Demócrito Rocha – Versos na tarde – 08/03/2017


O Rio Jaguaribe
Demócrito Rocha¹

O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta
por onde escorre
e se perde
o sangue do Ceará.
O mar não se tinge de vermelho
porque o sangue do Ceará
é azul …

Todo plasma
toda essa hemoglobina
na sístole dos invernos
vai perder-se no mar.

Há milênios… desde que se rompeu a túnica
das rochas na explosão dos cataclismos
ou na erosão secular do calcário
do gnaisse do quartzo da sílica natural …

E a ruptura dos aneurismas dos açudes…
Quanto tempo perdido!
E o pobre doente – o Ceará – anemiado,
esquelético, pedinte e desnutrido –
a vasta rede capilar a queimar-se na soalheira –
é o gigante com a artéria aberta
resistindo e morrendo
morrendo e resistindo…


Você leu?: René Descartes – Os mortais são dominados por uma curiosidade


(Foi a espada de um Deus que te feriu
a carótida
a ti – Fênix do Brasil.)

E o teu cérebro ainda pensa
e o teu coração ainda pulsa
e o teu pulmão ainda respira
e o teu braço ainda constrói
e o teu pé ainda emigra
e ainda povoa.

As células mirradas do Ceará
quando o céu lhe dá a injeção de soro
dos aguaceiros –
as células mirradas do Ceará
intumescem o protoplasma
(como os seus capulhos de algodão)
e nucleiam-se de verde
– é a cromatina dos roçados no sertão…

(Ah, se ele alcançasse um coágulo de rocha!)

E o sangue a correr pela artéria do rio Jaguaribe…
o sangue a correr
mal que é chegado aos ventrículos das nascentes …
o sangue a correr e ninguém o estanca…

Homens da pátria – ouvi:
– Salvai o Ceará!
Quem é o presidente da República?
Depressa
uma pinça hemostática em Orós!
Homens –
o Ceará está morrendo, está
esvaindo-se em sangue …

Ninguém o escuta, ninguém o escuta
e o gigante dobra a cabeça sobre o peito
enorme,
e o gigante curva os joelhos no pó
da terra calcinada, e
– nos últimos arrancos – vai
morrendo e resistindo

¹Demócrito Rocha
* Caravelas, BA – 14 de Abril de 1888 d.C
+ Fortaleza, CE – 29 de Novembro de 1943 d.C[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

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