Espinosa: Deus e natureza, dualismo ou unidade?

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Houve época em que espinosismo era sinônimo de ateísmo

Ou não existe nada ou um ente absolutamente infinito também existe necessariamente” – Espinosa, Ética I, prop. 11, dem alt.

Houve uma época em que espinosismo era sinônimo de ateísmo, mas em vão acusaremos Espinosa de ateu (veja aqui). Sua principal obra, Ética, dedica toda a primeira parte  na definição do que é Deus e qual sua essência. Contudo, a natureza divina para Espinosa é muito particular e difere absolutamente das definições judaico-cristãs de seu tempo.

Deus é causa imanente, e não transitiva, de todas as coisas” – Espinosa, Ética I, prop. 18

Deus não está separado do mundo como um grande legislador. Não existe uma entidade criadora do mundo que agora o observa à distância, julgando-o e decidindo seu destino final. Até hoje não conseguimos definir a natureza de Deus porque sempre o confundimos com um ser à nossa imagem e semelhança. Os teólogos, claro, mas também os filósofos. Não surpreende pois o objetivo dos teólogos sempre foi a obediência. A escritura é mandamento. A tradição descreve Deus como se fosse um homem, um rei, um déspota: com vontades, sentimentos, objetivos, e atributos corporais.

Esta visão é exageradamente antropomórfica e confessa uma ingenuidade para entender a essência das coisas. Por uma visão utilitarista, somos levados a crer que a natureza, e nós mesmos, temos um objetivo a ser cumprido, e concluímos que fomos criados com um destino a se cumprir. Sendo assim, achamos que um ser que nos criou à sua imagem e semelhança tem certo desígnios para nós. Mas Espinosa argumenta que se fosse dada a um triângulo a chance de definir Deus, este o faria dizendo que Ele possui três lados e a soma de seus ângulos internos resultam em 180 graus. E assim o homem, por ignorar as causas de seu conhecimento, o faz: Deus vê tudo, ouve tudo, sabe tudo, pode tudo e nos deu mandamentos que não podem ser quebrados.

Isto está de todo errado. Deus é o mundo, Deus é a Natureza. São dois nomes para uma única e mesma coisa. É preciso conhecer a natureza, o máximo que pudermos, se quisermos conhecer Deus. Ele não é exterior, ele é a causa interior de tudo que existe. A causa da essência e da existência de tudo, a causa imanente, não transitiva, ou seja, agindo em nós. Deus não gera o mundo por livre vontade, ele é o mundo por pura necessidade de sua essência. “Deus não produz porque quer, mas porque é” (Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 69).

Por causa de si entendo aquilo cuja essência envolve a existência” – Espinosa, Ética I, Def 1

Esta é a definição formal de Deus, ou nada existe ou existe um ser necessariamente infinito e nada mais. O ser, a existência, é puro ato de sua afirmação. O infinito, em todas as suas modalidades é o que constitui sua essência. A causa incausada, origem de si mesmo. Deus é o único que existe em virtude de seu próprio ser, é o único que existe necessariamente numa relação intrínseca com sua essência. Tudo devém de Deus, tudo está em Deus, nós também. Ele não criou o mundo, ele existe por sua própria natureza que envolve a capacidade de existir. E de Deus se seguem infinitas coisas. Como a substância é infinitamente infinita, isso significa ela possui infinitos atributos, que em si mesmo são infinitos. Os atributos são expressões, não apenas uma coisa passiva, muito pelo contrário, o atributo é atribuidor; como verbos, a essência é exprimida. Esta substância infinita manifesta-se de várias formas, mas conhecemos duas delas apenas: extensão e pensamento.

Nathalie Maquet

Como Deus é infinito, nada pode existir fora dele. Portanto fazemos parte de sua natureza. Somos modos da substância divina, limitados por extensão e tempo. Nos atributos encontramos os modos, que são uma parcela dos atributos, uma modificação deste. Um modo depende do seu atributo correspondente para existir. Uma pedra depende do atributo extensão, mas a extensão, conjunto de corpos moventes, não depende da pedra para existir. Nós também somos modos, mas em uma complexidade muito maior que a pedra. A essência é um grau de potência, ela também é atuante, ou seja, produz efeitos decorrentes de sua própria essência. Assim como uma ponte que se sustenta por si mesma, achamos que existimos por conta própria; mas Deus é o conjunto de leis e a própria matéria que nos sustenta.

Parte da potência divina se afirma em mim. Eu afirmo o infinito através de minha finitude. Não como marionetes que são conduzidos por cordas divinas ligadas ao céu, isso seria uma visão simplista. Um ‘mestre de marionetes’ dirige fantoches de fora e é assim a ‘causa exterior’. Jostein Gaarder, no Mundo de Sofia, nos compara como “dedos de Deus”, ou seja, parte ativa dele, no cerne do finito e há uma continuidade do finito no infinito.

Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido” – Espinosa, Ética I, prop. 15

Nossos atos individuais não são nada mais que a expressão em ato da potência da substância divina. As coisas existem exclusivamente por causa de Deus, ele é a potência do ser, ele é a própria essência de nossa capacidade de pensar e agir. Não se trata de um comandante, um general, mas sim a potência de criação e manutenção do universo. A própria visão da criação divina como obra de um arquiteto é ingênua: Deus não pode escolher a seu bel prazer entre esta ou aquela disposição, ele age necessariamente e de apenas uma maneira que reflete sua perfeição.

Deus age exclusivamente pelas leis de sua natureza e sem ser coagido por ninguém” – Espinosa, Ética I, prop. 17

A beleza deste pensamento, entre tantas implicações, está em novamente inocentar o mundo e a nós mesmos. Somos perfeitos porque um ser sumamente perfeito faria a si mesmo da melhor maneira possível (e também porque não há outros critérios de comparação). ela simplesmente é, pura afirmação de si. Desta natureza naturante seguem-se os efeitos necessários, a natureza naturada.

Estamos mergulhados na natureza divina, nadando naquilo que necessariamente é e não poderia ser de outro modo. Não falta nada ao mundo, nem ele está buscando perfeição. Isso vale para nós: não há pecados nem imperfeições, bem nem mal, pecado nem mérito; cabe então, dentro de nossa natureza finita, encontrar outras naturezas que  se ajustem, se harmonizem com a nossa, aumentado nossa potência.

Guardador de Rebanhos

Fernando Pessoa

se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe

Espinosa quer entender Deus, sua definição real, para dele poder concluir o que se exprime diretamente dele porque tudo decorre de sua essência. Com sua definição de Deus, Espinosa conquista um objetivo de grande relevância para a filosofia, pôr fim ao Deus transcendente, em larga medida imitação barata do homem, imaginação causada pela ignorância, e abre espaço para um Deus verdadeiramente imanente. Vivemos, agimos e pensamos em Deus. Ele é a condição e o horizonte de uma afirmação ontológica.

Vivendo de acordo com a potência em nós, agimos de acordo com as leis de Deus. Somos parte da causa ativa de uma entidade divina, esta afirmação é Seu ato criador. Daí vê-se a incoerência de acusar Espinosa de ateísmo (entre outras coisas). Seu panteísmo expande Deus a todos os cantos. Sua perfeição pode ser encontrada em toda parte. Apenas um inimigo do livre-pensamento cometeria tal injustiça, distorcendo suas ideias. Apenas uma visão ignorante da correta natureza de Deus descartaria tal explicação por uma antropomórfica.

José Mesquita

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração e bacharel em Direito. Pós-graduado em Direito Constitucional. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, Usa. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e “designer”.

Bacharel em administração e bacharelando em Direito.

Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior.

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