Etienne de La Boétie – Reflexões na tarde


Discurso sobre a servidão voluntáriaExtrato
Etienne de La Boétie

[…] Como pode alguém, por falta de querer, perder um bem que deveria ser resgatado a preço de sangue? Um bem que, uma vez perdido, torna, para as pessoas honradas, a vida aborrecida e a morte salutar?

Veja-se como, ateado por pequena fagulha, acende-se o fogo, que cresce cada vez mais e, quanto mais lenha encontra, tanta mais consome; e como, sem se lhe despejar água, deixando apenas de lhe fornecer lenha a consumir, a si próprio se consome, perde a forma e deixa de ser fogo.

Assim são os tiranos: quanto mais eles roubam, saqueiam, exigem, quanto mais arruínam e destroem, quanto mais se lhes der e mais serviços se lhes prestarem, mais eles se fortalecem e se robustecem até aniquilarem e destruírem tudo. Se nada se lhes der, se não se lhe obedecer, eles, sem ser preciso luta ou combate, acabarão por ficar nus, pobres e sem nada; da mesma forma que a raiz, sem umidade e alimento, se torna ramo seco e morto.

Os audazes, para que obtenham o que procuram, não receiam perigo algum, os avisados não recusam passar por problemas e privações. Os covardes e os preguiçosos não sabem suportar os males nem recuperar o bem. Deixam de desejá-lo e a força para o conseguirem lhes é tirada pela covardia, mas é natural que neles fique o desejo de o alcançarem. Esse desejo, essa vontade, são comuns aos sábios e aos indiscretos, aos corajosos e aos covardes; todos eles, ao atingirem o desejado, ficam felizes e contentes.


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Numa só coisa, estranhamente, a natureza se recusa a dar aos homens um desejo forte. Trata-se da liberdade, um bem tão grande e tão aprazível que, perdida ela, não há mal que não sobrevenha e até os próprios bens que lhe sobrevivam perdem todo o seu gosto e sabor, corrompidos pela servidão.

A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter.[…]

¹ Etienne de La Boétie
* Sarlat, França – 1 de Novembro de 1530 d.C
+ Germignan, França 18 de Agosto de 1563 d.C

Humanista e filósofo francês. Foi contemporâneo e amigo de Michel de Montaigne, outro filósofo francês. Montaigne no ensaio que escreveu, “Sobre a Amizade”, faz uma homenagem a la Boétie. Étienne, foi exímio tradutor de Xenofonte e Plutarco.

O título que contém o ‘termo servidão voluntária’, já é em si, uma contradição, questionando como se pode servir de forma voluntária, sacrificando a própria liberdade.

O “Discurso da Servidão Voluntária” é uma declaração de amor à liberdade. Etienne, também considerado por alguns como o precursor do anarquismo, induza reflexões profundas sobre a condição humana e a liberdade.

A obra foi escrita no século XVI, logo após a derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal. Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se a vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos?

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