O termo Dilma nas redes sociais: o fim da bipolaridade política e o desejo de radicalizar mudanças.


Rede de RTs sobre Dilma mostra o fim da bipolaridade no Brasil. Um grande grupo altamente relacionado (mancha verde claro) é o elemento surpresa do debate público, disputando o sentido do que seja a Dilma.

Rede de RTs sobre Dilma mostra o fim da bipolaridade no Brasil. Um grande grupo altamente relacionado (mancha verde claro) é o elemento surpresa do debate público, disputando o sentido do que seja a Dilma.

A imprensa soltou uma nota afirmando que a Abin (órgão de inteligência do governo federal) passa a estar de olho nas conversações dos perfis das redes sociais. Pelo que vejo, através da análise de rede que faço aqui, a Abin deve estar trabalhando 24 horas sem parar, com todo o seu pessoal mais o triplo de “voluntários”. Isso porque a densidade da rede de tweets, com recorrência da palavra Dilma, publicados no Twitter, só aumenta.

Coletei, nos dias 16 e 17 de junho, esses tweets. Eles somam 170 mil. Destes, 50 mil são de RTs (republicações). Peguei o arquivo e plotei-o no Gephi, buscando saber quem são os Hubs dessa Rede.

Grandes hubs são aqueles que possuem ótimas qualidades de conexões. Autoridades são aqueles que possuem ótimos conteúdos. O poder do segundo reside na credibilidade e na difusão.

O primeiro, nisso e no fato de obter e circular informações de qualidade, para tantas outras autoridades. Resultado já sabido: Hubs são os ativistas. Autoridades, os perfis mais noticiosos.
Para quem quiser visualizar no detalhe, é 
clicar aqui e baixar o pdf.

Explicado isso, vamos aos verdadeiros resultados: a rede “Dilma” no Twitter possui uma densidade enorme. Isso significa que quanto mais conexões (linhas) existirem nessa rede, mais densa ela vai ficando (e isso não pára de acontecer). Uma alerta aí para a Abin (rs) e uma má notícia: o trabalho de vocês vai ser impossível se o crescimento continuar nesse nível. Essa densidade significa, em linguagem de “humanidades”, que há muitas relações sendo produzidas. E essas relações criam, neste momento, componentes (grupos) fortemente conectados. E os grupos estão na rua. Para se ter uma ideia, a rede da figura acima possui 48481 componentes fortemente conectados. E somente 5475 fracamente conectados. É um evento múltiplo de grandes proporções.


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Os três grandes grupos

Rede da Perspectiva Anti-Dilma no Twitter.

Rede da Perspectiva Anti-Dilma no Twitter.

Trocando em miúdos. De olho, o que é possível ver? Que há três mega componentes fortemente conectados (dentro desses 48 mil). O primeiro é o azul claro. Nele encontramos o grupo de oposição a Dilma há anos. É uma rede cuja presença podemos visualizar: @robertofreire, @faxinanopoder, @joapaulom, @blogdonoblat, mirandasa_, blogolhonamira, @lidpsdbsenado, @rede45.

Importante salientar que esses perfis ficam juntos porque se retuitam. O caso do Noblat é interessante. Ele é retuitado por muitos perfis, mas, de modo, mais recorrente por essa rede azul. Assim ele é “atraído” para essa rede. Noblat pode dizer que não, mas a sua perspectiva acaba sendo construída, e muito, por esse grupo.

Grupo de Defesa da Perspectiva Dilmista na Rede.

Grupo de Defesa da Perspectiva Dilmista na Rede.

A rede vermelha é o tradicional grupo que blinda a Dilma na rede e constrói pontos de vista alternativos. Um grupo que a própria Dilma passou a se manter com certa distância (em função da aproximação da presidenta com os grupos tradicionais de mídia). O grupo é formado por perfis tais como @zedeabreu, @stanleyburburin, @ptnacional, @blogdilmabr, @emirsader, @rogeriocorrea. É hoje uma rede política consolidada. E é quem está segurando o rojão da presidenta na rede. Veja: o que acontece com a jornalista Mônica Bergamo é o mesmo que ocorre com o Noblat. Bergamo é uma jornalista cuja perspectiva acaba sendo atraída pela rede de temas dilmistas.

Nem azul, nem vermelho, novos atores da opinião pública em rede apresentam pontos de vistas mais conectados com os das ruas.

Nem azul, nem vermelho, novos atores da opinião pública em rede apresentam pontos de vistas mais conectados com os das ruas.

Toda rede ligada a algum político possui um certo padrão:a bipolaridade. Mas a grande novidade dessa rede acima é a mancha verde do grafo. Compostos com grandes centralidades tais como @iavelar, @helenapalm, @teclologoexisto, @semfimlucrativo, @matheusrg, @personalescrito, @tsavkko, @cadulorena.

Essa é uma rede que narra fatos que nenhuma das duas outras gostam muito de discutir: a relação entre gastos públicos e Copa, a questão indígena, a crítica do que é esquerda e direita (são inúmeros temas). Ela tem perfil mais independente. E ganha relevância na conversação na rede. Possui alta conexão com as redes que circundam o centro do grafo. Isso significa que são perfis muito conectados com as ruas.

E a velha mídia, onde está?

Jornal de maior destaque na cobertura dos protestos, o Estadão ver seus tweets serem replicados, no lado esquerdo da tela, pelos seu  seguidores (desconectados com o resto da rede) e por perfis (à direita) de múltiplas matizes, múltiplas perspectivas.

Jornal de maior destaque na cobertura dos protestos, o Estadão ver seus tweets serem replicados, no lado esquerdo da tela, pelos seu seguidores (desconectados com o resto da rede) e por perfis (à direita) de múltiplas matizes, múltiplas perspectivas.

A velha mídia são os nós de forte difusão. Como mostra a figura acima, que mostra o @estadao, o padrão é de ser perfis muito retuitados pelos seus seguidores (desconectados com o resto da rede) e por por usuários de diferentes perpsectivas (à direita da imagem). São autoridades, muito em função, dessa enorme difusão de tweets.

Contudo, por que Folha, Estadão, Marcelo Tas, Rafinha Bastos – perfis muito retuitados – não criam grandes clusteres (grupões)? Simples, porque são retuitados, mas não retuitam. Os jornais, por exemplo, possui uma deontologia jornalística, cujo valor reside no problemático “ver tudo de longe”. Ou seja, esses perfis não são ativos DENTRO da conversação/manifestação, porque não criam relações. E quem não cria relação não tem perspectiva.

Já as celebridades possuem outro ingrediente. Quem é Rafinha Bastos ou Marcelo Tas? Uma autoridade igual ao Estadão, do ponto de vista estrutural de rede: uma mega árvore nesse rizoma. A força deles deriva da escala de seguidores que possuem. Se Rafinha ou Tas assumem o risco de replicar continuamente outros perfis,eles assumirão uma causa política do Outro.

E conectar mensagens escritas por seus seguidores permitem que discursos considerados menores sejam mega visualizados. Aqui reside um egoísmo enorme, que também é o núcleo duro do valor capitalista desses perfis: replicar vozes minoritários ou não? O Marcelo Tas retuitaria – continuamente – os fãns ou não? Por um lado, esses perfis têm tanta audiência, que não conseguem administrar as interações via menções ao mesmo tempo que possuem poucos seguidores (o recado é que eles filtram as pessoas que querem estar atentos – logo, se mantêm longe do que é notícia dentro do ativismo).

Por um outro lado, há uma questão estratégica em torno da “imagem midiática” dessas grandes autoridades. Se retuitam pessoas nos protestos, entram na causa e perdem “valor de mercado”. A opção é tuitar algo original, próprio, para ser muito retuitado: é o oportunismo do surfar no “assunto do momento”. O que percebo é que as autoridades, como o Marcelo Tas. que vivem do “assunto do momento”, para obter muitos RTs e serem mais vistos, acabam por fazer ironia sobre a dimensão ativista, sem criar grandes musculaturas coletivas na dinâmica da rede. E, com isso, acabam por serem simpáticos (ou antipático) ao movimento, legitimando-o de alguma forma, mesmo que seja através de um “tirar uma casquinha para aparecer”. É complexo, mas vejo por aí. PS: sigo ambos no Twitter. E gosto dos dois.

A riqueza dessa rede Dilma está nesse fim da bipolaridade e na intensidade de subgrupos que resolveram debater se o governo da Dilma faz concessão demais ou não, é chanteado por grupo econômicos e políticos ou não, se o governo apoia as ruas ou não, se o governo vai manter as mudanças radicais abertas desde 2003 ou não. A questão na rede passa muito por aí, para além da factualidade das notícias que se difundem.
por /LABIC – Laboratório de Estudos sobre Imagem e CiberCultura

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