O racismo, essa besta nunca dorme

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Para Hans Jonas, o racismo se apresenta como o oposto intocável da racionalidade e, mais ainda, como uma tendência que resistiu até mesmo ao Iluminismo e mesmo às teses mais otimistas ao longo da modernidade. Em outras palavras, o racismo é uma espécie de percalço no caminho da civilização.

Há tanto racismo na filosofia quantos foram os seus autores, quase sempre homens, quase sempre brancos, quase sempre europeus ou norte-americanos. Compreendido como o conjunto de teorias que tentam legitimar a superioridade de uma raça ou de uma etnia sobre a outra, nossa história coleciona horrores como aqueles que aparecem em afirmações de Hegel, para quem o negro era um homem selvagem, indomável e carente de valor e caráter, de Kant, para quem os africanos não teriam nenhum talento ou sentimento que os elevasse acima do ridículo, de Hume, que afirmou sem pestanejar que os negros eram inferiores aos brancos; de Voltaire, Tocqueville e tantos outros. Falou-se o pior contra negros, indígenas e judeus, árabes e asiáticos. Com sua força cultural, a filosofia, assim, não saiu incólume das agruras de seu tempo e, como tal, sujou-se bastante nas suas improbidades. E delas precisa se limpar, vez ou outra.

Por asseio, a filosofia também baniu demônios e foi além do tempo, projetando questões, desafios e provocações, cujo salto cultural e existencial é inestimável, para o bem do reconhecimento da dignidade de todos os seres humanos. Queria falar hoje de uma dessas tantas ocasiões. A data é 30 de janeiro de 1993. A cidade é Udine, na Itália. Diante de uma plateia que celebrava com ele a entrega do prêmio Nonino, Hans Jonas fez um discurso sobre/contra o racismo. Judeu, ele conheceu o que era ser perseguido simplesmente pelo fato de ser quem se é. Judeu, teve sua mãe vítima do gás letal de Auschwitz, em 1942, uma ferida nunca suturada. Sobre esse drama, ele escrevera nas suas memórias: “esta obscura história é o grande pesar de minha existência. Esta ferida, o destino de minha mãe, jamais se fechou. Nunca pude superar. Meus filhos viveram isso comigo. Era terrível. As tormentas repentinas de soluços, que em determinadas ocasiões me sobrevinham, quando a conversa tratava de algo que me recordava aquilo, ou quando passava algum filme.” Uma mulher judia que arrancara os cabelos nas câmaras de gás porque simplesmente era quem era.

Escrevo isso para lembrar que o racismo, para Jonas, não era uma assunto abstrato, mas tinha rosto, pele, dor, tragédia pessoal. Talvez por isso mesmo, ele comece seu discurso na Itália, cinco dias antes de sua morte, com um exemplo pessoal. Ele lembra que foi precisamente em Udine que ficou sabendo do fim da Segunda Guerra Mundial, na qual ele lutou, ao lado de outros palestinos, em um grupo do exército inglês contra o nazismo. Jonas, além disso, agradece a corajosa piedade e a benevolência dos italianos a quem, diz ele, “devemos a própria vida”. Conhecendo tal solidariedade e ao mesmo tempo recontando a história do judeus, ele se dera conta dos horrores produzidos pelo holocausto.

Jonas conta história de uma manhã na qual conheceu, em Udine, duas senhoras alemãs vindas de Trieste, que deixaram a Alemanha e foram viver na Itália já depois da primeira guerra mundial. Com problemas diante do cancelamento de um trem durante sua fuga, contaram com a ajuda de um funcionário para empreender a viagem e, já na Itália, contaram com inúmeras ações de solidariedade dos habitantes locais, perante as muitas dificuldades que enfrentavam. Para Jonas, essa história manifesta uma espécie de “compromisso sagrado” baseado na solidariedade, reconhecida por Jonas como uma espécie de luz na noite enorme do genocídio que vinha sendo realizado em nome da raça.

Para Jonas, a condenação do genocídio não dependeria de uma negação da realidade da raça, já que a humanidade “existe sob a forma de diferentes raças” e ser humano, é precisamente, manter o antagonismo e a tensão, “recíprocos ou unilaterais” entre aqueles que se reconhecem como diferentes. Para o autor, “a diversidade como tal torna-se facilmente um berço de caricaturas ou de estereótipos pouco agradáveis”. Embora seja necessário reconhecer que certo “automatismo racista” estará sempre entre as pessoas, “a energia deste obscuro emaranhado, como seu potencial de ódio homicida, revelou-se curiosamente impenetrável ao progresso da racionalidade ao longo da nossa história”. Em outras palavras, para Jonas, o racismo se apresenta como o oposto intocável da racionalidade e, mais ainda, como uma tendência que resistiu até mesmo ao Iluminismo e mesmo às teses mais otimistas ao longo da modernidade. Em outras palavras, o racismo é uma espécie de percalço no caminho da civilização.

Assim, a diversidade acaba por se confrontar com esta tendência guardada no âmago da própria humanidade, como uma espécie de prova exigida pela nossa civilidade (no senso moral do termo), seja como indivíduos seja como sociedade. Nesse caso, o respeito à diversidade seria para Jonas “uma prova, em realidade, da maturidade do nosso ser humano”. O que o filósofo parece sugerir é que lidar com a tensão das diferenças é tão importante quanto superar o racismo que está impregnado no ser humano e faz parte do corpo social. Lidar com as diferenças e impedir que o racismo apareça é o veículo que nos conduz à maturidade civilizatória.

Diante desse desafio, por suas experiências pessoais, Jonas mostra-se desanimado com o progresso moral humano. Seu “ceticismo anti-utópico”, impede que ele pense na superação da tensão. Antes disso, ele acredita ser necessário manter-se vigilantes e atentos: o melhor a fazer é tentar fazer melhor em relação ao que foi no passado.

A tolerância, “um dos tantos motivos do orgulho do progresso” representa para Jonas “uma fraca proteção do outro indefeso” quando se trata de discutir o conceito de raça. Tendo em vista a história do povo judeu, que era a sua própria história, para Hans Jonas, “depois de um ilusório século de benevolência e tolerância crescente, tivemos a luciferina revelação do inferno sem fundo de uma desumanidade racista solta no coração da nossa celebrada cultura”. Toda a exploração dessa raça e toda a luta contra ela, teria sido amparada numa mitologia, ou melhor ainda, diz Jonas, em uma “demonologia” da raça, que colocou a seu serviço os objetivos perversos e os instrumentos da tecnologia avançada, precisamente os frutos da racionalidade, na forma da bomba atômica e dos experimentos com seres humanos realizados nos campos de concentração. Tudo em nome de um crime que manchou de forma definitiva todo o gênero humano, algo que precisa permanecer como uma espécie de experiência cujas lições não podem ser esquecidas, porque o que se coloca em risco aí, é a questão do homem enquanto tal. Diante desse desafio, devemos usar todas as forças da educação moral e uma vigilante atenção política. Segundo o autor, precisamos mobilizar todas as forças contra esta “besta nunca dormente que se esconde na nossa imperfeita condição humana”.

Para Jonas, o ambiente pós-Segunda guerra mundial, acabou por colocar em segundo plano, como uma questão anacrônica, o problema da raça e do racismo. Isso porque, depois da Segunda guerra, cresceu o desafio de transformar a humanidade em uma só, formada por pessoas que dividem o mesmo destino, que partilham uma nova solidariedade e uma nova responsabilidade. Segundo ele, “na luz desse novo horizonte que se abre, os conflitos raciais tornaram-se pálidos e o seu clamor deverá cair no silêncio”.

Infelizmente o autor estava errado: a permanência do racismo permaneceu como um problema não resolvido e que, mais de setenta anos depois, reacende o debate sobre as formas de convivência entre os seres humanos nos diversos países. Agora que somos confrontados novamente com essa “besta nunca dormente” que continua alojada no coração das sociedades contemporâneas, vemos que ainda não atingidos aquela maturidade desejada por Jonas – ele tinha, afinal, razão quanto ao seu pessimismo. A sua recomendação, contudo, continua também atual: a ética e a política são os principais – senão os únicos – instrumentos para confrontar o monstro que não se deixa subjugar.

Jelson Oliveira é professor do PPGF/PUCPR; membro do GT Hans Jonas da ANPOF; autor de “Negação e poder: do desafio do niilismo ao perigo da tecnologia” (EDUCS, 2018); co-organizador do “Vocabulário Hans Jonas” (EDUCS, 2019) e co-autor de “Terra Nenhuma: ecopornografia e responsabilidade” (EDUCS, 2020).

José Mesquita

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração e bacharel em Direito. Pós-graduado em Direito Constitucional. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, Usa. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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