Fernando Pessoa – Poesia


A Espantosa realidade das cousas
Fernando Pessoa/Alberto CaeiroFernando Pessoa,Poesia,Literatura

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.


Você pode se interessar também sobre: Djalma Portela – Versos na tarde – 29/09/2014


Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Postado na categoria: Literatura, Poesia - Palavras chave: , ,

Leia também:

Walt Whitman - Versos na tarde - 23/04/2018

Uma mulher espera por mim Walt Whitman Uma mulher espera por mim, ela tudo contém, nada falta, No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho...

April 23, 2018, 9:00 pm
Paulo Mendes Campos - Versos na tarde

Auto-Retrato Paulo Mendes Campos ¹ Nos olhos já se vê dissimulada Preocupação de si, e amor terrível. A incessante notícia de uma luta Com as panteras bruscas do invisível É...

February 16, 2011, 9:00 pm
Georges Farquhar - Cartas na tarde - 21/06/2013

[...] "senhora, no mundo, só tua beleza pode ser mais encantadora que teu espírito: depois disso, se eu não te amasse, tu me proclamarias um tolo; se eu dissesse que...

June 21, 2013, 9:00 pm
Carlos Drummond de Andrade - Versos na tarde - 27/03/2016

Procura da Poesia Carlos Drummond de Andrade¹ Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece...

March 27, 2016, 9:00 pm
Pablo Neruda - Versos na tarde - 24/02/2014

Se cada dia cai Pablo Neruda ¹ Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa. há que sentar-se na beira do poço...

February 24, 2014, 9:00 pm
Fernando Pessoa por Maria Bethania - Poesia
Fernando Pessoa por Maria Bethania - Poesia

Esse "livra-me de mim" é forte...toca na ferida.

November 8, 2018, 9:45 am