Coronavirus; Por que tão poucos casos de coronavírus foram relatados na África?

A disseminação no país africano é preocupante por causa da fragilidade do sistema de saúde e devido aos problemas já existentes

Os especialistas ainda não sabem por que tão poucos casos do novo coronavírus foram relatados na África, apesar da China – onde o vírus se originou – ser o principal parceiro comercial do continente com uma população de 1,3 bilhão de pessoas, aponta a publicação NewScientist.

Embora o número oficial de casos no Egito tenha aumentado de dois para 59 no fim de semana, incluindo 33 pessoas que estavam em um cruzeiro pelo Nilo, na África, o número de casos permaneceu baixo.

Na manhã de terça-feira, havia apenas 95 casos oficiais no continente, embora dois países – Togo e Camarões – relataram seus primeiros casos no fim de semana. A disseminação na África é preocupante por causa da fragilidade do sistema de saúde, e pelo continente já enfrentar grandes problemas de saúde pública, como malária, tuberculose e HIV.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) se apressou em reforçar a capacidade dos países africanos de testar o vírus e treinar profissionais de saúde para cuidar das pessoas afetadas por ele. Somente o Senegal e a África do Sul tinham laboratórios que poderiam testar o vírus no final de janeiro, mas 37 países agora têm capacidade de teste.

Mary Stephen, da OMS, com sede em Brazzaville, na República do Congo, diz que acredita que a contagem de casos é precisa, porque mais de 400 pessoas foram testadas para a covid-19 em toda a África até agora.

“Eu não diria que é uma subestimação”, diz ela. “Sempre será possível perder casos e isso sempre foi admitido no Reino Unido”, diz Mark Woolhouse, da Universidade de Edimburgo, Reino Unido. Mas, dada a maior conscientização na África, a falta de mortes relacionadas ao coronavírus no continente implica que ainda não existem grandes surtos não detectados, diz ele.

“Se houvesse grandes surtos, da escala que a Itália ou o Irã tiveram, em qualquer lugar da África, eu esperaria que essas mortes estivessem bem acima do radar até agora”.

Congo:Especialistas prevêem que o covid-19 se espalhará mais amplamente

Os países pobres são especialmente vulneráveis

“Existem tantas crises no Congo.”

Gervais Folefack, que coordena os programas de emergência da Organização Mundial da Saúde (OMS) na República Democrática do Congo, domina a arte do eufemismo. O país foi destruído pela guerra e corrupção. “O tempo todo estamos respondendo a crises”, diz Folefack. Ele lista os mais recentes: Ebola, sarampo, cólera.

Para eles, ele pode ter que adicionar a covid-19, uma doença respiratória originada na China. Aqueles que precisariam responder a uma onda de casos cobertos por 19 anos já estão ocupados com o surto de Ebola que começou em 2018. “Estamos tentando nos preparar”, continua o Dr. Folefack, mas simplesmente não há tempo suficiente.

Até o momento, 99% dos casos confirmados do novo coronavírus estão na China. Dos 1.000 casos estranhos fora da China continental, mais da metade esteve no Diamond Princess, um navio de cruzeiro ancorado no Japão; o restante está espalhado por 27 países, principalmente na Ásia.

O Covid-19 se espalhou rapidamente na China, apesar do governo bloquear cidades inteiras por semanas. Os esforços da China, juntamente com as restrições de viagem que muitos países impuseram a seus cidadãos, retardaram o progresso do vírus. Mas muitos especialistas temem que isso se torne inevitavelmente uma pandemia. As autoridades de saúde estão tentando freneticamente se preparar.

Em 12 de fevereiro, Nancy Messonnier, dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (cdc), disse que os Estados Unidos devem estar preparados para o vírus “ganhar uma posição” no país. Médicos na África do Sul estão em alerta, diz Cheryl Cohen, do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis. Mais de 850 médicos em todas as nove províncias do país foram ensinados a identificar a doença. Quem está enviando máscaras cirúrgicas, aventais e luvas para hospitais em mais de 50 países. Ele está ensinando os profissionais de saúde em toda a África como usá-los para prevenir infecções por covid-19 – e como tratar aqueles que têm a doença.

Um número crescente de países está examinando passageiros nos aeroportos e nas fronteiras em busca de sinais da covid-19. Mas quando um vírus começa a viajar pelo mundo, diz Michael Ryan, o verdadeiro ponto de entrada é uma sala de emergência movimentada ou uma cirurgia médica. No surto de sars de 2003 (síndrome respiratória aguda grave), outro coronavírus que se espalhou para mais de 20 países, cerca de 30% das 8.000 pessoas infectadas eram profissionais de saúde. Muitos, se não a maioria, dos surtos de sars no mundo – de Toronto a Cingapura – começaram em um hospital com um único paciente que havia sido infectado no exterior.

Em países onde os casos de covid-19 ainda são raros, os médicos estão tentando, por enquanto, identificar pacientes suspeitos perguntando àqueles com tosse e febre sobre viagens recentes a países com surtos da doença e testando-os. Nos Estados Unidos, se os pacientes apresentarem resultados negativos para a gripe sazonal, os laboratórios estão começando a testar a covid-19 (o país até agora identificou 29 casos).

Confirmar uma suspeita de infecção em um laboratório pode levar dias. Alguns pequenos países europeus têm apenas um ou dois laboratórios capazes de processar testes covid-19. Todo o suprimento de kits de teste da Europa é enviado dos dois principais laboratórios do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ecdc), a agência de saúde pública da ue. Todo o suprimento da América vem do CDC em Atlanta. Levará vários meses até que os testes comerciais estejam disponíveis.

Esteja preparado
Os EUA estão à frente da maioria dos países no planejamento de tais coisas, diz Hanfling. Desastres como o furacão Katrina – quando muitos pacientes morreram em hospitais que não estavam preparados para o desastre – revelaram a necessidade de se preparar para o pior. A cada ano, o governo federal concede aos estados e hospitais cerca de US $ 1 bilhão especificamente para a preparação para desastres. Isso é mais do que o orçamento nacional de saúde de muitos países africanos.

A experiência recente de outros países pode ajudá-los. Kerala, o único estado da Índia a confirmar casos de covid-19, rapidamente conteve um surto de Nipah, um vírus desagradável, em 2018 e, desde então, reforçou seu sistema de saúde. Uganda reteve a propagação do ebola do vizinho Congo e, no processo, acumulou estoques de roupas de proteção para os profissionais de saúde.

Mas os países pobres seriam particularmente afetados por surtos de cobiços-19. Uganda está acostumado a lidar com doenças transmitidas por sangue, mosquitos ou parasitas. O Covid-19, se vier, poderia se espalhar de forma rápida e imprevisível, o que testaria um sistema de assistência médica sem dinheiro. Ian Clarke, presidente de uma federação de saúde privada com sede em Uganda, teme que as taxas de mortalidade possam ser mais altas na África do que na China, porque muitas pessoas já enfraqueceram o sistema imunológico como resultado de HIV ou nutrição deficiente.

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As catástrofes humanitárias esquecidas do planeta

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Etiópia, Madagascar, Haiti, Congo e Filipinas: estudo de ONG americana mostra as crises que acontecem longe dos olhos do grande público, praticamente ignoradas pela imprensa.

A Etiópia sofre com uma constante seca: mais de 80% da população etíope vive da agricultura

Inundações, secas, fome, violência, deslocamento: também em 2018, inúmeros países voltaram a ser palco de catástrofes naturais ou crises criadas pelo ser humano. Enquanto, por exemplo, as guerras na Síria e no Iêmen, a crise de abastecimento na Venezuela e os incêndios florestais na Califórnia dominaram as manchetes internacionais reiteradamente, outras catástrofes de dimensão parecida ou maior aconteciam longe dos olhos do grande público.

Entre outros, os motivos foram um acesso mais difícil dos meios de comunicação a certas áreas de crise que representavam um verdadeiro desafio para a cobertura internacional, além de orçamentos definhando nas redações, diz o estudo Sofrendo em Silêncio, em tradução livre, da ONG americana Care International. A análise apresenta as crises humanitárias que “obtiveram a menor cobertura midiática” em 2018.

Para realizar o estudo, a organização trabalhou em conjunto com o serviço de observação de mídias Meltwater, avaliando mais de um milhão de artigos online em inglês, alemão e francês, publicados do início de janeiro ao fim de novembro do ano passado. Concretamente, observou-se com que frequência crises que afetaram pelo menos um milhão de pessoas foram mencionadas na imprensa online.

Não foram consideradas matérias produzidas para a TV ou o rádio, nem para plataformas de redes sociais. Apesar da restrição às línguas mencionadas e aos veículos, os resultados “mostram uma tendência clara”, afirma o texto. O estudo elaborou uma lista com as dez crises sobre as quais menos se escreveu em 2018. Essas são as cinco menos noticiadas.

Haiti

Carros incendiados, ruas interditadas por barricadas, mortes: recentemente, os violentos protestos contra o governo voltaram a trazer o Haiti para os holofotes da opinião pública internacional. Mas, em 2018, uma crise alimentar causada, entre outros, por atrasos na colheita devido a uma seca no início do ano obteve muito menos atenção.

No Índice Global da Fome de 2018, o país caribenho, alvo constante de catástrofes naturais e que depende maciçamente de ajuda financeira internacional, ficou em 113º lugar entre 119 países. O país, politicamente instável, registrou “o maior nível de fome no Hemisfério Ocidental”, diz o relatório publicado pela ONG alemã Welthungerhilfe e pela ONG Concern Worldwide. A situação da segurança alimentar no país é “muito séria”, diz o índice.

Foto aérea mostra pessoas andando em caminho de terra em meio a campos agrícolas na comunidade de Kenscoff, na capital haitiana de Porto PríncipeCampos agrícolas no Haiti: crise alimentar foi ignorada, diz Care International

Segundo a lista IPC da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), entre outubro de 2018 e fevereiro de 2019, mais de 386 mil haitianos se encaixavam na categoria alimentar “emergência”. Segundo dados da FAO, atualmente, metade da população haitiana é subnutrida.

A Care denuncia que a dramática evolução praticamente não teve espaço na mídia. “Enquanto o grave terremoto no Haiti dominou as manchetes do mundo inteiro em 2010, a crise alimentar de 2018 no país caribenho quase não aconteceu nas notícias internacionais”, diz o estudo. Apenas 503 textos online teriam abordado o assunto.

Etiópia

Também o país no Chifre da África foi afetado por uma crise alimentar em 2018. Apesar do crescimento econômico acelerado, mais de 80% da população etíope vive de trabalhos relacionados à agricultura – uma fonte de renda constantemente ameaçada por secas. No ano passado, após dois consecutivos de estiagem, voltou a chover, mas em muitas regiões não foi suficiente.

Em outras áreas do país, por outro lado, colheitas foram destruídas por enchentes. Segundo dados do governo, como consequência, oito milhões de pessoas passaram a depender urgentemente de auxílio alimentar. Segundo as Nações Unidas, 3,5 milhões de pessoas estavam em situação aguda de “subnutrição moderada”, 350 mil sofriam de subnutrição “grave”.

Na lista das crises mais negligenciadas em 2018, a Etiópia figura duas vezes. Segundo o estudo da Care, apenas 986 textos na internet relatam sobre a fome no país. O deslocamento de centenas de milhares de pessoas também quase não foi tematizado. Segundo dados da ONU, entre abril e julho do ano passado, um milhão de pessoas tiveram que deixar suas casas por causa de violência étnica nas regiões de Gedeo e de Guji Ocidental. Assim, em 2018, mais pessoas se deslocaram internamente por conflitos do que em qualquer outro país do mundo.

Madagascar

No ano passado, vários incidentes meteorológicos destruidores levaram caos ao país insular no sudeste da África. Madagascar é um dos países do mundo mais afetados pelas mudanças climáticas. Em 2018, o fenômeno climático El Niño fez com que as plantações de arroz, de milho e de mandioca do país secassem.

As tempestades tropicais Ava e Eliakim obrigaram mais de 70 mil pessoas a fugirem. Pelo fato de as más condições de tempo terem impedido a produção de muitos grãos, o número de pessoas ameaçadas de fome no sul do país aumentou para 1,3 milhão, segundo a ONU.

Devido à peste pulmonar, funcionários equipados com mochilas de desinfetante percorrem as ruas de Antananarivo em 2017Peste pulmonar em Madagascar: funcionários desinfetam vias públicas e casas em 2017

Além disso, epidemias de sarampo e peste abalaram o país localizado ao largo da costa de Moçambique. Em 2017, epidemias de pneumonia e peste bubônica já haviam vitimado 200 pessoas. Na capital Antananarivo, a Organização Mundial da Saúde contou 6.500 casos de sarampo até o final de dezembro de 2018.

O motivo para a eclosão da epidemia são especialmente as baixas taxas de vacinação: apenas 58% da população são vacinados contra a doença. Segundo o relato da Care, os relatos sobre as crises em Madagascar foram bastante raros.

República Democrática do Congo

De acordo com o estudo, a situação na República Democrática do Congo também não concentrou muitas atenções da imprensa online em 2018. Apesar disso, segundo a Care, o país é dominado por um “círculo vicioso de violência, doenças e subnutrição”. O balanço do ano passado: 12,8 milhões de pessoas ameaçadas de fome, 4,3 milhões de crianças subnutridas, 500 novos casos de ebola que levaram à morte de 280 pessoas, segundo a OMS, e quase 765 mil pessoas refugiadas em países vizinhos devido à violência causada por conflitos entre milícias, especialmente nas províncias no leste do país.

Um número de menores de idade acima da média é vitima permanente do conflito: segundo uma análise recente da organização de defesa dos direitos das crianças Save The Children e do Instituto de Pesquisas da Paz em Oslo, a RDC pertence aos países do mundo em que as crianças mais sofrem com conflitos armados.

Mulheres congolesas participam de aula de ONG que reabilita, entre outros, vítimas de estupro sistemático. ONU estima em mais de 200 mil número de vítimas de violência sexual no Congo DemocráticoONU estima em mais de 200 mil número de vítimas de violência sexual no Congo Democrático

A violência sexual sistemática contra mulheres no país também não acaba. No total, as Nações Unidas estimam em mais de 200 mil o número de vítimas de estupros na antiga colônia belga. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) tratou 2.600 vítimas de violência sexual na cidade de Kananga entre maio de 2017 e setembro do ano passado, 80% delas teriam dito que foram violentadas por homens armados.

“Esses números são um indicador para o alto nível de violência também neste ano”, afirmou Karel Janssens, coordenador nacional do MSF para o país. Na esteira da entrega do Prêmio Nobel da Paz ao ginecologista Denis Mukwege, a violência sexual na RDC voltou a ser tematizada mais fortemente nos veículos de comunicação. Mas a Care destaca que os problemas no país integram as crises menos notadas do ano.

Filipinas

No dia 14 de setembro de 2018, o mundo olhava atônito para a costa leste dos Estados Unidos, onde o olho do furacão Florence atingiu o continente no estado da Carolina do Norte. A quase 14 mil quilômetros de distância e quase ao mesmo tempo, uma tempestade bem mais forte atingiu o litoral da ilha de Luzon, a principal das Filipinas.

A uma velocidade de 200 km/h, o tufão Mangkhut, o maior ciclone tropical do ano, tocou o solo na manhã do dia 15 de setembro. Segundo o estudo, apesar de a catástrofe ter afetado mais de 3,8 milhões de pessoas, ter matado 82 pessoas e ferido 130, pouco se ficou sabendo sobre o Mangkhut através da imprensa.

Vendedor de rua treme na chuva enquanto chuvas do tuão Yutu atingem a baía de Manila em outubro de 2018. Pouco depois do tufão Mangkhut, tempestade Yutu devastou Filipinas

Apenas um mês depois, o tufão Yutu  devastou várias comunidades já destruídas pelo Mangkhut e que já haviam iniciado os trabalhos de reconstrução. Globalmente, as Filipinas fazem parte dos países onde há maior risco de catástrofes naturais da Ásia. Vinte tempestades tropicais atingem o país insular no Pacífico ocidental todos os anos.

Segundo o Banco Mundial, os tufões matam, em média, mil pessoas anualmente. Além disso, o país está altamente exposto a riscos geológicos como terremotos e erupções vulcânicas. A Care denuncia que os furacões Mangkhut e Yutu fazem parte das crises invisíveis de 2018.
DW

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A verdade sobre a presença Norte Americana na África

USA,África,Blog do MesquitaO general da Marinha e comandante do Comando dos EUA na África, Thomas D. Waldhauser, fala à imprensa no Pentágono, em 10 de maio de 2018. Imagem: Pablo Matinez Monsivais/AP

OS MILITARES NORTE-AMERICANOS insistem há muito tempo que mantêm uma “leve presença” na África. Também existem relatos de propostas de retirada de forças de operações especiais e encerramento de atividades de tropas no continente, devido a uma emboscada ocorrida em 2017 no Níger e a um crescente foco em rivais como a China e a Rússia. Mas, em meio a tudo isso, o Comando dos Estados Unidos na África (Africom) falhou em fornecer informações concretas sobre suas bases no continente, deixando em aberto a pergunta sobre quais seriam as reais dimensões da atuação americana.

No entanto, documentos da Africom obtidos pelo Intercept através da Lei de Liberdade de Informação oferecem uma brecha única para a extensa rede de destacamentos militares americanos na África, incluindo locais previamente secretos ou não confirmados em pontos cruciais como a Líbia, o Níger e a Somália. O Pentágono diz que as reduções de tropas na África serão modestas e realizadas ao longo de vários anos e que nenhum destacamento será fechado como resultado de cortes de pessoal.

De acordo com um briefing elaborado em 2018 por Peter E. Teil, conselheiro científico da Africom, a constelação de bases militares inclui 34 locais espalhados pelo continente, com grandes concentrações no norte e no oeste, assim como no Chifre da África. Essas regiões, não surpreendentemente, também foram alvos de diversos ataques de drones americanos e ataques de infantaria de menor impacto nos últimos anos. Por exemplo, a Líbia – alvo de missões de infantaria e ataques de drones, mas para a qual o presidente Trump disse não ver nenhum papel dentro das forças armadas americanas no ano passado – é local de três postos militares até então não revelados.

“O plano de posicionamento do Comando dos EUA na África é feito para garantir acesso estratégico a locais-chave em um continente caracterizado por grandes distâncias e infraestrutura limitada”, disse o general Thomas Waldhauser, comandante da Africom, ao Comitê das Forças Armadas do Congresso neste ano, embora sem fornecer dados precisos sobre o número de bases. “Nossa rede de posicionamento permite encaminhar testes de tropas para fornecer flexibilidade operacional e respostas adequadas a crises envolvendo cidadãos ou os interesses americanos sem passar a ideia de que o Africom está militarizando a África.”

Segundo Adam Moore, professor assistente de geografia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e especialista na atuação militar americana na África, “está ficando mais difícil para os militares americanos afirmarem plausivelmente que têm uma ‘leve presença’ na África. Só nos últimos cinco anos, foi estabelecido o que talvez seja o maior complexo de drones do mundo no Djibuti – Chabelley – que está envolvido em guerras em dois continentes, no Iêmen e ainda na Somália.” Moore também apontou que os Estados Unidos estão construindo uma base de drones ainda maior em Agadez, no Níger. “Certamente, para pessoas vivendo na Somália, no Níger e no Djibuti, a noção de que os EUA não estão militarizando seus países soa muito falsa”, disse.

Nos últimos 10 anos, o Africom não apenas buscou definir sua presença como sendo de dimensões limitadas, mas também como se seus postos fossem pequenos, temporários, pouco além de bases locais onde soldados americanos não passam de inquilinos. Um exemplo disso é como o general Waldhauser descreveu um posto secreto de drones na Tunísia no ano passado: “E não é uma base nossa, é dos tunisianos”. Em visita a instalações americanas no Senegal recentemente, o chefe do Africom empenhou-se para enfatizar que os Estados Unidos não tinham intenção de estabelecer uma base permanente ali. Ainda assim, não há dúvidas sobre a dimensão da rede de postos do Africom ou de seu crescimento em infraestrutura. A Air Forces Africa sozinha, o componente de comando aéreo, recentemente concluiu ou está trabalhando em cerca de 30 projetos de construção em 4 países da África. “A atuação dos EUA no continente africano cresceu notoriamente na última década para promover interesses de segurança americanos no continente”, disse ao Intercept a comandante da Marinha Candice Tresch, porta-voz do Pentágono.

Enquanto China, França, Rússia e Emirados Árabes aumentaram seu próprio envolvimento militar na África nos últimos anos e vários outros países agora possuem postos no continente, nenhum atingiu o tamanho da presença americana. A China, por exemplo, possui apenas uma base na África – uma instalação no Djibuti.

De acordo com os documentos obtidos pelo Intercept através da Lei de Liberdade de Informação, a rede de bases do Africom inclui postos “permanentes” maiores, consistindo em locais operacionais avançados (FOS, na sigla em inglês) e unidades de segurança cooperativa (CLS, na sigla em inglês), assim como diversos outros recintos austeros conhecidos como locais de contingência (CL na sigla em inglês). Todos eles estão localizados no continente africano, com exceção de um FOS na Ilha de Ascensão, pertencente à Grã-Bretanha, no sul do Atlântico. O mapa de Teil do “Posicionamento Estratégico” do Africom nomeia os locais específicos de todos os 14 FOSs e CSLs e fornece localização específica em cada país para os 20 locais de contingência. O Pentágono, porém, não afirmou se o registro era completo, citando preocupações sobre fornecer publicamente os números de forças implantadas em postos específicos ou países em particular. “Por razões de segurança operacional, relatos completos do estabelecimento de forças específicas não são divulgáveis”, disse Tresch.

Como tropas e destacamentos vêm e vão periodicamente do continente, e alguns locais utilizados por forças de infantaria conduzindo missões complexas são provavelmente mantidos em segredo, o mapa de Teil representa o registro mais atualizado e completo disponível e indica as áreas do continente de maior preocupação para o Africom. “A distribuição de bases sugere que as forças armadas dos Estados Unidos estão organizadas em torno de três palcos do contraterrorismo na África: o chifre da África – Somália, Djibuti, Quênia e Líbia; e o Sahel – Camarões, Chade, Níger, Mali e Burkina Fasso”, disse Moore, da UCLA, observando que os EUA só possuem uma base no sul do continente e reduziu seu envolvimento no centro da África nos últimos anos.

USA,África,Blog do MesquitaO “Posicionamento Estratégico” do Comando dos EUA na África – listando 34 destacamentos militares – de um briefing de 2018 apresentado pelo Conselheiro Científico Peter E. Teil. O “Posicionamento Estratégico” do Comando dos EUA na África – listando 34 destacamentos militares – de um briefing de 2018 apresentado pelo Conselheiro Científico Peter E. Teil. Imagem: U.S. Africa Command

Níger, Somália e Quênia
O briefing de Teil confirma pela primeira vez que os militares americanos possuem atualmente mais postos no Níger – cinco, incluindo duas unidades de segurança cooperativa – do que qualquer outro país no lado oeste do continente. Niamey, a capital do país, é onde se localiza a Base Aérea 101, um posto americano de drones já antigo anexado ao Aeroporto Internacional Diori Hamani; o local de uma Base Avançada de Operações da força de Operações Especiais; e a central da África Ocidental para serviços de recuperação de pessoal e de evacuação de acidentes fornecidos pelo Africom. A outra CSL, no remoto centro de contrabando de Agadez, está estabelecida para se tornar o principal destacamento militar americano na África Ocidental. A base de drones localizada na Base Aérea Nigerina 201 não apenas ostenta um valor de construção de 100 milhões de dólares mas, contando com as despesas de operação, deve custar aos contribuintes americanos mais de 25 bilhões de dólares até 2024, quando o contrato de uso de 10 anos acabar.

Oficialmente, a CSL não é “nem uma instalação, nem uma base americana”. Ela é, de acordo com os militares, “apenas uma unidade que, quando necessário e com a permissão do país parceiro, pode ser utilizada pelos americanos para apoiar uma gama de contingências”. A dimensão, o custo e a importância totais de Agadez parecem sugerir o contrário. “Julgando pelo seu tamanho e pelos investimentos de infraestrutura até o momento, Agadez parece mais com as enormes bases que os militares criaram no Iraque e no Afeganistão do que com pequenas e discretas ocupações”, disse Moore.

A presença dos militares norte-americanos no Níger ganhou grande exposição no ano passado quando, em 4 de outubro, uma emboscada do ISIS na região do Grande Saara, próximo à fronteira com o Mali, matou quatro soldados americanos, incluindo os “boinas verdes” (membros das forças especiais), e feriu outros dois. Uma investigação do Pentágono sobre o ataque ajudou a jogar a atenção para outros importantes locais de presenta militar dos EUA no Níger, incluindo Ouallan e Arlit, onde forças das Operações Especiais (SOF, na sigla em inglês) realizaram ações em 2017, e Marandi, para onde as SOF foram enviadas em 2016. Arlit também apareceu como um possível local de contingência em um plano de posição do Africom, anteriormente secreto, obtido pelo Intercept. Ouallan, que estava listado em contratos trazidos a público pelo Intercept no ano passado, foi o local de uma força-tarefa das SOF para treinar e equipar uma companhia nigerina antiterrorismo, e também em outro para conduzir operações com unidades locais. Documentos de contratação de 2017 também mostraram a necessidade de mais de 16 mil litros de gasolina, cerca de 4,1 mil de diesel e quase 23 mil litros de combustível para aviação por mês a serem entregues a cada 90 dias em uma “instalação militar” em Dirkou.

Enquanto as cinco bases no Níger ancoram o oeste do continente, os cinco postos na Somália comandam no leste. A Somália é o centro dos serviços de recuperação e de evacuação de pessoal por parte de empresas contratadas, bem como é o nó principal para as operações de recuperação e evacuação de pessoal do próprio Exército. Estes locais, revelados nos mapas do Africom, pela primeira vez, não incluem uma base da CIA revelada em 2014 pelo The Nation.

Todas as instalações militares dos EUA na Somália, por serem locais de contingência, não são nomeadas no mapa do Africom de 2018. Anteriormente, Kismayo foi identificado como um importante local enquanto os nomes do plano de posicionamento do Africom de 2015 propunham CLs em Baidoa, Bosaaso, na capital, Mogadíscio e também em Berbera, no estado separatista da Somalilândia. Se o mapa de Teil estiver correto, um dos locais somalis fica nesta região. Reportagens da Vice News no início deste ano indicaram que havia seis novas instalações americanas sendo construídas na Somália, assim como a expansão de Baledogle, uma base para a qual um contrato de “reparos de pista de emergência” foi recentemente submetido.

De acordo com os documentos confidenciais obtidos pelo Intercept em 2015, tropas de elite de uma unidade conhecida como Força-Tarefa 48-4 estavam envolvidas em ataques de drones na Somália no início desta década. Essa guerra aérea continuou nos anos seguintes. Conforme a Foundation for Defense of Democracies (Fundação para a Defesa de Democracias), os Estados Unidos já conduziram 36 ataques aéreos na Somália somente neste ano comparados aos 34 em todo o ano de 2017, e 15 em 2016.

O vizinho da Somália, o Quênia, ostenta quatro bases americanas. Estas incluem unidades de segurança cooperativa em Mobasa e Manda Bay, onde um estudo do Pentágono de 2013 sobre operações secretas de drones na Somália e no Iêmen mostrou que duas aeronaves tripuladas tinham aquele local como base. O plano de posicionamento do Africom de 2015 também menciona unidades de contingência em Lakipia, local de uma base da Força Aérea Queniana, e outro campo de aviação queniano em Wajir, que passou por melhorias e foi expandido pela Marinha dos EUA no início da década.

Líbia, Tunísia e Djibuti
O mapa de Teil mostra um grupo de três locais de contingência não nomeados e anteriormente secretos próximos ao litoral líbio. Desde 2011, os Estados Unidos levaram a cabo cerca de 550 ataques com drones contra militantes da Al Qaeda e do Estado Islâmico na fechada nação do norte africano. Durante um período de quatro meses em 2016, por exemplo, houve aproximadamente 300 ataques desse tipo, segundo oficiais americanos. Esse número é sete vezes maior que os 42 ataques com drones confirmados pelos Estados Unidos na Somália, Iêmen e Paquistão somados, em todo o ano de 2016, de acordo com dados compilados pelo Bureau of Investigative Journalism, uma organização noticiosa sem fins lucrativos sediada em Londres. Os ataques na Líbia continuaram no governo Trump, com o mais recente episódio reconhecido pelos EUA tendo ocorrido perto de Al Uwaynat em 29 de novembro. O plano de posicionamento do Africom em 2015 listava apenas um posto em Al-Wigh, um campo de pousos no Saara próximo à fronteira com Níger, Chade e Argélia, localizado bem ao sul dos três CLs atuais.

O mapa do Africom também mostra um local de contingência na vizinha Tunísia, possivelmente a Base Aérea Sidi Ahmed, um posto-chave de drones mantidos pelos EUA na região, que teve um papel importante nos ataques à Líbia dos últimos anos. “Como se sabe, usar drones de inteligência, vigilância e reconhecimento a partir da Tunísia é algo que vem acontecendo há algum tempo”, disse Waldhauser, o comandante do Africom, no ano passado. “Nós voamos lá, não é segredo, mas respeitamos muito os desejos dos tunisianos em termos de como nós os apoiamos e o fato de que mantemos um perfil baixo…”

Djibuti é onde fica a menina dos olhos dos EUA no continente, a base de Camp Lemmonier, um antigo posto da Legião Estrangeira Francesa e o único local de operações avançadas do Africom. Um centro de longa data para operações antiterrorismo no Iêmen e na Somália e lar da Força-Tarefa Conjunta-Chifre da África (CJTF-HOA, na sigla em inglês), o Camp Lemmonier recebe cerca de 4 mil soldados norte-americanos e aliados e, segundo Teil, é a “principal plataforma” dos EUA para resposta a crises na África. Desde 2002, a base foi ampliada de 35 para quase 243 hectares e gerou um posto-satélite – um local de segurança cooperativa 10 quilômetros ao sudoeste, para onde as operações com drones no país foram levadas em 2013. O campo de pousos Chabelley tornou-se desde então uma base integral para missões na Somália e no Iêmen, e também na guerra de drones contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. “Os militares dos Estados Unidos continuam mobilizados no Djibuti, inclusive por razões de posicionamento para operações antiterrorismo e antipirataria nos arredores do Chifre da Ásia e da Península Arábica, bem como oferecer apoio de contingência no aumento de segurança das embaixadas no Leste Africano”, assinalou o presidente Donald Trump em junho.

Um mapa das bases dos EUA – locais de operação avançada, de segurança cooperativa e de contingência – no continente africano, encontrados nos documentos de planejamento do Africom para o ano fiscal de 2015. Um mapa das bases dos EUA – locais de operação avançada, de segurança cooperativa e de contingência – no continente africano, encontrados nos documentos de planejamento do Africom para o ano fiscal de 2015. Imagem: U.S. Africa CommandUSA,África,Blog do Mesquita 3

Camarões, Mali e Chade
O posicionamento estratégico do Africom inclui ainda dois locais de contingência em Camarões. Um deles é um posto no norte do país, conhecido como CL Garoua, utilizado em missões com drones e também como uma base para a Força-Tarefa Darby do Exército, que apoia tropas camaronesas que combatem o grupo terrorista Boko Haram. O Camarões também sedia um antigo destacamento em Douala, além de instalações dos EUA em Maroua e uma base próxima conhecida como Salak, também usada por militares americanos e funcionários terceirizados para missões de treinamento e vigilância com drones. Em 2017, a Anistia Internacional, a firma de pesquisas londrina Forensic Architecture, e o Intercept revelaram prisões ilegais, torturas e assassinatos cometidos por tropas camaronesas em Salak.

No vizinho Mali, há dois locais de contingência. O plano de 2015 do Africom lista propostas de CLs em Gao e na capital do Mali, Bamako. O mapa de 2018 também aponta a existência de um CSL na capital do Chade, N’Djamena, um local onde os EUA começaram a utilizar drones no início desta década; também é o quartel-general de um Elemento de Controle e Comando de Operações Especiais, que coordena um batalhão de elite. Outro local de contingência não-identificado no Chade poderia estar em Faya Largeau, um CL mencionado no plano de 2015 do Africom.

No Gabão, um local de segurança cooperativa existe em Libreville. No ano passado, tropas dos EUA promoveram um exercício na região para testar sua capacidade de transformar o CSL de Libreville em um posto de comando avançado para facilitar o influxo de um grande número de soldados. Um CSL também pode ser encontrado em Acra, Gana, e outro CSL está localizado em um pequeno complexo na Base Aérea Capitão Andalla Cissé em Dacar, no Senegal. “Esse local é muito importante para nós porque ajuda a mitigar questões de tempo e espaço em um continente do tamanho da África”, disse o comandante Waldhauser em uma visita à capital senegalesa no início deste ano.

Apenas uma base fica no sul do continente, um CSL na capital de Botsuana, Gaborone, que é mantida pelo Exército. Ao norte, o CSL Entebbe em Uganda tem sido uma base aérea importante há muito tempo para as forças americanas na África, servindo como uma central para aeronaves de vigilância. Ela também se mostrou integral para a Operação Oaken Steel, uma rápida mobilização de tropas ocorrida em julho de 2016 para resgatar equipes americanas após conflitos se iniciarem perto da Embaixada Americana em Juba, no Sudão do Sul.

“Aumentamos o poder de fogo”
Em maio, respondendo a questionamentos sobre as medidas tomadas após a emboscada de outubro de 2017 no Níger, Waldhauser falou sobre fortificar a atuação dos EUA no continente. “Eu não vou entrar em detalhes, mas nós aumentamos o poder de fogo, aumentamos a capacidade de vigilância, inteligência e reconhecimento, e melhoramos nossos tempos de resposta”, disse o comandante. “Nós encorpamos muitas coisas em relação à nossa posição com essas forças”. Esse poder de fogo inclui drones. “Estamos nos armando no Níger, e vamos usar isso conforme necessário”, afirmou Waldhauser no meio deste ano, fazendo referência à presença de aeronaves pilotadas remotamente, agora baseadas na região.

O Africom não respondeu aos vários pedidos para uma entrevista com Waldhauser.

Após meses de relatos que o Departamento de Defesa estava considerando uma grande redução nas forças de Operações Especiais na África, além do fechamento de postos militares na Tunísia, Camarões, Líbia e Quênia, o Pentágono agora diz que menos de 10% dos 7,2 mil militares do Africom serão retirados nos próximos anos, e que nenhuma base será fechada por conta disso. De fato, a construção de bases nos EUA vive um boom. Auburn Davis, porta-voz da Air Forces Africa, disse que a Força Aérea recentemente completou 21 projetos no Quênia, Tunísia, Níger e Djibuti, e ainda tem sete outros em andamento no Níger e no Djibuti.

“A proliferação de bases no Sahel, na Líbia e no Chifre da África sugere que as missões antiterrorismo do Africom nessas regiões do continente vão continuar indefinidamente”, disse Adam Moore, da UCLA. Horas após Moore tecer seus comentários, o Pentágono anunciou que seis empresas haviam sido escolhidas para um contrato de até cinco anos e 240 milhões de dólares para desenhar e construir instalações navais na África, começando pela expansão da pista no Camp Lemmonier, no Djibuti.
Nick Turse/TheIntercept