Crônica – Ivan Lessa.

Ivan Lessa – BBC
A Taça Global já é nossa!


Folhas inglesas e brasileiras me informam que há 500 jornalistas brasileiros cobrindo a Copa do Mundo na Alemanha. Uso o verbo cobrir em seu mais amplo sentido. O mesmo não faço com a palavra “jornalista”.Pelo que depreendi, há muito tempo, jornalista cobre (novamente em seu mais amplo sentido) radialista e televisionista.
São 500 atletas das palavras se exercitando – atirando martelos, arremessando dardos, correndo os 200 metros rasos – para que 270 milhões de brasileiros possam ficar imaginando o que não deve ser um jogo de futebol entre seleções internacionais. Corrigindo-me: são 280 milhões de brasileiros. Foi só eu parar para digitar duas linhas que mais 10 milhões coroaram ou deram as caras, por assim dizer.


As mesmas folhas me dão conta que, desses 500, 160 são da Globo, o que inclui rádio e televisão, mais 16 – esses comprovadamente alfabetizados –, do jornal com uma triagem de mais de 300 mil exemplares.É bastante. Levando-se em conta que o Brasilzão, como o chamam carinhosamente essas pessoas aumentativas torcendo por jogadores diminutivos (Ronaldinho, Juninho, Robinho, Cafuinha, Didinho etc), não tem mais que 3 jornais e 1/3 que possam ser levados a sério por pessoas que fazem questão de ser sérias. Acho uma boa distribuição daquilo que poderíamos chamar, no melhor estilo PT, de “Bolsa Beabá”.

Folheio ciberneticamente o simpático jornalão soi disant carioca. Lá estão, todos os santos dias, desde que esse raio dessa copa começou, 16 jornalistas.
Dos colunistas, coitados, morro de pena, apesar de todas as mordomias, pois já exerci a profissão quando jovem, inocente, duro e cara de pau. Dia após dia, lá estão os 16 fazendo o espetáculo sem juiz, bandeirinhas, cartões amarelos ou vermelhos. É só dar uma chegada ao sítio global.

Olhai-os a zanzar pela relva verde, farta e saborosa da palavra escrita. De óculos escuros, bengalas brancas, tentando não esbarrar uns nos outros, esbarrando sempre uns nos outros, tropeçando, caindo de bunda no chão, como num pastelão clássico imitando os mestres do gênero, de Chaplin a Buster Keaton, passando por Harry Langdon e Harold Lloyd, em roteiro idealizado por Ionesco e Beckett.
Suas frases ecoam na mente como encantações ou pontos de macumba. As escritas e lidas e principalmente as imaginadas, pois não há melhor forma de elogio do que a imaginação.

O texto está pronto e tinindo, para os bons apreciadores. Como nas velhas sessões Passatempo, do Capitólio, na Cinelândia, onde também estavam Os Três Patetas e O Gordo e o Magro, o espetáculo começa quando você chega.
– É preciso escalar Robinho.
– Ich komme aus Rio.
– Comandante Lobato! Comandante Lobato!
– Ronaldinho está jogando muito na frente.
– Leitura labial é crime previsto na constituição ou não?
– Qual é o certo: Ich bin ein Berliner ou Ich bin Berliner?
– Como dizia Neném Pé de Prancha…
– Alguém aí viu o comandante Lobato?
– Der Motor ist kaputt.
– Devemos esquecer 2002 e 1998.

Dois amigos cuja opinião prezo e respeito me garantiram que a coluna do Tostão é a melhor do gênero. Por ser um fracasso na marcação, eu sempre me descuidei. Passei a acompanhar, a fazer minha cobertura. Eles estavam, estão, certos. Tostão é longe o melhor comentarista, traje esporte ou passeio.

Agora, pouco importa o resultado do jogo de sábado e o próximo, se houver, e sei que, malheuresement, haverá. Uma taça nós já erguemos: a Global de Cobertura Jornalística é nossa. Sempre mal informado, só não sei se somos penta, tetra ou hexa.

José Mesquita

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e designer gráfico e digital.