Opinião dos outros – Câmara Federal, Rogéria e censura

Censura e Discriminação. Catão, o censor na Câmara Federal.
Por Wálter Maierovitch¹

Marco Pórcio Catão (243-149aC) começou como advogado. Depois virou pretor, tribuno e cônsul. Escreveu vários livros: calcula-se mais de 80.

Em 184 aC, ele se tornou censor: Virou Catão, o censor

Como censor romano fez de tudo para evitar que a cultura helênica penetrasse e impregnasse Roma. Ele considerava a cultura grega permissiva. E as pinturas e esculturas gregas julgava-as atentatória à moral romana.

Catão, o censor, pregava abertamente a destruição de Cartago: “Delenda Cartago”.

Não estava mais vivo quando Cartago foi destruída pelos romanos, fato que levou uma maior assimilação cultural, ou seja, o contrário do imaginado por Catão, o censor.

Essa semana o espírito de Catão-censor baixou em Brasília, na Câmara dos Deputados. Também na cidade italiana de Foggia, na sede do bispado católico.

Na nossa Câmara dos Deputados, Catão – o censor, – encarnou na pessoa de uma mulher, diretora responsável por eventos culturais da Casa. Ela rasgou a Constituição e censurou a exposição fotográfica realizada em espaço cultural.

Catão, o censor, mandou esconder, numa cabine, a fotografia do transexual Rogéria. Em resumo, foto da Rogéria, só para maiores de idade.

Na exposição intitulada “Heróis”, – do consagrado fotógrafo Luís Garrido – , aparece Rogéria vestida apenas com camisa e gravata. Uma fato de dez anos atrás, que ficou muito conhecida.

Garrido, nessa exposição, apresenta muitas fotos da sua vitoriosa carreira. Tem Lula, o saudoso Betinho e até do Collor de Mello, esta fotografia, aliás, não censurada.

A colocação da foto de Rogéria numa cabine, sob argumento de a Câmara ser muito visitada por crianças e adolescentes em excursões de colégios, chega a lembrar o tapa-sexo que a Igreja colocou, – e ainda não tirou -, na escultura O Cristo Ressuscitado (1519), de Michelangelo. A obra está na igreja de Santa Maria sopra Minerva, atrás do Pantheon (27 aC), ou seja, no coração de Roma.

Com efeito. É lamentável que a direção da nossa Câmara Federal de Deputados confunda arte com violência às crianças e adolescentes.

Na Câmara, ao esquecer que a Constituição proíbe a censura e a discriminação, deu-se uma interpretação de Catão, o censor, ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Por outro lado, e também ontem, a parlamentar italiana conhecida por Wladimir Luxúria (nome artístico de Wladimir Guadagno), do Partido da Refundação Comunista, foi vítima de discriminação.

Luxúria, – primeira e única deputada européia transexual – , acabou vetada como testemunha do casamento religioso da sua prima Sara.

O bispo Francesco Pio Tamburino, da cidade de Foggia, não aceitou a transexual como testemunha. O casamento está marcado para setembro do próximo ano e Luxúria afirmou que a decisão parece ter sido dada no Medioevo (Idade Média).

Em razão do escândalo provocado, o bispo Francesco Pio voltou atrás. Isto depois de avisado que, pelo Código Canônico, só estão impedidos de testemunhar os menores de 18 anos. A deputada italiana Luxúria tem 42 anos.

Vamos aguardar que o presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia, casse a deliberação de Catão, o censor e acabe com a censura ao trabalho de Garrido e a discriminação feita a Rogéria.

Quanto à Luxúria, passou por constrangimentos piores. Foi agredida em Moscou quando da tentativa, abortada pela polícia, de realização, pela primeira vez na Rússia, do “Dia do Orgulho Gay”.

No ano passado, na sede da Câmara (palazzo Montecitorio), Luxúria foi expulsa, pela sua colega Elizabetta Gardine, da direita italiana, do banheiro das deputadas: motivo, era gay e na certidão de nascimento estava registrado “sexo masculino”.

Nota do Editor
Parece até que não estamos no país do carnaval, das bundas e dos peitos. Fica a impressão, que a bancada evangélica na Câmara formou fileira junto aos parlamentares homófobos, na, aprentemente nada sutil, exteriorização de preconceito contra os homossexuais ou, pela arcaica e medieval vergonha ante a nudez – aliás, no caso, nem tão explícita assim.

Contra a censura! Sempre! Antes que Chavez.

¹Wálter Fanganiello Maierovitch, 60 anos
Comentarista da CBN, colunista da revista Carta Capital e colaborador da revista italiana Narco-Mafie.
Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e presidente e fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais, é também professor de pós-graduação em direito penal e processual penal, além de professor-visitante da Universidade de Georgetown (Washington-EUA).
É conselheiro da Associação Brasileira dos Constitucionalistas-Instituto Pimenta Bueno da Universidade de São Paulo (USP), ex-secretário nacional antidrogas da Presidência da República, titular da cadeira 28 da Academia Paulista de História.

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