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Meio Ambiente: Pesquisadores vivem ameaças como na ditadura

Radicada na Bélgica, professora da USP que estuda papel nocivo dos agrotóxicos na produção de alimentos diz que ficou impossível permanecer no Brasil em meio a “terrorismo psicológico”.

Foram dois anos em que a geógrafa brasileira Larissa Mies Bombardi, professora da Universidade de São Paulo (USP), não conseguia dormir em paz. O pesadelo começou com o lançamento, na Europa, da versão em inglês do seu atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Ao levar para fora do país o cenário dos agrotóxicos na produção de alimentos no Brasil, ela contribuiu para aumentar a pressão internacional sobre o setor. “A maior rede de orgânicos da Escandinávia passou a boicotar produtos brasileiros por conta do meu trabalho”, relata.

A geógrafa passou a viver uma rotina de ameaças e enfrentou uma série de posicionamentos contrários de instituições ligadas ao setor agropecuário.

“Teve um e-mail de uma pessoa que se identificou como piloto de avião. Era uma mensagem muito ambígua, falava que ‘se a professora diz que pulverização aérea não é uma coisa segura, então eu convido a professora a dar uma voltinha no avião pra ver como tem segurança'”, conta.

No ano passado, sua casa foi assaltada. Bombardi tomou a decisão de sair do país. Transferiu-se para a Bélgica e segue sua carreira acadêmica na Universidade Livre de Bruxelas. Em entrevista à DW Brasil, ela dá detalhes sobre as ameças sofridas.

DW Brasil: Ameaças e um assalto… Quando você percebeu que era hora de deixar o Brasil?

Larissa Mies Bombardi: Depois que eu lancei em inglês o atlas [Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia], em 2019, foi a primeira vez que perdi o sono. Entendi que havia um risco e começaram as intimidações, umas mais veladas, outras menos. Precisava me proteger, proteger meus filhos e ficar fora do Brasil.

Pode descrever alguma ameaça que recebeu?

Foram várias coisas, mas teve um e-mail de uma pessoa que se identificou como piloto de avião. Era uma mensagem muito ambígua, falava que “se a professora diz que pulverização aérea não é uma coisa segura, então eu convido a professora a dar uma voltinha no avião pra ver como tem segurança”. […] Então a maior rede de orgânicos da Escandinávia [a Paradiset, da Suécia] passou a boicotar produtos brasileiros por conta do meu trabalho. Um professor da USP, Wagner Ribeiro, falou que eu não podia lidar com isso sozinha.

Como a USP se posicionou?

Esse professor contatou a diretora da faculdade [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a FFLCH], que nos recebeu e pediu um dossiê. Na manhã seguinte, ela contatou o reitor, que concordou que eu precisava deixar o país, seguir por um período meu percurso acadêmico fora. A reitoria se mostrou sensível e ofereceu a guarda universitária para me proteger. Não quis, achei que emocionalmente seria muito pesado lidar com isso. Recebi orientações de lideranças de movimentos sociais para evitar as mesmas rotinas, os mesmos caminhos.

No fim do ano [de 2019], fui convidada a falar no Parlamento Europeu, numa conferência sobre o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Ali me falaram que lidar com esses temas no Brasil era muito perigoso. Eu respondi que nunca tinha sido efetivamente ameaçada. “Mas não precisa, as coisas não acontecem com aviso sempre”, ouvi de volta.

Fiquei gelada, mas ainda falei: “Sou professora universitária, branca, tenho esse viés de classe e, infelizmente, do racismo estrutural que existe no Brasil.” Ouvi então que “Zuzu Angel [(1921-1976), estilista, vítima da ditadura brasileira] também era branca”. O plano passou a ser me mudar [para a Europa] em março [de 2020]. Mas aí veio a pandemia, precisamos adiar.

Em agosto do ano passado, sua casa foi assaltada… Acredita que uma coisa tenha relação com a outra?

Nunca vou saber se foi relacionado ao meu trabalho ou não. Mas levaram pouquíssimas coisas, o laptop que eu usava, que era velho. Não tinha sentido, estava defasado. Mas vasculharam minha casa por três horas, mantendo minha mãe e me mantendo sob tortura psicológica. Foi horrível. Vasculharam a casa inteira. Foi muito pesado, mas não sei se tem a ver com uma tentativa de intimidação ou com uma busca de dados.

Você está na Bélgica neste ano de 2021. Segue vinculada à USP?

Aprovei um projeto de pós-doutorado na Universidade Livre de Bruxelas, é um projeto sobre green criminology na Amazônia, um trabalho sobre conflitos ambientais. A reitoria [da USP] autorizou meu afastamento e estou trabalhando neste tema. Em maio lancei um novo atlas no Parlamento Europeu sobre as relações comerciais entre Mercosul e União Europeia. Chama-se Geografia das assimetrias, colonialismo molecular e círculo de envenenamento.

O que significam esses conceitos?

Mostro esse lugar de colônia que o Mercosul ocupa dentro da economia mundial, em especial na relação com a União Europeia. Colonialismo molecular, porque, se antes havia esse saque das riquezas naturais da América Latina, agora ele continua mas não é só um impacto físico, é um impacto químico, por causa dos agrotóxicos. Colonialismo molecular porque essas substâncias atingem nossas moléculas, causam um dano sem precedentes, de uma crueldade que a gente nunca tinha visto.

Essa suposta modernidade da agricultura, ela traz um ônus que nos oblitera, que potencialmente altera nossos corpos por conta de substâncias que não são autorizadas na União Europeia mas são vendidas por empresas da União Europeia, sem pudor em vender [para países como o Brasil] substâncias que são proibidas em seus próprios países por conta dos danos à saúde e ao meio ambiente.

Como foi a pressão sofrida quando você publicou uma pesquisa relacionando a covid-19 à suinocultura?

Publicamos no ano passado dois artigos sobre as possíveis correlações entre suinocultura e covid-19. Vimos uma certa correspondência espacial em Santa Catarina, ou seja, áreas com maior densidade de criação de porcos também eram áreas com maior número de casos, proporcionalmente, de covid. Ficou um trabalho interessante, mas apenas levantamos a hipótese de que os vírus não teriam sido trazidos pelos morcegos, mas pelos porcos, via morcegos, já que há muitas similaridades [dos humanos] com os porcos. E os porcos vivem praticamente imunodeprimidos, com todos os animais criados de maneira intensiva. Eles não têm como exercer seus hábitos mais básicos e então — vou falar com cuidado, entre aspas — eles “podem ser” laboratórios de vírus. São animais que defecam e comem no mesmo local […].

Associação Brasileira de Proteína Animal escreveu uma carta para a USP [desqualificando o trabalho da professora], a Embrapa também produziu uma nota técnica… Mas a gente estava trabalhando com uma hipótese, em momento algum afirmando ser algo definitivo. Encerramos o texto dizendo que é preciso mais pesquisas. Não tem outro jeito de caminhar na ciência se não for buscando hipóteses, né? É assim que a gente caminha. Estou há quase 15 anos na USP e nunca vi isso de perto, como estou vendo. Essa atmosfera invasiva das entidades se acharem no direito de contestar pesquisa, de fazer ameaça… Isso é ameaça à minha carreira.

Você se considera exilada?

Sim, de alguma forma me considero exilada porque [faz uma longa pausa] simplesmente ficou impossível permanecer no Brasil lidando com essa temática. É um terrorismo psicológico gigante, e eu precisava proteger a mim e aos meus filhos. Foi um alívio gigante sair do Brasil, e isso ilustra a condição de exílio.

Está muito desesperador e eu sei que não sou só eu, há outros pesquisadores que passam por coisas parecidas, de ameaças institucionais a ameaças externas. Isso ficou muito claro a partir do governo [do atual presidente Jair] Bolsonaro, ficou nítido. É uma indecência, a gente não tem tranquilidade para fazer pesquisa. A última vez que a gente viu isso foi quando? Na ditadura. A única diferença é que agora aparentemente vivemos num regime democrático. Mas, no fundo, estamos vivendo um período de exceção.

Planeja um dia voltar ao Brasil?

Não. Pelo menos não até o fim deste governo.

Pesticidas vetados na UE são detectados em frutas vindas do Brasil

Greenpeace identifica substâncias proibidas na Europa em frutas brasileiras vendidas na Alemanha, algumas produzidas por empresas alemãs. Organização critica “dupla moral” e alerta para efeitos do acordo UE-Mercosul.

Beleza tóxica? Estudo acusou agrotóxicos em 59 de 70 frutas tropicais analisadas

A organização ambiental Greenpeace mandou examinar amostras de frutas do Brasil comercializadas na Alemanha em busca de vestígios de agrotóxicos, e o alarmante resultado foi apresentado num relatório nesta quarta-feira (19/05): de 70 vegetais testados, 59 acusaram a presença de 35 diferentes substâncias pesticidas, sendo 11 delas não permitidas na União Europeia.

As mangas, mamãos, melões, figos e limões verdes comprados entre abril e maio em diversas partes da Alemanha foram submetidos a dois laboratórios independentes. Dois terços das amostras, continham resíduos de mais de um pesticida, com um mamão chegando a apresentar nove tipos diferentes. Em quatro casos os níveis ultrapassavam os limites permitidos.

Mais da metade das substâncias detectadas, 21 de 35, pertencem ao grupo dos pesticidas classificados como altamente perigosos para a saúde e o meio ambiente (HHP, na sigla em inglês).

Entre as substâncias detectadas que não são permitidas na União Europeia estão os inseticidas Imidacloprid e Chlorfenapyr, fabricadas pelas alemãs Bayer e Basf. No total, a Bayer fabrica 12 dos agrotóxicos encontrados, e a Basf, sete.

“Também as gigantes alemãs da química prejudicam seres humanos, animais e a natureza no Brasil. Um ciclo tóxico, pois, por sua vez, os vegetais contaminados vão parar na nossa salada de frutas na Alemanha”, criticou Jürgen Knirsch, especialista em comércio da Greenpeace, citado pelo jornal Süddeutsche Zeitung.

O relatório do Greenpeace destaca que o Brasil é o terceiro maior consumidor de pesticidas do mundo e utiliza muitas substâncias que não são permitidas na UE. Em 2019, 44% das substâncias aprovadas no Brasil não eram liberadas na UE. Além disso, 70% dos pesticidas usados no Brasil são classificados como altamente perigosos.

“Em abril de 2021, 3.231 pesticidas eram aprovados no Brasil. O governo Bolsonaro emitiu o recorde de 1.172 autorizações em apenas 845 dias de governo, sendo responsável por 36% de todos os pesticidas que podem ser comercializados legalmente no Brasil”, diz o texto.

Golpe para o acordo UE-Mercosul?

O achado é especialmente explosivo no contexto do planejado acordo de livre comércio UE-Mercosul. Com ele, o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai esperam obter melhores chances para seus produtos agrários nos mercados da Europa, enquanto os Estados-membros da UE contam exportar mais pesticidas, automóveis e outras mercadorias.

O Greenpeace reivindica uma suspensão do acordo, sobre o qual os ministros europeus do Comércio deverão deliberar ainda nesta penúltima semana de maio, em Bruxelas. O tratado UE-Mercosul é controverso: mesmo entre os governos europeus e no Parlamento Europeu encontra-se resistência veemente a ele.

Críticos acusam o governo brasileiro de promover o desmatamento na Amazônia, e que um acordo comercial poderia ainda agravar o problema. O mesmo se aplicaria à venda de pesticidas para a América do Sul: segundo o Greenpeace, em 2019 foi exportado um volume de pelo menos 915 bilhões de euros para os países do Mercosul.

Depois do Reino Unido e da França, a Alemanha é a terceira maior exportadora do setor para a região: em 2020, cerca de 12% dos agrotóxicos permitidos no Brasil foram vendidos pela Bayer e a Basf. O Greenpeace condena a “dupla moral alemã”.

“Mais de dois terços das substâncias vendidas por firmas alemãs no Brasil são classificadas como pesticidas altamente perigosos”, diz Knirsch. Diversos deles estão proibidos na UE, “apesar disso, a Alemanha permite a exportação de pesticidas tóxicos para o Brasil, e os conglomerados químicos alemães lucram com isso”.

As fabricantes se defenderam das acusações: segundo um porta-voz, “já desde 2012, a Bayer não vende mais agrotóxicos classificados como altamente tóxicos pela Organização Mundial de Saúde”. Tanto ela quanto a Basf ofereceriam há anos, em todo o mundo, cursos para que os agricultores empreguem os pesticidas devidamente.

Segundo o Süddeutsche Zeitung, uma representante da Basf declarou: “A segurança dos gêneros alimentícios é essencial para nós. Confiamos nas autoridades e nos sistemas de monitoramento de alimentos para examinarem e assegurarem a disponibilidade de produtos seguros e saudáveis.”

Supermercados alemães pedem que Berlim pressione Bolsonaro

Gigantes do varejo expressam preocupação com o desmatamento no Brasil e pedem que governo Merkel cobre uma mudança de rumo na política ambiental de Bolsonaro.

Supermercados afirmam evitar soja brasileira e preferir produtos de produção sustentável

Duas das maiores cadeias de supermercados da Alemanha, Edeka e Lidl, manifestaram preocupação com o desmatamento no Brasil e pediram que o governo alemão pressione o governo do presidente Jair Bolsonaro a conter a devastação ambiental.

“Tendo em vista o aumento da demanda global por soja e os desenvolvimentos na região amazônica, compartilhamos suas preocupações”, diz uma carta da Lidl enviada à eurodeputada alemã Anna Cavazzini, uma crítica ferrenha da política ambiental de Bolsonaro.

“A rede Edeka está observando os acontecimentos no Brasil com grande preocupação”, diz a outra rede, também em carta enviada à eurodeputada.

No documento, a Edeka também afirma que pediu que produtores de soja brasileiros se comprometam a atuar para que áreas do Cerrado não sejam destruídas e convertidas em zonas de cultivo.

A Edeka afirmou ainda que, enquanto membro da Federação Alemã do Comércio de Alimentos (BVLH), pediu que o governo da chanceler federal alemã, Angela Merkel, pressionasse o governo Bolsonaro a agir para conter o desmatamento e dar prioridade à proteção florestal.

A rede Lidl também é membro da federação que apresentou o pedido ao governo alemão. “Na nossa visão, o desmatamento não é o único aspecto problemático, mas também o fato de que monoculturas em larga escala e uso intenso de pesticidas empobrece o solo e favorece a erosão”, disse o conglomerado.

Ambas as redes ainda afirmaram que estão comprometidas com a adoção de “cadeias de abastecimento sem desmatamento”. A Lidl, por sua vez, afirmou que o grupo prefere soja da União Europeia (UE) e incentiva a mudança para um cultivo de soja mais sustentável no Brasil.

De acordo com o jornal alemão Taz, que publicou uma reportagem sobre o posicionamento das duas redes, a declaração dos dois conglomerados pode aumentar a pressão para que o governo alemão reavalie seu rumo em relação ao Brasil.

No mês passado, Merkel acenou retirar seu apoio à retificação do acordo de livre comércio da UE com o Mercosul, referindo-se ao desmatamento da Amazônia. Entretanto, ela ainda não desistiu de modo definitivo do tratado.

Em maio, as principais redes de supermercados do Reino Unido ameaçaram boicotar produtos brasileiros se o Congresso Nacional aprovasse a polêmica lei de regularização fundiária, conhecida a “MP da grilagem”, posteriormente convertida em projeto de lei.

A carta aberta tem cerca de 40 signatários, incluindo algumas das redes de supermercados mais importantes do Reino Unido, como Tesco, Sainsbury’s, Morrisons e Marks & Spencer, além da rede Burger King, do fundo público de pensões sueco AP7 e de outras empresas de gestão de investimentos.

MD/ots

Na Europa, as mudanças climáticas trazem novas culturas, novas idéias

À medida que o clima da Europa mudar nas próximas décadas, algumas regiões terão cada vez mais dificuldade em sustentar as culturas tradicionais.

Mas com novas variedades e estratégias, alguns agricultores estão plantando de olho no futuro.

Com verões mais quentes, tempestades severas e períodos secos prolongados nas previsões, as perspectivas para os agricultores da Europa são assustadoras.

Prevê-se que as temperaturas médias anuais aumentem de 1 a 5,5 graus Celsius (1,5 a 10 graus Fahrenheit), com o aquecimento mais forte projetado no sul do continente nos meses de verão.

Um relatório de setembro de 2019 da Agência Europeia do Meio Ambiente (AEA) observou que o estresse térmico, eventos climáticos extremos como inundações repentinas e tempestades de granizo e escassez de água já mudaram as condições para várias culturas na Europa – especialmente para os alimentos básicos do Mediterrâneo, como azeitonas e uvas para vinho.

Enquanto isso, lugares no norte da Europa podem ter benefícios agrícolas com as mudanças climáticas, incluindo estações de crescimento mais longas e um período mais curto de geada “permitindo o cultivo de novas culturas e variedades”, afirmou o relatório. As terras cultiváveis adequadas ao redor do Mar Báltico podem mais que dobrar até 2100, de 32% da área atual para cerca de 76%, com certas culturas agora comuns ao sul da Europa criando raízes mais ao norte.

Reino Unido, vinhos escandinavos

Essas mudanças climáticas já deram frutos – literalmente. No estado alemão do norte da Baixa Saxônia, onde as temperaturas médias subiram quase 2 graus Celsius nas últimas décadas, alguns agricultores começaram a cultivar frutas tipicamente encontradas mais ao sul, como damascos e nectarinas. E o cultivo do vinho, tipicamente associado a mais encostas do sul da França, Espanha e Itália, agora está decolando em lugares como Dinamarca, Suécia e Reino Unido.

A Ryedale Vineyards, no nordeste da Inglaterra, produz vinhos britânicos desde 2006. Como uma das vinícolas mais ao norte do Reino Unido, depende principalmente de variedades híbridas resistentes a doenças, mais adequadas às regiões mais frias do norte da Europa.

A tendência de aquecimento das últimas décadas viu a indústria vinícola do Reino Unido quadruplicar em tamanho desde 2000, com as vinhas inglesas produzindo cerca de 13,2 milhões de garrafas em 2018. Mas a mudança climática apresenta outros desafios, incluindo padrões climáticos incomuns e aumento do risco de doenças associadas a verões mais úmidos. que estão ligadas às mudanças climáticas.

“Eventos climáticos imprevisíveis, secas e intensas tempestades de verão são um problema real e parecem ter aumentado em frequência”, disse Jon Fletcher, que administra a Ryedale Vineyards com sua família. Ele listou os desafios: geadas tardias, tempestades de granizo destrutivas e períodos de seca que podem durar meses. “Este ano já tivemos o maio mais ensolarado já registrado e nenhuma chuva há dois meses, então o clima imprevisível continua.”

“As mudanças climáticas representam um risco para a sustentabilidade do gerenciamento de vinhedos em escala global e, principalmente, na Europa”, disse Josep Maria Sole, do VISCA (Aplicativo Integrado de Clima Inteligente para Vinhas), um projeto financiado pela UE que visa ajudar a indústria vinícola da Europa desenvolver estratégias de adaptação a médio e longo prazo. Ele disse que as áreas produtoras de vinho sofrerão cada vez mais com intensas ondas de calor e secas e, em certas regiões da Espanha, geadas mais intensas na primavera, que podem danificar os brotos das videiras.

Blaz Kurnik, especialista em impactos das mudanças climáticas e adaptação no EEE, disse que essas temperaturas mais altas, especialmente os invernos mais quentes, também favorecem a introdução de novas doenças e pragas, incluindo a mosca da oliveira. Enxames crescentes estão ameaçando a indústria de azeite da Europa, responsável por cerca de três quartos do suprimento mundial. “No pior cenário, até 80% das oliveiras [italianas] serão afetadas por isso todos os anos”, disse Kurnik, acrescentando que as moscas também estavam infestando os olivais da Espanha.

Lichia, mamão: estas são as culturas futuras da Europa?
Manga, abacate e lichia: as futuras culturas comerciais da Europa?

A Itália, que ocupa a segunda posição no mundo em produção de azeite, teve uma colheita desastrosa em 2018. O mau tempo e a geada fizeram com que a produção caísse 57%, representando uma perda de quase € 1 bilhão (US $ 1,13 bilhão).

A Sicília é uma das principais regiões produtoras de azeite da Itália, juntamente com a Calábria e a Apúlia. Mas alguns agricultores começaram a focar sua atenção em culturas nativas das regiões tropicais, incluindo mangas, abacate e lichia.

As culturas tropicais foram introduzidas pela primeira vez na Sicília na década de 1970, mas nos últimos anos houve um crescimento exponencial dessas culturas e a introdução de novas espécies como o mamão, substituindo as frutas cítricas que “não são mais remunerativas”, disse Vittorio Farina, professor associado de agricultura na Universidade de Palermo.

“O clima favorável de muitas áreas da bacia do Mediterrâneo está promovendo o cultivo de frutas tropicais”.  “De fato, a produção predominante de manga e abacate está concentrada nos países tropicais, mas recentemente seu cultivo se espalhou fora das regiões geográficas tradicionais para a bacia do Mediterrâneo e, em particular, no Egito, Israel, África do Sul, Europa, principalmente Espanha e Itália”.

Farina disse que uma sucessão de invernos mais amenos favoreceu a expansão dos pomares de manga, abacate e mamão destinados aos mercados de exportação mais ao norte, embora os verões mais secos correspondentes e os eventos climáticos extremos continuem sendo um desafio.

“O problema da escassez de recursos hídricos para a agricultura impõe cada vez mais a introdução de espécies com pouca demanda de água”, afirmou Farina, sugerindo a possível introdução de frutas como a pêra. “Para a maioria das outras espécies tropicais, a irrigação nos meses quentes nas áreas secas é uma condição essencial para a obtenção de um produto de qualidade”. Farina disse que estava testando estratégias de irrigação de precisão para limitar a pegada hídrica das culturas tropicais.

 

Meio Ambiente; Brasil exporta soja com desmatamento ilegal

A pandemia de Covid-19 é fruto da interação natureza-agricultura-alimento-saúde. Um estudo publicado na Nature em 2019 concluiu que 25% de todas as doenças infecciosas e 50% das doenças zoonóticas que contaminaram os seres humanos estavam associadas à agricultura.

A degradação ambiental e as mudanças climáticas aumentam ainda mais o risco de novas pandemias e, como alguns cientistas alertaram, o Brasil pode ser o epicentro de uma próxima. Estamos lidando tão mal com a prevenção e a mitigação da doença quanto com o esforço para evitar suas causas.

Nos últimos meses, enquanto a doença se alastrava por metrópoles, interior e territórios indígenas, o desmatamento da Amazônia continuou a subir assustadoramente. Por conta disso e na contramão do planeta, as emissões de gases de efeito estufa devem aumentar no Brasil neste ano, segundo projeção divulgada recentemente pelo Observatório do Clima.

Mais grave que isto é saber que grande parte do desmatamento é ilegal e acontece inclusive com commodities e em regiões consideradas modernas e competitivas da agricultura brasileira exportadora.

Foi o que encontramos em um estudo que lançamos recentemente, avaliando o desmatamento em fazendas produtoras de soja no Mato Grosso. Cruzando dados dos desmatamentos legalizados fornecidos pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado com um mapa de soja e com os polígonos de imóveis rurais, chegamos a resultados preocupantes.

Sistema de pivô central de irrigação usado em plantações de soja para aumentar o número de colheitas por ano. Este sistema usa uma grande quantidade de água, o que pode afetar o sistema de agricultura familiar nas proximidades. (Marizilda Cruppe / Greenpeace)
O estudo mostrou que por volta de um quarto (27%) do desmatamento total no Mato Grosso entre 2012 e 2017 ocorreu em fazendas de soja. Destes, 95% aconteceram sem autorização, ou seja, ilegalmente. Há um risco de que quase metade da soja de fazendas com desmatamento ilegal no Mato Grosso tenha sido exportada para a China e 14% para a União Europeia.
(Marizilda Cruppe / Greenpeace)

Em 2018, a França lançou uma estratégia nacional para eliminar o desmatamento associado à importação de commodities agrícolas até 2030. Nossas análises, porém, indicam que a França é o país mais exposto à importação de soja de áreas com desmatamento ilegal. Quase um quarto de toda a soja adquirida por ela vinda do Mato Grosso pode ter sido cultivada em fazendas com desmatamento ilegal.

Além dos inúmeros impactos ambientais e sociais provocados pelo desmatamento ilegal domesticamente, há também o comprometimento da imagem internacional e potenciais prejuízos aos interesses comerciais do Brasil.

É importante recordar que o país é um dos maiores produtores e exportadores de soja do mundo e que o Mato Grosso é o principal produtor e exportador do grão no país. Cerca de 75% da soja produzida no estado foi exportada em 2018. Um negócio que gera US$ 9 bilhões por ano.

Temos em andamento a negociação do acordo comercial UE-Mercosul, com uma cláusula preliminar que exige que cada país garanta o cumprimento de sua legislação ambiental ao longo de toda a cadeia envolvida em produtos exportados.

Também não podemos esquecer o nosso compromisso no Acordo de Paris de eliminar o desmatamento ilegal até 2030. Por fim, a pandemia certamente resultará em restrições e regulações cada vez mais rigorosas para o comércio internacional em relação à sustentabilidade, sanidade vegetal e animal e saúde humana.

Se o problema é grave do ponto de vista ambiental e econômico, a solução é urgente e plenamente viável. O problema está concentrado em poucas fazendas, que possuem registros em cadastros como CAR (Cadastro Ambiental Rural) ou o Sistema de Gestão Fundiária (SIGEF), localizadas em alguns municípios do estado. Mais da metade está concentrada em somente quinze municípios, como Paranatinga (10%) e Nova Ubiratã (5%). Oitenta por cento do desmatamento ilegal associado à soja ocorreu em apenas quatrocentas propriedades, o que representa apenas 2% do total das fazendas de soja do Mato Grosso. Grandes imóveis são responsáveis por 73% do problema.

Mecanismos para dar conta da ilegalidade e do desmatamento são conhecidos e já tiveram sua efetividade comprovada por meio de políticas públicas como o PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), uma referência global. Nosso estudo lista uma série de recomendações específicas para os governos internacionais, nacional e estaduais, para as traders, indústrias de alimentos, varejistas e instituições financeiras. A exigência do CAR e exclusão da compra de produtores ilegais pelas traders, o embargo de fazendas ilegais pelos governos, o aumento da transparência sobre dados de desmatamento e o fim do fluxo de investimentos para atividades ilegais estão entre as recomendações.

Também há sugestões para o aprimoramento da moratória da soja, acordo que há catorze anos garante que os signatários não comercializem soja cultivada em áreas desmatadas, legal ou ilegalmente, no bioma Amazônia. Sua eficácia é comprovada, porém, o estudo mostrou que a maior parte do desmatamento ilegal está localizado em fazendas do Cerrado. Além da sua expansão para este bioma, também é importante que o mecanismo monitore o desmatamento realizado nas fazendas de soja como um todo, incluindo aquele realizado para outras culturas. O problema não se limita a um pedaço de terra específico, pois todo o imóvel que cultiva soja é parte da cadeia, e a prática de desmatamento ilegal por seu empreendedor ou proprietário provoca riscos a toda sua produção.

O caminho para o fim do desmatamento é conhecido. Entre 2004 e 2012 foi possível reduzi-lo enquanto o país alcançava um significativo aumento de produção de soja e outras commodities. Neste período, o Brasil também conquistou mercados e reputação de potência ambiental.

Infelizmente, mudamos de direção nos últimos anos, com retrocessos que prejudicam a todos, sociedade, ambiente e economia. Devemos e podemos recuperar o nosso protagonismo. Para isso, não podemos deixar que uma parte pequena de produtores rurais continue apostando na ilegalidade e no desmatamento e prejudicando a imagem de todo o setor e do Brasil.

Luís Fernando Guedes Pinto é gerente de políticas públicas do Imaflora; Paula Bernasconi é coordenadora do ICV; e André Vasconcelos é pesquisador da Trase.

Unidade mais ameaçada da Amazônia, Resex Chico Mendes já perdeu 4 mil hectares desde agosto de 2019

Área desmatada na Reserva Extrativista Chico Mendes desde 2008 até 2019, ano em que registrou o recorde de 74,5 km² desmatados.

Fonte: DETER/INPE

Uma fonte local expressou sua preocupação com o avanço do desmatamento na Resex. “Esse ano, comparado com o mesmo período do ano passado, o desmatamento já está 50% maior, e ano passado foi bem crítico, perdemos mais de 70 km²”, comenta.

Diante dos números gerais de desmatamento, frente aos estados recordistas como Pará e Mato Grosso, a situação do desmatamento no Acre pode não chamar tanta atenção. Em 2020, por exemplo, o estado acumulou “apenas” 27,02 km² desmatados, de 1º de janeiro a 21 de maio, segundo dados do DETER/INPE. Porém, ao destrinchar o número, alguns fatos chamam atenção: cerca de 15% deste desmatamento ocorreu dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, e 36% do total desmatado no estado foi registrado nos municípios no entorno da reserva. Desde agosto de 2019, já são quase 40 km² (4.000 hectares) desmatados apenas na área protegida, o equivalente a 0,4% de toda reserva.

Em 2019, a Reserva Extrativista (Resex) viu o desmatamento bater a marca de 74,5 km², pouco mais que o triplo do registrado no ano anterior (24,6 km²) e recorde na série histórica desde 2008. Em 2020, o acumulado está em 4,14 km² até o dia 21 de maio, data mais recente disponível para consulta pelo sistema de monitoramento do DETER. A unidade ocupa a 5ª posição entre as unidades de conservação com maiores índices de desmatamento em toda Amazônia brasileira. Os piores meses do ano, entretanto, ainda estão por vir, já que é na época da seca, entre julho e outubro, que o desmatamento costuma registrar os índices mais altos, acompanhado da “época das queimadas”.

Reservas Extrativistas são categorias de unidade de conservação que permitem o uso sustentável dos recursos pelas comunidades tradicionais.

Na Chico Mendes, o território de 931 mil hectares (9.310 km²) é dividido em cerca de 2.000 colocações, como são chamados os pedaços de terra conferidos a cada uma das famílias que vive na Reserva.

Originalmente, as atividades econômicas que movimentavam a Resex eram apenas a extração da borracha e da castanha, mas nos últimos anos outra atividade tem se intensificado dentro e fora da unidade: a pecuária. A criação de gado não é permitida em reservas extrativistas, com exceção daquela feita em pequena escala para fins de subsistência.

“No entorno da reserva, no ano passado, houve áreas abertas de 500 hectares [5 km²] e pessoas comprando dentro da Reserva também. Ambos casos de grilagem, porque nessa área no entorno foi uma invasão também, tanto de áreas particulares quanto públicas. E exclusivamente o desmate que ocorre é pecuária, porque as áreas de plantios já estão estabelecidas dentro da reserva.

E tem gente tanto de fora quanto de dentro, das colocações, envolvida. Entre os que vêm de fora, existem duas modalidades: os que são dos municípios do entorno da unidade de conservação e os que são de fora do estado. Está ocorrendo uma leva muito grande de invasão do pessoal de Rondônia, desse pessoal que segue o Arco do Desmatamento. Existe uma desconfiança inclusive de que esses grupos de Rondônia estão ligados ao crime organizado e eles têm muita articulação política com os deputados federais e senadores da bancada do Acre”.

Uma das deputadas federais do estado, Mara Rocha (PSDB-AC), enviou ao Congresso o Projeto de Lei n.º 6.024/2020, que propõe a redução dos limites da Resex Chico Mendes, com a justificativa a “presença de pequenos produtores rurais, que ali já cultivavam pequenas plantações e criações de rebanhos de gado” desde antes da criação da área protegida e que teriam sido desconsideradas pela sua criação, o que transformou a região “em um ponto de conflito entre fiscais ambientais e famílias de agricultores”. No mesmo Projeto de Lei, está inclusa a recategorização do Parque Nacional da Serra do Divisor, de proteção integral, para uma Área de Proteção Ambiental (APA), categoria mais permissiva de unidade de conservação.

A deputada federal Mara Rocha com o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Foto: Facebook/Reprodução
Em novembro do ano passado, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se reuniu com infratores ambientais – em sua maioria autuados por grilagem dentro e fora da Resex – que reclamaram de suposta truculência dos fiscais do ICMBio, e o teriam convencido a suspender a fiscalização dentro da reserva, conforme apuração feita pela Folha de São Paulo. A deputada Mara Rocha também participou da reunião, assim como o senador da bancada acreana Marcio Bittar (MDB-AC).

A reunião ocorreu após a última grande ação de fiscalização na unidade, feita dentro da Operação Verde Brasil , com apoio das Forças Armadas, que operou entre 24 de agosto e 24 de outubro no combate às queimadas na região amazônica. Na época, foram feitas 27 autuações no âmbito da Reserva Extrativista referentes à desmates irregulares. Além do apelo ao ministro, as multas geraram uma tentativa de retaliação direta contra os servidores do ICMBio, com denúncias feitas ao Ministério Público Federal (MPF) de improbidade administrativa e abuso de autoridade que poderiam culminar na demissão dos fiscais. O MPF, entretanto, arquivou as denúncias.

“O quadro está defasado e tem esse fator de perseguição política”, resume a fonte sobre o cenário de fiscalização na unidade.

Está em curso desde o dia 11 de maio, a Operação Verde Brasil, feita com a coordenação das Forças Armadas através de um decreto publicado pelo presidente Jair Bolsonaro de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na Amazônia Legal. O decreto tem validade até o dia 11 de junho e pode ser prorrogado. Com o custo de R$ 60 milhões por um mês de operações, até o momento, há poucas informações disponíveis sobre a Operação, mas há uma forte expectativa de que o Exército possa voltar à região da Resex.

Desde novembro de 2017, a Resex Chico Mendes faz parte do Núcleo de Gestão Integrada – Chico Mendes (Portaria nº 783/2017) junto com a Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Seringal Nova Esperança, localizado no município de Epitaciolandia (AC). Juntas, as unidades somam aproximadamente 935 mil hectares (9.350 km²). A equipe do Núcleo, entretanto, é de apenas 7 pessoas, sendo 4 analistas ambientais e 2 técnicos, chefiados por Aécio dos Santos, que exerce cargo comissionado; segundo informações disponibilizadas pela Diretoria De Planejamento, Administração e Logística do ICMBio (DIPLAN).

De 1º de janeiro de 2020 até 21 de maio, a ARIE Seringal Nova Esperança acumulou 0,11 km² de área desmatada, o equivalente a 0,4% de todo seu território, de 25,73 km² (2.573 hectares). Assim como a Reserva Extrativista, a Área de Relevante Interesse Ecológico é uma unidade de conservação de uso sustentável.

Desde fevereiro, circula a proposta de reformular o Núcleo de Gestão Integrada (NGI), com a inclusão de outras duas unidades de conservação: a Estação Ecológica do Rio Acre, com 79.395 hectares (793,95 km²), e a Floresta Nacional do Iquiri, com 1.472.598 hectares (14.725,98 km²). Com isso, o NGI, que seria renomeado Rio Branco, pois teria sua sede administrativa no município, passaria a englobar um território de mais de 2 milhões de hectares (24.861 km²), uma área maior que o estado de Sergipe. Cada uma dessas unidades possui apenas um funcionário/chefe; um cargo comissionado na Estação Ecológica e um técnico ambiental na Floresta Nacional (Flona). Ou seja, para fins de fiscalização, poder restrito apenas aos analistas do órgão, não haveria nenhum incremento na equipe.

De vermelho, as unidades que compõem o NGI Chico Mendes. De azul, as duas unidades que devem ser incorporadas ao NGI.
Fonte: Google Earth

“A Seringal Nova Esperança é pequena, mas cheia de problema. E a Flona Iquiri, que fica na fronteira do Acre com o Amazonas, é tão complicada quanto a Resex Chico Mendes na questão de invasão. Então, de certo modo, a equipe vai se dissolver ainda mais num território de mais de 2 milhões de hectares. Vai deixar de ser feita a gestão no território para ser feita a gestão no escritório. Porque das 4 unidades do NGI proposto, 3 são extremamente problemáticas e exigem esse trabalho de gestão de documentos, responder ao MPF, à Justiça Federal… Se a equipe já é insuficiente hoje, imagina com essas 4 unidades para cuidar?”, pontua a fonte , que reforça também que a equipe atual do NGI não foi consultada sobre a reformulação.

“Além disso, na Flona Iquiri, a maior parte dos invasores e infratores são de Rio Branco, ou seja, você vai fiscalizar, faz flagrante, traz para delegacia e no outro dia você pode encontrar o cara no meio da rua. Então é colocar os fiscais numa situação de ainda mais perigo”, comenta, em referência à sede administrativa do NGI ser na capital acreana. A Floresta Nacional do Iquiri está localizada no Amazonas, mas sua proximidade da fronteira com o Acre e da capital, fez com que ela fosse englobado na extinta Coordenação Regional 7 do ICMBio, de Rio Branco.

A unidade de conservação federal mais ameaçada e pressionada

Um estudo publicado pelo Instituto Do Homem E Meio Ambiente Da Amazônia (Imazon) em março deste ano, aponta a Resex Chico Mendes como a área protegida com mais ameaça na Amazônia e a terceira com maior pressão, atrás apenas de duas Terras Indígenas. Entre as unidades de conservação federal, a Chico Mendes lidera ambas as categorias, sendo mais ameaçada e mais pressionada. O período avaliado foi de novembro de 2019 a janeiro de 2020.

De acordo com os parâmetros do levantamento, ameaça é a medida do risco iminente de ocorrer desmatamento no interior de uma área protegida, sendo considerada uma distância de 10 km para indicar a zona de vizinhança de uma área protegida na qual a ocorrência de desmatamento indica ameaça. E pressão é quando o desmatamento se manifesta no interior da área protegida, levando a perdas de serviços ambientais e até mesmo à redução ou redefinição de limites.

No estudo (que pode ser acessado aqui), que faz um ranking das unidades de conservação federais, a Flona do Iquiri também aparece e ocupa o 5º lugar entre as mais ameaçadas.

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Desmatamento na Amazônia ultrapassa 10 mil km2 e tem maior índice desde 2008

Houve uma variação de 3,76% acima da taxa estimada pelo Prodes em novembro de 2019, que era de 9.762 quilômetros quadrados.

Foto: Márcio Isensee e Sá.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) revisou os dados de desmatamento ocorridos em agosto de 2018 a julho de 2019. Foram 10.129 quilômetros quadrados desmatados na Amazônia, o equivalente a quase duas vezes a área do Distrito Federal (5.802 km²) de floresta derrubada. Os números são do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes). Desde 2008, quando o Prodes registrou quase 13 mil km² desmatados, que o índice não era tão alto.

O território desmatado corresponde a um aumento de 34,41% com relação ao período anterior, entre agosto de 2017 e julho de 2018, quando o desmatamento atingiu a marca de 7.536 km².

A taxa consolidada atualiza os dados preliminares, divulgados no final de 2019, de 9.762 quilômetros quadrados. Houve uma variação de 3,76% acima da taxa estimada pelo Prodes em novembro de 2019. Desde 2008 o INPE divulga os dados preliminares do Prodes antes das Conferências das Partes (COP) do Clima, que ocorrem no fim do ano. Entre maio e junho, sai os dados consolidados do desmatamento.

Estados que mais desmataram

O Pará foi o estado que mais desmatou com 4.172 km², sendo responsável por 41,19% de todo o desmatamento na Amazônia Legal. Mato Grosso, Amazonas e Rondônia seguem na lista dos maiores desmatadores, com 1.702 km², 1.434 km² e 1.257 km² respectivamente. Juntos, estes quatro estados responderam por 84,56% de todo o desmatamento.
Fonte: Prodes/INPE.

O Prodes utiliza imagens do satélite Landsat e similares que conseguem detectar desmatamentos acima de 6,25 hectares (0,0625 km²) e considera como desmatamento a remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso, independentemente da futura utilização destas áreas.

Governo volta a falar de queda de desmatamento, mas sem apresentar dados.

Contrariando a tendência de aumento do desmatamento apontada pelos números do Deter, o sistema de alerta de desmatamento do INPE, o vice-presidente Hamilton Mourão disse durante reunião do Conselho de Governo, que “o desmatamento no mês de maio caiu ao mínimo comparado com anos anteriores. Então o nosso primeiro objetivo foi conquistado”. Segundo Mourão, a queda seria resultado da Operação Verde Brasil 2, coordenada pelas Forças Armadas, que completa 1 mês no dia 11 de junho. A reunião foi transmitida ao vivo pela TV Brasil e pode ser conferida no vídeo na íntegra, do canal no Youtube.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

De acordo com dados do DETER, sistema de monitoramento que que lança alertas sobre mudanças de vegetação e acompanha o desmatamento quase em tempo real, entre os dias 1º e 28 de maio – data mais recente disponível – de 2020, foram registrados 641,19 km². Esse valor já é superior aos índices de desmatamento registrados pelo Inpe em 2016 (408,1 km²), 2017 (363,3 km²) e 2018 (550,2 km²) e só perde para maio de 2019, quando o desmatamento registrado foi de 739,7 km².

Ainda na reunião do governo, Mourão acrescentou que o próximo objetivo é reduzir as queimadas. “O segundo [objetivo] é não permitirmos que no segundo semestre ocorram as queimadas na extensão que ocorreram ano passado. A meta para o nosso governo é, pura e simplesmente, termos um número de queimadas inferior ao mínimo histórico, esse é nosso objetivo para o segundo semestre”, disse o vice-presidente.Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Labirinto de papéis e falta de transparência ocultam investimento em desmatadores

No ano passado, a jornalista Débora Gastal decidiu fazer um pé de meia para ter uma velhice mais confortável.

Aos 31 anos, ela se somou aos 13,5 milhões de brasileiros que têm uma previdência privada ou complementar – modalidade de investimento em que o banco usa o dinheiro do cliente para apostar no mercado financeiro em busca de lucro. Como trabalha em uma ONG com foco em mudanças climáticas, Gastal não queria financiar empresas de combustíveis fósseis ou outras companhias não comprometidas com o meio ambiente. Mas, sem saber, estava ajudando a capitalizar a indústria petroquímica, fabricantes de celulose e de agrotóxicos.

Ela tentou descobrir onde o Banco do Brasil estava colocando seu dinheiro, mas na agência, o gerente não soube dizer. Procurou, então, essa informação no relatório de investimentos, que recebe todos os meses por e-mail. Mas ali também não há menção às empresas nas quais estão aplicadas suas economias, apenas uma lista de fundos com nomes pomposos que as administram – Premium IV, Multi Dividendos I, Estratégia 2035 III, e assim por diante – e o quanto aquela aplicação está rendendo ao cliente.

“Eu queria poder selecionar as empresas em que estou investindo, para apoiar propósitos nos quais acredito. Mas tive que investir no escuro, apostando apenas na rentabilidade”, lamenta a jornalista.

Como Gastal, milhões de brasileiros que aplicam seus rendimentos em fundos podem estar apoiando empresas envolvidas em graves problemas ambientais. “Os fundos, sejam de previdência ou de ações, são estruturas intermediárias de investimento. Você está confiando seu dinheiro para um gestor, ou seja, está terceirizando estas decisões. E tradicionalmente os investidores sempre estiveram mais preocupados com o lucro das suas carteiras do que com riscos socioambientais de suas aplicações”, explica Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI, uma organização que trabalha para estimular os investimentos em iniciativas com impacto socioambiental positivo.
Se o objetivo do cliente for depositar suas economias em negócios bons para o planeta, é bom abrir o olho ao procurar alguma das 67 corretoras de ações e 94 distribuidoras listadas na CVM. São empresas que apostam em plataformas online amigáveis e pouca burocracia para conquistar o cliente não especializado. Uma de suas missões é orientar quem não entende direito o funcionamento do mercado sobre os melhores ativos nos quais investir – o que incluiria apontar riscos de papéis contaminados com práticas prejudiciais à natureza, conforme determina uma norma do Banco Central do Brasil: “instituições financeiras nacionais devem estabelecer critérios e mecanismos de avaliação de risco em operações relacionadas a atividades econômicas com maior potencial de causar danos socioambientais”.

Mas, se isso está sendo feito, não chega até a ponta da cadeia onde estão a jornalista Débora Gastal e outros clientes. Exemplo: em dezembro do ano passado, a XP Investimentos, uma das principais corretoras do país, que gerencia R$ 409 bilhões investidos por 1,7 milhão de pessoas, recomendava aos clientes que comprassem ações da JBS. “Os resultados da empresa devem continuar fortes com uma demanda pujante nos Estados Unidos […], crescimento das exportações do Brasil e ambiente favorável para o setor de proteínas devido à Peste Suína Africana na China”. No mesmo mês, o BTG Pactual também colocou a JBS como um “produto destaque” em sua prateleira de investimentos.

Parecem recomendações adequadas para a maior produtora de carne do planeta, que recentemente anunciou o melhor resultado de sua história, obtido no ano de 2019: um lucro recorde de R$ 6 bilhões. Mas a JBS é também a empresa mais exposta ao desmatamento no Brasil, segundo um estudo do Imazon. Com 32 frigoríficos na Amazônia, 21 deles ativos, a área onde estão seus potenciais fornecedores inclui 1,75 milhão de hectares embargados pelo Ibama em razão de crimes ambientais, 1,65 milhão de hectares de área desmatada entre 2010 e 2015 e outro 1,24 milhão de hectares de floresta com risco preocupante de sofrer derrubadas a partir de 2016, ano em que o trabalho dos pesquisadores se encerrou. No total, a atuação da JBS cobre 4,6 milhões de hectares desmatados ou sob risco de desmatamento, o que representa 1% de toda a extensão da floresta em território brasileiro.
Fachada do escritório da empresa JBS em São Paulo. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Grupos internacionais cobram responsabilidade

Informações como essa não constam no relatório da XP aos seus clientes, embora sejam relevantes para investidores internacionais. Em setembro de 2019, no auge das queimadas na Amazônia, um grupo de 254 gestores de capital de todo o mundo, cujas carteiras incluem ativos que superam em valor o PIB da China (um total de US$ 18 trilhões) publicou uma carta na qual manifestou preocupação sobre “o impacto financeiro que o desmatamento pode ter sobre as empresas investidas, pelo aumento dos riscos reputacionais, operacionais e regulatórios”.

Outro manifesto, esse assinado por 46 investidores donos de US$ 6,8 trilhões, endereçava-se especificamente ao setor da carne, e também cobrava a eliminação do desmatamento das cadeias de fornecimento. Ocorre que dois terços de tudo o que é desmatado na Amazônia e no Cerrado brasileiros são áreas depois transformadas em pasto. A cada ano, a Amazônia perde até 580 mil hectares de floresta para a pecuária – quase quatro vezes a cidade de São Paulo – ainda que já se saiba que não é necessário derrubar nenhuma árvore a mais para manter os ganhos econômicos do setor.

Conscientes de que a savanização da Amazônia, que virá na esteira de derrubadas descontroladas, afetará o clima planetário – o que “prejudicaria gravemente o setor agrícola e outras atividades econômicas, reduzindo as chuvas e aumentando a temperatura a longo prazo” –, os gestores que assinam a primeira carta alertam que companhias cuja reputação esteja contaminada pelo desmatamento vão “encontrar crescentes dificuldades para acessar os mercados internacionais”, impondo perdas econômicas aos negócios e, em consequência, ao bolso de quem injeta recursos neles.


Desmatamento na Terra Indígena Menkragnoti no sul do Pará. A pecuária é uma das primeira atividades econômicas a ocupar áreas recém desmatadas. Foto: Marcio Isensee e Sá.
“O movimento de investidores para incluir fatores socioambientais no processo de decisão começou por questões éticas. Mas com o passar do tempo, eles perceberam que isso reduzia os riscos dos investimentos e, eventualmente, poderia levar a ganhos superiores”, observa Pimentel, que clama por “mais massa crítica no Brasil”: “Precisamos de gente como a Débora Gastal, que questiona os porquês de o dinheiro estar indo para determinada empresa. O que mais se escuta dos gestores é que o investidor não quer saber disso”, lamenta o consultor.

Rastreamento dos grandes financiadores é impossível

O mesmo mecanismo que impede Débora Gastal de acompanhar a trajetória de seu dinheiro até a indústria petroquímica – que ela não apoiaria, se fosse consultada –, funciona para ocultar o apoio de grandes investidores a companhias comprometidas por práticas que agridem o meio ambiente. Mas enquanto a jornalista luta por mais informação, os peixes grandes nessa cadeia se beneficiam da falta de transparência, assegurando lucros sem mostrar a cara.

É verdade que há informação pública disponível no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Dois exemplos: a carteira de investimentos dos fundos nos quais o dinheiro de Gastal foi aplicado, e a composição societária das empresas que operam na bolsa de valores. Assim, qualquer cidadão pode constatar que o BNDES detém 21% da JBS.

Mas além de vender ações, as empresas que operam no mercado financeiro têm outras formas de levantar dinheiro, menos rastreáveis, porque não configuram uma participação direta na sociedade. Elas podem emitir títulos da dívida, obter empréstimos corporativos, e vender uma série de outros produtos aos quais o mercado financeiro dá nomes difíceis: debts, bonds, debêntures, etc.

Em busca desses investidores ocultos, a organização internacional Global Witness publicou um levantamento em setembro do ano passado, revelando os principais investidores das três empresas de carne que mais compram gado da Amazônia. O estudo tem nome sugestivo, Money to burn (“dinheiro para queimar”), e sua pretensão é indicar “como bancos e investidores financiam a destruição das maiores florestas tropicais do mundo”, incluindo a Amazônia. O documento mostra que além do BNDES, a JBS conta com aportes financeiros do American Capital Group, do BlackRock e do Deutsche Bank, o maior banco da Alemanha.

A Marfrig (a 5ª mais exposta ao desmatamento, segundo o estudo do Imazon) tem entre seus maiores investidores o Santander e a empresa norte-americana Brandes Investment Partners.

A Minerva, por sua vez, recebeu quase meio bilhão de dólares em crédito do Bank of America entre 2013 e 2019. E embora publicamente se proponha a combater a pobreza no mundo e a fomentar soluções sustentáveis, o Banco Mundial concedeu um empréstimo de US$ 62,5 milhões para a companhia, que é a 10ª no ranking de risco de desmatamento na Amazônia.

Ao todo, os três frigoríficos que operam na floresta receberam mais de US$ 18 bilhões em financiamentos entre 2013 e 2019 através de produtos financeiros, conforme análise desenvolvida pelo ((o)) eco a partir dos dados brutos da Global Witness. O valor foi levantado junto a 255 investidores, provenientes de 26 países. A maioria absoluta desse dinheiro é nacional (48,1%), mas Estados Unidos tem 22,7% de participação na bolada e Reino Unido, 12,1%. A Espanha, representada unicamente pelo Santander, ocupa a quarta posição, com 7,6% do total de investimentos.
Apesar de revelador, o levantamento da Global Witness não conseguiu ir tão a fundo quanto gostaria. Mais uma vez, o problema é a falta de transparência. Chris Moye, investigador florestal da Global Witness, explica que só é possível rastrear os recursos das empresas de capital aberto, que negociam suas ações na bolsa de valores brasileira. É este o caso de JBS, Marfrig e Minerva.

Mas cada uma destas companhias possui subsidiárias tanto no Brasil como no exterior – são empresas que elas controlam direta ou indiretamente, e que contribuem para seu negócio, mas que tem um CNPJ diferente. O problema é que muitas delas não vendem ações na bolsa, e portanto, não estão sujeitas aos controles de transparência sobre suas movimentações financeiras, como acontece com os CNPJs principais. “Os dados das subsidiárias são impossíveis de achar, é um mundo escuro que ninguém está conseguindo investigar. Sem falar que todas estas empresas usam paraísos fiscais, o que dificulta ainda mais a investigação. Só o fato de terem contas em paraísos fiscais indica que eles estão tentando esconder algo”, salienta Moye.

A Minerva, por exemplo, tem cinco controladas no Brasil e 24 no exterior – três servem unicamente para captação de recursos financeiros, e estão localizadas em paraísos fiscais – países onde os bancos não precisam identificar as pessoas e empresas por trás das transações financeiras. No total, são 29 empresas que fazem parte do negócio principal, mas nenhuma delas está sujeita aos controles do mercado de ações, pois todas têm capital fechado.
A situação é ainda mais complexa no setor de varejo, que compra e vende esta carne para os consumidores. O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, possui nada menos do que 67 controladas e 27 empresas associadas – deste total, apenas duas são de capital aberto e, portanto, podem ser examinadas a fundo.

Tantos as grandes indústrias da carne – JBS, Marfrig, Minerva – como as maiores redes de varejo – Pão de Açúcar, Walmart e Carrefour – vêm assinando pactos para assegurar a venda ao consumidor de carne livre de desmatamento ilegal. No caso dos frigoríficos, os principais são o Compromisso Público da Pecuária na Amazônia (uma iniciativa do Greenpeace, que depois abandonou o acordo) e o Termo de Ajustamento de Conduta formulado pelo Ministério Público Federal (MPF), que ficou conhecido como TAC da Carne. Mas em novembro do ano passado, quando o acordo completou 10 anos, o Procurador da República Daniel Azeredo foi categórico ao divulgar as novas auditorias do TAC: “Nenhuma empresa hoje que compra da Amazônia pode dizer que não tem gado vindo de desmatamento em sua atividade produtiva (…) Nenhuma empresa frigorífica e nenhum supermercado também”.
Rede de Supermercados em São Paulo garante 100% de monitoramento de sua carne, porém não é possível garantir que esteja livre de desmatamento. Foto: Fábio Nascimento.
Cultura do lucro se sobrepõe ao cuidado com meio ambiente

Pequenos poupadores são facilmente ignorados pelos gestores dos bancos. Mas os grandes investidores têm o poder de mudar as práticas do mercado financeiro. Bancos e corretoras de ações têm por hábito desenvolver produtos e políticas específicos para atender aos propósitos daqueles que possuem mais R$ 10 milhões para aplicar – no Brasil, apenas 0,23% de quem declara Imposto de Renda tem patrimônio próximo ou superior a esta faixa de valor. “Este é o número mágico, a partir do qual o investidor ganha um atendimento diferenciado”, anota Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI.

Mas na prática, a maioria dos pesos pesados está topando, por enquanto, financiar o desmatamento em troca de uma boa taxa de rendimentos.

Entre julho e setembro do ano passado, as queimadas na Amazônia Legal bateram recordes, chegando a 39.176 focos de incêndio em agosto, segundo dados do Inpe. Em dezembro, jornalistas investigativos mostraram, com base em dados do Imazon, que 70% dos alertas de incêndio emitidos pela Nasa neste período estavam nas áreas de compra dos frigoríficos – apesar de essa área cobrir menos da metade do território.

Dos 554 mil alertas, 250 mil (45%) ocorreram nas áreas de compra da JBS, 80 mil (14%) nas áreas de compra da Marfrig e 66 mil (12%) nas áreas de compra da Minerva. Mesmo assim, as ações da JBS seguiram em alta, chegando a R$ 33,2, o valor mais alto desde setembro de 2015.

“A maioria das empresas de carne se valorizou durante a crise das queimadas, porque com a gripe suína na China e a guerra comercial entre China e EUA, os investidores sabiam que a demanda pela carne brasileira iria crescer”, aponta Cole Martin, analista da Fitch Solutions. A empresa produz relatórios e previsões sobre diversos setores da economia, que auxiliam na tomada de decisão de clientes como empresários, investidores, bancos e governos.
“No mercado financeiro existe uma palavra mágica que é materialidade. Não adianta eu falar para o gestor do investimento sobre a floresta, o meio ambiente. Ele quer saber quantos bilhões vai perder com isso”, complementa Paulo Barreto, pesquisador-sênior do Imazon e observador atento do perfil de investimentos na cadeia da pecuária.

Já há notícias de instituições internacionais deixando de investir nas empresas de carne brasileiras. Mas isso não ocorre porque elas estejam envolvidas com desmatamento, e sim, com a corrupção. No caso da JBS, a materialidade do prejuízo em função da corrupção é clara. Em 2017, a empresa se comprometeu a pagar R$ 10,3 bilhões em um acordo de leniência na operação Lava Jato. Isso levou um grupo de acionistas da empresa a entrar na justiça contra a companhia, reclamando danos de R$ 1,4 bilhão em função dos escândalos envolvendo a classe política brasileira.

Esse movimento leva Barreto a crer que, caso o MPF tivesse multado a JBS em 2018, quando a empresa teve 19% de irregularidades na auditoria do TAC da Carne, o desmatamento geraria um prejuízo palpável, e poderia espantar investidores. Na época, o órgão preferiu não aplicar as sanções previstas no acordo judicial.

Um cenário mais favorável à penalização dos desmatadores começou a se desenhar também a partir da crise das queimadas de 2019, que foi usada por países europeus como argumento para um eventual boicote ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Fechado pelos poderes executivos dos países em junho do ano passado, o tratado ainda tem que ser aprovado pelos parlamentares dos países envolvidos. “Se o governo não conseguir lutar contra o desmatamento ilegal e reduzi-lo às taxas de 2017, acho que não tem nenhuma chance de ratificar [o acordo] na Alemanha”, disse o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, ao jornal Valor Econômico.

Além disso, diversos veículos de imprensa – inclusive internacionais – começaram a fazer a conexão entre o desmatamento e a indústria da carne, apontando seus financiadores. “Um dos elementos da materialidade é a reputação, que é relevante porque pode fazer as pessoas pararem de comprar daquela empresa e os agentes financeiros pararem de investir, ou ao menos emprestarem dinheiro a juros mais altos. Mas este movimento ainda está muito atrasado. As coisas não estão andando como deveriam”, conclui Barreto.

Contraponto: o que dizem as empresas

Resposta Brasilprev (leia a íntegra aqui):

A Brasilprev afirma que não compra diretamente ativos, mas sim fundos de investimento de gestores. Nessa atividade, a empresa faz um processo de engajamento junto à gestora para que todos os ativos que componham o portfólio da Brasilprev passem por avaliação das questões ASG (ambientais sociais e de governança). Essa avaliação feita pela gestora pode levar a eliminação de um ativo ou aumentar/diminuir o peso dos mesmos nos fundos.

Resposta BTG Pactual (leia a íntegra aqui):

O BTG Pactual afirma a equipe de Equity Research do BTG Pactual realiza análises fundamentalistas e independentes que têm como um dos seus objetivos definir recomendações de compra ou venda de ações de empresas listadas para seus clientes. São levados em consideração todos os fatores de risco que possam comprometer a capacidade das companhias de gerar valor, impactando os preços de mercado das suas ações, inclusive critérios ESG – do inglês Environmental, Social and Governance (ambientais, sociais e de governança).

No caso específico da JBS, a equipe de Equity Research do BTG Pactual publicou no último dia 6 de novembro relatório em que discute exclusivamente as iniciativas associadas aos critérios ESG da companhia.

Resposta da JBS (leia a íntegra aqui):

A JBS afirma que atende aos critérios socioambientais estabelecidos por todos os países mais relevantes do mercado mundial de proteínas. A companhia também possui um compromisso público de desmatamento e monitora toda a sua cadeia produtiva, com auditorias independentes anuais que “mostram que as compras de gado da Companhia não provêm de fazendas ligadas ao desmatamento”. A JBS também afirma que está investindo em projetos com o objetivo de aumentar o controle sobre os fornecedores indiretos.

Resposta da Marfrig (leia a íntegra aqui):

A Marfrig informa que mantém o Compromisso Público de Pecuária Sustentável assumido em 2009, de “Desmatamento Zero” no bioma Amazônia, e que também é signatária do TAC do Mato Grosso. A empresa afirma que utiliza sistemas de satélite para monitorar todos os seus fornecedores, e que pelo 7° ano consecutivo uma auditoria independente confirmou 100% de conformidade em suas compras. A Marfrig também pede que seus fornecedores informem, voluntariamente, os nomes dos produtores e fazendas dos quais podem ter adquirido animais previamente, como forma de aumentar o controle sobre os fornecedores indiretos.

Resposta da Minerva: (leia a íntegra aqui):

A Minerva afirma que auditorias do Compromisso Público de Pecuária Sustentável e do TAC da Carne comprovam a conformidade ambiental de suas compras no bioma Amazônia, que são 100% monitoradas. Sobre os fornecedores indiretos, a empresa diz que está “avaliando a possibilidade de testar uma ferramenta de cruzamento eletrônico de GTAs desenvolvida pela Universidade de Winsconsin, chamada VISIPEC”, que “pode auxiliar na definição de estratégias para mitigação de riscos de irregularidades de fornecedores indiretos”.

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Por que o futuro do agronegócio depende da preservação do meio ambiente no Brasil

Se hoje a bancada ruralista é a principal força pressionando o Congresso para flexibilizar a proteção ambiental, é consenso entre agrônomos e pesquisadores que o futuro do agronegócio depende da preservação ambiental.

PAULO WHITAKER/REUTERS

Agrônomos, biólogos e entidades como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) alertam que a destruição da vegetação nativa e as mudanças climáticas têm grande potencial para prejudicar diretamente o agronegócio no Brasil, porque afetam diversos fatores ambientais de grande influência sobre a atividade agrícola.

O principal deles é o regime de distribuição das chuvas, essenciais para nossa produção – apenas 10% das lavouras brasileiras são irrigadas. Com o desmatamento e o aumento das temperaturas, serão afetados umidade, qualidade do solo, polinizadores, pragas.

Eles dizem as notícias sobre o setor ambiental no Brasil não são animadoras: se o ritmo de desmatamento na Amazônia continuar como está, atingiremos em pouco tempo um nível de devastação sem volta. Junho foi o mês com mais desmatamento na Amazônia, 920,4 km², desde o início do monitoramento com sistema de alerta pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em 2015. Foi um aumento de 88% em relação ao mesmo mês no ano passado.

Ao mesmo tempo, as pressões e cobranças internacionais chamam atenção para a agenda ambiental do governo Bolsonaro, que tem flexibilizado a legislação ambiental e diminuído a fiscalização.

Direito de imagem GETTY IMAGES
A Floresta Amazônica é questão central no debate ecológico internacional

Crise iminente

Atualmente, o agronegócio é responsável por 21,6% do PIB brasileiro, segundo o Ministério da Agricultura.

Preocupados com questões como logística, estrutura e desafios comerciais como o vaivém das commodities no mercado internacional, a questão da sustentabilidade acaba não sendo prioridade para o setor como um todo.

“A questão da sustentabilidade, no sentido amplo, é uma preocupação. Mas em primeiro lugar vêm a estrutura e a logística e as questões comerciais”, afirma o agrônomo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura (2003-2006) e coordenador da área de agro da Fundação Getúlio Vargas.

No entanto, os riscos gerados pela devastação ambiental na agricultura são uma ameaça muito mais iminente do que se imagina, segundo o pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa.

Alguns estudos, como um feito por pesquisadores das Universidades Federais de Minas Gerais e Viçosa, projetam perdas de produtividade causadas por desmatamento e mudanças climáticas para os próximos 30 anos. Outros não trabalham com tempo, mas com nível de devastação, como o estudo Efeitos do Desmatamento Tropical no Clima e na Agricultura, das cientistas americanas Deborah Lawrence e Karen Vandecar, que afirma que quando o desmatamento na Amazônia atingir 40% do território (atualmente ele está em 20%), a redução das chuvas será sentida a mais de 3,2 mil km de distância, na bacia do Rio da Prata.Direito de imagem GETTY IMAGES

O agronegócio corresponde a mais de 20% do PIB brasileiro

Para Assad, que também é professor da FGV Agro e membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, os efeitos da destruição do ambiente e das mudanças climáticas já começam a ser sentidos.

Ele cita, por exemplo, o relatório da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) que mostra a perda de mais de 16 milhões de toneladas na safra de soja deste ano devido a seca que atingiu as principais regiões produtoras desde dezembro. “Já há evidências de que as mudanças climáticas aumentaram o número de eventos extremos, como secas e ondas e calor”, afirma Assad.

Há duas ameaças principais, segundo Lawrence e Vandecar. A primeira é o aquecimento global, que acontece em escala global e que é intensificado pelo desmatamento. A outra são os riscos adicionais criados pela devastação das florestas, que geram impactos imediatos na quantidade de chuva e temperatura, tanto em nível local quanto continental.

Deficiência hídrica e temperatura

A maior parte da produção agrícola brasileira depende das chuvas – só 5% da produção total e 10% da produção de grãos são irrigados. Isso significa que mudanças na precipitação afetam diretamente nossa produção.

O regime de chuvas é afetado por uma série de fatores – desde a topografia até as correntes marítimas. Um fator importante é a dinâmica de evaporação e transpiração terrestres, ou seja, a umidade produzida pela respiração das árvores e plantas, explica o agrônomo da USP Gerd Sparovek, professor da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo.

Esse fenômeno, chamado de evapotranspiração, é especialmente alto em florestas tropicais como a amazônica – elas são o ecossistema terrestre que mais movimenta água, transformando a água do solo em umidade no ar e diminuindo a temperatura da atmosfera sobre elas.

“Ao cortar a vegetação natural que, durante o ano inteiro joga água na atmosfera, umas das principais consequências é a formação de menos nuvens no período seco”, explica Assad, da Embrapa. “Um estudo que acabamos de finalizar mostra um aumento significativo de deficiência hídrica do Nordeste ao Centro-Oeste”, diz.Direito de imagem GETTY IMAGES

A destruição da vegetação nativa e as mudanças climáticas vão prejudicar diretamente o agronegócio no Brasil.

Isso afeta as chuvas potencialmente até no Sudeste, já que há correntes de ar que normalmente empurram essas nuvens para sul.

A destruição da vegetação nativa afeta até a duração das temporadas de chuvas e estiagem, segundo o estudo de Lawrence e Vandecar, que faz uma revisão da literatura científica e foi publicado em 2014 na revista Nature.

O corte da vegetação nativa também altera a temperatura e clima local, e potencialmente também o de regiões mais distantes, explica Sparovek, da Esalq. “As alterações, nesse caso, são sempre desfavoráveis.”

E isso vale não só para a Amazônia: a remoção do Cerrado, onde hoje se encontra a principal expansão da fronteira produtiva, também eleva a temperatura local.

Esse problema é reforçado pelo aquecimento global, que torna o clima mais instável e aumenta a frequência de extremos, como ondas de calor e estiagens e chuvas em excesso. E o desmatamento só intensifica esse processo.Direito de imagem GETTY IMAGES

Risco para o agronegócio é maior quando altas temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição das chuvas

O risco para o agronegócio é especialmente grande quando altas temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição das chuvas – isso diminui a produtividade das lavouras e pode comprometer safras inteiras, diz o biólogo.

Um efeito adicional do comprometimento da disponibilidade de água tem a ver com a produção de energia elétrica, que também é importante para o agronegócio, aponta Sparovek. Um clima mais seco ou maiores períodos de estiagem podem comprometer a vazão dos rios e dos reservatórios, afetando diretamente a produção de energia, já que nossa matriz energética é em sua maioria dependente de hidroelétricas.

Perda de área produtiva

A retirada total das florestas também gera outros problemas relativos aos recursos hídricos além da chuva, explica o biólogo Jean Paul Metzger, professor da USP e doutor em ecologia de paisagem.

A retirada da vegetação nativa retira a proteção do solo, que não é reposta mesmo se a área virar uma plantação, já que as raízes das plantas cultivadas são muito superficiais. O solo cultivado também tem pouca permeabilidade.

Isso dificulta a infiltração da água no solo, o que gera dois problemas. Um é a falta de reposição da água nos lençóis freáticos. A outra, é um processo de erosão e poluição dos rios.

“A chuva vai escoando superficialmente e levando o solo junto, há uma perda da camada mais fértil, vai tudo para o rio” diz Metzger. “E a partir de um certo momento você não tem como reverter, há uma perda de área produtiva via erosão.”

Reserva Legal

A melhor forma de evitar esse processo é manter a vegetação nativa – inclusive nas propriedades rurais, onde a cobertura florestal pode fazer uma filtragem das enxurradas antes de chegarem ao rio. Metzer aponta que as propriedades produtivas devem ter cerca de 30% de cobertura florestal, na média, para que o ciclo hidrólógico e os chamados serviços ambientais funcionem normalmente.

Serviços ambientais são benefícios trazidos ao cultivo pelo ecossistema, como, por exemplo, a polinização e o controle natural de pragas.Direito de imagem LARISSA RODRIGUES

O processo de respiração e transpiração das árvores afeta diretamente o regime de chuvas.

“Paisagens onde há produção agrícola em desequilíbrio com o ambiente são poucos favoráveis à produção. Os inimigos naturais das pragas e doenças de plantas desaparecem, e a produção passa a depender cada vez mais de agrotóxicos”, diz Sparovek, da Esalq.

Daí, dizem os pesquisadores, vem a importância da manutenção das reservas legais – áreas de mata nativa dentro de propriedades rurais cujo desmatamento é proibido por lei. O índice de proteção exigido é de 80% na Amazônia, de 35% no Cerrado e de 20% nos outros biomas.

O assunto esteve em pauta nos últimos meses, graças a um projeto do senador carioca Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, que quer acabar com as reservas legais, citando o “direito à propriedade”. Pela Constituição, no entanto, nenhum direito à propriedade é absoluto no Brasil – a construção em propriedades urbanas, por exemplo, fica restrita às leis de zoneamento municipais.

Agrotóxicos

O uso indiscriminado de agrotóxicos também é um problema ambiental que acaba se voltando contra o próprio agronegócio.

Ele afeta principalmente os cultivos que dependem da polinização, já que os animais polinizadores – abelhas, besouros, borboletas, vespas e até aves e morcegos – são fortemente afetados por alguns tipos de inseticidas e até por herbicidas usados contra pragas em lavouras, sofrendo desde morte por envenenamento a desorientação durante o voo.

Das 191 culturas agrícolas de produção de alimentos no país, 114 (60%) dependem de polinizadores, segundo o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Em resultado de safra, cerca de 25% da produção nacional é dependente de polinização, segundo Assad, da Embrapa.

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Desmatamento e agrotóxicos prejudicam culturas que dependem de polinização

Além disso, o uso excessivo de agrotóxicos em espécies resistentes se torna um problema para produtores vizinhos de cultivos que não tem a mesma resistência. Produtores de uva do Rio Grande do Sul têm registrado milhões de reais de prejuízo por causa do herbicida 2,4-D, usado em plantações de soja. Ao se espalhar para as propriedades produtoras de uva, ele chegou a reduzir a colheita de uva em até 70%, segundo produtores do Estado.

O Instituto Brasileiro do Vinho chegou a defender a proibição do uso do agrotóxico na região. O noroeste gaúcho é campeão nacional no uso de agrotóxicos, segundo um mapa do Laboratório de Geografia Agrária da USP com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Questão da Produtividade

Até hoje, olhando a série histórica, a produtividade do agronegócio no Brasil só aumentou. A produção do milho, por exemplo, subiu de 3,6 ton/ha em 2009 para 5,6 ton/ha em 2019 (previsão), de acordo com dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

“O aumento da produção muitas vezes é usado como argumento pra dizer que não está acontecendo nada (em termos de efeitos da mudança climática). Mas a produtividade aumenta porque antes era muito baixa, porque estamos implementando as diversas tecnologias existentes”, afirma Assad, que também é membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. “O teto de produtividade do milho, por exemplo, é de 10 toneladas por hectare considerando a tecnologia existente.”

Isso não quer dizer, diz ele, que os efeitos da devastação não terão um impacto na produtividade.

Segundo cálculos no modelo feito por cientistas das Universidade Federais de Minas Gerais e Viçosa, em 30 anos as perdas na produção de soja podem ir de 25% a 60%, dependendo da região, graças ao desmatamento da Amazônia.

Até a pecuária pode ser afetada, com a produtividade do pasto caindo de 28% a 33% e alguns lugares deixando de ser viáveis para a atividade.

Expansão?

Mas por que ainda há resistência em aceitar a visão de que a devastação do meio ambiente prejudica o agronegócio?

Segundo Sparovek, da Esalq, narrativas que defendem a necessidade de expandir a fronteira agrícola não têm embasamento científico. Ele afirma que “quando se analisa a necessidade de expansão do agronegócio brasileiro prevista pelo próprio setor até 2050, não se vê necessidade alguma de desmatar e expandir a fronteira agrícola.”

“Temos áreas abertas o suficiente para produzir a demanda projetada e ainda restaurar a vegetação em uma quantidade enorme de terras”, diz o agrônomo.Direito de imagem GETTY IMAGES

Agrotóxicos afetam polinizadores e podem prejudicar lavouras vizinhas que não são resistentes a eles

Só na Amazônia, há 17 milhões de hectares cortados, desmatados e abandonados, segundo Assad, da Embrapa.

Além das terras abertas existentes, há uma enorme possibilidade de incremento da produtividade através de implementação tecnológica, afirma o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.

Assad, da Embrapa, afirma que soluções boas para a produção e para o ambiente – como técnicas de agricultura de baixa emissão de carbono e boas práticas de manejo de solo e água – têm se tornado cada vez mais acessíveis, e que uma maior organização de cooperativas agrícolas é necessária para aumentar o acesso dos pequenos produtores a tecnologias e avanços.

Sparovek afirma que a expansão da fronteira, especialmente na Amazônia, não interessa diretamente, não ajuda a produzir – especialmente com o avanço tecnológico que exige um terreno mais plano pelo tamanho e velocidade das máquinas. “Isso é uma agenda muito mais ligada à valorização imobiliária das terras e à grilagem. Quem se beneficia disso é o especulador do mercado de terras, lícito ou criminoso.”

Segundo Rodrigues, o Brasil é um país gigantesco que não tem “uma agricultura ou um agricultor”, mas diversos grupos com interesses diferentes. A existência de agricultores que não têm preocupação nenhuma com sustentabilidade ou com o longo prazo é “um pouco uma questão de educação, cultura e formação técnica adequada.”

“Temos 4,4 milhões de produtores que seguiram o Código Florestal e fizeram o Cadastro Ambiental Rural (mecanismos de regulação das práticas agrícolas)”, diz Assad. “É 1 milhão de agricultores que fazem essa confusão toda. É só um povo que produz como na idade média (que tem interesse no desmatamento).”

Como desenvolver a economia na Amazônia sem desmatar

Autor de livro sobre práticas sustentáveis na Amazônia explica por que associar desenvolvimento econômico ao desmatamento é uma falácia e indica novos caminhos para gerar riqueza sem destruir.

Quem defende o desmatamento de áreas na Amazônia costuma dizer que ele é necessário para levar progresso à região e desenvolvê-la economicamente. Essa foi uma das teses do regime militar para o bioma e segue presente em setores do governo federal e em parte dos empresários do agronegócio. Sob esse lógica, manter a floresta reduz a possibilidade de um país carente como o Brasil gerar riqueza.

O conflito entre preservar a floresta e desenvolver a região, porém, é uma ideia errada e fora de lugar, afirma Ricardo Abramovay, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP). Ele lançou em outubro o livro Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, em que analisa e propõe formas de conservar a mata e gerar crescimento econômico ao mesmo tempo.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

Como desenvolver a região da Amazônia sem desmatar?

Ricardo Abramovay: Primeiro, é necessário corrigir os rumos do que já se faz. Os produtores de soja devem reiterar o compromisso da Moratória da Soja e respeitar a regra de que não se compra soja de terras recentemente desmatadas. A pecuária precisa se tornar racional e sustentável.

Hoje, a pecuária na Amazônia é em grande parte de baixíssima produtividade. E interromper as atividades ilegais ligadas ao garimpo e à exploração clandestina de madeira. Essas são as premissas, não adianta sonhar com outra coisa se não conseguimos nem um mínimo de organização empresarial civilizada em torno daquilo que já existe.

E como ir além disso para gerar mais riqueza na região?

A verdadeira alternativa é a economia da floresta em pé, em substituição à economia da destruição da natureza que predomina hoje. Essa economia do conhecimento da natureza é composta de elementos que já existem de maneira precária ou que ainda não existem, mas são potenciais.

Os que existem de maneira precária e precisam ser desenvolvidos referem-se às cadeias de valor baseadas em produtos da floresta em pé. O açaí é o exemplo mais emblemático, o rendimento de um hectare de açaí é muito superior ao de um hectare de soja [R$ 26,8 mil para o açaí e R$ 2,8 mil para a soja por ano em 2015].

Há outras cadeias de valor relativamente existentes, como castanha do pará, borracha e piscicultura, mas exploradas em condições muito precárias. A piscicultura de peixes de água doce em cativeiro na Amazônia tem a vantagem sobre as formas mais conhecidas de piscicultura em cativeiro, como o salmão. O peixes da Amazônia criados em água doce não são carnívoros, logo o impacto ambiental é mais baixo.

Além disso, o turismo ecológico no mundo cresce 15% ao ano, e na Amazônia ele tem um potencial de crescimento imenso. E você tem também todo um potencial de moléculas da biodiversidade para a produção de fármacos. O Brasil vive o paradoxo de ser o país com a maior diversidade do mundo e ter uma indústria farmacêutica concentrada na produção de genéricos, pouco voltada a inovações para as principais moléstias do século 21. É outro potencial para a valorização da floresta em pé que não estamos aproveitando.

Qual a relação entre desmatamento e crescimento econômico?

Quando o Brasil se destacou pelo combate vigoroso ao desmatamento, reduzido em 80% na Amazônia entre 2004 e 2012, ao mesmo tempo a produção agropecuária da região aumentou devido à tecnologia avançada aplicada nas áreas de produção de soja, sobretudo em Mato Grosso.

Se o desmatamento avança, quais são seus protagonistas? Às vezes dizem que quem desmata são os pobres que não têm alternativa de vida, mas não é assim. Desmatar é caro, exige investimento, máquinas, contratar trabalhadores. O desmatamento hoje é feito por grupos organizados, que, diante da mensagem de que a suposta indústria de multas não vai parar as suas atividades, se organizam na expectativa de terem legalizados direitos que não lhes foram reconhecidos sobre terras públicas. Essa é uma explicação importante para a explosão do desmatamento em 2019.

É claro que no desmatamento a economia cresce de alguma forma, você vende madeira, têm exploração de garimpo, mas é um crescimento baseado em ilegalidade e muito menor do que quando você tem condições legais para exercer as atividades econômicas. Um ambiente institucional que coíba o desmatamento ilegal é um ambiente em que investidores responsáveis poderão agir.

Que políticas públicas o Estado brasileiro deve desenvolver para incentivar a economia da floresta em pé?

A primeira é uma sinalização clara de que haverá fiscalização e que não será tolerada a permanência de atividades ilegais. É importante mudar a narrativa do governo federal, porque ela forma uma cultura empresarial. E a narrativa do governo hoje é que, se a Amazônia não for desmatada, os 25 milhões de pessoas que moram lá vão morrer de fome. Uma narrativa perniciosa que estimula os atores locais a adotarem as piores práticas.

Amazônia brasileira: uma história de destruiçãoDesmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Também é preciso valorizar o trabalho feito por organizações não governamentais, que junto com as populações tradicionais na floresta são os atores dessa economia do conhecimento da natureza. E apoiar a junção entre comunidade científica, organizações não governamentais e empresários voltados à exploração sustentável da floresta. Hoje existem algumas iniciativas fazendo isso, como o Centro de Empreendedorismo da Amazônia, mas sem qualquer tipo de apoio ou sequer entusiasmo governamental.

E também apoiar o multilateralismo democrático, destruído por razões ideológicas pelo atual governo. O Fundo Amazônia era uma das expressões mais emblemáticas da cooperação entre três países democráticos, Noruega, Alemanha e Brasil, para enfrentar o desmatamento.

Qual é o formato para estimular a inovação na exploração sustentável da floresta?

Uma proposta, do Carlos Nobre e do Ismael Nobre, são os laboratórios de inovação da Amazônia, para descentralizar o processo de inovação e multiplicar as possibilidades de junção entre conhecimentos tradicionais e científicos vindo da academia e das organizações que fazem pesquisa. As universidades têm papel importante, mas sozinhas não são capazes de fazer isso. Existe uma comunidade de pessoas com doutorado em municípios da Amazônia que podem ser a base para isso.

Agora, o formato exato ainda ninguém sabe, é por meio da experimentação, que precisa de apoio governamental. Nos Estados Unidos, quando se tem desafios dessa natureza, a Darpa (agência de pesquisa do departamento de Defesa) lança editais com desafios para estimular processos de experimentação. É importante estimular que grupos procurem dar respostas ao desafio.

Há um embate entre setores do agronegócio e ambientalistas sobre o grau de desmatamento a ser admitido na Amazônia: o desmatamento zero versus o desmatamento de até 20% nas áreas privadas, permitido pelo Código Florestal. Qual é a saída?

A pressão institucional para o desmatamento zero, não o desmatamento ilegal zero, é imensa. Ela se baseia na ideia de que os produtores [e consumidores] de soja querem dissociar o produto de qualquer perigo de desmatamento na Amazônia. E existem condições técnicas de a produção de soja se expandir no Brasil e no mundo sem desmatar a Amazônia e o Cerrado.Amazônia,Desmatamento,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Ecocologia,Agronegócio 01

Autorizar algo na Amazônia que não seja a economia da floresta em pé pode satisfazer as necessidades de um produtor individual, mas não os interesses do país e da preservação do ecossistema. Não há razão para não aderir ao desmatamento zero integral. Mas o dado importante é que o desmatamento que ocorreu em 2019 não foi o desmatamento desses 20% [autorizados por lei]: 90% do desmatamento de 2019 foram ilegais.

Como você avalia a postura do agronegócio brasileiro em relação à Amazônia?

Há um conjunto de empresários interessados em interromper a devastação na Amazônia, favoráveis ao desmatamento dos 20% [permitidos], mas apoiam a Moratória da Soja, não apoiam a invasão de terras públicas. Por outro lado, há um conjunto de atores econômicos oportunistas incentivando políticas predatórias. A oposição hoje não é bem agronegócio versus ambientalistas, porque uma parte do agronegócio está junto com os ambientalistas, mas dentro do próprio agronegócio.