John Keats – Versos na tarde – 11/04/2017


Ode sobre uma urna grega
John Keats¹
Tradução: Augusto de Campos

I
Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?
II
A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.
III
Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.
IV
Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.
V
Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
– É tudo o que há para saber, e nada mais.

¹John Keats
* Londres, Inglaterra – 31 de Outubro de 1795
+ Londres, Inglaterra – 23 de Fevereiro de 1821
> Biografia de John Keats

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]


Você leu?: Ana Luísa Amaral – Pequenos mosaicos – Poesia


Postado na categoria: Literatura - Palavras chave: , , , , , , , ,

Leia também:

Hannah Arendt - As coisas efêmeras são as mais necessárias
Hannah Arendt - As coisas efêmeras são as mais necessárias

Das coisas tangíveis, as menos duráveis são as necessárias

November 3, 2019, 6:00 pm
Albert Camus - Envelhecer - Literatura
Albert Camus - Envelhecer - Literatura

Envelhecer é o único meio de viver muito tempo. Albert Camus

November 7, 2019, 8:03 pm
Pensar faz bem - Olhar para as coisas com alguma distância
Pensar faz bem - Olhar para as coisas com alguma distância

Se olharmos para as coisas com alguma distância

October 25, 2019, 7:12 pm
Nardélio Fernandes Luz - Querer e não querer - Poesia
Nardélio Fernandes Luz - Querer e não querer - Poesia

Se já me quis um dia, não responda, Querer e não querer, poesia de Nardélio Fernandes Luz versos

November 4, 2019, 5:30 pm
Ferreira Gullar - Não há vagas - Poesia
Ferreira Gullar - Não há vagas - Poesia

O preço do feijão não cabe no poema

November 3, 2019, 6:26 pm
Matias Ayres - A Vaidade no Sofrimento
Matias Ayres - A Vaidade no Sofrimento

Há ocasiões, em que contraímos a obrigação connosco Pensar faz bem Matias Aires

November 4, 2019, 6:20 pm