoque espacial. Nesse sentido, destaca a importância dos estudos liderados pelo biólogo e professor Carlos Passos, da UnB, que tem se dedicado às investigações sobre as águas, uma matriz que considera essencial a ser analisada em relação ao risco de contaminação por agrotóxicos.

Na dissertação de mestrado Expansão da fronteira agrícola e presença de Glifosato e Ampa em amostras de água da Região de Santarém (PA): desafios analíticos para o monitoramento ambiental, orientada pelo professor Carlos Passos, foram realizadas 63 amostras de águas, retiradas de córregos localizados em comunidades rurais adjacentes a grandes plantios de soja, dos municípios de Mojuí dos Campos e Santarém. Embora as investigações não tenham confirmado a contaminação nessas amostras, foram aplicados mais de 20 questionários para agricultores “que indicam um provável risco de exposição humana a agrotóxicos, principalmente pela via respiratória”, conforme expresso no trabalho final. Como parte das conclusões dessa pesquisa é defendida a ampliação de ações de monitoramento para tomadas de decisão que visem à proteção da natureza e da saúde humana.

Ministério Público demanda pesquisas para tomada de decisão

A realização de pesquisas científicas representa uma demanda crucial para os processos de tomada de decisão do Ministério Público do Estado do Pará que já está investigando queixas da população de Belterra e região sobre impactos socioambientais decorrentes do uso de agrotóxicos. Parte das reclamações envolve o extermínio de abelhas e outros polinizadores, o que tem causado a inviabilidade da produção de mel por pequenos produtores. Esse é o caso de João Batista Ferreira, conhecido como João do Mel, que depois de mais de 20 anos dedicados a um próspero negócio de meliponicultura (cultivo de abelhas nativas sem ferrão) teve o seu empreendimento desfeito. As manifestações têm sido apresentadas a partir de debates promovidos pelo Fórum Regional de Combate ao Uso de Agrotóxicos do Baixo Amazonas.

Ione Nakamura, promotora de Justiça com atuação no Ministério Público do Estado do Pará, informa que o processo investigatório, em curso, envolve coleta, tratamento e discussão de informações trazidas pelo Fórum para que seja possível avaliar qual a melhor forma de encaminhamento dessas demandas, se judicial ou extrajudicialmente.

A promotora que vem participando de diálogos com pesquisadores e outros integrantes do Fórum esclarece que, por meio desse espaço de debate e articulação, os especialistas têm buscado a construção de uma nota técnica a respeito de todas as metodologias de análises ambientais e humanas para se avaliar impactos dos agrotóxicos no ambiente e na saúde humana. Com base na literatura e nas evidências científicas, a ideia é apresentar orientações a partir da realidade da Região Metropolitana de Santarém.

“Essas evidências também vão nos ajudar nos trabalhos de acompanhamento de comunidades que têm tido a produção de frutas reduzida e a gente sabe que essa produção tem as abelhas como polinizadores. Nessa cadeia de troca de informações, o Fórum pretende ir construindo uma base de análises e monitoramento dos impactos dos agrotóxicos nessa região” adianta a promotora.Agrotóxico,Alimentos,blog do Mesquita

Ela percebe que há um processo gradativo de sensibilização da sociedade e de união de esforços para o levantamento de informações e acompanhamento dessa temática. “Talvez a gente só vá realmente perceber a importância disso daqui a algumas gerações. Mas a gente quer que não seja tarde demais e que se consiga fazer alguma coisa hoje”, analisa. A promotora acrescenta que as ações dos envolvidos nessa missão são inspiradas no Princípio da Precaução, utilizado pelo direito ambiental internacional em situações de incertezas sobre os impactos de determinadas atividades ou substâncias, na tentativa de se evitar possíveis efeitos na saúde humana e no ambiente,

“Vamos tentar usar a precaução, quando não se tem certeza dos impactos, além da prevenção, quando já sabe que uma determinada atividade causa impactos para buscar reduzi-los a partir de políticas públicas e outras alternativas”, adianta. Nesse contexto, a promotora considera importante até mesmo discutir ajustes na condução de políticas públicas, caso isso seja necessário, para se garantir a prevalência da vida e do direito das populações que podem vir a ser atingidas por atividades impactantes ao ambiente e à saúde humana.

O professor Bessa informou que todos os trabalhos acadêmicos que orienta ou coorienta serão depositados no Ministério Público. “Esse arsenal tem que existir para que apoie as petições, os documentos que são oriundos do judiciário para convocação, intimação, ou qualquer coisa desse tipo”, conclui.

Abelhas existem onde o agronegócio não alcançou

O tripé da crise já identificada na região é formado por fatores como a contaminação ambiental, o agravamento de problemas de saúde pública e o acirramento de conflitos agrários. Tudo isso já se reflete na dificuldade de manutenção do cultivo de abelhas sem ferrão por agricultores familiares e, consequentemente, na inviabilidade da produção e do comércio de mel.

Nas 297 comunidades de origem dos 8 mil trabalhadores rurais filiados ao Sindicato de Santarém, quase ninguém mais cultiva abelhas para a produção de mel. Mas a atividade ainda existe na Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, que abrange partes dos municípios de Aveiro e Santarém, “onde o agronegócio ainda não alcançou”, afirma a líder sindical Gracivane Moura. Seus argumentos reforçam a importância de manutenção da floresta de pé e da valorização dos conhecimentos das comunidades tradicionais para assegurar o futuro da meliponicultura e de todos os ganhos socioambientais e econômicos decorrentes dessa prática.

A Resex Tapajós-Arapiuns é uma das áreas onde a ONG Saúde & Alegria vem atuando, nos últimos três anos, em projetos de estímulo ao empreendedorismo comunitário, dentre os quais, o manejo de abelhas. Para que seja possível avançar no fortalecimento da produção de mel, estão sendo impulsionadas ações de capacitação e reflorestamento com espécies de árvores como cumaru, ingá e outras de preferência de abelhas nativas.Ambiente,AgroTóxicos,Meio Ambiente,Natureza,Poluição,Ecologia,Agricultura,Alimentos,Vida Selvagem,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Brasil

Com apoio de diversas organizações parceiras, outras comunidades incluídas nessas ações estão distribuídas ao longo da Área de Proteção Ambiental (APA) Alter do Chão, da Floresta Nacional (Flona) do Tapajós e no Assentamento PAE Lago Grande. Um levantamento já realizado indicou que essa mobilização contribuiu para a produção de 1,6 mil litros de mel, a partir de 1,7 mil colmeias, entre o início de 2018 e maio de 2019.

Alexandre Godinho, técnico agropecuário e morador da comunidade Anã, na Resex Tapajós-Arapiuns, tem atuado diretamente nas ações de capacitação dos meliponicultores das comunidades contempladas com as ações de empreendedorismo. Além do desenvolvimento de um plano de negócios para que o produto final seja reconhecido no mercado, outra demanda percebida no diálogo com os produtores envolve a criação de uma cooperativa. Ele conta que a presença dessas áreas protegidas faz grande diferença na vida dessas comunidades, em contraste com a realidade de tradicionais produtores de mel da região. “Tenho amigos de Belterra que perderam em um ano tudo o que construíram em 20 anos”, lamenta.

Caetano Scannavino, coordenador da ONG Saúde & Alegria, destaca que a produção de mel nessas comunidades representa uma alternativa das mais promissoras e surgiu do desejo manifestado pelos próprios comunitários. Essa foi uma das cadeias produtivas identificadas, nos últimos quatro anos, quando foram traçadas estratégias de atuação para reflorestamento, além de mapeamento de vocações socioeconômicas regionais compatíveis com a manutenção da floresta e dos modos de vida das suas populações tradicionais.

O ambientalista conta que, além da possibilidade de comercialização de mel, própolis e de outros derivados, esse é um tipo de produção que também contribui para o fortalecimento da segurança alimentar. “A rede de manejadores que apoiamos já está pensando em venda de colmeias e aumento da produtividade”, comemora.

Scannavino acrescenta que a proposta da organização e de seus apoiadores é de atuar fortemente com o reflorestamento do complexo da Flona do Tapajós e da Resex Tapajós-Arapiuns, com 30 mil mudas de árvores nativas. O movimento pretende alcançar também os arredores de Belterra envolvendo grupos para ações de capacitação. Com entusiasmo, o ambientalista afirma que o Brasil pode ser líder em projetos socioambientais. Mel, azeite de castanha e óleos de andiroba e copaíba são alguns dos produtos com grande potencial de produção em bases mais sustentáveis que menciona como exemplos do que pode ser incentivado na chamada bioeconomia da Amazônia. Nesse contexto, ele considera fundamental o compromisso de desmatamento zero pelo agronegócio.
Colmeia de mel produzida na Resex (Gabriel Siqueira)

“Resgatar o valor da floresta é fundamental”, defende educadora

Diante da exuberância das sementes de andiroba recolhidas do chão, a bióloga e professora Laura Chagas explica que parte da riqueza da Amazônia está atrelada ao acúmulo de matéria orgânica depositada no seu solo. Apontando para o emaranhado de folhas, galhos, cascas, frutos e sementes, tudo ainda bem molhado pelas fortes chuvas amazônicas, ela observa que esses e outros elementos naturais, quando decompostos, se transformam em nutrientes fundamentais. Assim são alimentadas inúmeras formas de vida presentes em ambientes únicos como aquele fragmento verde, ainda existente nos arredores da Vila Americana de Belterra, onde mora. É desse processo que se retroalimenta, continuamente, a dinâmica da floresta de pé, cujo valor intrínseco precisa ser resgatado, na opinião da educadora.
Andiroba é um dos produtos com grande potencial de produção em bases mais sustentáveis (Elizabeth Oliveira)

Ela alerta que a sociedade depende dessa interação ecológica que vem sofrendo, cada vez mais, interferências de atividades econômicas insustentáveis. E enquadra nessa categoria as monoculturas que alteram ciclos naturais com consequências preocupantes para o equilíbrio climático, além da proteção das reservas de água e das espécies, dentre as quais, as abelhas e outros polinizadores. Além de indicadores da qualidade do ar, esses são elementos vitais à produção de tradicionais alimentos amazônicos. “Como vamos ficar sem castanha-do-pará, açaí, buriti e cupuaçu? Eles dependem das abelhas. Sem elas, como será?”, questiona.

Do passado marcado pela devastação da floresta para a construção de infraestrutura urbana, na tentativa de implantação de um polo de borracha natural que fracassou, na década de 1940, à expansão da produção da soja, cultura estabelecida, também, pela ampliação do desmatamento, a professora confessa não enxergar avanços atuais em Belterra e arredores. Pelo contrário, considera preocupante o cenário para essa região. Sua percepção de riscos é resumida com a seguinte analogia: “Plantar soja na Amazônia é como jogar bola em uma casa de vidro.”

Com base em uma imagem do Google Earth, a professora afirma que Belterra “é uma cidade sitiada pelos plantios de soja”. E identifica na foto os locais onde funcionam prédios públicos como escola, hospital e posto de saúde, além de quadras de propriedades de meliponicultores, todos cercados por plantações da oleaginosa.

Sobre cenários de riscos existentes, a professora destaca que a floresta também tem as suas fragilidades, além de interconexões entre espécies que estão sendo desestruturadas gradativamente. Nesse contexto, exemplifica que o fipronil, agrotóxico muito usado pelos produtores de soja da região, mata as abelhas. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com uma empresa privada, concluiu que o fipronil pode ter causado a morte de 480 milhões de abelhas, entre 2018 e 2019, naquele estado da região sul.

Na escola de ensino médio de Belterra, onde atua, Laura tem ouvido relatos frequentes de pais em estado de depressão, diante de perdas contínuas de suas fontes de renda e alimentação. Além disso, tem tomado conhecimento de famílias que precisam se ausentar de suas casas, por até uma semana, por não suportarem mais o efeito dos agrotóxicos pulverizados nos arredores. Algumas acabam vendendo seus imóveis como forma de escapar dessa pressão. “Quem pagará por esses prejuízos?”, questiona.

E diante dos impactos associados à alteração da dinâmica de reprodução das abelhas, dentre as quais, as mangangás ou mangangavas, ela conta que já existem famílias produtoras de frutas da região pagando por serviços de polinização manual. “Nunca pensei que algo assim fosse acontecer na Amazônia”, lamenta. E lança o desafio: “Polinizar manualmente culturas como a do maracujá pode ser mais fácil. Mas como será com árvores altas como a castanheira?”.

Como bióloga atenta a essas dinâmicas, Laura alerta, ainda, que já se tem notícias na região de competição entre abelhas para a retirada do pólen, processo que tende a se agravar diante de perda de habitat e outros impactos ambientais impulsionados, principalmente, pela expansão das monoculturas. A flora comprometida, consequentemente, vai dificultar a sobrevivência e os processos de reprodução da fauna. “Vai faltar alimento para pacas, cotias, araras e tantos outros animais da floresta. É a morte anunciada em efeito cascata”, adverte.

E diante da falta de ação do poder público para resolver a situação relatada, a professora considera que uma das saídas possíveis envolve o fortalecimento da capacidade de articulação social por meio do Fórum Regional de Combate ao Uso de Agrotóxicos do Baixo Amazonas, movimento do qual participa. “Se o Brasil não abrir os olhos terá um futuro de muita tristeza”, conclui.Blog do Mesquita,Saúde,Brasil,Alimentos,Agrotóxico,Paulo Guedes,Economia

O alerta da educadora encontra ressonância nos versos finais do Lamento do João do Mel, divididos entre a revolta, o questionamento, um fio de esperança e, ao mesmo tempo, o senso crítico diante da falta de respostas da sociedade que realmente contemplem o bem comum. “Os rios poluídos, veneno ingerido, macabros presentes desse vil metal. Eles matam por tão pouco. Na guerra das terras para onde irão? Mas os ciclos, os ciclos da vida sobreviverão (que somos nós). Oh, pátria amada, idolatrada, salve-se quem puder.”

Até o fechamento desta edição não houve retorno às solicitações de entrevistas encaminhadas por intermédio de assessores do prefeito de Belterra, Jociclélio Castro Macedo, e da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina .

Mara Régia é publicitária e jornalista, baseada em Brasília, que há 40 anos dialoga com comunidades da Amazônia por meio de reportagens radiofônicas e oficinas sobre gênero, ambiente e sociedade. Elizabeth Oliveira é jornalista e pesquisadora, baseada no Rio de Janeiro. Há 25 anos atua na cobertura de temas socioambientais. Esta reportagem foi produzida com apoio do Rainforest Journalism Fund em parceria com o Pulitzer Center. A viagem foi realizada antes das medidas de isolamento social devido à pandemia da Covid-19.

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Por que o futuro do agronegócio depende da preservação do meio ambiente no Brasil

Se hoje a bancada ruralista é a principal força pressionando o Congresso para flexibilizar a proteção ambiental, é consenso entre agrônomos e pesquisadores que o futuro do agronegócio depende da preservação ambiental.

PAULO WHITAKER/REUTERS

Agrônomos, biólogos e entidades como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) alertam que a destruição da vegetação nativa e as mudanças climáticas têm grande potencial para prejudicar diretamente o agronegócio no Brasil, porque afetam diversos fatores ambientais de grande influência sobre a atividade agrícola.

O principal deles é o regime de distribuição das chuvas, essenciais para nossa produção – apenas 10% das lavouras brasileiras são irrigadas. Com o desmatamento e o aumento das temperaturas, serão afetados umidade, qualidade do solo, polinizadores, pragas.

Eles dizem as notícias sobre o setor ambiental no Brasil não são animadoras: se o ritmo de desmatamento na Amazônia continuar como está, atingiremos em pouco tempo um nível de devastação sem volta. Junho foi o mês com mais desmatamento na Amazônia, 920,4 km², desde o início do monitoramento com sistema de alerta pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em 2015. Foi um aumento de 88% em relação ao mesmo mês no ano passado.

Ao mesmo tempo, as pressões e cobranças internacionais chamam atenção para a agenda ambiental do governo Bolsonaro, que tem flexibilizado a legislação ambiental e diminuído a fiscalização.

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A Floresta Amazônica é questão central no debate ecológico internacional

Crise iminente

Atualmente, o agronegócio é responsável por 21,6% do PIB brasileiro, segundo o Ministério da Agricultura.

Preocupados com questões como logística, estrutura e desafios comerciais como o vaivém das commodities no mercado internacional, a questão da sustentabilidade acaba não sendo prioridade para o setor como um todo.

“A questão da sustentabilidade, no sentido amplo, é uma preocupação. Mas em primeiro lugar vêm a estrutura e a logística e as questões comerciais”, afirma o agrônomo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura (2003-2006) e coordenador da área de agro da Fundação Getúlio Vargas.

No entanto, os riscos gerados pela devastação ambiental na agricultura são uma ameaça muito mais iminente do que se imagina, segundo o pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa.

Alguns estudos, como um feito por pesquisadores das Universidades Federais de Minas Gerais e Viçosa, projetam perdas de produtividade causadas por desmatamento e mudanças climáticas para os próximos 30 anos. Outros não trabalham com tempo, mas com nível de devastação, como o estudo Efeitos do Desmatamento Tropical no Clima e na Agricultura, das cientistas americanas Deborah Lawrence e Karen Vandecar, que afirma que quando o desmatamento na Amazônia atingir 40% do território (atualmente ele está em 20%), a redução das chuvas será sentida a mais de 3,2 mil km de distância, na bacia do Rio da Prata.Direito de imagem GETTY IMAGES

O agronegócio corresponde a mais de 20% do PIB brasileiro

Para Assad, que também é professor da FGV Agro e membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, os efeitos da destruição do ambiente e das mudanças climáticas já começam a ser sentidos.

Ele cita, por exemplo, o relatório da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) que mostra a perda de mais de 16 milhões de toneladas na safra de soja deste ano devido a seca que atingiu as principais regiões produtoras desde dezembro. “Já há evidências de que as mudanças climáticas aumentaram o número de eventos extremos, como secas e ondas e calor”, afirma Assad.

Há duas ameaças principais, segundo Lawrence e Vandecar. A primeira é o aquecimento global, que acontece em escala global e que é intensificado pelo desmatamento. A outra são os riscos adicionais criados pela devastação das florestas, que geram impactos imediatos na quantidade de chuva e temperatura, tanto em nível local quanto continental.

Deficiência hídrica e temperatura

A maior parte da produção agrícola brasileira depende das chuvas – só 5% da produção total e 10% da produção de grãos são irrigados. Isso significa que mudanças na precipitação afetam diretamente nossa produção.

O regime de chuvas é afetado por uma série de fatores – desde a topografia até as correntes marítimas. Um fator importante é a dinâmica de evaporação e transpiração terrestres, ou seja, a umidade produzida pela respiração das árvores e plantas, explica o agrônomo da USP Gerd Sparovek, professor da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo.

Esse fenômeno, chamado de evapotranspiração, é especialmente alto em florestas tropicais como a amazônica – elas são o ecossistema terrestre que mais movimenta água, transformando a água do solo em umidade no ar e diminuindo a temperatura da atmosfera sobre elas.

“Ao cortar a vegetação natural que, durante o ano inteiro joga água na atmosfera, umas das principais consequências é a formação de menos nuvens no período seco”, explica Assad, da Embrapa. “Um estudo que acabamos de finalizar mostra um aumento significativo de deficiência hídrica do Nordeste ao Centro-Oeste”, diz.Direito de imagem GETTY IMAGES

A destruição da vegetação nativa e as mudanças climáticas vão prejudicar diretamente o agronegócio no Brasil.

Isso afeta as chuvas potencialmente até no Sudeste, já que há correntes de ar que normalmente empurram essas nuvens para sul.

A destruição da vegetação nativa afeta até a duração das temporadas de chuvas e estiagem, segundo o estudo de Lawrence e Vandecar, que faz uma revisão da literatura científica e foi publicado em 2014 na revista Nature.

O corte da vegetação nativa também altera a temperatura e clima local, e potencialmente também o de regiões mais distantes, explica Sparovek, da Esalq. “As alterações, nesse caso, são sempre desfavoráveis.”

E isso vale não só para a Amazônia: a remoção do Cerrado, onde hoje se encontra a principal expansão da fronteira produtiva, também eleva a temperatura local.

Esse problema é reforçado pelo aquecimento global, que torna o clima mais instável e aumenta a frequência de extremos, como ondas de calor e estiagens e chuvas em excesso. E o desmatamento só intensifica esse processo.Direito de imagem GETTY IMAGES

Risco para o agronegócio é maior quando altas temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição das chuvas

O risco para o agronegócio é especialmente grande quando altas temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição das chuvas – isso diminui a produtividade das lavouras e pode comprometer safras inteiras, diz o biólogo.

Um efeito adicional do comprometimento da disponibilidade de água tem a ver com a produção de energia elétrica, que também é importante para o agronegócio, aponta Sparovek. Um clima mais seco ou maiores períodos de estiagem podem comprometer a vazão dos rios e dos reservatórios, afetando diretamente a produção de energia, já que nossa matriz energética é em sua maioria dependente de hidroelétricas.

Perda de área produtiva

A retirada total das florestas também gera outros problemas relativos aos recursos hídricos além da chuva, explica o biólogo Jean Paul Metzger, professor da USP e doutor em ecologia de paisagem.

A retirada da vegetação nativa retira a proteção do solo, que não é reposta mesmo se a área virar uma plantação, já que as raízes das plantas cultivadas são muito superficiais. O solo cultivado também tem pouca permeabilidade.

Isso dificulta a infiltração da água no solo, o que gera dois problemas. Um é a falta de reposição da água nos lençóis freáticos. A outra, é um processo de erosão e poluição dos rios.

“A chuva vai escoando superficialmente e levando o solo junto, há uma perda da camada mais fértil, vai tudo para o rio” diz Metzger. “E a partir de um certo momento você não tem como reverter, há uma perda de área produtiva via erosão.”

Reserva Legal

A melhor forma de evitar esse processo é manter a vegetação nativa – inclusive nas propriedades rurais, onde a cobertura florestal pode fazer uma filtragem das enxurradas antes de chegarem ao rio. Metzer aponta que as propriedades produtivas devem ter cerca de 30% de cobertura florestal, na média, para que o ciclo hidrólógico e os chamados serviços ambientais funcionem normalmente.

Serviços ambientais são benefícios trazidos ao cultivo pelo ecossistema, como, por exemplo, a polinização e o controle natural de pragas.Direito de imagem LARISSA RODRIGUES

O processo de respiração e transpiração das árvores afeta diretamente o regime de chuvas.

“Paisagens onde há produção agrícola em desequilíbrio com o ambiente são poucos favoráveis à produção. Os inimigos naturais das pragas e doenças de plantas desaparecem, e a produção passa a depender cada vez mais de agrotóxicos”, diz Sparovek, da Esalq.

Daí, dizem os pesquisadores, vem a importância da manutenção das reservas legais – áreas de mata nativa dentro de propriedades rurais cujo desmatamento é proibido por lei. O índice de proteção exigido é de 80% na Amazônia, de 35% no Cerrado e de 20% nos outros biomas.

O assunto esteve em pauta nos últimos meses, graças a um projeto do senador carioca Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, que quer acabar com as reservas legais, citando o “direito à propriedade”. Pela Constituição, no entanto, nenhum direito à propriedade é absoluto no Brasil – a construção em propriedades urbanas, por exemplo, fica restrita às leis de zoneamento municipais.

Agrotóxicos

O uso indiscriminado de agrotóxicos também é um problema ambiental que acaba se voltando contra o próprio agronegócio.

Ele afeta principalmente os cultivos que dependem da polinização, já que os animais polinizadores – abelhas, besouros, borboletas, vespas e até aves e morcegos – são fortemente afetados por alguns tipos de inseticidas e até por herbicidas usados contra pragas em lavouras, sofrendo desde morte por envenenamento a desorientação durante o voo.

Das 191 culturas agrícolas de produção de alimentos no país, 114 (60%) dependem de polinizadores, segundo o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Em resultado de safra, cerca de 25% da produção nacional é dependente de polinização, segundo Assad, da Embrapa.

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Desmatamento e agrotóxicos prejudicam culturas que dependem de polinização

Além disso, o uso excessivo de agrotóxicos em espécies resistentes se torna um problema para produtores vizinhos de cultivos que não tem a mesma resistência. Produtores de uva do Rio Grande do Sul têm registrado milhões de reais de prejuízo por causa do herbicida 2,4-D, usado em plantações de soja. Ao se espalhar para as propriedades produtoras de uva, ele chegou a reduzir a colheita de uva em até 70%, segundo produtores do Estado.

O Instituto Brasileiro do Vinho chegou a defender a proibição do uso do agrotóxico na região. O noroeste gaúcho é campeão nacional no uso de agrotóxicos, segundo um mapa do Laboratório de Geografia Agrária da USP com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Questão da Produtividade

Até hoje, olhando a série histórica, a produtividade do agronegócio no Brasil só aumentou. A produção do milho, por exemplo, subiu de 3,6 ton/ha em 2009 para 5,6 ton/ha em 2019 (previsão), de acordo com dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

“O aumento da produção muitas vezes é usado como argumento pra dizer que não está acontecendo nada (em termos de efeitos da mudança climática). Mas a produtividade aumenta porque antes era muito baixa, porque estamos implementando as diversas tecnologias existentes”, afirma Assad, que também é membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. “O teto de produtividade do milho, por exemplo, é de 10 toneladas por hectare considerando a tecnologia existente.”

Isso não quer dizer, diz ele, que os efeitos da devastação não terão um impacto na produtividade.

Segundo cálculos no modelo feito por cientistas das Universidade Federais de Minas Gerais e Viçosa, em 30 anos as perdas na produção de soja podem ir de 25% a 60%, dependendo da região, graças ao desmatamento da Amazônia.

Até a pecuária pode ser afetada, com a produtividade do pasto caindo de 28% a 33% e alguns lugares deixando de ser viáveis para a atividade.

Expansão?

Mas por que ainda há resistência em aceitar a visão de que a devastação do meio ambiente prejudica o agronegócio?

Segundo Sparovek, da Esalq, narrativas que defendem a necessidade de expandir a fronteira agrícola não têm embasamento científico. Ele afirma que “quando se analisa a necessidade de expansão do agronegócio brasileiro prevista pelo próprio setor até 2050, não se vê necessidade alguma de desmatar e expandir a fronteira agrícola.”

“Temos áreas abertas o suficiente para produzir a demanda projetada e ainda restaurar a vegetação em uma quantidade enorme de terras”, diz o agrônomo.Direito de imagem GETTY IMAGES

Agrotóxicos afetam polinizadores e podem prejudicar lavouras vizinhas que não são resistentes a eles

Só na Amazônia, há 17 milhões de hectares cortados, desmatados e abandonados, segundo Assad, da Embrapa.

Além das terras abertas existentes, há uma enorme possibilidade de incremento da produtividade através de implementação tecnológica, afirma o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.

Assad, da Embrapa, afirma que soluções boas para a produção e para o ambiente – como técnicas de agricultura de baixa emissão de carbono e boas práticas de manejo de solo e água – têm se tornado cada vez mais acessíveis, e que uma maior organização de cooperativas agrícolas é necessária para aumentar o acesso dos pequenos produtores a tecnologias e avanços.

Sparovek afirma que a expansão da fronteira, especialmente na Amazônia, não interessa diretamente, não ajuda a produzir – especialmente com o avanço tecnológico que exige um terreno mais plano pelo tamanho e velocidade das máquinas. “Isso é uma agenda muito mais ligada à valorização imobiliária das terras e à grilagem. Quem se beneficia disso é o especulador do mercado de terras, lícito ou criminoso.”

Segundo Rodrigues, o Brasil é um país gigantesco que não tem “uma agricultura ou um agricultor”, mas diversos grupos com interesses diferentes. A existência de agricultores que não têm preocupação nenhuma com sustentabilidade ou com o longo prazo é “um pouco uma questão de educação, cultura e formação técnica adequada.”

“Temos 4,4 milhões de produtores que seguiram o Código Florestal e fizeram o Cadastro Ambiental Rural (mecanismos de regulação das práticas agrícolas)”, diz Assad. “É 1 milhão de agricultores que fazem essa confusão toda. É só um povo que produz como na idade média (que tem interesse no desmatamento).”

Só dói quando eu rio,Blog do Mesquita

Brasil da série “Só dói quando eu rio”

Só dói quando eu rio,Blog do Mesquita

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Água: Insumo econômico e direito humano

Quando a colônia brasileira começou a ser ocupada, no século 16, e europeus passaram a fundar vilas, pequenas fontes de água bastavam para abastecer uns poucos cidadãos e animais. Permanecer junto aos grandes rios não era parte dos planos dos fundadores das primeiras cidades. O Colégio dos Jesuítas, pedra fundamental de São Paulo, por exemplo, foi edificado em um outeiro, lugar apropriado para a defesa contra possíveis ataques de índios, mas com pouca água. Mas, dessa vila nasceu a metrópole de quase 20 milhões de habitantes que demandam cerca de 80 litros por pessoa/dia de água tratada para suas necessidades domésticas. Volume impossível de ser obtido nos mananciais próximos, que, pelos critérios estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) têm capacidade sete vezes menor que a necessária para a população que atendem. É preciso ir buscar á água cada vez mais longe e tratar cada vez mais os recursos poluídos, para torná-los próprios ao consumo.

Os anos de 2014 e 2015 demonstraram, de maneira empírica, que as fontes disponíveis nas imediações das maiores metrópoles brasileiras não são suficientes para o abastecimento da forma como é feito atualmente: de maneira displicente, com perdas acima de 30% dos volumes tratados antes de chegar aos consumidores e com pouca ou nenhuma informação sobre as condições dos mananciais e a necessidade de uso mais racional do consumo.

Um levantamento da Agência Nacional de Água (ANA) aponta que o problema do abastecimento é generalizado pelo País. Dos 5.565 municípios brasileiros, mais da metade terá problemas de abastecimento nesta década. E, para tentar adiar a crise ao menos até 2030, será preciso desembolsar R$ 22 bilhões em obras de infraestrutura, construção de sistemas de distribuição, novas estações de tratamento e manutenção de redes superadas, com vazamentos generalizados. E nesse total não estão incluídos os recursos necessários para resolver o problema do saneamento básico, como a construção de sistemas de coleta de esgoto e estações de tratamento, de forma a proteger os mananciais onde se faz a captação para consumo humano. Para isso, segundo a ANA, serão necessários outros R$ 47,8 bilhões.

Os investimentos são urgentes também porque 13% dos brasileiros não têm um banheiro em casa, ou porque mais de 700 mil pessoas procuram os serviços de saúde a cada ano em virtude de doenças provocadas pelo contato com água contaminada por esgotos, ou ainda porque sete crianças morrem a cada dia vítimas de diarreia, entram nas estatísticas de mortes por problemas gastrointestinais ?? em 2009, elas somaram 2.101 casos. Acredita-se que mais da metade poderia ter retornado com saúde para suas famílias, ou mesmo nem adoecido, caso o Brasil estivesse entre as nações que oferecem saneamento básico universal à população.

Para tornar a situação ainda mais dramática, um pesquisador da Universidade do México, Christopher Eppig, descobriu que crianças que enfrentam doenças, principalmente ligadas à diarreia e desidratação, podem ser afetadas em seu desenvolvimento intelectual. Segundo ele, a explicação para essa situação é simples. Alguns parasitas alimentam-se de partes do corpo humano e a reposição desse dano tem alto custo energético. “Em um recém-nascido, 87% das calorias absorvidas na alimentação vão para o cérebro, porcentagem que cai para 23% na fase adulta. Daí a preocupação em se saber se doenças que “roubam” energia das crianças podem afetar seu desenvolvimento intelectual.”

Dificuldades de gestão

Especialistas apontam que a questão da água, ao menos no caso brasileiro, está mais ligada a problemas relacionados à gestão que à escassez propriamente dita. Com 12% da água doce superficial do planeta, grande parte dela na Bacia Amazônica, o País deveria estar tranquilo em relação ao futuro do abastecimento. Mas a distribuição da água pelo território nacional é desigual, principalmente quando comparada à concentração da população. A região Norte tem 68% da água e apenas 7% da população. Nordeste e Sudeste, em oposição, concentram 72% dos habitantes e dispõem de menos de 10% da água. José Galizia Tundisi, autor do livro Água no Século XXI e especialista nas dinâmicas de rios, lagos e outros mananciais (ver artigo na pág. 12), acredita que uma das primeiras providências a serem tomadas para melhorar a gestão dos recursos hídricos é “realizar a avaliação econômica dos serviços prestados pelos recursos dos ecossistemas aquáticos”. Para ele, instituir um valor para esses serviços é a base de uma governança adequada, essencial para o controle do clima, do abastecimento e da produção de energia e de alimentos, entre outras atividades humanas.

Outro tema que emergiu como um ferimento exposto no cenário de escassez foi a necessidade de maior proteção aos mananciais, rios e nascentes que garantem a água para os grandes sistemas de abastecimento das metrópoles, como é o caso do sistema Cantareira em São Paulo e do Paraíba do Sul que atende o Rio de Janeiro. Os rios e nascentes que abastecem esses mananciais sofrem com o desmatamento de suas margens e a ocupação desordenada, tanto por habitações, principalmente ocupações ilegais e favelas, como por uma perigosa proximidade de lavouras e pecuária. Essas condições levam à contaminação por esgotos, no caso das favelas, ou a poluição por agentes químicos utilizados nas lavouras e, ainda, o assoreamento provocado pela atividade pecuária.

A água não é, evidentemente, apenas uma necessidade social, conforto de apenas abrir a torneira e dispor de água de boa qualidade em suas casas. É, também, um insumo econômico de necessidade básica. Muitas empresas compreenderam o risco que correm com a escassez e se adiantaram na gestão dos usos de água em seus processos produtivos. A indústria de celulose, por exemplo, reduziu em quase 50% suas demandas de água por tonelada de produto desde a década de 70. Segundo a associação do setor, a média era de 100 m³ de água por tonelada de celulose e caiu para 47 m³ atualmente. Outros setores seguiram a mesma linha: não apenas ao reduzir o volume de água por unidade de produto, mas, ao implantar sistemas de tratamento de águas industriais que permitem fechar o ciclo entre o uso e o reuso ?? como da alemã Basf em suas unidades do ABC Paulista e Guaratinguetá. Nos últimos dez anos, a empresa reduziu em 78% o consumo de água por tonelada produzida e em 62% a geração de efluentes de processos industriais. São exemplos que poderiam ser difundidos por diferentes setores, pois a água é um insumo fundamental à agricultura e à indústria. Sua gestão não tem relação apenas com o bem-estar da população, mas, também, com a saúde da economia.

Recurso natural indispensável

Tudo o que é produzido no País tem uma cota de água embutida. Os especialistas denominam essa situação de “água virtual”. Para produzir 1 kg de arroz, por exemplo, são necessários três mil litros de água, e 1 kg de carne bovina exige 15,5 mil litros. Uma simples xícara de café não gasta menos de 140 litros de água. Não é que essa água desapareça depois de servido o cafezinho. Mas, para que os produtos cheguem às mesas de consumo, é preciso que a água esteja não apenas disponível, mas limpa, isenta de contaminações por esgotos ou produtos químicos. E mais. Para um automóvel chegar à garagem, o consumo de recursos hídricos chega a 150 mil litros. Ou seja, a economia precisa, e muito, de água de boa qualidade. Isso sem mencionar o fato de que 18% das faltas de trabalhadores ao serviço poderiam ser evitadas com uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos no fornecimento à população e tratamento de esgotos.

O estudo produzido pela ANA é um passo importante para o debate sobre como o estresse hídrico dos mananciais afeta o abastecimento das principais regiões metropolitanas e deteriora a situação em outros municípios brasileiros. É necessário encarar o fato de que a segurança no abastecimento de água é estratégica e que o recurso é escasso. A sociedade, apesar dos problemas já evidentes no fornecimento de água às principais regiões consumidoras, ainda não trata o recurso como um bem finito. Mesmo com o país tendo atravessado 2014 com uma das mais importantes secas de sua história, administradores públicos relutam em apresentar a escassez de água como um problema estrutural. No discurso oficial, independente da instância de governo, o tema é colocado como conjuntural e que tende a ser superado “assim que as chuvas voltarem”.

Quando as razões da escassez de água são abordadas em boa parte da imprensa e das conversas , as mudanças climáticas, que recebem das Nações Unidas uma atenção especial desde a última década do século 20, não estão no centro da pauta e são lembradas apenas por especialistas em questões ambientais ligados à academia e a organizações da sociedade civil. Uma das principais teses do cientista Antonio Nobre, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia  (Inpa) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) fala da relação entre a umidade que circula na Amazônia com a fertilidade dos estados do Sudeste, irrigados através do que ele chama de “Rios Voadores”. Esses “rios” são fluxos de umidade deslocados da Amazônia contra as encostas dos Andes, onde fazem uma curva em direção ao sudeste e em seu caminho, provocam chuvas sobre o Pantanal e lançam suas águas sobre os estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Uma observação simples do comportamento das chuvas no verão de 2013/2014, mostra que as águas da Amazônia caíram com violência sobre os estados brasileiros do Acre e Rondônia. As cheias na região duraram cerca de quatro meses, justamente o período que normalmente é de chuvas no Sudeste. Essas águas que provocaram o transbordamento dos rios Madeira e Acre são as mesmas que não avançaram como umidade em direção ao Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

Privatizações frustradas

O planejamento do uso da água tem passado por transformações profundas nas últimas décadas e sofrido impacto de políticas públicas que ficaram ao largo de sua importância na produção e distribuição de água pelo país. É o caso do Código Florestal, aprovado em maio de 2012, que levou meses em uma discussão estéril sobre quantos metros deveriam ser preservados de matas ciliares no entorno de rios, lagos e represas. Em nenhum momento a preocupação com a segurança hídrica destacou-se no debate.

Estudos acadêmicos vêm alertando, há alguns anos, que a abordagem da água no Brasil é casual, não integrada e sem relação direta com a o processo da produção desse recurso, tema que, na realidade, é tratado por muitos engenheiros com certo desdém, sob o argumento de que “não é possível produzir água”, afinal, ela cai do céu. Mas, o fato é que o cuidado com rios e mananciais é fundamental para que as empresas de captação e tratamento possam oferecer água de boa qualidade para o consumo humano direto e outras atividades. Assim, é preciso questionar a estrutura jurídica da gestão de recursos hídricos, que torna o município o poder concedente para a exploração, tratamento e distribuição de águas, sem o cuidado de considerar que a dinâmica da Natureza não segue, evidentemente, as regras da geografia política.

O lógico, neste caso, seria uma gestão por bacias hidrográficas, o que vem sendo tentado desde os anos 90, e está presente na lei 9.433 de 1997, que criou a Política Nacional de Recursos Hídricos, mas que não avança por conta dos interesses econômicos envolvidos na distribuição de água. O modelo atual reflete o intenso período de privatizações, no final do século 20, quando as empresas estaduais de água e saneamento foram desmembradas e surgiram, em lugar delas, empresas locais, sob controle da iniciativa privada, em modelo de concessão, ou por empresas públicas municipais ou as estaduais remanescentes do antigo sistema. Algumas dessas empresas estaduais se fortaleceram dentro de um modelo de gestão de capital aberto, inclusive com presença em bolsas de valores internacionais, como é o caso da paulista Sabesp.

A gestão da água a partir de uma ótica estritamente economicista pelas empresas de abastecimento e pelas propriedades rurais, responsáveis por 70% do consumo total, cria distorções capazes de comprometer seriamente não apenas o abastecimento das necessidades humanas diretas, mas, também, o desempenho da economia, com prejuízos para as empresas. Dados apresentados pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Campinas e Região apontam prejuízos em diversos setores industriais paulistas por conta da seca. A paralisação da Hidrovia Tietê/Paraná, por exemplo, tem o potencial de aumentar a conta da logística para os produtores rurais em mais de R$ 30 milhões e três mil trabalhadores podem ter perdido o emprego apenas em operações relacionadas à hidrovia e aos serviços em suas margens. No entanto os reflexos podem ser ainda maiores. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) está calculando o impacto da escassez de água sobre o PIB paulista, o conjunto de bens e serviços produzidos em determinado período, geralmente de um ano, que atualmente representa um terço do PIB brasileiro.

Uma fração da solução de longo prazo para os problemas de escassez hídrica deveria vir da compreensão de que é parte da “função social” da terra preservar os serviços ambientais por ela prestados. Assim, proprietários rurais deveriam formar uma grande rede de produtores de água, capacitados, com tecnologia, assistência técnica e os recursos necessários para a identificação de nascentes e cursos d’água eventualmente secos pela derrubada da mata e implantação de plantios ou pastagens, e realizar as ações necessárias para a recuperação e perenização dessas fontes hídricas.

Produtores rurais também devem ser apoiados em ações que ajudem a proteger os mananciais em sua propriedade ou adjacentes da contaminação por qualquer tipo de produto químico utilizado nas lavouras ou por dejetos e contaminantes de origem animal. Esses produtos, quando levados aos rios, são contaminantes de alto impacto para a biodiversidade e torna o tratamento da água mais caro.

A revista científica Nature (Scientific American integra o mesmo grupo editorial da Nature) publicou, em 2012, um estudo da University of Leeds, da Inglaterra, em que aponta a perda de mais de 600 mil km² da floresta amazônica desde a década de 70. O estudo também aponta que no atual ritmo de destruição, cerca de 40% de todo complexo natural da região estará extinto até 2050. Isso comprometeria seriamente o regime de chuvas, reduzidas em mais de 20% nos períodos de seca.

Faixa de desertos

O Sudeste brasileiro está na faixa dos desertos  do hemisfério sul do planeta, na latitude do Trópico de Capricórnio. Ela atravessa enormes áreas continentais, como os desertos australianos de Great Sendy, Gibson e Great Victoria. Na África, estão as áreas desertificadas da Namíbia e do Kalahari e na América do Sul, o do Atacama. Sem qualquer coincidência, ambos desertos africanos, atualmente em expansão, estão alinhados frontalmente, dentro das margens latitudinais, com as regiões Sudeste e Sul do Brasil.

Essa porção territorial só se viu livre da desertificação com a exuberância da Amazônia e a formação da Mata Atlântica. Ambas foram determinantes para se criar um regime de chuvas que mantiveram essas partes do Brasil e da América do Sul com solos férteis e índices pluviométricos mais que satisfatórios à manutenção da vida.

O geólogo do Inpe e assessor da Agência Espacial Brasileira (AEB), Paulo Roberto Martini, tem sua teoria para esse fenômeno, em que a desertificação dessas regiões ocorrerá se o transporte de ar úmido for bloqueado ou escasseado, por ação natural ou antrópica. Exatamente o, aparentemente, vem ocorrendo. Investigações geomorfológicas mostraram que entre os anos 1000 e 1300 houve secas generalizadas e populações inteiras desaparecerem nas Américas. E isso pode ocorrer novamente, agora potencializado pela devastação de origem antrópica, ou seja, por iniciativa humana. “O solo da região Sul e Sudeste tem potencial enorme para se tornar desértico, basta não chover regularmente. A distribuição da umidade evitou que essa região da América do Sul fosse transformada num imenso deserto”, argumenta Martini. Mas ações humanas podem alterar radicalmente as opções adotadas pela Natureza.

Botões de controle para tubulações de água. Foto: Reprodução/ Shutterstock
Botões de controle para tubulações de água. Foto: Reprodução/ Shutterstock

A gestão dos recursos hídricos passou por uma grande transformação no Brasil no fim do século passado, quando as empresas estaduais de água e saneamento perderam o monopólio do mercado. Muitas foram municipalizadas e outras privatizadas, além de terem continuado a existir companhias estaduais, como o caso da Sabesp, em São Paulo, referência para o setor. A Sabesp é a única empresa de saneamento a fazer parte do Índice Dow Jones Sustainability, e do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&F-Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. O período de mudanças, no entanto, não foi tranquilo nem a gestão privada se mostrou um bom negócio em todos os casos. A cidade de Manaus, por exemplo, foi a primeira capital a privatizar os serviços. O abastecimento não deveria, aliás, ser problema para um município que tem quase 10% da água doce do planeta fluindo à sua porta, pelos rios Negro, Solimões que formam o Amazonas. Em 2000, a gestão em Manaus foi transferida para a francesa Suez, a mesma que, por sua administração desastrada, quase provocou um golpe de Estado na Bolívia.

Para os franceses, parecia fácil enfrentar esse desafio. Em Manaus havia muita água disponível e uma população de quase 2 milhões de habitantes que deveria pagar por ela. Tradicionalmente, o serviço de água da cidade era ruim, portanto, “bastaria oferecer um bom abastecimento” para a conta fechar. Mas esse raciocínio não era tão elementar quanto parece. Como o serviço público nunca funcionou, a elite urbana de Manaus nunca dependeu dele. A maior parte das casas e condomínios abastados tem seu abastecimento garantido por poços artesianos, serviço que, depois de funcional, é gratuito, sem a tradicional cobrança mensal de outras regiões.

A empresa francesa ficou apenas com a gestão do consumo da população pobre e com a obrigação de recolher o esgoto da cidade, pelo qual também não se pagava, uma vez que a taxa de esgoto está embutida na conta de água. Em 2007, a Suez saiu da Amazônia e a Águas do Amazonas continuam privatizadas, mas agora sob a gestão de um grupo nacional que teve de renegociar as condições do contrato de concessão com a prefeitura.

O esgoto não tratado tem impacto sobre outro setor estratégico da economia, o turismo. Principalmente no Nordeste, a presença de “línguas negras” a cruzar praias que deveriam ser refúgios ambientais assusta os operadores turísticos e preocupa o setor hoteleiro.

Um dos indicadores fundamentais de desenvolvimento social é o acesso à água de boa qualidade e a coleta e tratamento universal de esgotos, setores em que o Brasil ainda tem muito a fazer. Pesquisa realizada pela organização Trata Brasil, que estuda gestão de água e esgotos no Brasil mostra que menos de 40% do todo o esgoto gerado nas 100 maiores cidades brasileiras é recolhido e tratado antes de ser lançado de volta nos mananciais, o que significa em números absolutos que cerca de 8 bilhões de litros de esgoto sanitário são lançados em rios, lagos e no Oceano Atlântico diariamente. Apenas para se ter uma ideia: é o bastante para encher 3.200 piscinas olímpicas a cada dia.

EM SÍNTESE: A água é um direito social e um insumo econômico de primeira necessidade. O Brasil precisa de uma gestão eficiente do recurso não apenas para garantir o acesso à água de qualidade pela população, mas também para garantir o bom desempenho da economia.
por Dal Marcondes, da Envolverde

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Parlamento da Áustria aprova banir o glifosato

Lei para proibir todos os usos do herbicida no país recebe apoio tanto de social-democratas quanto de liberais e populistas de direita. Produto desenvolvido pela Monsanto foi apontado como cancerígeno em estudos.    

Symbolbild: Monsanto RoundUp (Getty Images/AFP/J. Edelson)O Roundup, produto a base de glifosato desenvolvido pela Monsanto, empresa que hoje pertence à Bayer

A câmara baixa do Parlamento da Áustria aprovou nesta terça-feira (02/07) uma lei que proíbe todos os usos do herbicida glifosato. É a primeira vez que um país da União Europeia (UE) toma medidas tão fortes contra o produto químico devido a preocupações de que ele pode causar câncer.

Outros países da UE aprovaram apenas proibições parciais do glifosato, um produto desenvolvido pela Monsanto, que pertence à alemã Bayer.

“A evidência científica do efeito carcinogênico do veneno de plantas está aumentando. É nossa responsabilidade banir esse veneno do nosso meio ambiente”, disse a líder dos social-democratas da Áustria, Pamela Rendi-Wagner, em comunicado.

O Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de extrema direita, e a legenda liberal Neos também apoiaram o projeto. Se o Conselho Federal (equivalente ao Senado) não levantar objeções, o que parece provável, o projeto vai se tornar lei assim que for sancionado pelo presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, um antigo líder dos verdes, que não têm assento no Parlamento.

O glifosato foi desenvolvido pela Monsanto sob a marca Roundup. Sua patente já expirou, e ele vem sendo comercializado em todo o mundo por dezenas de outros grupos químicos, incluindo Dow Agrosciences e a gigante alemã BASF.

Preocupações sobre seus riscos surgiram quando uma agência da Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu em 2015 que o herbicida é provavelmente cancerígeno. A Bayer, que adquiriu a Monsanto no ano passado, diz que estudos consideraram o glifosato seguro para uso humano.

A empresa enfrenta ações judiciais por causa de alegações de que o produto causa linfoma não Hodgkin (LNH), um tipo de câncer que tem origem nas células do sistema linfático.

Em maio, a Monsanto foi condenada a pagar 2 bilhões de dólares em indenizações, após um júri popular na Califórnia, nos Estados Unidos, considerar que um produto à base de glifosato causou câncer em um casal de idosos.

A Áustria tem a maior proporção de terras agrícolas orgânicas na União Europeia – cerca de 23%, muito acima da média da UE, de 7%, segundo dados do bloco para 2017 – e suas paisagens montanhosas são uma de suas maiores atrações turísticas.

A nova lei, contudo, não agradou a todos no país. O Ministério de Sustentabilidade e Turismo da Áustria, pasta que engloba agricultura e meio ambiente, disse acreditar que a proibição seria contrária à legislação da UE porque o glifosato é liberado para uso no bloco até dezembro de 2022.

O conservador Partido Popular Austríaco (ÖVP), que é tradicionalmente apoiado pelo setor agrário do país e que controlou o ministério por muitos anos, apresentou o mesmo argumento e se opôs à lei. “É puro populismo”, disse o deputado Klaus Lindinger, do ÖVP, sobre a legislação.

A Áustria é atualmente liderada por um governo provisório que administra o país até as eleições parlamentares previstas para setembro. Nos últimos meses, partidos políticos estão formando alianças para aprovar leis com forte apelo eleitoral antes do recesso parlamentar, que tem início nesta semana e deve durar até a eleição.

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA reafirmou em maio que o glifosato é um produto seguro. A Agência Europeia das Substâncias Químicas (ECHA, na sigla em inglês) e outros órgãos reguladores em várias partes do mundo também afirmaram ser improvável que o herbicida cause câncer em humanos.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso do glifosato, o agrotóxico mais utilizado no país, após uma reavaliação toxicóloga concluir que o produto não causa danos à saúde. Agora o órgão realiza uma consulta pública sobre o tema.

JPS/rtr/ots

Alimentos,Ambiente & Ecologia,Brasil,Agrotóxicos,Agricultura,Saúde

“Coquetel” com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios – consulte o seu

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Um coquetel que mistura diferentes agrotóxicos foi encontrado na água de 1 em cada 4 cidades do Brasil entre 2014 e 2017. Nesse período, as empresas de abastecimento de 1.396 municípios detectaram todos os 27 pesticidas que são obrigados por lei a testar. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas.

Os dados são do Ministério da Saúde e foram obtidos e tratados em investigação conjunta da Repórter Brasil, Agência Pública e a organização suíça Public Eye. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento.

Os números revelam que a contaminação da água está aumentando a passos largos e constantes. Em 2014, 75% dos testes detectaram agrotóxicos. Subiu para 84% em 2015 e foi para 88% em 2016, chegando a 92% em 2017. Nesse ritmo, em alguns anos, pode ficar difícil encontrar água sem agrotóxico nas torneiras do país.

Embora se trate de informação pública, os testes não são divulgados de forma compreensível para a população, deixando os brasileiros no escuro sobre os riscos que correm ao beber um copo d’água. Em um esforço conjunto, a Repórter Brasil, a Agência Pública e a organização suíça Public Eye fizeram um mapa interativo com os agrotóxicos encontrados em cada cidade. O mapa revela ainda quais estão acima do limite de segurança de acordo com a lei do Brasil e pela regulação europeia, onde fica a Public Eye.

Saiba o nível de contaminação da sua cidade clicando na imagem abaixo.

O retrato nacional da contaminação da água gerou alarde entre profissionais da saúde. “A situação é extremamente preocupante e certamente configura riscos e impactos à saúde da população”, afirma a toxicologista e médica do trabalho Virginia Dapper. O tom foi o mesmo na reação da pesquisadora em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Ceará, Aline Gurgel: “dados alarmantes, representam sério risco para a saúde humana”.

Entre os agrotóxicos encontrados em mais de 80% dos testes, há cinco classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e seis apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, o que gera diversos problemas à saúde, como a puberdade precoce. Do total de 27 pesticidas na água dos brasileiros, 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente. Entre os locais com contaminação múltipla estão as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas.

A falta de monitoramento também é um problema grave. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes na sua água entre 2014 e 2017.

Coquetel tóxico

A mistura entre os diversas químicos foi um dos pontos que mais gerou preocupação entre os especialistas ouvidos. O perigo é que a combinação de substâncias multiplique ou até mesmo gere novos efeitos. Essas reações já foram demonstradas em testes, afirma a química Cassiana Montagner. “Mesmo que um agrotóxico não tenha efeito sobre a saúde humana, ele pode ter quando mistura com outra substância”, explica Montagner, que pesquisa a contaminação da água no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo. “A mistura é uma das nossas principais preocupações com os agrotóxicos na água”.

Os paulistas foram os que mais beberam esse coquetel nos últimos anos. O estado foi recordista em número de municípios onde todos os 27 agrotóxicos estavam na água. São mais de 500 cidades, incluindo a grande São Paulo – Guarulhos, São Bernardo do Campo, Santo André e Osasco – além da própria capital. E algumas das mais populosas, como Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto e Sorocaba. O Paraná foi o segundo colocado, com coquetel presente em 326 cidades, seguido por Santa Catarina e Tocantins.

Os especialistas falam muito sobre a “invisibilidade” do efeito coquetel. As políticas públicas não monitoram a interação entre as substâncias porque os estudos que embasam essas políticas não apontam os riscos desse fenômeno. “Os agentes químicos são avaliados isoladamente, em laboratório, e ignoram os efeitos das misturas que ocorrem na vida real”, diz a médica e toxicologista Dapper.

Por isso, ela lamenta, as pessoas que já estão desenvolvendo doenças em decorrência dessa múltipla contaminação provavelmente nunca saberão a origem da sua enfermidade. Nem os seus médicos.

Questionado sobre quais medidas estão sendo tomadas, o Ministério da Saúde enviou respostas por email reforçando que “a exposição aos agrotóxicos é considerada grave problema de saúde pública” e listando efeitos nocivos que podem gerar “puberdade precoce, aleitamento alterado, diminuição da fertilidade feminina e na qualidade do sêmen; além de alergias, distúrbios gastrintestinais, respiratórios, endócrinos, neurológicos e neoplasias” (Leia a íntegra das respostas do Ministério da Saúde).

A resposta, porém, ressalta que ações de controle e prevenção só podem ser tomadas quando o resultado do teste ultrapassa o máximo permitido em lei. E aí está o problema: o Brasil não tem um limite fixado para regular a mistura de substâncias.

Essa é uma das reivindicações dos grupos que pedem uma regulação mais rígida para os agrotóxicos. “É um absurdo esse problema ficar invisível no monitoramento da água e não haver ações para controlá-lo”, afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro de produção e membro da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida “Se detectar diversos agrotóxicos, mas cada um abaixo do seu limite individual, a água será considerada potável no Brasil. Mas a mesma água seria proibida na França”.

Ele se refere à regra da União Europeia que busca restringir a mistura de substâncias: o máximo permitido é de 0,5 microgramas em cada litro de água – somando todos os agrotóxicos encontrados. No Brasil, há apenas limites individuais. Assim, somando todos os limites permitidos para cada um dos agrotóxicos monitorados, a mistura de substâncias na nossa água pode chegar a 1.353 microgramas por litro sem soar nenhum alarme. O valor equivale a 2.706 vezes o limite europeu.

O risco das pequenas quantidades

Mesmo quando se olha a contaminação de cada agrotóxico isoladamente, o quadro preocupa. Dos 27 agrotóxicos monitorados, 20 são listados como altamente perigosos pela Pesticide Action Network, grupo que reúne centenas de organizações não governamentais que trabalham para monitorar os efeitos dos agrotóxicos.

Mas, aos olhos da lei brasileira, o problema é pequeno. Apenas 0,3% de todos os casos detectados de 2014 a 2017 ultrapassaram o nível considerado seguro para cada substância. Mesmo considerando os casos em que se monitora dez agrotóxicos proibidos no Brasil, são poucas as situações em que a presença deles na água soa o alarme.

E esse é o segundo alerta feito por parte dos pesquisadores: os limites individuais seriam permissivos. “Essa legislação está há mais de 10 anos sem revisão, é muito atraso do ponto de vista científico” afirma a química Montagner. “É como usar uma TV antiga, pequena e preto e branco, quando você pode ter acesso a uma HD de alta definição”.

Ela se refere a pesquisas mais recentes sobre os riscos do consumo frequente e em quantidades menores, um tipo de contaminação que não gera reações imediatas. “Talvez certo agrotóxico na água não leve 15% da cidade para o hospital no mesmo dia. Mas o consumo contínuo gera efeitos crônicos ainda mais graves, como câncer, problemas na tireoide, hormonal ou neurológico”, alerta Montagner. “Já temos evidências científicas, mas a água contaminada continua sendo considerada como potável porque não se olha as quantidades menores”, afirma.

Em resposta a essa crítica, um grupo de trabalho foi criado pelo Ministério da Saúde para rever os limites da contaminação. “Estamos fazendo um trabalho criterioso”, afirma Ellen Pritsch, engenheira química e representante da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no grupo. Segundo ela, pesquisas internacionais e regulações de outros países estão sendo levados em conta. Criado em 2014, a previsão é que os trabalhos sejam concluídos em setembro.

Pelo menos 144 cidades detectaram o mesmo pesticida de modo contínuo durante os quatro anos de medições seguidos, segundo os dados. Mais uma vez, São Paulo é o recordista desse fenômeno de intoxicação. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam o uso de pesticidas na produção de cana de açúcar como a provável origem para a larga contaminação do estado. “A cultura da cana é a que tem mais herbicidas registrados. Como São Paulo é um dos maiores produtores de cana, isso justifica sua presença elevada [de pesticidas na água]”, afirma Kassio Mendes, coordenador do comitê de qualidade ambiental da Sociedade Brasileira da Ciência das Plantas Daninhas.

O diuron, um dos principais herbicidas usados pelo setor, foi detectado em todos os testes feitos na água dos mananciais das regiões onde mais se cultiva cana no estado, segundo dados de 2017 da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A substância é uma das apontadas como provável cancerígena pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.

De quem é a responsabilidade?

Depois de contaminada, são poucos os tratamentos disponíveis para tirar o agrotóxico da água. “Alguns filtros são capazes de tirar alguns tipos de agrotóxicos, mas não há um que dê conta de todos esses”, afirma Melgarejo. “A água mineral vem de outras fontes, mas que são alimentadas pela água que corre na superfície, então eventualmente também serão contaminadas”.

O trabalho preventivo, ou seja, evitar que os agrotóxicos cheguem aos mananciais, deveria ser primordial, afirma Rubia Kuno, gerente da divisão de toxicologia humana e saúde ambiental da Cetesb. “O esforço deve ser na prevenção porque o sistema de tratamento convencional não é capaz de remover os agrotóxicos da água”, afirma.

É grande o debate sobre a complexidade em se enfrentar o problema, mas é difícil encontrar quem está assumindo a responsabilidade.

A reportagem procurou as secretarias do Meio Ambiente, Agricultura e Saúde e Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para entender quais ações são tomadas no estado com o maior índice de contaminação. As respostas foram dadas pela Sabesp e pela assessoria do meio ambiente com informações técnicas sobre o monitoramento. Nem as secretarias nem a empresa esclareceram o que está sendo feito para controlar ou prevenir o problema. (Leia a íntegra das respostas da Sabesp e da Secretaria do Meio Ambiente)

O Ministério da Saúde diz que a vigilância sanitária dos municípios e dos estados deve dar o alerta aos prestadores de serviços de abastecimento de água para que tomem as providências de melhoria no tratamento da água. “Caso os dados demonstrem que o problema ocorre de forma sistemática, é preciso buscar soluções a partir da articulação com os demais setores envolvidos, como órgãos de meio ambiente, prestadores de serviço e produtores rurais”, diz a nota enviada pelo órgão.

Questionado sobre quais ações estão sendo tomadas, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), que representa os produtores de agrotóxicos, fez uma defesa sobre a segurança dos pesticidas. Em nota, o grupo afirma que a avaliação feita pela Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura garante que eles são seguros ao trabalhador, população rural e ao meio ambiente “sempre que utilizados de acordo com as recomendações técnicas aprovadas e indicadas em suas embalagens”.

O sindicato afirma que a aplicação correta dos produtos no campo é um desafio e atribui a responsabilidade aos trabalhadores que aplicam os pesticidas. “O setor de defensivos agrícolas realiza iniciativas para garantir a aplicação correta de seus produtos, uma vez que alguns problemas estruturais da agricultura como a falta do hábito da leitura de rótulo e bula e analfabetismo no campo trazem um desafio adicional de cumprimento às recomendações de uso”.

Ao contrário do que ocorre em outros países, no Brasil as empresas que produzem agrotóxicos não se envolvem com o monitoramento da água, que é custeado pelos cofres públicos e pelas empresas de abastecimento.

Em Santa Catarina, que está entre os três estados com maior contaminação, o Ministério Público Estadual chamou a responsabilidade de prefeituras, secretarias estaduais, concessionárias de água, agências reguladoras e sindicatos de produtores e trabalhadores rurais. A iniciativa partiu dos resultados de um estudo inédito que encontrou agrotóxicos na água de 22 municípios. “Alertamos todos os órgãos públicos e privados envolvidos para buscar soluções, é preciso aplicar medidas corretivas para diminuir os riscos dos cidadãos”, diz a promotora Greicia Malheiros, responsável pela investigação. A iniciativa teve início em março desse ano e ainda não tem resultados.

Mais do que remediar a contaminação da água, a coordenadora técnica do estudo, a engenheira química Sonia Corina Hess, defende a proibição do uso dos pesticidas que oferecem maior risco. Das substâncias encontradas em seu estudo no estado catarinense, sete estão proibidas na União Europeia por oferecer risco à saúde humana. “Tem que proibir o que é proibido lá fora, tem que proibir o que é perigoso. Se faz mal para eles porque no Brasil é permitido?”, questiona.

Perigoso na Europa, permitido no Brasil
O controle da água feito pelo Brasil também está distante dos parâmetros da União Europeia. Com o objetivo de eliminar a contaminação, o continente fixou a concentração máxima na água em 0,1 micrograma por litro – valor que era o mínimo detectável quando a regulação foi criada.

Para descobrir como a água do Brasil seria avaliada pelo padrão europeu, a organização Public Eye classificou os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde segundo o critério daquele continente. Alguns dos agrotóxicos mais perigosos ultrapassaram os limites europeus em mais de 20% dos testes. Entre eles, o glifosato e o mancozebe, ambos associados a doenças crônicas, e o aldicarbe, proibido no Brasil e classificado pela Anvisa como “o agrotóxico mais tóxico registrado no país, entre todos os ingredientes ativos utilizados na agricultura”.

O glifosato é o caso mais revelador sobre as peculiaridades do Brasil na regulação sobre agrotóxicos. Classificado como “provável carcinogênico” pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, órgão da Organização Mundial da Saúde, o pesticida está sendo discutido em todo o mundo. Há milhares de pacientes com câncer processando os fabricantes nos Estados Unidos – e vencendo nos tribunais – além de protestos e petições pedindo a sua proibição na Europa. Não há consenso, entre as agências reguladoras, sobre sua classificação. No Brasil, que oficialmente colocou a substância em revisão desde 2008, o Ministério da Agricultura liberou novos registros para a venda de glifosato no início deste ano. O pesticida passou a ser vendido em novas formas, quantidades e por número maior de fabricantes.

Nos testes com a água do país, a controversa substância foi a que mais ultrapassou a margem de segurança segundo o critério da União Europeia: 23% dos casos acima do limite. Pela lei brasileira, o glifosato foi um dos que menos soou o alarme: apenas 0,02% dos testes ultrapassaram o nosso limite.

“Isso é um escândalo de saúde pública. Nós colocamos o limite alto, lá na estratosfera, e aí comemoramos que temos uma água segura”, questiona a pesquisadora Larissa Bombardi, professora de geografia na Universidade de São Paulo e autora de um atlas que compara a lei brasileira e europeia no controle dos agrotóxicos. Seu estudo revela como nossos limites chegam a ser 5 mil vezes mais altos que os europeus. O caso mais grave é o do glifosato: enquanto na Europa é permitido apenas 0,1 miligramas por litro na água, aqui no Brasil a legislação permite até 500 miligramas por litro.

Como o glifosato é o agrotóxico mais vendido no país, e também o que tem o limite mais generoso para presença na água, Bombardi lança suspeitas sobre os critérios usados: “no caso do glifosato é realmente difícil encontrar justificativa científica, parece ser mais uma decisão política e econômica”. O pesticida foi o mais consumido em 2017 no Brasil com 173 mil toneladas vendidas, segundo o Ibama. O volume corresponde a 22% das estimativas de vendas para esse químico em todo o mundo no mesmo ano – o que faz do Brasil um importante mercado para as fabricantes, entre elas as gigantes Syngenta e a Monsanto – comprada pela Bayer no ano passado.

Limites generosos

A larga diferença entre os limites fixados pela União Europeia e pelo Brasil é um dos principais argumentos dos críticos do uso da substância no Brasil. “Essa diferença só pode se dar por dois motivos. Ou porque nossa sociedade é mais forte, somos seres mais resistentes aos agrotóxicos. Ou mais tola, porque estamos sendo ingênuos quanto aos riscos que corremos”, provoca Melgarejo, da Campanha Contra os Agrotóxicos.

A engenheira química Ellen Pritsch, representante da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no grupo de trabalho que reavalia os limites dos pesticidas na água, discorda. Para ela, os atuais limites são seguros e foram fixados com embasamento científico. “O critério brasileiro é dez vezes menor do que o efeito que geraria problema. Então, mesmo que seja encontrado um percentual acima esse valor, ainda assim seria menor [estaria abaixo do risco]”, afirma.

Antes de aprovar os registros dos agrotóxicos, as empresas fabricantes entregam estudos com testes feitos com animais em laboratórios. O Sindiveg, sindicato da indústria de fabricantes de pesticidas, defende que esses estudos são o suficiente para avaliar os riscos das substâncias. “São estudos de bioconcentração em peixes e micro-organismo, algas e organismos do solo, abelhas, microcrustáceos, peixes e aves”, afirma nota enviada pelo Sindiveg em resposta às perguntas da reportagem.

A principal reivindicação dos grupos que fazem campanha pelo controle dos agrotóxicos é por mais restrição e até pela proibição de alguns dos pesticidas hoje aprovados no país, como a atrazina, o acefato e o paraquate, que são campeões de venda no Brasil, mas proibidos na União Europeia.

Mas o governo aponta na direção oposta. A responsável pela pasta da agricultura, ex-líder da bancada ruralista Tereza Cristina, foi presidente da comissão especial na Câmara que aprovou, em junho passado, o Projeto de Lei que propõe agilizar a aprovação de novos agrotóxicos no país. Apelidado pelos críticos como o “PL do veneno”, já gerou grande polêmica, sendo criticado em uma carta assinada por mais de 20 grupos da comunidade científica.

Sem previsão de conseguir maioria no Congresso para aprovar o PL, a estratégia parece ter mudado. Desde o início do ano, o Ministério da Agricultura publicou novos registros para 152 agrotóxicos, uma velocidade recorde de 1,5 aprovações por dia. Chamada para esclarecer as liberações em audiência na Câmara na última terça-feira (9), a ministra disse que “não existe liberação geral” e que longos processos de aprovação só atrasam o agronegócio brasileiro. Ela chamou de “desinformação” os estudos que apontam os riscos dessas substâncias e, usando o mesmo argumento do sindicato dos produtores de agrotóxicos, declarou que as intoxicações ocorrem devido ao modo como os trabalhadores aplicam as substâncias. Um dia depois da audiência, o governo aprovou a comercialização de mais 31 agrotóxicos no Brasil.
por Ana Aranha, Luana Rocha, Agência Pública/Repórter Brasil

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

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Agrotóxico: Sob suspeita nos EUA, glifosato segue inabalável no Brasil

Glifosato,Ambiente,AgroTóxicos,Meio Ambiente,Natureza,Poluição,Ecologia,Agricultura,Alimentos,Vida Selvagem,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,BrasilRoundup: herbicida, segundo decisão de tribunal, causa câncer

Uma decisão unânime de um tribunal federal nos Estados Unidos, que considerou o glifosato um “fator importante” para o desenvolvimento de um câncer num agricultor da Califórnia, é acompanhada de perto pelo setor do agronegócio no Brasil. O agrotóxico em questão é mais usado nas plantações brasileiras.

A batalha nos tribunais, ainda em andamento, pode abrir precedente para as mais de 11 mil ações judiciais nos EUA contra o Roundup, uma marca do produto a base de glifosato criado pela Monsanto, adquirida pela Bayer em 2018.

No Brasil, os plantios de soja e milho transgênicos são os campeões no uso do glifosato. Dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) apontam que as culturas de soja consumiram 52% das vendas de agrotóxicos no país, e 10% foram para o milho.

O sindicato não se manifesta publicamente sobre o caso nos EUA. De tão usado no agronegócio brasileiro, o agrotóxico conta com um grupo exclusivo que concentra as discussões, o chamado Gipeg (Grupo de Informações e Pesquisas sobre Glifosato).

“Não há comprovação de qualquer tipo de causalidade estabelecida entre exposição ao glifosato e o linfoma”, afirma Flávio Zambroni, coordenador do Gipeg e sócio de uma consultoria que presta serviços para a indústria química.

A ação judicial nos Estados Unidos alega que o glifosato teria causado o linfoma não-Hodgkin no homem que move o processo contra o Roundup. Esse tipo de câncer tem origem no sistema imunológico. A Bayer nega as acusações.

O Ministério da Agricultura avalia que a emblemática condenação do herbicida no país onde ele foi criado não terá impacto no Brasil. “O julgamento não é um processo de decisão baseado em ciência, e sim a decisão de um júri popular”, respondeu por e-mail à DW Brasil Carlos Ramos Venâncio, coordenador geral de Agrotóxicos e Afins do ministério.

Segundo Venâncio, haveria preocupação caso as restrições viessem “de uma organização que tem a responsabilidade de avaliar os pesticidas, o que não é o caso”.

Ligações entre o agrotóxico e câncer levaram a Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC, na sigla em inglês) a mudar de posicionamento em 2015. O órgão, parte da Organização Mundial da Saúde, classifica o glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos”.

Segundo a análise, assinada por especialistas de 11 países, existem evidências de que o produto cause a doença em pessoas que foram expostas em condições reais ao produto e provas “suficientes” de câncer em animais a partir de estudos em laboratório.

Naquele mesmo ano, a Monsanto, que lançou o Roundup em 1976, recrutou cientistas para conduzir estudos defendendo o glifosato. Antes de chegar ao público, o trabalho dos pesquisadores havia sido secretamente revisado por representantes da fabricante.

Cinco desses estudos foram publicados em 2016. A Monsanto contratou a consultoria científica Intertek para definir e coordenar “painéis independentes de especialistas” para publicar esses artigos em revistas. Os 15 pesquisadores concluíram, de forma unanime, que o glifosato não era cancerígeno.

O esforço da Monsanto em desacreditar a conclusão da IARC foi revelado em fevereiro último pela CBC/Radio-Canada. As trocas de e-mails e documentos entre a empresa e a Intertek foi revelada durante o processo Dewayne Johnson, que processou a Monsanto e ganhou 78 milhões de dólares em outubro do ano passado nos EUA.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirma que a substância não causa câncer, mutações, e não é tóxica para reprodução ou provoca malformação no feto. As conclusões aparecem numa nota técnica publicada recentemente, após um longo processo de reavaliação do glifosato no país.

As análises consideradas no processo da Anvisa foram feitas em amostras de arroz, manga e uva. Soja e milho, as duas principais culturas que recebem glifosato, não foram consideradas.

Larissa Bombardi, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) que mapeou o uso de agrotóxicos no Brasil, critica a maneira como a reavaliação foi conduzida.

“Ninguém joga glifosato no pé de manga, ou pé de uva, porque mata a planta. Ele é usado perifericamente nesses casos”, pontua. “Eles olharam para os alimentos em que não é esperado mesmo a presença de glifosato”, critica.

Estima-se que 98% da soja e 88% do milho cultivados no país sejam transgênicos resistentes à substância. “E são esses cultivos que mais recebem glifosato e que ficaram de fora da análise”, adiciona.

Apesar de afastar a ligação entre glifosato e câncer, a Anvisa sugeriu mudanças para o uso do produto após o processo de reavaliação. As principais alterações estão voltadas para o aumento da proteção de trabalhadores rurais e pessoas que vivem perto de áreas que recebem aplicação do agrotóxico. A Anvisa afirma que o produto apresenta maior risco para esses grupos.

“A notícia que vem do tribunal dos EUA chega num momento muito especial. Agora é a chance de a população se manifestar e abrir o olho”, comenta Bombardi sobre a chamada pública aberta pela Anvisa para discutir as mudanças sugeridas.

Procurada, a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), que detém a maior área de cultivo no país, não se manifestou.
DW

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Por que o Brasil deveria se importar com a morte de abelhas

Ambiente,AgroTóxicos,Meio Ambiente,Natureza,Poluição,Ecologia,Agricultura,Alimentos,Vida Selvagem,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,BrasilPaís enfrenta mortandade de colmeias em vários estados. Diminuição das espécies tem impactos na agricultura, meio ambiente e economia. Mas tema ainda é negligenciado.

A morte de abelhas não é um fenômeno recente: é observada por pesquisadores ao menos desde a década passada. No entanto, nos últimos meses, a mortandade alcançou números alarmantes no Brasil.

“A morte de abelhas não é só um risco para o Brasil, mas para o mundo todo. Quando se pensa em abelhas, se pensa em mel. O principal produto delas, porém, é a polinização”, afirma Fábia Pereira, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na área de Apicultura.

Apenas nos últimos três meses, 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores no país, segundo um levantamento feito pela ONG Repórter Brasil em parceria com a Agência Pública. A grande maioria dos casos foi registrada no Rio Grande Sul, seguido por Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Além da morte em massa de colmeias em apiários, cinco espécies nativas de abelhas estão ameaçadas de extinção – três delas habitam a Mata Atlântica, uma o Cerrado e outra o pampa gaúcho. Não há dados, porém, sobre a mortandade em comunidades selvagens.

As abelhas são responsáveis pela polinização de cerca de 70% das plantas cultivadas para alimentação, principalmente frutas e verduras. Sua morte coloca em risco a agricultura e, consequentemente, a própria segurança alimentar. Sem elas, o ser humano enfrentaria uma mudança drástica na sua dieta, que ficaria restrita apenas a culturas autopolinizáveis, como feijão, arroz, soja, milho, batata e espécies de cereais.

Além da agricultura, as abelhas são ainda agentes fundamentais para a polinização de florestas nativas. Seu desaparecimento poderia desencadear a morte de ecossistemas inteiros. “Se o homem parasse de fazer qualquer outra intervenção ambiental, e as abelhas apenas sumissem, haveria um desaparecimento da mata correspondente a entre 30% e 90% do que temos hoje, provocando um processo de extinção em cadeia até chegar em nós que estamos no topo”, ressalta Pereira.

Essa mortandade tem ainda potencial para impactar a economia brasileira. O país é o oitavo produtor mundial de mel e, em 2017, as exportações totalizaram 121 milhões de dólares. A diminuição na produção diante da redução do número de colmeias resultaria numa queda nas vendas. Além disso, em caso de mortes causadas por agrotóxicos, resíduos destas substâncias possivelmente poderiam ser encontrados no mel, o que levaria compradores estrangeiros a rejeitarem o produto brasileiro.

“A exportação para a Europa é muito exigente, e qualquer resíduo é detectado. O mel que foi produzido nos últimos meses está contaminado. No exterior, ninguém vai querê-lo, e não há um mercado interno suficiente para a quantidade produzida. Isso vai desestimular a apicultura”, afirma o engenheiro agrônomo Aroni Sattler, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Números alarmantes

A morte de abelhas começou a chamar a atenção mundial a partir da identificação do Distúrbio do Colapso das Colônias (CCD), em 2006 nos Estados Unidos, quando um forte surto dizimou milhares de colmeias. Na Europa, fenômenos semelhantes estão sendo observados desde o fim da década de 1990. Pesquisadores descobriram que, além das doenças e da redução do habitat das espécies, os agrotóxicos são um dos fatores que desencadeia essa mortandade.

Além da toxicidade elevada de alguns defensivos agrícolas, contribui para esse cenário o uso incorreto destas substâncias. Elas são aplicadas durante o dia, quando as abelhas estão fora das colmeias, sem seguir parâmetros de segurança e sem comunicar apicultores para que possam deixar as caixas fechadas.

No atual caso brasileiro, pesticidas à base de neonicotinoides e de fipronil foram os principais agentes causadores das mortes. “O histórico da mortandades agudas que temos constatado deixa muito clara a sua relação com o uso de agrotóxicos”, ressalta Sattler, especialista em apicultura.

No Rio Grande do Sul, onde mais de 400 milhões de abelhas morreram só no primeiro trimestre, 80% das mortes foram causadas pelo fipronil, inseticida usado amplamente em lavouras de monoculturas, mas também em pequenas propriedades rurais. A substância é ainda muito popular no extermínio de formigas e em remédios veterinários para controle de insetos, como pulgas. Em Santa Catarina, resquícios do pesticida foram detectados em colmeias mortas entre o fim do ano passado e início deste.

“Precisamos começar a questionar o modelo agrícola atual. Os efeitos da expansão do monocultivo baseado em agrotóxicos estão comprovados. Os Estados Unidos tinham 6 milhões de colmeias na década de 1940, e hoje estão com cerca de 2,5 milhões”, destaca Sattler.

Pressão popular

Na Europa, a morte abelhas é há alguns anos um tema presente na mídia e na política. Em 2017, um estudo chamou atenção da opinião pública alemã ao revelar que as populações de insetos voadores haviam recuado 75% ao longo de 25 anos no país. A pesquisa desencadeou um debate sobre a questão.

Atualmente na Alemanha a iniciativa popular “Salvem as abelhas” quer forçar o governo da Baviera a buscar soluções para a diminuição da biodiversidade. A proposta prevê o incentivo à agricultura orgânica, proteção de matas ciliares, a ampliação da ligação de habitats naturais e o banimento de agrotóxicos.

A pressão popular e de ativistas ambientais foi fundamental para a União Europeia (UE) aprovar no ano passado a proibição de três substâncias neonicotinoides – clotianidina, imidacloprida e tiametoxam, que danificam o sistema nervoso central de insetos, como as abelhas. Já a França foi mais além e baniu cinco inseticidas desta categoria de derivados da nicotina.

Já o fipronil teve seu uso restrito na Europa. Proibida completamente na França desde 2004 e, posteriormente, em vários países europeus, a aplicação do pesticida na União Europeia foi limitada em 2013 a cultivos em estufas e de alho-poró, cebola, cebolinha e couve. A substância também é banida da indústria alimentícia do bloco, podendo ser usada apenas para combater pulgas, piolhos e carrapatos de animais domésticos.

A Europa patina, porém, ainda no banimento do glifosato, outro defensivo agrícola que, segundo uma pesquisa divulgada no ano passado, é prejudicial às abelhas.

Enquanto países europeus estão reavaliando e restringindo o uso de agrotóxicos, o Brasil nos últimos meses tem incentivado a liberação de defensivos agrícolas. Em relação às abelhas, o tema continua negligenciado, ainda mais diante do impacto que a extinção destas espécies pode ter.

“Apesar de todos os esforços, ainda não conseguimos sensibilizar suficientemente o público em geral e o próprio governo sobre a importância de trabalharmos na proteção das abelhas. Já foram realizados eventos sobre o assunto, reuniões explicando a importância das abelhas e com sugestões de políticas públicas, mas ainda precisamos avançar nas ações efetivas”, ressalta Pereira.

Satller tem opinião semelhante. “A situação é bastante grave, mas ainda dá para reverter”, afirma o pesquisador, que defende o questionamento do atual modelo do agronegócio no país e a restrição do uso indiscriminado de agrotóxicos.
DW

Agência alimentar europeia argumentava que tornar públicos seus levantamentos sobre efeitos do controverso herbicida sobre a saúde humana e o meio ambiente contrariava interesses comerciais de empresas produtoras.

Justiça europeia exige acesso público a estudos sobre glifosato

Agência alimentar europeia argumentava que tornar públicos seus levantamentos sobre efeitos do controverso herbicida sobre a saúde humana e o meio ambiente contrariava interesses comerciais de empresas produtoras.Agência alimentar europeia argumentava que tornar públicos seus levantamentos sobre efeitos do controverso herbicida sobre a saúde humana e o meio ambiente contrariava interesses comerciais de empresas produtoras.

Uma corte europeia determinou nesta quinta-feira (07/03) que cidadãos têm o direito de ter acesso a estudos sobre os efeitos do herbicida glifosato, amplamente utilizado na agricultura.

O Tribunal Geral da União Europeia (TGUE) em Luxemburgo decidiu que a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) deve permitir o acesso a estudos de toxicidade e fatores de risco de câncer do herbicida contra o qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu alerta em 2015, classificando-o como “provavelmente cancerígeno”.

Tanto a agência alimentar europeia, a Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA, na sigla em inglês) quanto o Instituto Alemão de Avaliação de Risco não encontraram confirmação para essa classificação da OMS. O glifosato é alvo de protestos de ambientalistas mundo afora.

Com a sentença, o tribunal anulou duas decisões da agência alimentar europeia, que havia rejeitado o acesso a detalhes sobre estudos que a EFSA realizou sobre o glifosato, com base no argumento de que a divulgação das pesquisas poderia prejudicar os interesses comerciais das empresas que forneceram dados para as pesquisas – entre outros, a americana Monsanto, que foi comprada pela gigante fitossanitária e farmacêutica alemã Bayer. Além disso, segundo a EFSA, não existia um interesse público que justificasse a divulgação.

O glifosato é o herbicida mais utilizado e polêmico do mundo e é usado por multinacionais como a Monsanto. A Comissão Europeia, órgão executivo da UE, aprovou em novembro de 2017 a renovação da licença do glifosato no bloco até 2022, apesar de oposição de países como a França.

A solicitação de acesso a distintas partes dos estudos da EFSA sobre o impacto ambiental e de saúde do glifosato haviam sido feitas por um cidadão europeu e pelos eurodeputados Heidi Hautala, Michèle Rivasi, Benedek Jávor e Bart Staes.

Os requerentes lembraram no pedido que o Centro Internacional de Pesquisas sobre o Câncer (CIIC) concluiu em março de 2015 que o glifosato apresentava potencial risco de causar câncer. Apesar disso, segundo o tribunal, em novembro de 2015, análises conduzidas por especialistas da EFSA haviam concluído que o glifosato não apresentava nenhum risco cancerígeno para o ser humano.

O Tribunal Geral da UE defendeu em sua decisão que o público deve ter acesso “não só à informação sobre as emissões (…) como também sobre as consequências de mais ou menos longo prazo dessas emissões sobre o meio ambiente, assim como sobre os efeitos das citadas emissões sobre os diferentes organismos daqueles a quem o produto é destinado”.

A decisão, à qual cabe recurso no Tribunal de Justiça da União Europeia (ao qual o TGUE está associado), também define que o acesso aos estudos é “revestido de um interesse público superior à proteção de interesses comerciais de pessoa física ou jurídica”.

Os juízes luxemburgueses afirmaram que o interesse público não é de apenas saber o que foi liberado no meio ambiente, mas também quais os efeitos ambientais do glifosato. Como é o princípio ativo de herbicidas usados na União Europeia desde sua liberação, em 2002, haveria resquícios da substância em plantas, na água e em alimentos, disseram os magistrados.

Após o pronunciamento da sentença, o eurodeputado espanhol Florent Marcellesi, do partido verde espanhol Equo, avaliou que a decisão representa “uma vitória na luta contra o secretismo quando há riscos ao meio ambiente e sanitários de produtos perigosos como o glifosato”.

“Graças à publicação de todos os estudos disponíveis, no futuro outros especialistas independentes terão a possibilidade de realizar um controle duplo sobre a ciência que está por trás das avaliações dos pesticidas”, acrescentou.

A EFSA declarou que considera positiva a decisão, já que ela gera orientação com o acesso público dos documentos. Segundo a agência, a decisão deverá ser minuciosamente analisada – afirmação também feita por um porta-voz da Bayer.

Já o eurodeputado Martin Häusling alertou que, “se forem encontradas evidências de que o glifosato é realmente cancerígeno, isso seria um escândalo com amplas mudanças: o glifosato teria de ser proibido imediatamente”, ponderou.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) propôs na semana passada a manutenção da licença para o glifosato, mas com restrições de uso e novas medidas de controle. A equipe técnica da agência concluiu que não há evidências suficientes para classificar o herbicida de cancerígeno.

RK/efe/dpa

Meio Ambiente,Animais,Mudanças,Climáticas,Insetos,Agrotóxicos,Vida Selvagem

Por que há cada vez mais moscas e baratas e menos borboletas e abelhas

Meio Ambiente,Animais,Mudanças,Climáticas,Insetos,Agrotóxicos,Vida SelvagemDireito de imagemGETTY IMAGES
A população de diversas espécies de borboletas está em declínio, além de abelhas e libélulas 

Uma nova análise científica sobre o número de insetos no mundo sugere que 40% das espécies estão experimentando uma “dramática taxa de declínio” e podem desaparecer. Entre elas, abelhas, formigas e besouros, que estão desaparecendo oito vezes mais rápido que espécies de mamíferos, pássaros e répteis. Já outras espécies, como moscas domésticas e baratas, devem crescer em número.

Vários outros estudos realizados nos últimos anos já demonstraram que populações de algumas espécies de insetos, como abelhas, sofreram um grande declínio, principalmente nas economias desenvolvidas. A diferença dessa nova pesquisa é ter uma abordagem mais ampla sobre os insetos em geral. Publicado no periódico científico Biological Conservation, o artigo faz uma revisão de 73 estudos publicados nos últimos 13 anos em todo o mundo.

Os pesquisadores descobriram que o declínio nas populações de insetos vistos em quase todas as regiões do planeta pode levar à extinção de 40% dos insetos nas próximas décadas. Um terço das espécies está classificada como ameaçada de extinção.

“O principal fator é a perda de habitat, devido às práticas agrícolas, urbanização e desmatamento”, afirma o principal autor do estudo, Francisco Sánchez-Bayo, da Universidade de Sydney.

“Em segundo lugar, está o aumento no uso de fertilizantes e pesticidas na agricultura ao redor do mundo, com poluentes químicos de todos os tipos. Em terceiro lugar, temos fatores biológicos, como espécies invasoras e patógenos. Quarto, mudanças climáticas, particularmente em áreas tropicais, onde se sabe que os impactos são maiores.”

Os insetos representam a maioria dos seres vivos que habitam a terra e oferecem benefícios para muitas outras espécies, incluindo humanos. Fornecem alimentos para pássaros, morcegos e pequenos mamíferos; polinizam em torno de 75% das plantações no mundo; reabastecem os solos e mantêm o número de pragas sob controle.

Escaravelho, um tipo de besouroDireito de imagemGETTY IMAGES
Besouros também estão em declínio, segundo o estudo

Os riscos da redução do número de insetos

Entre destaques apontados pelo estudo estão o recente e rápido declínio de insetos voadores na Alemanha e a dizimação da população de insetos em florestas tropicais de Porto Rico, ligados ao aumento da temperatura global.

Outros especialistas dizem que as descobertas são preocupantes. “Não se trata apenas de abelhas, ou de polinização ou alimentação humana. O declínio (no número de insetos) também impacta besouros que reciclam resíduos e libélulas que dão início à vida em rios e lagoas”, diz Matt Shardlow, do grupo ativista britânico Buglife.

“Está ficando cada vez mais claro que a ecologia do nosso planeta está em risco e que é preciso um esforço global e intenso para deter e reverter essas tendências terríveis. Permitir a erradicação lenta da vida dos insetos não é uma opção racional”.

Os autores do estudo ainda estão preocupados com o impacto do declínio dos insetos ao longo da cadeia de produção de comida. Já que muitas espécies de pássaros, répteis e peixes têm nos insetos sua principal fonte alimentar, é possível que essas espécies também acabem sendo eliminadas.

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Já baratas e moscas domésticas podem prosperar

Baratas e moscas podem proliferar

Embora muitas espécies de insetos estejam experimentando uma redução, o estudo também descobriu que um menor número de espécies podem se adaptar às mudanças e proliferar.

“Espécies de insetos que são pragas e se reproduzem rápido provavelmente irão prosperar, seja devido ao clima mais quente, seja devido à redução de seus inimigos naturais, que se reproduzem mais lentamente”, afirma Dave Goulson, da Universidade de Sussex.

Segundo Goulson, espécies como moscas domésticas e baratas podem ser capazes de viver confortavelmente em ambientes humanos, além de terem desenvolvido resistência a pesticidas.

“É plausível que nós vejamos uma proliferação de insetos que são pragas, mas que percamos todos os insetos maravilhosos de que gostamos, como abelhas, moscas de flores, borboletas e besouros”.

O que podemos fazer a respeito?

Apesar dos resultados do estudo serem alarmantes, Goulson explica que todos podem tomar ações para ajudar a reverter esse quadro. Por exemplo, comprar comida orgânica e tornar os jardins mais amigáveis aos insetos, sem o uso de pesticidas.

Além disso, é preciso fazer mais pesquisas, já que 99% da evidência do declínio de insetos vêm da Europa e da América do Norte, com poucas pesquisas na África e América do Sul.

Se um grande número de insetos desaparecer, diz Goulson, eles provavelmente serão substituídos por outras espécies. Mas esse é um processo de milhões de anos. “O que não é um consolo para a próxima geração, infelizmente”.
BBC