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Eric Yuan, o bilionário criador do Zoom que viu fortuna se multiplicar durante pandemia

Eric Yuan entrou na lista de bilionários da Forbes, com uma fortuna estimada em US$ 7,8 bilhões.

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Algumas semanas atrás, você talvez não o conhecesse. Ou talvez ainda não saiba quem ele é. Mas é possível que, durante a quarentena imposta para combater a disseminação do novo coronavírus, você tenha conversado com seus amigos ou colegas de trabalho graças a uma ferramenta criada por ele, o Zoom.

Pela primeira vez , Eric Yuan, fundador da empresa de videoconferência Zoom, entrou na lista de bilionários da revista Forbes. Sua fortuna é estimada em US$ 7,8 bilhões de dólares (cerca de R$ 42,9 bilhões, na cotação atual).

Filho de engenheiros especializados em mineração, Yuan nasceu na província de Shandong, na China.

Depois de estudar engenharia, ele foi trabalhar no Japão por quatro anos antes de comprar uma passagem para os Estados Unidos.

Aparentemente inspirado por uma palestra de Bill Gates, fundador da Microsoft, o desafio de Yuan era chegar ao país mais rico do mundo para se aproveitar da onda de inovação tecnológica que florescia em meados da década de 1990 no Estado da Califórnia.

Mas as portas não estavam totalmente abertas para Yuan. Seu visto foi rejeitado oito vezes antes de finalmente conseguir permissão para morar e trabalhar no país.

Foi assim que, em 1997, Yuan, com 27 anos, iniciou uma nova vida no Vale do Silício.

Embora não falasse bem inglês, não demorou muito para encontrar um lugar onde pudesse desenvolver suas habilidades.

Começou a trabalhar como programador na empresa WebEx. Uma década depois, a companhia foi adquirida pela Cisco Systems, onde Yuan se tornou vice-presidente de engenharia.

Em 2011, o empresário apresentou aos executivos da Cisco seu projeto para criar um aplicativo de videoconferência que não funcionaria apenas em desktops e tablets, mas também em telefones celulares.

A ideia foi rejeitada e Yuan renunciou ao seu cargo na empresa para iniciar um próprio negócio: o Zoom.

Como ele teve a ideia?
“A primeira vez que imaginei Zoom foi quando eu era estudante universitário na China e regularmente pegava um trem de dez horas para visitar minha namorada, que agora é minha esposa”, disse Yuan em entrevista ao site Medium.

Eric Yuan en NasdaqDireito de imagemGETTY IMAGES
Yuan diz que teve a ideia do Zoom quando teve que viajar 10 horas de trem para visitar sua namorada

“Eu odiava essas viagens e costumava imaginar outras maneiras de visitar minha namorada sem ter que viajar”.

“Esses sonhos acabaram se tornando a base de Zoom”, disse o empresário.

O desafio de atrair investidores

Depois de se demitir da Cisco, Yuan partiu para a busca por investidores que acreditassem em seu projeto. Encontrou muita resistência, muitos achavam que esse setor estava saturado e não haveria espaço suficiente para outro concorrente.

Yuan teve que pedir dinheiro emprestado a amigos e familiares, de acordo com o jornal Financial Times.

“Se você inicia um negócio, o momento é muito importante”, disse ele ao jornal, explicando que a expansão de smartphones e tecnologias de armazenamento em nuvem criou as condições para que surgissem produtos como o Zoom.

Sua própria esposa não estava convencida que o negócio poderia vingar, disse Yuan à revista Forbes.

“Eu disse: ‘Sei que é uma jornada longa e muito difícil, mas se não tentar, vou me arrepender.'”

Foi assim que desenvolveu uma plataforma destinada a facilitar as reuniões de negócios de longa distância em um setor muito competitivo.

O salto durante a pandemia

A empresa começou a crescer até ser aberta ao mercado de ações em abril do ano passado, estreando com sucesso na bolsa digital Nasdaq.

Desde então, as ações da Zoom tiveram um dos melhores desempenhos na categoria de software em nuvem e conseguiram manter o preço inicial de US$ 62 (R$ 340, na cotação atual) por ação, mesmo quando o setor teve uma queda acentuada em setembro.

No final do ano, as coisas estavam indo bem para a empresa, mas o cenário mudou radicalmente quando o surto do novo coronavírus começou a se espalhar por todo o mundo.

Em meio à pandemia, os mercados financeiros afundaram, enquanto as ações da Zoom subiram quase 140% no acumulado deste ano.

Membros do governo britânicoDireito de imagemREUTERS
O governo britânico realizou reuniões usando o Zoom durante a quarentena

Em dezembro, a empresa tinha 10 milhões de usuários por dia; em março, já eram 200 milhões; agora, em abril, o Zoom já tem 300 milhões de usuários, segundo dados da própria empresa.

Estimativas de mercado mostram que a fortuna de Yuan teria aumentado mais de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 21,9 bilhões) em apenas três meses, como resultado das medidas de isolamento social e do aumento da demanda por comunicação remota.

‘Simples de usar’

Mas por que a Zoom superou outros concorrentes importantes, como o Microsoft Skype ou o Google Hangouts?

Especialistas do setor de tecnologia concordam que o crescimento do produto se deve ao fato de o serviço ser simples de usar e não exigir que o usuário se registre. Além disso, até 100 pessoas podem participar da mesma conferência — ele também é gratuito para chamadas de até 40 minutos.

Mas como se fosse uma faca de dois gumes, a mesma facilidade de usar o aplicativo expôs um problema gigantesco em termos de segurança e privacidade.

‘Sinto muito’

Assim como o Zoom deixou de ser exclusivamente uma ferramenta de negócios e se tornou uma ferramenta para todos os tipos de público, a empresa foi exposta a ataques e expôs sua vulnerabilidade.

A imprensa denunciou casos de hackers que invadiam videoconferências do Zoom com conteúdo ofensivo ou pornográfico — um fenômeno conhecido como “zoombombing”.

E ficou evidente que a gravação das reuniões também não era segura, pois outras pessoas podiam acessar o material sem autorização prévia.

Eric Yuan sorrindo em frente a painel da NasdaqDireito de imagemGETTY IMAGES
O Zoom tem que lidar com as falhas de segurança e privacidade que foram detectadas em seu serviço

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, encaminhou uma carta à empresa perguntando se a companhia havia implementado protocolos de segurança adicionais.

Parlamentares, ministros, diretores de empresas e clientes institucionais da Zoom começaram a fazer perguntas sobre a confiabilidade do serviço.

Yuan disse que o serviço foi projetado para as necessidades das empresas e não estava preparado para um grande fluxo de clientes.

Ele reconheceu que a companhia não havia atendido às expectativas de privacidade e de segurança.

“Sinto muito”, disse o empresário, em comunicado, ao anunciar a implementação de uma série de medidas para solucionar o problema.

Podemos falar sobre questões sensíveis no Zoom?

Graham Cluley, consultor britânico de segurança cibernética, disse à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, que nas últimas semanas houve um intenso escrutínio da empresa.

“Um grande número de pesquisadores de segurança examinou seu código”, explica Cluley.

“Alguns desses pesquisadores encontraram falhas de segurança preocupantes.”

No entanto, acrescenta, a empresa respondeu lançando atualizações de software e outras medidas de segurança.

“O Zoom ainda pode não ser a plataforma ideal para políticos de alto escalão discutirem questões delicadas, mas para a grande maioria das pessoas, não é uma má escolha”, diz Cluley.

Nas últimas semanas, empresas concorrentes começaram a implementar estratégias para ganhar mais espaço no mercado.

Há alguns dias, o Facebook anunciou o lançamento do Messenger Rooms, um serviço que permitirá reuniões virtuais de até 50 pessoas sem limite de tempo.

O que não se sabe é se o sucesso do Zoom permitirá manter ou aumentar sua base de clientes comerciais, se as estratégias implementadas pelos concorrentes darão certo e em que medida a demanda por esse tipo de serviço diminuirá depois que a pandemia for controlada e as pessoas voltarem aos seus locais originais de trabalho.

Coronavírus: Huawei pede que o Reino Unido não pare o desenvolvimento 5G após pandemia

A empresa chinesa de telecomunicações Huawei disse que interromper seu envolvimento na implantação do 5G faria a Grã-Bretanha “um desserviço”.

Em janeiro, o governo do Reino Unido aprovou um papel limitado para a Huawei na construção das novas redes de dados do país.

Mas em março, uma rebelião no interior do Partido Conservador sinalizou esforços para reverter a ação.

Em uma carta aberta, a empresa também disse que estava focada em manter o Reino Unido conectado durante a crise do Covid-19.

Mas a pandemia pode aumentar a pressão sobre o governo para adotar uma linha mais dura da empresa.

‘Faixa lenta’
Na carta, o chefe da Huawei no Reino Unido, Victor Zhang, diz que o uso de dados domésticos aumentou em pelo menos 50% desde que o vírus chegou ao país, colocando “pressão significativa” nos sistemas de telecomunicações.

A Huawei diz que está trabalhando com parceiros como BT, Vodafone e EE para lidar com o crescimento e também criou três novos armazéns em todo o país para garantir que as peças de reposição permaneçam em estoque.

Zhang também disse que a atual crise destacou quantas pessoas, especialmente nas comunidades rurais, estão “presas em uma pista lenta digital”. E ele alerta que excluir a Huawei de uma futura função no 5G seria um erro.

“Há quem opte por continuar nos atacando sem apresentar nenhuma evidência”, escreve ele.

“A interrupção do nosso envolvimento na implantação do 5G faria um desserviço à Grã-Bretanha.”

O governo proibiu a Huawei das partes mais sensíveis das redes móveis do Reino Unido e a limitou a 35% da periferia, que inclui suas torres de rádio. Mas os críticos argumentam que é um risco à segurança permitir que a empresa chinesa desempenhe algum papel devido aos temores de que ela possa ser usada por Pequim para espionar ou mesmo sabotar as comunicações.

No início de março, 38 parlamentares conservadores se rebelaram sobre o assunto, um número maior que o esperado. Isso aponta para um possível transtorno quando o Projeto de Infraestrutura de Telecomunicações for apresentado ao Parlamento, que está planejado para acontecer no final do ano.

A crise do coronavírus destaca a tensão entre questões econômicas e de segurança nacional que torna o assunto tão controverso.

De um lado, a necessidade de maior conectividade para impulsionar o crescimento econômico. Os defensores do papel da Huawei argumentam que excluí-la reduziria a velocidade e aumentaria o custo de fornecer redes mais rápidas e confiáveis.

Por outro lado, a raiva é dirigida à China de alguns quadrantes por causa do mau uso percebido do surto inicial do Covid-19, bem como pelas preocupações mais amplas com a crescente dependência de suas tecnologias e empresas.

Ministros e altos funcionários sem nome foram citados recentemente como tendo dito que teria que haver um “acerto de contas” quando a crise atual acabar.

Parte disso pode envolver uma reversão da decisão de janeiro – uma preocupação que pode explicar a decisão de escrever a carta.

Em 4 de abril, um grupo de 15 parlamentares conservadores pediu repensar as relações com a China em sua própria carta ao primeiro-ministro, escrita um dia antes de ser internado no hospital.

“Com o tempo, nos permitimos crescer dependentes da China e não conseguimos uma visão estratégica das necessidades econômicas, técnicas e de segurança da Grã-Bretanha”, escreveu o grupo. Entre os signatários estavam Iain Duncan Smith, David Davis e Bob Seely.

Entende-se que a Huawei esperou até o primeiro-ministro sair do hospital antes de divulgar sua carta.

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Saiba como descobrir se estão espionando seu celular

Stalkerware hackeo movil
Grupo de pessoas usa smartphone em Berlim, em 12 de agosto passado. ANNEGRET HILSE REUTERS

A tentação é forte: seu companheiro esquece o celular sobre a mesa, e você morre de vontade de xeretar o WhatsApp, as ligações recebidas e os sites que ele visitou, sobretudo se tem dúvidas sobre a fidelidade. Esse desejo não é novo, mas, em vez de pegar o telefone da vítima e navegar no conteúdo, agora existem ferramentas que fazem esse trabalho sujo sem o conhecimento (nem o consentimento) dela. É o chamado stalkerware (algo assim como “vírus do assediador”), e a má notícia é que qualquer um pode ser espionado sem ter consciência disso. Como detectar se o seu celular foi afetado por esse programa?

“Ao contrário dos aplicativos de controle parental, estes não são visíveis no celular da vítima”

Antes de analisar as chaves para detectar esse espião no smartphone, é bom conhecer como o stalkerware funciona. Esses aplicativos operam de forma muito similar à do malware (código malicioso): uma vez instalados no aparelho da vítima, começam a registrar todo tipo de atividade que for enviada posteriormente a um servidor ao qual o espião tenha acesso. Mas a técnica não é exatamente igual. “Ao contrário do malware, que é instalado de forma maciça, esse software é instalado por alguém que tem acesso ao celular”, disse ao EL PAÍS Fernando Suárez, vice-presidente do Conselho Geral de Associações de Engenharia Informática da Espanha. Ele cita também outra importante peculiaridade desse tipo de programa: “Ao contrário dos aplicativos de controle parental, esses não são visíveis no celular da vítima.” Mas… como saber se o aparelho está sendo espionado por um stalkerware?

Pop-Ups inesperados aparecem no navegador

Segundo o The Kim Komando Show, programa de rádio dos Estados Unidos sobre tecnologia, uma maneira de descobrir se o celular foi vítima dessa espionagem é através da súbita aparição de janelas emergentes (Pop-Ups) no navegador. Trata-se de comportamentos fora do normal que não devem ser minimizados pela vítima. Do mesmo modo, um súbito aumento de spam no e-mail e na recepção de mensagens de texto de desconhecidos, com excessiva frequência, devem ser motivos de preocupação.

O celular sumiu temporariamente?

Se o seu smartphone desapareceu por um tempo antes de ter um comportamento estranho (por exemplo, se você o deixou no quarto e ele apareceu na sala horas depois), então pode ser que alguém tenha instalado o programa espião nele.

A bateria de repente dura muito menos

Um celular com stalkerware trabalha muito mais que os outros – e essa atividade tem um impacto sobre a duração da bateria. Se você detectar uma súbita queda no rendimento, acompanhada das situações descritas acima, pode suspeitar e tomar as medidas necessárias.

O celular esquenta constantemente

Além do maior consumo da bateria, os aparelhos afetados pelo programa espião precisam desempenhar muito mais tarefas – o que gera um aumento da temperatura.

Instalar apps fora das lojas oficiais

Não se trata de um sintoma em si. Mas se você perceber algum desses comportamentos atípicos após ter instalado um aplicativo fora das lojas oficiais (App Store e Google Play), a chance de que o celular tenha sido infectado é muito maior. Tanto a Apple como o Google levam muito a sério a segurança de suas plataformas, e por isso é extremamente recomendável instalar apps das lojas oficiais. A boa notícia para os donos do iPhone é que esse dispositivo dificilmente se torna vulnerável aos ataques, já que a Apple obriga os usuários a instalar todos os apps através da loja. Já o Android é mais suscetível, pois as pessoas podem instalar os aplicativos sem o controle do Google.

O que fazer se você tem suspeitas?

O mais recomendável é restaurar o aparelho para padrão de fábrica. Além disso, convém instalar um software que possa detectar os invasores. “Em 2018, identificamos mais de 26.000 aplicativos de stalkerware”, afirma Daniel Creus, da Kaspersky Security, dando uma dimensão real do problema. Esta empresa modificou recentemente seus apps de segurança em celulares para enfrentar o fenômeno.
ElPais

Ciência,Redes Sociais,Telecomunicações,Tecnologia,Comportamento,Tecnologia

Uma semana com o Punkt, o ‘anticelular’

Ciência,Redes Sociais,Telecomunicações,Tecnologia,Comportamento,Tecnologia
Imagem em que a companhia anuncia que se esgotaram as unidades do telefone. PUNKT

A ideia era tentadora: experimentar um celular de alta tecnologia que não tivesse Internet — e, portanto, nem redes sociais nem WhatsApp. Um celular como os de antigamente, daqueles que só fazem e recebem ligações. Do jeito que somos bombardeados por notificações, transformar-se em uma espécie de eremita 2.0, ainda que temporariamente, é um desafio que parece muito difícil recusar. A fabricante suíça Punkt trouxe em 2017 para o mercado essa ideia maluca de um celular que ajudasse as pessoas a se desconectar, e agora lançou sua segunda versão, MP 02, que por enquanto está com o aviso de “estoque esgotado” em sua loja online.

É um celular marcante, e isso se nota assim que é retirado da caixa: é como voltar para 1999, quando a gente inseria o SIM em um Nokia 3210 de tela monocromática. E realmente não há grandes diferenças no primeiro impacto: o Punkt oferece a mesma estrutura, com teclado numérico e tela de uma só cor, sem nenhuma concessão para entretenimento ou distrações, porque é disso que se trata. O próprio nome, Punkt, significa “ponto” em alemão — um ponto final nas distrações e a volta a um novo mundo em que a única notificação no celular é a dos telefonemas e mensagens SMS.

Uma desconexão ‘premium’

A segunda geração do Punkt revive a sensação de ter um aparelho que, apesar de suas funcionalidades espartanas, é de alta tecnologia: bem acabado e com um encaixe na mão que já tínhamos esquecido. Como não tem uma tela dedicada ao entretenimento, o Punkt pode ser segurado facilmente e cabe em qualquer bolso. O fato de ser tão austero em benefícios tem uma segunda vantagem, mais interessante: sua bateria dura, teoricamente, 12 dias com uma só carga. Mas sempre há algo que nos lembra de que estamos em 2019: a fabricante alerta para a existência de uma atualização importante do firmware do dispositivo, que chega sem fio (OTA) quando ele se conecta a uma rede WiFi. A porta USB-C também mostra que o aparelho está muito à frente daquele mítico Nokia.

Uma semana com o Punkt, o ‘anticelular’

Mas a provocação chega em forma de vertigem no primeiro dia de uma semana não apta para os mais engajados nas redes sociais e no WhatsApp. Quando retiramos o SIM do smartphone e o inserimos neste ousado dispositivo, foi como apagar a luz em um teatro: o silêncio absoluto e a certeza de estar condenado a uma angustiante ou agradável (dependendo do ponto de vista) desconexão. “O mundo de hoje é dominado pela tecnologia e estamos excessivamente distraídos com ela”, afirma o fundador da Punkt, Petter Neby, que destaca o espírito do dispositivo: recuperar o tempo que perdemos por culpa da evolução da tecnologia. E será que podemos alcançar essa desconexão sem “morrer” digitalmente? Porque desaparecer do mundo virtual é simples: basta jogar o smartphone no lixo e reviver algum Nokia antigo que acumula pó em uma gaveta.

Mas não é isso o que a Punkt propõe. A empresa inverte essa abordagem, e é aqui que o assunto fica realmente interessante: se quisermos acessar a Internete ficar conectados de novo, o MP 02 permite, mas para isso devemos usar um segundo dispositivo (PC ou tablet), ao qual ele dará conexão à rede. Sim, o Punkt serve como hot spot 4G que nos dará acesso à Internet a partir do dispositivo portátil se realmente precisarmos, como por exemplo em um aeroporto ou em uma escapada de fim de semana. O Punkt é, na verdade, um celular Android que usa a plataforma segura do BlackBerry, que garante que nossos dados fiquem fora do alcance dos hackers.

Um Android com BlackBerry, conexão 4G e dirigido a um segmento premium… Sim, o Punkt não é exatamente barato se o medirmos nos termos de um celular não inteligente: 379 euros (1.659 reais) pelo aparelho que permite uma desconexão de luxo.

Estar desconectado dá a sensação de estar sempre perdendo algo e de que os entes queridos estão em uma situação de risco enquanto passeamos no parque sem mais distrações do que o canto dos pássaros. Trata-se do temido FOMO (Fear of Missing Out), o medo de estar perdendo algo, um distúrbio do qual, infelizmente, quase ninguém escapa.

Uma semana com o Punkt, o ‘anticelular’

Ao conectar o celular ao laptop, foram chegando as mensagens e os alertas de todos os tipos, e sim, nada era realmente importante, pelo menos não o suficiente para ficar com o coração na mão olhando a tela o a todo momento. Ao fechar o laptop, a calma e o silêncio retornam. De repente, percebemos que temos mais tempo para tudo e descobrimos a grande armadilha na qual caímos com tanto prazer: não precisamos realmente nem do Instagram, nem do correio eletrônico, nem do WhatsApp, pelo menos não 24 horas por dia nem em nossos bolsos. Se algo for urgente, vão nos telefonar.

Os dias passaram e a curiosidade inicial do teste se transformou em tédio: certo, não há nenhum problema em se desconectar, mas como é bom receber aquele WhatsApp dos amigos ou passar alguns minutos olhando fotos no Instagram. O Punkt é muito bom como segundo celular ou como dispositivo de luxo. Qual o privilégio maior que não ter que depender do WhatsApp? O aparelho é top e também pode ser um símbolo de status. Mas a experiência fica nisso, uma aventura, e voltar a estar conectado foi simplesmente delicioso. Punkto e vírgula.
JOSÉ MENDIOLA ZURIARRAIN

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“Os celulares espiam e transmitem nossas conversas, mesmo desligados”

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Richard Stallman é uma lenda: criou o primeiro sistema operacional aberto e impulsionou o ‘copyleft’. Acha que os telefones inteligentes nos fizeram regredir dez anos em termos de privacidade

Ele nos encontra no apartamento de amigos em Madri. O pai do software livre é um viajante empedernido: difunde os princípios de seu movimento onde o chamam. Dias antes da entrevista, Richard Stallman (Nova York, 1953) participou do Fórum da Cultura de Burgos e retomará sua turnê europeia após dar uma conferência em Valencia. Ele nos recebe com sua característica cabeleira despenteada e com uma de suas brincadeiras de praxe: “Té quiero”, diz em seu espanhol fluente com sotaque gringo, lançando um olhar a sua fumegante xícara de chá quando detecta uma cara de desconcerto no interlocutor. “Ahora té quiero más”, nos dirá quando for buscar mais bebida. (A brincadeira é um jogo de palavras entre a expressão ‘Te quiero’ – te amo em espanhol – e a palavra Té – chá).

“Os celulares espiam e transmitem nossas conversas, mesmo desligados” Como saber quais aplicativos têm acesso aos seus dados no Facebook, como fez a Cambridge Analytica
Seu peculiar senso de humor, que cultiva nos seis ou sete idiomas que domina, traz muita naturalidade ao encontro. Parece como se ele mesmo quisesse descer do pedestal em que a comunidade de programadores o colocou. Para esse coletivo, é uma lenda viva. Stallman é o pai do projeto GNU, em que está o primeiro sistema operacional livre, que surgiu em 1983. Desde os anos noventa funciona com outro componente, o Kernel Linux, de modo que foi rebatizado como GNU-Linux. “Muitos, erroneamente, chamam o sistema somente de Linux…”, se queixa Stallman. Sua rivalidade com o finlandês Linus Torvalds, fundador do Linus, é conhecida: o acusa de ter levado o mérito de sua criação conjunta, nada mais nada menos do que um sistema operacional muito competitivo cujo código fluente pode ser utilizado, modificado e redistribuído livremente por qualquer pessoa e cujo desenvolvimento teve a contribuição de milhares de programadores de todo o mundo.

A verdade é que o revolucionário movimento do software livre foi iniciado por Stallman. O programador, que estudou Física em Harvard e se doutorou no MIT, bem cedo foi apanhado pela cultura hacker, cujo desenvolvimento coincidiu com seus anos de juventude. O software livre e o conceito de copyleft (em contraposição ao copyright) também não seriam os mesmo sem esse senhor risonho de visual hippie.

Ataque à privacidade
Seu semblante muda à mais severa seriedade quando fala de como o software privado, o que não é livre, se choca com os direitos das pessoas. Esse assunto, a falta absoluta de privacidade na era digital, o deixa obcecado. Não tem celular, aceita que tiremos fotos somente depois de prometer a ele que não iremos colocá-las no Facebook e afirma que sempre paga em dinheiro. “Não gosto que rastreiem meus movimentos”, frisa. “A China é o exemplo mais visível de controle tecnológico, mas não o único. No Reino Unido, há mais de dez anos acompanham os movimentos dos carros com câmeras que reconhecem as placas. Isso é horrível, tirânico!”.

O software livre é sua contribuição como programador à luta pela integridade das pessoas. “Ou os usuários têm o controle do programa, ou o programa tem o controle dos usuários. O programa se transforma em um instrumento de dominação”, afirma.

Ele se deu conta dessa dicotomia quando a informática ainda estava engatinhando. “Em 1983 decidi que queria poder usar computadores em liberdade, mas era impossível porque todos os sistemas operacionais da época eram privados. Como mudar isso? Só me restou uma solução: escrever um sistema operacional alternativo e torná-lo livre”. Foi assim que começou o GNU. Mais de três décadas depois, a Free Software Foundation, que ele mesmo fundou, tem dezenas de milhares de programas livres em catálogo.

“Conseguimos liberar computadores pessoais, servidores, supercomputadores…, mas não podemos liberar completamente a informática dos celulares: a maioria dos modelos não permite a instalação de um sistema livre. E isso é muito triste, é uma clara mudança para pior nos últimos dez anos”, diz Stallman.

“Os celulares são o sonho de Stalin, porque emitem a cada dois ou três minutos um sinal de localização para seguir os movimentos do telefone”, diz. O motivo de incluir essa função, afirma, foi inocente: era necessário para dirigir ligações e chamadas aos dispositivos. Mas tem o efeito perverso de que também permite o acompanhamento dos movimentos do portador. “E, ainda pior, um dos processadores dos telefones tem uma porta traseira universal. Ou seja, podem enviar mudanças de software à distância, mesmo que no outro processador você use somente programas de software livre. Um dos usos principais é transformá-los em dispositivos de escuta, que não desligam nunca porque os celulares não têm interruptor”, afirma.

Nos deixamos observar
Os celulares são somente uma parte do esquema. Stallman se preocupa pelo fato de os aparelhos conectados enviarem às empresas privadas cada vez mais dados sobre nós. “Criam históricos de navegação, de comunicação… Existe até um aplicativo sexual que se comunica com outros usuários através da Internet. Isso serve para espiar e criar históricos, claro. Porque além disso tem um termômetro. O que um termômetro dá a quem tem o aplicativo? Para ele, nada; para o fabricante, saber quando está em contato com um corpo humano. Essas coisas são intoleráveis”, se queixa.

Os grandes produtores de aparelhos eletrônicos não só apostam maciçamente no software privativo: alguns estão começando a evitar frontalmente o software livre. “A Apple acabou de começar a fabricar computadores que barram a instalação do sistema GNU-Linux. Não sabemos por que, mas estão fazendo. Hoje em dia, a Apple é mais injusta do que a Microsoft. As duas são, mas a Apple leva o troféu”, afirma.

O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) europeu é uma resposta acertada a essa situação? “É um passo no caminho certo, mas não é suficiente. Parece muito fácil justificar o acúmulo de dados. Os limites deveriam ser bem rígidos. Se é possível transportar passageiros sem identificá-los, como fazem os táxis, então deveria ser ilegal identificá-los, como faz o Uber. Outra falha do RGPD é que não se aplica aos sistemas de segurança. O que precisamos é nos proteger das práticas tirânicas do Estado, que coloca muitos sistemas de monitoramento das pessoas”.

O escândalo do Facebook e a Cambridge Analytica não o surpreendeu. “Sempre disse que o Facebook e seus dois tentáculos, o Instagram e o WhatsApp, são um monstro de seguir as pessoas. O Facebook não tem usuário, tem usados. É preciso fugir deles”, finaliza.

Não podemos aceitar, diz Stallman, que outros tenham informações sensíveis sobre como vivemos nossa vida. “Existem dados que devem ser compartilhados: por exemplo, onde você mora e quem paga a luz de um apartamento para resolver os pagamentos. Mas ninguém precisa saber o que você faz no seu dia a dia. Muito menos os produtos que você compra, desde que sejam legais. Os dados realmente perigosos são quem vai aonde, quem se comunica com quem e o que cada um faz durante o dia”, frisa. “Se os fornecermos, eles terão tudo”.
El País

“Os dados que você entrega acabarão por estrangulá-lo no sistema”

Ranga Yogeshwar durante a conferência que ofereceu em Berlim, em 2 de maio, dentro do festival Re:publica

Ranga Yogeshwar durante a conferência que ofereceu em Berlim, em 2 de maio, dentro do festival Re:publica BRITTA PEDERSEN DPA

Ranga Yogeshwar, conhecido divulgador na Alemanha, alerta para a falta de controle político e moral sobre muitas inovações da era digital 

Ranga Yogeshwar (Luxemburgo, 1959) é uma espécie de canário na mina, capaz de analisar e alertar para os desafios que as inovações nos proporcionam. Ele pensa que, no campo da inteligência artificial, inovamos sem sermos capazes de compreender os sistemas que criamos e as consequências que eles podem ter.

Yogeshwar recebe o EL PAÍS em sua casa na pequena localidade de Lanzenbach, perto de Colônia, em pleno campo. Mas o habitáculo vital deste físico divulgador, muito conhecido na Alemanha, é o mundo. Percorre-o proferindo conferências e conhecendo em primeira mão as inovações que regerão o futuro e nos mudarão como sociedade. Políticos e empresários alemães e de meio mundo o procuram para que lhes conte para onde vamos. Ele dá sua resposta no livro Nächste Ausfahrt Zukunft (“próxima saída: futuro”, inédito no Brasil), onde alerta para o mau uso dos dados e que podemos acabar sendo escravos da digitalização do nosso comportamento. Mas Yogeshwar não pertence ao clube dos agoureiros, nem propõe nenhuma volta ao passado. Ele crê que a política pode e deve moldar uma inovação, a qual não convém que seja deixada nas mãos só de engenheiros e investidores. “Ao final será bom, porque nos faremos as perguntas fundamentais e encontraremos respostas melhores das que tínhamos encontrado até agora.”

Pergunta. Como a inovação está nos mudando?

Resposta. Há coisas essenciais que permanecerão. Não queremos viver em um estado de medo permanente, nem morrer de fome, mas é preciso ver como a comunicação nos mudou, por exemplo, o que acontece agora nas famílias. Quando eu era jovem e saía de viagem, era um tempo de separação dos meus pais, de crescer, mas agora quando os filhos vão viajar estão conectados o tempo todo com sua família. Como isso vai influir na sua personalidade? Ou as câmaras de eco – se você se cercar o tempo todo de gente que pensa como você, fecha-se numa bolha, e isso também modela a personalidade. Pergunto-me se acabaremos numa sociedade muito diferente, que não se parece em nada com a ideia de sociedade coesa que tínhamos até agora, e sim que sejam ilhas com algumas regras elementares para nos relacionar.

P. A filosofia dedicou muito tempo a analisar a diferença entre os humanos e os animais. Das máquinas inteligentes, em que nos diferenciaremos?

Nossa relação com o progresso é como as crianças no Natal: abrem os pacotes e tentam fazer o brinquedo funcionar

R. O desenvolvimento da inteligência artificial força a repensar o que somos e o que nos faz humanos. Nós podemos perdoar; nós adoramos as exceções. Ou seja, aspiramos a tratar todo mundo por igual, mas, se for seu amigo, você faz algo de especial por ele. Às vezes é irracional. A gente fuma, embora não faça sentido; as máquinas não fazem isso. Pode ser que graças à inovação acabemos revendo coisas essenciais, como focar na produtividade e no rendimento econômico; talvez haja transformações das quais atualmente nem sequer estejamos conscientes. Pode ser, por exemplo, que estejamos indo para uma era pós-textual, em que contemos e escutemos histórias em lugar de ler e escrever, que é um processo muito complexo. Hoje em dia você já não lê as instruções de um aparelho, vê um tutorial. Talvez nossa inteligência possa diminuir, por causa do crescimento das máquinas.

P. Não parece um futuro muito promissor.

R. Eu sou otimista. Vemos, por exemplo, que começamos a querer passar um tempo desconectados, o que os britânicos chamam de digital detox[desintoxicação digital]. No final, aprenderemos como utilizar bem a inovação. Nossa relação com o progresso, para mim, é como as crianças no Natal: abrem os pacotes e tentam fazer o brinquedo funcionar. Quando não conseguem, aí olham as instruções. Queremos ir muito rápido, mas agora pouco a pouco estamos começando a estudar as instruções da revolução digital. Os conquistadores chegaram à América, apropriaram-se do lugar e mataram os indígenas, e essa é a mesma mentalidade caubói que vemos na era digital. Google e Facebook são os conquistadores que se apoderam dos conteúdos, mas estamos entrando numa fase em que começamos a civilizar esses conteúdos, e acredito firmemente que seremos capazes de fazê-lo. Estabeleceremos regras, entenderemos tendências e, talvez, nos próximos anos, percebamos que será preciso dividir os googles e as amazons, por serem grandes demais. Estabeleceremos regras pelas quais não utilizaremos tecnologias que não entendamos completamente, porque haverá reações contrárias. A história nos demonstra que sempre há um processo de civilização. No final será bom, porque nos faremos as perguntas fundamentais e encontraremos respostas melhores do que as encontradas até agora.

Afinal aprenderemos a usar bem a inovação

P. Você explica que nosso futuro não é linear, que não há uma continuidade a partir do passado, que há rupturas. Que consequências tem esse tipo de progresso?

R. A velocidade é uma nova qualidade. A eletricidade, por exemplo, introduziu-se pouco a pouco, ou o telefone, que demorou 75 anos para chegar a 100 milhões de usuários. Antes havia tempo de se adaptar; era um processo orgânico. Às vezes, levava-se inclusive uma ou duas gerações, o que significava que não era uma intrusão em sua vida pessoal, porque era a próxima geração que tinha que administrar. Agora, se olharmos o Facebook e outras redes sociais, ou os smartphones, em apenas 11 anos, todo mundo tem um. Quer dizer, as coisas acontecem de maneira tão rápida que não há tempo para se adaptar de um jeito civilizado. As inovações são implantadas e, de repente, percebemos que necessitamos de leis. Começamos a regular a privacidade, mas é um processo muito lento comparado com a velocidade da inovação. Na inteligência artificial surgem inúmeros dilemas éticos.

P. Como podem conviver os algoritmos e a ética?

R. É um tema que estará muito presente, mas não se pode tratar de uma forma tradicional, porque a ética é mutável. Há 50 anos, por exemplo, aceitava-se que batêssemos nos filhos, mas mudamos. Precisamos trabalhar com uma ética que leve em conta como a tecnologia vai nos mudar. Por exemplo, nosso conceito de privacidade não será o mesmo dentro de alguns anos. É uma situação muito dinâmica e, como não podemos antecipar as mudanças, talvez seja preciso desenhar um processo ético que continuamente questione e adapte as coisas.

P. É possível impedir que a moral e a lei estejam sempre correndo atrás?

R. Necessitamos de uma cultura em que o progresso seja o resultado de um processo de reflexão da sociedade, e não o resultado exclusivo da engenharia e dos investidores. Queremos ter máquinas que tomem decisões cruciais? E se as tivermos, qual deve ser o grau de transparência das decisões? Refiro-me, por exemplo, ao viés dos dados fornecidos aos sistemas, porque o problema é que ninguém compreende realmente como funcionam. Não sabemos o que acontece nas camadas mais profundas e, portanto, desconhecemos se as decisões adequadas são adotadas. Por exemplo, o Google começou a etiquetar fotos, mas, de repente, as pessoas negras apareciam etiquetadas como gorilas, porque os dados que tinham introduzido no sistema estavam enviesados, pois provavelmente não tinham fornecido suficientes imagens de pessoas negras. Em alguns aplicativos não tem problema que haja erros, mas nos que estão intimamente ligados à nossa democracia isso não é uma opção. Não se pode prender alguém sem lhe informar exatamente o porquê, não quero ser detido porque um algoritmo mandou. Afinal, reduz-se à questão de optarmos pela correlação ou pela causalidade, que é a base da nossa democracia.

P. A que se refere?

R. Estabelecemos e comercializamos sistemas apesar de que não os compreendemos. Não sabemos se são estáveis ou enviesados. Tudo anda muito rápido. Estive numa conferência com diretores de recursos humanos e me contaram que utilizavam inteligência artificial para as entrevistas de emprego. Têm um sistema que analisa quais os candidatos usam, a fim de definir um perfil. Se um candidato utilizar certas palavras, concluem que é um sujeito otimista e proativo, ou ao contrário. Nos Estados Unidos, por exemplo, o sistema Compas prediz através de algoritmos se um preso irá cometer um novo crime. O que aconteceu foi que encontraram um viés importante para os detentos negros, porque tinham inserido dados enviesados. Não me cansarei de dizer: os dados são um problema.

Robôs fora do armário

Yogeshwar para de falar e mostra no computador de seu escritório uma invenção que dá uma ideia de como o processamento de voz está avançado. Uma máquina pede hora na barbearia fazendo-se passar por uma pessoa, e é capaz de manter uma conversa, respondendo às perguntas da atendente. “É imoral. Você não pode ter máquinas que se fazem passar por humanos. Falta uma reflexão ética. Os robôs do futuro têm que sair do armário e dizer: ‘Olá, sou um assistente de inteligência artificial’.”

P. Você fala de velocidade e de complexidade. Muita gente se sente alienada e rechaça um progresso que não compreende. Há um movimento reacionário.

R. É preciso se perguntar qual é o nosso objetivo. Ter uma sociedade digitalizada que nos torne a vida mais fácil? Ou sermos mais felizes? Porque, se quisermos isso, pode ser que não haja muita relação, pois pouco a pouco o ser humano entra na categoria das máquinas. Podemos acabar submetidos à ditadura do comportamento. Ou seja, seu celular, por exemplo, controla o exercício que você faz. Já há seguradoras que pedem seus dados para calcular sua apólice. Dentro de cinco anos veremos um sujeito correndo por um parque e lhe perguntaremos se gosta de sair para correr, e responderá que não, mas que precisa fazer isso para que fique refletido nos seus dados. A liberdade prometida pode terminar justamente no contrário, numa ditadura do seu comportamento. A liberdade de se comportar como quiser, de tomar uma taça de vinho à noite, de fumar um charuto, vai desaparecer, porque todos os dados que você entrega acabarão estrangulando-o num sistema. Começa com os seguros médicos e rapidamente se estende a muitas outras áreas. E isso gera certo sentimento de desconfiança com o futuro, é a segunda fase da era digital.

P. Você também se preocupa com a evolução dos meios de comunicação.

R. Os pilares da democracia são os meios de comunicação, o lugar onde [a democracia] entra em ação, e os meios de comunicação se tornaram populistas, porque se regem pelos cliques, pela audiência medida com algoritmos que amplificam resultados. Agora a briga está na atenção, não nas ideias. Num período de tempo muito curto, vimos uma mudança na imprensa que desconcerta muita gente. Vemos muitas mudanças em pouquíssimo tempo, e isso nos leva a perguntar aonde nos dirigimos, quem está controlando a mudança, se é que alguém a está controlando. Para muitas pessoas, a resposta é que a mudança administra a si mesma, e sentem que eles não têm nada a contribuir. As elites não são capazes de comunicar a essência das mudanças, as pessoas sentem que vivem numa democracia da qual não podem participar. Por isso, mesmo que as pessoas gostem, sentem certo desassossego e medo por causa da transformação, que afeta também os seus negócios. Porque talvez trabalharam muitos anos para chegar a uma posição, e de repente isso não vale nada. Desconfiam da inovação e se entregam ao populismo. E culpam os estrangeiros, pensam que a solução é trancar-se como se viesse um furacão, que na realidade é a inovação. É puro medo.

P. A política pode fazer algo?

R. A política pode fazer muito, mas infelizmente a europeia e alemã têm feito muito pouco. A maioria dos políticos não entende o que está acontecendo, são literalmente ignorantes. Eu lhes explico, por exemplo, que a fisionomia das cidades vai mudar devido ao monopólio da Amazon, e que as livrarias desaparecerão, e é algo em que nem pensaram. Há uma enorme ignorância sobre a mudança mais crucial que está acontecendo.

P. E a indústria?

R. Vive apaixonada por seu passado e não pensa no futuro. Nos Estados Unidos, 70% das empresas têm um diretor de transformação digital, que estuda como a empresa vai mudar com a digitalização, ou se vai continuar existindo. Na Alemanha, não chega a 20%. As empresas estrangeiras vêm e levam os jovens com mais talento. Se olharmos para os EUA e a China, percebemos que a Europa vai morrer no processo da inovação de inteligência artificial. Por que nada nasce na Europa, com raras exceções? Cedemos nossos dados aos EUA, e desde Snowden sabemos que nos tratam de maneira diferente. A Internet, a Carta Magna da era digital, foi criada para ser usada por todo mundo, e agora a única coisa que vemos é negócio.

P. Que mudanças geopolíticas a inovação trará?

R. Se analisarmos de onde virão os cientistas em 2030, vemos que 37% serão da China, e 1,4% da Alemanha. Deixemos de acreditar que os chineses são estúpidos. São muito inovadores e têm ambição.
ElPais

Guerra Híbrida: Qual o verdadeiro peso das notícias falsas?

Estima-se que, durante as eleições americanas, informações mentirosas tiveram mais de 8 milhões de compartilhamentos no Facebook.Tecnologia,Computadores,Blog do Mesquita

Especialista afirma que fenômeno pode, sim, influenciar a opinião pública.

Desde a surpreendente vitória de Donald Trump nas eleições para a Casa Branca, a atenção da mídia se voltou para o fenômeno das notícias falsas, numa tentativa de entender o seu impacto no processo eleitoral americano.

No Facebook, entre agosto e 8 de novembro, data da eleição americana, as “fake news” ganharam mais atenção do que os sites de notícias convencionais, de acordo com o editor-fundador da empresa de notícias digitais Buzzfeed, Craig Silverman.

Foram “notícias” como “papa declara apoio a Trump” ou “agente do FBI que expôs e-mails de Hillary é encontrado morto”. Textos com correções também circularam, mas nada comparado às dezenas de milhares de vezes em que as mentiras foram compartilhadas – muitas vezes inadvertidamente – nas redes sociais.

Segundo Silverman, que cita dados coletados do Facebook, as notícias falsas tiveram 8,7 milhões de compartilhamentos na rede social, reações e comentários, enquanto as notícias convencionais obtiveram 7,3 milhões.

Na ânsia de se detectar as influências da polarizada eleição americana, rapidamente, surgiram na rede social e nos sites de notícias acusações afirmando que as “fake news” teriam sido usadas para enganar deliberadamente o eleitorado. Isso levou o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, a anunciar novas medidas para combater o fenômeno.

“Após as eleições, muitas pessoas estão se perguntando se as notícias falsas contribuíram para o resultado e qual seria a nossa responsabilidade em impedir elas se espalhem. Essas são questões muito importantes e eu me importo profundamente em corrigi-las”, postou Zuckerberg.

O fundador do Facebook afirmou que “mais de 99% do que as pessoas veem é autêntico”, referindo-se aos feeds de notícias dos usuários da rede social.

“Dito isso, não queremos nenhuma fraude no Facebook. Nosso objetivo é mostrar às pessoas o conteúdo que elas vão achar mais significativo, e os usuários querem notícias precisas. Já começamos a trabalhar para que a nossa comunidade possa identificar fraudes e notícias falsas, e há mais coisas que podemos fazer”, explicou Zuckerberg.

Alguns críticos afirmam que a política editorial poderia filtrar conteúdo considerado importante para movimentos sociopolíticos, como o “alt-right”, um grupo de ideologia de direita visto como uma força motriz por trás da vitória eleitoral de Trump.

Mas dúvidas relativas a seus objetivos políticos surgiram na esteira da bem-sucedida campanha de Trump, que muitas vezes chegou próxima do incitamento ao ódio contra minorias nos EUA, condenando notícias convencionais como tendenciosas.

Mudar, manipular, deslegitimar

Bart Cammaerts, professor de mídia e comunicação na London School of Economics, diz que a ameaça das notícias falsas está na sua capacidade de espalhar sentimentos populistas e transformar a opinião pública, minando as regras da mídia tradicional.

“A diferença entre a paródia e as notícias falsas está na intenção. A produção de ‘fake news’ não se destina a criticar ou zombar de algo, mas serve antes a objetivos que são inerentemente manipuladores, muitas vezes para mudar a opinião pública ou deslegitimar algo ou alguém”, explica Cammaerts.

“Isso tende a ir de mãos dadas com o populismo, com a promoção de várias teorias de conspiração, a rejeição de especialistas e uma rigorosa crítica dos meios de comunicação, que em todas as partes tende a enfatizar o factual em suas reportagens”, acrescenta.

O professor da London School of Economics aponta para um fenômeno similar na Alemanha, onde grupos anti-imigração e de extrema direita, como a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Pegida, acusam a mídia tradicional de distorcer propositadamente as suas posições, chamando-a de die Lügenpresse – “a imprensa da mentira”.

“Como os alemães são mais conscientes, esse surgimento da política pós-factual, e tudo que vem junto, não é novidade. Ele remete a uma época fascista e antiliberal, que também foi racista, autoritária e acusava a mídia de ser ‘die Lügenpresse'”, aponta Cammaerts.

Na Europa, problema já é combatido

Em 2015, o órgão fiscalizador dos direitos da mídia na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) publicou uma reportagem criticando a propaganda disfarçada de noticiário, que acabou prejudicando a aproximação entre a Ucrânia e a Europa após a saída do presidente Viktor Yanukovich.

A propaganda em questão empregou táticas semelhantes às usadas pelos sites de notícias falsas durante as eleições americanas, incluindo manchetes enganosas, citações fabricadas e declarações incorretas, o que levou a União Europeia (UE) a criar uma força-tarefa para “abordar as campanhas de desinformação em curso por parte da Rússia.”

Segundo Cammaerts, notícias falsas têm sido usadas para angariar apoio a várias causas políticas e representam uma grave ameaça para as sociedades democráticas, seja na Europa, nos EUA ou em qualquer outro país do planeta. Mesmo o direito à liberdade de expressão, muito elogiado pelos seguidores de sites de notícias falsas, tem os seus limites, afirma.

“A liberdade de expressão nunca é uma liberdade absoluta, nem mesmo nos EUA com sua doutrina da Primeira Emenda. Embora espalhar e fazer circular notícias falsas seja parte da liberdade de expressão de alguém, é uma obrigação democrática das organizações de mídia expor esse fato e se opor ativamente contra isso, o que pode significar também a recusa à sua divulgação”, diz o professor.

“Acho que o Facebook e Twitter têm responsabilidades editoriais, e por isso é válido que eles ativamente combatam a propagação de notícias falsas. Mas tais decisões editoriais devem ser transparentes”, conclui.

Stingrays: O espião dos celulares

O que são e como funcionam os Stingrays, aparelhos ‘espiões’ que rastreiam celulares

torre de telefoniaDireito de imagemGETTY IMAGES
Stingrays simulam o funcionamento das torres de telefonia para coletar dados em celulares próximos

O Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) informou ter identificado “atividades atípicas” em Washington originadas a partir do uso de dispositivos de espionagem conhecidos como “Stingrays”, capazes de interceptar ligações e mensagens.

O uso desse tipo de aparelho por parte de países estrangeiros preocupa as autoridades dos Estados Unidos há algum tempo, mas esta seria a primeira vez que o governo confirma publicamente o uso não autorizado deles em Washington.

Os usuários desses dispositivos poderiam ser espiões estrangeiros e ou mesmo criminosos. O governo americano não deu maiores detalhes sobre as suspeitas.

Os Stingrays são usados de forma legal no país pelas autoridades, especialmente pelo FBI.

Como funciona

Stingray é, na realidade, o nome da marca de um tipo de interceptor IMSI (sigla em inglês para “identidade internacional do assinante de um celular”) e é usado hoje de forma genérica para se referir a dispositivos de vigilância que simulam o funcionamento das torres de telefonia – e que são capazes de detectar sinais de telefones móveis.

Eles geralmente têm o tamanho de uma pasta e enviam sinais que “enganam” os celulares para que os aparelhos transmitam sua localização e identifiquem informações.

Assim, fazem com que os celulares daquela região se conectem e compartilhem seu número de IMSI e o número de série eletrônico (ESN). E também podem revelar a localização exata do usuário.

celularDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO dispositivo é capaz de rastrear os sinais móveis de qualquer telefone nas proximidades

Além de o dispositivo conseguir reconhecer onde está aquele aparelho, ele também pode receber informações de celulares que estão próximos. As versões mais sofisticadas são capazes até de escutar ligações. Para isso, forçam os equipamentos a se conectar à internet usando uma conexão 2G, uma forma muito menos segura do que as demais.

Normalmente, os Stingrays são colocados na parte de baixo de um veículo e, em alguns casos, podem ser instalados até mesmo em alguns tipos de avião.

Uma forma de se proteger deles seria criptografar o máximo possível as formas de comunicação do celular usando sistemas avançados de autenticação e serviços de mensagem ultrasseguros.

Uso policial

Uma carta com data de 26 de março enviada pelo senador de Oregon Ron Wyden foi o fato que deu visibilidade ao tema. Ele pedia informações às autoridades sobre esse tipo de dispositivo.

A resposta que recebeu sugere que não havia muitas medidas sendo tomadas com relação a esse tipo de aparato. As autoridades asseguravam que “observaram algumas atividades fora do comum na região da capital do país que pareciam estar relacionadas com interceptores IMSI”.

E acrescentou que observou atividade similar “fora da capital do país”, ainda que não tivesse conseguido “confirmar ou atribuir essa atividade a entidades ou a dispositivos específicos”.

O uso dos Stingrays por parte de forças policiais dos Estados Unidos está sendo monitorado pela União Americana para Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês).

Até agora, foram identificadas 73 agências em 25 Estados que possuem esse tipo de dispositivo, mas acredita-se que podem existir muitos outros em uso que não foram formalmente declarados.

Em um relatório de 2014, a ACLU revelou que o estado da Flórida gastou cerca de US$ 3 milhões em Stingrays. A polícia de lá afirmou, porém, que não poderia dar detalhes sobre o uso dessa tecnologia.

Essa resposta, segundo o advogado da ACLU, Nathan Wessler, foi “inaceitável”.

“Essa tecnologia levanta sérias questões no âmbito da Quarta Emenda (os regulamentos que protegem o direito à privacidade e o direito de não sofrer uma invasão arbitrária)”, disse o especialista.

“As pessoas têm o direito à divulgação completa dos registros para poderem participar de um debate esclarecido sobre a legalidade e o alcance desses dispositivos e para poderem supervisionar seu uso”, acrescentou.

policialDireito de imagemGETTY IMAGES
Uma investigação recente revelou que a polícia dos EUA usa esse tipo de dispositivo

No meio político em Washington há preocupação de que esses dispositivos possam estar sendo utilizados por agências não autorizadas, como governos estrangeiros.

Depois da divulgação desse relatório, feito a pedido da Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), a instituição que regula as ondas de rádio nos Estados Unidos, não foram feitas outras investigações.

Pessoas inocentes

Os Stingrays são usados há vários anos e são amplamente conhecidos pelo FBI, conforme explicou Jane Wakefield, correspondente de tecnologia da BBC.

“O que é novo é que autoridades locais parecem ter adquirido esses dispositivos agora. Temos evidência de que as polícias do Arizona, da Califórnia e da Flórida o estão usando. Queríamos avançar na Flórida para ter uma ideia melhor do que acontece em outros lugares”, disse o advogado da ACLU em 2014.

De acordo com os investigadores, algumas autoridades usam esse sistema para terem mais dados sobre suspeitos. O problema é que não se sabe até que ponto eles respeitam os cidadãos.

“Temos algumas questões sobre como isso funciona. Porque ele consegue ter a localização e informações de centenas de milhares de pessoas inocentes”, contou Wessler à BBC.

“E não sabemos que políticas esses departamentos policiais têm para proteger a informação das pessoas…se usam algum software de filtragem ou se recorrem a um juiz na hora de resolver esses casos.”

A polícia não quis fazer comentários quando foi consultada pela BBC.

Fatos & Fotos – 10/11/2017

Ballet – Natalia Osipova

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Arte – Joel Meyerowitz – Chichester CanalJoel Meyerowitz- Chichester Canal

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Como fabricar monstros para garantir o poder em 2018

Protesto contra o MAM
Manifestantes protestam no MAM em repúdio à apresentação do coreógrafo Wagner Schwartz no dia 30 de setembro
TIAGO QUEIROZ ESTADÃO CONTEÚDO

Enquanto o país é tomado por assaltantes do dinheiro público, parte dos brasileiros está ocupada caçando pedófilos em museus. 

Pense. Preste atenção na sua vida. Olhe bem para seus problemas. Observe a situação do país. Você acredita mesmo que a grande ameaça para o Brasil – e para você – são os pedófilos? Ou os museus? Quantos pedófilos você conhece? Quantos museus você visitou nos últimos anos para saber o que há lá dentro? Não reaja por reflexo. Reflexo até uma ameba, um indivíduo unicelular, tem. Exija um pouco mais de você. Pense, nem que seja escondido no banheiro.

Seria fascinante, não fosse trágico. Ou é fascinante. E também é trágico. No Brasil atual, os brasileiros perdem direitos duramente conquistados numa velocidade estonteante. A vida fica pior a cada dia. E na semana em que o presidente mais impopular da história recente se safou pela segunda vez de uma denúncia criminal, desta vez por obstrução da justiça e organização criminosa, e se safou distribuindo dinheiro público para deputados e rifando conquistas civilizatórias como o combate ao trabalho escravo, qual é um dos principais assuntos do país?

A pedofilia.

Desde setembro, quando a mostra QueerMuseu – Cartografia da Diferença na Arte Brasileira foi fechada, em Porto Alegre, pelo Santander Cultural, após ataques liderados por milícias como o Movimento Brasil Livre (MBL), arte, artistas e instituições culturais têm sido atacados e acusados de estimular a pedofilia e/ou de expor as crianças à sexualidade precoce no Brasil. Resumindo: enquanto os brasileiros têm seus direitos roubados, uma parte significativa da população está olhando para o outro lado. Ou, dito de outro modo: sua casa foi tomada por assaltantes de dinheiro público e ladrões de direitos constitucionais, mas você está ocupado caçando pedófilos em museus.

Conveniente, não é? E para quem? A resposta é tão óbvia que qualquer um pode chegar a ela sem ajuda.

Uma pergunta simples: por que os movimentos que ergueram a bandeira anticorrupção para derrubar Dilma Rousseff (PT), uma presidente ruim, mas que a maioria dos brasileiros elegeu, não estão fazendo nenhum movimento para derrubar Michel Temer (PMDB), um homem que só se tornou presidente por força de um impeachment sem base legal, ligado a uma mala de dinheiro e que tem como um dos principais aliados outro homem, Geddel Vieira Lima (PMDB), ligado a mais de 51 milhões de reais escondidos num apartamento? Ou Aécio Neves (PSDB), que em conversa gravada pediu dois milhões de reais a Joesley Batista, um dos donos da JBS, para pagar os advogados que o defendem das denúncias da Operação Lava Jato?

Isso não é corrupção? Isso não merece movimento? Quem mudou? E por quê?

Responda você.

Outra pergunta simples: por que, em vez disso, parte destes movimentos, que se converteu em milícia, criou um problema que não existe justamente num momento em que o Brasil tem problemas reais por todos os lados?

A não ser que você realmente acredite que o problema da sua vida, o que corrói o seu cotidiano, são pedófilos em museus, sugiro que você mesmo responda a essa pergunta. Eu vou buscar responder a algumas outras.

1) Como criar monstros para manipular uma população com medo?

A criação de monstros para manipular uma população assustada não é nenhuma novidade. Ela se repete ao longo da história, com resultados tenebrosos, seguidamente sangrentos. Como muitos já lembraram, a Alemanha nazistaatacou primeiro exposições de arte. Os nazistas criaram o que se chamou de “arte degenerada” e destruíram uma parte do patrimônio cultural do mundo. E, mais tarde, assassinaram 6 milhões de judeus, ciganos, homossexuais e pessoas com algum tipo de deficiência.

Dê um monstro a uma população com medo, para que ela o despedace, e você está livre para fazer o que quiser. Mas hoje há uma diferença com relação a outras experiências ocorridas na história: a internet. A disseminação do medo e do ódio é muito mais rápida e eficiente, assim como a fabricação de monstros para serem destroçados.

Mas a internet é uma novidade também em outro sentido, que está sendo esquecido pelos linchadores: as imagens nela disseminadas estarão circulando no mundo para sempre. A história não conheceu a maioria dos rostos dos cidadãos comuns que tornaram o nazismo e o holocausto uma realidade possível, apenas para ficar no mesmo exemplo histórico. Eles se tornaram, para os registros, o “cidadão comum”, o “alemão médio” que compactuou com o inominável. Ou mesmo que aderiu a ele.

Aqueles que hoje chamam artistas de “pedófilos” se esquecem de que sua imagem e suas palavras permanecerão para sempre nos arquivos do mundo

Hoje, no caso do Brasil e de outros países que vivem situação parecida, o “cidadão comum” que aponta monstros com o rosto distorcido e estimula o ódio não é mais anônimo e apagável. Ele está identificado. Seus netos e bisnetos o reconhecerão nas imagens. Seu esgar de ódio permanecerá para a posteridade.

Será interessante acompanhar como isso mudará o processo de um povo lidar com sua memória. E com sua vergonha. Tudo é tão instantâneo e imediato na internet, tão presente contínuo, que muitos parecem estar se esquecendo de que estão construindo memória sobre si mesmos. Memória que ficará para sempre nos arquivos do mundo.

2) Como criar uma base eleitoral para “botar ordem na casa” sem mudar a ordem da casa?

A fabricação de monstros é uma forma de controle de um grupo sobre todos os outros. A escolha do “monstro” da vez é, portanto, uma escolha política. O que se cria hoje no Brasil é uma base eleitoral para 2018. Uma capaz de votar em alguém que controle o descontrole, alguém que “bote ordem na casa”. Mas que bote ordem na casa sem mudar a ordem da casa. Este é o ponto.

A escolha do “monstro” da vez é uma escolha política

Primeiro, derrubou-se a presidente eleita com a bandeira anticorrupção. Mas aqueles com os quais esses movimentos se aliaram eram corruptos que tornaram a mala de dinheiro uma referência ultrapassada, ao lançar o apartamento de dinheiro. Personagens desacreditados, políticos desacreditados, como então manter as oligarquias no poder para que nada mude mas pareça mudar? Capturando o medo e o ódio da população mais influenciável e canalizando-os para outro alvo.

A técnica é antiga e segue muito eficiente. Enquanto a turba grita diante de museus (museus!), às suas costas o butim segue sendo dividido entre poucos. Rastreia-se qualquer exposição cultural com potencial para factoides, o que é bem fácil, já que o nu faz parte da arte desde a pré-história, e alimenta-se o ódio e os odiadores com monstros fictícios semana após semana. Aos poucos, a sensação de que o presente e o futuro estão ameaçados infiltra-se no cérebro de cada um.

E é um fato. O presente e o futuro estão ameaçados no Brasil porque há menos dinheiro para saúde e educação, porque a Amazônia está sendo roubada e porque direitos profundamente ligados à existência de cada um estão sendo exterminados por um Congresso formado em grande parte por corruptos. Mas como isso está deslocado, parece que a ameaça está em outro lugar. Neste caso, na arte, nos artistas, nos museus. Com o ódio deslocado para um monstro que não existe, homens que pregam e praticam monstruosidades aumentam suas chances de serem eleitos e reeleitos e as monstruosidades históricas seguem se perpetuando.

Com o ódio deslocado para um monstro que não existe, oprimidos votam em opressores acreditando que se libertam

É assim que se cria uma base eleitoral que vota para botar ordem na casa, mas não para mudar a ordem da casa. É assim que oprimidos votam em opressores acreditando que se libertam. É assim que se faz uma democracia sem povo – uma impossibilidade lógica que se realizou no Brasil.

3) Por que o “pedófilo” é o “monstro” perfeito para o momento político?

Por que o “pedófilo” e não outro? Esta é uma pergunta que vale a pena ser feita. Há muitas respostas possíveis. Já se tentou – e ainda se tenta – monstrificar muita gente. O aborto foi a moeda eleitoral da eleição de 2010 e os defensores do direito de as mulheres interromperem uma gestação indesejada foram chamados de “assassinos de fetos”. Gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros estão sempre na mira, como os episódios homofóbicos e o assassinato de LGBTs nos últimos anos mostraram. Feminismo e feministas, em algumas páginas do Facebook, viraram palavrões.

A tentativa acaba de ser reeditada com os protestos contra a palestra da filósofa americana Judith Butler no SESC, em São Paulo. Ela participará do ciclo de debates intitulado Os fins da democracia, entre 7 e 9 de novembro. Acusam-na, vejam só, de “inventar a ideologia de gênero”. A vergonha alheia só não é maior porque quem tem um presidente como Donald Trump é capaz de entender em profundidade tanto o oportunismo quanto a burrice.

Mas, se as tentativas de monstrificar pessoas são constantes, há grupos organizados para defender os direitos das mulheres sobre o seu corpo e para denunciar a homofobia e a transfobia. E estes grupos não permitem mais a conversão de seus corpos em monstruosidades e de seus direitos em monstruosidades. Nestes campos, há resistência. E ela é forte.

Qual é, então, o monstro mais monstro deste momento histórico, o monstro indefensável? O pedófilo, claro. Quem vai defender um adulto que abusa de crianças? Ninguém.

Mas há um problema. Os pedófilos não andam por aí nem são uma categoria. A maioria, aliás, como as estatísticas mostram, está dentro de casa ou muito perto dela. Ao contrário de muitos que apontam o dedo diante de museus, eu já escutei vários pedófilos reais como repórter. E posso afirmar que são humanos e que a maioria sofre. E posso afirmar também que uma parte deles foi abusada na infância. Posso afirmar ainda que nem todos sofrem, mas todos precisam de ajuda. Ajuda que, aliás, eles (e elas) não têm.

Como então criar uma epidemia de pedofilia sem pedófilos disponíveis? Fabricando pedófilos. Espelhando-se em Hitler e criando uma “arte degenerada”. Manipulando todos os temores ligados à sexualidade humana. E manipulando especialmente uma ideia de criança pura e de infância ameaçada.

Como criar uma epidemia de pedofilia sem pedófilos disponíveis? Espelhando-se em Hitler e criando uma “arte degenerada”

A infância está, sim, ameaçada. Mas pela falta de investimento em educação e em saúde, pela destruição da floresta amazônica e pela corrosão das fontes de água, pela contaminação dos alimentos, pela destruição dos direitos que não terão mais quando chegarem à vida adulta. São estas as maiores ameaças contra as crianças brasileiras de hoje – e não falsos pedófilos em museus.

As crianças e seu futuro, aliás, estão ameaçados porque há menos museus do que deveria, menos centros culturais do que deveria e muito menos acesso aos que ainda existem do que seria necessário. Estas são as ameaças reais à infância deste momento do Brasil.

Nenhum dos artistas acusados de pedofilia ou de estimular a pedofilia é pedófilo. Mas quando provarem isso na justiça, caso dos que estão sendo investigados, sua vida ou uma parte significativa dela já foi destruída. E quem se responsabilizará pela destruição de uma vida humana? Quem se responsabilizará pelo ataque à cultura, já tão maltratada neste país?

Você, que grita e aponta o dedo e o celular, fabricando falsificações, precisa se responsabilizar pelas vidas que destrói

Você, que grita e aponta o dedo e a câmera do celular, destruindo vidas e fabricando falsificações, precisa se responsabilizar pelos seus atos. Porque vidas humanas estão sendo destruídas de fato. E são as daqueles que estão sendo acusados injustamente de serem o que a humanidade definiu como “monstros”. E é a vida de todos nós que teremos ainda menos acesso à cultura num país em que sobram muros e presídios, mas faltam escolas, centros culturais e museus.

4) Por que manipular os tabus relacionados à sexualidade é uma forma eficiente de criar uma base eleitoral?

Como fazer para criar uma base eleitoral que vote naqueles que acabaram de espoliá-la? Apele para a moralidade. Não há maneira mais eficiente de fazer isso que manipular os temores que envolvem a sexualidade. Os exemplos históricos são infinitos. Quem controla a sexualidade controla os corpos. Quem controla os corpos controla as mentes. Quem controla as mentes leva o voto para onde quiser. E também arregimenta apoio para projetos autoritários.

De repente, uma parcela de brasileiros, incitada pelas milícias de ódio, decidiu que a nudez humana é imoral. E fabricaram uma equação esdrúxula: corpo adulto nu + criança = pedofilia. Pela lógica, se esse pessoal fosse a Florença, na Itália, tentariam destruir a machadadas o Davi de Michelangelo, porque ele tem pinto.

Quem controla a sexualidade, controla os corpos. Quem controla os corpo e as mentes, leva o voto para onde quiser

Não há registro de que as milhões de crianças que tiveram o privilégio de ver a estátua ao vivo, levadas por pais ou por professores em visitas escolares, tenham se sentido sexualmente abusadas ou tenham vivido algum trauma. Mas há inúmeros registros de crianças traumatizadas na infância pela repressão à sexualidade inerente aos humanos.

Crianças têm pênis, crianças têm vagina, crianças têm sexualidade. É lidando de modo natural com essa dimensão da existência humana que se forma adultos capazes de respeitar a sexualidade, o desejo e a vida do outro. É conversando sobre isso e não reprimindo que se forma adultos capazes de respeitar os limites impostos pelo outro na experiência sexual compartilhada. É informando e não desinformando sobre essa dimensão da existência humana que se forma adultos que não se tornarão abusadores de crianças.

5) Por que a arte e os artistas são os alvos do momento?

A decisão que o Museu de Arte de São Paulo (MASP) tomou, de proibir a exposição Histórias da Sexualidade, aberta em 20 de outubro, para menores de 18 anos, é uma afronta à arte – e uma afronta à cidadania. É compactuar com o oportunismo das milícias de ódio. É aceitar que nudez e pornografia são o mesmo. É destruir a ideia do que é uma exposição de arte. E é, principalmente, abdicar do dever ético de resistir ao obscurantismo. Do mesmo modo, foi abjeta a decisão do Santander Cultural de encerrar a exposição Queermuseu depois dos ataques.

Os oportunistas e seu projeto de poder vencem e o pior acontece pelas concessões e recuos de instituições que têm a obrigação de resistir

Que uma turba incitada por milícias de ódio ataque exposições de arte é lamentável. Mas que as instituições se dobrem a elas é ainda pior. A resistência é necessária justamente quando é mais difícil resistir. É pelas fissuras que se abrem, pelas concessões que são feitas, pelos recuos estratégicos que os oportunistas e seu projeto de poder vencem e o pior acontece. Também isso a história já mostrou. Não é hora de se dobrar. É hora de riscar o chão e resistir.

Por que a arte e os artistas? Esta é uma pergunta interessante. Mesmo que isso não seja óbvio para todos, é a arte que expande a nossa consciência mais do que qualquer outra experiência, justamente por deslocar o lugar do real. Ao fazer isso, ela amplia a nossa capacidade de enxergar além do óbvio – e além do que nos é dado a ver. Não há nada mais perigoso para a manutenção dos privilégios e do controle de poucos sobre muitos do que a arte.

A arte é o além do mundo que, depois de nos tirar do lugar, nos devolve ao lugar além de nós mesmos. Somos, a partir de cada experiência, nós e além de nós. Esta é uma vivência transgressora e à prova de manipulações. E esta é uma vivência profundamente humana, como mostram as pinturas encontradas nas cavernas deixadas por nossos ancestrais pré-históricos. Por isso não é por acaso que regimes de opressão começaram com ataques contra a arte e os artistas.

Não há nada mais perigoso para a manutenção dos privilégios e do controle de poucos sobre muitos do que a arte

Ao literalizar a arte, interpretando o que é representação como realidade factual, assassina-se a arte. Quando Salvador Dalí faz um relógio derretido em uma paisagem de sonho, ele não está afirmando que relógios derretidos existem daquela maneira nem paisagens como aquela podem ser vistas no mundo de fora, mas está invocando outras realidades que nos habitam e que vão provocar reflexões diferentes em cada pessoa. Literalizar a arte é uma monstruosidade que tem sido cometida contra obras e artistas desde que o cotidiano de exceção se instalou no Brasil.

O outro motivo é mais prosaico. Artistas podem ser muito populares e influenciadores do momento político. A admiração pela obra seguidamente é transferida para a pessoa. E por isso essa pessoa, quando fala e opina, é ouvida. É nesta chave que pode ser compreendida a tentativa de destruição de Caetano Veloso, acusando-o de pedofilia por ter tido relações sexuais com sua mulher, Paula Lavigne, quando ela tinha 13 anos.

Essa história é conhecida há décadas, pela voz da própria Paula. Mas só agora despontou colada a uma acusação de pedofilia. Caetano Veloso é um dos artistas que mais se posiciona politicamente no Brasil atual. Recentemente, foi Paula Lavigne que liderou uma reação dos artistas a um dos ataques de Temer e da bancada ruralista contra a floresta amazônica. Minar a influência de ambos, assim como a sua vontade de se posicionar e manifestar-se por medo de mais ataques, é uma estratégia. Afinal, quem ouviria a opinião política ou as denúncias feitas por um “pedófilo”? Por mais que se lute, e poucos têm tantas condições de resistir como Caetano Veloso e Paula Lavigne, uma acusação deste porte costuma deixar marcas internas.

6) Quem são os políticos e as religiões que se aliam aos fabricantes de pedófilos com o olhar fincado em 2018?

Quando o momento mais agudo da disputa passar, se passar, haverá muitos mortos pelo caminho. Em especial os invisíveis, aqueles que terão medo de tocar nos próprios filhos pelo temor de serem acusados de pedofilia, os professores que optarão por livros sem menções à sexualidade para não correrem o risco de serem linchados por pais enlouquecidos e demitidos por diretores pusilânimes, as pessoas que cada vez mais têm medo de se contrapor à turba, os artistas que preferirão não fazer. E os que deixarão o Brasil por não suportar os movimentos brasileiros livres de inteligência ou temerem por sua vida diante dos odiadores. As marcas invisíveis, mas que agem sobre as funduras de cada um, são as piores e as mais difíceis de serem superadas.

Quando a gente via no cinema as turbas enlouquecidas assistindo às execuções medievais como se fossem uma festa, gritando por mais sangue, mais sofrimento, mais mortes, era possível pensar que algo assim já não seria possível depois de tantos séculos. Mas mesmo que as fogueiras (ainda) não tenham sido acesas, o que se vive hoje no Brasil é muito semelhante.

Os pedófilos de hoje são as bruxas de ontem. E são tão pedófilos quanto as bruxas eram bruxas

Os pedófilos de hoje são as bruxas de ontem. E são tão pedófilos quanto as bruxas eram bruxas. E as fogueiras começam na internet, mas se alastram pela vida. Há muitas formas de destruir pessoas. A crueldade é sempre criativa. E as milícias já deixaram um rastro de devastação. Vale tudo para cumprir o propósito de limpar o campo político para 2018.

Para isso, contam menos com a ala conservadora da Igreja Católica e mais com parte das igrejas pentecostais e neopentecostais, com o fenômeno que se pode chamar de “fundamentalismo evangélico à brasileira” e sua crescente influência política e também partidária. Quem acompanha grupos de WhatsApp dos fieis fundamentalistas recebe dia após dia vídeos de pastores falando contra a arte e a pedofilia. A impressão é que o Brasil virou Sodoma e Gomorra e que um pedófilo saltará sobre seu filho, neto ou sobrinho assim que abrir a porta da casa. Grande parte destas pessoas – e isso não é culpa delas – jamais teve acesso a um museu ou a uma exposição de arte.

As articulações que estão sendo feitas para 2018 são cada vez mais fascinantes, não fossem assustadoras. Na apresentação do artista Wagner Schwartz no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), realizada em 26 de setembro, o coreógrafo fazia uma interpretação de Bicho, uma obra viva de Lygia Clark, constituída por uma série de esculturas com dobradiças que permite que as pessoas saiam do lugar de espectadoras passivas e se tornem parte ativa da obra. Nesta leitura de Bicho, que resultou em ataques de ódio, o coreógrafo, nu e vulnerável, podia ser tocado e colocado em qualquer posição pela plateia. Um vídeo divulgado pela internet mostrando uma criança tocando o performer, devidamente acompanhada por sua mãe, foi o suficiente para protestos de ódio. O artista foi chamado de “pedófilo” – e o museu foi acusado de incentivar a pedofilia.

Observe bem os dois políticos que se alçaram a protetores das crianças brasileiras ameaçadas pela arte: João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro (PSC)

Vale a pena observar quem foram os dois candidatos a presidenciáveis que se manifestaram por meio de vídeos divulgados na internet: João Doria(PSDB) e Jair Bolsonaro (PSC). Doria, que gosta de posar como culto e cidadão do mundo, mostrou mais uma vez até onde pode chegar em sua luta pelo poder. Classificou a coreografia como “cena libidinosa”. Afirmou que a performance “fere o Estatuto da Criança e do Adolescente e, ao ferir, ele está cometendo uma impropriedade, uma ilegalidade, e deve ser imediatamente retirado, além de condenado”. E aplicou o bordão: “Tudo tem limites!”.

Doria, o protetor das crianças brasileiras, dias atrás anunciou (e depois das críticas recuou momentaneamente) que incluiria um “alimento” feito com produtos próximos do vencimento na merenda escolar das crianças de São Paulo.

Jair Bolsonaro, capitão da reserva do Exército e em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto para 2018, vociferou: “É a pedofilia!”. E, em seguida: “Canalhas! Mil vez canalhas! A hora de vocês está chegando!”. Justamente ele, que não se cansa de repetir que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos assassinos da ditadura, é o seu herói.

Ustra, apenas para lembrar de um episódio, levou os filhos de Amélia Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada. Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos aplicados em todo o seu corpo e também nos genitais. Este é o farol de Bolsonaro, o protetor das crianças brasileiras.

7) Como parte do empresariado nacional se articula com os ataques à arte enquanto apoia o retrocesso em nome do lucro?

Nenhuma distopia foi capaz de prever o Brasil atual. Parte da explicação pode ser encontrada no artigo de Flávio Rocha, presidente do Riachuelo, um dos principais grupos do setor têxtil do país, e vice-presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), publicado na página de Opinião do principal jornal brasileiro, em 22 de outubro. No texto, intitulado “O comunista está nu”, o empresário ressuscita a ameaça do comunismo, discurso tão presente nos dias que antecederam o golpe civil-militar de 1964, que mergulhou o Brasil numa ditadura que durou 21 anos. O empresário escreveu este texto, vale lembrar, num Brasil tão à direita que até a esquerda foi deslocada para o centro. Diz este expoente da indústria nacional:

“O movimento comunista vem construindo um caminho que, embora sinuoso, leva ao mesmo destino: a ditadura do proletariado exaltada pelo marxismo. (…) Nas últimas semanas assistimos a mais um capítulo dessa revolução tão dissimulada e subliminar quanto insidiosa. Duas exposições de arte estiveram no centro das atenções da mídia ao promoverem o contato de crianças com quadros eróticos e a exibição de um corpo nu, tudo inadequado para a faixa etária. (…) São todos tópicos da mesma cartilha, que visa à hegemonia cultural como meio de chegar ao comunismo. Ante tal estratégia, Lênin e companhia parecem um tanto ingênuos. À imensa maioria dos brasileiros que não compactua com ditaduras de qualquer cor, resta zelar pelos valores de nossa sociedade”.

A indigência intelectual de uma parcela significativa da elite econômica brasileira só não é maior do que o seu oportunismo

A indigência intelectual de uma parcela significativa da elite econômica brasileira só não é maior do que o seu oportunismo. É também parte da explicação da face mais atrasada do Brasil. É ainda um constrangimento, talvez uma falha cognitiva. Mas certo tipo de empresário está aí, pontificando em arena nobre. Sem esquecer jamais que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) de Paulo Skaf apoiou diretamente os movimentos que lideraram as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff , tornando-se uma das principais responsáveis pela atual configuração do governo corrupto que está no poder.

Há algo interessante sobre Flávio Rocha, esse personagem amigo de João Doria e, como o prefeito de São Paulo, apoiado pelo MBL. Como mostrou reportagem da Repórter Brasil, uma das fontes sobre trabalho escravo mais respeitadas do país, o grupo Riachuelo tem sido acusado nos últimos anos por abusos físicos e psicológicos de trabalhadores. Flávio Rocha, como já demonstrou, é um dos interessados em “flexibilizar” a legislação e a fiscalização. Para isso, conta com o apoio do MBL, que chegou a convocar um protesto contra o Ministério Público do Trabalho em Natal, no Rio Grande do Norte.

Em 16 de outubro, o governo Temer publicou uma portaria, claramente inconstitucional, que reduz os casos que podem ser enquadrados em trabalho escravo. O problema é gravíssimo no Brasil, que ainda convive com situações de escravidão contemporânea. Hoje, a portaria está temporariamente cassada por liminar concedida pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, a pedido do partido Rede Sustentabilidade. Restringir o combate à escravidão foi parte do pagamento de Michel Temer aos deputados que o absolveram na semana passada e às oligarquias que representam. Estes “liberais” querem voltar a escravizar livremente. E estão conseguindo.

Mas, claro, o problema do Brasil são os pedófilos em museus. E, como o presidente do grupo Riachuelo tem a gentileza de nos alertar, a volta dos comunistas que comem criancinhas.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

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Só dói quando eu rioHumor,Políticos,Duke,Blog do Mesquita
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” Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves da alma.”
( Cora Coralina )

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Não sou somente eu quem “pastora”, há anos, as maquinações do tesoureiro da NWO. As ONGs no Brasil e na Amazônia – 125mil somente na Amazônia – cerca de 80% são financiadas por ele através da “Open Society Foundation”. Tanto as de “esquerda” como as de “direita” atuam conforme o decidido lá em 1944 na Conferência de Bretton Woods, USA. Da TFP ao MST. Dos Patos aos Mortadelas. Imaginem o quanto ele atua no bordel do Congresso Nacional.

No total, ele apoia mais de 500 organizações ao redor do mundo e doou nas últimas duas décadas uma estimativa de 11 bilhões de dólares a à diversas organizações. Todas existem para gerar o caos nas nações. “Divide & Conquer”.

Soros é um dos maiores defensores das benesses da imigração para a economia europeia. Aí os tolos acreditam que os “barbudins” se explodem em busca do paraíso com 70 virgens e rios de mel – aliás tal paraíso não existe no Corão.

Soro contola diretamente e financia;
Open Society Fondation;; Univ.Centro Européia;Quantum Group of Founds;Soros Fund Management; MoveON;International Crisis Group;Democracy Alliance;Black Lives Matter;The Center for American Progress;America Coming Together;The Pro-Marijuana Drug Policy Aliance;Zimbabwe`s Movevent for Democratic Change;The Georgian Open Society Foundation.

Acessem o site da arapuca do Soros para terem uma ideia da capilaridade de atuação do Húngaro-Americano, o manipuladorr da Desordem Mundial, a serviço do Globalismo.
https://www.opensocietyfoundations.org/

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Como confiar num judiciário – siiiiiiim. Há quem o faça – que recebe como “punição” aposentadoria com salário integral?
E também há Tapuias que acreditam ainda que justiça é igual para todos.
“CNJ condena juízes que fraudaram precatório bilionário. O Conselho aplicou a pena máxima: aposentadoria compulsória.
CNJ condena juízes que fraudaram precatório bilionário. Conselho aplicou a pena máxima: aposentadoria compulsória”
Só perguntando a visceral opinião de Golfado, meu vomitador oficial.

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Exército Brasileiro em patrulhamento na floresta

Tropas do Brasil, Peru e Colômbia iniciaram uma operação de treinamento conjunto para atuar em emergências humanitárias na cidade brasileira de Tabatinga, no Estado do Amazonas, nesta segunda-feira. A ação conta com o apoio dos Estados Unidos.

Segundo o Ministério da Defesa do Brasil, este é um ótimo exercício logístico “sem precedentes na América do Sul”, que acontecerá até 13 de novembro na fronteira tripla entre o Brasil, a Colômbia e o Peru.

Estes exercícios, denominados AmazonLog17, terão a participação de 1.940 soldados, dos quais 1.550 são brasileiros e “observadores militares de nações amigas”, de acordo com o ministério.

A Colômbia envia 150 militares, o Peru outros 120 e os EUA cerca de trinta soldados, enquanto países como Rússia, Canadá, Venezuela, França, Reino Unido e Japão terão menos de dez representantes cada.

A maioria dos exercícios envolvem transporte, logística, manutenção, evacuação e engenharia em caso de catástrofes. Durante o treinamento serão realizadas simulações relacionadas aos sistemas de ferimento e evacuação da área.

Ministro Raul Jungmann
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
O centro de operações será a Base Integrada de Logística Multinacional, a partir da qual serão coordenados os Problemas Militares Simultâneos e as ações com tropas e meios, que constituem a dinâmica de execução do exercício multinacional.

Além dos exercícios militares, haverá também uma ação cívico-social para beneficiar a população local, além de visitas médicas e dentárias fornecidas pelo Hospital da Campanha.

E não é só: de acordo com o Exército brasileiro, o evento deixará um legado nesta pequena cidade de 20 mil habitantes localizada no meio da Amazônia.

Em face do evento, uma parte da rede elétrica foi melhorada e a área onde os exercícios estão centralizados pode se tornar um parque público no futuro.

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Arquitetura – EscadasArquitetura,Escadas,Blog do Mesquita 1Arquitetura,Escadas,Blog do Mesquita 1 Arquitetura,Escadas,Blog do Mesquita 1

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Dinheiro está sobrando na Prefeitura do Rio de Janeiro.
Os gastos do “santo” Crivella
Apesar das frequentes queixas de problemas financeiros no caixa do município, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (), ganhou o direito de gastar mais em suas viagens ao exterior.

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Blog do Mesquita,Mortadela

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Fotografia de Hanni Juni de Kuching,Malasya,2017
Bagan in the morning,Hanni Juni de Kuching,MalasyaArte,Fotografia,Bagan in the morning,Hanni Juni de Kuching,Malasya,2017

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ResistênciaResistência,Blog do Mesquita

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Criaturas “ariadas” ponham a funcionar o meio neurônio que possuem.
Criatura 1 – Não estou aqui argumentando sobre a competência do jornalista, mas a serviço de quem e do que essa competência está a serviço.
Criatura 2 – “Ah!, mas ele não é racista. Foi só uma maneira jocosa de se expressar”. Foi né? Jocosa né?
Já ouviste falar em um tal de Freud? Em ato falho? Não né? Então tá.

Facebook e páginas pagas

Facebook estuda mostrar só o conteúdo das páginas que pagarem

O Facebook, uma rede social com mais de 1,5 bilhão de usuários.

Rede social cogita criar um mural para os contatos e outro para o conteúdo das páginas

O Facebook acha isso normal. No Vale do Silício, qualquer experimento é por tentativa e erro. Testar, ver reações e tomar decisões a partir dos dados. Entre os editores dos meios de comunicação, a mais nova ideia da rede social está causando um grande reboliço. Os usuários do Sri Lanka, Bolívia, Eslováquia, Sérvia, Guatemala e Camboja já deixaram de ver em suas capas o conteúdo compartilhado por páginas, a modalidade usada pelos meios de comunicação para difundir seus links noticiosos. Aparecem apenas as postagens dos seus contatos.

Desse modo, o conteúdo das páginas só se mistura com o dos perfis pessoais se o interessado pagar. Até agora o Facebook intercalava ambos, embora dê um maior impulso para quem investe em publicidade segmentada, buscando perfis específicos.

Adam Mosseri, responsável pelo News Feed, a zona de conteúdo onde aparecem tanto as notícias como os conteúdos dos usuários, enviou uma mensagem acalmando os ânimos: “Sempre escutamos a nossa comunidade com a intenção de melhorar. As pessoas nos dizem que gostariam de ver de maneira mais simples o que seus familiares e amigos compartilham. Assim, estamos testando um espaço dedicado à família e amigos e outro, à parte, chamado Explore, para as mensagens das páginas. A finalidade destes testes é entender se as pessoas preferem um espaço separado. Vamos escutar o que dizem para ver se iremos adiante. Não há um plano para ir além disso nesses países ou para cobrar das páginas para ter mais visibilidade na capa ou no Explore. Infelizmente, muitos, erroneamente, interpretaram mal. Mas não é essa a nossa intenção”.

Os editores dos países afetados foram os primeiros a dispararem o alarme. O Facebook, junto com as visitas geradas pelos buscadores, é a principal fonte de tráfego para os meios de comunicação no mundo todo. Uma redução tão drástica nas visitas põe em xeque parte do modelo de negócio dos veículos na Internet. Só na Eslováquia, 60 sites noticiosos viram seu tráfego cair em até um terço. Filip Struhárik, editor do Denník N, um jornal de Bratislava, compartilhou a situação em seu blog: “A maior queda de alcance orgânico que já experimentamos”.

A medida, que surpreendeu os editores dos veículos de comunicação, já era cogitada havia mais de um ano por parte da rede social.
Por Rosa Jimenez Cano