Enquanto Bolsonaro patina em se aproximar de Biden, oposição brasileira ganha terreno com democratas

Deputada Deb Haaland – Enviado climático e cotada para secretária do novo presidente se aproximaram de lideranças políticas indígenas do Brasil

Se o presidente brasileiro Jair Bolsonaro demorou 38 dias para reconhecer a vitória de Joe Biden à Presidência dos Estados Unidos e patina para estabelecer conexões com os democratas, a oposição ao seu governo no Brasil tem se mostrado mais efetiva em construir pontes com a nova administração, que começará oficialmente no dia 20 de janeiro.

E uma parte importante dessa conexão tem sido operada por meio de lideranças indígenas, com quem Bolsonaro tem acumulado embates.

A última prova disso é o lançamento de uma parceria entre a parlamentar americana democrata Deb Haaland e a deputada federal brasileira Joênia Wapichana (Rede-RR).

Na semana passada, as duas conversaram pelo telefone para coordenar esforços interamericanos para avançar em pautas de respeito aos direitos dos povos nativos e proteção ao meio ambiente nos dois países.

“Continuaremos colocando Bolsonaro na fogueira enquanto ele cometer violações dos direitos humanos, seguir no esforço para destruir a Floresta Amazônica e colocar nosso planeta em risco de um desastre climático ainda maior”, afirmou Haaland em nota enviada à BBC News Brasil.

Entusiasta da gestão do republicano Donald Trump, que tentou sem sucesso a reeleição, Bolsonaro já havia se posicionado publicamente em favor de um segundo mandato para Trump, de quem se disse fã.

Seu filho e deputado federal, Eduardo Bolsonaro, que em 2019 acalentou o desejo de ser embaixador em Washington, fez campanha por Trump em suas redes sociais.

Após a divulgação do resultado do pleito, o Itamaraty mergulhou em silêncio enquanto até duas semanas atrás Bolsonaro dizia ter informações sobre “fraude eleitoral”. Na terça-feira (15), o presidente enviou “saudações” a Biden”, “com meus melhores votos e a esperança de que os EUA sigam sendo “a terra dos livres e o lar dos corajosos”.

E acrescentou: “Estarei pronto a trabalhar com o novo governo e dar continuidade à construção de uma aliança Brasil-EUA”.

Haaland é a primeira mulher indígena a ser eleita para o Congresso americano – Reuters
Haaland: crítica a Bolsonaro e cotada para o gabinete de Biden

O caminho dessa cooperação, no entanto, pode ser acidentado. Isso porque existe uma sincronia de movimentos de atores políticos nos legislativos tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos que dificultam a aproximação.

“A gente tem visto um Itamaraty disfuncional, declinante, com o filho do presidente (Eduardo) como uma eminência parda da política externa. Então outros atores políticos passaram a atuar, como o legislativo brasileiro, que geralmente não têm protagonismo no tema. Do lado do Brasil, vemos uma politização histórica da política externa”, afirma Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas.

“Ao mesmo tempo, pela primeira vez, o Congresso americano mostrou interesse em se aproximar do legislativo brasileiro e a vitória de Biden empoderou esse grupo de deputados democratas que está na Câmara.”

Primeira mulher indígena a ser eleita para o Congresso americano, Haaland é cotada para ser a secretária do Departamento de Interior do presidente-eleito Joe Biden, o que a colocaria no primeiro time da nova administração.

Haaland se tornou uma das principais críticas de Bolsonaro no partido — e na Câmara —, e tem trazido nomes proeminentes da agremiação consigo para as manifestações públicas contra o mandatário brasileiro, como o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Ela passou a atuar tanto na pressão pública a Bolsonaro, por meio de cartas, quanto na proposição de medidas contra os interesses do governo brasileiro no Congresso americano.

A deputada americana tentou, por exemplo, barrar a aprovação do status do Brasil como aliado militar extra-OTAN, uma das conquistas mais comemoradas pelo Itamaraty sob Bolsonaro.

Nas últimas semanas, ela se empenhava em cortar do Orçamento de Defesa dos EUA a previsão de verba pública para o acordo de salvaguardas tecnológicas entre os países, que deve viabilizar lançamentos de satélites americanos da base de Alcântara, no Maranhão.

Em maio de 2019, pouco depois do anúncio do acordo para uso da base de Alcântara, Haaland conseguiu angariar assinaturas de 54 congressistas americanos para uma carta enviada ao secretário de Estado americano, Mike Pompeo, na qual alertava para “violações dos direitos humanos de comunidades indígenas e quilombolas no Brasil”.

Meses antes, além de Wapichana, a política americana recebeu no Congresso dos EUA as parlamentares oposicionistas Erika Kokay (PT-DF) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS).

GIOVANNI BELLO/BBC
Wapichana encontrou-se com Haaland no Congresso americano em fevereiro de 2020

Em junho desse ano, voltou à carga com uma carta enviada ao presidente da Câmara brasileira, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em que pedia a derrubada de um projeto de lei que previa ampla regularização fundiária na Amazônia e que acabou batizado pelos críticos de “PL da Grilagem“.

“Entendemos que esse projeto é muito prejudicial para a floresta amazônica, uma vez que legalizará grandes áreas de terras públicas que já foram ocupadas e desmatadas ilegalmente”, escrevia Haaland, na carta assinada por 18 de seus colegas.

No mesmo período, seus colegas da Comissão de Orçamento e Tributos da Câmara enviaram comunicação às autoridades comerciais americanas dizendo que se opunham a qualquer avanço em tratados comerciais com o Brasil de Bolsonaro.

E em dezembro, Haaland assinou com outros 21 colegas um pedido de proteção à deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), em que qualificava as políticas de Bolsonaro como “antidemocráticas e xenófobas”.

“O que estamos fazendo é expor para o mundo as ações do governo Bolsonaro que precisam parar e teremos intercâmbio de relações legislativas intensas”, afirmou à BBC News Brasil a deputada Joênia Wapichana.

Segundo ela, o governo Bolsonaro deveria “ter atuado de forma mais diplomática e menos de acordo com preferência individual” com os democratas. Questionado repetidas vezes sobre o assunto, o embaixador brasileiro em Washington, Nestor Forster, afirma manter bom trânsito nos dois partidos.

John Kerry e os Munduruku

Mas não para por aí. Em outubro de 2020, enquanto a disputa para a Presidência da Casa Branca chegava à reta final, em Washington D.C., a líder indígena Alessandra Korap Munduruku recebia o prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos.

Korap ganhou proeminência ao pedir a expulsão de garimpeiros das terras de seu povo, motivo pelo qual passou a ser ameaçada de morte.

A líder tem denunciado que desde a chegada ao poder de Bolsonaro, a situação das populações nativas se deteriorou.

Bolsonaro já se posicionou publicamente a favor do garimpo em terras indígenas, contra a destruição de maquinário usado por madeireiros para derrubar ilegalmente a floresta na Amazônia e, durante a campanha, prometeu que não demarcaria mais nem “um centímetro quadrado” de área para essas populações.SUSANA VERA/REUTERS
Kerry foi Secretário de Estado dos Estados Unidos entre 2013 e 2017

No evento de homenagem a Korap, coube a John Kerry, recém-nomeado por Biden como enviado especial de mudanças climáticas para o Conselho Nacional de Segurança, fazer o principal discurso da noite. Ali, ele disse à Korap que se comprometia a lutar a seu lado.

“O povo Munduruku no Brasil é guerreiro de muitas formas diferentes. Tem resistido ativamente à pressão constante, violenta, ilegal e, às vezes, patrocinada pelo Estado, de madeireiros e mineradores para explorar suas terras. Alessandra, você falou e continua a falar a verdade ao poder. E é extraordinária a maneira como você luta pelos pulmões do planeta, a maneira como você luta para proteger nossa terra e por todos os bens comuns que precisamos nos esforçar para salvar”, disse Kerry, responsável pela formulação das propostas para meio ambiente da campanha de Biden.

Naquele mesmo mês, o democrata surpreendeu o governo brasileiro ao citar o desmatamento na Amazônia como um exemplo de como mudaria sua liderança global em relação à gestão Trump durante um debate televisivo entre os candidatos.

Ao anunciar que pretendia criar um fundo para a preservação do Bioma, Biden afirmou: “Aqui estão US$ 20 bilhões, pare de destruir a floresta. E se não parar, vai enfrentar consequências econômicas significativas”. A fala foi vista pelo governo Bolsonaro como uma ameaça à soberania do país.

O poder da oposição americana a Bolsonaro

Para Casarões, é difícil dimensionar o poder desse grupo de deputados democratas, no qual Haaland é uma liderança. Isso porque, diferente do Brasil, o presidente americano depende essencialmente do legislativo para aprovar medidas centrais e por enquanto a Câmara é a única das duas casas que os democratas controlam por enquanto — a maioria no Senado para o próximo ano ainda está indefinida.

Considerado um moderado e centrista entre os Democratas, Biden terá que fazer concessões à ala mais à esquerda do partido para poder governar.

E um tema no qual seria mais fácil chegar a um consenso é justamente a agenda ambiental, na qual Bolsonaro é visto como um antagonista claro para o partido. Biden já anunciou, por exemplo, que recolocará os EUA no Acordo de Paris, de onde Trump retirou o país, em um movimento que Bolsonaro admitiu ter vontade de copiar.

ADRIANO MACHADO/REUTERS
Bolsonaro tem relação conflituosa com povos indígenas

No final de novembro, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que a Amazônia brasileira perdeu mais de 11 mil quilômetros quadrados de área de floresta no período entre agosto de 2019 e julho de 2020.

É o maior desmatamento registrado nos últimos 12 anos. Nesta quarta, dia 16, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo de países do qual o Brasil quer se tornar membro, divulgou relatório em que aponta que o Brasil tem falhado em coibir a devastação ambiental.

“As discussões políticas enviaram sinais contraditórios sobre o compromisso (do governo) com a estrutura de proteção ambiental existente”, afirma o relatório, que exorta o governo a aumentar o orçamento para a fiscalização.

Reservadamente, democratas afirmam não ver condições de interlocução nesses temas com o chanceler Ernesto Araújo, que, em setembro de 2019, deu uma palestra em um think tank conservador na capital americana no qual questionava premissas científicas do aquecimento global.

“O negacionismo climático que uniu Bolsonaro a Trump simplesmente não funcionará com Biden, que priorizará ações climáticas globais ambiciosas, incluindo a proteção da floresta Amazônica. O problema não é apenas dos ministros atuais e seus discursos públicos, mas as políticas destrutivas do governo Bolsonaro no assunto continuarão a isolar o Brasil de governos e investidores internacionais”, afirma Andrew Miller, um dos diretores da organização ambiental Amazon Watch.

BBC

Uma guerra contra a ciência climática, travada pelo Departamento de Patentes de Washington

Os esforços para minar a ciência da mudança climática no governo federal, uma vez orquestrados em grande parte pelos indicados políticos do presidente Trump, agora são cada vez mais conduzidos por gerentes de nível médio que tentam proteger seus empregos e orçamentos e desconfiam do escrutínio de altos funcionários, segundo entrevistas e relatórios e pesquisas revelados.A sede do Departamento do Interior de Washington
Foto: Victor Victor Blue/The New York Times.

Os esforços para bloquear a pesquisa sobre mudança climática não vêm apenas dos indicados políticos de Trump. Os funcionários mais baixos do governo estão seguindo suas pistas e correndo com eles.

Um caso em questão: quando John Crusius, químico de pesquisa do United States Geological Survey, publicou um artigo acadêmico sobre soluções naturais para a mudança climática em abril, sua publicação em documentos governamentais nunca apareceu. Não poderia.

A publicação de seu estudo, após um mês de atraso, foi condicionada por seu empregador ao fato de o Dr. Crusius não associar sua pesquisa ao governo federal.

“Não há dúvida de que meu artigo foi negado pela aprovação do governo porque tinha a ver com os esforços para mitigar as mudanças climáticas”, disse Crusius, deixando claro que ele também estava falando em sua capacidade pessoal porque a agência exigia que ele o fizesse.

“Se eu fosse um sismólogo e tivesse escrito um artigo análogo sobre a redução do risco sísmico, tenho certeza de que o artigo teria passado”.

Especialistas do governo disseram que ficaram surpresos com a velocidade com que os funcionários federais internalizaram o antagonismo do presidente Trump à ciência do clima e consideraram a nova paisagem perigosa.

“Se os administradores de alto nível emitissem uma diretiva pública realmente clara, haveria um alvoroço e uma contração, e seria mais fácil combater”, disse Lauren Kurtz, diretora executiva do Fundo de Defesa Legal da Ciência Climática, que apóia os cientistas. “Isso é muito mais difícil de combater.”

Um relatório do inspetor-geral da Agência de Proteção Ambiental divulgado em maio descobriu que quase 400 funcionários pesquisados ​​em 2018 acreditavam que um gerente havia interferido ou suprimido a liberação de informações científicas, mas eles nunca relataram as violações. Uma pesquisa separada da Union of Concerned Scientists em 2018 com mais de 63.000 funcionários federais em 16 agências identificou o E.P.A. e Departamento do Interior por ter a liderança menos confiável em questões de integridade científica.

As descobertas publicadas na revista PLOS ONE, revisada por pares, em abril, em um subconjunto dessas agências, descobriram que 631 trabalhadores concordaram ou concordaram fortemente que haviam sido solicitados a omitir a frase “mudança climática” de seu trabalho. No mesmo artigo, 703 funcionários disseram que evitaram trabalhar nas mudanças climáticas ou usar a frase.

“Eles estão fazendo isso porque estão assustados”, disse Maria Caffrey, ex-especialista em geografia do Serviço Nacional de Parques, que lutou contra os gerentes enquanto tentavam excluir o papel da humanidade nas mudanças climáticas de um relatório recente sobre a elevação do nível do mar. “Essas são todas as pessoas que compareceram aos comícios da March for Science, mas depois entraram no escritório na segunda-feira e rolaram completamente”.

Exemplos são abundantes, nem todos novos. Mas cada vez mais, os cientistas estão dispostos a se manifestar.

Em 24 de abril de 2017, Noah Diffenbaugh, cientista climático da Universidade de Stanford, publicou um estudo mostrando as ligações entre eventos climáticos extremos e mudanças climáticas. Como a pesquisa foi financiada em parte pelos subsídios do Departamento de Energia da era Obama, que incluíam mais de US $ 1,3 milhão para o projeto de Diffenbaugh, creditei a agência nos agradecimentos do jornal.

Em 25 de abril, mostram os e-mails, os pesquisadores foram informados de que o reconhecimento do apoio do Departamento de Energia exigiria uma revisão adicional.

“Foi alarmante receber esse e-mail porque estava muito longe de nossa prática normal como comunidade científica”, disse Diffenbaugh.

A divulgação completa do financiamento, observou ele, é exigida pela maioria das revistas científicas e pela universidade.

Presidente Trump deixando o Jardim de Rosas da Casa Branca após uma aparição neste mês.
Crédito: Doug Mills / The New York Times

Os e-mails informavam que os gerentes do programa de pesquisa biológica e ambiental do Departamento de Energia, conhecido como BER, sentiam que seu programa estava “sob ataque interno” e estavam preocupados com certos termos, incluindo “atribuição de eventos extremos”, que se refere a quanto um determinado evento climático pode estar ligado ao aquecimento global.

Eles também se preocuparam com referências no trabalho de pesquisa de Diffenbaugh a termos como o Clean Power Plan, um regulamento da era Obama sobre usinas a carvão; o custo social do carbono, um princípio que impõe um preço às emissões de dióxido de carbono causadas pelo aquecimento climático; e o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.

Citando essas três áreas, um supervisor de pesquisa escreveu ao Dr. Diffenbaugh seis dias após a publicação do estudo: “Estava tentando não escrever muito disso por escrito, mas a preocupação aqui é evitar a impressão de que B.E.R. está apoiando pesquisas diretamente focadas na avaliação de políticas.

Esses foram exatamente os assuntos da pesquisa financiada pelo governo de Diffenbaugh.

Um artigo subsequente examinou como o cumprimento das metas de redução de carbono do Acordo de Paris afetaria eventos climáticos extremos. Quando o Dr. Diffenbaugh a submeteu à aprovação, disseram-lhe que os funcionários do Departamento de Energia sentiram que era “sólido na ciência”, mas continha “palavras de alerta” como o Acordo de Paris, mostram os e-mails.

Sua escolha foi remover essas frases e reconhecer o financiamento da agência, ou mantê-las e não mencionar a concessão.

Dr. Diffenbaugh e Stanford decidiram que a pesquisa não deveria ser alterada e seria publicada com as chamadas palavras de bandeira vermelha e a divulgação de fontes de financiamento. Os funcionários do departamento notificaram posteriormente aos líderes do projeto que o financiamento seria reduzido pela metade. O projeto do Dr. Diffenbaugh foi zerado.

Jess Szymanski, porta-voz do Departamento de Energia, disse em um comunicado: “Não existe uma política do Departamento de Energia que proíba a menção de ‘mudança climática’ ou ‘Acordo de Paris’, nem há orientação do departamento para reter fundos para projetos como este. língua. Alegar é falso.

Depois, há o caso de Marcy Rockman. Até que ela renunciou ao Serviço de Parques em novembro de 2018, a Dra. Rockman atuou por sete anos como coordenadora de adaptação às mudanças climáticas; cinco desses anos foram gastos desenvolvendo uma estratégia para proteger os recursos culturais das mudanças climáticas. Mas quando a estratégia foi lançada no final de janeiro de 2017, seus supervisores decidiram abandonar os planos de enviar cópias para cada parque nacional.

“Não havia apetite para nenhuma das minhas cadeias de administração escrever um memorando que tivesse sua assinatura dizendo: ‘Estou distribuindo a estratégia de mudança climática'”, disse ela.

A Associação Européia de Arqueólogos notou o ocorrido e convidou a Dra. Rockman a apresentar seu trabalho na Holanda. Seu chefe aprovou a viagem e depois se aposentou.

Mas vários meses depois, disse Rockman, ela foi informada de que precisava se inscrever novamente para aprovação. Seus supervisores sugeriram que ela minimizasse as mudanças climáticas. Então a viagem foi negada.

“Fui responsável por tomar e executar decisões que ninguém acima de mim queria tomar”, disse ela.

O Departamento do Interior se recusou a comentar o caso do Dr. Rockman, citando litígios pendentes.

O E.P.A. Sede em Washington. Credito: Victor J. Blue para o New York Times

Patrick Gonzalez, o principal cientista de mudanças climáticas do Serviço Nacional de Parques, solicitou a aprovação de políticas em março de 2018 para publicar um artigo com base na análise de mais de um século de dados climáticos em 417 parques nacionais.

Seu supervisor não conseguiu superar a frase de abertura: “As mudanças climáticas antropogênicas estão alterando os sistemas ecológicos e humanos globalmente”.

“Sem ler mais o manuscrito, ela disse: ‘Vou ter que pedir para você mudar isso'”, lembrou Gonzalez. Ele disse em uma entrevista que estava falando por sua própria capacidade e não em nome do governo federal.

E-mails e outros documentos mostram que Gonzalez procurou John Dennis, o vice-cientista chefe da agência, para protestar. Dr. Dennis incentivou o compromisso.

Os documentos mostram que o Dr. Dennis destacou a frase “antropogênica” ou causada por humanos. “Essa palavra é necessária aqui para a tese científica básica do artigo – que eu interpreto como ‘a mudança climática já revelou ter tido grandes impactos nos parques?'”, Perguntei.

“Do ponto de vista político, pode ser muito forte para uma pessoa do DOI dizer ‘mudança climática antropogênica'” “, escreveu Dennis, sugerindo” mudança climática impulsionada por dióxido de carbono “.

Gonzalez se recusou a fazer a alteração e, após três meses, a agência recuou. O estudo foi publicado na revista Environmental Research Letters, em setembro de 2018, sem alterações.

Conner Swanson, porta-voz do Departamento do Interior, disse que a pesquisa de Gonzalez se refere à “adaptação à mudança climática em vez de causa da mudança climática e, como resultado, a integridade da ciência não exigia a discussão da causa da mudança climática em uma situação em que esse uso pode desviar a atenção das descobertas científicas do artigo. ”

No mesmo verão, o Serviço de Parques tentou excluir todas as menções ao papel da humanidade nas mudanças climáticas em um relatório sobre a elevação do nível do mar. Seu principal autor, Dr. Caffrey, contestou. Foi lançado após mais de um ano de atraso sem as tentativas de edição. Dr. Caffrey, no entanto, disse que ela foi demitida antes de sua posição ser eliminada.

Gonzalez disse que estava correndo o risco de contar sua história. Mas eu disse: “Pretendo servir como um exemplo positivo de defender fortemente a ciência”.

Poluição,Aquecimento Global,Meio Ambiente,Ecologia,Blog do Mesquita

Banco Mundial anuncia US$ 200 bilhões para proteção climática

Valor é o dobro do previsto pelo Acordo de Paris e será destinado à promoção de energias renováveis e adaptação de locais ameaçados pelas mudanças climáticas.Poluição,Aquecimento Global,Meio Ambiente,Ecologia,Blog do Mesquita

Usina de carvão em operação nos Estados Unidos

Usina de carvão nos EUA: Banco Mundial alerta que sem redução das emissões e adaptações haverá 100 milhões vivendo na pobreza até 2030

O Banco Mundial anunciou que disponibilizará aos países em desenvolvimento 200 bilhões de dólares para investimentos em ações de proteção ao clima. A cifra representa o dobro do valor previsto para os próximos cinco anos, estabelecido durante as negociações do Acordo de Paris, em 2015.

Segundo a instituição, a medida, anunciada em meio à 24ª Conferência da ONU sobre o clima (COP 24), que ocorre na Polônia, representa uma aumento significativo na ambição de lidar com as mudanças climáticas, além de enviar “um sinal importante para que a comunidade internacional faça o mesmo”.

As nações em desenvolvimento se comprometeram a aumentar os gastos públicos e privados anuais combinados para 100 bilhões de dólares até 2020, para combater o impacto das mudanças climáticas. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os valores gastos por esses países na proteção ao clima foram de 48,5 bilhões de dólares em 2016 e de 57,6 bilhões em 2017.

Em comunicado, o Banco Mundial afirma que a própria instituição financiará aproximadamente 100 bilhões de dólares do total de 200 bilhões anunciado. Em torno de um terço do financiamento virá de duas outras agências do Banco Mundial, com o restante sendo fornecido por capitais privados levantados pelo grupo.

“Se não reduzirmos as emissões [de gases causadores do efeito estufa] e não nos adaptarmos agora, teremos 100 milhões de pessoas vivendo na pobreza até 2030”, alertou o executivo sênior para mudanças climáticas da instituição, John Roome. “Também sabemos que, se não lidarmos proativamente com esse problema, apenas em três regiões – África, Ásia e América Latina – teremos 133 milhões de migrantes em razão do clima”, afirmou.

Roome acrescentou que, no ano fiscal de 2018, iniciado em junho de 2017, o Banco Mundial destinou 20,5 bilhões de dólares à proteção ao clima, em comparação com a média anual de 13,5 bilhões no período de 2014 a 2018. Segundo o executivo, o novo valor corresponde a cerca de 35% de todos os financiamentos do Banco Mundial.

Parte significativa desse financiamento será dedicada à redução das emissões, principalmente através de estratégias para o desenvolvimento de energias renováveis. Segundo a instituição, outra prioridade é aumentar o apoio à adaptação ao clima, uma vez que milhões de pessoas já lidam com os efeitos das condições climáticas extremas.

Essas medidas incluem a construção de edificações resistentes aos climas extremos e a descoberta de novas fontes de água potável, uma vez que o aumento do nível do mar pode contaminar as reservas existentes.

“Ao incrementar o financiamento à adaptação direta para chegar a 50 bilhões de dólares entre [os anos fiscais de ] 2021-2025, o Banco Mundial vai, pela primeira vez, dar ênfase igual a esse objetivo, ao lado dos investimentos para reduzir as emissões”. Afirma a nota da instituição.

Sobre questões como o aumento do nível do mar e a maior ocorrência de enchentes e secas, a CEO do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, afirma que é necessário “combater as causas, mas também se adaptar às consequências que costumam ser dramáticas para as populações mais pobres do mundo”.

“Mesmo se conseguirmos manter o aquecimento global em 2º C, sabemos que será necessária uma grande quantidade de adaptações em lugares como o Chade, Moçambique ou Bangladesh”, acrescentou Roome.

Representantes de quase 200 países iniciaram neste domingo em Katowice, na Polônia, duas semanas de conversações sobre as mudanças climáticas e como implementar as medidas para manter o aquecimento do planeta abaixo de 2º C, como estabelecido pelo Acordo de Paris. A COP 24 começa oficialmente nesta segunda-feira e prossegue até 14 de dezembro.

RC/afp/ap