Demóstenes Torres: a queda da última vestal do DEM


 

Justo Veríssimo, genial personagem criação do imortal Chico Anysio - O político sem nenhum caráter, mais atual que nunca.

O que se esperar de um senador que acusado de corrupção busca o apoio de Renan Calheiros?
Para quem já foi a voz mais tonitroante nas denúncias aos mal-feitos da cambada petista, agora, resta a Demóstenes, envolvido nas mais cabeludas transações com a máfia do jogo ilegal no Brasil, quase que unicamente a tarefa de dar uma resposta à sociedade.

Aguardemos o desenrolar dos inquéritos, e vejamos se a antes vestal figura do senador goiano irá ilustar a capa das revistas semanais com o título de “chefe de quadrilha”.

José Mesquita – Editor


A crise envolvendo o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) – e suas agora investigadas relações com Carlinhos Cachoeira, chefe da máfia de caça-níqueis em Goiás – atinge em cheio um já cambaleante Democratas.


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Um dos principais partidos do Brasil (e o único a defender de forma enfática o ideário liberal), o DEM tem sofrido uma agonia dolorosa nos últimos anos.

O processo parece ter se inciado com a morte de Antonio Carlos Magalhães, patrono da sigla, em julho de 2007.

O partido acabara de mudar de nome, deixando para trás o antigo PFL. Já havia sinais de perda de influência. De lá para cá, a legenda entrou em uma decadência assustadoramente rápida.

A tentativa de transição para as gerações mais novas, na figura do então presidente Rodrigo Maia, mostrou-se malsucedida. Isso, somado à alta popularidade do regime lulista e à revelação dos pecados cometidos por figuras de primeira grandeza na legenda, gerou um cenário de esvaziamento: o partido foi perdendo, uma a uma, suas figuras mais promissoras.

Em 2009, a operação Caixa de Pandora desmontou um amplo esquema de corrupção comandado pelo então governador José Roberto Arruda e seu vice, Paulo Octávio, no governo do Distrito Federal.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Até que os desmandos viessem à tona, a dupla vinha transformando a gestão local em uma vitrine para o partido. Arruda e Octávio, favoritos à reeleição no ano seguinte, eram jovens o suficiente para permitir sonhos maiores à cúpula do DEM. Acabaram varridos do mapa.

Restava, então, o prefeito paulistano Gilberto Kassab. A administração da maior cidade do país se tornou o principal posto do DEM no Executivo, já que Arruda era o único governador da legenda entre 2007 e 2010.

Mas, no ano passado, a falta de habilidade de Rodrigo Maia e a ambição de Kassab causaram um racha que motivou o nascimento do PSD.

O novo partido levou um bom pedaço do DEM. Entre outros nomes, o novo partido tirou do ex-PFL outras três  figuras que poderiam significar uma renovação no partido: a senadora Kátia Abreu, o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, e o ex-deputado Indio da Costa, vice de José Serra na última eleição presidencial.

Debandada – A influente família Bornhausen acompanhou a debandada de Kassab. Outros nomes tradicionais do partido, como Heráclito Fortes e Marco Maciel, haviam ficado pelo caminho graças a derrotas eleitorais em 2010.

Neste cenário, Demóstenes Torres reinava como a mais promissora figura do partido. Articulado, o ex-promotor de Justiça se mostrava implacável ao cobrar o governo diante de deslizes éticos.

A projeção que o parlamentar acumulou levou alguns colegas a defender o nome dele como candidato do partido à Presidência da República. A ideia era começar em breve a percorrer o Brasil para, aos poucos, deixar o senador conhecido do eleitorado nacional.

Mas isso é passado.

O novo Demóstenes, recluso, foge da imprensa e pede ao antigo rival Renan Calheiros ajuda para não ser cassado. Mesmo se escapar, o parlamentar não conseguirá se recuperar dos danos sofridos pela proximidade com Carlinhos Cachoeira. Com Demóstenes sangrando, torna-se mais evidente a falta de quadros de peso no DEM para reerguer o partido em um futuro próximo.

Além de Demóstenes e do sobrevivente José Agripino Maia (que acumula a função de presidente do partido e líder da bancada no Senado), o reduzido time do partido no Senado é composto por dois suplentes (Maria do Carmo Alves e Clóvis Fecury) e um parlamentar de visibilidade limitada e idade avançada, Jayme Campos.

O único governo comandado pelo partido é o do Rio Grande do Norte. E a governadora Rosalba Ciarlini não empolga os correligionários.

Na Câmara, nomes como ACM Neto e Ronaldo Caiado dispõem de razoável influência. Mas, por ora, falta rodagem a um e a outro para permitir sonhos mais altos aos democratas.

Calvário – O senador Demóstenes Torres foi atingido pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal. As autoridades desmontaram uma extensa rede criminosa comandada por Carlinhos Cachoeira, empresário e controlador da máfia dos caça-níqueis no estado de Goiás.

Foram presos policiais militares, civis e federais que tinham participação no esquema. Mas a maior surpresa veio de conversas entre Demóstenes Torres e Cachoeira, interceptadas pelos policiais. Além de ter recebido do criminoso um presente de casamento no valor de 30 000 dólares, o senador foi flagrado pedindo auxílio financeiro e negociando o uso de um jatinho de Cachoeira.

Novas conversas de Cachoeira reveladas pelo Jornal Nacional desta quinta-feira tornaram a situação do senador ainda mais complicada.

O chefe da quadrilha aparece negociando recursos com comparsas e, em vários trechos, cita o nome do parlamentar. Carlinhos Cachoeira chega a falar em “um milhão do Demóstenes”.

Horas antes, o PSOL entregou ao Conselho de Ética do Senado um pedido de abertura de processo por quebra de decoro parlamentar. E o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquérito contra o parlamentar.

Esperava-se que Demóstenes, sempre ágil para cobrar esclarecimentos do governo, se dispussesse a responder às denúncias publicamente.

Em vez disso, tem evitado a imprensa e, desde que as denúncias se agravaram, só se comunicou por uma carta evasiva enviada aos colegas.
Gabriel Castro/Veja

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