FORAM DIAS de espera até que, na manhã desta terça-feira, um homem de cabelos brancos e colete anunciasse, em tom robótico, no YouTube, o que eleitores de Jair Bolsonaro gostariam de ouvir: há grandes chances das urnas brasileiras terem sido fraudadas em 2018.

Figura carimbada nos eventos patrocinados pela direita, o protagonista do vídeo é Hugo César Hoeschl, um ex-procurador da Fazenda Nacional que posa na internet de respeitado acadêmico e de bastião da luta pela verdade. Seu discurso, repetido desde 2014 em palestras, é que há exatos 73,14% de probabilidade das eleições de quatro anos atrás, vencida por Dilma contra Aécio, terem sido manipuladas.

Sua mais recente empreitada foi provar que o mesmo ocorreria em 2018. No discurso, gravado pelo grupo Brasil Paralelo, uma espécie de Netflix de conteúdos conspiracionistas, Hoeschl afirma que, para comprovar a fraude das urnas eletrônicas, montou uma rede de computadores com alto poder de processamento nos EUA. Ninguém sabe onde, nem mesmo se é nos EUA de fato. Essas máquinas, diz, estariam configuradas para capturar, processar e analisar o banco de dados do TSE e mostrar o baixo índice de confiabilidade das eleições. Hoje, com cinco dias de atraso e no mesmo cenário escuro e com computadores ao fundo, ele anunciou o resultado: 77,68% de chances de fraude.

Seu método, explicado genericamente por palestras de grupos de direita como o Conclave de São Paulo, é baseado num conceito chamado Lei de Newcomb-Benford. Trata-se de uma constatação de que, em séries numéricas geradas naturalmente, há sempre uma tendência de o número 1 aparecer mais vezes (30,1% do total), seguido pelo número 2, depois pelo número 3 e por aí vai. Por outro lado, nas séries numéricas que sofressem fraude humana, teria muito mais números altos, a exemplo de 7, 8 e 9.

O modelo criado pelo físico Frank Benford (1883-1946) se provou eficaz para verificar alguns tipos de fraudes em relatórios contábeis e bancários: muitos fraudadores, afinal, costumam usar números 9 para não usar números redondos e não causar suspeita — preferem usar 9.999 em vez de 10.000 para burlar limites de transferência, por exemplo. Quanto às eleições, porém, a ferramenta forense está longe de ser confiável. De uns anos para cá, muitos teóricos de universidades renomadas aplicaram a metodologia e não conseguiram provar a validade do recurso.

Um deles é Michelle Brown, da Universidade de Georgetown, que, ao aplicar a ferramenta nos dados de votos de uma assembleia nos EUA, descobriu que a Lei de Newcomb-Benford não é confiável para analisar eleições. Outro estudo, feito por professores da Universidade de Oregon e do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos EUA, reforçou as descobertas de Brown: o conceito é inútil para cenários eleitorais.

No Brasil, pesquisadores também refutam a tese de Hoeschl. Pelo menos quatro pesquisadores nacionais atestaram que o modelo não pode ser usado como prova para fraude em eleições pois, nesses casos, as distribuições de números são mais complexas. Outro fator que destrói a tese de Hoeschl é que sua pesquisa sobre as eleições de 2014 não foi verificada por nenhum órgão científico. O tal número de 73,14% não foi confirmado por ninguém.

“Fica meio evidente que ele está aplicando um método que alega ser consenso científico, quando não é bem verdade”, diz o cientista da computação Diego Aranha, um ex-professor da Unicamp que já encontrou problemas de segurança – nada relacionados à teoria de Hoeschl – nas urnas eletrônicas. Mesmo ciente das vulnerabilidades, Aranha, que hoje dá aulas na Universidade da Aahrus, na Dinamarca, não se convenceu com a análise de Hoesch. E nem a comunidade científica, já que seus resultados sequer foram revisados.

O mundo paralelo de Hoeschl

No vídeo em que anuncia a Operação Antifraude, Hoeschl se apresenta como alguém que trabalhou como “delegado de polícia, promotor e procurador na área federal”. Os títulos, porém, não são todos verdadeiros. Hoeschl nunca foi delegado; o máximo que conseguiu foi ser aprovado em concurso da Polícia Civil do Paraná, em 1991, mas, de acordo com a instituição, nunca chegou a fazer parte do quadro de servidores. Ele de fato chegou a exercer as funções de promotor e procurador, mas omite ressalvas importantes. No primeiro cargo, no Ministério Público do Paraná, ficou apenas entre outubro de 1991 e maio de 1993. Já como procurador da Fazenda Nacional, foi demitido em junho de 2017 por, entre outros motivos, “improbidade administrativa”, “frustrar a licitude de processo licitatório ou dispensá-lo indevidamente” e “lesão aos cofres públicos e dilapidação do patrimônio nacional”.

Seu currículo lattes, que ostenta com orgulho, também não é 100% honesto. Ele se apresenta como “professor associado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)”. A instituição nega. Em nota, a universidade diz que ele não é docente, tampouco integra o quadro de servidores públicos. Sua atuação na UFSC se resumiu a estudante, pesquisador e orientador (de apenas uma tese) entre 1996, quando entrou no mestrado em Direito, e 2013, ano em que orientou dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Produção. “Não procede a informação de que é professor desta universidade e, portanto, suas opiniões não refletem as posições da instituição, uma vez que não compõe o quadro efetivo da UFSC”, ressaltou a assessoria da faculdade.

Além de ter aumentado ou mentido seus títulos, Hoeschl também se envolveu em questões que botam sua integridade em xeque. Em 2013, Hugo Hoeschl se tornou alvo de processo disciplinar na Advocacia-Geral da União. Entre as acusações estão a emissão de um parecer favorável a uma universidade em que ele dava aulas e ter usado organizações da sociedade civil como fachada para fazer contratos com o poder público sem licitação. Hoeschl foi acusado de atuar em uma organização que vendeu – e nunca entregou – um software no valor de R$ 38 milhões ao Ministério da Previdência.

Seus interesses políticos também são nebulosos. Hoeschl costuma falar que não tem partido. Diz orgulhoso que vota nulo. Ainda assim, deixa claro quem ocupa o topo de sua lista de desafetos. Durante palestrasobre fraude eleitoral em 2014, ele interrompe o raciocínio para que uma desanimada plateia se vire para o fundo e aplauda um boneco que imita Dilma Rousseff com roupa de detenta. “Olha a Bandilma”, aponta. A seguir, sem propósito, afirma: “Jamais votei para o PT. Para nada!”

Meses depois, em 2015, ele militou contra uma suposta candidatura de Lula para o Prêmio Nobel da Paz. Além de criar petições online, Hoeschl pediu, ao lado do ativista de direita Dalmo Accorsini, doações via crowdfunding para que fossem até a sede do comitê do prêmio, em Oslo, na Noruega, e argumentassem que o político petista não mereceria o título. Eles conseguiram R$ 47.865, dinheiro que bancou a viagem entre junho e julho daquele ano. “Não fazemos ataque”, declarou em um dos vídeos, de óculos escuros, em poltrona de avião. “O que fazemos é mostrar a realidade do Brasil, que existe requisitos técnicos para o Prêmio Nobel, e que esses requisitos não estão presentes na candidatura de Lula.”

Accorsini, o parceiro de Hoeschl, foi um dos primeiros a espalhar teorias mirabolantes sobre fraude eleitorais. Seu argumento é ainda menos exato que o do amigo. Ele afirmou, em 2015, que a empresa venezuelana Smartmatic fabricava urnas na Bolívia, em El Salvador, no Equador, na Nicarágua e no Brasil. Para ele, seria claro indício de eleição corrompida pela esquerda.

O boato cresceu entre colunistas de direita e, em 2017, depois que Rodrigo Constantino publicou um texto no site do jornal Gazeta do Povo no qual alarmava sobre manipulação das urnas em 2018, o TSE se viu obrigado a vir a público para esclarecer que a companhia não era fornecedora das urnas do Brasil. O que ocorrera, informou o órgão, foi a contratação da companhia para o preparo e a manutenção das urnas. Mesmo assim, o fato da Smartmatic ter sede no país de Nícolas Maduro e protagonizar alguns casos polêmicos, como ter denunciado manipulação nos resultados eleitorais venezuelanos em 2017, fez com que a teoria de Accorsini crescesse na ala que não crê na imprensa nem no sistema eleitoral.

Hoeschl anda próximo a outras figuras da direita. Nos eventos em que atua, circulam figuras como o filósofo Olavo de Carvalho, o monarquista Luiz Phelippe de Orleans e Bragança, recém-eleito deputado federal pelo PSL, militantes antipetistas como Marcello Reis, do Revoltados On-Line e, claro, o deputado federal Jair Bolsonaro. Em 2016, em um evento chamado Conclave de Brasília, é possível ver a mesma apresentação genérica de Hoeschl sobre as fraudes das eleições 2014 sendo apresentada para Bolsonaro na Câmara dos Deputados.

O movimento ensaiado com Bolsonaro

Na noite do domingo do primeiro turno das eleições de 2018, numa sala apertada, o presidenciável Jair Bolsonaro não escondia sua decepção em uma transmissão ao vivo em sua página no Facebook. Com tom monocórdico, o rosto combalido, expunha, ao lado do economista Paulo Guedes e sua mulher, sua indignação por ter recebido 46,04% dos votos. A vitória, disse, em frente à câmera, deveria ter vindo no primeiro turno. Só não havia ocorrido por causa de um sério motivo: falhas nas urnas eletrônicas.

A fala repetia um roteiro antigo. Ao longo das semanas que antecederam o pleito, o deputado falara repetidas vezes que não reconheceria a derrota caso os resultados premiassem outro candidato. Segundo ele, era nítido que, pelas ruas e pela internet, a gigantesca maioria do povo brasileiro o apoiava. “Se esses problemas não tivessem ocorrido, e tivéssemos confiança no voto eletrônico, já teríamos o nome do futuro presidente da República decidido hoje”, disse.

Seus eleitores e partidários acompanharam a onda de conspiração. No dia da eleição, Flavio Bolsonaro, filho do político e senador eleito pelo Rio de Janeiro, compartilhou pela manhã um vídeo em que pessoas tentavam votar no número 17, do PSL, mas, ao apertar 1, o voto ia automaticamente para o 13, do PT. A mensagem foi replicada pelo menos 844 mil vezes em grupos de WhatsApp, Twitter e Instagram. Horas depois, a Justiça Eleitoral desmentiu a montagem. Não foi suficiente para acalmar os ânimos de eleitores da extrema-direita.

Pelos dias seguintes, as histórias de fraudes eleitorais continuaram a se espalhar por simpatizantes a Bolsonaro. Joice Hasselman, a ex-jornalista conhecida por plagiar textos dos colegas e recém-eleita deputada federal pelo PSL, foi uma das que encabeçou o movimento. Mesmo com 1.064.047 de votos computados pelo país, ela defende que houve esquema para beneficiar Fernando Haddad, do PT, o segundo colocado das eleições para a Presidência com 29% dos votos.

Para endossar sua reclamação, usou imagens de queixas de pessoas em relação à urna – de acordo como o TSE, 2,4 mil urnas ou 0,54% do total apresentaram defeito e foram substituídas, número inferior ao de 2014, quando quebraram 0,75% do total. O pastor Silas Malafaia, também apoiador do candidato do PSL, engrossou o coro. No dia da apuração, cerca de 40 eleitores de Bolsonaro se reuniram na Avenida Paulista, em São Paulo, para protestar contra o resultado e queimar uma réplica da urna.

Semear o caos e desacreditar as instituições é parte da estratégia da campanha de Bolsonaro. Só causa estranheza que um político que está perto de ser eleito questione o sistema que poderá levá-lo ao Planalto. Para o cientista social e antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos, que estuda táticas militares de comunicação há três décadas, trata-se de uma tentativa de se apropriar de uma bandeira do PT (a de que está sendo sabotado) e esvaziar a pauta — o que chama de “false flag invertida”.

“O PT caiu no jogo porque, mesmo sendo claramente sabotado pelo poder Judiciário, tomou posição a favor do TSE”, diz. Desta forma, o PT perde margem para questionar eventuais anormalidades nas eleições. “O PT perdeu a janela de ouro de reafirmar a mensagem de Bolsonaro e tensionar o Judiciário,” me disse Leirner.

A tática parece surtir efeito. No canal do Brasil Paralelo (cujo líder usa, no Facebook, avatar de apoio a Bolsonaro), os vídeos sobre a operação somam mais de 2,5 milhões de visualizações e são replicados à exaustão via WhatsApp. Os comentaristas apreciam a tese antipetista e antiestabilishment de Hoeschl, ainda que os argumentos não se sustentem. Numa eleição marcada por táticas agressivas e subterrâneas de fake news, afinal, o que menos importa é a verdade. Resta saber se Bolsonaro vai questionar o resultado das eleições caso seja eleito. O mais provável é que diga que deveria ter vencido com ainda mais votos.

Tentamos contato com Hugo Hoeschl por e-mail, telefone, Facebook e pelo Brasil Paralelo, por vários dias, mas não obtivemos retorno.