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De quando se atiravam livros das pontes terça-feira, 30 de outubro de 2018

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Tempos difíceis esses em que a gente escuta de todos os lados o clamor pela volta do regime militar no Brasil, uma histeria que se lança contra museus e às artes em geral, numa cruzada acintosamente moralista, por vezes mal-disfarçada de preocupação com o bem estar de crianças. Me refiro, claro, aos episódios envolvendo a performance La Bête, do coreógrafo Wagner Schwartz, no MAM de São Paulo, e a censura à exposição Queer Museu, em Porto Alegre, duas vítimas recentes dos movimentos conservadores. Em ambos os casos, não poucos pregaram o fuzilamento ou a tortura dos artistas que ousaram se expressar livremente.

O mais duro é que opiniões como estas saiam da cabeça de pessoas nascidas sob a democracia. Duro, mas ao mesmo tempo explicável: só mesmo em um País onde o esquecimento é praticado como esporte nacional para que pessoas nascidas na era da internet sem fio defendam a prisão do pensamento. Clarice, de Roger Mello e Felipe Cavalcante (ilustrações), é um manifesto contra o conservadorismo na forma de um livro infantojuvenil – um daqueles que tem a enorme qualidade de falar para leitores de todas as idades.

A história se desenvolve em torno de uma lembrança familiar de Roger Mello durante a ditadura, quando ele e a irmã presenciavam os adultos da casa falando em atirar livros ao lago, amarrados a pedras. Se apenas ouviram as conversas ou se presenciaram o acontecimento, não está claro; memória inventada ou não, o fato é de que a imagem de livros sendo destruídos dessa forma deixou marcas e, décadas depois, uma obra maravilhosa sobre como uma criança percebe tempos sombrios. Quando pouco se fala, resta imaginar.

“Atiramos livros de cima da ponte, desde quando? (…) Ninguém ia querer que o livro voltasse à tona. Quando os adultos chegam ao ponto de amarrar livros com pedras, falam coisas sem sentido”.

A Clarice do título é essa menina que vê os adultos ao seu redor atirando livros de uma ponte e falando coisas sem sentido. Seus pais sumiram e ninguém lhe diz onde estão, afinal, “as coisas ficam assim sem explicação no mundo dos livros afundados”. Então ela e o amigo Tarso observam as pessoas percorrendo Brasília em incursões misteriosas e incertas, enquanto isso são deixados na casa de vizinhos e amigos da família, entretidos em preencher as lacunas do que não sabem, misturando tudo às fantasias infantis permeadas por insetos, cinema, ciência e viagens espaciais.

O que eles sabem: que não é bom cruzar com policiais ou militares, a quem se referem como E.L.E.S.; que os dragões da independência são a coisa menos independente que existe; que os adultos às vezes procuravam coisas nos lugares errados, com medo precisamente de encontrá-las; que livros submersos são como pássaros presos pelos pés.

IMG_20180723_091345276Assim como o romance adulto W, resenhado aqui, também em Clarice Roger Mello permeia o seu texto de alusões ao ato de desenhar e aos formatos da criação literária. Em determinado momento, Clarice e Tarso discutem se quadrinho é ou não livro; em outro momento, se os caracteres orientais na capa de um livro vermelho são letras ou imagens – “imagens, letras, tudo a mesma coisa”, diz Tarso. Roger Mello é mais conhecido como ilustrador, embora Clarice não tenha sido ilustrado por ele; e há aqui, talvez, uma defesa da ilustração como veículo de construção literária.

A edição da Global, primorosa, também entra na brincadeira metalinguística: a sobrecapa do livro cobre uma capa dura vermelha com título em caracteres orientais. No mais, Felipe Cavalcante mostra como a ilustração pode prescindir de rebuscamento, com todo o livro impresso em apenas duas cores – laranja e azul escuro – em desenhos que ampliam o sentido do texto.

Clarice me fez lembrar o filme brasileiro O ano em que meus pais saíram de férias e também Léxico Familiar, livro da italiana Natalia Gizburg (já resenhado aqui), uma espécie de autobiografia de sua família durante o período de ascensão e queda do fascismo mussoliniano na Itália. Natalia, a caçula, era um pouco como Clarice que observava sem entender as esquisitices da gente grande ao seu redor. Ambas acabavam misturando o que viam àquilo que os adultos tentavam convencê-las de que tinham visto, criando uma memória construída sobretudo a partir da palavra .

Daqui a alguns anos, saberemos como as crianças de hoje construirão as memórias desse tempo em que, se não atiramos livros das pontes (ainda), atacamos outras formas de arte covardemente.
Por Renata Beltrão
Recifense, jornalista de formação, mora em São Paulo e trabalha com comunicação institucional e governamental.

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José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração e bacharelando em Direito. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, Usa. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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