Pandemia de neoliberalismo: a ortodoxia nunca desafiada

O tecnoautoritarismo vai além do controle de dados gerados pelas tecnologias. Sua raiz está na ideia da automatização do governo, para ser guiado apenas pelas vontades do mercado. Negar papel da opções políticas é negar a democracia.

Por Rafael Evangelista, na CTS em foco nº 1

Passados mais de seis meses desde a decretação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) da pandemia do novo coronavírus, o novo normal brasileiro na verdade continua um ciclo iniciado entre 2015 e 2016, e que parece longe de acabar. Tratou-se de fato de uma ruptura radical com a ideia de que cabe às instituições democráticas e seus representantes organizar a vida social e o uso dos recursos materiais tendo em vista a sobrevivência e o bem-estar geral da população. Uso a palavra “cabe” aqui tanto no sentido do que é possível como entendendo que há uma responsabilidade, uma obrigação de ação. Muitos entenderam que a pandemia, embora trágica, seria uma oportunidade para rever certas omissões, para pactuar nacionalmente uma organização social que nos oferecesse, enquanto sociedade, uma maior capacidade de sobreviver a tragédias e imprevistos. Em lugar disso ganhamos um “e daí?”, repetido em diversas situações.

Para além do contexto político específico, há antecedentes históricos, culturais e de legitimação global de certas ideias “científicas” que, combinados com a história política do Brasil em sua especificidade e em sua inserção periférica no mundo, nos ajudam a entender os impasses em que nos encontramos. Nem a pandemia foi capaz de modificar a ideia avassaladora de que a melhor saída seria liberar as forças do mercado para que “regulem” o social e, como uma mão invisível, instituam um tipo de justiça transcendental.

Laymert Garcia dos Santos (2014) aponta que, desde os anos 1970, vivemos uma “virada cibernética”, em que a informação (e sua contraparte, os “dados”) ganha centralidade em todos os setores da atividade humana. A cibernética, enquanto ramo interdisciplinar, emerge nos anos 1950, quando aparece como resposta integradora para diversos ramos científicos, da biologia à matemática, da antropologia às telecomunicações, da física aos estudos balísticos. Sob a égide da informação e da comunicação, pretende oferecer respostas cosmológicas a um mundo traumatizado após duas Grandes Guerras (Breton, 1994; Chiodi, 2017). Os fluxos de comunicação seriam a base integradora de máquinas e organismos vivos, de diferentes espécies e grupos étnicos (Evangelista, 2018).

Após uma efervescência filosófica inicial, a cibernética teve sua derivação principal em aplicações mais práticas nas ciências da computação. Mas a influência intelectual, direta ou indireta, se desdobra em outros campos e impacta a cultura e o imaginário de modo geral. Em verdade, do ponto de vista estrutural, a partir dos anos 1970 são os sistemas telemáticos feitos sob inspiração da cibernética que vão construir a base para a financeirização dos mercados e da economia, esta que vai explodir nas décadas seguintes e redefinir o sistema produtivo mundial e a divisão de trabalho global. O neoliberalismo deixava de ser um projeto na cabeça de alguns homens brancos em Chicago para se tornar uma força centrípeda internacional.

Desse casamento entre as apropriações da cibernética e as teses em favor de um liberalismo econômico se estrutura uma percepção de que a melhor maneira de se gerenciar sistemas, de uma maneira geral, inclusive sistemas sociais, não se dá pela organização, planejamento e comando, mas pela aceleração de ciclos comunicacionais de feedback entre pontos de uma rede, de modo que emerja um tipo de auto-organização. Vai se tornando socialmente pervasiva a ideia de que essa não é somente a melhor, mas a única maneira de ser lidar com sistemas com eficiência e mesmo eficácia. Friedrich Hayek, autor fundamental do neoliberalismo, admitia os estudos interdisciplinares de sistemas de comunicação serem uma melhor referência para se entender as trocas e os mercados do que a própria econometria (Soares, 2019, p. 4). Os mercados seriam processadores de informação mais poderosos e eficazes do que os planejadores humanos (Mirowski, 2019, p. 6).

O simplismo dessa ideia é praticado, por excelência, na periferia global. É no Chile que o ditador Pinochet vai abrir os primeiros espaços para que os Chicago Boys façam seus experimentos sociais mais radicais. Embora políticas neoliberais tenham sido praticadas também por Ronald Reagan e Margareth Thatcher, a condição de partida era uma realidade de Estado de bem-estar social, com um acumulado de ganhos históricos a favor dos trabalhadores. Quando estes países assumem o discurso e as políticas de liberalização, boa parte da rede de proteção é ainda mantida em função dos interesses locais, enquanto nas negociações multilaterais se fala em desregulamentação em setores desfavoráveis aos países menos desenvolvidos. Pode-se dizer que o discurso liberalizante é, em parte, uma farsa, pois vale, e se agudiza, somente para um lado da balança.

Nos “Suis” do mundo, a situação de constante emergência sempre serviu de justificativa para medidas de exceção (que, na verdade, são norma). O remédio deveria ser mais amargo, os direitos deveriam ser mais relativizados, as tais reformas tinham que ser ainda mais profundas, a liberalização mais intensa para que haja um “choque” de capitalismo. O estado de exceção do Sul funciona como justificativa para experimentos sociais e tecnológicos.

Não foi muito diferente com a pandemia. Logo as medidas de preservação da vida, de apoio aos trabalhadores, adotadas por vários países, foram transformadas em “luxo” ao qual a população brasileira não poderia ter acesso. Acompanhamos de longe os auxílios governamentais serem concedidos em países ricos, enquanto aqui uma ajuda mínima, e cheia de falhas em sua focalização, teve que ser conseguida a fórceps. Mais importante, como que esperando algum tipo de autorregulação mágica do mercado, governantes incentivaram ativamente que a parte mais pobre da população (os tais que “não podem” ficar em casa) saísse à rua e enfrentasse o vírus com sua vida. Metáforas de guerra e sacrifício foram mobilizadas enquanto se aguardava uma improvável imunidade de rebanho. Quando um contingente suficiente de pessoas descartáveis já tiver corrido o risco, parecem esperar os líderes, o país será seguro para o restante.

Desde logo se estabeleceu uma falsa dicotomia entre vidas e economia. Mesmo que os países ricos já venham dando exemplos, pelo menos desde 2008 (Graeber, 2019), de que descuido fiscal e expansão monetária não levam automaticamente a crise econômica e inflação, esse argumento continuou sendo usado para empurrar o lema “a economia não pode parar”, que na verdade significou “o trabalho não pode parar”.

Desde a eclosão da pandemia, diversos especialistas em tecnopolítica ao redor do mundo vêm apontando os riscos implicados no solucionismo tecnológico para as garantias democráticas. Aplicativos de rastreamento de contato, monitoramento de deslocamentos a partir de dados de telefonia, além da invasão da vigilância nos espaços domésticos por meio dos aplicativos de teletrabalho, entraram no debate público internacional. O mimetismo automático a essa reação levou alguns a manchetarem que o Brasil estaria escorregando para um tecnoautoritarismo (Kemeny, 2020).

A percepção é, sim, verdadeira, mas vai além da adoção de certas tecnologias de rastreamento ou dispositivos de controle. O tecnoautoritarismo brasileiro tem na economia a sua pedra fundamental, passando ainda pelo esvaziamento da política. Se orienta pela ideia neoliberal de que nada se pode fazer além de se submeter à vontade dos mercados internacionais e abdicar cada vez mais de intervenções e planejamentos praticados por governos, para que – como que por encanto – as forças do mercado façam emergir o crescimento e uma justiça social com sabor de necropolítica.

O mesmo “e daí?” que informa a fala do presidente frente às mortes da pandemia pauta o ministro Paulo Guedes, incensado pela imprensa de mercado como racional e técnico. Enquanto o primeiro dá a entender nas declarações um darwinismo de pé quebrado que naturaliza e acelera as mortes de idosos, pessoas com doenças crônicas e todos “sem histórico de atleta”, o segundo se arvora em uma ortodoxia econômica mofada para declarar que não há nada a se fazer a não ser cumprir metas ficais, teto de gastos e a cartilha da não-gestão automatizada, enquanto se espera de uma sala refrigerada a autorregulação. O problema é que esta significa uma disparada de preços em matérias-primas, exportadas em dólar, e itens de alimentação sem estoques reguladores. Negar a capacidade de ação, planejamento e invenção da humanidade, relegando essas atividades às trocas informacionais do mercado (Mirowski, 2019), é a mais profunda negação da democracia.

Os objetos técnicos são só a parte mais aparente e instrumental das ameaças à democracia. Vigilância, rastreamento, violação de privacidade, são a parte operacional de uma ideologia neoliberal que rejeita a capacidade humana de decidir seu próprio destino e a submete a um joguete baseado em competição, ganância e egoísmo. A pandemia, um momento tão dramático, poderia ser uma oportunidade de revisão desse tipo de dogma, que reduz a organização do sistema produtivo, do uso de recursos naturais e da sobrevivência da humanidade a um “livre” mercado. Mas a ortodoxia econômica resolveu dobrar a aposta, colocando em jogo vidas que trata como externalidades – e os números mostram que as maiores vítimas foram os pobres e negros.

Referências

BRETON, Philippe. A utopia da comunicacaçâo. [s.l.]: Instituto Piaget, 1994.

CHIODI, Vitor França Netto. O singularismo como ideologia e a reconstrução da relação centro-periferia no capitalismo informacional. [s.n.], 2017. Disponível em: <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/322242>. Acesso em: 6 out. 2020.

EVANGELISTA, Rafael. Para além das máquinas de adorável graça: Cultura hacker, cibernética e democracia. [s.l.]: Edições Sesc, 2018.

GRAEBER, David. Against Economics. 2019. Disponível em: <https://www.nybooks.com/articles/2019/12/05/against-economics/>. Acesso em: 2 out. 2020.

KEMENY, Richard. Brazil is sliding into techno-authoritarianism. MIT Technology Review. Disponível em: <https://www.technologyreview.com/2020/08/19/1007094/brazil-bolsonaro-data-privacy-cadastro-base/>. Acesso em: 2 out. 2020.

MIROWSKI, Philip. Hell Is Truth Seen Too Late. boundary 2, v. 46, n. 1, p. 1–53, 2019.

SANTOS, Laymert Garcia dos. Informação bio e arte latino-americana – Uma provocação | Laymert Garcia dos Santos. Disponível em: <https://www.laymert.com.br/chapman/>. Acesso em: 6 out. 2020.

SOARES, Tiago Chagas. Make it New: Hayek, Modernismo e a invenção do Neoliberalismo (1920-1950). Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2019. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-16122019-183100/>. Acesso em: 6 out. 2020.S

Diretora de Meio Ambiente da OMS: “70% dos últimos surtos epidêmicos começaram com o desmatamento”

María Neira, diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS, explica como os vírus do ebola, sars e HIV/aids saltaram dos animais para os humanos depois da destruição maciça de florestas tropicais

A médica espanhola María Neira, diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirma que a pandemia do coronavírus é mais uma prova da perigosa relação entre os vírus e as pressões do ser humano sobre o meio ambiente. Do seu escritório em Genebra, na Suíça, Neira explica como os vírus do ebola, sars e HIV, entre outros, saltaram de animais para seres humanos depois da destruição de florestas tropicais. Neira (Astúrias, 59 anos) insiste na necessidade de que Governos e indivíduos compreendam que a mudança climática é um problema de saúde pública, não uma questão de ecologia ou ativismo. A cientista, mestra em saúde pública e nutrição, propõe uma revolução saudável, positiva e verde, que tenha como pilar fundamental a rápida transição na direção de energias limpas. Segundo ela, países que decidirem trocar o petróleo e o carvão pela energia solar e eólica acelerarão seu crescimento e reduzirão a pobreza e a desigualdade.

Pergunta. No prólogo do livro Viral, de Juan Fueyo, você adverte sobre a perigosa relação entre os vírus e as pressões do ser humano sobre o meio ambiente, sobretudo o desmatamento. No que consiste essa relação? Como ela funciona?

Resposta. As práticas de desmatamento intenso, feitas sempre em nome da economia de curto prazo, têm efeitos devastadores para o futuro da humanidade. Ao derrubar a floresta para substituí-la por agricultura intensiva e poluente, os animais que vivem nesses lugares nos quais o homem não havia entrado sofrem profundas transformações. Aparecem espécies com as que não estávamos em contato e que podem nos transmitir doenças. Passar de uma floresta tropical para um cultivo, com adubos e pesticidas que nunca tinham entrado nesse ecossistema, altera o tipo de vetores capazes de transmitir os vírus. O desmatamento é uma forma de derrubar essa barreira ambiental entre espécies que nos protege de forma natural.

P. Pode contar um caso específico?

R. Um exemplo claro deste fenômeno é o vírus do ebola, que saltou dos morcegos frugívoros das florestas da África ocidental para os humanos e desatou o contágio. O grave é que aconteceu o mesmo com a aids e a sars. Cerca de 70% dos últimos surtos epidêmicos que sofremos tem sua origem no desmatamento e nessa ruptura violenta com os ecossistemas e suas espécies.

P. O que se pode fazer para prevenir isto?

R. Temos que entender que é necessário estar em equilíbrio com o meio ambiente, que é o que nos dá todos os recursos para sobreviver. É preciso aproveitá-los, mas não podemos destruir e poluir tudo o que tocamos, como está acontecendo neste momento. O oceano, por exemplo, está nos dando de comer. Milhões de pessoas se alimentam com as reservas de pesca, mas estamos enchendo o mar com milhões de toneladas de plástico. Estamos indo contra nós mesmos. É importante que as pessoas entendam que a mudança climática não é uma questão de ecologia ou ativismo, mas de saúde pública.

P. Quer dizer que o aquecimento global não só derrete as geleiras, ou deixa os ursos polares em perigo, como também produz muitas mortes de seres humanos?

R. Claro. Erramos na narrativa a respeito da mudança climática nestes últimos anos. Acho que se falou muito de como o nível do mar está subindo ou como a camada de ozônio é afetada, mas faltou explicarmos como tudo isso no fundo tem um impacto tremendo sobre a nossa saúde. Às vezes, de forma arrogante, dizemos que é preciso salvar o planeta. Mas não. Temos que salvar a nós mesmos. O planeta nós o estamos destruindo, mas ele vai encontrar uma maneira de sobreviver; os humanos, não.

P. Em uma recente conferência, você dizia que na luta contra o meio ambiente os seres humanos sempre perdem. Por quê?

R. Se destruirmos a fonte da qual vivemos, os prejudicados seremos nós mesmos. Vemos com cada vez mais frequência como o ser humano é muito vulnerável frente aos fenômenos meteorológicos que a mudança climática está desatando, como tsunamis ou furacões. Há alguns dias houve uma nevasca muito dura na Espanha e nos paralisou imediatamente. No final, quem sairá perdendo seremos nós.

P. Quais são as medidas mais urgentes que a OMS recomenda para evitar a deterioração do meio ambiente e da saúde pública?

R. Uma muito importante é o conhecimento. Temos que ganhar mais adeptos para a causa. O objetivo é que muita gente entenda a relação entre mudança climática e saúde; que entenda, por exemplo, que seus pulmões, seu sistema cardiovascular e seu cérebro estão em risco por causa da poluição. Segundo, temos que fazer a transição para energias limpas e renováveis o mais rapidamente possível. Os combustíveis fósseis estão nos matando. Há sete milhões de mortes prematuras causadas pela poluição atmosférica que poderiam ser reduzidas deixando de gerar eletricidade com carvão e petróleo. Acelerar essa transição para as energias limpas vai gerar uma economia que nos ajudará a sair desta crise que o coronavírus desatou.

P. Como é a relação entre energias limpas e desenvolvimento econômico?

R. Um dólar investido em energias renováveis vai gerar quatro vezes mais trabalho que um dólar investido em energias fósseis. Acredito que, se os países mais pobres começarem a investir em energia solar e eólica, eles podem acelerar seu crescimento. Esta pode ser uma estratégia contra a desigualdade que se agravou com a pandemia. Outra recomendação importante é o planejamento das cidades pensando na saúde do ser humano. É preciso tirar os carros dos centros urbanos, ter um sistema de transporte público sustentável e limpo, e sobretudo não ter cidades superpopulosas como as de agora, que são inabitáveis.

P. Como a densidade populacional das cidades afeta a transmissão dos vírus?

R. Em 20 anos, 70% da população estará vivendo em centros urbanos. Será preciso tornar essa situação saudável e equitativa. Podemos ter cidades que nos ofereçam muitos benefícios, mas que não atentem contra nossa saúde. Hoje as capitais de vários países têm muita densidade populacional. Isso contribui para uma transmissão mais rápida e eficiente de qualquer vírus ou bactéria. O mau planejamento das cidades também nos leva a ter uma vida sedentária, que a poluição termine em nossos pulmões e inclusive que haja um problema grave de saúde mental porque não se facilita a interação social.

P. O que fazer então?

R. É preciso criar cidades com zero emissão de carbono, cidades verdes e com economia circular. O CO2 que for produzido tem que ser eliminado. Essas cidades já são possíveis, a tecnologia permite isso, e a economia vai nesse sentido. Acredito que esta mudança seja irreversível.

P. No prólogo do livro de Fueyo, você propõe uma “revolução saudável, positiva, verde e economicamente sustentável”. Em que consiste?

R. Em que as decisões estratégicas que definem para onde um país deve avançar têm que pôr a saúde e o meio ambiente em primeiro lugar. É preciso investir em energias limpas. Essa decisão combate, ao mesmo tempo, a mudança climática e as doenças que esta gera. Além disso, é preciso reduzir o desmatamento e adotar práticas agrícolas mais sustentáveis.

América Latina reage à alta da covid-19, mas Brasil segue inerte

Janeiro trouxe uma escalada de novos casos de covid-19 na América Latina.

Ainda não está claro se este é o início de uma segunda onda ou um agravamento da primeira após algumas semanas de trégua. Enquanto a região espera a chegada das primeiras doses da vacina —só Argentina, México, Chile e Costa Rica iniciaram campanhas de imunização—, a solução à disposição continua sendo a quarentena.

Os Governos, no entanto, terão que enfrentar a resistência social a novos confinamentos. Federico Rivas Molina e Sonia Corona contam como Buenos Aires estuda um “toque de recolher sanitário” e a Cidade do México fechou atividades não essenciais diante do aumento do número de leitos de UTI ocupados, mas nada fez o Brasil. Apesar dos números em alta e do atraso na vacinação, a maioria das autoridades brasileiras segue inerte.

Nos Estados Unidos, a jornada desta quarta-feira se adivinha wagneriana. Um grupo de senadores e congressistas republicanos planeja torpedear a certificação do democrata Joe Biden como vencedor das eleições presidenciais, prevista para ocorrer em uma sessão bicameral no Capitólio. A investida não tem perspectiva de se traduzir em nada mais do que uma manifestação da polarização.

Trump manteve o clima de tensão no ar, desta vez mirando seu número dois, o vice-presidente Mike Pence, que deve presidir a cerimônia. O nova-iorquino pediu que Pence use seu posto para impedir a confirmação de Biden, algo que não pode fazer.

Enquanto Trump se dedica a manobras sem efeito, o Estado da Geórgia define a margem de manobra que Biden terá sobre o Senado. O democrata já avançou com a vitória de Raphael Warnock em uma das duas vagas — o pastor evangélico fez história ao se tornar o primeiro senador negro a ser eleito neste Estado sulista. Se o outro candidato democrata vencer, o Senado ficará formado por 50 republicanos e 50 democratas (incluindo dois independentes), mas a próxima vice-presidenta, Kamala Harris, exercerá o voto decisivo nos casos de empate.

Em Brasília, o único tema é a sucessão no comando do Congresso, especialmente na Câmara dos Deputados. Com o objetivo de conter Jair Bolsonaro, a esquerda se aliou ao candidato do atual presidente, Rodrigo Maia, o deputado Baleia Rossi, um dos articuladores do impeachment de Dilma em 2016, contra o candidato do Planalto, Arhur Lira, explica Afonso Benites. Baleia Rossi formaliza nesta quarta sua candidatura. Para o cientista político Cláudio Couto, o apoio representa a tentativa de manter os Poderes independentes. “É uma aliança visando estabelecer a independência do Legislativo, ainda mais diante dos arroubos autoritários do Bolsonaro. Se ele se comportou até aqui dessa forma tendo o Congresso independente, imagina se não o tivesse”, avalia.

E a Rússia deu adeus a George Blake ao som do hino nacional e com as salvas da guarda nacional de honra. O legendário espião britânico, que trabalhou para a União Soviética na época culminante da Guerra Fria, antes de ser descoberto, condenado e de protagonizar uma fuga cinematográfica em 1966, recebeu na quarta-feira uma despedida notável. De Moscou, María R. Sahuquillo escreve sobre a morte do mítico agente duplo marca o ocaso de uma época de espionagem em que o fator humano era decisivo.

Estudo conclui que Jair Bolsonaro do Brasil executou uma ‘estratégia institucional para espalhar o coronavírus’

Investigação da ONG Conectas Derechos Humanos e da Universidade de São Paulo buscou conhecer os motivos da mortalidade Covid-19 de mais de 212.000 vítimas no país, além de documentar as declarações do presidente sobre a pandemia, vacinas e polêmicas ‘curas’.

Sepultamento de vítima de coronavírus em Manaus, estado do Amazonas, Brasil.EDMAR BARROS / AP

A linha do tempo mais sombria da história da saúde pública no Brasil emerge de uma investigação das diretrizes emitidas pelo governo do presidente Jair Messias Bolsonaro em relação à pandemia Covid-19. Em um esforço comum realizado desde março de 2020, o Centro de Pesquisas e Estudos em Direito em Saúde Pública (CEPEDISA) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) e a Conectas Direitos Humanos, uma das mais conceituadas justiça organizações da América Latina, coletaram e examinaram as regulamentações federais e estaduais relacionadas ao novo coronavírus, produzindo um documento intitulado Direitos na Pandemia – Mapeamento e Análise das Regras Legais em Resposta à Covid-19 no Brasil. No dia 21 de janeiro, eles lançaram uma edição especial com uma forte afirmação: “Nossa pesquisa revelou a existência de uma estratégia institucional de disseminação do vírus, promovida pelo governo brasileiro sob a liderança do Presidente da República”.

Obtido com exclusividade pelo EL PAÍS, a análise da produção de portarias, medidas provisórias, resoluções, instruções normativas, leis, decisões e decretos do governo federal, bem como um levantamento dos discursos públicos da presidente, traça o mapa que virou o Brasil em um dos países mais afetados pela Covid-19 e que, ao contrário de outras nações, ainda carece de um programa de vacinação com um calendário confiável. Não há como dizer quantas das mais de 212 mil mortes de Covid no Brasil poderiam ter sido evitadas se o governo liderado por Bolsonaro não tivesse executado um projeto com vistas à disseminação do vírus. Mas é razoável dizer que muitas pessoas ainda teriam suas mães, pais, irmãos ou filhos vivos hoje, não fosse a existência de um projeto institucional do governo brasileiro para disseminar o Covid-19.

Há uma intenção, um plano e um curso de ação sistemático contidos nas normas de governo e nos discursos de Bolsonaro, como mostra o estudo. “Os resultados dissipam a interpretação persistente de que houve incompetência e negligência do governo federal na gestão da pandemia. Ao contrário, a sistematização dos dados, embora incompleta pela falta de espaço para divulgação de tantos eventos, revela o compromisso e a eficiência do governo em favor da ampla disseminação do vírus em todo o território brasileiro, claramente afirmado como tendo o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível e a qualquer custo ”, diz o boletim da publicação. “Esperamos que este cronograma forneça uma visão geral de um processo pelo qual estamos passando de uma forma fragmentada e frequentemente confusa.”

A pesquisa foi coordenada por Deisy Ventura, uma das mais conceituadas juristas do Brasil, pesquisadora sobre as relações entre pandemias e direito internacional e coordenadora do programa de doutorado em saúde pública e sustentabilidade da USP; Fernando Aith, presidente do Departamento de Política, Gestão e Saúde da FSP e diretor do CEPEDISA / USP, centro de pesquisa pioneiro em direito da saúde no Brasil; Camila Lissa Asano, Coordenadora de Programas da Conectas Direitos Humanos, e Rossana Rocha Reis, professora do Departamento de Ciências Políticas e do Instituto de Relações Internacionais da USP.

A linha do tempo é composta por três eixos apresentados em ordem cronológica, de março de 2020 aos primeiros 16 dias de janeiro de 2021. O primeiro são atos normativos da União, incluindo normas adotadas por autoridades e órgãos federais e por vetos presidenciais; o segundo, atos de obstrução às respostas dos governos estaduais e municipais à pandemia; e a terceira, propaganda contra a saúde pública, descrevendo-a como “um discurso político que mobiliza argumentos econômicos, ideológicos e morais, além de notícias falsas e informações técnicas sem comprovação científica, com o objetivo de desacreditar as autoridades de saúde pública, fragilizando a adesão da população aos conselhos de saúde com base em evidências científicas e promovendo ativismo político contra as medidas de saúde pública necessárias para conter a propagação da Covid-19.”

Os autores do estudo observam que a publicação não inclui todos os regulamentos e afirmações coletadas e armazenadas no banco de dados da pesquisa, mas sim uma seleção deles, a fim de evitar o excesso e apresentar os mais relevantes para análise. Os dados foram selecionados a partir do banco de dados do projeto Direitos na Pandemia, a partir de jurisprudências do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal de Contas da União (TCU), além de documentos e discursos oficiais. O eixo definido como “propaganda” também incluiu a busca no Google por vídeos, posts e notícias.

A análise mostra que “a maioria das mortes teria sido evitável com uma estratégia de contenção da doença, e que isso constitui uma violação sem precedentes dos direitos dos brasileiros à vida e à saúde”. E que isso ocorreu “sem que nenhum dos administradores envolvidos fosse responsabilizado, embora instituições como o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas da União tenham inúmeras vezes apontado condutas e omissões conscientes e deliberadas dos administradores federais que vão de encontro ao ordenamento jurídico brasileiro. ordem.” Também destaca “a urgência de uma discussão aprofundada da configuração dos crimes contra a saúde pública, crimes de responsabilidade e crimes contra a humanidade cometidos durante a pandemia Covid-19 no Brasil”.

Os atos e palavras de Bolsonaro são bem conhecidos, mas acabam se diluindo na realidade do dia a dia alimentada pela produção de factóides e notícias falsas, em que a guerra do ódio também é uma estratégia para encobrir um projeto consistente e persistente que forja à frente, visto que a temperatura das trocas é mantida em alto nível nas redes sociais. A publicação do relatório causa choque e mal-estar porque sistematiza a produção explícita de males postos em ação por Bolsonaro e seu governo ao longo de quase um ano de pandemia. Um dos maiores méritos da investigação é justamente ter articulado as muitas medidas oficiais e discursos públicos do presidente na linha do tempo. Desta análise meticulosa, surge o plano com todas as suas fases devidamente documentadas.

A análise também mostra claramente quais populações são os principais alvos dos ataques. Além dos povos indígenas, aos quais Bolsonaro até negou água potável, uma série de medidas foram tomadas para negar aos trabalhadores a chance de se proteger da Covid-19 e se isolar. O governo ampliou o conceito de atividades essenciais para incluir até os salões de beleza e tem procurado privar diversas categorias de trabalhadores do direito ao auxílio emergencial de R$ 600 concedido pelo Congresso. Ao mesmo tempo, tentou estabelecer um duplo padrão no tratamento dos trabalhadores da saúde: Bolsonaro vetou inteiramente um projeto que oferecia compensação financeira aos trabalhadores incapacitados como consequência de seu trabalho na contenção da pandemia, enquanto tentava aliviar o setor público trabalhadores de qualquer responsabilidade por atos e omissões relacionados à Covid-19. Resumindo: o trabalho árduo e de alto risco de prevenção e luta contra a pandemia é desencorajado, enquanto a omissão é estimulada.

Ao reter recursos destinados ao combate à Covid, o governo tem dificultado o atendimento aos pacientes nos sistemas públicos estaduais e municipais de saúde. Uma guerra constante é travada contra governadores e prefeitos que tentam implementar medidas de prevenção e combate ao vírus. O Bolsonaro usa o veto para anular até as medidas mais básicas, como o uso obrigatório de máscaras nos estabelecimentos autorizados a funcionar. Muitas de suas medidas e vetos foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ou pelo Congresso.

Este é outro ponto importante: a análise dos dados também destaca o quão mais trágica seria a situação do Brasil se o STF e outros órgãos não tivessem impedido várias das medidas de disseminação do vírus decretadas pelo governo. Apesar da fragilidade demonstrada pelas instituições e pela sociedade, é visível um esforço por parte dos principais atores para tentar neutralizar ou anular as ações do Bolsonaro. É possível projetar o quanto esses esforços, somados e associados a um governo que se dispunha a prevenir a doença e combater o vírus, poderiam ter feito para prevenir mortes em um país que possui o Sistema Único de Saúde (Sistema Único de Saúde). SUS). Em vez disso, Bolsonaro desencadeou uma guerra em que grande parte da energia das instituições e da sociedade organizada foi desperdiçada para reduzir os danos causados ​​por suas ações, em vez de se concentrar no combate à maior crise de saúde pública em um século.

Quase um ano depois do primeiro caso de Covid-19, ainda não se sabe se as instituições e a sociedade não coniventes com o Bolsonaro serão fortes o suficiente, diante do mapa das ações institucionais de disseminação do vírus, para finalmente colocar uma parada para os agentes que disseminam o vírus. O uso da máquina estatal para promover a destruição foi decisivo para trazer à tona a realidade atual de mais de mil sepulturas cavadas todos os dias para pessoas que ainda poderiam estar vivas. Mais de 60 pedidos de impeachment do presidente foram apresentados ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM). Pelo menos três pedidos foram enviados ao Tribunal Penal Internacional ligando o genocídio e outros crimes contra a humanidade às ações de Bolsonaro e membros de seu governo em relação à pandemia. As próximas semanas serão decisivas para os brasileiros afirmarem quem são e como responderão às gerações futuras quando questionados sobre o que estavam fazendo enquanto tantas pessoas morriam de Covid-19.

Apple remove aplicativo que promove festas secretas durante a pandemia de covid-19

O aplicativo Vybe Together afirma que organiza festas secretas todos os fins de semana

Um aplicativo americano que promovia festas privadas durante a pandemia de covid-19 foi removido da Apple App Store, loja de aplicativos da empresa de tecnologia.

O Vybe Together se autodenomina uma “comunidade privada para encontrar, participar e hospedar festas”.

Um vídeo recente em sua conta na rede social TikTok afirmava que a ferramenta organizava festas privadas todos os fins de semana.

Embora sua conta na plataforma, assim como seu próprio site, tenham sido retirados, a empresa promete retornar às atividades.

“A App Store nos derrubou! Nós voltaremos! Siga para se manter atualizado!”, afirmou a empresa na descrição de sua conta no Instagram.
Como funciona
Os usuários do aplicativo precisavam enviar um perfil para aprovação, incluindo o identificador do Instagram, bem como fotos “festejando”, relatou o portal de notícias The Verge.

Uma vez ativado, os usuários poderiam se inscrever para participar de festas. E sua participação seria aprovada pelos organizadores.

Os candidatos aprovados recebem um endereço apenas duas horas antes do evento.

Um representante do aplicativo disse ao The Verge que a ferramenta tinha alguns milhares de usuários.

“Algumas pessoas terríveis criaram um aplicativo para encontrar e promover grandes festas secretas e inseguras e estão usando o TikTok para comercializá-lo para milhões de pessoas”, tuitou o repórter do New York Times Taylor Lorenz, compartilhando imagens de um vídeo promocional do aplicativo divulgado no TikTok.

O vídeo mostrava pessoas dançando e anunciava uma festa de Ano Novo em Nova York.

Mas em Nova York as reuniões internas e externas são limitadas a 10 pessoas, e os bares e restaurantes estão fechados.

TikTok removeu este vídeo que anunciava uma festa de Ano Novo em Nova York

O TikTok disse que a conta foi removida por violar as diretrizes da comunidade. O perfil tinha apenas 139 seguidores e três vídeos.

No entanto, uma página em seu site, agora removido, afirmava: “Estamos cientes de que a covid é um grande problema de saúde… Fazer festas em grande escala é muito perigoso. É por isso que não apoiamos isso.”

“Mas Vybe é um meio-termo, sem grandes festas, mas pequenas reuniões. Poderíamos estar vivendo, pelo menos um pouco durante esses tempos, com Vybe.”

O que se sabe sobre a nova variante do coronavírus que levou a novo lockdown na Inglaterra

GETTY IMAGES
A Inglaterra implementou novas restrições após descoberta de variente do coronavírus

Autoridades da União Europeia (UE) estão discutindo uma resposta conjunta a uma nova variante do Sars-CoV-2 que é mais infecciosa e foi detectada no Reino Unido.

Mais de 40 países já fecharam suas fronteiras com o país até o momento, por receio da disseminação da nova variante.

Um aumento de casos de coronavírus no sudeste e leste inglês, incluindo Londres, está ligado à disseminação desta nova variante — embora ela já seja encontrada em todo o país, de acordo com o governo britânico.

Isso fez com que o primeiro-ministro Boris Johnson anunciasse medidas mais rígidas de isolamento para 20 milhões de pessoas na Inglaterra e em todo o País de Gales.

A nova variante, surgida após mutações, se tornou a forma mais comum do vírus em algumas partes da Inglaterra em questão de meses. O governo britânico diz que há motivos para acreditar que ela seja bem mais contaminante, possivelmente 70% mais transmissível.

O estudo dessa nova forma do coronavírus ainda está em um estágio inicial, contém grandes incertezas e uma longa lista de perguntas sem resposta.

Os vírus sofrem mutações o tempo todo e é vital entender se essas mutações estão ou não mudando o comportamento do vírus e alterando a doença. Essa variante específica está causando preocupação por três motivos principais:

• Ela está substituindo rapidamente outras versões do vírus

• Ela possui mutações que afetam partes do vírus que são provavelmente importantes

• Já se verificou em laboratório que algumas dessas mutações podem aumentar a capacidade do vírus de infectar células do corpo.

Tudo isso constrói um cenário preocupante, mas ainda não há certeza. Novas cepas podem se tornar mais comuns simplesmente por estarem no lugar certo na hora certa — como a cidade de Londres, que tinha poucas restrições até recentemente.

“Experimentos de laboratório são necessários, mas é desejável esperar semanas ou meses para ver os resultados e tomar medidas para limitar a propagação? Provavelmente não nessas circunstâncias”, diz Nick Loman, professor do Instituto de Microbiologia e Infecção da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, que defende as restrições para tentar conter essa versão do vírus.

Quão rápido ela está se espalhando?

Essa cepa foi detectada pela primeira vez em setembro. Em novembro, cerca de um quarto dos casos em Londres eram causados por essa nova variante, aumentando para quase dois terços dos casos em meados de dezembro.

Pesquisadores têm calculado a dispersão de diferentes variantes na tentativa de estabelecer o quão infecciosas elas são. Mas separar o que é devido ao comportamento das pessoas e o que é devido ao vírus é difícil.

O dado citado pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, é que a variante pode ser até 70% mais transmissível — é um dado que havia aparecido em apresentação do pesquisador Erik Volz, do Imperial College de Londres, na sexta-feira.

Durante a palestra, ele disse: “É realmente muito cedo para dizer… Mas pelo que vimos até agora, está crescendo muito rapidamente, está crescendo mais rápido do que [uma variante anterior] jamais cresceu. É importante ficar de olho.”

Não há um número “certeiro” de quão mais infecciosa pode ser essa variante. Números muito mais altos e muito mais baixos do que 70% estão aparecendo em pesquisas ainda não publicadas integralmente.

Inclusive ainda há dúvidas se essa versão é realmente mais infecciosa.

“A quantidade de evidências em domínio público é inadequada para chegar a conclusões firmes sobre se o vírus realmente aumentou sua transmissibilidade”, diz o virologista Jonathan Ball, professor da Universidade de Nottingham.

Ao se replicar, os vírus geram mutações ou erros na sequência dos compostos representados pelas letras ‘a’, ‘g’, ‘c’, ‘u’

Como ela surgiu e se espalhou?

Acredita-se que a variante surgiu em um paciente no Reino Unido ou foi importada de um país com menor capacidade de monitorar as mutações do coronavírus.

Atualmente, ela pode ser encontrada em todo o Reino Unido, exceto na Irlanda do Norte, e está fortemente concentrada em Londres, sudeste e leste da Inglaterra. Os casos em outras partes do país não parecem ter decolado.

Dados da Nextstrain, que monitora os códigos genéticos das amostras virais em todo o mundo, sugerem que casos com essa variante na Dinamarca e na Austrália vieram do Reino Unido. A Holanda também relatou casos.

Uma variante semelhante que surgiu na África do Sul compartilha algumas das mesmas mutações, mas parece não estar relacionada a esta.

Isso já aconteceu antes?

Sim. O vírus que foi detectado pela primeira vez em Wuhan, China, não é o mesmo que você encontrará na maioria dos cantos do mundo.

A mutação D614G surgiu na Europa em fevereiro e se tornou a forma globalmente dominante do vírus. Outra, chamada A222V, se espalhou pela Europa e estava ligada às férias de verão na Espanha.

O que sabemos sobre as novas mutações?
Uma análise inicial da nova variante foi publicada e identifica 17 alterações potencialmente importantes.

Houve mudanças na proteína spike — que é a “chave” que o vírus usa para abrir a porta de entrada nas células do nosso corpo e sequestrá-las. A mutação N501 altera a parte mais importante do spike, conhecida como “domínio de ligação ao receptor”. É aqui que o spike faz o primeiro contato com a superfície das células do nosso corpo. Quaisquer alterações que tornem mais fácil a entrada do vírus provavelmente serão uma vantagem para o patógeno.

“Parece ser uma adaptação importante”, disse Loman.

A outra mutação — batizada de H69/V70 — apareceu algumas vezes antes, incluindo nos visons infectados na Dinamarca.

A preocupação era que os anticorpos do sangue daqueles que sobreviveram ao novo coronavírus fossem menos eficazes na defesa contra a nova variante do vírus. Mais uma vez, serão necessários mais estudos de laboratório para realmente entender o que está acontecendo.

O trabalho de Ravi Gupta, professor da Universidade de Cambridge, sugeriu em laboratório que essa mutação aumenta em duas vezes a capacidade do vírus de infectar células.

“Estamos preocupados, a maioria dos cientistas está preocupada”, diz Gupta.

Isso torna a infecção mais mortal?

Ainda não há evidências de que a variante seja mais mortal, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, mas governos e pesquisadores estão monitorando a questão.

Em uma entrevista coletiva posterior à fala de Ghebreyesus, Michael Ryan, diretor do programa de emergências da OMS, afirmou que a nova variante não representa uma situação “fora de controle”, pois a taxa de reprodução do vírus já foi bem maior em outros momentos da pandemia. Entretanto, ele reconheceu que as medidas preventivas decididas pelos países em resposta à cepa encontrada no Reino Unido são “prudentes”.

No momento, apenas ser mais transmissível já seria suficiente para a variante causar problemas nos hospitais. Se pessoas forem infectadas mais rapidamente, mais pessoas vão precisar de tratamento hospitalar em menos tempo.

Com a chegada das vacinas, o coronavírus sofrerá uma pressão natural para mutar a fim de infectar pessoas imunizadas, como ocorre com a gripe

As vacinas funcionarão contra a nova variante?
Acredita-se que sim, pelo menos por enquanto.

Mutações na proteína spike levantam perguntas porque as três principais vacinas — Pfizer, Moderna e Oxford — treinam o sistema imunológico para atacar a proteína spike.

No entanto, o corpo aprende a atacar várias partes dessa proteína. É por isso que as autoridades de saúde continuam convencidas de que a vacina funcionará contra essa nova variante.

“Mas se deixarmos essa variante se espalhar e sofrer mais mutações, isso pode se tornar preocupante”, diz Gupta. “Este vírus está potencialmente em vias de se tornar resistente à vacina, ele deu os primeiros passos nesse sentido.”

O vírus consegue se tornar resistente à vacina quando, ao mudar de formato, se esquiva dos efeitos da imunização e continua a infectar as pessoas.

O coronavírus evoluiu em animais e passou a infectar os humanos há cerca de um ano. Desde então, tem passado por quase duas mutações por mês — entre uma amostra colhida hoje e as primeiras da cidade chinesa de Wuhan há cerca de 25 mutações.

Ao longo de sua trajetória, o coronavírus ainda está “testando” diferentes combinações de mutações para infectar humanos de maneira adequada. Já vimos isso acontecer antes: o surgimento e o domínio global de outra variante (G614) é visto por muitos como o momento em que o vírus aprimorou sua capacidade de se espalhar.

Mas logo a vacinação em massa colocará um tipo diferente de pressão sobre o vírus, porque ele terá que mudar para infectar as pessoas que foram imunizadas. Se isso impulsionar a evolução do vírus, talvez tenhamos de atualizar regularmente as vacinas, como fazemos anualmente com a gripe sazonal, para manter o ritmo.

Segundo Anderson Brito, virologista do departamento de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, “os coronavírus evoluem principalmente por substituições de nucleotídeos” e “não fazem rearranjos genômicos como o vírus da gripe”.

“Mas, e as vacinas? Provavelmente serão efetivas por mais de um ano”, escreveu em seu perfil no Twitter.

‘Não temos nada a esconder’: cientista estrela de Wuhan convida OMS para visitar laboratório no centro de polêmica por origem de coronavírus

Virologista chinesa Shi Zhengali aceitou visita da OMS a seu laboratório GETTY IMAGES

A cientista Shi Zhengli disse à BBC estar disposta a abrir as portas do polêmico laboratório na cidade chinesa de Wuhan para descartar as alegações de que foi lá que o coronavírus foi criado.

A declaração ocorre quando uma equipe da Organização Mundial da Saúde (OMS) se prepara para viajar a Wuhan em janeiro para fazer pesquisas sobre as origens do vírus SARS-CoV-2.

O remoto distrito de Tongguan, na província de Yunnan, sudoeste da China, é, na melhor das hipóteses, de difícil acesso. Quando tentamos visitá-lo recentemente, não conseguimos.

Policiais à paisana e em carros não identificados nos seguiram por quilômetros ao longo de estradas estreitas e acidentadas, parando quando parávamos e nos acompanhando quando fomos forçados a dar meia-volta.

Encontramos obstáculos em nosso caminho, incluindo um caminhão “quebrado”, que os moradores confirmaram ter sido colocado do outro lado da estrada alguns minutos antes de nossa chegada.

E nos deparamos com postos de controle onde homens não identificados nos disseram que seu trabalho era nos manter distantes dali.

À primeira vista, tudo isso pode parecer um esforço desproporcional dado o nosso destino pretendido, uma mina de cobre abandonada e indefinida onde, em 2012, seis trabalhadores sucumbiram a uma doença misteriosa que acabou ceifando a vida de três deles.

Mas a pandemia de covid-19 deu um novo significado a essa tragédia, que quase certamente teria sido amplamente esquecida.

Essas três mortes estão agora no centro de uma grande controvérsia científica sobre as origens do vírus e a questão de saber se ele veio da natureza ou de um laboratório.

E as tentativas das autoridades chinesas de nos impedir de chegar ao local são um sinal de como estão se empenhando para controlar a narrativa.

BBC encontrou estradas “bloqueadas” na China.

Estudo de campo

Por mais de uma década, as colinas cobertas de selva de Yunnan e os sistemas de cavernas dentro delas têm sido o foco de um gigantesco estudo de campo científico.

O estudo foi conduzido pela professora Shi Zhengli, do Instituto de Virologia de Wuhan (IVW).

A professora Shi foi elogiada internacionalmente por sua descoberta de que a doença conhecida como SARS, que matou mais de 700 pessoas em 2003, foi causada por um vírus que provavelmente veio de uma espécie de morcego em uma caverna de Yunnan.

Desde então, a professora Shi, conhecida como a “Mulher-morcego da China”, tem estado na vanguarda de um projeto para tentar prever e prevenir novos surtos desse tipo.

Ao capturar morcegos, retirar amostras de fezes deles e, em seguida, levar essas amostras para o laboratório em Wuhan, a 1,6 mil quilômetros de distância, a equipe por trás do projeto identificou centenas de novos coronavírus em morcegos.

Mas o fato de Wuhan agora abrigar o principal centro de pesquisa de coronavírus do mundo, bem como ser a primeira cidade atingida por um surto de uma nova e mortal pandemia, alimentou as suspeitas de que esses dois elementos pudessem estar conectados.

‘Boas-vindas’

O governo chinês, o IVW e a professora Shi rejeitaram fortemente a acusação de que o vírus chamado de SARS-CoV2 causador da covid-19 tenha saído do laboratório de Wuhan.

Mas com a chegada de cientistas indicados pela OMS para visitar Wuhan em janeiro para uma investigação sobre a origem da pandemia, a professora Shi, que pouco falou com a imprensa, respondeu a uma série de perguntas da BBC por email.

“Entrei em contato com os especialistas da OMS duas vezes”, escreveu ela, quando questionada se uma investigação poderia ajudar a descartar um vazamento de laboratório e acabar com as especulações. “Expressei pessoal e claramente que gostaria de recebê-los em uma visita ao IVW”, disse.

Questionada se isso incluiria uma investigação formal com acesso aos registros de laboratório do IVW e dados experimentais, ela afirmou: “Aceitaria pessoamente qualquer forma de visita baseada em um processo aberto, transparente, confiável e de diálogo razoável. Mas o plano específico não é minha decisão.”

Posteriormente, a BBC recebeu uma ligação da assessoria de imprensa do IVW, dizendo que a professora Shi estava falando a título pessoal e que suas respostas não haviam sido aprovadas pelo IVW.

A BBC rejeitou o pedido de enviar uma cópia desta reportagem com antecedência.

‘Teoria da conspiração’

Muitos cientistas acreditam que o cenário mais provável é que o SARS-Cov-2 saltou naturalmente dos morcegos para os humanos, possivelmente através de uma espécie intermediária.

E apesar da oferta da professora Shi, por enquanto parece haver pouca chance de que a OMS investigue a teoria de que o vírus saiu do laboratório.

GETTY IMAGES – Mercado de Huanan, em Wuhan, foi associado aos primeiros casos de coronavírus

Os termos de referência de pesquisa da OMS não mencionam a teoria e alguns membros da equipe de 10 pessoas praticamente a descartaram.

Peter Daszak, zoólogo britânico, foi escolhido como parte da equipe devido ao seu papel de liderança em um projeto internacional multimilionário para colher amostras de vírus selvagens.

Esse projeto envolveu uma estreita colaboração com a professora Shi Zhengli em sua amostragem em massa de morcegos na China, e Daszak já havia se referido à teoria de fuga de laboratório como uma “teoria da conspiração” e como “um absurdo absoluto”.

“Ainda não vi nenhuma evidência de vazamento de laboratório ou envolvimento de laboratório neste surto”, disse ele.

“Tenho visto evidências substanciais de que esses são fenômenos naturais causados pela invasão humana no habitat da vida selvagem, que é claramente observada no sudeste da Ásia.”

Quando questionado sobre ter acesso ao laboratório de Wuhan para descartar a teoria do vazamento de laboratório, ele diz: “Não é meu trabalho fazer isso.”

“A OMS negociou os termos de referência e dizem que vamos seguir as evidências e é isso que temos que fazer”, acrescentou.

O foco da investigação será um mercado em Wuhan que era conhecido pelo comércio de animais selvagens e estava relacionado a uma série de casos iniciais, embora as autoridades chinesas pareçam ter descartado esse mercado como fonte do vírus.

Daszak diz que a equipe da OMS “examinará esses grupos de casos, examinará os contatos, verá de onde vieram os animais do mercado e verá aonde isso nos leva”.

Relação com vírus RaTG13

A morte dos três trabalhadores de Tongguan após a exposição em um poço de extração cheio de morcegos levantou suspeitas de que eles tivessem sucumbido a um tipo de coronavírus transmitido por esse animal.

Foi exatamente o tipo de “derramamento” – passagem – de animal para humano que estava levando o IVW a colher mostras de morcegos em Yunnan.

GETTY IMAGES – China impôs fortes restrições a Wuhan para deter o vírus

Não é de se surpreender que, após essas mortes, os cientistas do IVW começaram a coletar amostras de morcegos na mina de Tongguan, fazendo várias visitas nos três anos seguintes e detectando 293 coronavírus.

Mas, além de um pequeno artigo, muito pouco foi publicado sobre os vírus que coletaram nessas viagens.

Em janeiro deste ano, a professora Shi Zhengli se tornou uma das primeiras pessoas no mundo a sequenciar a SARS-Cov-2, que já se espalhava rapidamente pelas ruas e casas de sua cidade.

Ele então comparou a longa sequência de letras que representam o código genético único do vírus com o extenso registro de outros vírus coletados e armazenados ao longo dos anos.

E descobriu que o banco de dados continha o parente mais próximo conhecido do SARS CoV-2: o RaTG13.

O RaTG13 é um vírus cujo nome deriva do morcego do qual foi extraído (Rhinolophus affinis, Ra), do local onde foi encontrado (Tongguan, TG) e do ano em que foi identificado, 2013.

Sete anos depois de ser encontrado naquela mina, RaTG13 estava prestes a se tornar um dos assuntos científicos mais polêmicos de nosso tempo.

Possibilidade descartada

Houve muitos casos bem documentados de vírus escapando de laboratórios.

O primeiro vírus da SARS, por exemplo, vazou duas vezes do Instituto Nacional de Virologia de Pequim em 2004, muito depois de o surto ter sido controlado.

GETTY IMAGES – Médicos e cientistas lutaram para conter pandemia em Wuhan

A prática de manipular geneticamente os vírus também não é nova, permitindo aos cientistas torná-los mais infecciosos ou mortais, para que possam avaliar a ameaça e, talvez, desenvolver tratamentos ou vacinas.

E desde o momento em que foi isolado e sequenciado, os cientistas ficaram surpresos com a notável capacidade do SARS-Cov-2 de infectar humanos.

A possibilidade de adquirir essa habilidade como resultado da manipulação em um laboratório foi levada a sério o suficiente para que um grupo influente de cientistas internacionais a investigassem.

O RaTG13 desempenha um papel importante no que se tornou o artigo definitivo que exclui a possibilidade de um vazamento de laboratório.

Publicado em março na revista Nature Medicine, ele sugere que, se houvesse um vazamento, a professora Shi Zhengli teria encontrado uma correspondência muito mais próxima em seu banco de dados do que o RaTG13.

Embora o RaTG13 seja o parente mais próximo conhecido, com 96,2% de similaridade, ainda está muito longe para ter sido manipulado e transformado em SARS-Cov-2.

Era provável que o SARS-Cov-2, concluíram os autores, teria ganhado sua eficiência única por meio de um longo período de circulação não detectado em humanos ou animais de um vírus precursor natural e mais brando que eventualmente evoluiu para o potente e mortal identificado pela primeira vez em Wuhan em 2019.

No entanto, alguns cientistas estão começando a se perguntar onde estão os reservatórios de uma infecção natural anterior.

Busca por vírus precursores

Daniel Lucey é médico e professor de doenças infecciosas no Georgetown Medical Center em Washington DC e um veterano de muitas pandemias: SARS na China, Ebola na África, Zika no Brasil.

Daniel Lucey diz acreditar que SARS-CoV-2 provavelmente surgiu naturalmente, mas não quer descartar outras possibilidades

Ele tem certeza de que a China já realizou pesquisas extensas por evidências de vírus precursores em amostras humanas armazenadas em hospitais e em populações de animais.

“Eles têm a habilidade, os recursos e a motivação, então é claro que fizeram estudos com animais e humanos”, diz ele.

Encontrar a fonte de um surto é vital, acrescenta Lucey, não apenas para uma compreensão científica mais ampla, mas também para evitar que ele ressurja.

“Devíamos pesquisar até encontrar. Acho que pode ser encontrado e acho muito possível que já tenha sido encontrado”, diz. “Mas então surge a pergunta, por que não foi revelado?”

Lucey diz acreditar que o SARS-Cov-2 provavelmente surgiu naturalmente, mas não quer descartar outras possibilidades.

“Então, aqui estamos, 12, 13 meses após o primeiro caso reconhecido de covid-19 e não encontramos a origem animal”, diz ele. “Então, para mim, é mais um motivo para investigar explicações alternativas.”

Um laboratório chinês poderia ter um vírus geneticamente mais próximo do SARS-Cov-2? E eles nos diriam agora se o fizessem? “Nem tudo o que é feito é publicado”, diz Lucey.

Legenda da foto,Peter Daszak diz não ter visto nenhuma evidência de que o que aconteceu foi um vazamento de um laboratório

Essa é uma pergunta que fiz a Peter Daszak, membro da equipe da OMS para o estudo das origens do vírus.

“Trabalho com o IVW há uma década ou mais”, diz ele. “Conheço algumas pessoas de lá muito bem e tenho visitado os laboratórios com frequência, encontrando-me e jantando com eles por 15 anos.”

“Estou trabalhando na China com meus olhos bem abertos e estou quebrando minha cabeça no tempo em busca do menor indício de algo estranho. E eu nunca vi isso”, acrescenta.

Quando questionado se essas amizades e relações de financiamento com o IVW representavam um conflito de interesses por seu papel na investigação, ele diz: “Nossos documentos estão arquivados; tudo está à vista de todos”.

“Isso me torna uma das pessoas no planeta que mais sabe sobre as origens desses coronavírus de morcegos na China”, acrescenta, sobre sua colaboração com o IVW.

A China pode ter fornecido apenas dados limitados sobre sua busca pela origem do SARS-Cov-2, mas começou a promover uma teoria própria.

Com base em alguns estudos inconclusivos de cientistas europeus, sugerindo que a covid-19 pode ter circulado antes do que se pensava, a propaganda estatal está repleta de histórias que sugerem que o vírus não começou na China.

“Não temos nada a esconder”

Na ausência de dados adequados, é provável que as especulações aumentem, muitas das quais centradas no RaTG13 e suas origens em um poço de mineração Tongguan.

Desde a morte dos mineiros em Tongguan, os cientistas do IVW detectaram pelo menos 293 coronavírus

Artigos acadêmicos antigos foram desenterrados online e parecem diferir das declarações do IVW sobre mineiros doentes, incluindo uma tese de um estudante da Universidade do Hospital de Kunming.

“Acabei de baixar a tese de mestrado do aluno da Universidade do Hospital Kunming e li”, diz a professora Shi à BBC.

“A narrativa não faz sentido”, assinala. “A conclusão não é baseada em evidências ou lógica. Mas os teóricos da conspiração a usam para duvidar de mim. Se você fosse eu, o que faria?”, questiona.

A professora Shi também enfrentou dúvidas sobre por que o banco de dados de vírus online público IVW foi repentinamente retirado do ar.

Shi explica à BBC que o site do IVW e o trabalho da equipe e e-mails pessoais foram hackeados.

Por causa disso, diz ela, o banco de dados foi retirado do ar por motivos de segurança.

“Todos os resultados de nossas pesquisas são publicados em periódicos ingleses na forma de artigos”, destaca. “As sequências de vírus também são armazenadas no banco de dados GenBank (gerenciado pelos EUA). É completamente transparente. Não temos nada a esconder”, completa.

Mais obstáculos ao longo do caminho

Há perguntas importantes a serem feitas no interior de Yunnan, não apenas por cientistas, mas também por jornalistas.

Após uma década de amostragem e experimentação com vírus coletados de morcegos, sabemos agora que em 2013 foi descoberto o ancestral mais próximo conhecido de uma ameaça futura que ceifaria mais de 1 milhão de vidas e devastaria a economia global.

No entanto, o IVW, de acordo com informações publicadas, não fez nada com ele, exceto sequenciá-lo e inseri-lo em um banco de dados.

Isso deveria questionar a própria premissa em que se baseia a cara, e alguns diriam arriscada, amostragem em massa de vírus selvagens?

“Dizer que não fizemos o suficiente é absolutamente correto”, diz Peter Daszak à BBC. “Dizer que falhamos não é justo. O que deveríamos ter feito é trabalhar dez vezes com esses vírus.”

Tanto Daszak quanto a professora Shi insistem que a pesquisa sobre prevenção de pandemias é um trabalho vital e urgente.

“Nossa pesquisa é voltada para o futuro e é difícil para os não profissionais entenderem”, escreve Shi por e-mail. “Diante dos inúmeros microorganismos que existem na natureza, os humanos são muito pequenos”.

A OMS promete uma investigação de “mente aberta” sobre as origens do novo coronavírus, mas o governo chinês não está interessado em perguntas, pelo menos não de jornalistas.

Depois de deixar Tongguan, a equipe da BBC tentou dirigir algumas horas ao norte até a caverna onde a professora Shi realizou sua pesquisa inovadora sobre a SARS quase uma década atrás.

Ainda sendo seguidos por vários carros sem identificação, batemos em outro obstáculo e fomos informados de que não havia como passar por ele.

Algumas horas depois, descobrimos que o tráfego local havia sido desviado para uma estrada de terra que contornava o obstáculo, mas quando tentamos usar o mesmo caminho, encontramos outro carro “quebrado” em nosso caminho.

Ficamos presos em um campo por mais de uma hora, antes de sermos finalmente forçados a ir para o aeroporto.

Coronavírus na Antártica: base de pesquisa chilena relata 36 casos de covid-19

O coronavírus atingiu o continente Antártico, que até agora estava livre do covid-19.

O exército chileno registrou 36 casos na segunda-feira em sua estação de pesquisa Bernardo O’Higgins, na Península Antártica.

Os 36, dos quais 26 são militares e 10 trabalhadores da manutenção, foram evacuados para o Chile.

A notícia significa que agora todos os continentes registraram casos de covid-19.

O anúncio vem poucos dias depois que a Marinha do Chile confirmou três casos no navio Sargento Aldea, que havia levado suprimentos e pessoal para a estação de pesquisas.

O navio chegou à estação de pesquisa em 27 de novembro e navegou de volta ao Chile em 10 de dezembro.

Os três tripulantes deram positivo no retorno à base naval chilena em Talcahuano, no sul do país.
A Marinha do Chile disse que todos os que embarcaram na viagem à Antártica fizeram testes moleculares e que todos os resultados foram negativos.

Sexto país mais afetado

A estação de pesquisa Bernardo O’Higgins é uma das quatro bases permanentes que o Chile tem na Antártica e é operada pelo exército.

A representação chilena na Antártica toma medidas de prevenção do coronavírus desde março, como distanciamento social, uso de máscaras e suspensão das atividades.
Além disso, no final daquele mês, o pessoal que trabalhava temporariamente nas bases saiu.
Até esta terça-feira, o Chile era o sexto país da América Latina mais afetado pelo covid-19, com mais de 589.000 casos confirmados de coronavírus.

O Serviço Antártico Britânico anunciou em agosto que estava reduzindo sua investigação no pólo sul devido ao coronavírus.

Sem vacina, sem seringa, sem agulha e sem rumo

“Sem uma ação coordenada de todo o país, envolvendo medidas sincronizadas de isolamento social, bloqueio sanitário das rodovias e uma campanha nacional de vacinação, o Brasil não conseguirá derrotar a covid-19.” Miguel Nicolelis

Dezenas de pessoas caminham no centro de São Paulo no dia 18 de dezembro.SEBASTIAO MOREIRA / EFE

Apesar de assemelhar-se a um refrão de sucesso de carnavais passados, o título da minha última coluna de 2020 certamente não tem qualquer ambição de servir como inspiração para alguma futura marchinha carnavalesca. Pelo contrário, ao tentar reproduzir o estilo literário predileto do último astrofísico-poeta da humanidade, o persa Omar Khayan, que viveu entre os séculos XI e XII, esta quadra sem rima rica tem como propósito expor, de forma nua e crua, a situação trágica vivida pelo Brasil, depois de nove meses de uma pandemia que nunca esteve sob controle das autoridades governamentais e que ameaça atingir níveis ainda maiores de casos e óbitos nas próximas semanas.

Além dos quatro itens, que fazem parte da “Lista dos Sem”, como a batizei, eu poderia continuar enumerando outras várias razões que transformaram o Brasil num verdadeiro navio à deriva, uma nau “Sem capitão”; um barco gigantesco que, “Sem comando”, se contenta em vagar às cegas num vasto oceano viral, à mercê de ventos e correntes fatais, que ameaçam conduzir este nosso Titanic tupiniquim, depois da maior crise sanitária da nossa história, para dentro de um redemoinho que pode culminar na maior catástrofe socioeconômica jamais vivida abaixo da linha do equador.

O meu alarme decorre de uma simples análise de risco do cenário atual. Por exemplo, apesar de inúmeros avisos prévios, mesmo antes das festas de final e ano, o Brasil já sofre com uma nova explosão de casos e óbitos de covid-19. Esta escalada de casos, gerada pelo afrouxamento das medidas de isolamento social, abertura desenfreada do comércio e pelas aglomerações eleitorais, desencadeou uma segunda onda de superlotação hospitalar em todo país, com algumas capitais atingindo taxas de ocupação de leitos de UTI acima de 90%. Sem qualquer plano de comunicação de massa para alertar a população sobre os riscos que, em razão das aglomerações geradas no período das festas de final de ano, esta nação enfrentará uma explosão ainda maior de casos e óbitos, como ocorrido no período após o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos, quando o “Sem governo” ―ou seria (des)governo?― abandonou sua população à própria sorte. Não é à toa, portanto, que boa parte do país hoje se orienta através do último boato de Whatsapp a viralizar nas redes sociais. Acima de tudo, entre outros crimes lesa-pátria cometidos em 2020, há uma total falta de informações confiáveis e recomendações apropriadas para orientar a população em como proceder para se proteger contra o coronavírus, antes da chegada de uma vacina eficaz e segura.

Mas os absurdos não param aí. No país do “Sem a menor ideia”, técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU), depois de minuciosa auditoria, concluíram que não existe planejamento estratégico minimamente aceitável para a distribuição de equipamentos de proteção, kits de testes, bem como de seringas e agulhas, e de vacinas ―até mesmo porque ninguém sabe qual ou quais serão usadas― para todo o território nacional. Se tudo isso não fosse o suficiente para gerar alarme em Pindorama, mesmo depois de vários países terem proibido todos os voos, de passageiros e de carga, oriundos do Reino Unido, para evitar a propagação de uma nova cepa mais contagiosa de SARS-CoV- 2, que provocou o estabelecimento de novo lockdown na Inglaterra, o espaço aéreo brasileiro continua aberto, e nossos aeroportos continuam não checando os passageiros, permitindo desta forma que diariamente novos casos de viajantes infectados possam entrar no Brasil, sem qualquer tipo de controle sanitário.

Diante desta situação dantesca, o Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste publicou na última sexta-feira o seu Boletim de número 13. Nele, além da análise minuciosa da situação atual e futura de cada um dos Estados nordestinos, o comitê fez uma série de recomendações emergenciais para os nove governadores da região. Dentre elas, a mais urgente é a que os governadores nordestinos levem a seus colegas de todo o Brasil a proposta de criar, em caráter emergencial, uma Comissão Nacional de Vacinação, formada pelos principais especialistas na área, para atuar de forma independente do Ministério da Saúde e do Governo federal e criar um Plano Nacional de Imunização efetivo e seguro, a ser implementado em todo território nacional, através da ação conjunta de todos os Estados brasileiros. Esta proposta traz à luz do dia a verdade que ficou escondida em baixo do tapete durante todo o ano de 2020: sem uma ação coordenada de todo o país, envolvendo medidas sincronizadas de isolamento social, bloqueio sanitário das rodovias em todas as regiões do país, e uma campanha nacional de vacinação, o Brasil não conseguirá derrotar a covid-19 nem a curto prazo, nem a médio prazo. E o custo desta omissão será épico, em termos de centenas de milhares de vidas perdidas.

Depois de quase 200.000 mortes, não há mais nenhum tempo a perder se a sociedade brasileira deseja realmente evitar que no Natal de 2021 tenhamos mais de meio milhão de mortos como consequência daquela que já entrou para a história brasileira como a pandemia dos “Sem Noção”.

Miguel Nicolelis é um dos nomes com maior destaque na ciência brasileira nas últimas décadas devido ao trabalho no campo da neurologia, com pesquisas sobre a recuperação de movimentos em pacientes com deficiências motoras. Para a abertura da Copa de 2014, desenvolveu um exoesqueleto capaz de fazer um jovem paraplégico desferir o chute inicial do torneio. Incluiu recentemente à sua lista de atividades a participação no comitê científico criado pelos governadores do Nordeste para estudar a pandemia da covid-19. Twitter: @MiguelNicolelis

Além de enfrentar Brexit sem acordo e lockdown, britânicos temem desabastecimento em mercados

Em meio à circulação de uma nova variante de coronavírus, empresas britânicas tentam abastecer estoques antes do Brexit, em 31 de dezembro.

Depois de ter declarado às pressas o lockdown para uma parte dos britânicos a apenas alguns dias de Natal, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson teve que trabalhar dobrado na segunda-feira (21/12) para garantir suprimentos à população da ilha, que teve parte de suas ligações internacionais cortadas por causa de uma nova linhagem do coronavírus, altamente contagiosa. O problema é ainda maior às vésperas de um Brexit forçado, que, tudo leva a crer, acontecerá sem acordo formal com a União Europeia, isolando ainda mais o Reino Unido do continente.

Em um fim de semana, a nova variante da covid-19 causou uma explosão dupla no Reino Unido. Primeiro, a contenção de 16 milhões de habitantes de Londres e do sudeste da Inglaterra, cujas reuniões de família nas férias estão se tornando um verdadeiro pesadelo. Depois, a decisão de muitos países, entre os quais a França, de suspender a circulação de pessoas e mercadorias entre o continente e a Grã-Bretanha, que está abalando toda a cadeia de abastecimento do país, muito dependente da rotação de caminhões no Canal da Mancha para produtos frescos.

Tudo isso acontece no momento em que as empresas tentam abastecer estoques antes de deixar o mercado único europeu, em 31 de dezembro, o que trará consequências como impostos aduaneiros e taxas.

Enquanto os caminhões se empilhavam nas estradas do sul da Inglaterra, Boris Johnson presidia uma reunião de crise em Downing Street, residência oficial dos premiês britânicos, antes de falar com a imprensa.

“Os atrasos afetam apenas uma proporção muito pequena de alimentos que entram no Reino Unido e, como disseram os grupos de supermercados do Reino Unido, as cadeias de abastecimento são fortes e robustas”, insistiu. “A grande maioria dos alimentos e nossos remédios circulam normalmente.”

De acordo com Johnson, 20% da circulação de mercadorias estava bloqueada por conta do fechamento de fronteiras.

Considerando “realmente muito baixo” o risco de transmissão do coronavírus por caminhoneiros, ele disse ter discutido a situação com o presidente francês Emmanuel Macron que, segundo ele, disse querer “resolver a situação nas próximas horas”.

No Twitter, o ministro francês dos Transportes, Jean-Baptiste Djebbari, garantiu que um “protocolo de saúde sólido” em “nível europeu” seria posto em prática “nas próximas horas” para que “os fluxos do Reino Unido possam circular”.

Depois de uma reunião de especialistas na segunda-feira, os embaixadores da União Europeia devem tentar nesta terça-feira (22/12) harmonizar as medidas decididas pelos Estados-membros para evitar novas chegadas e entradas de viajantes, segundo fontes europeias.

Para lidar com isso, a polícia em Kent (sudeste) implementou medidas de emergência para ordenar que os caminhões estacionem nas laterais da rodovia M20, que serve o Túnel do Canal, para evitar bloqueio de toda a rede viária.

Ao longo do ano, Boris Johnson foi amplamente criticado por sua forma de lidar com a crise, marcada por hesitações e reveses. Depois de garantir por meses que queria preservar as férias de Natal, ele se viu tendo de cancelá-las, desferindo um duro golpe no espírito dos britânicos, que viram a epidemia recomeçar.

A causa: uma mutação do SARS-CoV-2, segundo Londres, 70% mais contagiosa, mas a priori não mais perigosa. Os cientistas pedem que o governo britânico anuncie um lockdown nacional nos próximos dias para evitar a piora da crise.

O governo advertiu que o surto será “difícil” de conter até que a vacina seja amplamente distribuída, o que levará vários meses. Atualmente, cerca de 500.000 doses foram administradas, de acordo com Boris Johnson.

Apesar do discurso tranquilizador das autoridades, os mercados financeiros viram este novo fechamento de fronteira com preocupação, com a libra em queda livre.

De acordo com um porta-voz da rede de supermercados Sainsbury, “todos os produtos” para o jantar de Natal já estão em solo britânico. Por outro lado, “se nada mudar”, logo poderão faltar saladas, “couves-flores, brócolis e frutas cítricas” importadas do continente.

O medo é ainda mais forte porque os dias estão contados até o final do período de transição pós-Brexit em 31 de dezembro. As negociações comerciais entre Londres e Bruxelas ainda não foram bem-sucedidas e, em caso de fracasso, a volta das taxas de importação suscita temores de graves perturbações no abastecimento do país.

Para evitar isso, a primeira-ministra escocês, Nicola Sturgeon (pró-independência), e o prefeito trabalhista de Londres, Sadiq Khan, pediram ao governo que exigisse uma extensão do período de transição pós-Brexit para além de 31 de dezembro.

Um pedido que sem surpresa já foi rejeitado por um porta-voz de Boris Johnson: “nossa posição sobre o período de transição é clara: terminará em 31 de dezembro”.