Tecnologia: Radicalismo nas redes sociais ganha espaço com erros da imprensa


A eleição de Donald Trump tornou evidente um paradoxo muito preocupante.

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Ao mesmo tempo em que vivemos a era da abundância informativa gerada pela internet, verificamos que a imprensa se enclausurou numa bolha informativa deixando o cidadão comum sem elementos para poder situar-se no mar de desinformação criado nas redes sociais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A vitória de Trump foi um choque de realidade para a maioria esmagadora dos leitores, ouvintes e telespectadores que verificaram de forma brutal como estavam condicionados por um tipo de informação produzida por uma imprensa enclausurada num sistema (establishment) composto pelas elites tomadoras de decisões no âmbito da política, econômica, justiça e administração pública.

Tanto nos Estados Unidos, como na Inglaterra, a imprensa recorreu ao eufemismo da surpresa para explicar seus erros de previsão de fatos políticos, como o desfecho de uma campanha presidencial e o voto pela saída da Comunidade Econômica Europeia (Brexit).

Desculpas como volatilidade eleitoral ou equívocos técnicos na verdade escondem algo mais profundo que é essencialmente político. A imprensa não percebeu uma mudança no contexto informativo com a massificação do uso das redes sociais, onde só o Facebook tem cerca de 1,7 bilhão de usuários no mundo inteiro.


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O enclausuramento de imprensa na bolha do establishment levou-a a aferrar-se a uma agenda noticiosa determinada pelos grandes tomadores de decisões, afastando-se do cidadão comum que passou a encarar os jornais como parte de um sistema que pensa e age em função dos seus próprios interesses. O distanciamento em relação à imprensa, levou o cidadão desiludido e contaminado pela sensação de desamparo a buscar nas redes sociais o conforto de encontrar pessoas com as mesmas frustrações.

Acontece que as redes sociais tem dois grandes problemas: são ótimas para a disseminação de rumores e boatos e para a formação de guetos informativos. No boca a boca virtual, as pessoas dizem o que pensam, a maioria sem muita preocupação com causas e consequências do que publicam. As pessoas ainda não distinguem o que dizem numa rede social daquilo que proclamam num papo de botequim. Acontece que no bar, o dito fica restrito aos colegas de mesa, enquanto no Facebook se espalha por milhares de usuarios.

Os guetos da xenofobia política

Outra característica das redes sociais é a formação grupos de indivíduos com ideias, comportamentos ou interesses em comum, e sabemos que a tendência em guetos é a radicalização das crenças e posições do grupo , bem como a polarização quando confrontado com opiniões, ideias ou propostas diferentes.

Depois do que aconteceu na eleição de Trump e no desfecho do Brexit, ficou claro que as redes sociais são um fenômeno irreversível e que não podem ser execradas só porque apresentaram problemas resultantes do fato de que seus usuários ainda não assimilaram os comportamentos e valores da informação num boca a boca virtual. O que os fatos mostraram é que há necessidade de um contraponto à desinformação e de uma alfabetização digital para uma sociedade que recém está entrando numa nova era da comunicação.

A instituição mais indicada para exercer estas funções seria a imprensa, porque ao longo de sua existência, ela desenvolveu uma série de técnicas para evitar difamação, distorções, omissões, bem como buscar a exatidão, relevância e pertinência dos fatos, dados e eventos distribuídos a leitores, ouvintes e telespectadores. Mas o ferramental acabou ficando ocioso por conta da opção preferencial pelo establishment feita pelos donos e acionistas de empresas jornalísticas, mais preocupados com o lucro e dividendos do que com a prestação de um serviço público essencial, como é a informação.

A constatação inevitável é que estamos sendo empurrados para a orfandade informativa, Temos de um lado, uma imprensa que já não conta mais com a confiança e fidelidade dos segmentos sociais desiludidos com o establishment, e por outro, estamos dentro de redes sociais onde as pessoas agem por impulso porque ainda não aprenderam a usar a informação num ambiente em que ela se espalha viralmente e com consequências imprevisíveis.

É o preço que estamos tendo que pagar nesta transição de modelos informativos, de um controlado por um pequeno grupo de tomadores de decisões, para outro baseado no compartilhamento de opiniões e percepções.
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Carlos Castilho é jornalista e editor do site do Observatório da Imprensa

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