Apps de relacionamento: saiba como se proteger de golpes

Encontrar uma nova amizade ou um parceiro ideal pode estar a um match de distância. É por esse motivo que apps de relacionamento, como o Tinder e o Happn, figuram entre os mais instalados nas lojas de aplicativos.

Com a impossibilidade de realizar encontros físicos, devido às medidas para combater o avanço do coronavírus, a busca por esses recursos ganhou ainda mais força.

Segundo um levantamento realizado pela Match Group, empresa responsável pelo Tinder e outros apps do segmento, em abril, a quantidade de mensagens diárias enviadas foi 27% superior, se comparada à última semana de fevereiro. Em todo o mundo, os aplicativos líderes no ranking também registraram um crescimento no número de usuários e interações.

Ao redor do mundo, a estimativa é que cerca de 330 milhões de usuários estarão conectados nestes apps até 2023. Créditos: Unsplash

Apelidado pelo público de “carentena”, o período de isolamento social demanda o fortalecimentos das relações pessoais. Assim, qualquer recurso tecnológico que nos auxilie no desenvolvimento da vida afetiva é válido. No entanto, é preciso ter cautela. Golpistas continuam a enxergar esse tipo de aplicativo como mais uma oportunidade para manipular as vítimas.

Daniel Cunha Barbosa, especialista em segurança da informação e pesquisador da ESET no Brasil, alerta para vulnerabilidade de usuários que se deixam levar pela ansiedade em conhecer alguém especial. “É justamente nesses momentos que os cibercriminosos se aproveitam, tirando vantagem em conquistar a confiança da pessoa que está do outro lado da tela e, com isso, ter acesso a informações pessoais sigilosas, como endereço, círculo familiar e de amizade da vítima e até dados bancários”, comentou.

Veja como se proteger:

Não forneça dados privados, como seu endereço residencial ou de trabalho;
Faça uma breve pesquisa na web para se certificar da veracidade das fotos/vídeos recebidos;
Desconfie caso as informações ditas pela pessoa não corresponde àquelas compartilhadas nas redes sociais;
Fique atento se houver manifestação de sentimentos profundos após um curto período de conversa;
Não envie nenhuma foto/vídeo que poderia te comprometer posteriormente.
Recomendações para o seu dispositivo:
Instale uma solução de segurança no seu computador pessoal, smartphone e em qualquer outro equipamento que você usa em casa ou no trabalho;
Mantenha atualizado o sistema operacional;
Utilize a autenticação de dois fatores em aplicativos que dispõem deste recurso;
Não clique em links suspeitos.

A luta anônima de três brasileiros contra sites de fake news

Atuando no anonimato desde maio, idealizadores do movimento Sleeping Giants Brasil estimam ter feito com que páginas propagadoras de notícias falsas tenham deixado de embolsar R$ 448 mil por mês.Fake News,Redes Sociais,Internet,Blog do Mesquita

Twitter e fake news

Em pouco menos de dois meses, Sleeping Giants Brasil acumulou 377,4 mil seguidores no Twitter

Principal plataforma de anúncios da internet, o Google Adsense é o que garante a saúde financeira de boa parte dos sites campeões de audiência mundo afora. E é justamente por meio desse sistema que ativistas do movimento Sleeping Giants Brasil pretendem sufocar propagadores de notícias falsas e fomentadores de discurso de ódio.

Inspirados pelo Sleeping Giants original – criado por um publicitário americano e em operação desde 2016 –, três brasileiros decidiram criar uma versão tupiniquim do movimento em 18 de maio deste ano. Passaram, então, a mirar os esforços em conhecidos sites de fake news, expondo publicamente, via redes sociais, empresas que apareciam como anunciantes nessas páginas, via AdSense.

Pelo sistema do Google, as empresas podem criar uma lista com todos os sites nos quais não querem aparecer de forma alguma. Essa é a ideia do Sleeping Giants: pressionar os anunciantes para que incluam sites de notícias falsas em suas listas e, assim, estes sejam desmonetizados.

A ideia parece estar funcionando. De acordo com balanço fornecido por um dos criadores do movimento, no primeiro mês de atividade o Sleeping Giants Brasil conseguiu que páginas propagadoras de fake news deixassem de embolsar 448 mil reais. O grupo contava com 377,4 mil seguidores no Twitter na manhã desta segunda-feira (13/07) e, no Instagram, com 126 mil seguidores, além de estar presente no Facebook e no Linkedin.

Por temerem ameaças como as sofridas pelo criador da versão original e sua família nos Estados Unidos, os idealizadores do projeto brasileiro não dão nenhuma pista de suas identidades. Eles só toparam conversar via mensagens diretas no Twitter, não aceitando passar nenhuma outra forma de contato.

Segundo eles, na maior parte das vezes, depois da exposição pública, as empresas respondem ao perfil e se comprometem a incluir os sites reconhecidos como propagadores de notícias falsas na lista de exclusão da plataforma AdSense.

“Recebemos mais de 400 respostas [de empresas anunciantes] em apenas um mês e meio de atuação”, afirmam. “Muitas empresas estão aderindo ao movimento, se conscientizando e passando a analisar melhor a forma como promovem sua publicidade e cedem espaços a perfis que promovem a desinformação e o ódio.”

Em um conturbado cenário político como o brasileiro atual, marcado por uma acirrada polarização, o grupo tem sido criticado por apoiadores do governo do presidente Jair Bolsonaro. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, classificou o Sleeping Giants como “a nova forma de censurar a direita”.Whatsapp,Facebook,Fakenews,Educação,Analfabetismo,Redes Sociais,Internet

“Somos contra todos os disseminadores de fake news e discursos odiosos, e sabemos que isso independe de espectro político”, defendem-se os idealizadores. “Mas no atual momento, a extrema direita concentra poder se utilizando de conteúdos falsos e odiosos. Além de que, em meio a uma pandemia, propagar desinformação é extremamente perigoso, visto que estamos falando de vidas sendo perdidas.”

Gigantes na mira

Os criadores do Sleeping Giants Brasil afirmam que os alvos são escolhidos com base na “proporção, relevância e alcance” de seus sites.

A partir de uma lista de empresas fornecida pelos criadores, a reportagem da DW Brasil buscou contato com Americanas, Nike, Spotify e MRV, as quatro mencionadas em primeiro lugar e que não responderam ao grupo, mesmo diante de constantes exposições públicas no Twitter. Nenhuma delas retornou o pedido de posicionamento da reportagem.

A DW Brasil apurou, contudo, que algumas das empresas expostas estão bloqueando sites de fake news de sua lista do AdSense, ainda que prefiram não assumir isso publicamente. Mais que isso, há empresas que, cientes da atuação do Sleeping Giants Brasil, estão se antecipando a uma provável exposição pública e adicionando sites propagadores de fake news a sua lista de exclusão da plataforma do Google.

“A liberdade de expressão é um direito de todos, não estamos aqui para contrariar isso”, afirmam os ativistas. “O movimento busca alertar as empresas de que estão contribuindo com o discurso de ódio e a desinformação, mas cabe a elas a escolha de retirar ou não seu anúncio do site. Só queremos seu posicionamento.”

Trabalho de formiguinha

E por que então não mirar os esforços diretamente na Google, em vez de fazer o trabalho de formiguinha? Segundo os idealizadores do Sleeping Giants, cobrar a responsabilidade da empresa de tecnologia não traria resultados.

“As grandes plataformas são, sim, responsáveis pelo espaço dado a disseminadores de conteúdos falsos e odiosos, mas é muito difícil ganharmos a atenção delas”, argumentam. “Em quatro anos de existência do perfil americano, nenhuma das grandes plataformas tomou medidas ou contatou o Sleeping Giants. Mas esperamos que isso mude e que elas entendam a responsabilidade que têm quando não há um selecionamento criterioso do que admitem ou não no ambiente virtual.”

Procurado pela Dw Brasil, o escritório da Google no Brasil se posicionou via assessoria de imprensa. “Temos políticas rígidas que limitam os tipos de conteúdo nos quais exibimos anúncios, como a que não permite que publishers busquem enganar o usuário sobre sua identidade ou produtos. Quando uma página ou site viola nossas políticas, tomamos medidas imediatas e removemos sua capacidade de gerar receita”, disse a empresa, em nota.

“Entendemos que os anunciantes podem não desejar seus anúncios atrelados a determinados conteúdos, mesmo quando eles não violam nossas políticas, e nossas plataformas oferecem controles robustos que permitem o bloqueio de categorias de assuntos e sites específicos, além de gerarem relatórios em tempo real sobre onde os anúncios foram exibidos”, acrescentou.

A Google afirmou que, apenas em 2019, encerrou mais de 1,2 milhão de contas e retirou anúncios de mais de 21 milhões de páginas “por violação de políticas”.

Por que 5G da Huawei põe Brasil em saia-justa com China e EUA

A Huawei é a maior fornecedora de equipamentos para redes de telecomunicação do mundo

Os executivos que comandam as operações no Brasil e na América Latina da empresa chinesa de telecomunicação Huawei reuniram-se com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) na semana passada. O encontro em Brasília buscou aproximar a companhia do governo brasileiro em um momento crítico para a Huawei.

A empresa está no centro da guerra comercial entre China e Estados Unidos e foi banida pelo governo americano de fazer negócios com companhias do país.

Os Estados Unidos alegam que a tecnologia da Huawei para redes de dados e a proximidade com o governo chinês representam uma ameaça à segurança nacional nas nações que a adotam.

A Huawei e a China negam as acusações. Mesmo assim, a empresa já sofreu revezes em outros mercados após as sanções dos Estados Unidos. Com isso, torna-se ainda mais importante o leilão das redes móveis de quinta geração, ou 5G, no Brasil, previsto para 2020.

As redes 5G prometem velocidades de download até 20 vezes maiores do que no 4G, permitem que mais gente fique conectada em uma mesma região simultaneamente e oferece conectividade quase instantânea entre aparelhos.

A Huawei deixou claro para Bolsonaro que quer participar da implantação desta tecnologia no país. “Não foi feita a proposta, ele [o presidente da Huawei no Brasil] apenas mostrou que quer 5G no Brasil”, disse Bolsonaro a jornalistas após a reunião.

Isso coloca o governo brasileiro em uma posição delicada. Ao longo do ano, Bolsonaro buscou uma aproximação tanto com Pequim quanto com Washington, os principais parceiros comerciais do país.

Recentemente, a China disse que seus fundos estatais podem investir mais de R$ 100 bilhões no Brasil. Ao mesmo tempo, o Brasil busca assegurar o apoio do governo americano para ser membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e quer incrementar importantes acordos bilaterais com os EUA.

Os EUA já avisaram que deixarão de “compartilhar informações” com países que permitem o uso de tecnologia da Huawei em sistemas de comunicação.

É uma situação de “saia justa” para o governo brasileiro. Agradar um lado pode desagradar o outro — e colocar em risco acordos costurados com as duas maiores economias do mundo.

Em encontro com Bolsonaro, o presidente da Huawei no Brasil deixou claro o interesse da empresa nas redes 5G do Brasil.
Direito de imagem PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Procurados pela reportagem, os governos de Brasil e China não responderam até a publicação desta reportagem. A Huawei Brasil informou que não tem no momento um porta-voz disponível para comentar o assunto.

Por sua vez, o governo americano disse que as empresas chinesas de telecomunicação representam um “risco inaceitável” e que a Huawei, ao se dizer independente do governo chinês, faz “puro teatro”.

“O Brasil vem se mantendo extremamente neutro nesta guerra comercial. Não faz declarações a favor de um lado ou de outro”, diz Hsieh Yuan, diretor de mercados e líder para China da consultoria de negócios Mazars.

Na sua avaliação, após Bolsonaro dizer na campanha presidencial que “a China não compra no Brasil, a China está comprando o Brasil”, o presidente brasileiro assumiu uma “postura mais madura”. “Querendo ou não, os maiores investimentos no país são chineses”, diz Hsieh.

Em visita à China, Bolsonaro disse que a melhor oferta vencerá que o leilão das redes 5G. O presidente brasileiro reafirmou esta posição ao ser questionado quanto aos objetivos do encontro com a Huawei. “Fiquei sabendo que tem uma firma sul-coreana que também está em condições de operar 5G. A gente vai olhar para o lado do quê? Oferta e conectividade”, disse Bolsonaro.

A Huawei não participa diretamente do leilão, mas pode fornecer equipamentos para as operadoras que estarão na disputa. Presente há 20 anos no país, a empresa já vende equipamentos para operadoras no Brasil e fez testes de redes 5G com Vivo, Oi, Tim e Claro, as quatro maiores companhias deste mercado.

A definição das especificações das tecnologias que serão usadas no Brasil pode ter um impacto direto sobre suas pretensões por aqui — e, de forma geral, em uma indústria na qual o investimento em redes 5G deve quase dobrar no próximo ano, para US$ 4,2 bilhões (R$ 17,7 bilhões), segundo a consultoria Gartner.

“O mercado brasileiro é expressivo. É natural que a Huawei queira se aproximar do governo brasileiro para que os padrões adotados aqui sejam aderentes ao que ela oferece, em um momento em que está sendo pressionada pelos Estados Unidos e precisa buscar mais mercados”, diz Alberto Luiz Albertin, coordenador da linha de telecomunicações do mestrado em Competitividade da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP).

‘Temos que nos proteger’, diz governo americano

No início de outubro, autoridades americanas vieram ao Brasil apresentar ao governo federal o Comitê de Investimento Estrangeiro dos Estados Unidos (CFIUS, na sigla em inglês), órgão que analisa se investimentos internacionais representam alguma ameaça à sua segurança nacional.

O Departamento de Estado americano disse que estas conversas e uma possível replicação do CFIUS no país não foram relacionadas a um setor ou empresa específica. “Essa análise de risco é uma prática recomendada que compartilhamos com parceiros e comum entre economias avançadas. Nossas preocupações com o 5G são separadas disso”, afirmou.

Questionado se pressiona o Brasil sobre a participação da Huawei no mercado de 5G nacional, o governo americano afirmou trabalhar para conscientizar aliados sobre “riscos de segurança e os verdadeiros custos e implicações do uso de fornecedores não confiáveis de redes 5G e sobre como maneiras pelas quais as decisões de aquisição hoje podem ter sérios impactos a longo prazo”.

Fornecedores chineses como a Huawei apresentam um “risco inaceitável para a segurança nacional, economia, privacidade e direitos humanos de nações e cidadãos devido a seus laços estreitos com o Partido Comunista Chinês”, disse o Departamento de Estado americano.

O Brasil tem soberania para tomar suas decisões quanto à implementação de redes 5G, mas “os Estados Unidos também devem proteger sua segurança, inclusive em relação aos sistemas de tecnologia da informação e comunicação”, afirmou a Casa Branca.

O que aconteceu?

Em maio, os Estados Unidos incluíram a Huawei e a também chinesa ZTE em uma lista de empresas com as quais companhias americanas não podem fazer negócios sem permissão especial. Também anunciou que as operadoras americanas não terão acesso a subsídios para comprar de fornecedoras que representem uma ameaça à segurança nacional.

O governo americano diz que Pequim poderia usar equipamentos de rede de empresas de telecomunicação chinesas instalados no exterior para espionagem ou interferir no funcionamento da infraestrutura de outros países.

Desde então, a Casa Branca estendeu por três vezes o prazo para que a Huawei pare de operar no país — a previsão atual é de que o veto entre em vigor em fevereiro de 2020 — e concedeu algumas licenças às quase 300 empresas que pediram permissão para continuar a fazer negócios com a multinacional chinesa.

China e EUA travam uma guerra comercial enquanto ao mesmo tempo negociam um acordo
Direito de imagem REUTERS

O governo dos Estados Unidos afirmou que as extensões de prazo foram necessárias para que as companhias americanas tenham tempo de fazer a transição das tecnologias que usam e não interrompam serviços, especialmente operadoras que atendem a área rural do país.

As medidas visando a Huawei vieram em um momento delicado nas relação China-Estados Unidos, envolvidos em uma dura guerra comercial ao longo do último ano, marcada pela imposição de tarifas bilionárias a seus produtos. Os americanos acusam os chineses de práticas comerciais desleais e de roubo de propriedade intelectual. A China nega as acusações.

A postura agressiva de Washington nesse braço de ferro é vista por alguns como parte de uma estratégia mais ampla para conter a ascensão da China, que, segundo algumas projeções, pode superar os Estados Unidos como a maior economia do mundo até 2030.

Ao mesmo tempo, os dois países negociam um acordo comercial, e Trump já sugeriu que a situação da Huawei pode mudar como parte disso. As negociações estão em curso, mas não há sinal de possam ser concluídas no curto prazo — uma incerteza que tem prejudicado a economia global.

Em uma contraofensiva, a Huawei deu início a uma campanha de relações públicas e lançou um concurso entre hackers que premiará quem identificar vulnerabilidades em sua tecnologia. De forma ainda mais ousada, ofereceu compartilhar sua tecnologia e conhecimentos sobre 5G com as empresas ocidentais que fizerem negócios com ela.

“O comprador teria permissão para modificar o código fonte, o que significa que nem a Huawei nem o governo chinês teriam controle de qualquer infraestrutura de telecomunicações construída com equipamentos produzidos pela nova empresa”, disse seu presidente, Ren Zhengfei, em entrevista à revista The Economist.

Como a Huawei nasceu

Zhengfei, um ex-militar de 75 anos, fundou a Huawei em 1987 — o nome da empresa pode ser traduzido como “conquista esplêndida” ou “a China é capaz” — para vender equipamentos de telecomunicação ao mercado rural. Em alguns anos, passou a desenvolver e produzir seus próprios produtos.

No início dos anos 1990, ganhou um contrato do governo para ser fornecedora do Exército. No ano seguinte, foi eleita “campeã nacional”, e pode se aproveitar de um mercado fechado à concorrência estrangeira, uma grande vantagem em uma época em que a China crescia em média 10% ao ano.

O presidente da Huawei fundou a empresa no final dos anos 1980
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Mas foi só quando a Huawei começou sua expansão internacional, em 2000, que as vendas dispararam. Em 2005, os contratos internacionais excederam os domésticos pela primeira vez. Hoje, atua em mais de 170 países.

Eleita neste ano pela consultoria britânica Brand Finance como a 12ª marca mais valiosa do mundo, a Huawei é a maior fornecedora global de equipamentos de rede de telecomunicações — detém 28,1% deste mercado no mundo, de acordo com a consultoria Dell’Oro Group, que monitora a indústria, bem acima do segundo lugar, a Nokia, que tem 15,7%. Também é a segunda maior fabricante de smartphones, atrás da Samsung.

A empresa anunciou uma receita de 610,8 bilhões de yuans (R$ 363,62 bilhões) nos primeiros nove meses deste ano, com uma margem de lucro de 8,7%. Esse valor representa um aumento de 25% em relação ao mesmo período do ano anterior. A companhia afirmou ainda ter fechado mais de 60 contratos comerciais de fornecimento de equipamentos para redes 5G — há alguns meses, falava em 50 contratos.

Mas, como não é uma companhia que tem ações negociadas em Bolsa, seus números não são auditados.

Preocupações com segurança

Apesar da Huawei ser uma empresa privada, seus vínculos com o Partido Comunista e o governo chinês levantaram suspeitas sobre a ascensão da empresa e sobre sua independência.

Na China, todas as empresas são obrigadas por lei a ter um comitê do partido — para garantir que os funcionários defendam os valores do país, diz a explicação oficial; seus críticos dizem que isso permite ao Estado controlar o mundo corporativo — e a maioria dos presidentes das companhias são filiados a ele.

A Lei de Inteligência Nacional, em vigor desde 2017 na China, determina que qualquer organização ou cidadão deve apoiar, ajudar e cooperar com o trabalho da inteligência do Estado.

Essas preocupações foram trazidas à tona em meio ao avanço do 5G. Como maior fornecedora de infraestrutura de telecom do mundo, a Huawei é uma das empresas melhor posicionadas para construir novas redes 5G.

Fontes do setor dizem que a empresa está um ano à frente de seus concorrentes em termos de conhecimento tecnológico e pode oferecer a clientes preços 10% mais baratos do que seus concorrentes, embora críticos afirmem que isso se deve ao apoio do Estado.

Além da Huawei, a ZTE está bem posicionada no mercado de equipamentos de rede, como a quinta maior companhia do setor. A China ainda tem duas das dez maiores operadoras do mundo.

“Nos últimos 20 anos, a China tornou-se um grande player do mercado de telecomunicação como parte do milagre econômico pelo qual o país passou. As empresas chinesas saíram do nada e aprenderam fazendo. Além disso, a China tem uma escala superior a de qualquer outro nesta indústria e se beneficia disso”, diz Hsieh Yuan, da Mazars.

Mas há o receio de que os vínculos de empresas chinesas com o governo signifiquem que elas sejam obrigadas a se submeter à vontade do Partido Comunista. Por isso é que existe tanta preocupação com a participação de empresas chinesas em projetos sensíveis de infraestrutura de telecomunicações globais.

“Quem cuida da infraestrutura detém parte do tráfego de comunicações e, teoricamente, há muitas formas de se ter acesso a isso, mas não há evidências do que alega o governo americano além do que ele próprio diz”, afirma Albertin, da FGV-SP.

A Huawei nega que esteja de alguma forma sob as ordens do governo chinês ou que Pequim dite de alguma forma seus planos e estratégias — principalmente no que se refere a espionagem. “Temos receitas de bilhões de dólares. Não vamos arriscar a repulsa do nosso país e de nossos clientes por causa de algo assim”, disse Ren.

‘Cortina de ferro digital’

O Departamento de Estado americano disse que a Huawei faz “puro teatro” ao se dizer independente do governo.

“Todas as empresas chinesas estão sob a influência e são obrigadas a cooperar com o governo. Não pode haver confiança quando uma empresa não tem como recorrer à Justiça para negar os avanços do seu governo. Assim, os riscos de segurança não podem ser mitigados”, afirmou o órgão.

Os Estados Unidos vem alertando parceiros de que conceder contratos à Huawei equivaleria a permitir que os chineses os espionassem. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse recentemente sobre a tecnologia da Huawei: “Se um país adotar e colocar (a tecnologia) em alguns de seus sistemas críticos de informação, não poderemos compartilhar informações com eles”.

De acordo com a Global Mobile Supliers Association, uma organização mantida por empresas da indústria, mais de 200 operadoras de 85 países já fazem investimentos em redes de 5G.

A posição dos Estados Unidos pode criar neste mercado o que analistas vêm chamando de “cortina de ferro digital”: uma divisão do mundo entre países que fazem negócios com empresas chinesas de telecomunicações e aqueles que não fazem.

Austrália, Nova Zelândia, Japão e Taiwan já tomaram medidas que bloqueiam o acesso da Huawei a seus mercados. Canadá e Reino Unido ainda avaliam qual será sua posição oficial sobre a questão, assim como países da União Europeia. Por sua vez, Rússia, Índia, Tailândia e Malásia aceitaram em maior ou menor medida a participação da companhia em suas redes.

Resta agora saber de que lado desta “nova cortina de ferro” o Brasil ficará.