O Brasil vive a banalização da morte?

Invisível para muitos, a maior tragédia sanitária da história brasileira virou uma macabra estatística. A ilusão da volta ao normal, dizem antropólogos, sociólogos e psicólogos, esconde uma espécie de negação coletiva.

Protesto da ONG Rio da Paz nas areias da praia de Copacabana

Há mais de três meses, em 19 de maio, o Brasil registrou pela primeira vez mais de mil mortos em 24 horas em decorrência da covid-19. Desde então, a situação epidemiológica do país, que já soma oficialmente mais de 113 mil óbitos pela pandemia, estabilizou-se em um trágico platô.

Se a situação sanitária parece longe de estar sob controle, por outro lado os discursos são de retomada de economia: há dois meses as atividades vem sendo gradualmente reiniciadas em todo o território nacional, o isolamento social se afrouxa, e está sendo discutida a reabertura das escolas.

Para o antropólogo, cientista social e historiador Claudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor do livro História da Saúde Pública no Brasil, o país vive um cenário de “banalização da morte”.

Ele entende que isso é decorrente de uma dimensão política — a maneira como o governo federal conduziu e conduz a situação —, de uma aceitação social — o discurso de que “demos azar” ou de que quem tem comorbidades iria “acabar morrendo mesmo” —, e por fim, de aspectos culturais.

“O presidente Jair Bolsonaro é fruto da sociedade brasileira que, historicamente, banalizou a morte, desde aquele papo que ‘bandido bom é bandido morto’”, diz Bertolli Filho. “Há ainda uma tendência de nossa cultura, para sobrevivermos psicologicamente, a enfrentar o momento pandêmico negando as mortes, mostrando-nos imunes a ela.”

“É quando rejeito pensar que aquele que morreu é parecido comigo e eventualmente poderia ser eu próprio. Quem morreu é ‘o outro’, o ‘da periferia’, o que ‘tinha comorbidades’, o que ‘não seguiu as normas sanitárias’”, exemplifica o acadêmico.

Já para o historiador e sociólogo Mauro Iasi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Política, Estado e Ideologia, a sequência diária de mortes, transformadas em estatística, acaba naturalizando-as à população.

“Quando nos vemos diante de um número elevado de mortes, como em um acidente, por exemplo, isso nos choca pela quebra desta aparente casualidade. No caso da pandemia, o ritmo diário das mortes, sua matematização pelas estatísticas, tende a devolver o fenômeno para o campo da casualidade, naturalizando-o”, argumenta ele.

Iasi exemplifica citando as mortes provocadas anualmente pela ação da Polícia Militar no Brasil — 5.804 em 2019. “A rotinização do fato faz com que se banalize o fenômeno, como parte da vida e, portanto, abrindo espaço para sua negação.”

Pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), o jornalista, economista e cientista político Bruno Paes Manso compara a sensação transmitida pelas mortes do coronavírus àquela em relação as vítimas de homicídio no país.

“Os grupos que morrem são vistos como aqueles que, de alguma forma, tinham justificativa para morrer. No caso dos homicídios, são as pessoas ‘que procuraram seu próprio destino’. [Para a opinião pública] a vítima é culpada da morte: são negros, pobres, moradores de periferia, suspeitos de serem traficantes”, comenta. “Existe uma certa ilusão de que as mortes se restringem a determinados grupos vistos pelas pessoas como aqueles que ‘podem morrer’. Isso gera não a banalização, mas uma tolerância a esse tipo de ocorrência.”

Ele acredita em uma lógica um tanto parecida nos óbitos decorrentes do coronavírus. Na racionalização, aponta o pesquisador, a opinião geral é de que a doença não atingiria os próximos, mas sim aqueles vistos como “o outro”: o idoso, aquele com comorbidades, os de alguma forma mais vulneráveis. Este raciocínio é balizado pelo que ocorre nas principais cidades — em geral, os distritos com maior número de mortos estão localizados nas periferias.

Desamparo

“O medo da morte iminente que vem junto com a pandemia mobiliza tanto conteúdos de medo e de desamparo, quanto uma espécie de negação coletiva, já que não existe nenhuma figura real de autoridade, nem na ciência, nem na política, que dê conta de ‘funcionar’ como figuras paternas ou maternas que possam cuidar ou proteger contra a morte”, analisa a psicóloga Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Até porque, em todo o mundo, por enquanto, ninguém sabe ainda como vencer essa ameaça comum a todos os seres humanos, com exceção da esperada chegada de vacinas.”

Ela lembra que o fato dessas mortes serem divulgadas diariamente por meio de estatísticas numéricas também dificulta a “identificação” por parte da população. Isso só não ocorre, pontua a professora, quando as mortes chegam a círculos próximos ou vitimizam alguma celebridade.

Para o psicólogo Ronaldo Pilati, professor da Universidade de Brasília (UnB), o fenômeno não pode ser chamado de “banalização”, mas sim de “minimização”. Ao recordar da comoção que houve no Brasil quando a Itália registrava cerca de mil mortes em um dia, por exemplo, ele ressalta que era um momento em que os brasileiros estavam “mais atentos e conectados à questão”, já que o mês de março foi quando diversas medidas de quarentena e isolamento social foram implementadas de fato.

“Com o passar do tempo e a maneira ineficiente com que o Brasil enfrentou a pandemia, houve uma mudança de comportamento”, observa. “Não houve enfrentamento coordenado [da questão] e isso confirmou a expectativa de desamparo que o brasileiro tem quando depende do Estado para a resolução de problemas.”

No livro Death Without Weeping: The Violence of Everyday Life in Brazil, a antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes relata como mães brasileiras de favelas com altos índices de mortalidade infantil acabam lidando com os óbitos de seus filhos. Para a pesquisadora, a impotência faz com que essas mulheres acabem se conformando com a partida daqueles “mais fracos”, exercendo uma espécie de triagem para favorecer os bebês mais saudáveis, com mais “talento para viver”.

Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o antropólogo e sociólogo Marko Monteiro concorda que essa sensação é decorrente da desigualdade social brasileira. “Convivemos com a morte historicamente, desde a formação do país, a maneira violenta como foi construída a nação. Nossas ações cotidianas são permeadas por violência”, resume. “A banalização é consequência disso: os números mostram que quem está morrendo mais são as pessoas de áreas periféricas, negras, sem acesso… São os fatores modificáveis.”

“Então temos mecanismos sociais e psicológicos para conviver com essas mortes, que muitos consideram inevitáveis. É a clássica atitude do ‘eu não sou coveiro’, do ‘e daí?’… Por que isso ressoa em muita gente? Porque há a ideia de as mortes eram inevitáveis, que essas pessoas morreriam de qualquer jeito”, afirma.

Coronavírus: cantar ‘não é mais arriscado do que falar’

Cantar não produz partículas respiratórias substancialmente mais do que falar em um volume semelhante, sugere um estudo.

Cientistas realizaram medições em laboratório

Mas tudo depende de quão barulhento uma pessoa é, de acordo com as descobertas iniciais que ainda serão revisadas por pares.

O projeto, chamado Perform, analisou a quantidade de aerossóis e gotas geradas pelos performers.

As descobertas podem ter implicações para apresentações ao vivo em ambientes fechados, que foram retomadas na Inglaterra esta semana.

Atualmente, eles só podem ocorrer sob estritas diretrizes de distanciamento social.

Aerossóis são partículas minúsculas que são exaladas do corpo e flutuam no ar.

Existem evidências emergentes de que o coronavírus pode se espalhar por meio dessas partículas, bem como por meio de gotículas que caem nas superfícies e são tocadas.

Vinte e cinco performers profissionais de diferentes gêneros, etnias, idades e origens – teatro musical, ópera, gospel, jazz e pop – participaram do estudo que foi conduzido por cientistas da Universidade de Bristol.

Eles completaram individualmente uma série de exercícios, que incluíram cantar e falar Feliz Aniversário em diferentes tons e volumes, em uma sala de operação onde não havia outros aerossóis presentes.

Isso permitiu aos pesquisadores analisar os aerossóis produzidos por sons específicos.

Eles descobriram que o volume da voz teve o maior impacto na quantidade de aerossol produzida.

Por exemplo, havia alguma diferença – embora não muito substancial – entre falar e cantar em um nível semelhante. Considerando que cantar ou gritar no nível mais alto pode gerar 30 vezes mais aerossol.

O impacto de tocar instrumentos também foi testado

A ventilação também pode afetar a forma como o aerossol se acumula. Quanto maior o local e mais ventilação houver, isso pode afetar a concentração dos volumes.

Jonathan Reid, professor de físico-química da University of Bristol, é um dos autores do artigo, que foi financiado pela Public Health England.

Ele disse: “Nossa pesquisa forneceu uma base científica rigorosa para as recomendações da Covid-19 para locais de artes operarem com segurança, tanto para os artistas quanto para o público, garantindo que os espaços sejam adequadamente ventilados para reduzir o risco de transmissão aérea.”

O secretário de Cultura Oliver Dowden disse: “Sei que cantar é uma paixão e um passatempo importante para muitas pessoas, que tenho certeza que se juntarão a mim para saudar as descobertas deste importante estudo.

“Trabalhamos em estreita colaboração com especialistas médicos durante toda esta crise para desenvolver nossa compreensão da Covid-19 e agora atualizamos nossa orientação à luz dessas descobertas para que as pessoas possam voltar a trabalhar juntas com segurança.”

O Dr. Rupert Beale, do Francis Crick Institute, disse: “Esta importante pesquisa sugere que não há risco excessivo específico de transmissão devido ao canto. A fala alta e o canto apresentam risco excessivo. Esta pesquisa apóia a possibilidade de desempenho seguro, desde que haja distanciamento social e ventilação adequados. ”

O Dr. Julian Tang, professor associado honorário em ciências respiratórias da Universidade de Leicester, disse: “O risco é ampliado quando um grupo de cantores está cantando juntos, por exemplo, cantando para uma platéia, seja em igrejas, salas de concerto ou teatros. bom estudo, mas não exatamente representativo de toda a dinâmica do coro real, que realmente precisa de um estudo mais aprofundado para realmente avaliar o risco de tais vocalizações / exalações cantadas sincronizadas de grande volume.

“Os riscos não devem ser subestimados ou minimizados por causa disso – não queremos que os membros do coral sejam infectados e potencialmente morram por causa do Covid-19 enquanto fazem o que amam.”

Pandemia expõe desigualdade social na Alemanha

Bloco residencial em Berlim foi colocado em quarentena

Mais de 1.500 casos do novo coronavírus num frigorífico no estado da Renânia do Norte-Vestfália, mais de 100 num conjunto residencial em Berlim e 120 infecções entre residentes de um prédio em Göttingen, na Baixa Saxônia, são os mais recentes surtos de covid-19 na Alemanha. Apesar de registrados em diferentes cidades, os três têm algo incomum: atingem as camadas mais carentes da população.

No primeiro, mais de um quinto dos trabalhadores do frigorífico Tönnies, localizado no distrito de Gütersloh, contraiu o coronavírus. O local foi fechado, e milhares de funcionários deveriam entrar em quarentena, mas a empresa não foi capaz de fornecer os endereços de todos os empregados, pois grande parte deles é terceirizada, vinda de países do Leste Europeu com contratos temporários.

Alguns conjuntos residenciais onde vivem esses trabalhadores temporários foram cercados por grades para impor a quarentena obrigatória. As condições de moradia nesses locais não são as melhores, com muitos moradores para poucos metros quadrados, impossibilitando o distanciamento social. Soma-se a isso o medo de ficar sem receber salários com o fechamento do frigorífico.

Esse não foi o primeiro surto em frigoríficos na Alemanha, mas o maior até o momento, e ele trouxe novamente à tona o debate sobre as precárias práticas de trabalho no setor, as terceirizações que possibilitam a exploração da mão de obra, com salários baixos, e as condições de moradia dos trabalhadores temporários estrangeiros, vindo principalmente da Polônia, Romênia e Bulgária.

Os outros dois surtos recentes na Alemanha ocorreram em regiões residenciais que concentram as camadas mais carentes da população, onde muitos dos moradores dependem de benefícios sociais para sobreviver.

Em Berlim, a onda de infecções atingiu em cheio um conjunto residencial no bairro Neukölln, onde um quarto da população está abaixo da linha de pobreza – atualmente estipulada em 1.004 euros líquidos por mês na capital alemã. No prédio, vivem muitas famílias de imigrantes. Alguns dos apartamentos de dois quartos, sala e cozinha abrigam até dez pessoas.

Em Göttingen, a situação é semelhante. Cerca de 700 pessoas moram no prédio onde cerca de 120 casos foram registrados, e muitos dos moradores são imigrantes. O prédio foi isolado com grades, e as entradas e saídas foram bloqueadas para evitar que moradores furem a quarentena.

Tanto em Berlim quanto em Göttingen todos os moradores foram colocados em quarentena. Sobretudo em Göttingen, onde as portas foram bloqueadas, a medida fez muitos se perguntarem se atitudes semelhantes seriam tomadas em bairros residenciais onde vive a população mais abastada.

Os três surtos recentes expõem as desigualdades sociais presentes na Alemanha, que, apesar de não estarem tão escancaradas ou serem tão graves quanto no Brasil, também existem.

No caso do frigorífico, o surto trouxe à tona os altos custos sociais da carne de porco barata vendida na Alemanha, que só é possível de ser produzida com baixos salários e imigrantes que aceitem trabalhar e viver em condições precárias. Os surtos no setor impulsionaram novamente o debate sobre como proteger esses trabalhadores. Ainda não é possível saber se a situação atual impulsionará uma reflexão entre os alemães sobre o preço que pagam pelo bife no mercado e sobre como esses hábitos de consumo impactam a cadeia produtiva.

Já os prédios colocados em confinamento obrigatório em Berlim e Göttingen mostram a exclusão existente no setor imobiliário, onde muitos dividem espaços pequenos – por não terem condições de pagar aluguéis de apartamentos maiores ou por não serem aceitos como inquilinos em outros locais.

Na capital alemã, a questão da moradia foi um tema bastante abordado quando o governo traçou as estratégias de confinamento para conter a disseminação da covid-19. A principal questão era como manter uma quarentena relativamente “saudável” em apartamentos pequenos onde viviam grandes famílias com crianças. Por isso, a decisão aqui foi permitir que passeios e atividades ao ar livre em parques nesse período.

A exclusão no setor imobiliário e as condições de trabalho na indústria da carne são velhos conhecidos, mas a pandemia chamou atenção e deu uma nova dimensão para esses problemas. Resta agora saber se ela trará alguma mudança positiva em relação a eles.

Pico no Brasil em agosto e 88 mil mortes: as novas previsões sobre a pandemia

Autoridades de saúde trouxeram más notícias nos últimos dias para Brasil e Estados Unidos, países que concentram o pior cenário da pandemia de coronavírus no mundo.

Direito de imagem Reuters

Mais de 126 mil pessoas já morreram nos Estados Unidos devido à doença — o maior número de óbitos do mundo. O Brasil vem logo atrás, com 58 mil mortos até esta terça-feira (30), segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Integrantes da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço regional nas Américas da Organização Mundial da Saúde (OMS), disseram nesta terça-feira que o pico da epidemia no Brasil pode ser em agosto e que o país poderá ter mais de 80 mil mortes até lá.

Nos Estados Unidos, o médico Anthony Fauci, considerado o mais importante especialista em doenças infecciosas dos Estados Unidos e um dos principais integrantes da força-tarefa criada pela Casa Branca para responder à pandemia, disse nesta terça-feira que o número de casos no país pode crescer ao ponto de haver 100 mil novos por dia.

Pico no Brasil em agosto

A Opas estima que, se as condições de combate ao vírus continuarem as mesmas, o Brasil só atingirá o pico da epidemia em agosto, quando poderá ter 88,3 mil mortes. A estimativa foi feita com base em modelos matemáticos que levam em conta uma série de cenários.

A diretora-geral da Opas, Carissa Etienne, disse, em coletiva de imprensa nesta terça, que “os números só serão esses se os países não mudarem suas respostas”, disse ela.

Etienne disse ainda que, se países decidirem abrir suas economias, isso deve ser feito com todas as medidas de cuidado, especialmente aumentar o número de testes, rastrear contatos de doentes, garantir o uso massivo de máscaras e a manutenção do isolamento social.

O diretor do Programa de Doenças Transmissíveis da Opas, Marcos Espinal, disse que a organização pediu diversas vezes ao Brasil que aumente a quantidade de teste de coronavírus e que mande uma mensagem coesa para a população.

“No Brasil, os governadores têm o poder de implementar as medidas e estão fazendo isso, mas se não há uma mensagem consistente, a população fica confusa. Estamos muito preocupados com isso”, afirmou Espinal.

O Brasil atingiu na segunda-feira (29) a marca de 1.368.195 de casos de coronavírus. O total de mortes chegou a 58.314.

O diretor, por outro lado, elogiou o sistema de saúde do Brasil. “O sistema de atenção primária no Brasil é um dos melhores da América Latina e do mundo, e deve ser mais bem aproveitado”, disse o diretor.

A Opas também estima que Argentina, Peru e Bolívia chegarão ao pico da epidemia em agosto. Já Chile e Colômbia atingiriam o topo da curva em julho.

A América Latina poderá ter 438 mil mortes por covid-19 até outubro. As Américas como um todo concentram o maior número de casos e mortes por covid-19. Até 29 de junho, a região registrou 5,1 milhões de casos e mais de 247 mil mortes.

Nos EUA, casos aumentaram depois de reabertura
O número de casos nos Estados Unidos aumentou em 80% nas últimas duas semanas, segundo cálculos do jornal The New York Times.

Embora parte do aumento se deva à ampliação na testagem, em algumas áreas também está aumentando a taxa de testes positivos (ou seja, número de testes positivos em comparação com o total de testes feitos), o que indica um avanço na contaminação.

Esse aumento tem sido puxado por pessoas mais jovens de Estados do Sul e do Oeste do país, onde algumas cidades já encaram pressão sobre seus sistemas de saúde, que não estão dando conta do volume de doentes.

A disparada de casos tem ocorrido especialmente em Estados que reabriram suas economias mais cedo, como Flórida e Texas, ambos no sul. Isso levou as autoridades a aumentar as restrições para o funcionamento do comércio novamente.

Restaurantes na Flórida reabriram em maio
Direito de imagemEPA

“Estamos tendo mais de 40 mil novos casos por dia. Não ficaria surpreso se chegarmos a 100 mil por dia. E por isso estou muito preocupado”, disse Fauci, num pronunciamento ao Senado.

A Flórida tem tido recordes de novos casos quase diariamente desde meados de junho.

O Estado teve um número total de mais de 132 mil casos, com mais de 3,3 mil mortos. A Flórida é um dos Estados com maior número de brasileiros nos EUA.

Muitos outros Estados do sul e do oeste tiveram uma disparada de novos casos quando começaram a flexibilizar as restrições colocadas em prática por causa da pandemia e quando outras pessoas de outras regiões do país começaram a chegar.

No início desta semana, Texas, Flórida e Arizona congelaram os planos de reabertura, em um esforço para combater o surto.

Na sexta-feira, o governador da Flórida, Ron DeSantis, impôs novas restrições, ordenando que os bares do Estado parem de servir álcool em suas instalações — embora não esteja claro como as novas medidas afetariam os restaurantes, informou o Miami Herald.

E no Texas, que também registrou um número recorde de casos nesta semana, o governador Greg Abbott disse aos bares para fechar e limitar a capacidade dos restaurantes em 50%.

#ExposeBillGates – hashtag explode no Twitter enquanto teóricos da conspiração prometem evitar a vacina Covid-19 conectada ao bilionário

“O público está finalmente acordando. Eu nunca gostei desse cara e se você realmente o ouvir falar e assistir às entrevistas dele, saberá que ele não tem nosso melhor interesse em mente “, twittou o autor Peter Vooogd no sábado. Foi um dos muitos tweets vinculados à hashtag #ExposeBillGates, que surgiu de um “dia de ação” planejado – anunciado pelo autor Derrick Broze no mês passado – para expor o bilionário.

Bill Gates fala durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, Suíça © REUTERS / Arnd Wiegmann

A onipresença de Bill Gates na mídia durante a pandemia de Covid-19 se transformou em uma obsessão em massa com muitos, e os teóricos da conspiração colocaram #ExposeBillGates no Twitter em um “dia de ação” planejado.
A pandemia de coronavírus criou várias especulações em torno do Microsoft Founder sobre seu apoio a medidas estendidas de bloqueio, suas grandes contribuições à Organização Mundial da Saúde e comentários anteriores sobre vacinas.

Outros tweets incluíam um vídeo que denunciava Gates por sua franqueza no Covid-19, apesar de não ser um funcionário eleito, além de seu apoio à extensão de medidas de bloqueio em todo o mundo. Acusações de “controle populacional” também foram distribuídas com base no trabalho de Gates em fornecer vacinas para países mais pobres por meio de sua fundação.

Outros prometeram nunca tomar nenhuma vacina com a qual Gates tenha envolvimento, incluindo a autora conservadora Michelle Malkin.

Alguns usuários de mídia social, no entanto, não levaram a sério as teorias da conspiração e, em vez disso, usaram a hashtag para zombar de Gates.

Embora as teorias da conspiração sobre Gates sejam baseadas mais em conjecturas do que em evidências concretas, elas captaram o público. A empresa de análise de mídia Zignal Labs relatou a teoria da conspiração de que Gates quer implantar microchips de rastreamento nos cidadãos sob o pretexto de parar o Covid-19 foi mencionado nas mídias sociais mais de um milhão de vezes antes de maio.

Uma pesquisa do Yahoo News / YouGov que mostrou cerca de 20% dos participantes acredita que Gates deseja rastrear as informações pessoais das pessoas através de microchips. Para os republicanos, esse número na pesquisa dispara acima de 40%.

Gates negou o desejo de implantar microchips nos cidadãos e chamou os resultados da pesquisa de “preocupantes”, apesar de admitir que um “sistema de dados” em massa acompanhar as informações das pessoas era uma boa idéia para evitar futuras pandemias.

A posição de Gates no mundo só aumentou desde o início da pandemia, o que provavelmente alimenta muitos dos teóricos da conspiração que não confiam nele. Com os EUA apoiando o apoio à Organização Mundial da Saúde, ele deve se tornar o maior colaborador do grupo, fato que preocupa muitos, já que o fundador da Microsoft é um cidadão privado que teoricamente poderia exercer muito poder durante situações globais.

 

 

O elo entre desmatamento e epidemias investigado pela ciência

A região com a maior floresta tropical do mundo também é considerada um provável polo de epidemias, como mostrou uma análise feita por uma equipe liderada por Simon Anthony, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Só de coronavírus que circulam em morcegos também no Brasil, o levantamento contabilizou pelo menos 3.204 tipos.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Faz pelo menos duas décadas que cientistas repetem o alerta: à medida que populações avançam sobre as florestas, aumenta o risco de micro-organismos – até então em equilíbrio – migrarem para o cotidiano humano e fazerem vítimas.

Cientistas alertam há décadas para o risco de novas doenças como consequência da destruição de florestas. Assim como a Ásia, origem do novo coronavírus, a Amazônia é vista como possível polo de enfermidades.

Foi por isso que a notícia sobre a propagação do novo coronavírus, detectado pela primeira vez na China em dezembro passado e que se espalhou pelo mundo, não pegou Ana Lúcia Tourinho de surpresa. Doutora em Ecologia, ela estuda como o desequilíbrio ambiental faz com que a floresta e sociedade fiquem doentes.

“Quando um vírus que não fez parte da nossa história evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo é o caos. Está aí o novo coronavírus esfregando isso na nossa cara”, argumenta Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

No caso do novo coronavírus, batizado de Sars-CoV-2, muito antes de infectar os primeiros humanos e viajar a partir da China, abrigado no corpo de viajantes, para outras partes do mundo, ele habitava outros hospedeiros num ambiente selvagem – morcegos, provavelmente.

Isolados e em equilíbrio em seu habitat, como florestas fechadas, vírus como esse não ameaçariam os humanos. O problema é quando esse reservatório natural começa a ser recortado, destruído e ocupado.

Estudos científicos publicados anos antes da atual pandemia já mostravam a conexão entre perda florestal, proliferação de morcegos nas áreas degradadas e coronavírus. Análises assinadas por Aneta Afelt, pesquisadora da Universidade de Varsóvia, na Polônia, descrevem como os altos índices de destruição florestal nos últimos 40 anos na Ásia eram um indicativo de que a próxima doença infecciosa grave poderia sair dali.

Para chegar a essa conclusão, Afelt seguiu o rastro de pandemias prévias provocadas por outros coronavírus, como a da Sars, em 2002 e 2003, com taxa de mortalidade de 10%, e a Mers, em 2012, que matou 38% das vítimas infectadas.

“Por ser uma das regiões do mundo onde o crescimento populacional é mais intenso, onde as condições sanitárias permanecem ruins e onde a taxa de desmatamento é mais alta, o Sudeste Asiático atende a todas as condições para se tornar o local de emergência ou reemergência de doenças infecciosas”, afirmou Afelt num artigo de 2018.

Tais condições não se aplicam apenas a essa parte do mundo. Na Amazônia, onde em 2019 o desmatamento bateu o recorde desta década, com 9.762 km² destruídos, e os alertas de desmatamento aumentaram 51,4% entre janeiro e março de 2020 em relação ao período anterior, o cenário é parecido.

O risco que vem da Amazônia

Tourinho não gosta nem de pensar sobre o impacto na saúde pública se a destruição da Floresta Amazônica seguir o ritmo acelerado. “Se a Amazônia virar uma grande savana, não dá nem para imaginar o que pode sair de lá em termos de doenças. É imprevisível”, diz a pesquisadora. “Além de ser importante para nós por causa do clima, da fauna, ela é importante para nossa saúde.”

Estudos feitos no país já traçaram a relação direta entre o corte da Amazônia e o aumento de doenças. Em 2015, por exemplo, uma equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou que, para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentavam 23%.

A pesquisa foi feita com dados de 773 cidades no Projeto de Monitoramento de Desmatamento da Amazônia, de 2004 a 2012. Além da malária, a incidência de leishmaniose também se mostrou diretamente relacionada ao desmatamento.

“A floresta fechada é como um escudo para que comunidades externas entrem em contato com animais que são hospedeiros de micro-organismos que causam doenças. E quando a gente fragmenta a floresta, começa a fazer vias de entrada no seu seio, isso é uma bomba-relógio”, conclui Tourinho, mencionando ainda o perigo trazido por grandes empreendimentos, como hidrelétricas na Amazônia.

O entra e sai da floresta fragmentada para tirar madeira, colocar gado, abrir garimpo também é apontado como um perigo para a saúde. “As pessoas que entram nessas áreas podem ter contato com esses vírus e levar dentro delas o problema para centros urbanos”, exemplifica Tourinho.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

Nesse cenário, indígenas conseguem ser mais resistentes devido ao convívio por séculos com a floresta intocada, pontua a pesquisadora.

“Quando esses vírus chegam às cidades, a disseminação é muito rápida, justamente por toda a facilidade de deslocamento nesses centros, possibilidade de deslocamentos internacionais. As cidades repetem o mesmo estilo de confinamento que a gente faz com os animais e são gatilhos para proliferação de doenças contagiosas”, acrescenta a bióloga.

Uma dessas rotas pode explicar a origem da pandemia do Sars-Cov-2. A covid-19, doença respiratória provocada pelo coronavírus, infectou mais de 2 milhões de pessoas e matou mais de 128 mil no mundo, segundo dados atualizados pela Universidade Johns Hopkins.

Pandemia avança na Amazônia e ameaça povos indígenas

Uma tragédia está em curso nas áreas mais remotas do Brasil: coronavírus se espalha rapidamente por aldeias e mata mais de 260 indígenas. Falta de plano do governo e presença de invasores aumentam drama.

Foto DW

Com menos de dois meses de vida, o bebê S.D, da etnia kalapalo, está internado numa UTI neonatal em Cuiabá, Mato Grosso, para que tenha chances de sobreviver à covid-19. O recém-nascido é mais um infectado pelo novo coronavírus dentro da Terra Indígena Xingu – a primeira a ser criada no Brasil, em 1961.

“Os parentes [como indígenas se referem a outros indígenas] estão muito assustados. A gente sabia que, quando a covid-19 chegasse, a gente não teria estrutura. É muito triste o que está acontecendo”, diz Watatakalu Yawalapiti, liderança na TI Xingu.

Devido à gravidade do caso, a Justiça atendeu a um pedido do Ministério Público Federal e obrigou o governo do estado a remover o bebê para algum hospital público ou particular. A transferência ocorreu na última quinta-feira (11/02), três dias depois da decisão judicial.

Além do recém-nascido, pelo menos dois outros casos de covid-19 foram confirmados entre os indígenas do Xingu. Para evitar uma disseminação mais rápida, lideranças tentam isolar as aldeias e pregar o distanciamento social, o que é antinatural na cultura indígena, totalmente baseada na coletividade. No estado, a primeira vítima da doença foi um bebê da etnia xavante, de oito meses.

“Temos que proteger os parentes porque não temos apoio do governo, que é ausente. Pedimos muitas vezes que colocassem barreiras sanitárias, mas não aconteceu até agora”, afirma Yawalapiti.

Aterrorizados com o avanço da pandemia nos territórios isolados, eles clamam por apoio. “A gente está pedindo socorro”, diz Eliane Xunakalo, da Fepoimt (Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso).

“Não podemos esperar que os povos sejam dizimados, extintos, como já aconteceu no passado. A gente não pode contar com governo federal, porque para ele não é interessante que a gente receba ajuda”, afirma Xunakalo.

Contrário à demarcação de terras indígenas, o presidente Jair Bolsonaro repete desde sua campanha eleitoral que tem intenção de autorizar atividades econômicas, como mineração e monocultura, nos territórios.

Desde o início da pandemia, 264 indígenas morreram vítimas do novo coronavírus, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), atualizados nesta quinta-feira. A maior parte dos casos ocorrem em Amazonas (133), Pará (52) e Roraima (29).

Em todo o país, o número de mortos ultrapassa a marca de 40 mil.

Experiência contra outros vírus

No Vale do Javari, Amazonas, região conhecida por abrigar o maior número de referências de povos isolados no mundo, algumas medidas de prevenção que surgiram depois dos primeiros contatos com o homem branco foram resgatadas em nome da sobrevivência.

Na década de 1980, a chegada às aldeias de funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio) significava também a chegada do vírus da gripe. “Era uma gripe simples, mas era um desastre para nós”, comenta Beto Marubo, do Movimento Indígena do Vale do Javari, sobre o contato fatal para os povos.

Naquela época, quando os agentes entravam nas aldeias, indígenas, em pequenos grupos, se “mudavam” temporariamente para a floresta para evitar o contágio. Três semanas depois, depois de uma espécie de quarentena, os visitantes não eram mais considerados perigosos para transmitir vírus.

“Agora, com a pandemia, alguns povos reativaram esse costume. Existem algumas iniciativas do tipo entre os kanamari, mayoruna (ou matsés) e sobretudo marubo. Eles fazem um acampamento afastado e ficam distantes”, detalha.

Na região chamada de Médio rio Javari, a covid-19 entrou no território com três técnicos de enfermagem infectados – agora já são 14 casos positivos. “Há informações de que há equipes que estão sendo removidas de outras regiões com diagnóstico positivo da doença”, relata Morubo.

O território de 8 milhões de hectares tem 67 aldeias espalhadas pela Floresta Amazônica. “Não há infraestrutura para tratar pacientes em caso de surto. Os indígenas do Vale do Javari estão sob risco grave. Precisamos de medidas efetivas do governo”, argumenta Morubo.

Covid chega de avião

No Pará, o vírus também circula por territórios remotos. Há casos, por exemplo na TI Tumucumaque, onde só se chega de avião. Na região, onde vivem indígenas de diversas etnias, povos isolados habitam a floresta.

“Não podemos esquecer que a doença também chega através das invasões de terra diante da situação que o país está vivendo, com esse governo genocida, que é a favor de madeireiros, de mineração em terras indígenas”, pontua Puyr Tembé, vice-presidente da Fepipa, Federação dos Povos Indígenas do Pará.

No estado, há mais de 250 casos entre indígenas xikrin numa aldeia de difícil acesso, relata Tembé. Entre os munduruku, etnia mais numerosa no Pará, a situação é tida como grave.

Na TI Yanomami não é diferente. “Nós estamos sofrendo junto com o mundo, com os indígenas e não indígenas”, diz Dário Kopenawa, da Hutukara Fundação Yanomami.

Com o apoio de pesquisadores, a fundação contabilizou 82 casos de covid-19, com quatro mortes confirmadas e outras quatro suspeitas.

Como forma de combate à doença, os yanomami buscam a expulsão dos garimpeiros. “Fora garimpo, fora covid. É a mensagem para as autoridades e para o mundo inteiro também. É dever do governo brasileiro expulsar os mais de 20 mil garimpeiros que invadiram nossa terra”, afirma Kopenawa, sobre os detalhes da petição que busca apoio de 350 mil assinaturas.

Dinamam Tuxá, da diretoria da Apib, critica a falta de um plano para frear o novo coronavírus. “Não vemos um plano estrutural do governo para evitar que um genocídio aconteça”, diz por telefone à DW Brasil.

A cada notícia que chega das aldeias, a angústia aumenta. “É desesperador. Recebemos áudios dizendo que mais um morreu, e mais um… Ficamos arrasados. A gente não percebe um senso de humanidade dos nossos políticos. Pouco importa a vida das pessoas, pouco importa a vida dos indígenas”, desabafa.

Nenhum porta-voz da Funai foi encontrado para comentar o assunto.

Rastro do coronavírus na Ásia intriga cientistas

Os habitantes do extremo oriente, em países como Japão, Tailândia e Mongólia, parecem menos vulneráveis à covid-19.

Moradores de máscara num mercado em Tóquio: vírus teve baixa letalidade no país

Especialistas se debruçam em questões genéticas e de comportamento para tentar entender por quê.

“Mindo” – uma palavra em japonês que pode ser traduzida como “nível superior cultural”. É assim que o ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, um nacionalista convicto de 79 anos, responde à questão de por que o país tem relativamente poucas vítimas de covid-19.

A estação de TV TBS, por sua vez, especula que a língua japonesa é menos propensa à geração de gotículas de saliva, potenciais transmissoras do vírus, por ter menos das chamadas consoantes plosivas, pronunciadas pela expiração do ar.

Muitos japoneses também estão convencidos de que sua boa alimentação os mantém mais protegidos contra o coronavírus.

Todas essas teorias não explicam por que as taxas de infecção e morte são relativamente baixas não apenas no Japão, mas em toda a Ásia.

A China relatou três mortes por milhão de habitantes, e o Japão sete. O Paquistão registrou seis, e Coreia do Sul e Indonésia, cinco. Taiwan, Vietnã, Camboja e Mongólia não têm registro de mortes. Como comparação: a Alemanha registrou 100 mortes por milhão de habitantes, os EUA quase 300, e Reino Unido, Itália e Espanha mais de 500.

Os diferentes números de teste e métodos de contagem por si só não fornecem justificativa suficiente para esta grande lacuna. Por exemplo, a Coreia do Sul testou seus cidadãos em massa em estacionamentos, enquanto o Japão por muito tempo só testava pacientes com quatro dias de febre e pessoas que tiveram contato com infectados.

Outros costumes em muitos países asiáticos, como cumprimentar e dizer adeus sem apertar a mão, também não podem ser tratados como fator decisivo no caso de um vírus transmitido pelo ar. A ciência agora se concentra em outras diferenças entre Ocidente e Oriente, a fim de melhor conter o vírus globalmente.

Mais infeccioso por mutação

Por exemplo, pesquisadores do Instituto Japonês de Doenças Infecciosas descobriram que o vírus Sars-CoV-2 sofreu modificações genéticas em sua distribuição regional. As primeiras infecções no Japão e no cruzeiro marítimo “Diamond Princess” no porto de Yokohama foram claramente derivadas do coronavírus de Wuhan, na China.

Mas a segunda onda de infecção no Japão, a partir de abril, foi devido a um vírus que entrou no país com viajantes vindos da Europa. Uma pesquisa da Universidade de Cambridge confirmou este resultado. Uma equipe de pesquisa americana do Laboratório Nacional de Los Alamos estuda a possibilidade de que uma mutação poderia ter tornado o vírus mais contagioso na Europa e na América.

Em meio à discussão, o professor Tatsuhiko Kodama, médico da renomada Universidade de Tóquio, chamou a atenção para os estudos do Instituto La Jolla de Imunologia da Universidade da Califórnia. De acordo com esses estudos, muitas pessoas na Ásia Oriental aparentemente possuem anticorpos eficazes contra o novo coronavírus. Segundo o especialista, muitos vírus influenza e corona do passado tiveram origem no sul da China e causavam resfriados virais nos países vizinhos.

“Portanto, seu sangue contém glóbulos brancos que podem combater vírus relacionados, como o Sars-CoV-2”, afirma Kodama. A resposta imunológica não é perfeita, comenta ele, mas o corpo dessas pessoas pode lidar com uma certa quantidade de um tipo similar de vírus.

Tasuku Honjo, prêmio Nobel de Medicina, pensa de forma semelhante. As pessoas na Ásia, afirma ele, são muito diferentes das ocidentais no que se refere a genes que controlam a resposta do sistema imunológico a um vírus.

Isso não quer dizer, alerta o médico Kodama, que o povo da Ásia Oriental está seguro. Um vírus mutante pode ser tão mortal para a população do Extremo Oriente quanto da Europa.

O fator obesidade

Outra explicação popular no Japão para as diferenças entre Oriente e Ocidente é menos convincente. Diz que as pessoas do leste asiático estão mais bem protegidas contra a tuberculose por causa da vacinação compulsória, que geralmente fortalece o sistema imunológico contra vírus em geral, enquanto a chamada vacina BCG é apenas voluntária em muitos nos países ocidentais.

Mas desbanca essa tese o fato de as taxas de vacinação BCG na França serem tão altas quanto no Japão, enquanto as taxas de mortalidade francesas para o covid-19 serem muito mais altas.Coronavirus,Epidemia,Brasi,China,Blog do Mesquita 2

A afirmação do ministro das Finanças nacionalista japonês de que o Japão é “culturalmente superior” ao Ocidente se refere provavelmente não só ao uso voluntário generalizado de máscaras, mas também ao nível geralmente mais elevado de saúde pública.

Apenas 4% dos japoneses e 5% dos sul-coreanos são obesos. De acordo com dados da OMS, esta taxa é superior a 20% na Europa Ocidental e mais de 36% nos EUA. Mas não há evidências científicas até o momento para uma correlação direta entre a taxa de mortalidade por sars-CoV-2 e a alta obesidade.

As surpreendentes semelhanças entre o coronavírus e a peste bubônica

As surpreendentes semelhanças entre o coronavírus e a peste bubônica


Um mosaico do século VI do governante bizantino Justiniano e sua corte na igreja de San Vitale em Ravena, Itália.

Novas pesquisas da Universidade de Barcelona analisam os paralelos entre a atual pandemia e a doença que varreu o Império Bizantino, 1.500 anos atrás.

A pandemia se originou em uma terra estrangeira e se estendeu rapidamente por todos os portos onde os passageiros infectados chegaram – assintomáticos ou não. Não havia cura médica disponível para detê-lo, todos os residentes estavam confinados em suas casas para evitar o contágio, a economia paralisada, o exército foi mobilizado nas ruas, os médicos exaustos trabalhavam até os ossos e havia milhares de diários. vítimas cujos corpos ficaram sem enterro “por dias a fio, porque escavadores não podiam trabalhar rápido o suficiente …”

Este não é um relato da pandemia de coronavírus de 2020. É a crônica fornecida pelo historiador Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que ocorreu no mundo conhecido entre 541 e 544, sob o imperador bizantino Justiniano I. A doença varreu vasto território, da China às cidades portuárias da Hispânia, como os romanos chamavam de Península Ibérica.

Uma epidemia eclodiu que quase acabou com toda a raça humana e que é impossível encontrar uma explicação para as palavras.

PROCÓPIO HISTÓRICO DE CAESAREA

Um novo estudo chamado La Plaga de Justinià, Segons el Testimoni de Procopi (ou A praga de Justiniano segundo o testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, ​​acrescenta nova relevância a esse conto antigo escrito 1.500 anos atrás.

“A partir de 1º de abril de 2020, certas semelhanças e paralelos observados no comportamento humano em relação a um vírus e suas conseqüências parecem tão familiares e contemporâneas que, apesar da tragédia que todos estamos enfrentando pessoalmente, permanece uma fonte de espanto como a história se repete. Escreve este arqueólogo e historiador Sales Carbonell, que trabalha no Instituto de Pesquisa de Cultura Medieval da universidade.

No ano 541, sob o governo bizantino Justiniano, houve um surto de peste bubônica no império. “O alarme soou no Egito, de onde a infecção se expandiu rápida e letalmente.” Procópio refletiu isso em seu livro History of the Wars, onde contou as campanhas militares de Justiniano na Itália, norte da África e Hispânia, e como os soldados espalharam a doença pelos portos onde pararam – fundamentalmente na Europa, norte da África, Império Sasaniano (Pérsia). ) e de lá até a China.

Como consultor jurídico de Belisarius, principal comandante militar de Justiniano, Procópio acompanhou as campanhas deste último e, assim, tornou-se uma “testemunha privilegiada” dos efeitos de uma pandemia que passou a ser conhecida como a Praga de Justiniano.

Continua sendo uma fonte de espanto como a história se repete.

“Surgiu uma epidemia que quase acabou com toda a raça humana e é impossível encontrar uma explicação com palavras, nem mesmo com pensamentos, exceto para atribuí-la à vontade de Deus”, escreveu Procópio.

“Essa epidemia não afetou uma porção limitada da Terra, nem um conjunto específico de homens, nem foi reduzida a uma estação específica do ano […], mas se espalhou e atacou toda a vida humana, não importa quão diferente os indivíduos podem ser, sem levar em conta a natureza ou a idade. ” A doença atingiu “todos os cantos do mundo, como se tivesse medo de perder um lugar”.

Um ano após a primeira detecção, a praga atingiu a capital do império, Bizâncio (atual Istambul), devastando-a por quatro meses. “Houve confinamento e isolamento completos”, escreve Sales Carbonell em seu estudo. “Era absolutamente obrigatório para pessoas doentes. Mas havia também um tipo de autocontrole espontâneo e intuitivamente voluntário, amplamente motivado pelas circunstâncias. ”

“Não foi nada fácil ver alguém em espaços públicos, pelo menos em Bizâncio; em vez disso, todos que estavam saudáveis ​​estavam em casa, cuidando dos doentes ou chorando por seus mortos ”, escreveu Procópio.

Enquanto isso, a economia estava em queda livre. “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todo o trabalho que estavam fazendo”. Ao contrário de hoje, no entanto, as autoridades não conseguiram garantir o fornecimento de serviços essenciais. “Parecia muito difícil obter pão ou qualquer outro tipo de alimento, de modo que, no caso de alguns pacientes, o fim de sua vida foi sem dúvida prematuro devido à falta de itens essenciais”, escreveu Procópio em History of the Wars .

“Muitos morreram porque não tinham ninguém para cuidar deles”, acrescentou. Os cuidadores da época “caíram de exaustão porque não conseguiam descansar e estavam sofrendo constantemente. Por causa disso, todos sentiram mais pena deles do que dos doentes.”

Patrulhas nas ruas
À luz da situação desesperadora, o imperador enviou grupos de guardas do palácio para patrulhar as ruas e os corpos de pessoas que morreram sozinhos foram enterrados às custas dos cofres imperiais, escreveu o historiador. Até o próprio Justiniano foi vítima da praga, mas ele a superou e continuou a reinar por mais de uma década.

Os picos de mortalidade aumentaram de 5.000 para 10.000 vítimas por dia e mais, de modo que, “embora, a princípio, todos cuidassem de seus mortos em casa, o caos se tornou inevitável e cadáveres também foram jogados dentro dos túmulos de outros, furtivamente ou usando violência. ” Com o tempo, os corpos começaram a se acumular dentro das torres e não havia serviços funerários para eles.

Quando a pandemia finalmente terminou, uma coisa positiva surgiu.

“Os que apoiaram as várias facções políticas abandonaram as acusações mútuas. Mesmo aqueles que haviam sido dados anteriormente a atos baixos e maus abandonaram todo o mal em suas vidas cotidianas, porque uma necessidade imperiosa os fez aprender sobre a honestidade ”, escreveu Procópio.

“Esse elemento da poesia oferece um pouco de esperança de que talvez possamos superar isso e não tropeçar novamente na mesma pedra”, diz Sales Carbonell, parecendo mais esperançoso do que seguro de si.

Covid-19; A pandemia não é um desastre natural

O coronavírus não é apenas uma crise de saúde pública. É ecológico.

Celeiros cheios de animais são bons lugares para criar patógenos. Dentro da previsibilidade uniforme da agricultura moderna, o imprevisível emerge.

Nos velhos tempos – isto é, algumas semanas atrás – eu costumava compartilhar minhas manhãs com meu vizinho Wesley. Nós nos cumprimentávamos com um abraço, depois atravessávamos a rua para o terreno do jardim que compartilhamos, em um bairro arborizado de Washington, DC O jardim costumava ser um aterro, deixado para trás quando uma fileira de casas foi demolida por algumas décadas atrás.

Durante muitos meses, melhoramos o solo com composto de cozinha e cobertura vegetal habitada por uma multidão de micróbios, insetos e vermes. Durante a primavera incomumente quente deste ano, plantamos algumas mudas, colhemos couve e mostarda e preparamos uma salada fresca para o almoço. Wes e eu crescemos próximos dessas rotinas, apesar de estar nos meus cinquenta e poucos anos e nos seus vinte e poucos anos e compartilharmos pouco em comum além de um pequeno conjunto de território urbano.

A maioria das metáforas que temos para falar sobre o nosso mundo biológico não corresponde a esse modelo de cooperação. O pensamento darwiniano – ou a versão popular dos desenhos animados – nos ensina o conceito de competição interminável entre o “adequado” e o “inapto”. As religiões abraâmicas nos dizem que os seres humanos receberam a terra e suas criaturas para governar.

A mitologia americana incentiva o individualismo empreendedor. Mas Wesley e eu não competimos por espaço em nosso pequeno canteiro elevado; em vez disso, compartilhamos micróbios do ar e do solo, expelindo-os pela respiração e limpando-os nas mãos e, posteriormente, ingerindo-os. Com nossas ações, formamos uma comunidade, tanto no sentido social quanto microbiano.

As redes microbianas uniram os espaços entre seres humanos e outras espécies durante toda a nossa história. Muito antes que alguém soubesse o que era um organismo unicelular, as práticas culturais maximizavam a troca de micróbios: quando as pessoas cultivavam, procuravam alimento, cuidavam do gado, fermentavam sua comida, mergulhavam as mãos em tigelas comuns e se cumprimentavam com um toque. em rituais que os uniam a seus vizinhos e outros organismos.

Provavelmente não foi acidental. Uma abundância de evidências mostra que, quando compartilhamos micróbios com outras pessoas e organismos, nos tornamos mais saudáveis, melhor adaptados ao nosso ambiente e mais sincronizados como uma unidade social.⁠

A interconexão de nossas vidas biológicas, que se tornou ainda mais clara nas últimas décadas, está nos levando a reconsiderar nossa compreensão do mundo natural. Acontece que a familiar taxonomia linineana, com cada espécie em seu próprio ramo distinto da árvore, é muito sutil: os líquenes, por exemplo, são constituídos por um fungo e uma alga tão fortemente ligada que as duas espécies criam um novo organismo isso é difícil de classificar. Os biólogos começaram a questionar a idéia de que cada árvore é um “indivíduo” – pode ser entendida com mais precisão como um nó em uma rede de trocas no submundo entre fungos, raízes, bactérias, líquen, insetos e outras plantas.

A rede é tão complexa que é difícil dizer onde um organismo termina e o outro começa. Nossa imagem do corpo humano também está mudando. Parece menos um vaso autônomo, definido pelo código genético de uma pessoa e controlado pelo cérebro, do que como um ecossistema microbiano que varre as correntes atmosféricas, coletando gases, bactérias, fungos, esporos de fungos e toxinas transportadas pelo ar em suas redes.

No meio do surto de coronavírus, essa idéia de um corpo como um conjunto de espécies – uma comunidade – parece recentemente relevante e perturbadora. Como devemos nos proteger, se somos tão porosos? As pandemias são inevitáveis ​​quando os seres vivos estão tão unidos numa esfera planetária densa?

A história da civilização depende da construção e demolição de fronteiras entre espécies. A agricultura inicial desconsiderava a maior parte do mundo natural, a fim de cultivar apenas as plantas e animais mais produtivos; isso permitiu que as populações crescessem e as cidades prosperassem. Mas as colheitas e o gado, uma vez concentrados em um local e cultivados em monoculturas, tornaram-se vulneráveis ​​a doenças. À medida que as cidades e as operações agrícolas cresciam, pessoas e animais se aproximavam. O resultado foi uma nova ordem epidemiológica, na qual as doenças zoonóticas – aquelas que poderiam pular de animal para humano – prosperaram.

A princípio, essas doenças permaneceram confinadas aos locais de origem. Então a globalização chegou. John McNeill, historiador ambiental da Universidade de Georgetown, especula que a primeira onda do surto de cólera de 1832-33 foi a primeira verdadeira pandemia; alcançava todos os continentes habitados pegando carona em caravanas e navios. Mais infecções se seguiram, muitas vezes afetando as culturas das quais as pessoas dependiam para comer. No início do século XIX, as plantas de batata na América do Sul sofreram uma praga; o culpado, um molde chamado Phytophthora infestans, navegou para a Irlanda em 1845, onde levou a um milhão de mortes. Nos anos 1860, um pequeno inseto parecido com um pulgão chamado filoxera migrou dos Estados Unidos para a Europa, quase destruindo a indústria vinícola francesa; na década de 1960, a doença do Panamá erradicou a banana comercial favorita do mundo, a Gros Michel. Em 1970, o fungo Bipolaris maydis dizimou o American Corn Belt antes de se espalhar pelo mundo; outra infecção fúngica, a ferrugem do trigo, causou inúmeras fomes em todo o mundo.

E, no entanto, as vantagens da agricultura industrial eram difíceis de resistir. Nos anos noventa e cinquenta, a Revolução Verde produziu tantas colheitas de cereais que os Estados Unidos começaram a doar alimentos; quando suas técnicas foram exportadas para o resto do mundo, eles desativaram a “bomba populacional”. Nos anos sessenta, a Revolução Pecuária liderada pelos Estados Unidos integrou verticalmente a produção de produtos de origem animal, criando um aumento paralelo no consumo de carne. Na década de setenta, grandes empresas de aves produziam tantas galinhas que precisavam inventar novos produtos – nuggets de frango, salada de frango, alimentos para animais à base de frango. Grandes corporações compraram produtores locais de aves, suínos e bovinos; os confinamentos cresceram para o tamanho de feiras; galinheiros empoeirados em shoppings de bairro. As fazendas passaram de pequenas operações com uma média de setenta galinhas a fábricas que abrigavam trinta mil aves. Nos anos 80, com a Revolução Azul, a criação industrial de peixes também se expandiu. De 1980 a 2018, a produção global de animais para consumo cresceu cerca de uma vez e meia mais rapidamente que a população mundial.