Crônica – Ivan Lessa.


Amando o amor
Ivan Lessa – Jornalista
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/
story/2007/01/070121_ivanlessa.shtml


Há uns tempinhos escrevi aqui neste meu canto uma croniqueta cujo título era o nome de uma assessora de imprensa – do e no Brasil – que me atormentava todos os dias.
Convidava-me para os mais variados acontecimentos – do e no Brasil – sem a menor justificativa. Acabei me cansando de tentar todos os filtros eletrônicos que me deram: o assédio informático continuava.
Teve dia em que recebi mais de 10 daquilo que nós, como os ingleses e americanos, passamos a chamar de “spam”. Ia tudo para o “junk” – é, lixo mesmo – e, dia seguinte, lá estava a moça de novo me convidando para lançamento de livro, disco ou filme.


Após minhas rudes, ou melhor dizendo, sarcásticas palavras, a assessora me deixou em paz. Que bom!, disse eu para minhas teclas. Uma leitora ao menos tenho. E educada.
Isso não significa que o “spam” geral tenha parado. Capaz até de eu ser poupado dos horrores que leio e de que ouço falar. Tenho meu “junk” (em português soa muito pesado. Ainda tenho modos) diário. Inclusive da Assessoria da Presidência da República que deixei há – fez agora neste fim-de-semana que passou – 29 anos. Isto muito me honra. Me chateia e me honra. Um misto quente. Eu preferia, no entanto, que parasse.


Ao menos, tenho que admitir, não recebo os convites pornográficos ou a proposta para a compra daqueles afrodisíacos infalíveis. Mas continuo invariavelmente convidado para festanças brasileiras.
No que cabe o comentário: como acontecem coisas no Brasil! Que turbilhão de marcos e eventos! Quantas peças e museus e espetáculos estreiam por dia, ou mesmo por hora! Tamanha efervescência cultural e social eu agradeço ter de viver apenas por – isso, “junk”, lixo de Internet.


Fico zonzo só de pensar se eu fosse mesmo comparecer a essa azáfama de frivolidades em que vivem os brasileiros. Sim, eu estou falando com você mesmo, companheiro ou companheira.


Amando amores
Vez por outra, vem uma e me pega distraído. Caio e abro e torno-me, sou informado por quem entende disso, freguês internauta. É o caso de um email que me chegou ao computador semana passada.
Na minha caixa de correio normal lá estava: “Amando o amor de alguém”, e o nome da remetente. Ora, aqui entre nós, brasileiros da BBC Brasil há uma Mônica (e já tivemos até duas), a Vasconcelos, que trata de música popular e da melhor maneira possível, já que entende do traçado, como dizemos nós, os mais velhos.


A Mônica Vasconcelos canta (sim, podem dizer, encanta também) tem uma boa, mas boa mesmo, meia dúzia de discos gravados aqui, todos com excelentes resenhas nos jornais de categoria e, volta e meia, está se apresentando com seu grupo em um clube noturno londrino de boa qualidade.
Sempre recebendo resenhas elogiosas nos grandes jornais. Parabéns, pois à Mônica. À Mônica Vasconcelos.


Porque outra Mônica surgiu em minha vida e me deu voltas à cabeça, que já não é grande coisa em condições normais, se condições normais eu tivesse, ou pelo menos conhecesse de vista.
Abri o email da, agora sei, falsa Mônica. Lá estava o convite que, nas primeiras linhas, confuso, foi me deixando tonto. Dizia assim: “Livro traz dicas para pessoas que se apaixonaram por comprometidos”. “Minha nossa”, exclamei em voz alta mesmo, assustando o colega aqui do lado. “Em que terá se metido a querida Mônica?”


Era o equivalente menos conciso de nosso velho, “Qual é, pôxa?” E durante uma página vendia-me o correio eletrônico as vantagens de se ler esse livro, cujo subtítulo tudo explicava e que, no corpo do texto, em itálicos, meus olhos pegaram logo: “Amando o amor de alguém – quando a história pode dar certo e garantir felicidade para todos os envolvidos.”


Em bom português: du-vi-de-o-dó. Essas coisas sempre acabam em bobagem. Tive pena de nossa Mônica e fiz uma nota mental de, na primeira oportunidade, bater um papo com ela, pedir que pensasse duas vezes, coisa e tal.
Para bem de todos e felicidade geral da nação, logo no finalzinho do bilhete de vendas (R$ 24,90 a brochura, 112 páginas) dei com o sobrenome da autora. Nada tinha a ver com o simpático Vasconcelos.


Não digo qual era para não fazer publicidade, não passar adiante o logro (logro ao menos eletrônico) em que me vi envolvido. Também não dou os telefones para contato ou o nome e o e-mail da editora.


Só queria saber porque raios fui contemplado com esse pastel premiado e pedir – com o devido respeito, inclusive para a Assistência da Presidência do Brasil – que parem, que parem com isso, gente!

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