A vida por trás de máscaras na China


Restrição do uso de carvão para aquecer casas ajudou a melhorar qualidade do ar em parte do país.

Homem com menina usando máscaras na ChinaEm Pequim, usar máscaras respiratórias é tão comum quanto usar óculos
 
Mas em cidades como Pequim, poluição segue alarmante, e máscaras respiratórias devem continuar fazendo parte do cotidiano.

Pela primeira vez em muito tempo, os moradores das províncias do nordeste da China estão olhando para céus azuis. Desde o ano passado está em vigor uma legislação que restringe o uso de carvão para a calefação em Pequim e em outras 27 cidades de grande porte da região.

De acordo com o Greenpeace na Ásia Oriental, no último ano, a concentração de partículas finas tóxicas no ar caiu 33% nas cidades do nordeste chinês em 2017 em relação ao ano anterior. Também conhecidas como PM2,5, tais micropartículas são inaláveis e podem se instalar nos pulmões, provocando danos à saúde. 

Apesar da melhora, os moradores de grandes metrópoles chinesas ainda não vão deixar de usar suas máscaras contra poluição. Na verdade, apenas parte da queda na concentração de partículas atmosféricas finas na região se deve à proibição da queima de carvão para o aquecimento doméstico. Outra causa, segundo análise do Greenpeace, foram as condições climáticas favoráveis, como fortes ventos vindos do norte.

Na China como um todo, a porcentagem das micropartículas PM2,5 na atmosfera caiu apenas 4,5% no ano passado, valor bem menor que a taxa de 33% verificada nas cidades do nordeste.


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Essa foi a menor queda registrada no país desde 2013, quando a China declarou “guerra à poluição”. Ainda assim, devido a essa melhora modesta, cerca de 160 mil mortes prematuras foram evitadas na China em 2017, segundo estimativas do Greenpeace.

Contudo, em muitas províncias industriais, a poluição atmosférica piorou. Isso porque a nem todas as cidades chinesas se aplica uma regulação rigorosa como a do nordeste do país. Um exemplo é a província de Heilongjiang, na qual as emissões de indústrias como a siderúrgica contribuíram para um aumento de 10% nos níveis de partículas tóxicas na atmosfera.

Para Huang Wei, especialista em clima e energia do Greenpeace na Ásia Oriental, o governo não deve focar apenas no aquecimento doméstico e tomar medidas em relação às emissões industriais. “Políticas que favorecem o carvão e a indústria pesada estão impedindo o progresso”, afirma.

Até nas cidades do nordeste, que apresentaram resultados melhores, houve dias em 2017 em que o smog estava tão denso como de costume. Segundo o Índice de Qualidade do Ar de Pequim, em 28 de dezembro por exemplo, boa parte da capital estava sob níveis de poluição “muito prejudiciais à saúde”. O ministro do Meio Ambiente admitiu no início de janeiro que a partir do fim do mês a situação deve piorar novamente.

Mulher de máscara e homem de óculos na ChinaChen e o marido sempre viveram em Pequim. Para ela, a máscara se tornou um acessório cotidiano

Máscaras não vão sair de moda tão cedo

Para Chen, moradora de Pequim, “a poluição já faz parte do cotidiano”. “Procuro usar minha máscara o máximo possível quando estou na rua, mas em locais fechados, geralmente fico sem ela. A máscara se tornou um acessório cotidiano para mim, assim como óculos”, disse.

Wang Wei, vendedor ambulante do distrito de Chaoyangmen em Pequim, vê a máscara como item essencial para o trabalho na rua. “No inverno, após um dia de trabalho no nevoeiro de poluição, estou acostumado a ter muita tosse e problemas respiratórios”, contou à DW.

Com a péssima qualidade do ar como uma realidade cotidiana para a maioria dos chineses, o governo tem sido cada vez mais pressionado a agir. Essa pressão se intensificou nos últimos anos com o maior peso que questões ambientais e de sustentabilidade passaram a ter na agenda política.

“O foco na redução da poluição está alinhado a prioridades maiores do governo chinês, cujos objetivos são abordar outros problemas internos na China”, afirmou à DW o pesquisador Duncan Freeman, do Centro de Pesquisa União Europeia-China do Colégio da Europa, na Bélgica.

“A opinião pública está cada vez mais manifestando suas preocupações quanto aos impactos da poluição na saúde. Ao mesmo tempo, os impactos ambientais ameaçam a sustentabilidade do modelo econômico chinês, o que é um problema fundamental para o desenvolvimento futuro do país.”

Transição energética

Desde o início da “guerra à poluição” em 2013, a concentração de partículas PM2,5 no ar caiu 33% em 74 cidades chinesas, conforme mostram dados dos últimos cinco anos do Ministério do Meio Ambiente.

A maior parte da redução na emissão de poluentes se deve à transição de uma matriz energética dominada pelo carvão para uma matriz cada vez mais baseada no uso do gás natural. Freeman alerta, no entanto, que essa transição ainda está longe de chegar ao fim.

“O carvão não pode ser rapidamente removido da matriz energética da China sem causar transtornos. Ele continuará sendo uma das maiores fontes de energia da China por muitos anos”, diz o pesquisador.

Para Peter Singer, conselheiro sobre energias renováveis da Agência Internacional de Energia (IEA) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os recentes índices de poluição atmosférica da China mostram que a adoção de uma infraestrutura energética mais limpa está tendo impacto em algumas províncias.

Contudo, segundo Singer, no âmbito internacional, a relação da China com carvão de altos índices de carbono indica que o país ainda tem que mudar a própria conduta. “Não podemos esquecer o grande investimento em carvão que a China ainda representa”, destaca.

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