Como morre um jornal local?

A hegemonia da ideologia capitalista não admite contestação


Se para os grandes veículos de comunicação é um desafio permanente fazer um bom jornalismo e manter o equilíbrio econômico-financeiro diante do impacto das transformações tecnológicas que afetam os processos de produção e difusão da notícia, para os jornais locais esse desafio é ainda maior.

Os efeitos desse cenário de convergência midiática e de crise econômica acentuam-se na queda de circulação e de assinantes e na redistribuição das verbas publicitárias, que tendem a migrar com o leitor para outras plataformas. São fatores decisivos para a viabilidade financeira das empresas de mídia, principalmente nas cidades de pequeno e médio porte, cuja economia patina, sem crescimento real.

Não conheço as causas que levaram à decisão de encerramento das atividades do jornal Comércio do Jahu — uma notícia avassaladora —, mas é preciso lançar um olhar sobre alguns aspectos para compreender o panorama atual e o papel da imprensa, que não é o de oferecer tão somente um produto de consumo diário, mas uma prestação de serviço aos cidadãos, imprescindível numa sociedade democrática.

Os ventos neoliberais que sopram de novo sobre o país chegam, na verdade, como o bafio de uma velha política que se transveste de nova — trazem promessas enganosas com o ímpeto reformista que, na prática, passa por cima de direitos e destrói o arcabouço constitucional de nosso incipiente estado de bem-estar social.

A hegemonia da ideologia capitalista não admite contestação, uma vez que transforma a capacidade humana de duvidar em simples falta de convicção — e a quem falta convicção ou adesão voluntária e acrítica está vedada a entrada no paraíso das promessas (nem sempre ou quase nunca atingíveis) de consumo. Esgarçam-se nesse processo as relações de solidariedade de classe e de cooperação em favor da ferocidade do individualismo exacerbado.

É preciso dizer que na esteira da desmedida produção capitalista em sua lógica de rentabilidade a curto prazo está posta a financeirização das economias, do capital que reproduz a si mesmo, sem fronteiras ou barreiras, impondo sua temporalidade, que é a do mercado, e atravessando o próprio Estado.

O Estado cede sua capacidade de gerir, de fomentar a economia e garantir direitos e serviços básicos, como educação, saúde, transportes, aposentadoria etc., tornados mercadorias. A exemplo do canto da sereia da reforma previdenciária que entrega a seguridade social ao mercado, sob a justificativa deficitária das contas (tornadas sigilosas pelo governo) e um iminente colapso do sistema.

Não é conveniente aos arautos reformistas revelar, no entanto, que os juros e amortizações da dívida pública consomem mais de 42% do orçamento da União, conforme dados de 2018, enquanto a Previdência Social ficou em 22,69%, sendo que desse montante a Desvinculação da Receita da União (DRU) permitiu remanejar verbas para outras áreas, inclusive pagamento dos juros.

Uma dívida que o governo contrai em forma de empréstimo por meio do Banco Central para “enxugamento” dos recursos que os bancos (coitados!) não põem no mercado, que não financiam as atividades econômicas devido às altas taxas de juros que inviabilizam as (não tão livres) iniciativas privadas. Ao contrário do que se pensa, esses “empréstimos” não se transformam em investimentos, não aquecem a economia nem geram empregos, tampouco voltam reinvestidos em serviços públicos de qualidade.

E a quem está se perguntando qual a relação que esses aspectos têm com o papel da imprensa ou com a questão do Comércio do Jahu, basta juntar os pontos para se ter ideia do contexto de transformações, dificuldades, pressões e cerceamentos a que todos estamos submetidos.

Se o capitalismo, em suas formas de reprodução e dominação, atravessa Estados, por que não nos atravessaria? É o próprio campo onde agimos e somos “regidos” (em menor ou maior grau) por suas demandas e temporalidade.

Uma temporalidade marcada pela aceleração contemporânea e que se põe em conflito com a temporalidade política das democracias, confiscados o “espaço da experiência” e o “horizonte de expectativas”, passado e futuro dos indivíduos. E isso impossibilita a construção de uma memória representável, o que é um risco para as sociedades e para o próprio exercício democrático.

A imprensa não escapa da razão mercadológica e dessas contradições, mas não deixa de ser a arena onde os embates sociais se dão. De sua pluralidade de vozes depende a liberdade democrática, especialmente nesse momento de disseminação de “verdades alternativas”, de mesquinhez intelectual, de maniqueísmos e popularismo vulgar. É preciso encontrar novos caminhos e modelos de negócios, com reflexão e profundidade, diante de tantos desafios.

De qualquer forma, abre-se uma lacuna com o encerramento das atividades do Comércio do Jahu, que deixa de reportar a história imediata, mas não de ser o repositório dos últimos 110 anos de história de nossa cidade.

Postado na categoria: Mídia - Palavras chave: