Enriquecimento dos filhos de Roberto Marinho é o fenômeno empresarial mais surpreendente do país

Um verdadeiro milagre para quem estava devendo 3,5 bilhões de dólares em 2002.

Há algo de errado — e muito errado, mesmo… — no discreto e surpreendente crescimento da fortuna dos proprietários das Organizações Globo.

Os irmãos Roberto Irineu, como presidente, e José Roberto e João Roberto Marinho, como vices (citados por ordem de idade, apesar de o mais importante hoje ser o mais jovem, João Roberto).

Segundo a revista americana Forbes e a agência Bloomberg, os três, juntos, já possuem algo em torno de 28,3 bilhões de dólares, uma quantia realmente fabulosa.

O mais incrível é que foi justamente a partir do primeiro governo Lula, em 2003, que os irmãos Marinho deram esse salto para o futuro, que os posiciona bem perto da 20ª colocação no ranking mundial dos mais ricos do mundo, hoje ocupada por Li Ka-Shing, chinês de Hong Kong, detentor de US$ 31 bilhões.

Mas quando Roberto Marinho morreu, em 2003, nem tudo eram flores. Pelo contrário, as Organizações Globo acumulavam uma dívida superior a 3,6 bilhões de dólares, segundo relatório da Price Waterhouse Coopers – Auditores Independentes, assinado por William J. N. Graham em 2002.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

BNDES DISSE NÃO

Em 2004, a situação ainda estava tão complicada que os filhos de Roberto Marinho contrataram a economista Maria Silvia Bastos Marques para negociar um empréstimo no BNDES, então dirigido por Carlos Lessa. A delegação da Globo (Maria Silvia e diretores) foi recebida pelo vice-presidente Darc Costa, que recusou liminarmente a possibilidade de financiar a Globo enquanto não houvesse uma linha de crédito que pudesse ser utilizada por quaisquer veículos de comunicação. Além disso, o Tribunal de Contas da União havia impedido o BNDES de dar qualquer novo financiamento às Organizações  Globo, enquanto não fosse resolvida a dívida pendente da Net com o banco estatal.

Ex-funcionário da Fundação Roberto Marinho, o escritor Roméro da Costa Machado revelou que no início de 2002 a astronômica dívida de US$ 3,583 bilhões era basicamente concentrada em três empresas do grupo (Globopar, Globo Cabo, Net Sat), representando cerca de 90% da dívida, na qual também aparecia, com cerca de 3% do total, a Editora Globo, de crônico e sistemático prejuízo.

O BNDES não socorreu, mas do governo Lula para cá, a situação milagrosamente se inverteu e as Organizações Globo tiveram espantosa recuperação, embora a audiência de sua TV aberta venha diminuindo progressivamente, o que representa uma contradição inexplicável.

Como se sabe, além da principal emissora de TV do país, o grupo controla jornais, revistas, rádios, gravadora de discos, editora de livros, produtora de filmes, canais pagos da Globosat (SporTV, Multishow, Futura, Playboy, Canal Brasil, Telecine e GloboNews, entre outros), além de participação em operadoras como a Net e Sky. Mas o forte do faturamento é mesmo a Rede Globo.

NÚMEROS NÃO BATEM

Segundo a agência americana Bloomberg, os três irmãos Marinho ocupam o segundo lugar no ranking mundial do setor de mídia, atrás apenas de David Thomson, sócio majoritário da Reuters, embora na lista das maiores corporações de mídia a Rede Globo ocupe apenas o 25º lugar. É um estranho paradoxo, não há dúvida. Ou essas estatísticas estão equivocadas, ou realmente há algo de errado com o megaenriquecimento dos filhos de Roberto Marinho, um fenômeno que merece apuração mais acurada.

Para se ter uma ideia, a fortuna deles, somada, já é duas vezes maior que a de Rupert Murdoch, o magnata australiano que comprou a Fox e o New York Post, e o triplo da riqueza de Silvio Berlusconi, que usou seu controle da mídia italiana para governar o país por quase vinte anos.

O sucesso dos irmãos Marinho é de fato surpreendente, porque a Rede Globo está em decadência. Apesar do número de televisores ter aumentado consideravelmente nos últimos anos, desde 2004 a audiência da Globo no horário nobre vem caindo. Há 10 anos, praticamente 60% dos domicílios com TV ligada sintonizavam a Globo durante esse horário. De lá para cá, a emissora perdeu 37% de sua audiência na faixa de 18h à 0h, de segunda a sexta-feira.

Se antes o canal atingia 38 pontos, hoje fica na marca dos 25, com baixos índices nas novelas das seis e sete. E o “Jornal Nacional” também sai perdendo. Em 2013, pelo segundo ano consecutivo, o JN ficou abaixo dos 30 pontos. A média em São Paulo, a principal praça do país, foi de apenas 26 pontos.

FATURAMENTO EM ALTA

No entanto, ao invés de diminuir, o faturamento da Globo cresce sem parar. No acumulado de 2012, as Organizações Globo dizem que lucraram 2,9 bilhões de reais — um aumento de 35,9% ante o resultado do ano anterior. Com audiência em baixa, foi um verdadeiro milagre. A receita líquida da empresa também avançou 32,4% em 2012, chegando a 12,6 bilhões de reais. E em 2013 o faturamento aumentou 13%, alcançando R$ 14,4 bilhões.

Nada mal para um império que foi construído por Roberto Marinho com apoio total da ditadura militar e que enriquece cada vez mais em plena democracia, mostrando a extraordinária capacidade de adaptação de seus três filhos, digamos assim.Carlos Newton/Tribuna da Imprensa

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