Gerardo Mello Mourão – Versos na tarde – 29/11/2015


EVA
Gerardo Mello Mourão¹

Adormecera à beira do riacho
e o sonho e a flor dessa maçã
da primeira saudade – do primeiro desejo do mundo
habitavam seu sono.

Despertara – e dela despertaram
um tato uns olhos um perfume – e o véu
dos cabelos cobria ancas
seios nunca vistos:

Eva bailava sobre chão de folhas

desde então
desde sono e sonho se incorpora sempre
ao homem sonhador o sortilégio
da primeira mulher
coisa e criatura e criadora
de seus tatos seus aromas – aflição e festa
de estrelas na pupila.

¹Gerardo Mello Mourão
* Ipueiras, CE – 8 de Janeiro de 1917 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Março 2007 d.C


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Jornalista, poeta e escritor brasileiro. Era membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura do Brasil. Era um dos mais respeitados escritores brasileiros no exterior.

Católico praticante, pertenceu ao movimento integralista, tendo estado preso dezoito vezes durante as ditaduras de Getúlio Vargas e de 1964-1985. Numa delas, ficou no cárcere cinco anos e dez meses (1942-1948).

Já na maturidade, foi candidato a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 1979. Em 1999 ganhou o Prêmio Jabuti pelo épico Invenção do Mar.

Viagens
Viajou por toda a América e Europa. O Chile foi o país estrangeiro onde permanaceu mais tempo, dando aulas de História e cultura da América na Universidade Católica de Valparaíso (1964 a 1967). Entre 1980 e 1982 morou em Pequim, na China, onde foi correspondente do jornal “Folha de S. Paulo”. Foi o primeiro correspondente brasileiro e sul-americano na China.

Era amigo íntimo de Guignard, Michel Deguy e Pablo Neruda.

As aventuras e façanhas da sua família renderam, no Ceará, uma das mais ricas crónicas de costumes por parte de romancistas, sociólogos e historiadores.

Doença e morte
Mello Mourão estava internado na Casa de Saúde São José, em Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro, desde Janeiro de 2007. Tinha problemas respiratórios e havia piorado depois de sofrer uma queda ao descer de um avião. Viria a falecer no dia 9 de Março de 2007, aos 90 anos, vítima de falência múltipla de órgãos. O velório decorreu na capela do próprio hospital, ocorrendo o enterro no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Obras
O Valete de Espadas e as dez elegias
Cabo das Tormentas
A invenção do saber
O valete de espadas
Cânon & fuga
O país dos Mourões
O sagrado e o profano
Invenção do Mar (Prêmio Jabuti de 1999)
O Bêbado de Deus (2001)

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