#ExposeBillGates – hashtag explode no Twitter enquanto teóricos da conspiração prometem evitar a vacina Covid-19 conectada ao bilionário

“O público está finalmente acordando. Eu nunca gostei desse cara e se você realmente o ouvir falar e assistir às entrevistas dele, saberá que ele não tem nosso melhor interesse em mente “, twittou o autor Peter Vooogd no sábado. Foi um dos muitos tweets vinculados à hashtag #ExposeBillGates, que surgiu de um “dia de ação” planejado – anunciado pelo autor Derrick Broze no mês passado – para expor o bilionário.

Bill Gates fala durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, Suíça © REUTERS / Arnd Wiegmann

A onipresença de Bill Gates na mídia durante a pandemia de Covid-19 se transformou em uma obsessão em massa com muitos, e os teóricos da conspiração colocaram #ExposeBillGates no Twitter em um “dia de ação” planejado.
A pandemia de coronavírus criou várias especulações em torno do Microsoft Founder sobre seu apoio a medidas estendidas de bloqueio, suas grandes contribuições à Organização Mundial da Saúde e comentários anteriores sobre vacinas.

Outros tweets incluíam um vídeo que denunciava Gates por sua franqueza no Covid-19, apesar de não ser um funcionário eleito, além de seu apoio à extensão de medidas de bloqueio em todo o mundo. Acusações de “controle populacional” também foram distribuídas com base no trabalho de Gates em fornecer vacinas para países mais pobres por meio de sua fundação.

Outros prometeram nunca tomar nenhuma vacina com a qual Gates tenha envolvimento, incluindo a autora conservadora Michelle Malkin.

Alguns usuários de mídia social, no entanto, não levaram a sério as teorias da conspiração e, em vez disso, usaram a hashtag para zombar de Gates.

Embora as teorias da conspiração sobre Gates sejam baseadas mais em conjecturas do que em evidências concretas, elas captaram o público. A empresa de análise de mídia Zignal Labs relatou a teoria da conspiração de que Gates quer implantar microchips de rastreamento nos cidadãos sob o pretexto de parar o Covid-19 foi mencionado nas mídias sociais mais de um milhão de vezes antes de maio.

Uma pesquisa do Yahoo News / YouGov que mostrou cerca de 20% dos participantes acredita que Gates deseja rastrear as informações pessoais das pessoas através de microchips. Para os republicanos, esse número na pesquisa dispara acima de 40%.

Gates negou o desejo de implantar microchips nos cidadãos e chamou os resultados da pesquisa de “preocupantes”, apesar de admitir que um “sistema de dados” em massa acompanhar as informações das pessoas era uma boa idéia para evitar futuras pandemias.

A posição de Gates no mundo só aumentou desde o início da pandemia, o que provavelmente alimenta muitos dos teóricos da conspiração que não confiam nele. Com os EUA apoiando o apoio à Organização Mundial da Saúde, ele deve se tornar o maior colaborador do grupo, fato que preocupa muitos, já que o fundador da Microsoft é um cidadão privado que teoricamente poderia exercer muito poder durante situações globais.

 

 

O elo entre desmatamento e epidemias investigado pela ciência

A região com a maior floresta tropical do mundo também é considerada um provável polo de epidemias, como mostrou uma análise feita por uma equipe liderada por Simon Anthony, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Só de coronavírus que circulam em morcegos também no Brasil, o levantamento contabilizou pelo menos 3.204 tipos.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Faz pelo menos duas décadas que cientistas repetem o alerta: à medida que populações avançam sobre as florestas, aumenta o risco de micro-organismos – até então em equilíbrio – migrarem para o cotidiano humano e fazerem vítimas.

Cientistas alertam há décadas para o risco de novas doenças como consequência da destruição de florestas. Assim como a Ásia, origem do novo coronavírus, a Amazônia é vista como possível polo de enfermidades.

Foi por isso que a notícia sobre a propagação do novo coronavírus, detectado pela primeira vez na China em dezembro passado e que se espalhou pelo mundo, não pegou Ana Lúcia Tourinho de surpresa. Doutora em Ecologia, ela estuda como o desequilíbrio ambiental faz com que a floresta e sociedade fiquem doentes.

“Quando um vírus que não fez parte da nossa história evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo é o caos. Está aí o novo coronavírus esfregando isso na nossa cara”, argumenta Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

No caso do novo coronavírus, batizado de Sars-CoV-2, muito antes de infectar os primeiros humanos e viajar a partir da China, abrigado no corpo de viajantes, para outras partes do mundo, ele habitava outros hospedeiros num ambiente selvagem – morcegos, provavelmente.

Isolados e em equilíbrio em seu habitat, como florestas fechadas, vírus como esse não ameaçariam os humanos. O problema é quando esse reservatório natural começa a ser recortado, destruído e ocupado.

Estudos científicos publicados anos antes da atual pandemia já mostravam a conexão entre perda florestal, proliferação de morcegos nas áreas degradadas e coronavírus. Análises assinadas por Aneta Afelt, pesquisadora da Universidade de Varsóvia, na Polônia, descrevem como os altos índices de destruição florestal nos últimos 40 anos na Ásia eram um indicativo de que a próxima doença infecciosa grave poderia sair dali.

Para chegar a essa conclusão, Afelt seguiu o rastro de pandemias prévias provocadas por outros coronavírus, como a da Sars, em 2002 e 2003, com taxa de mortalidade de 10%, e a Mers, em 2012, que matou 38% das vítimas infectadas.

“Por ser uma das regiões do mundo onde o crescimento populacional é mais intenso, onde as condições sanitárias permanecem ruins e onde a taxa de desmatamento é mais alta, o Sudeste Asiático atende a todas as condições para se tornar o local de emergência ou reemergência de doenças infecciosas”, afirmou Afelt num artigo de 2018.

Tais condições não se aplicam apenas a essa parte do mundo. Na Amazônia, onde em 2019 o desmatamento bateu o recorde desta década, com 9.762 km² destruídos, e os alertas de desmatamento aumentaram 51,4% entre janeiro e março de 2020 em relação ao período anterior, o cenário é parecido.

O risco que vem da Amazônia

Tourinho não gosta nem de pensar sobre o impacto na saúde pública se a destruição da Floresta Amazônica seguir o ritmo acelerado. “Se a Amazônia virar uma grande savana, não dá nem para imaginar o que pode sair de lá em termos de doenças. É imprevisível”, diz a pesquisadora. “Além de ser importante para nós por causa do clima, da fauna, ela é importante para nossa saúde.”

Estudos feitos no país já traçaram a relação direta entre o corte da Amazônia e o aumento de doenças. Em 2015, por exemplo, uma equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou que, para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentavam 23%.

A pesquisa foi feita com dados de 773 cidades no Projeto de Monitoramento de Desmatamento da Amazônia, de 2004 a 2012. Além da malária, a incidência de leishmaniose também se mostrou diretamente relacionada ao desmatamento.

“A floresta fechada é como um escudo para que comunidades externas entrem em contato com animais que são hospedeiros de micro-organismos que causam doenças. E quando a gente fragmenta a floresta, começa a fazer vias de entrada no seu seio, isso é uma bomba-relógio”, conclui Tourinho, mencionando ainda o perigo trazido por grandes empreendimentos, como hidrelétricas na Amazônia.

O entra e sai da floresta fragmentada para tirar madeira, colocar gado, abrir garimpo também é apontado como um perigo para a saúde. “As pessoas que entram nessas áreas podem ter contato com esses vírus e levar dentro delas o problema para centros urbanos”, exemplifica Tourinho.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

Nesse cenário, indígenas conseguem ser mais resistentes devido ao convívio por séculos com a floresta intocada, pontua a pesquisadora.

“Quando esses vírus chegam às cidades, a disseminação é muito rápida, justamente por toda a facilidade de deslocamento nesses centros, possibilidade de deslocamentos internacionais. As cidades repetem o mesmo estilo de confinamento que a gente faz com os animais e são gatilhos para proliferação de doenças contagiosas”, acrescenta a bióloga.

Uma dessas rotas pode explicar a origem da pandemia do Sars-Cov-2. A covid-19, doença respiratória provocada pelo coronavírus, infectou mais de 2 milhões de pessoas e matou mais de 128 mil no mundo, segundo dados atualizados pela Universidade Johns Hopkins.

Pandemia avança na Amazônia e ameaça povos indígenas

Uma tragédia está em curso nas áreas mais remotas do Brasil: coronavírus se espalha rapidamente por aldeias e mata mais de 260 indígenas. Falta de plano do governo e presença de invasores aumentam drama.

Foto DW

Com menos de dois meses de vida, o bebê S.D, da etnia kalapalo, está internado numa UTI neonatal em Cuiabá, Mato Grosso, para que tenha chances de sobreviver à covid-19. O recém-nascido é mais um infectado pelo novo coronavírus dentro da Terra Indígena Xingu – a primeira a ser criada no Brasil, em 1961.

“Os parentes [como indígenas se referem a outros indígenas] estão muito assustados. A gente sabia que, quando a covid-19 chegasse, a gente não teria estrutura. É muito triste o que está acontecendo”, diz Watatakalu Yawalapiti, liderança na TI Xingu.

Devido à gravidade do caso, a Justiça atendeu a um pedido do Ministério Público Federal e obrigou o governo do estado a remover o bebê para algum hospital público ou particular. A transferência ocorreu na última quinta-feira (11/02), três dias depois da decisão judicial.

Além do recém-nascido, pelo menos dois outros casos de covid-19 foram confirmados entre os indígenas do Xingu. Para evitar uma disseminação mais rápida, lideranças tentam isolar as aldeias e pregar o distanciamento social, o que é antinatural na cultura indígena, totalmente baseada na coletividade. No estado, a primeira vítima da doença foi um bebê da etnia xavante, de oito meses.

“Temos que proteger os parentes porque não temos apoio do governo, que é ausente. Pedimos muitas vezes que colocassem barreiras sanitárias, mas não aconteceu até agora”, afirma Yawalapiti.

Aterrorizados com o avanço da pandemia nos territórios isolados, eles clamam por apoio. “A gente está pedindo socorro”, diz Eliane Xunakalo, da Fepoimt (Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso).

“Não podemos esperar que os povos sejam dizimados, extintos, como já aconteceu no passado. A gente não pode contar com governo federal, porque para ele não é interessante que a gente receba ajuda”, afirma Xunakalo.

Contrário à demarcação de terras indígenas, o presidente Jair Bolsonaro repete desde sua campanha eleitoral que tem intenção de autorizar atividades econômicas, como mineração e monocultura, nos territórios.

Desde o início da pandemia, 264 indígenas morreram vítimas do novo coronavírus, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), atualizados nesta quinta-feira. A maior parte dos casos ocorrem em Amazonas (133), Pará (52) e Roraima (29).

Em todo o país, o número de mortos ultrapassa a marca de 40 mil.

Experiência contra outros vírus

No Vale do Javari, Amazonas, região conhecida por abrigar o maior número de referências de povos isolados no mundo, algumas medidas de prevenção que surgiram depois dos primeiros contatos com o homem branco foram resgatadas em nome da sobrevivência.

Na década de 1980, a chegada às aldeias de funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio) significava também a chegada do vírus da gripe. “Era uma gripe simples, mas era um desastre para nós”, comenta Beto Marubo, do Movimento Indígena do Vale do Javari, sobre o contato fatal para os povos.

Naquela época, quando os agentes entravam nas aldeias, indígenas, em pequenos grupos, se “mudavam” temporariamente para a floresta para evitar o contágio. Três semanas depois, depois de uma espécie de quarentena, os visitantes não eram mais considerados perigosos para transmitir vírus.

“Agora, com a pandemia, alguns povos reativaram esse costume. Existem algumas iniciativas do tipo entre os kanamari, mayoruna (ou matsés) e sobretudo marubo. Eles fazem um acampamento afastado e ficam distantes”, detalha.

Na região chamada de Médio rio Javari, a covid-19 entrou no território com três técnicos de enfermagem infectados – agora já são 14 casos positivos. “Há informações de que há equipes que estão sendo removidas de outras regiões com diagnóstico positivo da doença”, relata Morubo.

O território de 8 milhões de hectares tem 67 aldeias espalhadas pela Floresta Amazônica. “Não há infraestrutura para tratar pacientes em caso de surto. Os indígenas do Vale do Javari estão sob risco grave. Precisamos de medidas efetivas do governo”, argumenta Morubo.

Covid chega de avião

No Pará, o vírus também circula por territórios remotos. Há casos, por exemplo na TI Tumucumaque, onde só se chega de avião. Na região, onde vivem indígenas de diversas etnias, povos isolados habitam a floresta.

“Não podemos esquecer que a doença também chega através das invasões de terra diante da situação que o país está vivendo, com esse governo genocida, que é a favor de madeireiros, de mineração em terras indígenas”, pontua Puyr Tembé, vice-presidente da Fepipa, Federação dos Povos Indígenas do Pará.

No estado, há mais de 250 casos entre indígenas xikrin numa aldeia de difícil acesso, relata Tembé. Entre os munduruku, etnia mais numerosa no Pará, a situação é tida como grave.

Na TI Yanomami não é diferente. “Nós estamos sofrendo junto com o mundo, com os indígenas e não indígenas”, diz Dário Kopenawa, da Hutukara Fundação Yanomami.

Com o apoio de pesquisadores, a fundação contabilizou 82 casos de covid-19, com quatro mortes confirmadas e outras quatro suspeitas.

Como forma de combate à doença, os yanomami buscam a expulsão dos garimpeiros. “Fora garimpo, fora covid. É a mensagem para as autoridades e para o mundo inteiro também. É dever do governo brasileiro expulsar os mais de 20 mil garimpeiros que invadiram nossa terra”, afirma Kopenawa, sobre os detalhes da petição que busca apoio de 350 mil assinaturas.

Dinamam Tuxá, da diretoria da Apib, critica a falta de um plano para frear o novo coronavírus. “Não vemos um plano estrutural do governo para evitar que um genocídio aconteça”, diz por telefone à DW Brasil.

A cada notícia que chega das aldeias, a angústia aumenta. “É desesperador. Recebemos áudios dizendo que mais um morreu, e mais um… Ficamos arrasados. A gente não percebe um senso de humanidade dos nossos políticos. Pouco importa a vida das pessoas, pouco importa a vida dos indígenas”, desabafa.

Nenhum porta-voz da Funai foi encontrado para comentar o assunto.

Rastro do coronavírus na Ásia intriga cientistas

Os habitantes do extremo oriente, em países como Japão, Tailândia e Mongólia, parecem menos vulneráveis à covid-19.

Moradores de máscara num mercado em Tóquio: vírus teve baixa letalidade no país

Especialistas se debruçam em questões genéticas e de comportamento para tentar entender por quê.

“Mindo” – uma palavra em japonês que pode ser traduzida como “nível superior cultural”. É assim que o ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, um nacionalista convicto de 79 anos, responde à questão de por que o país tem relativamente poucas vítimas de covid-19.

A estação de TV TBS, por sua vez, especula que a língua japonesa é menos propensa à geração de gotículas de saliva, potenciais transmissoras do vírus, por ter menos das chamadas consoantes plosivas, pronunciadas pela expiração do ar.

Muitos japoneses também estão convencidos de que sua boa alimentação os mantém mais protegidos contra o coronavírus.

Todas essas teorias não explicam por que as taxas de infecção e morte são relativamente baixas não apenas no Japão, mas em toda a Ásia.

A China relatou três mortes por milhão de habitantes, e o Japão sete. O Paquistão registrou seis, e Coreia do Sul e Indonésia, cinco. Taiwan, Vietnã, Camboja e Mongólia não têm registro de mortes. Como comparação: a Alemanha registrou 100 mortes por milhão de habitantes, os EUA quase 300, e Reino Unido, Itália e Espanha mais de 500.

Os diferentes números de teste e métodos de contagem por si só não fornecem justificativa suficiente para esta grande lacuna. Por exemplo, a Coreia do Sul testou seus cidadãos em massa em estacionamentos, enquanto o Japão por muito tempo só testava pacientes com quatro dias de febre e pessoas que tiveram contato com infectados.

Outros costumes em muitos países asiáticos, como cumprimentar e dizer adeus sem apertar a mão, também não podem ser tratados como fator decisivo no caso de um vírus transmitido pelo ar. A ciência agora se concentra em outras diferenças entre Ocidente e Oriente, a fim de melhor conter o vírus globalmente.

Mais infeccioso por mutação

Por exemplo, pesquisadores do Instituto Japonês de Doenças Infecciosas descobriram que o vírus Sars-CoV-2 sofreu modificações genéticas em sua distribuição regional. As primeiras infecções no Japão e no cruzeiro marítimo “Diamond Princess” no porto de Yokohama foram claramente derivadas do coronavírus de Wuhan, na China.

Mas a segunda onda de infecção no Japão, a partir de abril, foi devido a um vírus que entrou no país com viajantes vindos da Europa. Uma pesquisa da Universidade de Cambridge confirmou este resultado. Uma equipe de pesquisa americana do Laboratório Nacional de Los Alamos estuda a possibilidade de que uma mutação poderia ter tornado o vírus mais contagioso na Europa e na América.

Em meio à discussão, o professor Tatsuhiko Kodama, médico da renomada Universidade de Tóquio, chamou a atenção para os estudos do Instituto La Jolla de Imunologia da Universidade da Califórnia. De acordo com esses estudos, muitas pessoas na Ásia Oriental aparentemente possuem anticorpos eficazes contra o novo coronavírus. Segundo o especialista, muitos vírus influenza e corona do passado tiveram origem no sul da China e causavam resfriados virais nos países vizinhos.

“Portanto, seu sangue contém glóbulos brancos que podem combater vírus relacionados, como o Sars-CoV-2”, afirma Kodama. A resposta imunológica não é perfeita, comenta ele, mas o corpo dessas pessoas pode lidar com uma certa quantidade de um tipo similar de vírus.

Tasuku Honjo, prêmio Nobel de Medicina, pensa de forma semelhante. As pessoas na Ásia, afirma ele, são muito diferentes das ocidentais no que se refere a genes que controlam a resposta do sistema imunológico a um vírus.

Isso não quer dizer, alerta o médico Kodama, que o povo da Ásia Oriental está seguro. Um vírus mutante pode ser tão mortal para a população do Extremo Oriente quanto da Europa.

O fator obesidade

Outra explicação popular no Japão para as diferenças entre Oriente e Ocidente é menos convincente. Diz que as pessoas do leste asiático estão mais bem protegidas contra a tuberculose por causa da vacinação compulsória, que geralmente fortalece o sistema imunológico contra vírus em geral, enquanto a chamada vacina BCG é apenas voluntária em muitos nos países ocidentais.

Mas desbanca essa tese o fato de as taxas de vacinação BCG na França serem tão altas quanto no Japão, enquanto as taxas de mortalidade francesas para o covid-19 serem muito mais altas.Coronavirus,Epidemia,Brasi,China,Blog do Mesquita 2

A afirmação do ministro das Finanças nacionalista japonês de que o Japão é “culturalmente superior” ao Ocidente se refere provavelmente não só ao uso voluntário generalizado de máscaras, mas também ao nível geralmente mais elevado de saúde pública.

Apenas 4% dos japoneses e 5% dos sul-coreanos são obesos. De acordo com dados da OMS, esta taxa é superior a 20% na Europa Ocidental e mais de 36% nos EUA. Mas não há evidências científicas até o momento para uma correlação direta entre a taxa de mortalidade por sars-CoV-2 e a alta obesidade.

As surpreendentes semelhanças entre o coronavírus e a peste bubônica

As surpreendentes semelhanças entre o coronavírus e a peste bubônica


Um mosaico do século VI do governante bizantino Justiniano e sua corte na igreja de San Vitale em Ravena, Itália.

Novas pesquisas da Universidade de Barcelona analisam os paralelos entre a atual pandemia e a doença que varreu o Império Bizantino, 1.500 anos atrás.

A pandemia se originou em uma terra estrangeira e se estendeu rapidamente por todos os portos onde os passageiros infectados chegaram – assintomáticos ou não. Não havia cura médica disponível para detê-lo, todos os residentes estavam confinados em suas casas para evitar o contágio, a economia paralisada, o exército foi mobilizado nas ruas, os médicos exaustos trabalhavam até os ossos e havia milhares de diários. vítimas cujos corpos ficaram sem enterro “por dias a fio, porque escavadores não podiam trabalhar rápido o suficiente …”

Este não é um relato da pandemia de coronavírus de 2020. É a crônica fornecida pelo historiador Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que ocorreu no mundo conhecido entre 541 e 544, sob o imperador bizantino Justiniano I. A doença varreu vasto território, da China às cidades portuárias da Hispânia, como os romanos chamavam de Península Ibérica.

Uma epidemia eclodiu que quase acabou com toda a raça humana e que é impossível encontrar uma explicação para as palavras.

PROCÓPIO HISTÓRICO DE CAESAREA

Um novo estudo chamado La Plaga de Justinià, Segons el Testimoni de Procopi (ou A praga de Justiniano segundo o testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, ​​acrescenta nova relevância a esse conto antigo escrito 1.500 anos atrás.

“A partir de 1º de abril de 2020, certas semelhanças e paralelos observados no comportamento humano em relação a um vírus e suas conseqüências parecem tão familiares e contemporâneas que, apesar da tragédia que todos estamos enfrentando pessoalmente, permanece uma fonte de espanto como a história se repete. Escreve este arqueólogo e historiador Sales Carbonell, que trabalha no Instituto de Pesquisa de Cultura Medieval da universidade.

No ano 541, sob o governo bizantino Justiniano, houve um surto de peste bubônica no império. “O alarme soou no Egito, de onde a infecção se expandiu rápida e letalmente.” Procópio refletiu isso em seu livro History of the Wars, onde contou as campanhas militares de Justiniano na Itália, norte da África e Hispânia, e como os soldados espalharam a doença pelos portos onde pararam – fundamentalmente na Europa, norte da África, Império Sasaniano (Pérsia). ) e de lá até a China.

Como consultor jurídico de Belisarius, principal comandante militar de Justiniano, Procópio acompanhou as campanhas deste último e, assim, tornou-se uma “testemunha privilegiada” dos efeitos de uma pandemia que passou a ser conhecida como a Praga de Justiniano.

Continua sendo uma fonte de espanto como a história se repete.

“Surgiu uma epidemia que quase acabou com toda a raça humana e é impossível encontrar uma explicação com palavras, nem mesmo com pensamentos, exceto para atribuí-la à vontade de Deus”, escreveu Procópio.

“Essa epidemia não afetou uma porção limitada da Terra, nem um conjunto específico de homens, nem foi reduzida a uma estação específica do ano […], mas se espalhou e atacou toda a vida humana, não importa quão diferente os indivíduos podem ser, sem levar em conta a natureza ou a idade. ” A doença atingiu “todos os cantos do mundo, como se tivesse medo de perder um lugar”.

Um ano após a primeira detecção, a praga atingiu a capital do império, Bizâncio (atual Istambul), devastando-a por quatro meses. “Houve confinamento e isolamento completos”, escreve Sales Carbonell em seu estudo. “Era absolutamente obrigatório para pessoas doentes. Mas havia também um tipo de autocontrole espontâneo e intuitivamente voluntário, amplamente motivado pelas circunstâncias. ”

“Não foi nada fácil ver alguém em espaços públicos, pelo menos em Bizâncio; em vez disso, todos que estavam saudáveis ​​estavam em casa, cuidando dos doentes ou chorando por seus mortos ”, escreveu Procópio.

Enquanto isso, a economia estava em queda livre. “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todo o trabalho que estavam fazendo”. Ao contrário de hoje, no entanto, as autoridades não conseguiram garantir o fornecimento de serviços essenciais. “Parecia muito difícil obter pão ou qualquer outro tipo de alimento, de modo que, no caso de alguns pacientes, o fim de sua vida foi sem dúvida prematuro devido à falta de itens essenciais”, escreveu Procópio em History of the Wars .

“Muitos morreram porque não tinham ninguém para cuidar deles”, acrescentou. Os cuidadores da época “caíram de exaustão porque não conseguiam descansar e estavam sofrendo constantemente. Por causa disso, todos sentiram mais pena deles do que dos doentes.”

Patrulhas nas ruas
À luz da situação desesperadora, o imperador enviou grupos de guardas do palácio para patrulhar as ruas e os corpos de pessoas que morreram sozinhos foram enterrados às custas dos cofres imperiais, escreveu o historiador. Até o próprio Justiniano foi vítima da praga, mas ele a superou e continuou a reinar por mais de uma década.

Os picos de mortalidade aumentaram de 5.000 para 10.000 vítimas por dia e mais, de modo que, “embora, a princípio, todos cuidassem de seus mortos em casa, o caos se tornou inevitável e cadáveres também foram jogados dentro dos túmulos de outros, furtivamente ou usando violência. ” Com o tempo, os corpos começaram a se acumular dentro das torres e não havia serviços funerários para eles.

Quando a pandemia finalmente terminou, uma coisa positiva surgiu.

“Os que apoiaram as várias facções políticas abandonaram as acusações mútuas. Mesmo aqueles que haviam sido dados anteriormente a atos baixos e maus abandonaram todo o mal em suas vidas cotidianas, porque uma necessidade imperiosa os fez aprender sobre a honestidade ”, escreveu Procópio.

“Esse elemento da poesia oferece um pouco de esperança de que talvez possamos superar isso e não tropeçar novamente na mesma pedra”, diz Sales Carbonell, parecendo mais esperançoso do que seguro de si.

Covid-19; A pandemia não é um desastre natural

O coronavírus não é apenas uma crise de saúde pública. É ecológico.

Celeiros cheios de animais são bons lugares para criar patógenos. Dentro da previsibilidade uniforme da agricultura moderna, o imprevisível emerge.

Nos velhos tempos – isto é, algumas semanas atrás – eu costumava compartilhar minhas manhãs com meu vizinho Wesley. Nós nos cumprimentávamos com um abraço, depois atravessávamos a rua para o terreno do jardim que compartilhamos, em um bairro arborizado de Washington, DC O jardim costumava ser um aterro, deixado para trás quando uma fileira de casas foi demolida por algumas décadas atrás.

Durante muitos meses, melhoramos o solo com composto de cozinha e cobertura vegetal habitada por uma multidão de micróbios, insetos e vermes. Durante a primavera incomumente quente deste ano, plantamos algumas mudas, colhemos couve e mostarda e preparamos uma salada fresca para o almoço. Wes e eu crescemos próximos dessas rotinas, apesar de estar nos meus cinquenta e poucos anos e nos seus vinte e poucos anos e compartilharmos pouco em comum além de um pequeno conjunto de território urbano.

A maioria das metáforas que temos para falar sobre o nosso mundo biológico não corresponde a esse modelo de cooperação. O pensamento darwiniano – ou a versão popular dos desenhos animados – nos ensina o conceito de competição interminável entre o “adequado” e o “inapto”. As religiões abraâmicas nos dizem que os seres humanos receberam a terra e suas criaturas para governar.

A mitologia americana incentiva o individualismo empreendedor. Mas Wesley e eu não competimos por espaço em nosso pequeno canteiro elevado; em vez disso, compartilhamos micróbios do ar e do solo, expelindo-os pela respiração e limpando-os nas mãos e, posteriormente, ingerindo-os. Com nossas ações, formamos uma comunidade, tanto no sentido social quanto microbiano.

As redes microbianas uniram os espaços entre seres humanos e outras espécies durante toda a nossa história. Muito antes que alguém soubesse o que era um organismo unicelular, as práticas culturais maximizavam a troca de micróbios: quando as pessoas cultivavam, procuravam alimento, cuidavam do gado, fermentavam sua comida, mergulhavam as mãos em tigelas comuns e se cumprimentavam com um toque. em rituais que os uniam a seus vizinhos e outros organismos.

Provavelmente não foi acidental. Uma abundância de evidências mostra que, quando compartilhamos micróbios com outras pessoas e organismos, nos tornamos mais saudáveis, melhor adaptados ao nosso ambiente e mais sincronizados como uma unidade social.⁠

A interconexão de nossas vidas biológicas, que se tornou ainda mais clara nas últimas décadas, está nos levando a reconsiderar nossa compreensão do mundo natural. Acontece que a familiar taxonomia linineana, com cada espécie em seu próprio ramo distinto da árvore, é muito sutil: os líquenes, por exemplo, são constituídos por um fungo e uma alga tão fortemente ligada que as duas espécies criam um novo organismo isso é difícil de classificar. Os biólogos começaram a questionar a idéia de que cada árvore é um “indivíduo” – pode ser entendida com mais precisão como um nó em uma rede de trocas no submundo entre fungos, raízes, bactérias, líquen, insetos e outras plantas.

A rede é tão complexa que é difícil dizer onde um organismo termina e o outro começa. Nossa imagem do corpo humano também está mudando. Parece menos um vaso autônomo, definido pelo código genético de uma pessoa e controlado pelo cérebro, do que como um ecossistema microbiano que varre as correntes atmosféricas, coletando gases, bactérias, fungos, esporos de fungos e toxinas transportadas pelo ar em suas redes.

No meio do surto de coronavírus, essa idéia de um corpo como um conjunto de espécies – uma comunidade – parece recentemente relevante e perturbadora. Como devemos nos proteger, se somos tão porosos? As pandemias são inevitáveis ​​quando os seres vivos estão tão unidos numa esfera planetária densa?

A história da civilização depende da construção e demolição de fronteiras entre espécies. A agricultura inicial desconsiderava a maior parte do mundo natural, a fim de cultivar apenas as plantas e animais mais produtivos; isso permitiu que as populações crescessem e as cidades prosperassem. Mas as colheitas e o gado, uma vez concentrados em um local e cultivados em monoculturas, tornaram-se vulneráveis ​​a doenças. À medida que as cidades e as operações agrícolas cresciam, pessoas e animais se aproximavam. O resultado foi uma nova ordem epidemiológica, na qual as doenças zoonóticas – aquelas que poderiam pular de animal para humano – prosperaram.

A princípio, essas doenças permaneceram confinadas aos locais de origem. Então a globalização chegou. John McNeill, historiador ambiental da Universidade de Georgetown, especula que a primeira onda do surto de cólera de 1832-33 foi a primeira verdadeira pandemia; alcançava todos os continentes habitados pegando carona em caravanas e navios. Mais infecções se seguiram, muitas vezes afetando as culturas das quais as pessoas dependiam para comer. No início do século XIX, as plantas de batata na América do Sul sofreram uma praga; o culpado, um molde chamado Phytophthora infestans, navegou para a Irlanda em 1845, onde levou a um milhão de mortes. Nos anos 1860, um pequeno inseto parecido com um pulgão chamado filoxera migrou dos Estados Unidos para a Europa, quase destruindo a indústria vinícola francesa; na década de 1960, a doença do Panamá erradicou a banana comercial favorita do mundo, a Gros Michel. Em 1970, o fungo Bipolaris maydis dizimou o American Corn Belt antes de se espalhar pelo mundo; outra infecção fúngica, a ferrugem do trigo, causou inúmeras fomes em todo o mundo.

E, no entanto, as vantagens da agricultura industrial eram difíceis de resistir. Nos anos noventa e cinquenta, a Revolução Verde produziu tantas colheitas de cereais que os Estados Unidos começaram a doar alimentos; quando suas técnicas foram exportadas para o resto do mundo, eles desativaram a “bomba populacional”. Nos anos sessenta, a Revolução Pecuária liderada pelos Estados Unidos integrou verticalmente a produção de produtos de origem animal, criando um aumento paralelo no consumo de carne. Na década de setenta, grandes empresas de aves produziam tantas galinhas que precisavam inventar novos produtos – nuggets de frango, salada de frango, alimentos para animais à base de frango. Grandes corporações compraram produtores locais de aves, suínos e bovinos; os confinamentos cresceram para o tamanho de feiras; galinheiros empoeirados em shoppings de bairro. As fazendas passaram de pequenas operações com uma média de setenta galinhas a fábricas que abrigavam trinta mil aves. Nos anos 80, com a Revolução Azul, a criação industrial de peixes também se expandiu. De 1980 a 2018, a produção global de animais para consumo cresceu cerca de uma vez e meia mais rapidamente que a população mundial.

Coronavírus: os depósitos secretos da Guerra Fria que agora abastecem a Finlândia na pandemia

Em meio à crise do novo coronavírus, inúmeros países buscam desesperadamente, em todo o mundo, formas de garantir o fornecimento confiável e constante de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Alguns trocam acusações e afirmam que há nações negociando sorrateiramente para adquirir esses itens, por meio de suas forças econômicas.

Enquanto muitos buscam intensamente esses EPIs, a Finlândia não foi pega desprevenida na pandemia.

Isso porque graças à Agência Nacional de Suprimentos de Emergência do país nórdico (HVK, em suas siglas em finlandês), a Finlândia passou décadas armazenando suprimentos em locais secretos em todo o seu território. Essa foi uma forma encontrada por autoridades locais para enfrentar todos os tipos de crises: como guerras, problemas econômicos ou climáticos, ataques tecnológicos ou dificuldades sanitárias.

Em 23 de março, o Ministério de Assuntos Sociais e de Saúde — que supervisiona a HVK — declarou que, nas atuais condições de emergência por coronavírus, é justificável disponibilizar os suprimentos médicos e equipamentos de proteção que estão armazenados há décadas.

Equipamentos velhos, mas funcionais

Desde a época da Guerra Fria (1947-1991), o país nórdico não usava essas reservas, que também incluem alimentos, combustível, ferramentas agrícolas e até suprimentos para a produção de armas.

Empregados de uma farmácia da Finlândia com proteçõesDireito de imagemGETTY IMAGES
Na Finlândia não há falta de equipamentos de proteção pessoal

Em decorrência do novo coronavírus, o ministério pediu à HVK que descentralizasse suprimentos médicos e equipamentos de proteção individual para os cinco distritos hospitalares da Finlândia, iniciando assim uma cadeia de distribuição que atingirá todas as áreas que precisam desses serviços de saúde e bem-estar.

Um comunicado encaminhado à BBC News Mundo pelo Ministério de Assuntos Sociais e de Saúde afirma que a Finlândia está bem preparada para a pandemia, com “uma boa quantidade de equipamentos de proteção pessoal necessários para examinar e tratar os pacientes com coronavírus”.

Estes suprimentos estão disponíveis por todo o país e podem ser transferidos para cada região conforme a necessidade — as áreas com mais casos devem receber mais itens.

Além dos hospitais que possuem novos itens, a Finlândia também têm em seus estoques de EPIs um depósito de emergência com os itens antigos, que, segundo apuração do Centro de Verificação Finlandês em fevereiro deste ano, estão em boas condições.

Máscaras em armazém de abastecimento de emergência na FinlândiaDireito de imagemHVK
As máscaras são antigas, mas se mantêm em bom estado de funcionamento e com a mesma eficácia das novas, apontam autoridades da Finlândia

“Temos seguido as instruções de armazenamento do fabricante, mantendo os protetores limpos, como se estivesem nas fábricas, em suas embalagens originais, a uma temperatura ambiente constante e protegidos da umidade e da luz”, disse Jyrki Hakola, diretor do Departamento de Produção Básica da HVK.

O país está cogitando a possibilidade de lançar a sua própria produção de suprimentos médicos para complementar o que já possui e o que tem conseguido obter nos mercados internacionais.

A história justifica as medidas

O então Ministério de Abastecimento de Emergência do país foi criado no fim de 1939, no início da Segunda Guerra Mundial.

Porém, desde os anos 1920, o país nórdico estudava a aplicação e o armazenamento de suprimentos de emergência em vários setores da economia em caso de guerra.

A história da Finlândia e sua localização justificam a preocupação de antigas autoridades em relação ao tema. O país foi parte do Império Russo de 1809 a 1939, depois que o czar capturou a região, que anteriormente era parte da Suécia.

Exército russo penetra fronteira com a FinlândiaDireito de imagem GETTY IMAGES
O exército russo penetrou a fronteira com a Finlândia em 1939, na chamada Guerra de Inverno

Depois que o país conquistou a independência, os conflitos continuaram ao longo da extensa fronteira com o que já era a União Soviética, com a qual entrou na guerra em 1939 e logo foi invadida pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Depois disso, veio a Guerra Fria e, como parte das tensões entre o Ocidente e o Oriente, a Finlândia era a mais vulnerável entre a maioria de seus aliados.

Quando a cortina de ferro caiu, o resto da Europa relaxou. A Finlândia, porém, não diminuiu seus esforços para reunir recursos básicos para enfrentar ameaças.

Em 1993, o país criou formalmente a HVK para continuar o abastecimento, pensando em outras possíveis crises, como a climática, a sanitária, a de ataques cibernéticos. As necessidades de armazenamentos deveriam ser revistas a cada cinco ou seis anos.

“Nós, da Finlândia, temos sorte no sentido de que continuamos com esse trabalho de armazenamento desde o período pós-guerra e nos preparamos para isso em um bom nível”, disse Jyrki Hakola ao jornal Helsingin Sanomat. “Não existe nenhum sistema igual ao nosso em nenhuma parte da Europa”, acrescentou.

Todas as informações relacionadas aos sites e conteúdos que o país possui armazenados são classificados como “segredo de Estado”. “Nunca divulgamos o número ou a localização das reservas”, explicou ele ao jornal. “Também não divulgamos quem os administra ou qual é o seu conteúdo exato”.

Sem detalhar, Hakola revelou que os suprimentos são muitos e estão espalhados por todo o país, embora não tenham sido usados com muita frequência.

“É a primeira vez na história do pós-guerra que tomamos equipamentos de proteção das nossas reservas para proteções de saúde”.

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Educação à distância; desafio imposto pelo coronavirus

Crianças, adultos e escolas ainda tentam adaptar suas novas rotinas de estudos em casa.

Direito de imagemREUTERS/AMANDA PEROBELLI

“Alunos: ‘Tia, mandei uma mensagem no chat’. ‘Tia, tem gente com áudio e vídeo ligados’. ‘Tia, qual é a página mesmo?’. Um minuto depois. ‘Tia, cheguei agora, qual é a página mesmo?’. ‘Tia, não vou responder não’. ‘Tia, tem de ser o que está escrito aqui embaixo?’. ‘Tia, I´m over’.

Tia: Cheguei, gente. Demorou porque não tava conseguindo entrar.”

Esses foram os dez primeiros minutos da aula remota de inglês de Vicente, 9, aluno de uma escola particular no Espírito Santo, narrados por seu pai Fabio Malini no Facebook. Sobrariam 15 minutos para fazer a atividade de leitura em si, e outros dez minutos para o encerramento da aula:

“Aluno: Ai, tia, às vezes você está ficando verde no vídeo. A imagem fica estranha.’

Tia: ‘Ai, tô virando Hulk. KKKKK Gente, a (aluna). voltou. Você está aí? Vamos corrigir o exercício, então…

Aluno: ‘Posso falar no lugar de A., tia?’

Tia: ‘Espera aí um pouquinho’.

Aluno: ‘Deixa eu, tia.’

Tia: ‘Eu, quem?’

Aluno: ‘Eu. J’.

Tia: ‘Tá bom. Então, o resultado das palavras circuladas é isso. Gente, nossa aula acabou!'”

As circunstâncias um pouco caóticas e improvisadas talvez soem familiares para muitos pais e filhos diante das primeiras tentativas de aulas online de suas escolas. O mesmo vale para professores, muitos dos quais estão pela primeira vez se aventurando no ensino à distância ou online, e conciliando isso com o cuidado de seus próprios filhos em casa.

Não são poucas as famílias do mundo vivendo circunstâncias parecidas em meio à pandemia do novo coronavírus. Segundo a Unesco (braço da ONU para educação), até 25 de março, 165 países haviam fechado suas escolas por causa da pandemia, interrompendo as aulas presenciais de 1,5 bilhão de estudantes e mudando a rotina de 63 milhões de professores de educação básica.

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Unesco estima que 1,5 bilhão de crianças estejam sem aulas regulares em escolas; acima, menina estudando em casa na Eslováquia
Não há nenhum precedente para isso na história.

No Brasil, as respostas para a situação têm sido diversificadas, a depender de cada rede ou escola. Algumas anteciparam as férias e se preparam para estruturar ensino à distância caso a quarentena se estenda, que é o mais provável; outras já estão, em diferentes graus e com diferentes métodos, produzindo conteúdo e enviando tarefas e aulas para os alunos fazerem de casa.

Na rede pública, Estados e municípios preparam aulas virtuais ou via transmissões de televisão aberta, às vezes complementadas por material enviado às casas dos alunos pelo correio ou transporte escolar. Alguns montam grupos de WhatsApp com alunos e professores, trocando vídeos e áudios com atividades.

Na quinta-feira (16), o governo de São Paulo afirmou que o período letivo para os 3,5 milhões de jovens matriculados na rede estadual paulista recomeça em 27 de abril, com aulas ao vivo e vídeoaulas, mesmo para estudantes que não tenham 4G em casa ou no celular.

Experiência no ensino superior
Até agora o Brasil só tinha a experiência de ensino à distância (ou EaD) na educação superior. E, embora as perspectivas sejam de crescimento nesse setor – no qual predominam as instituições privadas de ensino -, os resultados até agora não são todos satisfatórios.

Segundo o mais recente Censo da Educação Superior, feito pelo Inep (órgão do Ministério da Educação), em 2018, pela primeira vez na história, o número de vagas ofertadas em cursos universitários à distância (7,1 milhões) foi maior do que o número de vagas em cursos presenciais (6,3 milhões).

Mas o que espanta é a ainda baixa quantidade de estudantes que conseguem se formar. Em 2018, o Brasil teve 990 mil formandos universitários no ensino presencial, menos da metade da quantidade (2 milhões) de alunos que se matricularam em universidades presenciais naquele mesmo ano.

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Jovens da Costa do Marfim tendo aulas pela televisão, que está sendo usada por redes estaduais e municipais do Brasil para chegar aos alunos
No ensino à distância, isso cai para um quinto: houve apenas 274 mil alunos formandos, em comparação com os 1,3 milhão que se matricularam no mesmo ano.

“Muita gente se matricula achando que o curso à distância vai ser mais fácil, porque o professor não vai estar lá todos os dias”, diz Fredric Litto, presidente da Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed) e professor emérito da USP.

“Quando na verdade é mais difícil, porque depende da motivação e da maturidade do aluno” em se dedicar o suficiente aos estudos sem a presença física dos docentes, agrega.

Do lado das instituições de ensino, o avanço da EaD foi uma forma de ganhar escala e baratear os cursos, deixando-os mais acessíveis a alunos distantes ou de baixa renda. O problema, diz Litto, é que “uma boa porcentagem das escolas fez isso para baratear (o ensino) e ganhar mais dinheiro, demitindo, por exemplo, o corpo docente com doutorado, que é mais caro de manter. É bom fugir desse tipo de instituição, porque ela provavelmente não vai investir no enriquecimento de seus cursos e materiais e não vai além (do básico).”

Dito isso, Litto acha que o momento atual, que força alunos e professores a ficarem em casa, pode oferecer boas oportunidades para enriquecer o ensino básico com ferramentas de qualidade da educação à distância.

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Como transpor o universo do ensino à distância para a educação básica, período em que a presença física faz enorme diferença no processo de aprendizagem?

‘Melhor lugar para criança é na escola’

Mas, antes, como transpor o universo do ensino à distância para a educação básica, período em que a presença física, o relacionamento com colegas e a proximidade com os professores fazem enorme diferença no processo de aprendizagem?

“Naturalmente, o melhor lugar para a criança é na escola. Não vamos agora ter soluções (que seriam ideais) para os tempos normais, mas vamos poder aprender para aperfeiçoar a educação quando voltarmos aos tempos normais”, diz à BBC News Brasil Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe-FGV), que está assessorando redes estaduais e municipais a se adaptarem às circunstâncias atuais.

Soma-se a isso o fato de que, no Brasil, a qualidade da escola costuma ter o papel de redução – ou, em situações negativas, de aprofundamento – das desigualdades sociais.

Por isso, especialistas em educação temem que estudantes de redes ou escolas menos estruturadas, particularmente em regiões carentes, acabem ficando para trás ou perdendo motivação em estudar e, futuramente, em retomar as aulas presenciais.

“No pior dos cenários, se a escola não tiver estrutura (de criar uma aula online), precisa pelo menos mandar tarefas para o aluno fazer em casa, para não desaquecer o processo de aprendizagem”, opina Costin.

“Neste momento, a única certeza é de que temos de fazer algo para que não aumentem as desigualdades educacionais. Porque muitas escolas particulares estão mandando suas atividades, e nelas estão as famílias com mais letramento” – e, portanto, em teoria com mais facilidade em manter os filhos estimulados no processo de aprendizagem.

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Família em Santo André fazendo educação à distância com as filhas; Conselho Nacional de Educação prepara diretrizes para escolas.

Incertezas das escolas
Por conta da pandemia, o Ministério da Educação permitiu que as escolas não cumpram os 200 dias letivos previstos em lei, desde que mantenham as 800 horas de aula obrigatórias para a educação básica.

Mas como encaixar as horas em um período letivo menor? Todas as aulas online durante a quarentena contarão como dia letivo? Como exigir o mesmo aprendizado de crianças que tenham diferentes condições (de tablets e acesso à internet a escrivaninhas, por exemplo) dentro de casa? Como avaliar, na volta às aulas, o que foi ensinado virtualmente?

Essas perguntas, por enquanto, permanecem sem uma resposta definitiva. O Conselho Nacional de Educação (CNE, órgão independente ligado ao MEC) está preparando uma resolução com orientações às escolas para lidar com esses desafios.

“A grande dificuldade no Brasil, assim como nos demais países, é a situação imprevisível em uma área que não tem tradicionalmente a cultura do digital, do trabalho remoto ou da educação à distância. Isso é novo e complexo para quem trabalha com educação básica nas escolas públicas e particulares”, afirmou Maria Helena Guimarães de Castro, conselheira do CNE, em um seminário virtual realizado em 8 de abril pelo conselho, pela organização Todos Pela Educação e pelo Banco Mundial, para discutir a nova realidade do ensino.

A Unesco, por sua vez, fez um chamado para que instituições educacionais públicas e privadas de todo o mundo sigam uma lista de recomendações em meio à pandemia:

1) preservem empregos e salários dos funcionários, dizendo que “a crise não pode ser um pretexto para baixar os padrões e desmerecer direitos trabalhistas”;

2) priorizem a saúde e o bem-estar de professores e alunos, em meio ao estresse e à crescente exposição da população global ao coronavírus;

3) deem voz aos professores no processo de planejamento das respostas educacionais, além de oferecer-lhes treinamento adequado para lidar com as circunstâncias;

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“A grande dificuldade no Brasil, assim como nos demais países, é a situação imprevisível em uma área que não tem tradicionalmente a cultura do digital, do trabalho remoto ou da educação à distância”
4) coloquem a igualdade no centro dos debates. “Soluções tecnológicas que assegurem a continuidade do ensino frequentemente exacerbam as desigualdades”, afirma documento da Força-Tarefa Internacional de Professores pela Educação, da Unesco. “Educação à remota e virtual só são eficientes para professores, estudantes e famílias com eletricidade adequada, conexão à internet, computadores e tablets, e espaço físico para trabalhar.”

Para alguns dos especialistas ouvidos, diante das deficiências educacionais acumuladas pelo Brasil até mesmo em condições normais e da possibilidade de que não seja possível transmitir todo o conteúdo esperado no modelo virtual, será preciso fazer preparos extras para que a volta às aulas presenciais compense as defasagens.

Isso não significa, porém, que não dê para fazer muito pelos alunos neste momento. A percepção dos educadores ouvidos pela reportagem é de que não apenas é possível ensinar habilidades e conteúdos, como tirar lições que podem melhorar a educação presencial no futuro.

‘Não é só transformar a aula presencial em online’
Para Fredric Litto, da Abed, um erro comum é achar que basta gravar a aula do professor e transmiti-la online para fazer os alunos aprenderem.

“O aluno provavelmente vai ouvir dez minutos e desligar. Não dá para repetir (virtualmente) o ambiente da sala de aula presencial. Tem que fazer algo diferente, e esse ‘diferente’ pode ser enriquecedor e eficaz se for bem feito. O sucesso da aula presencial depende muito da inspiração do professor naquele dia, e a vantagem da boa aula remota é que isso não acontece, se tiver uma equipe por trás, pensando no conteúdo, no audiovisual, na avaliação a ser feita daquilo depois”, afirma.

O curioso é que Litto tem ouvido da filha, que mora na região altamente informatizada do Vale do Silício, na Califórnia, que seu neto de 14 anos está enfrentando desafios semelhantes aos de alunos brasileiros neste momento.

“Nem lá eles estavam preparados”, relata.

Para as escolas e professores que pela primeira vez estão tendo de trabalhar plenamente em ambientes virtuais, Litto sugere pensar em formas de enriquecer o aprendizado com conteúdos interativos e disponíveis para qualquer um que tenha acesso à internet.

“Um professor pode, por exemplo, propor uma atividade com base em uma visita virtual (dos museus) Louvre e Hermitage. Ou com base em arquivos históricos online, filmes de animação, etc. A vantagem é que um aluno do interior (com conexão à internet) pode ter acesso à equipamentos online da USP, mesmo estando longe.”

Direito de imagemREUTERS

Preparar volta às aulas presenciais preocupa especialistas
“O ideal é não só depositar conteúdo e arquivos PDF para as crianças lerem, mas sim estimular pesquisas e pensar em temáticas criativas” para engajar os alunos, sugere Helena Faro, do Instituto Ayrton Senna.

“Uma ideia é estimular as crianças a transformar as situações vividas em casa em histórias em quadrinhos, a partir dos relatos deles próprios. As escolas estão sendo convidadas a pensar em outros tipos de estratégia e projetos que motivem os estudantes a usar o celular para algo além da diversão e das redes sociais”, diz ela.

E para as crianças pequenas, ainda incapazes de se concentrar por muito tempo em uma atividade virtual – e para quem o ensino presencial faz uma diferença ainda maior?

“Tenho visto algumas redes fazerem trabalhos colaborativos interessantes nessa fase, por exemplo, mandando um vídeo do professor pedindo aos alunos pequenos que contem o que gostam de comer ou de fazer. Depois o professor junta as respostas e todos conversam a respeito em uma live de Facebook”, conta Faro.

Na educação infantil, Claudia Costin diz que alguns professores têm usado grupos de WhatsApp para passar orientações aos pais de como realizar atividades com as crianças e bebês. “Depois, uma vez por semana esse professor manda um vídeo individualizado para cada aluno, para manter o contato afetivo entre eles.”

Ir além de conteúdo – e ensinar habilidades
E, se está difícil transpor o ensino de alguns conteúdos para o modelo virtual, o atual momento desafiador – de pandemia e confinamento – pode ajudar a ensinar habilidades importantes às crianças, desde a concentração nos estudos até a autonomia e o hábito de leitura.

Um bom começo, diz Helena Faro, é o letramento emocional, algo que é difícil até mesmo para adultos: aprender a reconhecer e nomear os próprios sentimentos – que, no momento, podem ser tédio, medo e insegurança.

Além disso, “uma habilidade importante atualmente é a de resolução colaborativa de problemas com criatividade. Então as famílias podem envolver as crianças no processo decisório de seu cotidiano, organizando um quadro de tarefas domésticas e estimulando-as a arrumar sua cama e cozinhar”, sugere Costin.

“É também o momento de fortalecer o vínculo familiar, contando histórias de família e lendo para as crianças. Sugiro reservar 20 minutos para que cada um leia um livro, todos juntos, e saia das telas, para lembrar que a leitura é um hábito de lazer.”

Costin sugere, também, “baixar as expectativas”, porque recriar o ambiente de aprendizado da escola em casa vai ser mesmo muito difícil. “O importante é as crianças lembrarem deste período como um de convivência familiar, mais do que um de estresse.”

‘Não vai ser igual volta das férias’
Isso nos leva aos preparativos para a volta às aulas, período que também desperta preocupação em observadores da educação.

“As crianças não vão voltar às aulas como se tivessem voltado das férias”, afirmou no seminário de 8 de abril Priscila Cruz, presidente do Todos Pela Educação. “Muitas vão voltar com marcas do estresse, porque suas famílias terão perdido renda ou terão perdido pessoas queridas durante a pandemia.”

Outras crianças talvez desistam da escola, desmotivadas dos estudos ou forçadas a trabalhar para contribuir para o orçamento doméstico. Assim, muitas escolas terão de se organizar para buscar novamente esses alunos e encontrar formas de manter as turmas engajadas nesse intervalo. Até quando, ninguém sabe por enquanto.

Nesse cenário complexo, opinou Cruz, é primordial que “não deixemos que este seja um ano letivo de faz de conta. Porque o prejuízo disso ao país será gigantesco”.

O que os epidemiologistas aprenderam sobre o coronavírus?

Depois de um mês de medidas de distanciamento social nos EUA, os pesquisadores sabem mais sobre a dinâmica da pandemia, mas os detalhes sobre mortalidade e imunidade permanecem obscuros.

Fotografia por David Dee Delgado / Getty

*Com dados da New Yorker

Justin Lessler, professor de epidemiologia na Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, modela a transmissão de doenças e estuda o novo coronavírus. Há um mês, quando as primeiras mortes confirmadas por cobras-19 ocorriam nos Estados Unidos, conversei com Lessler sobre algumas das descobertas iniciais sobre a doença.

Na terça-feira, liguei para Lessler novamente, para perguntar como o nosso entendimento sobre a covid-19 evoluiu no mês passado e como os epidemiologistas mudaram de opinião sobre os prováveis ​​efeitos da pandemia. Em nossa última conversa, que foi editada para maior clareza e profundidade, discutimos o que sabemos sobre se as pessoas infectadas estão agora imunes, a esperança de que o clima quente do verão interrompa a propagação da doença e por que os testes continuam sendo a única maneira de impedir novas rodadas de quarentena em massa.

O que mais se destaca em termos de todas as coisas que aprendemos no mês passado?

Uma delas é algo que aprendemos, que parece que as medidas de distanciamento social que tomamos no período atual parecem estar funcionando em muitos lugares. É um pouco cedo para ter certeza, mas espero que os sinais iniciais de que talvez eles estejam trabalhando sejam uma indicação de que realmente estão. Em termos do que não aprendemos, acho que a quantidade de incerteza que ainda permanece sobre o verdadeiro fardo subjacente é um pouco decepcionante. Eu esperava que tivéssemos mais uma noção exata de quantas infecções existem por aí. Eu acho que ainda continua sendo o maior desconhecido da coisa toda.

Então, com “carga subjacente”, você quer dizer o número de infecções?

Sim. Sabemos que estamos vendo um número específico de mortes, e esse é um número com o qual podemos estar razoavelmente confiantes. O número de pessoas hospitalizadas também é algo em que podemos confiar um pouco. Mas o número de casos confirmados – não está claro o quanto isso está nos dizendo, porque os testes aumentaram bastante nos últimos meses, e muitos desses aumentos que vimos em casos confirmados se devem apenas a mais testes . Portanto, a epidemia está progredindo e também estamos testando mais. Essas são todas as medidas diretas. Mas todas essas medidas vêm de um conjunto de pessoas infectadas que não vemos e não sabemos o tamanho desse pool.

Existe uma razão pela qual não sabemos que não aumentamos os testes o suficiente ou há algo sobre o vírus que tornou mais difícil descobrir isso?

Não é nada específico para o vírus, e é um pouco mais do que apenas testar. Existem duas maneiras de chegar a essa piscina invisível. Uma é se você sabe o quão mortal é o vírus ou quantas pessoas se tornam casos clínicos que você pode detectar, e ainda não sabemos. Ainda acho que a incerteza na taxa de mortalidade por infecção é provavelmente uma ordem de magnitude entre ser tão alta quanto uma em cem e tão baixa quanto em torno de uma em mil. A outra maneira de conseguir isso é se você é capaz de sair e não faz o tipo de teste que a maioria das pessoas pensa, que é um teste virológico para verificar se você está infectado agora, mas um teste sorológico, que testa anticorpos para indicar se você já foi infectado. Esses estudos estão em andamento, mas ainda não começamos a ver muitos desses resultados. Portanto, não sabemos quantas pessoas foram infectadas. Mas são os estudos sorológicos que provavelmente responderão à pergunta de forma mais definitiva e mais cedo ou mais tarde.

Parece haver uma suposição de que, uma vez que alguém tenha a doença e se recupere, é provável que tenha algum tipo de imunidade no futuro. Mas, neste ponto, quanto sabemos realmente sobre isso?

Não sabemos muito em termos específicos de como o vírus progride. Quero dizer, tem que haver alguma imunidade.

Porque

Porque você limpou o vírus de alguma forma. Você tirou o vírus do seu sistema e seu sistema imunológico fez isso. Como o seu sistema imunológico fez isso foi ter uma resposta imunológica, e isso foi algo específico para o vírus. Portanto, por esse motivo, você precisa ter pelo menos alguma imunidade e proteção contra o vírus. Quanta imunidade e proteção é uma questão em aberto. Pode ser o que chamamos de imunidade esterilizante ou completa, onde você nem pode se infectar com o vírus, em um extremo. No outro extremo, pode ser uma imunidade muito fraca que diminui rapidamente e talvez atenua um pouco os sintomas, mas não impede a infecção. Portanto, está claro que deve haver alguma proteção, mas a quantidade dessa proteção, quanto tempo dura, qual é a importância de interromper as transmissões – essas são questões em aberto.

Se houver alguma imunidade, ela existiria apenas se você apresentasse sintomas ou teria imunidade se tivesse o vírus e fosse assintomática?

Você provavelmente tem alguma imunidade de qualquer maneira. Acho que, na maioria dos casos, é provável que sua imunidade seja um pouco mais forte se você tiver sintomas, porque muitos dos sintomas que você recebe de doenças como essa são motivados não pelo vírus em si, mas por sua resposta imune. Por exemplo, febre é algo que é causado pelo seu corpo combatendo o vírus, não pela ação direta do vírus. E, portanto, é provável que as pessoas com sintomas tenham uma imunidade um pouco mais forte do que as sem, mas o nível de variação é algo que não sabemos. E há muita complexidade potencial lá. Interações imunológicas são coisas complexas. Em alguns casos, pode até piorar a segunda infecção. Achamos que é bastante improvável nesta doença em particular.

Mas o ponto é que há muita complexidade na maneira como as interações imunológicas funcionam. Onde eu acho que podemos ter confiança suficiente é que, com o tempo, mesmo que não seja forte na primeira infecção, as pessoas acumularão imunidades de forma a serem protegidas pelo menos de resultados graves desse vírus em infecções subsequentes.

Então, se esperávamos algo, o vírus se espalharia mais rápido do que pensamos, é menos mortal do que pensamos e, depois de tê-lo de qualquer forma, você tem grande imunidade?

Esse seria o melhor cenário agora: essencialmente existem muito mais pessoas infectadas agora do que pensamos, para que acumulemos esses altos níveis de imunidade da comunidade, ou imunidade de rebanho, que nos protegerão de subseqüentes ondas.

Aprendemos alguma coisa no mês passado que torna esse cenário mais ou menos provável do que quando essa coisa surgiu pela primeira vez?

Eu acho que existem algumas evidências que podem apontar para os dois lados. Eu acho que é improvável que isso seja realmente difundido. Eu acho que há uma versão moderada desse cenário que ainda é possível. Mas considere o número de mortes em um lugar como Nova York. A população tem mais de oito milhões de pessoas e pouco mais de oito mil pessoas morreram. [A cidade de Nova York revisou recentemente sua contagem de mortes para mais de dez mil pessoas.] Se a taxa de mortalidade é de uma em cem, isso implica que oitocentas mil pessoas foram infectadas, o que é razoável. Mas se a taxa de mortalidade é de uma em mil, isso pressupõe que oito milhões de pessoas foram infectadas na cidade de Nova York, que é todo mundo. Portanto, se você aumenta esses fatores por um fator muito grande, chega rapidamente a um ponto em que isso implica que uma porcentagem irrealista da cidade foi infectada. Então isso meio que coloca um limite superior nesse cenário.

Mas algumas pessoas pensam que ela se espalha um pouco mais rápido do que pensávamos – essas pessoas estimaram números reprodutivos mais altos do que pensávamos em estimativas anteriores. Então esses talvez indiquem que pode haver mais infecções por aí. Mas isso é tudo para dizer que há evidências e que não está claramente apoiando muitos casos assintomáticos e uma taxa muito baixa de infecção-fatalidade, ou não muitos casos assintomáticos por aí e uma taxa relativamente alta de infecção-fatalidade. Você provavelmente poderia ir lá e encontrar alguém que argumentasse veementemente pelos dois lados. Mas acho que ainda é uma das principais fontes de incerteza na epidemia.

Temos conhecimento das discrepâncias de idade em termos de quem sofre crises graves de doença. Mas há um mês, ainda havia várias perguntas sem resposta sobre exatamente como o vírus estava trabalhando com crianças e como ele funcionava com pessoas de diferentes idades. O que aprendemos naquele tempo?

Eu acho que ainda parece que as crianças são infectadas. Eles não sofrem de doenças clínicas nas mesmas taxas que os adultos, mas, à medida que mais e mais pessoas estão sendo infectadas, fica claro que elas não são universalmente protegidas. Estamos começando a ver alguns casos graves em crianças pequenas. Ainda não sabemos muito bem como eles transmitem em comparação com os adultos ou como as pessoas assintomáticas em geral transmitem. Mas acho que está ficando cada vez mais claro que pessoas assintomáticas estão desempenhando um papel significativo na transmissão geral.

O que nos faz pensar isso?

Existem várias evidências apontando nessa direção – alguns estudos de caso aqui e ali e mais algumas dicas sobre o derramamento de vírus e algumas análises da dinâmica geral da infecção. “Assintomático” é um conceito esquemático, e o que realmente queremos dizer aqui é “não detectado e provavelmente não detectável”. Se você observar o formato das curvas epidêmicas, é difícil explicá-las se as crianças não estão contribuindo para a transmissão e se os jovens mais assintomáticos não estão contribuindo para a transmissão.

Ainda não acho claro que possamos dizer: “OK, você é sintomático e não é sintomático, e você, a pessoa sintomática, é, digamos, três vezes mais transmissível que a pessoa assintomática”. Acho que ainda não chegamos. Mas acho que entendemos que pessoas assintomáticas, que incluem pessoas com sintomas leves que simplesmente não reconheceríamos como infectadas ou super doentes, podem transmitir e provavelmente estão ajudando a impulsionar a epidemia.

Há esperança de que o clima mais quente no verão contribua para manter os casos em baixa, o que, por sua vez, se baseia no que pode ser uma correlação entre locais quentes e menores incidentes da doença. Temos alguma evidência real disso além da correlação?

Não é uma quantidade enorme de evidências. Há alguma indicação de que possa haver uma sazonalidade em outros coronavírus, o que apoiaria essa ideia. A sazonalidade pode diminuir a quantidade de infecções no verão, se houver, e ganhar um tempo extra, além de ampliar os efeitos das paralisações e das medidas de distanciamento social que estamos tomando agora para talvez empurrar a segunda onda de a epidemia ainda mais no outono. Mas acho que a ideia de que de alguma forma vai nos salvar e eliminar a doença é um sonho.

O que o torna um sonho?

Uma é que sabemos que a doença pode ser transmitida em locais mais quentes, embora a transmissibilidade possa ter sido menor nesses locais. Houve uma transmissão significativa em lugares como Cingapura e Tailândia, onde existem condições mais quentes e mais úmidas o ano todo. Então esse é o grande motivo. E a segunda é que, de outras doenças, não acho que realmente tenhamos um exemplo de doença em que uma combinação de distanciamento social e sorte na sazonalidade a tenha erradicado. Na verdade, existem apenas duas doenças que erradicamos – a varíola e a peste bovina, e a peste bovina não é sequer uma doença humana. Estamos fechados na poliomielite. Mas em todos esses casos, tínhamos uma vacina para trabalhar. Portanto, acho que não devemos pensar que isso vai acabar.

Quando conversamos há um mês, a esperança era que implementássemos medidas de distanciamento social, aplainássemos a curva e, esperançosamente, as coisas seriam mais fáceis de administrar. Parece que, se as coisas continuarem, podemos chegar a esse lugar. Mas também parece que abrir a economia ou acabar com medidas de distanciamento social trará a doença de volta. Você tem algum tipo de otimismo de que aprendemos algo no mês passado que ajudará a evitar esse destino?

Acho que há um mês ainda pensávamos que talvez tivéssemos chegado a esse ponto cedo o suficiente para que medidas mais moderadas de distanciamento social pudessem realmente achatar a curva. Eu acho que o que ficou claro na época em que conversamos é que as coisas ficaram um pouco fora de controle e era necessário ter medidas mais extremas de distanciamento social e não achatar tanto a curva como derrubá-la. E foi aí que começamos a receber todos esses pedidos de estadia em casa e coisas assim. Mas o impacto dessas ordens é que você provoca um curto-circuito na transmissão da doença antes que haja uma chance de imunidade significativa crescer na população. Então, como você disse, se as pessoas começarem a voltar aos negócios como de costume, a população ainda estará pelo menos parcialmente em risco de infecção, e poderemos ver uma grande segunda onda.

Então, acho que o grande foco agora deve ser o de que deve haver um plano para a era pós-permanência em casa, onde encontramos algo que permite que a economia se abra novamente, permite que as pessoas, em geral, saiam sobre suas vidas diárias, mas ainda impede a circulação generalizada desse vírus e a sobrecarga de nossos sistemas de saúde. E, no momento, acho que a única estratégia razoável que temos, com as ferramentas que temos agora, é um tipo de estratégia de “teste, rastreamento e isolamento”, onde fazemos testes extensivos para o vírus e, quando encontramos pessoas positivas , fazemos o rastreamento de contatos e localizamos os contatos potencialmente infectados. E então só temos quarentena e isolamento entre essas pessoas.

No momento, estamos essencialmente isolando a quarentena de uma maneira muito concentrada em toda a população, uma espécie de abordagem brusca. E se conseguirmos que isso seja direcionado exatamente para as pessoas potencialmente infectadas e que possam conseguir níveis semelhantes de reduções na transmissão viral, acho que essa seria a chave para poder voltar a algo que parece mais como negócios, como de costume. Eles parecem ter conseguido algo assim na Coréia do Sul, e espero que possamos fazer algo assim aqui.

Então, ele volta aos testes, como era há um mês.

Certo. Mas fizemos muitos progressos nos testes desde então. Os desafios ainda existem, mas aumentamos os testes nos EUA em grande medida, e acho que, desde que certos suprimentos, como reagentes para a execução dos testes, estejam disponíveis, ou que possamos encontrar alternativas, isso deve ser possível ter um desses extensos programas de teste. Você teria um teste voluntário muito fácil para pessoas que tinham o menor indício de ter sintomas e talvez até testes obrigatórios para pessoas que tinham certos trabalhos críticos. E então, sempre que você encontrasse alguém com resultado positivo, tentaria agressivamente encontrar os contatos mais próximos e pedir que essas pessoas e seus contatos próximos se isolassem. Nosso sistema de saúde é específico do estado, portanto, certamente seria no nível estadual ou subestado.

Seria o teste sorológico de que você falou anteriormente, onde testamos as pessoas para saber se elas tiveram a doença em seu sistema no passado? Porque então as pessoas com imunidade poderiam assumir certas tarefas na sociedade e corriam menos riscos.

Sim, acho que isso também pode ter um papel muito importante. Acho que o desafio é que precisamos não apenas saber que alguém foi infectado, mas também saber o que chamamos de “correlatos de proteção”. Como é a resposta imune, medida a partir do sangue, da sorologia, para alguém que está realmente protegido da infecção, em comparação com alguém que talvez tenha uma resposta imune mais leve e não esteja protegido? Eu acho que os testes sorológicos desempenham um papel enorme no retorno aos negócios como de costume e na compreensão do vírus, simplesmente porque eles nos permitem saber quantas pessoas estão infectadas e potencialmente imunes e ter uma melhor noção do que aconteceu. Mas, se começarmos a dizer coisas como “OK, você está imune, então a priorizaremos por trabalhar nas enfermarias de 19 países”, precisamos ter um bom senso de quais são os correlatos reais à proteção.

Você já viu algum sinal de que os países que experimentaram alguma variedade da estratégia de imunidade ao rebanho obtiveram resultados positivos?

Não que eu tenha visto. Penso que a pergunta é: quanta tolerância você tem para grandes ondas de infecções atingindo seu sistema de saúde? Até onde eu vi, realmente não houve casos em que uma grande epidemia não tenha sido devastadora, em que pessoas de um país com uma epidemia grande conseguiram não ter seu sistema de saúde sobrecarregado.

O que aprendemos de outros países no mês passado?

Eu acho que três coisas são críticas e são amplas. Uma é que aprendemos que, se você não se esforçar para combater esta doença, ficará impressionado. Essas são as lições de lugares como Itália e Espanha e os primeiros dias de Wuhan. Penso que o segundo é que o distanciamento social, no nível de pedidos e bloqueios de estadia em casa, funciona. Certamente essa foi a lição da China. Embora eles tenham atingido níveis de bloqueio e distanciamento social que não estamos dispostos a implementar aqui nos Estados Unidos, parece que isso também está causando impacto em outros lugares. E então acho que a terceira coisa é que pode haver um caminho focado no teste. E é isso que acho que a lição é da Coréia do Sul. Também estamos aprendendo aqui e ali como a doença é mortal e coisas assim, e essas informações são críticas. Mas esses são os três maiores temas abrangentes.

Bertrand Badie:Covid-19 está evidenciando de forma dolorosa a verdadeira face da globalização

Os profetas do neoliberalismo viraram promotores da economia social. É preciso voltar aos imperativos sociais”

Bertrand Badie, em seu escritório do Instituto de Estudos Políticos.PATRICE NORMAND / AFP / CONTACTOPHOTO / PATRICE NORMAND / AFP
CARLA MASCIA

Que um vírus originado em um mercado de Wuhan tenha se espalhado pelos cinco continentes em apenas algumas semanas, causando uma das crises sanitárias mais graves da história da humanidade não surpreende Bertrand Badie, um dos maiores especialistas franceses da globalização. O cientista político de 69 anos, professor emérito no Science Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris) e pesquisador associado ao Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais (CERI), há décadas defende que a ação individual de um dos 6 bilhões de habitantes do planeta pode ser mais importante do que a decisão de qualquer Governo.

Em um “mundo único” em que as fronteiras já não impedem que o que acontece em um país tenha efeitos imediatos nos outros, onde a interdependência entre os diferentes setores de atividade humana jamais havia sido tão importante e a mobilidade, tanto humana como de mercadorias, tão veloz, “um aperto de mãos em Wuhan” pode colocar em xeque toda a humanidade, afirma.

Por isso, o autor do recente ensaio L’Hégémonie Contestée acha que a crise atual precisa abrir nossos olhos para a importância da dimensão social da mundialização, abandonando o dogma neoliberal que se limita a conceber o ser humano como um simples ator econômico para abraçar um multilateralismo inclusivo.

Pergunta. Acha que a pandemia do coronavírus revelou o verdadeiro rosto da globalização?

Resposta. Penso que, até essa crise, a opinião pública e, o que é ainda mais surpreendente, os dirigentes dos diferentes países do mundo ignoravam e pretendiam ignorar o que esse fenômeno realmente significa. A mundialização muda profundamente o próprio significado da alteridade. O outro, em nosso antigo sistema westfaliano, era o inimigo potencial; depois, com o livre comércio e a aceleração das trocas comerciais, o outro se transformou em um competidor, um rival, e não vimos que, no plano social, estava sendo criada outra definição de alteridade, em que o outro era um parceiro cujo destino está profundamente ligado ao nosso. Isso significa que entramos em mundo que já não é o da hostilidade e da competição, e sim necessariamente o da solidariedade, porque agora se quero sobreviver e, ainda mais, ganhar, preciso me assegurar de que o outro sobreviva e que o outro ganhe, e temos muita dificuldade em admitir isso. Essa dificuldade nos levou nesse contexto de crise a escutar idiotices como “é um vírus chinês” e “o vírus é um inimigo do povo americano”, como afirmou o presidente dos Estados Unidos. Donald Trump não entendeu que o verdadeiro significado da mundialização está na criação de necessidades de integração social que devemos satisfazer urgentemente, do contrário nos encaminharemos ao desastre.

P. O senhor defende que é a fraqueza, e não a força, que rege o mundo globalizado em que vivemos. A que se refere?

R. Em um mundo inclusivo, interdependente e móvel, é o fraco que decide enquanto o poderoso está perpetuamente em uma posição reativa e defensiva. Devemos levar muito a sério as novas necessidades de segurança humana já que dos segmentos de população mais inseguros, frágeis em termos de saúde, economia, alimentação e condições climáticas, vem necessariamente o risco mais agudo da crise. Não devemos nos esquecer que esse vírus nasceu em um mercado de Wuhan caracterizado por uma grande precariedade sanitária. A vulnerabilidade de nossas sociedades extraordinariamente sofisticadas é, em última instância, bem alta. Entramos em um mundo invertido em que a lógica da fraqueza é a lei. Isso se observa em outros conflitos que ameaçam o planeta como o Sahel, Oriente Médio, a bacia do Congo e o Chifre da África, que continuam sendo áreas de grande fraqueza e que, de certo modo, conformam a agenda internacional.

P. Por que os Estados continuam priorizando o investimento militar para garantir sua segurança, sem se preocupar com os focos de vulnerabilidade que o senhor menciona?

R. Vivemos durante séculos e séculos com a ideia de que o que nos ameaça e causa nossa insegurança é de natureza militar e interestatal. No mundo de hoje gasta-se por volta de dois trilhões de dólares (10 trilhões de reais) em orçamento militar. Precisamos admitir que essa competição só adula a arrogância dos Estados e não tem nenhuma eficácia em termos humanos. O Programa das Nações Unidas ao Desenvolvimento deixou claro em um relatório de 1994 que a principal ameaça ao mundo era a humana, a alimentar, a sanitária, a ambiental, entre outras, e ninguém, nenhum líder do planeta levou a sério essa advertência, seguindo os incertos caminhos do investimento militar. Se pelo menos essa crise servir para que os dirigentes que até agora não estavam à altura de sua responsabilidade, e que não quiseram ver o que estava diante de seus olhos, levem a sério, então terá servido para algo.

P. O que lhe inspira a guinada keynesiana que de repente impregna o discurso de alguns políticos mais conhecidos por sua orientação liberal como Donald Trump e Emmanuel Macron?

R. É preciso lembrar que o social foi assassinado pelo neoliberalismo e relegado a um mero efeito de goteira. A famosa fórmula tão elogiada pelo Banco Mundial de que “o crescimento é bom para os pobres” porque acabarão se beneficiando de seus efeitos, reflete a maneira como o social foi concebido nos últimos 30 anos. Se hoje os profetas do neoliberalismo estão se transformando em promotores da economia social é porque concebem, diante da catástrofe atual, que já não será possível fazer o mesmo que antes e que será necessário voltar aos imperativos sociais.

P. Acha que essa mudança social será duradoura?

R. É muito cedo para saber se irá se manter após a crise ou se as velhas práticas voltarão. Há um sinal de otimismo, entretanto, no fato de que o novo foco dessa direita que se confundia com o ultraliberalismo, responsável pelo desmantelamento dos serviços públicos, foi anterior à crise sanitária. O ano de 2019 foi extremamente turbulento com a proliferação de movimentos sociais em todo o mundo e isso teve consequências. A prova disso é, por exemplo, o tom social adotado por Boris Johnson no Reino Unido durante as últimas eleições legislativas. A ideia de investir em questões sociais praticamente se transformou no slogan do Partido Conservador Britânico. Acho que isso significa que essa redescoberta do social não depende totalmente do medo ao coronavírus, há algo mais, e isso me faz pensar que, aconteça o que acontecer, nunca voltará a ser o mesmo.

Devemos levar muito a sério as novas necessidades de segurança humana
P. A União Europeia está sendo muito criticada por sua incapacidade de proporcionar uma solução comum contra a pandemia da Covid-19…

R. Essa é, de fato, a grande decepção dessa crise, e talvez o ponto mais obscuro. A Europa esteve até agora, e quero ser muito cuidadoso com minha formulação, em um nível zero de integração. Ou seja, uma incapacidade total, não digo parcial, para dar uma resposta integrada a uma crise que, comparada com todas as que enfrentamos, é exatamente a que precisa de mais solidariedade. Esse fracasso pôde ser observado tanto no plano sanitário, com a ausência de coordenação entre Estados membros —cada Estado faz do seu jeito e frequentemente de maneira contraditória—, como econômico, com um BCE (Banco Central Europeu) cuja primeira ação foi totalmente desastrosa e causou uma espécie de quebra nas Bolsas que poderia ter sido ainda mais considerável.

P. Christine Lagarde corrigiu isso ligeiramente depois, concorda?

R. É verdade que existiu uma pequena inflexão, em ritmo forçado, mas a verdade é que continuamos sem ter acordo sobre os Eurobônus (ou coronabônus), no meu entendimento, a maior expressão do que se pode fazer juntos para enfrentar a crise financeira que se aproxima no horizonte. O problema é que ainda que consigamos chegar a uma solução comum, o dano já está feito. Estamos vendo o verdadeiro rosto da União Europeia e suas lacunas no plano da solidariedade. Outro aspecto com o qual precisamos nos preocupar é por que não importa qual seja a questão na UE, encontramos essa distância entre o norte e o sul? E isso desde Maastricht. Acabará tendo efeitos catastróficos e podemos até nos perguntar se algum dia acabaremos por ter duas Europas.

P. O que resta da governança global diante da retomada soberanista que estamos vendo nos últimos anos?

R. A inoperância da Europa é um reflexo do fracasso da governança mundial. A ação da OMS se reduz a ler todas as noites um comunicado em um inglês aproximado para pedir aos Estados que façam alguma coisa, o que é verdadeiramente desastroso quando a OMS deveria ter sido a task force no assunto, o órgão que coordena as políticas de saúde, que organiza a ajuda técnica e médica e, principalmente, que produz normas. O grande perigo é justamente a falta de padrões comuns, e que cada país continue operando por sua conta e à sua maneira.

P. A solução para sair dessa crise está, de acordo com o senhor, em mais multilateralismo e decisões comuns. O mundo atual, entretanto, está cheio de líderes nacionalistas, de Trump, passando por Bolsonaro, a Johnson. É paradoxal, não acha?

Há uma necessidade de governança global como nunca em nossa história, e ao mesmo tempo um auge de nacionalismo que não havia sido visto até agora
R. Acho que podemos dizer que os planetas nunca estiveram tão mal alinhados. Há uma necessidade de governança local como nunca em nossa história, e ao mesmo tempo um auge de nacionalismo que não havia sido visto até agora. Ambos são inconciliáveis. De modo que a única razão à esperança é que o nacionalismo é uma ideologia vazia que não tem nada a oferecer. Todas as tentativas de gestão estritamente nacional da crise falharam. Líderes como Johnson, Trump e até Bolsonaro, que partiram de premissas nacionalistas, e negacionistas, precisaram mudar seu discurso, cada um a sua maneira. Além disso, o desprezo desses políticos liberais pelos desafios sanitários nos leva a outro ponto essencial que abordei no ensaio L´impuissance de la Puissance, que é a flagrante impotência de um país como os Estados Unidos diante dessa pandemia. A evolução da crise nos EUA é aterrorizante e em parte se deve a essa concepção herdada da Escola de Chicago de total cegueira diante das ameaças e dramas coletivos.

P. Há outras grandes ameaças, como a mudança climática, que requerem uma ação conjunta a curto prazo. Acha que o coronavírus mudará a mentalidade dos políticos mais céticos sobre a necessidade de investir recursos antes que não se possa mais voltar atrás?

R. Logicamente, esse raciocínio é imparável. Humanamente já é diferente e politicamente, ainda mais. Humanamente, é difícil olhar os dois objetivos ao mesmo tempo ainda que estejam muito ligados, mas politicamente, o fato de que a luta contra o aquecimento global signifique gastos, esforços, sacrifícios a curto prazo para se ter conquistas a longo prazo transforma esse investimento em algo politicamente suspeito. Após essa crise, os Estados terão que investir muito para reconstruir a economia global. Aceitaremos gastar e investir muito pelo clima, ou seja, acrescentar gastos aos gastos? Sou bem pessimista.

P. Sairá algo bom dessa crise?

R. Sempre há esperança. O próprio de uma crise, aumentar o medo, é o que permite o desenvolvimento da criatividade humana e social. A crise econômica de 1929 que levou os nacionalistas a vencer nas urnas, também inventou o keynesianismo e permitiu que a economia nacional se revitalizasse até a vingança do neoliberalismo nos anos oitenta. Também foram as grandes guerras, e as mais mortíferas, que trouxeram, pelo menos na Europa, invenções absolutamente extraordinárias e que por fim permitiram a resolução de problemas que não poderiam ser resolvidos em contextos de paz e mobilização. Quanto mais forte essa crise for, portanto, mais romperá os esquemas e os círculos viciosos e por isso acho que algo positivo pode sair dela. Quando, como e por quê, não sabemos.