Fascista, eu?


Alunos canhotos alegam ser inadmissível em uma Universidade Federal a realização de um evento em que alguém use uma camiseta de Jair Bolsonaro.Michel Foucault foi filósofo, historiador, teórico social e crítico literário.
Foto: Hemeroteca Digital

Pais e mães destros mobilizam-se na tentativa de impedir a vinda de uma professora americana ao país. Tais ações, além de explicitarem a retidão das intenções de seus executores (notificamos ao leitor que uma ironia foi usada nesta frase), nos deixam diante de um fato inconveniente: somos ambidestramente fascistas.

A palavra fascista aqui, sublinha uma vontade, expressa em pensamentos, atos e palavras, de impedir que o diferente exista. Definir como inadmissível implica negar o direito de existência de algo.Impedir que alguém venha ao país falar de ideias que eu discordo, é tentar negar o direito de existência dessa ideia. Meu palpite teórico é que esse fascismo todo é fruto de muito medo, mas, para não dizerem que estou “psicologizando” o problema, falo que o fascismo virou o arroz de festa dos nossos protestos.

Para protestar, usamos os comportamentos que estão disponíveis na nossa cultura; mas, nem todo comportamento serve pra isso. Os atos escolhidos para protestar hoje são aqueles que se mostraram úteis e eficientes para protestar no passado. Aprendemos com, na e pela história, quais comportamentos servem, e quais não. Há quem chame isso de repertório de protesto.

Em uma cultura que naturaliza a violência e a agressividade como é o caso da nossa, é fácil identificar a existência de um repertório de protesto fascista alicerçado na intolerância, na incapacidade de diálogo, e na falta de empatia para com o outro. Esse modo de protestar útil e eficaz (notificamos ao leitor que uma segunda ironia foi usada neste texto) está sempre disponível e tende a ser empunhado como bandeira sempre que aparece alguma oportunidade.

O fascismo nosso de todo dia, essa atitude cada vez menos escondida pela nossa capa de povo cordial, não tem nenhuma predileção moral por ser agarrado com a mão direita, ou com a esquerda.

Nos anos setenta do século passado, em um cenário de ebulição semelhante ao que vivemos hoje, Michel Foucault recomendava atentar para o fascismo em nossas melhores intenções. Com seu estilo preciso e afiado, ele nos lança a seguinte questão: “como fazer para não se tornar fascista mesmo (e sobretudo) quando se acredita ser um militante revolucionário?”.


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Exposições fechadas, postagens em redes sociais denunciadas, regras mínimas de decoro e civilidade quebradas: tudo isso em nome da retidão das causas que defendemos. Estamos disputando a tapas, golpes de Estado, austeridade econômica e rearranjos institucionais duvidosos, o direito de falar em nome do bem do Brasil. Stalinismo e Nazismo também foram produzidos em nome do bem nacional.

É prudente desconfiar do princípio de que os fins justificam os meios. Afinal, toda ação gera uma reação, e, se essa reação passar a ser uma resposta automática, é muito provável que ela seja emitida com a mesma intensidade e frequência da ação inicial. O Fla-Flu grenalizado atual na cena pública brasileira tem se mostrado danoso para todos e traz o risco de institucionalizar a opressão a diferença como nova paixão nacional.

Apontar o fascismo alheio é sempre mais fácil que reconhecê-lo em nós. Que tal criar um intervalo no grenal e pararmos de chamar os outros de facistas e anti-democráticos, enquanto estamos batendo neles e negando-lhe direito de existir?

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André Luis Leite é psicólogo. Pesquisador visitante na Universidade da Cidade de Nova Iorque. Mestre em Psicólogia. Doutorando pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia da Universidade Estadual Paulista, na Faculdade de Ciências e Letras de Assis.

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