Por que o sangue do leão Cecil mancha a todos nós


Talvez a indignação generalizada contra o caçador reflita uma conscientização: ou nos salvamos e respeitamos juntos, ou juntos nos perderemos.

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Criança protesta contra morte do leão Cecil em Minnesota, EUA, em frente à clínica do dentista Walter Palmer. / ERIC MILLER (REUTERS)

O leão africano Cecil, morto a flechadas por um dentista e caçador norte-americano no parque Hwange, do Zimbábue, transformou-se no emblema da crueldade humana com os animais. Seu sangue mancha a todos nós.

O mundo, sobretudo as crianças, está chorando a morte do leão Cecil e, para consolar os pequenos, os pais os fazem dormir abraçados a um leão de brinquedo.

É possível que essa história que tomou as redes sociais tenha doído em cada um de nós por motivos diferentes. Sem dúvida, nela se misturam vários elementos que tornam mais repugnante e simbólica essa tragédia animal, como o truque para tirar a fera do parque, sua morte cruel ao deixá-lo dois dias agonizando, sua posterior decapitação e os 50.000 dólares (165.000 reais) que teriam sido pagos para corromper guias do parque.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]


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Sim, já sei. Alguém já escreveu: por que tanto barulho pelo sacrifício, ainda que doloroso, de um leão, quando a cada dia são assassinados milhares de humanos inocentes? O que a morte cruel de um animal acrescenta à barbárie que nos brinda a cada dia nossa suposta humanidade? Por que as pessoas não choram, protestam e se revoltam mais com as injustiças sociais que espalham vítimas por nosso planeta?

E, no entanto, a crueldade perpetrada contra o leão está aí. O mundo se levantou contra o caçador norte-americano. Talvez por vê-lo como um espelho que nos mostra o mais baixo de nossos instintos de violência e desprezo pela vida. E quando falamos de vida, os soberbos humanos não podemos nem devemos esquecer que a vida animal está estreitamente ligada à nossa. Formamos, pessoas e animais, uma única família indissolúvel.

Talvez essa indignação generalizada contra o caçador do leão reflita uma conscientização coletiva e positiva de que, neste nosso mundo, ou nos salvamos e respeitamos juntos ou juntos nos perderemos.

Os soberbos humanos não devemos esquecer que a vida animal está estreitamente ligada à nossa. Formamos, pessoas e animais, uma única família indissolúvel.

Se o sacrifício inútil e bárbaro de Cecil doeu em cada pessoa por um motivo diferente, há algo que ficou silenciado ou inadvertido. Palmer, o dentista caçador, se diz arrependido. Não de sua crueldade com o animal, mas sim porque, com diz, “não fazia ideia de que o leão fosse tão famoso e conhecido”.

Isso não lembra o que pensamos do tratamento que recebem em nossa sociedade humana os famosos e importantes, ao contrário dos anônimos e sem glória? Não costumam ser tratados de forma diferenciada, inclusive nos tribunais de justiça, os famosos e importantes, os que ostentam poder e riqueza, e os párias dos três p: pobres, putas e “pretos”?

A surpresa do caçador que matou o leão porque não sabia de sua fama não nos lembra o que se faz com as pessoas de nossas comunidades carentes? Ali as vítimas da violência institucional são sacrificadas sem excessiva preocupação, já que não são famosas, nem têm nome e poder.

A África, terra do leão Cecil, é outro emblema dessa injustiça e indignidade internacional perpetrada contra os que não são famosos. É um continente abandonado a sua sorte. A morte de seus filhos não nos tira o sono.

Causaria o mesmo clamor mundial, o mesmo eco nos meios de comunicação, o naufrágio de um navio com milhares de emigrantes africanos anônimos que se os náufragos fossem grandes industriais, políticos ou artistas de fama dos Estados Unidos?

A surpresa do caçador pelo clamor de protesto contra quem matou o animal deveria nos fazer refletir. E os 50.000 dólares pagos para martirizar o leão são um escárnio para todos aqueles que, no mundo, passam fome ou morrem por falta de dinheiro para o tratamento médico.

Quando o Rei da Espanha, Juan Carlos I, pagou 75.000 euros (quase 280.000 reais) para matar por esporte um elefante também na África, uma mulher que não conheço, Esther Marin, escreveu em meu blog algo de que nunca me esqueço: “Com o que o rei pagou para se dar o gosto de matar um elefante inocente eu teria salvado minha filha de cinco anos. Perdi-a porque não tinha recursos para conseguir remédios muito caros que só podiam ser comprados nos Estados Unidos”.

Aquela menina e aquela mãe faziam parte desses milhões de humanos que podem morrer, sem que nos escandalizemos, porque afinal de contas não eram famosos.

Obrigado, leão Cecil, por estar despertando com seu sacrifício inútil e cruel nossa consciência burguesa e adormecida!

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