Google e o monopólio das buscas


Procure, mas talvez não encontre

Adam Raff *

À medida que nos tornamos cada vez mais dependentes da internet, precisamos nos preocupar cada vez mais com a sua regulamentação. A Comissão Federal das Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês) propôs normas de “neutralidade na rede”, que proibiriam as provedoras de internet de discriminar ou de cobrar prêmios para determinados serviços ou aplicações na rede. A comissão está certa em estabelecer que a garantia de igual acesso à infraestrutura da internet é vital, mas erra ao dirigir suas regulamentações apenas a provedoras de serviços, como AT&T e Comcast.

Hoje, mecanismos de busca como Google, Yahoo e o novo Bing, da Microsoft, tornaram-se os guardiães da internet, e o papel crucial que eles desempenham dirigindo os usuários para os sites da rede implica que agora são um componente essencial de sua infraestrutura, como a rede física em si. A FCC precisa ir além da neutralidade na rede e incluir a “neutralidade na busca”: o princípio segundo o qual os mecanismos de busca não deveriam ser submetidos a políticas editoriais, com exceção da abrangência e da imparcialidade dos seus resultados, e basear-se exclusivamente na relevância.


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A necessidade da neutralidade da busca é particularmente premente porque um único grupo, o Google, detém um poder de mercado enorme em suas mãos. Com 71% do mercado de buscas nos EUA (e 90% na Grã-Bretanha), o predomínio do Google tanto na busca quanto na publicidade das buscas confere à companhia um controle preponderante.

As receitas do Google superaram os US$ 21 bilhões em 2008, mas isso não é nada perto das centenas de bilhões de dólares das receitas de outras companhias, que o Google controla indiretamente mediante os seus resultados de busca e os links patrocinados.

Uma das maneiras pelas quais o Google explora esse controle é pela imposição de “penalidades” disfarçadas que podem atingir sites legítimos e úteis da rede, excluindo-os inteiramente de seus resultados de busca ou colocando-os tão em baixo nos rankings que, provavelmente, nunca serão encontrados. Foi assim que, durante três anos, o site de busca vertical e de comparação de preços da minha companhia, a Foundem, efetivamente “desapareceu” da internet.

Outra maneira pela qual o Google explora seu controle é mediante a colocação preferencial. Com a introdução, em 2007, do que chamou de “busca universal”, o Google começou a promover seus próprios serviços no topo ou perto do topo dos seus resultados de busca, passando por cima dos algoritmos que utiliza para classificar os serviços das outras. Agora, ele favorece seus próprios resultados de comparação de preços para pesquisas de produtos, seus próprios resultados de mapas para consultas de geografia, seus próprios resultados em matéria de notícias para consultas tópicas, e seus próprios resultados do YouTube para consultas sobre vídeo. E os planos declarados do Google de busca universal deixam claro que este é apenas o começo.

Como seu predomínio no mercado de busca global e sua capacidade de punir os concorrentes colocando seus próprios serviços no topo dos resultados de buscas, o Google dispõe de uma vantagem competitiva praticamente inatacável. E pode usufruir desta vantagem muito além dos limites das buscas de qualquer serviço que escolher. Sempre que faz isto, as companhias que estão atuando na internet são derrubadas, as que se estabeleceram recentemente são suprimidas e a inovação é ameaçada.

O tratamento dispensado pelo Google à Foundem asfixiou nosso crescimento e limitou o desenvolvimento da nossa tecnologia inovadora para buscas. A colocação preferencial do Google Maps contribuiu para tirar a MapQuest de sua posição de líder em serviços de mapeamento online nos EUA praticamente da noite para o dia. O preço das ações da TomTom, fabricante de sistemas de navegação, caiu cerca de 40% nas semanas que se seguiram ao anúncio do serviço gratuito de navegação por satélite, mais detalhado, do Google. E a RightMove, o portal líder para imóveis na Grã-Bretanha, perdeu 10% do seu valor de mercado no mês de dezembro, somente por causa do boato de que o Google planejava introduzir um serviço local de busca de imóveis.

Sem normas de neutralidade de busca para restringir a vantagem competitiva do Google, poderemos caminhar para um mundo sombriamente uniforme de Google Tudo – Google Viagens, Google Finanças, Google Seguros, Google Imóveis, Google Telecoms, e, evidentemente, Google Livros.

Alguns dirão que o Google é tão inovador que não devemos nos preocupar. Mas a companhia não é tão inovadora quanto as pessoas consideram em geral. Google Maps, Google Earth, Google Groups, Google Docs, Google Analytics, Android e muitos outros produtos Google baseiam-se em tecnologia que o Google adquiriu, e não que inventou.

Os próprios AdWords e AdSense, os motores econômicos extraordinariamente eficientes que determinaram o sucesso meteórico do Google, são essencialmente invenções emprestadas de outros: o Google adquiriu a AdSense com a compra da Applied Semantics em 2003; e a AdWords, embora desenvolvida pelo Google, é usada com licença de seus inventores, a companhia Overture.

O Google reconheceu imediatamente a ameaça à abertura e à inovação para o poder de mercado das provedoras de serviços da internet, e há muito tempo é um dos principais defensores da neutralidade da rede.

Mas, agora, enfrenta uma escolha difícil. Adotará a neutralidade de busca como extensão lógica da neutralidade da rede que protege realmente o igual acesso à internet? Ou tentará argumentar que o poder discriminatório de mercado é de certo modo perigoso nas mãos de uma companhia de telecomunicações ou a cabo, mas inócuo nas mãos de um mecanismo de busca esmagadoramente predominante? A FCC agora convida a comentar publicamente as normas de neutralidade de rede que propõe, de modo que ainda há tempo para convencer a comissão a ampliar o alcance de suas regulamentações. Particularmente, ela deveria garantir que os princípios de transparência e não discriminação sejam aplicados aos mecanismos de busca e também às provedoras de serviços. A alternativa é uma internet em que a inovação poderá ser esmagada à vontade por um mecanismo de busca todo-poderoso.

* Adam Raffé um dos fundadores da Foundem, empresa de tecnologia de Internet

Estadão

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