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As catástrofes humanitárias esquecidas do planeta

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Etiópia, Madagascar, Haiti, Congo e Filipinas: estudo de ONG americana mostra as crises que acontecem longe dos olhos do grande público, praticamente ignoradas pela imprensa.

A Etiópia sofre com uma constante seca: mais de 80% da população etíope vive da agricultura

Inundações, secas, fome, violência, deslocamento: também em 2018, inúmeros países voltaram a ser palco de catástrofes naturais ou crises criadas pelo ser humano. Enquanto, por exemplo, as guerras na Síria e no Iêmen, a crise de abastecimento na Venezuela e os incêndios florestais na Califórnia dominaram as manchetes internacionais reiteradamente, outras catástrofes de dimensão parecida ou maior aconteciam longe dos olhos do grande público.

Entre outros, os motivos foram um acesso mais difícil dos meios de comunicação a certas áreas de crise que representavam um verdadeiro desafio para a cobertura internacional, além de orçamentos definhando nas redações, diz o estudo Sofrendo em Silêncio, em tradução livre, da ONG americana Care International. A análise apresenta as crises humanitárias que “obtiveram a menor cobertura midiática” em 2018.

Para realizar o estudo, a organização trabalhou em conjunto com o serviço de observação de mídias Meltwater, avaliando mais de um milhão de artigos online em inglês, alemão e francês, publicados do início de janeiro ao fim de novembro do ano passado. Concretamente, observou-se com que frequência crises que afetaram pelo menos um milhão de pessoas foram mencionadas na imprensa online.

Não foram consideradas matérias produzidas para a TV ou o rádio, nem para plataformas de redes sociais. Apesar da restrição às línguas mencionadas e aos veículos, os resultados “mostram uma tendência clara”, afirma o texto. O estudo elaborou uma lista com as dez crises sobre as quais menos se escreveu em 2018. Essas são as cinco menos noticiadas.

Haiti

Carros incendiados, ruas interditadas por barricadas, mortes: recentemente, os violentos protestos contra o governo voltaram a trazer o Haiti para os holofotes da opinião pública internacional. Mas, em 2018, uma crise alimentar causada, entre outros, por atrasos na colheita devido a uma seca no início do ano obteve muito menos atenção.

No Índice Global da Fome de 2018, o país caribenho, alvo constante de catástrofes naturais e que depende maciçamente de ajuda financeira internacional, ficou em 113º lugar entre 119 países. O país, politicamente instável, registrou “o maior nível de fome no Hemisfério Ocidental”, diz o relatório publicado pela ONG alemã Welthungerhilfe e pela ONG Concern Worldwide. A situação da segurança alimentar no país é “muito séria”, diz o índice.

Foto aérea mostra pessoas andando em caminho de terra em meio a campos agrícolas na comunidade de Kenscoff, na capital haitiana de Porto PríncipeCampos agrícolas no Haiti: crise alimentar foi ignorada, diz Care International

Segundo a lista IPC da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), entre outubro de 2018 e fevereiro de 2019, mais de 386 mil haitianos se encaixavam na categoria alimentar “emergência”. Segundo dados da FAO, atualmente, metade da população haitiana é subnutrida.

A Care denuncia que a dramática evolução praticamente não teve espaço na mídia. “Enquanto o grave terremoto no Haiti dominou as manchetes do mundo inteiro em 2010, a crise alimentar de 2018 no país caribenho quase não aconteceu nas notícias internacionais”, diz o estudo. Apenas 503 textos online teriam abordado o assunto.

Etiópia

Também o país no Chifre da África foi afetado por uma crise alimentar em 2018. Apesar do crescimento econômico acelerado, mais de 80% da população etíope vive de trabalhos relacionados à agricultura – uma fonte de renda constantemente ameaçada por secas. No ano passado, após dois consecutivos de estiagem, voltou a chover, mas em muitas regiões não foi suficiente.

Em outras áreas do país, por outro lado, colheitas foram destruídas por enchentes. Segundo dados do governo, como consequência, oito milhões de pessoas passaram a depender urgentemente de auxílio alimentar. Segundo as Nações Unidas, 3,5 milhões de pessoas estavam em situação aguda de “subnutrição moderada”, 350 mil sofriam de subnutrição “grave”.

Na lista das crises mais negligenciadas em 2018, a Etiópia figura duas vezes. Segundo o estudo da Care, apenas 986 textos na internet relatam sobre a fome no país. O deslocamento de centenas de milhares de pessoas também quase não foi tematizado. Segundo dados da ONU, entre abril e julho do ano passado, um milhão de pessoas tiveram que deixar suas casas por causa de violência étnica nas regiões de Gedeo e de Guji Ocidental. Assim, em 2018, mais pessoas se deslocaram internamente por conflitos do que em qualquer outro país do mundo.

Madagascar

No ano passado, vários incidentes meteorológicos destruidores levaram caos ao país insular no sudeste da África. Madagascar é um dos países do mundo mais afetados pelas mudanças climáticas. Em 2018, o fenômeno climático El Niño fez com que as plantações de arroz, de milho e de mandioca do país secassem.

As tempestades tropicais Ava e Eliakim obrigaram mais de 70 mil pessoas a fugirem. Pelo fato de as más condições de tempo terem impedido a produção de muitos grãos, o número de pessoas ameaçadas de fome no sul do país aumentou para 1,3 milhão, segundo a ONU.

Devido à peste pulmonar, funcionários equipados com mochilas de desinfetante percorrem as ruas de Antananarivo em 2017Peste pulmonar em Madagascar: funcionários desinfetam vias públicas e casas em 2017

Além disso, epidemias de sarampo e peste abalaram o país localizado ao largo da costa de Moçambique. Em 2017, epidemias de pneumonia e peste bubônica já haviam vitimado 200 pessoas. Na capital Antananarivo, a Organização Mundial da Saúde contou 6.500 casos de sarampo até o final de dezembro de 2018.

O motivo para a eclosão da epidemia são especialmente as baixas taxas de vacinação: apenas 58% da população são vacinados contra a doença. Segundo o relato da Care, os relatos sobre as crises em Madagascar foram bastante raros.

República Democrática do Congo

De acordo com o estudo, a situação na República Democrática do Congo também não concentrou muitas atenções da imprensa online em 2018. Apesar disso, segundo a Care, o país é dominado por um “círculo vicioso de violência, doenças e subnutrição”. O balanço do ano passado: 12,8 milhões de pessoas ameaçadas de fome, 4,3 milhões de crianças subnutridas, 500 novos casos de ebola que levaram à morte de 280 pessoas, segundo a OMS, e quase 765 mil pessoas refugiadas em países vizinhos devido à violência causada por conflitos entre milícias, especialmente nas províncias no leste do país.

Um número de menores de idade acima da média é vitima permanente do conflito: segundo uma análise recente da organização de defesa dos direitos das crianças Save The Children e do Instituto de Pesquisas da Paz em Oslo, a RDC pertence aos países do mundo em que as crianças mais sofrem com conflitos armados.

Mulheres congolesas participam de aula de ONG que reabilita, entre outros, vítimas de estupro sistemático. ONU estima em mais de 200 mil número de vítimas de violência sexual no Congo DemocráticoONU estima em mais de 200 mil número de vítimas de violência sexual no Congo Democrático

A violência sexual sistemática contra mulheres no país também não acaba. No total, as Nações Unidas estimam em mais de 200 mil o número de vítimas de estupros na antiga colônia belga. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) tratou 2.600 vítimas de violência sexual na cidade de Kananga entre maio de 2017 e setembro do ano passado, 80% delas teriam dito que foram violentadas por homens armados.

“Esses números são um indicador para o alto nível de violência também neste ano”, afirmou Karel Janssens, coordenador nacional do MSF para o país. Na esteira da entrega do Prêmio Nobel da Paz ao ginecologista Denis Mukwege, a violência sexual na RDC voltou a ser tematizada mais fortemente nos veículos de comunicação. Mas a Care destaca que os problemas no país integram as crises menos notadas do ano.

Filipinas

No dia 14 de setembro de 2018, o mundo olhava atônito para a costa leste dos Estados Unidos, onde o olho do furacão Florence atingiu o continente no estado da Carolina do Norte. A quase 14 mil quilômetros de distância e quase ao mesmo tempo, uma tempestade bem mais forte atingiu o litoral da ilha de Luzon, a principal das Filipinas.

A uma velocidade de 200 km/h, o tufão Mangkhut, o maior ciclone tropical do ano, tocou o solo na manhã do dia 15 de setembro. Segundo o estudo, apesar de a catástrofe ter afetado mais de 3,8 milhões de pessoas, ter matado 82 pessoas e ferido 130, pouco se ficou sabendo sobre o Mangkhut através da imprensa.

Vendedor de rua treme na chuva enquanto chuvas do tuão Yutu atingem a baía de Manila em outubro de 2018. Pouco depois do tufão Mangkhut, tempestade Yutu devastou Filipinas

Apenas um mês depois, o tufão Yutu  devastou várias comunidades já destruídas pelo Mangkhut e que já haviam iniciado os trabalhos de reconstrução. Globalmente, as Filipinas fazem parte dos países onde há maior risco de catástrofes naturais da Ásia. Vinte tempestades tropicais atingem o país insular no Pacífico ocidental todos os anos.

Segundo o Banco Mundial, os tufões matam, em média, mil pessoas anualmente. Além disso, o país está altamente exposto a riscos geológicos como terremotos e erupções vulcânicas. A Care denuncia que os furacões Mangkhut e Yutu fazem parte das crises invisíveis de 2018.
DW

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A verdade sobre a presença Norte Americana na África

USA,África,Blog do MesquitaO general da Marinha e comandante do Comando dos EUA na África, Thomas D. Waldhauser, fala à imprensa no Pentágono, em 10 de maio de 2018. Imagem: Pablo Matinez Monsivais/AP

OS MILITARES NORTE-AMERICANOS insistem há muito tempo que mantêm uma “leve presença” na África. Também existem relatos de propostas de retirada de forças de operações especiais e encerramento de atividades de tropas no continente, devido a uma emboscada ocorrida em 2017 no Níger e a um crescente foco em rivais como a China e a Rússia. Mas, em meio a tudo isso, o Comando dos Estados Unidos na África (Africom) falhou em fornecer informações concretas sobre suas bases no continente, deixando em aberto a pergunta sobre quais seriam as reais dimensões da atuação americana.

No entanto, documentos da Africom obtidos pelo Intercept através da Lei de Liberdade de Informação oferecem uma brecha única para a extensa rede de destacamentos militares americanos na África, incluindo locais previamente secretos ou não confirmados em pontos cruciais como a Líbia, o Níger e a Somália. O Pentágono diz que as reduções de tropas na África serão modestas e realizadas ao longo de vários anos e que nenhum destacamento será fechado como resultado de cortes de pessoal.

De acordo com um briefing elaborado em 2018 por Peter E. Teil, conselheiro científico da Africom, a constelação de bases militares inclui 34 locais espalhados pelo continente, com grandes concentrações no norte e no oeste, assim como no Chifre da África. Essas regiões, não surpreendentemente, também foram alvos de diversos ataques de drones americanos e ataques de infantaria de menor impacto nos últimos anos. Por exemplo, a Líbia – alvo de missões de infantaria e ataques de drones, mas para a qual o presidente Trump disse não ver nenhum papel dentro das forças armadas americanas no ano passado – é local de três postos militares até então não revelados.

“O plano de posicionamento do Comando dos EUA na África é feito para garantir acesso estratégico a locais-chave em um continente caracterizado por grandes distâncias e infraestrutura limitada”, disse o general Thomas Waldhauser, comandante da Africom, ao Comitê das Forças Armadas do Congresso neste ano, embora sem fornecer dados precisos sobre o número de bases. “Nossa rede de posicionamento permite encaminhar testes de tropas para fornecer flexibilidade operacional e respostas adequadas a crises envolvendo cidadãos ou os interesses americanos sem passar a ideia de que o Africom está militarizando a África.”

Segundo Adam Moore, professor assistente de geografia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e especialista na atuação militar americana na África, “está ficando mais difícil para os militares americanos afirmarem plausivelmente que têm uma ‘leve presença’ na África. Só nos últimos cinco anos, foi estabelecido o que talvez seja o maior complexo de drones do mundo no Djibuti – Chabelley – que está envolvido em guerras em dois continentes, no Iêmen e ainda na Somália.” Moore também apontou que os Estados Unidos estão construindo uma base de drones ainda maior em Agadez, no Níger. “Certamente, para pessoas vivendo na Somália, no Níger e no Djibuti, a noção de que os EUA não estão militarizando seus países soa muito falsa”, disse.

Nos últimos 10 anos, o Africom não apenas buscou definir sua presença como sendo de dimensões limitadas, mas também como se seus postos fossem pequenos, temporários, pouco além de bases locais onde soldados americanos não passam de inquilinos. Um exemplo disso é como o general Waldhauser descreveu um posto secreto de drones na Tunísia no ano passado: “E não é uma base nossa, é dos tunisianos”. Em visita a instalações americanas no Senegal recentemente, o chefe do Africom empenhou-se para enfatizar que os Estados Unidos não tinham intenção de estabelecer uma base permanente ali. Ainda assim, não há dúvidas sobre a dimensão da rede de postos do Africom ou de seu crescimento em infraestrutura. A Air Forces Africa sozinha, o componente de comando aéreo, recentemente concluiu ou está trabalhando em cerca de 30 projetos de construção em 4 países da África. “A atuação dos EUA no continente africano cresceu notoriamente na última década para promover interesses de segurança americanos no continente”, disse ao Intercept a comandante da Marinha Candice Tresch, porta-voz do Pentágono.

Enquanto China, França, Rússia e Emirados Árabes aumentaram seu próprio envolvimento militar na África nos últimos anos e vários outros países agora possuem postos no continente, nenhum atingiu o tamanho da presença americana. A China, por exemplo, possui apenas uma base na África – uma instalação no Djibuti.

De acordo com os documentos obtidos pelo Intercept através da Lei de Liberdade de Informação, a rede de bases do Africom inclui postos “permanentes” maiores, consistindo em locais operacionais avançados (FOS, na sigla em inglês) e unidades de segurança cooperativa (CLS, na sigla em inglês), assim como diversos outros recintos austeros conhecidos como locais de contingência (CL na sigla em inglês). Todos eles estão localizados no continente africano, com exceção de um FOS na Ilha de Ascensão, pertencente à Grã-Bretanha, no sul do Atlântico. O mapa de Teil do “Posicionamento Estratégico” do Africom nomeia os locais específicos de todos os 14 FOSs e CSLs e fornece localização específica em cada país para os 20 locais de contingência. O Pentágono, porém, não afirmou se o registro era completo, citando preocupações sobre fornecer publicamente os números de forças implantadas em postos específicos ou países em particular. “Por razões de segurança operacional, relatos completos do estabelecimento de forças específicas não são divulgáveis”, disse Tresch.

Como tropas e destacamentos vêm e vão periodicamente do continente, e alguns locais utilizados por forças de infantaria conduzindo missões complexas são provavelmente mantidos em segredo, o mapa de Teil representa o registro mais atualizado e completo disponível e indica as áreas do continente de maior preocupação para o Africom. “A distribuição de bases sugere que as forças armadas dos Estados Unidos estão organizadas em torno de três palcos do contraterrorismo na África: o chifre da África – Somália, Djibuti, Quênia e Líbia; e o Sahel – Camarões, Chade, Níger, Mali e Burkina Fasso”, disse Moore, da UCLA, observando que os EUA só possuem uma base no sul do continente e reduziu seu envolvimento no centro da África nos últimos anos.

USA,África,Blog do MesquitaO “Posicionamento Estratégico” do Comando dos EUA na África – listando 34 destacamentos militares – de um briefing de 2018 apresentado pelo Conselheiro Científico Peter E. Teil. O “Posicionamento Estratégico” do Comando dos EUA na África – listando 34 destacamentos militares – de um briefing de 2018 apresentado pelo Conselheiro Científico Peter E. Teil. Imagem: U.S. Africa Command

Níger, Somália e Quênia
O briefing de Teil confirma pela primeira vez que os militares americanos possuem atualmente mais postos no Níger – cinco, incluindo duas unidades de segurança cooperativa – do que qualquer outro país no lado oeste do continente. Niamey, a capital do país, é onde se localiza a Base Aérea 101, um posto americano de drones já antigo anexado ao Aeroporto Internacional Diori Hamani; o local de uma Base Avançada de Operações da força de Operações Especiais; e a central da África Ocidental para serviços de recuperação de pessoal e de evacuação de acidentes fornecidos pelo Africom. A outra CSL, no remoto centro de contrabando de Agadez, está estabelecida para se tornar o principal destacamento militar americano na África Ocidental. A base de drones localizada na Base Aérea Nigerina 201 não apenas ostenta um valor de construção de 100 milhões de dólares mas, contando com as despesas de operação, deve custar aos contribuintes americanos mais de 25 bilhões de dólares até 2024, quando o contrato de uso de 10 anos acabar.

Oficialmente, a CSL não é “nem uma instalação, nem uma base americana”. Ela é, de acordo com os militares, “apenas uma unidade que, quando necessário e com a permissão do país parceiro, pode ser utilizada pelos americanos para apoiar uma gama de contingências”. A dimensão, o custo e a importância totais de Agadez parecem sugerir o contrário. “Julgando pelo seu tamanho e pelos investimentos de infraestrutura até o momento, Agadez parece mais com as enormes bases que os militares criaram no Iraque e no Afeganistão do que com pequenas e discretas ocupações”, disse Moore.

A presença dos militares norte-americanos no Níger ganhou grande exposição no ano passado quando, em 4 de outubro, uma emboscada do ISIS na região do Grande Saara, próximo à fronteira com o Mali, matou quatro soldados americanos, incluindo os “boinas verdes” (membros das forças especiais), e feriu outros dois. Uma investigação do Pentágono sobre o ataque ajudou a jogar a atenção para outros importantes locais de presenta militar dos EUA no Níger, incluindo Ouallan e Arlit, onde forças das Operações Especiais (SOF, na sigla em inglês) realizaram ações em 2017, e Marandi, para onde as SOF foram enviadas em 2016. Arlit também apareceu como um possível local de contingência em um plano de posição do Africom, anteriormente secreto, obtido pelo Intercept. Ouallan, que estava listado em contratos trazidos a público pelo Intercept no ano passado, foi o local de uma força-tarefa das SOF para treinar e equipar uma companhia nigerina antiterrorismo, e também em outro para conduzir operações com unidades locais. Documentos de contratação de 2017 também mostraram a necessidade de mais de 16 mil litros de gasolina, cerca de 4,1 mil de diesel e quase 23 mil litros de combustível para aviação por mês a serem entregues a cada 90 dias em uma “instalação militar” em Dirkou.

Enquanto as cinco bases no Níger ancoram o oeste do continente, os cinco postos na Somália comandam no leste. A Somália é o centro dos serviços de recuperação e de evacuação de pessoal por parte de empresas contratadas, bem como é o nó principal para as operações de recuperação e evacuação de pessoal do próprio Exército. Estes locais, revelados nos mapas do Africom, pela primeira vez, não incluem uma base da CIA revelada em 2014 pelo The Nation.

Todas as instalações militares dos EUA na Somália, por serem locais de contingência, não são nomeadas no mapa do Africom de 2018. Anteriormente, Kismayo foi identificado como um importante local enquanto os nomes do plano de posicionamento do Africom de 2015 propunham CLs em Baidoa, Bosaaso, na capital, Mogadíscio e também em Berbera, no estado separatista da Somalilândia. Se o mapa de Teil estiver correto, um dos locais somalis fica nesta região. Reportagens da Vice News no início deste ano indicaram que havia seis novas instalações americanas sendo construídas na Somália, assim como a expansão de Baledogle, uma base para a qual um contrato de “reparos de pista de emergência” foi recentemente submetido.

De acordo com os documentos confidenciais obtidos pelo Intercept em 2015, tropas de elite de uma unidade conhecida como Força-Tarefa 48-4 estavam envolvidas em ataques de drones na Somália no início desta década. Essa guerra aérea continuou nos anos seguintes. Conforme a Foundation for Defense of Democracies (Fundação para a Defesa de Democracias), os Estados Unidos já conduziram 36 ataques aéreos na Somália somente neste ano comparados aos 34 em todo o ano de 2017, e 15 em 2016.

O vizinho da Somália, o Quênia, ostenta quatro bases americanas. Estas incluem unidades de segurança cooperativa em Mobasa e Manda Bay, onde um estudo do Pentágono de 2013 sobre operações secretas de drones na Somália e no Iêmen mostrou que duas aeronaves tripuladas tinham aquele local como base. O plano de posicionamento do Africom de 2015 também menciona unidades de contingência em Lakipia, local de uma base da Força Aérea Queniana, e outro campo de aviação queniano em Wajir, que passou por melhorias e foi expandido pela Marinha dos EUA no início da década.

Líbia, Tunísia e Djibuti
O mapa de Teil mostra um grupo de três locais de contingência não nomeados e anteriormente secretos próximos ao litoral líbio. Desde 2011, os Estados Unidos levaram a cabo cerca de 550 ataques com drones contra militantes da Al Qaeda e do Estado Islâmico na fechada nação do norte africano. Durante um período de quatro meses em 2016, por exemplo, houve aproximadamente 300 ataques desse tipo, segundo oficiais americanos. Esse número é sete vezes maior que os 42 ataques com drones confirmados pelos Estados Unidos na Somália, Iêmen e Paquistão somados, em todo o ano de 2016, de acordo com dados compilados pelo Bureau of Investigative Journalism, uma organização noticiosa sem fins lucrativos sediada em Londres. Os ataques na Líbia continuaram no governo Trump, com o mais recente episódio reconhecido pelos EUA tendo ocorrido perto de Al Uwaynat em 29 de novembro. O plano de posicionamento do Africom em 2015 listava apenas um posto em Al-Wigh, um campo de pousos no Saara próximo à fronteira com Níger, Chade e Argélia, localizado bem ao sul dos três CLs atuais.

O mapa do Africom também mostra um local de contingência na vizinha Tunísia, possivelmente a Base Aérea Sidi Ahmed, um posto-chave de drones mantidos pelos EUA na região, que teve um papel importante nos ataques à Líbia dos últimos anos. “Como se sabe, usar drones de inteligência, vigilância e reconhecimento a partir da Tunísia é algo que vem acontecendo há algum tempo”, disse Waldhauser, o comandante do Africom, no ano passado. “Nós voamos lá, não é segredo, mas respeitamos muito os desejos dos tunisianos em termos de como nós os apoiamos e o fato de que mantemos um perfil baixo…”

Djibuti é onde fica a menina dos olhos dos EUA no continente, a base de Camp Lemmonier, um antigo posto da Legião Estrangeira Francesa e o único local de operações avançadas do Africom. Um centro de longa data para operações antiterrorismo no Iêmen e na Somália e lar da Força-Tarefa Conjunta-Chifre da África (CJTF-HOA, na sigla em inglês), o Camp Lemmonier recebe cerca de 4 mil soldados norte-americanos e aliados e, segundo Teil, é a “principal plataforma” dos EUA para resposta a crises na África. Desde 2002, a base foi ampliada de 35 para quase 243 hectares e gerou um posto-satélite – um local de segurança cooperativa 10 quilômetros ao sudoeste, para onde as operações com drones no país foram levadas em 2013. O campo de pousos Chabelley tornou-se desde então uma base integral para missões na Somália e no Iêmen, e também na guerra de drones contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. “Os militares dos Estados Unidos continuam mobilizados no Djibuti, inclusive por razões de posicionamento para operações antiterrorismo e antipirataria nos arredores do Chifre da Ásia e da Península Arábica, bem como oferecer apoio de contingência no aumento de segurança das embaixadas no Leste Africano”, assinalou o presidente Donald Trump em junho.

Um mapa das bases dos EUA – locais de operação avançada, de segurança cooperativa e de contingência – no continente africano, encontrados nos documentos de planejamento do Africom para o ano fiscal de 2015. Um mapa das bases dos EUA – locais de operação avançada, de segurança cooperativa e de contingência – no continente africano, encontrados nos documentos de planejamento do Africom para o ano fiscal de 2015. Imagem: U.S. Africa CommandUSA,África,Blog do Mesquita 3

Camarões, Mali e Chade
O posicionamento estratégico do Africom inclui ainda dois locais de contingência em Camarões. Um deles é um posto no norte do país, conhecido como CL Garoua, utilizado em missões com drones e também como uma base para a Força-Tarefa Darby do Exército, que apoia tropas camaronesas que combatem o grupo terrorista Boko Haram. O Camarões também sedia um antigo destacamento em Douala, além de instalações dos EUA em Maroua e uma base próxima conhecida como Salak, também usada por militares americanos e funcionários terceirizados para missões de treinamento e vigilância com drones. Em 2017, a Anistia Internacional, a firma de pesquisas londrina Forensic Architecture, e o Intercept revelaram prisões ilegais, torturas e assassinatos cometidos por tropas camaronesas em Salak.

No vizinho Mali, há dois locais de contingência. O plano de 2015 do Africom lista propostas de CLs em Gao e na capital do Mali, Bamako. O mapa de 2018 também aponta a existência de um CSL na capital do Chade, N’Djamena, um local onde os EUA começaram a utilizar drones no início desta década; também é o quartel-general de um Elemento de Controle e Comando de Operações Especiais, que coordena um batalhão de elite. Outro local de contingência não-identificado no Chade poderia estar em Faya Largeau, um CL mencionado no plano de 2015 do Africom.

No Gabão, um local de segurança cooperativa existe em Libreville. No ano passado, tropas dos EUA promoveram um exercício na região para testar sua capacidade de transformar o CSL de Libreville em um posto de comando avançado para facilitar o influxo de um grande número de soldados. Um CSL também pode ser encontrado em Acra, Gana, e outro CSL está localizado em um pequeno complexo na Base Aérea Capitão Andalla Cissé em Dacar, no Senegal. “Esse local é muito importante para nós porque ajuda a mitigar questões de tempo e espaço em um continente do tamanho da África”, disse o comandante Waldhauser em uma visita à capital senegalesa no início deste ano.

Apenas uma base fica no sul do continente, um CSL na capital de Botsuana, Gaborone, que é mantida pelo Exército. Ao norte, o CSL Entebbe em Uganda tem sido uma base aérea importante há muito tempo para as forças americanas na África, servindo como uma central para aeronaves de vigilância. Ela também se mostrou integral para a Operação Oaken Steel, uma rápida mobilização de tropas ocorrida em julho de 2016 para resgatar equipes americanas após conflitos se iniciarem perto da Embaixada Americana em Juba, no Sudão do Sul.

“Aumentamos o poder de fogo”
Em maio, respondendo a questionamentos sobre as medidas tomadas após a emboscada de outubro de 2017 no Níger, Waldhauser falou sobre fortificar a atuação dos EUA no continente. “Eu não vou entrar em detalhes, mas nós aumentamos o poder de fogo, aumentamos a capacidade de vigilância, inteligência e reconhecimento, e melhoramos nossos tempos de resposta”, disse o comandante. “Nós encorpamos muitas coisas em relação à nossa posição com essas forças”. Esse poder de fogo inclui drones. “Estamos nos armando no Níger, e vamos usar isso conforme necessário”, afirmou Waldhauser no meio deste ano, fazendo referência à presença de aeronaves pilotadas remotamente, agora baseadas na região.

O Africom não respondeu aos vários pedidos para uma entrevista com Waldhauser.

Após meses de relatos que o Departamento de Defesa estava considerando uma grande redução nas forças de Operações Especiais na África, além do fechamento de postos militares na Tunísia, Camarões, Líbia e Quênia, o Pentágono agora diz que menos de 10% dos 7,2 mil militares do Africom serão retirados nos próximos anos, e que nenhuma base será fechada por conta disso. De fato, a construção de bases nos EUA vive um boom. Auburn Davis, porta-voz da Air Forces Africa, disse que a Força Aérea recentemente completou 21 projetos no Quênia, Tunísia, Níger e Djibuti, e ainda tem sete outros em andamento no Níger e no Djibuti.

“A proliferação de bases no Sahel, na Líbia e no Chifre da África sugere que as missões antiterrorismo do Africom nessas regiões do continente vão continuar indefinidamente”, disse Adam Moore, da UCLA. Horas após Moore tecer seus comentários, o Pentágono anunciou que seis empresas haviam sido escolhidas para um contrato de até cinco anos e 240 milhões de dólares para desenhar e construir instalações navais na África, começando pela expansão da pista no Camp Lemmonier, no Djibuti.
Nick Turse/TheIntercept

Fósseis e o mercado negro da paleontologia

Vende-se animal extinto: 3,50 reais cada umBenaqla Sadki trabalha procurando fósseis perto de Erfoud (Marrocos).

Benaqla Sadki trabalha procurando fósseis perto de Erfoud (Marrocos).

A exportação de fósseis é um setor desregulado, baseado na mão de obra barata e no qual convivem cientistas e colecionadores privados

Benaqla Sadki é um homem magro, de mãos rudes e quase sem dentes. Diz ter 45 anos, mas aparenta pelo menos 10 a mais. Ele vive na cidade de Erfoud, no sudeste do Marrocos, trabalha num buraco de cinco metros que cavou a golpes de pá e picareta. Retira os escombros escalando pelas paredes com uma agilidade espantosa.
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Levou um mês para abrir a fossa, e ainda terá que continuar cavando vários metros na horizontal antes de encontrar o que busca. Trabalha assim inclusive no verão, com temperaturas que superam os 40 graus. “Isto é o que tenho que fazer para ganhar o pão”, diz em francês. 

Há 450 milhões de anos, o deserto do Saara era o fundo do oceano situado em torno do Polo Sul. Fazia parte do supercontinente de Gondwana. As costas eram similares às da Antártida, e em suas águas viviam trilobitas, animais que desenvolveram olhos de vidro e exoesqueletos para se proteger de seus predadores, os ortoconos (cefalópodes parecidos com lulas, mas com concha) e bivalves semelhantes aos atuais. Todos esses animais e muitos outros foram extintos há centenas de milhões de anos, mas seus corpos fossilizados continuam debaixo da terra e são contados aos milhões.

“Graças ao comércio de fósseis, foram definidas em Marrocos cerca de mil novas espécies de invertebrados paleozoicos”, diz o pesquisador espanhol Juan Carlos Gutiérrez-Marco, que todos os anos viaja de jipe de Madri até a região

Sadki é uma das centenas de catadores de fósseis nesta zona desértica do Anti-Atlas marroquino. Procura crinoides, animais marinhos caracterizados por seus vistosos cálices e pedúnculos. O preço depende do tamanho da peça. “Por uma boa placa podem me dar 3.000 dirhams [955 reais]”, diz.

Às vezes, passa até quatro meses cavando sem encontrar nada, conta. Estes trabalhadores são a mão de obra barata que sustenta o mercado de fósseis em Marrocos, um dos principais exportadores em nível mundial. Nas lojas das localidades de Erfoud, Alnif e Rissani, pode-se comprar pelo equivalente a 3,50 reais trilobitas que cabem na palma da mão (são vendidos em caixas de 200 unidades), e placas com vários desses animais por mais de 3.500 reais.

Há até tampos de cozinha e banheiro feitos com pedra calcária cheia de animais extintos. Uma vez retiradas do país, as peças mais valiosas são vendidas pela Internet por dezenas de milhares de reais.

Toda esta atividade, que dá de comer a muitas famílias na região, não está regulada. Grande parte dessa riqueza fóssil acaba no estrangeiro, na maioria de casos sem passar pelo controle das autoridades.

Um cortador de pedra em Erfoud.Um cortador de pedra em Erfoud.

Numa das entradas de Erfoud, o som das serras é constante. Em meio a nuvens de pó asfixiante, trabalhadores com o rosto e os olhos tampados por lenços e óculos cortam placas de fósseis para sua posterior venda. São o elo seguinte da cadeia, os preparadores.

Os mais qualificados usam brocas similares aos de um dentista e polidores que cospem uma areia fina, separando assim os trilobitas da pedra até deixá-los quase totalmente soltos, mas sem danificar os espinhos defensivos de algumas espécies.

Além das lojas abertas ao público, alguns comerciantes têm armazéns privados nos quais oferecem garras de dinossauro por 860 reais, mandíbulas de baleia extinta por 5.200 reais, ou tochas de pedra esculpidas por humanos há dezenas de milhares de anos por 170 euros cada uma. Uma vez preparados para a venda, o preço dos fósseis na loja é pelo menos o dobro do que se paga a quem o coletou, e às vezes muito mais.

Cientistas de vários países peregrinam a esta região em busca de descobrimentos de alto impacto. É uma forma de fazer paleontologia que começa em lojas e feiras da Europa ou EUA. Os investigadores perguntam aos vendedores sobre a origem de um fóssil de invertebrado ou vertebrado interessante.

O rastro os leva às muitas pedreiras do sudeste de Marrocos. Se tiverem sorte, os comerciantes locais os levam até o local exato de onde saiu uma espécie desconhecida, e os coletores lhes deixam escavar. Só há uma condição: que paguem pelo que encontrarem.

Um preparador de fósseis limpa um trilobita.Um preparador de fósseis limpa um trilobita.

“Graças ao comércio de fósseis foram definidas em Marrocos quase mil novas espécies de invertebrados paleozoicos”, diz Juan Carlos Gutiérrez-Marco, pesquisador do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) da Espanha. Anualmente, esse geólogo faz uma viagem de ida e volta em jipe de Madria Marrocos para ver quais animais novos estão sendo extraídos, comprar alguma peça interessante e realizar suas próprias escavações nas zonas que ainda não foram exploradas. O pesquisador já descreveu três novas espécies e tem outras sete na gaveta.

Marrocos tem amplos afloramentos dos períodos Cambriano, Ordoviciano, Siluriano e Devoniano, que abrangem entre 540 e 350 milhões de anos atrás. O fato de não haver uma camada de vegetação por cima faz desta zona de Marrocos um dos melhores lugares do mundo para encontrar fósseis. “No ritmo atual de exploração, as reservas demorariam séculos para se esgotarem”, diz Gutiérrez-Marco.

Os comerciantes locais deixam os cientistas escavarem, desde que paguem

Um dos achados científicos mais recentes nesta área foi o anomalocaris-gigante (Aegirocassis benmoulae), um artrópode marinho de aproximadamente dois metros de comprimento, que era provavelmente o maior animal do mundo há 480 milhões de anos. Os cadáveres desses animais e outros do seu ecossistema ficaram tão bem preservados no sedimento que os órgãos e partes moles se fossilizaram, algo excepcional, comparável apenas aos famosos xistos de Burgess, no Canadá, e a outros similares na China.

Mohamed Ben Moula, de 63 anos, é um ex-pastor de camelos que se tornou caçador de fósseis. Ele achou os primeiros anomalocaris e os vendeu a Brahim Tahiri, um dos comerciantes de fósseis mais ricos da região. Tahiri mostrou o material a Peter Van Roy, pesquisador da Universidade de Yale (EUA) que, junto a outros colegas, estudou e publicou os detalhes sobre a nova espécie.

Todos os fósseis descritos foram escavados por Ben Moula. Entre 2009 e 2014, o Museu Peabody de História Natural da Universidade de Yale comprou do marroquino toneladas de pedras com fósseis extraídas de suas pedreiras, um total de 10.000 especimes que custaram 210.000 dólares (660.000 reais), diz Van Roy.

O estudo mais importante sobre a nova espécie, assinado por Van Roy e Derek Briggs, geólogo veterano de Yale e ex-diretor do Museu Peabody, foi publicado na prestigiada revista Nature, um pódio para qualquer cientista.

Van Roy destaca o trabalho de Ben Moula pois, sem sua atividade comercial, não seriam possíveis descobertas como a sua. Além disso, o marroquino vende mais barato para os cientistas. “Se você vê esses preços levando em conta a quantidade de trabalho necessária para tirar toneladas de pedra, o valor de venda é uma pechincha”, admite Van Roy.

Depois de Yale, o Museu Real de Ontário (Canadá) comprou esse tipo de fósseis de Ben Moula e a família atualmente está negociando a venda de mais material para museus europeus, diz Van Roy. O pesquisador reconhece as desigualdades entre os coletores que fazem o trabalho mais duro e os magnatas como Brahim Tahiri.

O comerciante tem uma das maiores lojas de fósseis de Erfoud e dinheiro suficiente para viajar aos Estados Unidos e vender diretamente aos colecionadores mais ricos. “Nas feiras dos Estados Unidos, Tahiri chega a ganhar meio milhão de dólares em uma semana”, afirma Van Roy. Tahiri se recusou a ser entrevistado para esta reportagem.

Pedreira de fósseis aberta por mineiros com barras de ferro e picaretas em Kaid Rami.
Pedreira de fósseis aberta por mineiros com barras de ferro e picaretas em Kaid Rami.
Hasna Chenaui, geóloga da Universidade Hassan II de Casablanca, é secretária-geral da Associação para a Proteção do Patrimônio Geológico de Marrocos. Chenaui diz que a exportação indiscriminada de fósseis não é um caso isolado. No mês passado uma casa de leilões de Parispôs à venda o esqueleto quase completo de um plesiossauro marinho de nove metros por um preço inicial de 350.000 euros.
O fóssil, de 66 milhões de anos, veio das minas de Khouribga, no sudeste de Marrocos, sem que os especialistas saibam dizer como saiu do país. A pressão da associação de Chenaui contribuiu para que o Governo marroquino interviesse para impedir a venda, mas o fóssil ainda não voltou ao país, diz Chenaui. “Marrocos, com um patrimônio geológico tão rico, não tem uma regulamentação específica para protegê-lo”, nem a teve durante décadas, diz. Isto faz que, atualmente, “tudo o que se extrai seja exportado e não permaneça no país”, afirma.

Sua associação não é a favor de proibir o comércio ou a exportação de fósseis, especialmente porque muitas famílias dependem do setor, mas colaborou com o Governo para desenvolver uma lei que regulamente as licenças de extração e venda, dê direitos aos trabalhadores, crie museus públicos que por sua vez possam gerar turismo e desenvolvimento sustentável, promova a formação acadêmica de pessoas da região e impeça a exportação dos fósseis de maior valor, observa a geóloga.

Segundo Chenaui, o desenvolvimento dessa regulamentação, a cargo do Ministério de Energia, Minas, Água e Meio Ambiente, está parada nos últimos meses. “Acho que se assustaram com o barulho midiático no caso do plesiossauro e, além disso, foram pressionados por vendedores e comerciantes”, diz Chenaui.

Este jornal tentou ouvir a versão do Governo marroquino sem sucesso.
ElPaís

Arquitetura – Templos

Mesquitas em Mali, ÁfricaFotografia: Autor não identificado

Fotografia de Peter Menzel

Fotografia de JSTOR, via Flickr

Fotografia de autor não identificado

Fotografia de autor não identificado

Fotografia de Inaki Caperochipi

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