James Cameron, Belo Monte e o desastre ecológico no Golfo do México

Para que serve a celebridade?

James Cameron é uma celebridade. Ganhou o Oscar de melhor diretor com o filme Avatar. Como celebridade veio ao Brasil. Não veio filmar. Foi ao Amazonas. Veio protestar contra a hidroelétrica de Belo Monte. Mobilizou a mídia nacional e internacional. A cada relato contra a construção da hidroelétrica, murmurava “Washington precisa saber disto. Vou avisar a Washington”, conforme relato de pessoas que estavam lá.

James Cameron não é especialista em ecologia, hidroelétricas ou mesmo Amazônia. Sua especialidade é filmes de Hollywood. Nem mesmo é ativista político e ecologista. Nada em sua biografia revela anterior engajamento. Na sua biografia no Google e no Wikipédia nada consta. Como não consta nenhuma sugestão ou protesto sobre o fato de o governo americano não ter assinado o protocolo de Kyoto. Nem se pronuncia sobre o maior desastre ecológico mundial, o vazamento provocado pela explosão da plataforma americana de perfuração no Golfo do México.

Sua vinda ao Brasil tem, no entanto objetivo claro: gastar o seu capital midiático como celebridade contra Belo Monte. Não se trata de analisar agora se Belo Monte deve ou não ser construída. O que chamou atenção foi o uso instrumental do capital midiático que conquistou com o Oscar. Até que ponto este uso instrumental é legítimo? Até que ponto a opinião de uma celebridade deve ser respeitada? Para que serve a celebridade?[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Em português existem as palavras célebre e celebridade. Em inglês não. Inexiste célebre. Existe ou “famous”, famoso, ou “celebrity”, celebridade. Trata-se, portanto de palavra da cultura americana. Tem pelo menos dois elementos estruturadores. Primeiro, a história da pessoa que justifica a celebridade pelo desempenho que teve. Fez algo que outros não fariam. Sócrates na filosofia, Pelé no futebol e Alfred Hitchcock no cinema são célebres pela consistência e ineditismo de seus desempenhos. Este desempenho confere a celebridade uma certa autoridade. Impõe respeito.

O segundo elemento do conceito de celebridade é a divulgação, a difusão, deste desempenho, o que o faz granjear a atenção da opinião pública. Impõe atenção. Sem presença e repercussão na mídia inexiste celebridade. Todos querem ser e são celebridades em potencial. São tantas e tão efêmeras que celebridade passou a ser hoje em dia uma commodity. Celebridades positivas ou negativas. Com conteúdo, ou sem. Com história, ou sem.

Quando Zico mobiliza a juventude, e cria escolinhas de futebol, Zico une a celebridade que decorre de sua história e impõe respeito e atenção. Quando Kennedy usou de seus discursos, de sua estética, de sua família, para defender valores democráticos que considerava básicos, por sua história pessoal impunha respeito e atenção. Quando Madonna fala sobre transgressões e sensualidade na interpretação musical, impõe também respeito e atenção. Sabem do que estão falando. Mas quando Madonna vai a um restaurante, seu elogio pouco me diz da excelência do cozinheiro. Impõe somente atenção.

A pergunta para que serve a celebridade, tem portanto duas respostas. Por um lado, a celebridade serve para dar um cunho de autoridade com base na experiência a uma determinada opinião. Impõe respeito. Por outro, serve para pautar a mídia, influenciar e mobilizar a opinião pública em volta desta mesma opinião. Impõe atenção. Quando estes dois elementos estão juntos, temos um uso legítimo da celebridade. Quando só existe o segundo temos um uso se não ilegítimo pelo menos perigoso ou apenas propagandístico da celebridade.

Ninguém pode retirar de James Cameron o legítimo direito de usar-se, celebridade que é, como bem aprouver. É um direito de cidadania global. Muito menos em defesa de causas ecológicas, hoje um dever da sobrevivência de todos. Mas é preciso distinguir entre pautar a mídia, chamar a atenção a uma causa que considera justa, e o respeito que pode esperar de suas opiniões.

Cameron defendeu que os destinos da Amazônia não são de responsabilidade do Brasil. Mas de todo o mundo. Mais ainda, ontem mesmo na CNN, se declarou um ecologista apenas pós-Avatar, e defendeu que o Brasil deveria substituir Belo Monte, por projetos de energia eólica ou solar… Como também ninguém pode retirar-lhe o direito de ir se queixar a Washington sobre Belo Monte.

Mas não custa lembrar que a matriz energética do Brasil não dispensa e recomenda o uso de hidroelétricas. Que o Brasil é um país soberano. Aliás, o primeiro dever de casa para sua boa causa seria ler o clássico artigo de Cristóvão Buarque sobre a internacionalização da Amazônia (http://www.portalbrasil.net/reportagem_amazonia.htm).

O uso vazio da celebridade às vezes acaba se voltando contra a própria celebridade e a causa que defende. Desinforma em vez de ajudar a informar a opinião pública. Revela que não detém o conhecimento mínimo para propor o que propõe. Ilegítima a si mesmo. A opinião pública não se move por atos de fé em celebridades. Há limites. Como dizia o jurista e diplomata brasileiro Gilberto Amado: Querer ser mais do que se é, é ser menos.

Outro dia um apresentador de televisão no auditório lotado de audiência magnífica, perguntou a jovem artista de novelas da Globo, o que achava de determinado assunto. Assunto complexo e que nada tinha a ver com sua arte de representar. Contrariando a tentação das celebridades em tudo opinarem, ela respondeu: “Eu sou apenas uma artista. Minha opinião sobre este assunto não deve ter importância maior”. Rara sensatez…

por Joaquim Falcão/blog do Noblat

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