China é a maior beneficiada das tensões entre Trump e Irã

Trump acabou ajudando a sociedade americana a priorizar o debate público sobre como lidar com a ascensão da China.


Conflito com o Irã pode colocar a perder o único acerto diplomático do presidente americano, facilitando a estratégia chinesa de se projetar como alternativa benigna aos EUA

Presidente Donald Trump durante visita a Ohio, nos Estados Unidos.
Presidente Donald Trump durante visita a Ohio, nos Estados Unidos .JONATHAN ERNST / REUTERS (REUTERS)

Barack Obama até entendeu essa realidade, mas não foi capaz de encerrar o envolvimento militar americano em conflitos secundários, tornando-se o primeiro presidente dos EUA a passar todos os oito anos de mandato em guerra — um triste recorde que os nostálgicos pelo líder democrata tendem a esquecer. Trump foi mais perspicaz nesse sentido, mas agora periga ceder ao mesmo erro, pondo a perder seu único acerto diplomático.

Se nas duas décadas passadas os líderes chineses ficaram contentes em ver seu maior rival ocupado em conflitos de baixa relevância — dos quais Pequim sabiamente manteve distância —, eles agora devem torcer pelo mesmo erro de cálculo em relação ao Irã. Afinal, a China seria a maior beneficiária de um confronto militar entre os Estados Unidos e o país persa. Dada a sofisticação das Forças Armadas iranianas, esse confronto provavelmente seria mais caro, longo e complexo do que aqueles travados contra o Iraque ou Afeganistão. Mesmo diante da possibilidade de um rápido colapso do governo de Teerã, os Estados Unidos teriam uma responsabilidade na reconstrução do país, e ficariam amarrados por anos à região. No campo diplomático, os prováveis abusos de direitos humanos, mortes de civis e possíveis crimes de guerra cometidos por soldados americanos aumentariam a rejeição e o isolamento dos Estados Unidos. A grande maioria da comunidade internacional se recusaria a apoiar os EUA em um conflito que muitos enxergariam como ilegal e desnecessário.

Uma guerra assim produziria uma inevitável onda de sentimento global anti-americano, permitindo um fortalecimento da narrativa de Pequim, que busca colocar a China como uma alternativa benigna, confiável e pacífica aos Estados Unidos: potência em declínio, instável, agressiva e ressentida por sua perda de hegemonia. Com a atenção pública global focada no conflito com o Irã, a China sentiria ainda menos pressão diplomática em relação aos abusos de direitos humanos em Xinjiang e à repressão em Hong Kong.

Um ataque americano ao Irã tampouco estancaria o avanço dos interesses chineses no Oriente Médio. Nos casos do Iraque e do Afeganistão, o que vimos é que a China conseguiu fortalecer sua presença econômica e diplomática mesmo com governos instalados por Washington após as invasões. Embora a imprensa americana insista em enfatizar a influência iraniana no Iraque, a notícia mais importante do ano passado foi a decisão do governo iraquiano de integrar a Nova Rota da Seda (conhecida como BRI), plano de desenvolvimento global do governo Xi Jinping do qual o Afeganistão também já faz parte. Os EUA gastaram cerca de dois trilhões de dólares em dezoito anos de ocupação no Afeganistão mas é a China que terá a maior influência econômica no país, já sendo sua principal investidora.


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A decisão recente de Trump de impor novas sanções ao regime iraniano aumenta consideravelmente a influência econômica da China, principal parceira comercial do Irã. Durante uma visita do ministro das Relações Exteriores iraniano Javad Zarif a Pequim em setembro de 2019, o governo chinês anunciou um pacote de investimentos de 400 bilhões de dólares: o maior na história dessa relação bilateral. Assim como aconteceu no caso venezuelano, as sanções de Trump têm facilitado o projeto chinês de aumentar sua influência econômica, uma vez que retiram a concorrência imposta por empresas americanas.

Após o assassinato do general Soleimani pelos EUA no começo de 2020 e da retaliação iraniana subsequente, o cenário mais provável não é de um confronto militar clássico, como ocorreu no Iraque em 2003, mas de um conflito assimétrico de baixa intensidade. Isso deve envolver ataques a instalações militares e postos diplomáticos americanos no Oriente Médio, ciberataques a instituições financeiras dos EUA e apoio a grupos que lutam contra aliados de Washington, como os rebeldes houthis no Iêmen, dificultando a atuação dos Estados Unidos na região. A crise, porém, aumentou as chances de que algum erro de cálculo acabe levando a uma invasão dos EUA no Irã.

Sendo assim, a decisão de matar Soleimani — segundo homem mais poderoso do Irã e uma figura que muitos viam como um possível candidato à presidência em eleições futuras — ameaça a única ideia positiva que Trump articulou para a política externa americana: a de se retirar de guerras desnecessárias e finalmente focar-se inteiramente na necessidade de articular uma estratégia mais coerente para lidar com a ascensão chinesa.

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