Em meio à pandemia, Brasil será sede da Copa América

Após desistência de Colômbia e Argentina, Conmebol agradece a Bolsonaro por “abrir as portas” para o torneio. Anúncio é recebido com enxurrada de críticas, e Pernambuco diz que não vai permitir partidas no estado

Arena Pernambuco, em Recife, é um dos locais cotados para receber jogos; estado se recusa

Após a desistência dos países-sede Colômbia e Argentina, a Conmebol anunciou nesta segunda-feira (31/05) que a Copa América de futebol será realizada no Brasil, país mais assolado pela pandemia de covid-19 no continente.

O comunicado da federação sul-americana, a menos de duas semanas do início do torneio, sugere que houve influência direta do governo Jair Bolsonaro na decisão. O anúncio foi recebido com uma enxurrada de críticas no Brasil, que segundo especialistas e o próprio Ministério da Saúde está à beira de uma terceira onda de infecções pelo coronavírus.

As UTIs de vários estados estão cheias, e a previsão de epidemiologistas é de piora no desastre sanitário brasileiro justo no período em que se disputará a Copa América – com abertura em 13 de junho e final em 10 de julho.

“O melhor futebol do mundo trará alegria e paixão a milhões de sul-americanos. A Conmebol agradece ao presidente Jair Bolsonaro e sua equipe, bem como a Confederação Brasileira de Futebol, por abrir as portas daquele país ao que é hoje o evento esportivo mais seguro do mundo. A América do Sul vai brilhar no Brasil com todas as suas estrelas!”, diz postagem no Twitter da entidade.

A desistência da Argentina, que só não se oficializou porque a Conmebol se antecipou e desligou antes o país como sede, foi devido ao recrudescimento da pandemia no país. A Colômbia, que compartilharia a organização do evento, abriu mão devido à situação política em seu território, que vive os maiores protestos de rua em décadas.

A Argentina registrou mais de 3,75 milhões de infecções e mais de 77 mil mortes relacionadas à covid-19 ao longo da pandemia. No domingo, a Argentina apresentou uma taxa de incidência média de 485 casos por 100 mil habitantes em sete dias. O Brasil, a nova sede da competição, apresentou no mesmo dia uma taxa de incidência média de 1.838 casos por 100 mil habitantes.

Líderes da oposição reagiram com indignação à realização do evento no Brasil. Ciro Gomes, do PDT, pediu à CPI da Pandemia a convocação do presidente da CBF, Rogério Caboclo, para dar explicações. O governo de Pernambuco, um dos estados cotados para receber o torneio, disse ao jornal Folha de S. Paulo que não aceitará participar do evento. O deputado federal Júlio Delgado, do PSB de Minas Gerais, disse ao site O Antagonista que irá ao STF contra a Copa América no Brasil.

Argentina e Colômbia

Originalmente, a 47ª edição da Copa América estava agendada para ser jogada na Colômbia (Grupo Norte) e na Argentina (Grupo Sul) em 2020, mas foi adiada para o ano seguinte devido à pandemia. Já em meados do primeiro semestre de 2021, a Colômbia decidiu abdicar de sediar o torneio devido a uma onda de protestos generalizados contra o governo e à situação sanitária do país.

A Conmebol então recebeu propostas de Equador e Venezuela para receberem as partidas originalmente marcadas para serem disputadas na Colômbia. O Chile também foi cogitado a partilhar o torneio com a Argentina, especialmente devido ao avanço da vacinação contra a covid-19 no país. Mas, devido às restrições sanitárias distintas em cada nação, a Conmebol achou melhor realizar o torneio num único país para evitar deslocamentos internacionais.

No último fim de semana, o ministro do Interior da Argentina, Wado de Pedro, sinalizou que seria muito difícil realizar o torneio em território argentino. “Conversei com o presidente [Alberto Fernández] por causa da situação sanitária. Revisamos a situação epidemiológica de Mendoza, Córdoba, Tucumán, Santa Fé… Algumas são sede da Copa. Do diagnóstico sanitário vemos que será muito difícil que se possa jogar na Argentina”, disse.

Uma pesquisa de opinião pública divulgada na sexta-feira apontou que 70% dos argentinos não queriam a realização da Copa América no país. Porém, antes que Alberto Fernández anunciasse que o torneio não poderia ser jogado na Argentina, a Conmebol retirou a copa do país.

Jogos em estádios ociosos

Segundo pessoas ligadas à negociação, o Brasil deve usar estádios utilizados na Copa do Mundo de 2014 que estão ociosos, como o Mané Garrincha, em Brasília, a Arena Amazônia, em Manaus, a Arena Pernambuco, nos arredores de Recife, e a Arena das Dunas, em Natal.

A ideia é colocar um grupo de seleções para jogar em Brasília e Manaus, enquanto o outro jogaria nos estádios do Nordeste. O Campeonato Brasileiro não seria interrompido.

Havia a possibilidade de a Copa América ser cancelada ou ser realizada nos Estados Unidos. Chegou-se a cogitar até mesmo levar a competição para Israel, onde a vacinação está bastante avançada.

Será apenas a segunda vez na história que duas edições seguidas da Copa América serão disputadas num mesmo país. O Uruguai foi palco dos torneios de 1923 e 1924, ambos conquistados pela seleção celeste. A edição de 1924 foi a primeira sem participação brasileira e originalmente deveria ser jogada no Paraguai, que rejeitou a honra alegando não ter infraestrutura adequada. O Paraguai organizou aquela edição, mas em território uruguaio.

pv,rpr/ek (ots)

Covid: 8 medidas cruciais contra o coronavírus (que está mais presente no ar do que nas superfícies)

Os aerossóis permanecem flutuando no ar por minutos ou horas e, nesse tempo, podem percorrer vários metros

Que a covid-19 é transmitida principalmente pelo ar é uma realidade indiscutível neste momento.

Ela consegue isso através dos agora famosos aerossóis, que nada mais são do que pequenas partículas de saliva ou fluido respiratório emitidas pelas pessoas quando respiram, falam, gritam ou tossem.

Embora esteja claro que os aerossóis emitidos por pessoas saudáveis ​​não são um problema, aqueles emitidos por pessoas infectadas podem conter vírus. O problema é que eles permanecem flutuando no ar por minutos ou horas e, nesse tempo, podem se mover vários metros.

Por que ventilar ambientes é mais importante do que limpar compras no combate à covid.

Covid-19: é preciso medir a taxa de anticorpos após a vacinação? Especialistas dizem que não.

Em ambientes internos mal ventilados, os aerossóis de uma pessoa infectada são distribuídos por todo o espaço, com o risco de outras pessoas serem infectadas ao inalá-los. O ar de uma sala fechada funciona como uma piscina: se houver uma fonte que coloca água com coloração (nosso vírus) na piscina, depois de um tempo toda a água da piscina (nosso ar) terá mudado de cor. Não importa se estou perto ou longe da fonte: a água estará colorida.

Como sabemos tudo isso? Além do conhecimento pré-pandêmico da dinâmica de fluidos e aerossóis, no último ano, vários estudos foram realizados. Alguns deles detectaram o vírus SARS-CoV-2 infeccioso no ar de ambientes internos. Experimentos com animais mostraram que o contágio existe mesmo sem contato algum.

Uma máscara mal ajustada (com lacunas entre a borda da máscara e o rosto) pode ver sua eficácia cortada pela metade

Vários eventos de supercontágio — em que uma única pessoa infecta muitas — que só podem ser explicados pela transmissão de aerossol, também foram estudados.

Foi observado que ser infectado em ambientes fechados é 20 vezes mais provável do que ao ar livre, o que novamente só pode ser explicado pela transmissão de aerossol. A revista acadêmica de saúde The Lancet publicou recentemente um artigo que não deixa dúvidas quanto à importância da via de transmissão por aerossóis.

Sabe-se que as pessoas infectadas são principalmente contagiosas antes de apresentarem sintomas (pré-sintomáticos) ou quando sequer apresentam sintomas (assintomáticos). Assim, é impossível, na ausência de testes com diagnóstico imediato, confiáveis ​​e abundantes, saber quem é contagioso e quem não é. Portanto, é preciso agir como se todas as pessoas fossem. Temos que nos proteger continuamente.

A desinfecção de superfície faz sentido?

Por uma série de razões, as transmissões por superfície e por gotículas por muito tempo foram consideradas as principais formas de contágio, apesar da falta de evidências.

A transmissão por superfície ocorre quando uma pessoa toca uma superfície que contém vírus e, em seguida, toca seus olhos, nariz ou boca. As gotas são grandes partículas emitidas ao falar, tossir ou espirrar, que podem atingem os olhos, entrar no nariz ou na boca de outra pessoa. Por esse motivo, as medidas adotadas se concentraram principalmente na desinfecção de superfícies e na proteção contra gotas (distanciamento ou barreiras físicas).

Mas a realidade é que a principal transmissão é por aerossóis, também em curtas distâncias. Os Ministérios da Ciência e da Saúde da Espanha publicaram relatórios sobre a transmissão de aerossóis no final de 2020, embora as conclusões não tenham se refletido muito nas medidas aplicadas desde então.

Atividades ao ar livre devem ser promovidas. Isso implica facilitar o uso de parques e jardins e ficar de olho em ‘falsos ambientes externos’, como terraços fechados

É preciso mudar a estratégia. A descoberta da transmissão via aerossol do SARS-CoV-2 não é uma má notícia. O SARS-CoV-2 foi transmitido dessa forma desde o início da pandemia.

Ignorar isso nos levou a direcionar esforços erroneamente. Saber qual é a principal forma de transmissão do covid-19 é nossa melhor ferramenta para evitá-lo.

Vários artigos científicos refletem isso. A própria revista Nature, em seu editorial de fevereiro de 2021, pediu mudanças: “O coronavírus está no ar: há muita ênfase nas superfícies”.

Temos que fazer isso agora. Como? Mais de 100 cientistas espanhóis identificaram oito pontos-chave para acabar com a pandemia. É um consenso alcançado entre várias áreas do conhecimento como virologia, engenharia, ciências ambientais ou medicina. São explicados numa carta, promovida pelo grupo Aireamos, dirigida às autoridades competentes na Espanha, centrais e regionais.

Medidas prioritárias

1. As máscaras de uso geral precisam ser eficazes. É preciso identificar e retirar do mercado as que não o são e enfatizar a necessidade de um bom encaixe no rosto. Uma máscara mal ajustada (com lacunas entre a borda da máscara e o rosto) pode ter sua eficácia cortada pela metade. Em interiores compartilhados, incluindo, é claro, locais de trabalho, ela deve ser sempre usada, independentemente da distância entre as pessoas.

2. Atividades ao ar livre devem ser promovidas. Isso implica facilitar o uso de parques e jardins e ficar de olho em ‘falsos ambientes externos’, como terraços fechados.

3. Os espaços internos devem ser ventilados com ar externo contínua e suficientemente, usando ventilação natural ou mecânica. Na analogia da piscina, isso significa adicionar água limpa à nossa piscina de forma contínua, e gradualmente retirando a água colorida. Quanto? O suficiente para que a piscina nunca fique muito escura, apesar de a fonte com água colorida não parar.

Os critérios devem ser claramente definidos. Até a OMS publicou recomendações sobre ventilação, embora ainda não explique claramente como ocorrem as infecções.

Os espaços internos devem ser ventilados com ar externo contínua e suficientemente, usando ventilação natural ou mecânica

4. O CO₂ interno deve ser medido para verificar a ventilação adequada. O CO₂ é emitido junto com os aerossóis quando respiramos, então é um bom indicador da quantidade de ar usado em um local. É a melhor solução atualmente disponível para indicar o risco de contágio.

5. É preciso que se informe sobre a eficácia e os riscos potenciais de várias tecnologias de purificação do ar. A filtragem (filtros conhecidos como HEPA) é a tecnologia preferida para remover aerossóis respiratórios com eficácia.

6. Atenção especial deve ser dada aos centros educacionais, como escolas e universidades. São espaços com características que propiciam eventos de super contágio: muitas pessoas, muitas horas por dia e às vezes pouca ventilação.

Os centros educacionais são espaços com características que promovem eventos de super contágio

7. Devem ser desenvolvidos e aplicados critérios, procedimentos e regulamentos claros e eficazes para reduzir o risco de contágio. O primeiro pode ser um limite de 700-800 ppm de CO₂ em interiores compartilhados (até 1000 ppm se houver filtragem suficiente).

8. Informação de qualidade é a melhor defesa. São necessárias mensagens claras sobre como o vírus é transmitido e como nos proteger. É fundamental que a população entenda a lógica das regras para adotar o comportamento ideal em cada situação.

Não é difícil. Vamos fazer isso.

*Este artigo apareceu originalmente em The Conversation. Você pode ler a versão original e ver os links para estudos científicos aqui.

María Cruz Minguillón é cientista titular do Instituto de Diagnóstico Ambiental e Estudos da Água (IDAEA), do Conselho Superior de Pesquisa Científica da Espanha (CSIC).

Maria, preciso te contar sobre Bolsonaro, o fazedor de órfãos

Uma imagem de arquivo feita pelo premiado fotógrafo Lilo Clareto, que morreu em 21 de abril.LILO CLARETO / ACERVO PESSOAL
Por Eliane Brum/ElPais

Maria, você tem apenas 2 anos. Um, dois. E apenas esses dois anos separam seu nascimento da morte do seu pai. Lilo Clareto morreu em 21 de abril. A causa oficial da certidão de óbito é: “sepse grave, pneumonia associada à ventilação e covid (tardia)”. Mas essa é apenas a verdade parcial sobre a morte do seu pai. Eu olho para você, Maria, e me preparo para a conversa que um dia teremos, aquela em que precisarei contar a você a verdade inteira.

Maria, seu pai foi vítima de extermínio. Seu pai é um dos mais de 410.000 brasileiros que tombaram por um crime contra a humanidade entre os anos de 2020 e 2021. Enquanto eu escrevo essa carta para você, os assassinatos seguem acontecendo a uma média de quase 2.400 cadáveres por dia. Eu olho para você, Maria, e você ainda diz, os olhos escancarados de expectativa, quando alguém faz barulho na porta da frente: “pa!”. E, então, decepcionada: “pa?”.

Não, Maria, seu pai não entrará mais pela porta da casa cantando e com as mãos estendidas para pegar você no colo. Enquanto escrevo essa carta para você, Maria, seu pai virou cinzas. Essas cinzas serão um dia jogadas na boca do Riozinho, lá onde esse rio, só pequeno no nome, encontra o Iriri, na Terra do Meio, na Amazônia.

Sei que mesmo que eu espere até você ficar muito mais velha, Maria, você não será capaz de entender por completo. Você já poderá compreender o pensamento de Davi Kopenawa, Sueli Carneiro e Paul Preciado, mas não terá como compreender o pensamento de um homem que, na maior crise sanitária da história do Brasil, trabalhou para disseminar um vírus que pode matar. E mata.

Não importa a idade que você tenha e os diplomas que acumular, Maria. Ainda assim não haverá como compreender um homem que estimulou as aglomerações quando os médicos pediam que a população ficasse em casa. Um homem que vetou a obrigatoriedade de uso de máscaras quando as populações da maioria dos países do mundo usava máscaras para se proteger da contaminação. Um homem que esbanjou dinheiro público com medicamentos comprovadamente sem eficácia contra uma doença fatal e mentiu para a população que eram eficazes. Um homem que chamou o que matou seu pai e quase meio milhão de brasileiras e brasileiros (até agora) de “gripezinha”. Um homem que recusou as vacinas contra essa doença que converteu você em órfã. Não, Maria, você não poderá entender esse homem em nenhuma circunstância.

Você olhará para mim com seus olhos escuros, suas pupilas negras, em busca de esclarecimento. Eu vou olhar para você e prometo fazer o possível para não baixar os olhos. Porque, Maria, eu não tenho resposta. Muitas teorias já foram feitas sobre genocidas como Adolf Hitler, Pol Pot e Slobodan Milosevic. Eu já li algumas delas. E muitas, tenho certeza, serão feitas sobre Jair Bolsonaro. E também se escreverá muito sobre as brasileiras e brasileiros que o sustentaram no poder. Primeiro com seu voto, depois com sua crença. Assim como tantos filmes e livros foram feitos e escritos sobre os alemães medianos que sustentaram, com sua ação ou omissão, o extermínio de 6 milhões de judeus, homossexuais, ciganos e pessoas com deficiência na Alemanha dos anos 1940. Pessoas que andavam entre nós, que conversavam amenidades na fila do pão e, de repente, olhamos para elas e as descobrimos salivando com a morte. Pediam não mais pão, mas mais armas.

O que é o mal, Maria? Nos debatemos com esse dilema desde sempre. Até viver horrores como esse apenas pelos livros, eu tinha muitas dúvidas sobre nomear o mal. Me parecia simples demais, fácil demais. Mas, hoje, Maria, depois do que tenho testemunhado com meu próprio corpo, preciso dizer que o mal existe. Bolsonaro é o mal, Maria. E Bolsonaro foi engendrado nesse mundo, nessa época histórica, por essa sociedade, por essa conjunção de genes e de acasos, por essas circunstâncias.

Bolsonaro tenta fazer o mal desde que o Brasil sabe de Bolsonaro. Ele era militar do Exército e já planejava colocar bombas nos quartéis. Por interesses de um grupo e de outro, quem deveria barrá-lo não o barrou. E, de impunidade em impunidade, o mal assumiu o poder. E, por isso, seu pai perdeu a vida e você ficou sem pai. Você, Maria, e dezenas de milhares de outras crianças. Quando eu finalmente for capaz de ter essa conversa com você, talvez sejam centenas de milhares de outras filhas e filhos sem pai ou sem mãe. Porque hoje, quando escrevo essa carta para você, Maria, o mal ainda governa o Brasil.

Vou interromper o mal para falar do seu pai. Do contrário, também eu não suporto, Maria. Algumas pessoas, com a melhor das intenções, eu sei, me dizem que era a hora do seu pai, que ele já tinha cumprido sua missão nesse plano. Eu afirmo, com toda convicção: não era a hora de o Lilo morrer. Ao contrário, continuava sendo a hora de o Lilo viver. Seu pai me contava, apenas algumas semanas antes, que apesar de toda a dureza de enfrentar uma pandemia, ele vivia um dos melhores momentos da sua vida. Porque ele vivia apaixonado por sua mãe e porque ele tinha você, Maria. E ele sonhava em ensinar a você tudo o que ele sabia.

Seu pai nem ficou sabendo, Maria, mas enquanto estava em coma induzido no hospital, ele foi aprovado para o curso de Letras na Universidade Federal do Pará. Ele queria mesmo fazer Arqueologia, porque tinha se apaixonado pelo trabalho dos arqueólogos numa expedição que fizemos juntos à Estação Ecológica, na Terra do Meio. Mas não existia essa opção em Altamira. Como seu pai era poeta, das luzes e também das palavras, ele escolheu o curso de Letras. Seu pai sabia dizer por inteiro A Máquina do Mundo, poema de seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade. E, sempre que dizia, seus olhos boiavam em água salgada. Para o seu pai, a máquina do mundo estava sempre se abrindo como o diafragma da câmera com que ele capturava a realidade como ele a via. Desde que você nasceu, Maria, era a realidade de você que ele convertia em imagem. Você e sua mãe eram, para ele, um mundo só bom.

Não, Maria, não acredite nem por um segundo que era hora de o seu pai morrer. Não era. Seu pai, como centenas de milhares de brasileiros, morreu porque Jair Bolsonaro e seu Governo executaram um plano de disseminação do novo coronavírus para, supostamente, alcançar o que chamam de “imunidade de rebanho”. Sim, Maria, como gado. “Alguns vão morrer, lamento, essa é a vida”, era assim que o presidente do Brasil falava.

O mundo inteiro e todos os epidemiologistas respeitáveis diziam o contrário. Afirmavam que era uma insanidade, além de imoral. Dois ministros da Saúde, médicos, abandonaram o governo por não suportar a ideia de ser cúmplices desse crime. Mas Bolsonaro preferiu acreditar nele mesmo, com sua experiência de quase 30 anos se reelegendo no parlamento sem propor nada de útil, porque supostamente não queria que a “economia” fosse prejudicada e, assim, seu projeto de reeleição.

É isso que a análise de mais de 3.000 normas federais, feitas por um grupo de juristas renomados da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, provou. Na sequência, outros estudos concluindo que uma parcela significativa das mortes por covid-19 teriam sido evitadas se Bolsonaro tivesse combatido a covid-19 foram divulgados em algumas das mais importantes publicações científicas do mundo. Pesquisas internacionais mostraram que o Brasil teve a pior atuação na pandemia entre todos os países do planeta.

No momento em que escrevo essa carta para você, Maria, as ações deliberadas e as omissões deliberadas de Bolsonaro e seu Governo provocaram e seguem provocando dezenas de milhares de mortes evitáveis. Como a do seu pai, Maria. No momento em que escrevo essa carta para você, as ações deliberadas e as omissões deliberadas de Bolsonaro e seu Governo gestaram dezenas de milhares de meninas e meninos órfãos, pequenas e pequenos brasileiros que terão que crescer e viver sem pai ou sem mãe. Como você, Maria.

Butantan diz que ataques de Bolsonaro à China afetam vacinas

O presidente chinês Xi Jinping e Bolsonaro em 2019.

Presidente insinuou que chineses, principais fornecedores de matéria-prima para imunizantes ao Brasil, criaram vírus como parte de “guerra química”. “Essas declarações têm impacto”, diz diretor do Instituto Butantan.

Líder brasileiro e membros do seu círculo regularmente fazem ataques contra a China, maior parceiro comercial do Brasil

A direção do Instituto Butantan e o governador de São Paulo, João Doria, afirmaram nesta quinta-feira (06/05) que os ataques do presidente Jair Bolsonaro à China estão afetando a importação de insumos para a fabricação de vacinas contra a covid-19.

Na quarta-feira, Bolsonaro insinuou que a China teria criado o vírus em laboratório como parte de uma “guerra química” – uma acusação que contraria a Organização Mundial de Saúde (OMS), que aponta que o vírus provavelmente tem origem animal.

Na semana passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, já havia dito que os os chineses “inventaram” o coronavírus. Não foram os únicos membros do círculo do presidente que fizeram ataques do gênero. O filho “03” do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, e os ex-ministros Ernesto Araújo e Abraham Weintraub já haviam distribuído ataques contra os chineses ou espalhado teorias conspiratórias envolvendo o país asiático.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil e principal país de origem dos insumos usados no envasamento de vacinas contra a covid-19 distribuídas aos brasileiros. Entre janeiro e abril, dentro do contexto dos ataques do governo Bolsonaro à China, diversas remessas de insumos com origem no país asiático que eram esperadas pela Fiocruz e pelo Butantan sofreram atrasos. Os chineses afirmaram que eram meros entraves burocráticos, mas os episódios levantaram questionamentos sobre eventuais retaliações por parte de Pequim à postura de Bolsonaro e seu círculo.

“Todas as declarações neste sentido têm repercussão. Nós já tivemos um grande problema no começo do ano e estamos enfrentando de novo esse problema”, afirmou nesta quinta-feira Dimas Covas, diretor do Butantan.

“Embora a embaixada da China no Brasil venha dizendo que não há esse tipo de problema, a nossa sensação de quem está na ponta é que existe dificuldade, uma burocracia que está sendo mais lenta do que seria habitual e com autorizações muito reduzidas e volumes. Então obviamente essas declarações têm impacto e nós ficamos à mercê dessa situação”, completou.  “Pode faltar [insumos]? Pode faltar. E aí nós temos que debitar isso principalmente ao nosso governo federal que tem remado contra. Essa é a grande conclusão”, disse Covas.

O Butantan é responsável pelo envasamento no Brasil da Coronavac, vacina desenvolvida pela empresa biofarmacêutica chinesa Sinovac. Mais de 75% das vacinas distribuídas contra covid-19 no Brasil até o momento foram envasadas pelo Butantan em parceria com os chineses.

Doria: “É lamentável e inacreditável”

O governador paulista também criticou Bolsonaro pelos recentes ataques à China e fez críticas à falta de atuação na diplomacia do governo brasileiro em relação ao país asiático.

“É lamentável que depois de o ministro Paulo Guedes falar mal da China, da vacina, criticando o governo chinês, agora o presidente Jair Bolsonaro seguindo na mesma linha. É inacreditável que, diante de uma circunstância que precisamos salvar vidas e ter mais vacinas, tenhamos alguém criticando a China, o nosso grande fornecedor de insumos para a vacina”, afirmou Doria.

Ainda na quarta-feira, Bolsonaro fez outras declarações que contrariam o consenso científico em relação à pandemia. Ele chamou de “canalhas” aqueles que se opõem ao ineficaz “tratamento precoce” promovido pelo governo e diz que o uso de máscaras já “encheu o saco”. Ele ainda ameaçou usar as Forças Armadas contra governadores e prefeitos para impedir a imposição de medidas de isolamento. A série de declarações foi encarada por analistas como uma cortina de fumaça para desviar o foco da CPI da pandemia no Senado.

Na quarta-feira, a comissão ouviu o ex-ministro da Saúde Nelson Teich, que relatou que deixou a pasta por não ter contado com autonomia para realizar seu trabalho e por se recusar a ceder à pressão do Planalto para expandir o uso de remédios ineficazes.

jps/lf (ots)

Fome e pandemia nas favelas: ‘Meus netos comem menos para eu almoçar’

Netos de Josinete comeram menos para que sobrasse comida para ela no último domingo

No último domingo, a empregada doméstica Josinete Antônia da Silva, de 64 anos, abriu os armários da casa onde mora na periferia de Recife, em Pernambuco. Destampou os potes de mantimentos e não encontrou nada. Não havia nada nas panelas também. A filha, ao saber que a mãe não tinha o que almoçar, pediu para que os filhos dela comessem menos para que sobrasse para a avó.

“Ela falou: hoje, cada um de vocês come um pouquinho menos hoje para ter comida para a vó também. E me mandou carne moída, feijão e arroz. Se não fosse ela, não sei o que eu teria feito”, contou Josinete em entrevista por telefone à BBC News Brasil.

Novo auxílio não é suficiente para cobrir linha de pobreza em nenhum Estado do país, aponta estudo.

De acordo com ONGs, líderes comunitários e empresas especializadas em doações ouvidas pela reportagem, o número de contribuições caiu drasticamente ao longo da pandemia e hoje, no auge da crise sanitária, muitas famílias que moram em comunidades não têm o que comer.

Nas últimas 24 horas, o Brasil registrou 3.869 mortes por covid-19, superando o recorde registrado na véspera, 3.780 vidas perdidas.

Josinete recebe uma pensão no valor de um salário mínimo (R$ 1.100) e mora com as três filhas, que perderam o emprego na pandemia. Uma delas tem quatro filhos e está grávida. A outra tem dois.

Ela conta que o dinheiro da pensão é insuficiente para comprar comida para o mês. O único que trabalha na família é o filho dela, que mora de aluguel no mesmo bairro e faz trabalhos informais como pedreiro.

“Ele me ajuda como pode. Está tudo muito caro. Vou ao mercado comprar feijão, arroz, uns pedacinhos de galinha, macarrão e salsicha e não gasto menos de R$ 100. O que pesa é a carne, o arroz e o leite, ainda mais morando com uma criança de 3 anos e outra de 9 meses. Tem dia que dá para comprar pão, outros não”, conta Josinete.

Além dela, na mesma casa moram três filhas e cinco netos. Ao todo, Josinete tem nove filhos (sete desempregados), 33 netos e sete bisnetos.

No início da pandemia, em 2020, ela recebeu cestas básicas e dinheiro para fazer a feira, mas no fim do ano essa ajuda diminuiu gradativamente até parar, conta ela.

O Instituto Casa Amarela Social foi um dos que ajudaram a família de Josinete na pandemia. O grupo faz diversas campanhas para arrecadar doações.

“Eu tenho vergonha de pedir para outras pessoas, mas não (quando é) para meus filhos. Eu só peço misericórdia para quem tem um pouco mais (de dinheiro) se unir com os outros e ajudar quem não tem condições de sair dessa sozinho. O governo poderia ter mantido o auxílio emergencial em R$ 600, mas a gente não tem escolha”, afirmou.

O Congresso aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite o financiamento do novo auxílio, que terá valor médio em R$ 250, mas as cotas devem variar entre R$ 150 e R$ 375.

Uma pesquisa feita pelo Data Favela, uma parceria entre Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa), em fevereiro, apontou que, entre os 16 milhões de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens básicos do orçamento com o fim do auxílio emergencial, como comida e material de limpeza.

Outros 68% afirmaram que, nos 15 dias anteriores à pesquisa, em ao menos um faltou dinheiro para comprar comida. Oito em cada 10 famílias disseram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas básicas durante os meses de pandemia se não tivessem recebido doações.

Um presidente por rua

O presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, disse que a escassez de doações ocorre em favelas por todo o Brasil. Em Paraisópolis, a maior de São Paulo, um homem chegou a desmaiar na fila enquanto aguardava um prato de comida na última semana.

“Vejo um agravamento da situação em que o Brasil fala de um novo normal, com fome e desemprego. A fila de moradores por um marmitex começa às 9h, mas a gente só começa a entregar meio-dia. Eles fazem isso porque sentem medo de perder a única refeição do dia”, afirmou.

Foto – DANIEL EDUARDO
Mulheres fazem protesto para denunciar a fome na favela de Paraisópolis em SP

Gilson conta que, no início da pandemia e auge das doações, eles conseguiam entregar 10 mil marmitas por dia. Hoje, são 700.

O G10 Favelas, grupo que reúne as 10 maiores comunidades do país, criou uma central de arrecadação para ajudar famílias de baixa renda de todo o país. Há um endereço específico para colaborar com moradores de Paraisópolis e outras favelas.

O líder comunitário afirmou que, na falta de poder público, a própria favela elegeu presidentes de rua. Cada um cuida de 50 famílias. Isso é importante para descentralizar os pedidos, já que ele conta que chegou a receber 7 mil mensagens de ajuda num único dia.

Ele disse que fazer os vizinhos cuidarem uns dos outros gera resultados mais contundentes que muitas políticas públicas. Gilson explica o valor da proximidade e humanização com que eles enxergam os problemas de quem mora ao lado.

“Na falta de um presidente para o país, temos um a cada 50 casas. Organizamos a sociedade para que ela tenha um papel real de transformação. Cada um desses presidentes acompanha de perto a situação dessas pessoas, as deficiências na saúde, alimentação. Damos protagonismo às pessoas e reaproximamos vizinhos”, afirmou o líder comunitário de Paraisópolis.

Gilson explica que dessa maneira as doações são distribuídas de maneira mais justa e os presidentes de rua fazem o máximo para ver quem mora perto dele numa situação melhor.

“Fizemos isso em 300 favelas de 14 Estados. Nossa intenção é salvar vidas. Produzimos mais de 1,4 milhão de máscaras, contratamos ambulâncias. Tudo graças ao protagonismo dos próprios moradores. O vizinho dos Jardins (área nobre de SP) também deve fazer isso. Conhecer quem mora na mansão do lado, estender as mãos para um irmão”, afirmou.

Ele explicou que a favela sempre teve a cultura do apoio e que agora o Brasil precisa ativar esse movimento em todos os bairros e instâncias. O G10 Favelas criou um site para explicar como levar o projeto de presidente de rua para a sua região.

Marmitex na cracolândia

Há um mês, a universitária Alessandra Monteiro pensou em como poderia fazer ações sociais maiores e mais organizadas do que as doações que ela já costumava fazer.

‘Vendi as panelas para comprar pão e pé de galinha’: os relatos da fome no Brasil às vésperas do novo auxílio emergencial menor

EPA
Inflação de alimentos cresceu três vezes mais do que índice oficial

Na terça-feira (16/3), Fernanda Ferreira da Fonseca, 60 anos, recolheu pela casa algumas panelas velhas e as levou a um centro de reciclagem perto de casa, no bairro Jardim Imperial, em Atibaia (SP).

Com os R$ 30 que lhe pagaram pelo material, comprou um pacote de pão e 5 quilos de pé de galinha, que vão virar almoço e jantar para ela e o marido até o fim da semana.

“Pra outra semana eu não tenho mais panela pra vender. Não sei o que vou fazer.”

Os R$ 179 que recebeu do Bolsa Família no fim de fevereiro foram embora rapidamente: R$ 90 por um botijão de gás, R$ 40 pra pagar a conta de energia e outra parte para quitar duas contas de água atrasadas.”Não tem papel higiênico aqui em casa, virou artigo de luxo. A gente vem cortando um lençol velho para levar ao banheiro.”

Diagnosticada com artrose e fibromialgia, ela não pode trabalhar. O marido, caminhoneiro, está desempregado desde 2019 e também tem problemas de saúde.

Ambos deram entrada no Benefício de Prestação Continuada (BPC), mas ainda não tiveram retorno do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

Assim como outros 56 milhões de brasileiros, Fernanda parou de receber o auxílio emergencial em dezembro. Teve acesso a cinco parcelas de R$ 600 e a outras quatro de R$ 300, quando o benefício foi reduzido.

O marido, apesar de também elegível ao auxílio, teve de esperar nove meses para receber os pagamentos. A liberação foi inicialmente bloqueada porque constava erroneamente no sistema que ele estava recebendo seguro-desemprego. Em dezembro, após uma ordem judicial, o benefício foi liberado.

Desde janeiro, o casal sobrevive com os R$ 179 que recebe pelo Bolsa Família.

Naquele mês, eles conseguiram uma das cestas básicas que vinham sendo distribuídas no bairro. Depois disso, com o volume limitado de doações e aumento da demanda, ficou mais difícil.

“Aqui estão dando prioridade pra quem tem criança, e eu entendo”, diz Fernanda. “Estou dentro de casa passando fome, já passei da fase de ‘necessidade’.”

Os 5kg de pés de galinha que Fernanda comprou com a venda das panelas serão almoço e jantar para ela o marido até o fim da semana

Nos três meses em que o país levou para negociar a liberação de outras quatro parcelas do auxílio emergencial, a combinação entre desemprego elevado e inflação ascendente trouxe a fome de volta às casas de milhões de pessoas.

Na semana passada, o Congresso aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite o financiamento do novo auxílio. O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o valor médio ficaria em R$ 250, mas as cotas devem variar entre R$ 150 e R$ 375.

A Medida Provisória com os detalhes sobre o benefício, cuja publicação é necessária para que se iniciem os pagamentos, foi assinada nesta quinta (18/3), após dias de expectativas frustradas. Conforme o comunicado enviado pela Secretaria Especial de Comunicação Social, o presidente Jair Bolsonaro deve apresentá-la ao Congresso no fim da tarde.

“Assinando ou não (a medida), eles continuam almoçando e jantando lá em Brasília, né?”, desabafa Fernanda, que há dias espera notícias sobre a retomada dos pagamentos.

‘A comida acaba e a fila continua’

Uma pesquisa feita pelo Data Favela, uma parceria entre Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa), em fevereiro apontou que, entre os 16 milhões de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens básicos do orçamento com o fim do auxílio emergencial, como comida e material de limpeza.

Outros 68% afirmaram que, nos 15 dias anteriores à pesquisa, em ao menos um faltou dinheiro para comprar comida. 8 em cada 10 famílias disseram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas básicas durante os meses de pandemia se não tivessem recebido doações.

As estatísticas se materializam nas filas por refeições e cestas básicas em diferentes regiões do país.

Na capital paulista, no entanto, o número de marmitas distribuídas por dia na favela de Paraisópolis caiu de 10 mil para algo entre 500 a 800.

REUTERS
Última parcela do auxílio emergencial foi paga em dezembro

“Tem dia que a comida acaba e a fila continua, que as pessoas ficam brigando lá fora”, diz o líder comunitário Gilson Rodrigues.

A queda no volume de doações — recolhidas, entre outros canais, pelos sites novaparaisopolis.com.br e g10favelas.com.br — também afetou outros serviços que as lideranças comunitárias vinham prestando, entre elas as ambulâncias e as equipes médicas que assistiam a população.

Os veículos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não entram na comunidade na zona sul de São Paulo, onde vivem cerca de 100 mil pessoas. Os moradores já entraram na Justiça para reivindicar o atendimento durante a pandemia, mas, na falta de uma resposta, os vizinhos se ajudam como podem com carros de passeio.

Nos últimos dias, se multiplicaram nas redes sociais as campanhas de arrecadação de recursos para colocar comida na mesa dos brasileiros mais vulneráveis. Entre elas estão a Tem Gente com Fome, cuja meta é auxiliar cerca de 220 mil famílias pelos próximos quatro meses.

Alta dos alimentos três vezes maior que inflação oficial
Comer ficou significativamente mais caro de um ano para cá no Brasil.

Os preços de alimentos e bebidas estão em média 15% mais altos nos 12 meses encerrados em fevereiro, quase três vezes a inflação oficial, que atingiu 5,2%, conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Os 15% de aumento médio na categoria alimentos e bebidas, já elevado, esconde altas ainda maiores, como a do arroz, que ficou quase 70% mais caro nos últimos 12 meses, do feijão preto (50%), da batata inglesa (47%), da cebola (69%), do limão (79%).

O aumento da inflação de alimentos tem impacto especialmente sobre as famílias mais pobres, que têm um percentual maior da renda comprometida com itens básicos – e, agora, no momento mais agudo da pandemia, terão acesso a um auxílio financeiro significativamente menor.

Paola Carvalho, da organização Rede Brasileira de Renda Básica, que vinha pressionando o governo para que mantivesse o auxílio em seu formato original, ressalta que os R$ 150 que serão pagos a milhões de famílias nos próximos quatro meses é menos de 25% do valor de uma cesta básica, que custa em média R$ 620, conforme o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).
GETTY IMAGES
Campanhas para tentar ajudar famílias vulneráveis têm se multiplicado nas últimas semanas

“Esse valor empurra as pessoas para a rua.”

Para ela, a lógica do auxílio emergencial deveria ser diferente das demais políticas de transferência de renda, já que teoricamente também tem como objetivo garantir o mínimo de subsistência para que as pessoas não precisem sair para trabalhar e, assim, contribuir para o esforço de tentar controlar a circulação do vírus no país.

“Seria possível baixar o benefício a partir do momento em que a população estivesse imunizada, não agora, quando a gente está no pior momento da pandemia”, acrescenta Paola.

O economista Vinícius Botelho concorda que, “quanto menor o valor, menor a potência do benefício para tirar as pessoas temporariamente da força de trabalho”, o que, para ele, reforça a urgência de se acelerar a imunização contra covid-19 no país.

“A gente continuar usando auxílio emergencial como estratégia de distanciamento social é muito caro”, avalia.

Urgente também é a necessidade de se pensar em uma política para a redução estrutural da pobreza no país, que retoma a trajetória de crescimento após uma breve interrupção em 2020.

No fim do ano passado, diante da iminência do fim do pagamento do auxílio emergencial, o economista calculou o impacto potencial da suspensão do benefício: cerca de 3,4 milhões cairiam na extrema pobreza em 2021, levando em conta o patamar de renda de US$ 1,90 por dia usado pelo Banco Mundial.

A extensão do auxílio por mais quatro meses muda pouco a perspectiva, já que a despesa com o benefício será significativamente menor, de R$ 44 bilhões, ante R$ 290 bilhões pagos em 2020.

Além disso, as perspectivas de reação da economia, que embasaram as estimativas do estudo, têm se deteriorado neste primeiro trimestre – o que dificulta a saída das famílias da condição de vulnerabilidade.

“A notícia mais assustadora não é nem quantidade de pessoas, mas o fato de que esse aumento pode ser permanente se a trajetória de renda per capita não acelerar”, diz o doutorando em economia dos negócios pelo Insper.

A pobreza extrema no Brasil vinha em uma crescente desde 2014. Teve uma interrupção temporária em 2020, por conta do auxílio emergencial – que transferiu um volume de recursos para famílias de baixa renda, mas que é insustentável do ponto de vista fiscal no médio prazo -, e deve retomar a trajetória.

Quanto mais o país demora para controlar a pandemia, diz o especialista, pior o cenário: os efeitos que deveriam ser temporários vão ganhando cicatrizes – as empresas que não conseguem mais se manter em operação à espera do retorno à “normalidade”, por exemplo – e isso acaba tendo reflexo sobre a geração de emprego e renda e, em última instância, sobre a pobreza.

Covid-19: uma breve história das máscaras faciais, da Peste Negra à pandemia

Getty images
Ao longo dos séculos, humanos buscaram proteção cobrindo o rosto

Antes limitado a ladrões de banco, estrelas pop excêntricas e turistas japoneses preocupados com a saúde (e conscienciosos), o uso de máscaras em público agora é comum o suficiente para ser apelidado de “o novo normal”.

Pode até ser normal — mas não é novo.

Da Peste Negra ao smog sufocante, da poluição do tráfego à ameaça de ataques de gás, coberturas faciais têm sido usadas nos últimos 500 anos.

Embora as primeiras máscaras fossem usadas como disfarce, vestir uma máscara protetora (em vez de uma usada como traje) remonta pelo menos ao século 6 a.C. Imagens de pessoas usando panos sobre a boca foram encontradas nas portas de tumbas persas.

De acordo com explorador Marco Polo, os servos na China do século 13 cobriam o rosto com lenços de tecido. A ideia era que o imperador não queria que o hálito deles afetasse o cheiro e o sabor de sua comida.Pode parecer um transatlântico afundando no mar, mas são chaminés de fábricas que surgem em meio à poluição no East End de Londres em 1952.
Getty Images

A praga
Foi a Peste Negra — uma praga que varreu a Europa no século 14, matando pelo menos 25 milhões de pessoas entre 1347 e 1351 — que pressagiou o advento da máscara médica.

Os teóricos acreditavam que a doença se propagava através do ar envenenado ou “miasma”, criando um desequilíbrio nos fluidos corporais de uma pessoa.

Eles tentaram evitar que esse ar asqueroso os afetasse ora cobrindo o rosto ora agarrando-se a buquês de flores.

O garoto-propaganda da peste, aquele cruzamento sinistro de máscara de pássaro entre a Sombra da Morte e um corvo steampunk, não apareceu até os últimos estertores do surto final, em meados do século 17.

Perfumes e especiarias também estavam envolvidos — o “bico” surgiu como um local para encher ervas e aromáticos para neutralizar o chamado miasma.Os médicos da praga antes da introdução da máscara em forma de pássaro
Getty Images

Anti-poluição
A Revolução Industrial do século 18 ajudou a criar a infame poluição atmosférica de Londres, que aumentou à medida que mais e mais fábricas expeliam fumaça e as famílias mantinham seus fogos de carvão acesos.GETTY IMAGES
A parte semelhante a um bico da máscara da peste era recheada com ervas aromáticas para neutralizar ‘miasmas’ prejudiciais

Muitos invernos viram grossas mantas de fumaça amarelo-acinzentada cobrindo a capital.

O pior episódio foi em 1952, quando entre 5 e 9 de dezembro, pelo menos 4 mil pessoas morreram no período imediatamente posterior, e estima-se que mais 8 mil foram a óbito nas semanas e meses seguintes.

O smog, uma combinação de fumaça e névoa, ocorre quando o tempo frio prende o ar estagnado sob uma camada de ar quente.

Ele pode agravar problemas respiratórios e cardiovasculares e causar irritação nos olhos.

A partir da década de 1930, as máscaras “anti-poluição” tornaram-se tão comuns no rosto quanto o Homburg (chapéu semi-formal de feltro de pele) ou cloche de feltro na cabeça.GETTY IMAGES
Pesadas túnicas de couro, grossas coberturas de vidro para os olhos, luvas e chapéus faziam parte das roupas de proteção usadas pelos médicos que tratavam de pacientes durante a Grande Peste de 1665

Poluição do trânsito
Durante a Londres vitoriana, senhoras bem-educadas — especialistas em cobrir a pele e sempre ansiosas por qualquer coisa que pudesse ser um adorno intrincado que viesse em preto — começaram a prender véus em seus chapéus.

Embora usado durante o luto, o papel do véu não era exclusivamente fúnebre. Também ajudava a proteger o rosto de uma mulher do sol, da chuva e de poluentes, bem como da sujeira e da poeira transportadas pelo ar.

De acordo com pesquisas, a maior causa de poluição do ar nas grandes cidades agora é o tráfego. As emissões dos canos de descarga, incluindo óxidos de nitrogênio e minúsculas partículas de borracha e metal, são lançadas no ar.

Ciclistas usando máscaras antipoluição era uma cena comum em algumas cidades muito antes de o coronavírus obrigar todo mundo a usar cobertura facial. Os véus frágeis, como os usados pelas motoristas britânicas no início do século 20, não estavam mais à altura.HUW EVANS PICTURE AGENCY
Véus de condução – atraentes e práticos

Gripe espanhola
Um surto de gripe no final da 1ª Guerra Mundial tornou-se uma pandemia global devastadora. Apelidada de gripe espanhola porque os primeiros casos foram registrados na Espanha, cerca de 50 milhões de pessoas morreram.

Acredita-se que a disseminação do vírus tenha sido intensificada pelos soldados que retornavam das trincheiras. Espalhou-se das estações ferroviárias ao centro das cidades, depois aos subúrbios e ao campo.

As empresas de transporte tentaram impedir a propagação da infecção fazendo seus funcionários usarem coberturas faciais.

A publicação britânica Nursing Times de 1918 incluiu conselhos para conter a doença, com uma descrição de como as freiras da St Marylebone Infirmary, em Londres, ergueram divisórias desinfetadas entre cada cama e “cada enfermeira, médico, babá ou assistente” que entrasse no local tinha que usar uma máscara para se proteger.

As pessoas comuns também foram instadas a “usar uma máscara e salvar sua vida” — muitas as fizeram com gaze ou adicionaram gotas de desinfetante a engenhocas embaixo do nariz.GETTY IMAGES
Alguns médicos sugeriram gaze pulverizada com desinfetante como proteção contra a mortal gripe espanhola.GETTY IMAGES
Exércitos de todo o mundo, incluindo esses soldados de infantaria indianos, tiveram que realizar treinamento de ataque com gás

Gás
A ameaça de uma 2ª Guerra Mundial, 20 anos após o primeiro conflito global ter presenciado o uso de cloro e gás mostarda, fez com que o governo distribuísse máscaras de gás tanto para as pessoas comuns quanto para os militares.GETTY IMAGES
As dançarinas do cabaré Murray’s em Londres usaram máscaras de gás em suas fantasias. As coberturas faciais se tornaram, assim, predominantes na maioria das áreas da vida em algumas cidades europeias.GETTY IMAGES
Até os animais tinham suas próprias máscaras

GETTY IMAGES
Motorista de 1971 usa máscara de gás

Fama e privacidade

Outro tipo de máscara surgiu nos últimos tempos — uma que atende à necessidade de proteger o rosto do olhar fulgurante de fãs ávidos (e presumivelmente, inimigos).

Por que os “pods” de aprendizado podem sobreviver à pandemia

Uma sala de aula no West 4th Pod, no West Village de Manhattan.Fotografia de Teenisha Toussant

Provavelmente é tolice colocar isso por escrito, mas, nas últimas semanas, um futuro pós-cobiçoso começou a parecer visível à distância. Novos números de casos estão caindo. Existem adultos encarregados da distribuição das vacinas. Chegará o momento, enquanto examinamos os destroços, de determinar quais convenções da era da pandemia jogar no lixo e quais manter. Algumas ligações são mais fáceis de fazer do que outras: as reuniões do Zoom vieram para ficar, assim como jantares na calçada e grupos de ajuda mútua. Esperançosamente, máscaras farão parte da coluna “out”. Mas e quanto aos pods de aprendizagem pandêmicos – a instituição onipresente em que pequenos grupos de crianças se reúnem para ir à escola na sala de estar de alguém?

Os pods de aprendizagem desempenharam um papel importante na era da pandemia. Quando o conceito veio à tona, após algumas semanas de pandemia, parecia resumir os piores elementos desta crise: a maneira como separou os ricos dos despossuídos e colocou os que tinham muito à deriva em botes salva-vidas luxuosos de privilégios obscenos . Houve relatos de pais gastando cento e vinte e cinco mil dólares por ano para contratar um tutor para seus filhos. Mas, com o passar do tempo e o vírus, o conceito de pod learning expandiu-se para incluir tudo, desde escolas em casa a compartilhamentos de babás e sessões informais de zoom em grupo – a ampla gama de coisas que pais trabalhadores estão fazendo para ocupar seus filhos.

“O ano passado foi um grande choque para o sistema educacional americano”, disse recentemente Erin O’Connor, diretora do programa de educação infantil de N.Y.U. “Acho que vamos olhar para trás e considerá-la uma época muito influente, para o melhor e para o pior.”

Para uma instituição que de repente se tornou comum, os pods de aprendizagem são um pouco como um buraco negro informacional. Não há dados oficiais sobre quantos existem ou quem os está formando, além de alguns grupos no Facebook. (Um dos maiores, os pods pandêmicos, tem mais de trinta e nove mil membros.) O’Connor, que treina professores, rastreia os pods da cidade de Nova York informalmente para poder entender melhor o mundo em que seus alunos logo entrarão . Ela também estuda as relações iniciais de cuidado e ajuda a administrar uma plataforma chamada Scientific Mommy, que torna a pesquisa acadêmica acessível aos pais. Ao entrar em contato com os pais que ela conhece por meio desses projetos e postando em Listservs de pais e grupos do Facebook, ela foi capaz de formar uma imagem aproximada da situação do pod.

Os pods parecem ser predominantes em todo o sistema de escolas públicas da cidade de Nova York, no qual as escolas de segundo grau devem reabrir no final deste mês, enquanto as escolas de ensino fundamental – e, a partir de duas semanas atrás, as escolas de ensino médio – estão abertas para aprendizado presencial. Apesar de serem nominalmente abertas, muitas dessas escolas secundárias só dão aulas presenciais alguns dias por semana e têm sido fechadas e reabertas continuamente devido a novos surtos do vírus e possíveis exposições. Os pods são menos comuns em escolas particulares, que ofereceram mais aprendizagem presencial durante a pandemia. É verdade que as famílias que formam grupos tendem a ser mais ricas do que a média. “Não são super-ricos – eles estão usando o sistema de escolas públicas – mas têm recursos suficientes para aumentá-lo”, disse O’Connor. “Tem havido algum drama sobre bons professores serem contratados fora das escolas porque um pod ofereceu mais a eles”, ela continuou. Mas não é uma ocorrência comum, acrescentou ela, porque a maioria dos pods não oferece benefícios de longo prazo, como estabilidade e seguro saúde. Em vez disso, muitos pais recrutaram professores aposentados ou em treinamento para executar pods. O’Connor disse que, em média, esses professores recebem cerca de cento e cinquenta dólares por hora. Há também tutores, babás, alunos de pós-graduação, aposentados, adolescentes e artistas desempregados que estão sendo contratados para tarefas que vão desde o ensino de álgebra até suporte técnico, muitas vezes em um nível inferior. O’Connor disse: “Eu estava conversando com uma mãe que trabalhava, e ela disse,‘ Contratamos alguém apenas para ajudar as crianças a lidar com o Zoom. Eu não tenho largura de banda para solucionar problemas desse tipo. ‘Eu estava, tipo,’ Confie em mim. Entendo!’ ”

Um dos benefícios da escola é que ela força as crianças (e seus pais) a se darem bem com pessoas que não são como eles. “Isso não está acontecendo este ano”, disse O’Connor. (De um artigo viral do Slate publicado em outubro de 2020: “No final, todas as crianças no casulo eram brancas.”) Mas separar-se em grupos pode ter uma certa utilidade. Livre de restrições sociais e institucionais – e dos limites físicos da sala de aula – os pais e educadores que administram pods de aprendizagem se viram livres para experimentar. Eles podem tentar coisas novas sem ter que reunir um grupo de pais por trás da ideia ou ter que buscar a aprovação do Departamento de Educação.

O’Connor disse que, inicialmente, os frutos que ela viu eram bastante simples. Agora, porém, “estou vendo cápsulas adaptadas às diferentes necessidades das crianças e aos interesses dos pais”. Existem pods centrados em arte e matemática e um pod que estuda budismo e astronomia. “Essa ideia de natureza é algo que surge muito”, disse ela. Famílias se espalharam pela cidade em busca dele. “Eles vão observar pássaros no Central Park e fazer caminhadas em Staten Island.” Um grupo liderado pelos pais se reúne nos fins de semana em um playground. Outro aluga uma igreja duas vezes por semana, “apenas para que as crianças possam correr”. Há também um grupo que se encontra em um restaurante fechado. “Achei aquele legal”, disse O’Connor. “Eles fazem ciência baseada em alimentos na cozinha.”

“Eu disse ao meu marido:‘ Por que parece que temos mais vida social agora do que antes da pandemia? ’”, Disse-me recentemente uma mãe de vagem chamada Katrina Robinson. Robinson, um advogado, tem dois filhos: um de dois anos e outro de cinco, que frequenta o jardim de infância “híbrido” na P.S. 41, no West Village. A família é mestiça e, muito antes do início da pandemia, Robinson começou a se preocupar com a falta de diversidade no P.S. 41, que é em sua maioria branco, seguindo a demografia da área. Ela se preocupou em como isso afetaria seu filho. “A questão da raça não é discutida na escola, ponto final”, disse Robinson. “As crianças não estão sendo equipadas com as ferramentas para falar sobre raça”. E, segundo ela, nem os professores. “Aqui está minha filha, que é negra – e que reconhece que ela é diferente de todos os outros, e que ela tem um pai negro e um pai branco – mas não há discussão sobre isso. Isso pode deixar uma criança se sentindo bastante isolada. É como ser o único alienígena na sala de aula. E pensar que pode haver outros alienígenas por perto, mas não tenho certeza.

No outono de 2019, Robinson se juntou a um grupo de pais que tentava persuadir o P.S. 41 para trazer treinadores de justiça racial para trabalhar com a equipe e revisar o currículo da escola. O progresso era lento. Então veio a pandemia. Por algumas semanas, todos foram consumidos pela luta para implementar o aprendizado à distância, e o trabalho de justiça racial teve que ser temporariamente arquivado. Mas, após a morte de George Floyd, em maio – e a agitação civil que se seguiu – o projeto do grupo assumiu uma urgência renovada. Robinson disse: “É a cidade de Nova York. Houve protestos por toda parte! ”

Seguiu-se uma reunião do Zoom com os administradores da escola, e os líderes da escola eventualmente decidiram realizar algumas sessões de treinamento de justiça racial para membros da equipe. Nem todo mundo ficou feliz com o plano, no entanto. Em novembro, em um P.T.A. Nessa reunião, alguns pais brancos resmungaram sobre a idéia de usar fundos da escola para o treinamento de justiça racial, dizendo que outras coisas como programas de arte e xadrez foram cortados. Robinson ficou desanimada: ela estava feliz com o treinamento acontecendo, mas gostaria que os administradores da escola tivessem feito mais para defendê-lo. (Em resposta, Kelly McGuire, superintendente supervisionando o PS 41, escreveu: “O Distrito 2 tem um profundo compromisso com a igualdade racial e tem se concentrado na criação de ambientes inclusivos para todos os nossos alunos e funcionários. Tem sido um ano difícil para todos de nós, e é mais importante do que nunca que continuemos a desenvolver o trabalho crítico e o envolvimento que acontecem nas e com as nossas comunidades escolares.”)

Alguns meses antes do P.T.A. Na reunião, um dos pais do grupo de defesa da justiça racial, Jenny Young, começou a organizar um pod de aprendizagem pandêmica para seu filho, que estava na mesma classe que a filha de Robinson. A família de Robinson juntou-se ao grupo, assim como várias outras famílias do grupo. Young me disse que era mera coincidência: “Trabalhamos juntos, então nos tornamos amigos e todos tinham um filho da mesma idade”. De repente, a filha de Robinson deixou de ser uma forasteira para se encontrar em um grupo de seis alunos, onde a maioria das crianças era mestiça, como ela. A professora que Young havia contratado para administrar o pod, Teenisha Toussant, uma ex-professora assistente da P.S. 41, por acaso também era negro. Robinson disse que sua filha parecia notar a diferença. “Eu acho que, para ela, foi tipo, ‘Oh, não é tão estranho ter pais birraciais.’” Outro aluno no grupo disse a Toussant: “Esta é a minha primeira vez não sendo a única pessoa morena da minha classe e ter um professor marrom. Isto me faz feliz.” Quanto aos pais, disse Robinson, o casulo criou um “adiamento temporário” da política escolar. “Apenas diminuiu o nível de estresse.”

O West 4th Pod opera nos dias úteis das nove às cinco, em um apartamento de quatrocentos metros quadrados ao lado daquele em que Jenny Young e seu marido, Ken, moram com seus dois filhos, de cinco e sete anos. Os Youngs haviam comprado o apartamento em 2019, com planos de expansão. Mas quando a pandemia atingiu, eles tiveram a ideia de usá-lo como um lugar para seu filho mais novo, Sky, fazer seu aprendizado remoto. Young é o fundador e C.E.O. da Brooklyn Robot Foundry, uma empresa de educação que ensina crianças a construir robôs. “Eu sou uma engenheira, então sou muito útil”, ela me disse. Ela empreendeu uma rápida renovação da unidade adjacente.

Com a ajuda de um amigo empreiteiro, Young pintou os cômodos do tamanho de um armário do apartamento de cores vivas e equipou o banheiro com uma minipia de utilidades, que poderia ser usada para experimentos científicos. Ela mobiliou a sala de estar com mesas baixas, cadeiras e suprimentos de artesanato – todos da Robot Foundry, que havia fechado suas instalações pessoais – e colocou um tapete de alfabeto em um dos quartos. Em outro quarto, ela instalou uma escada de escalada, balanços de corda e tapetes para criar uma pequena academia. Toda a operação é gerida como um negócio, com um L.L.C. estrutura e um contrato que inclui extenso protocolo de segurança sigiloso, incluindo um fluxograma para cenários como: O que acontece se uma criança tiver febre ou possivelmente for exposta ao vírus? E se uma família viajar para fora do estado? Os pais votam na maioria das decisões, desde que tipo de lanche pedir, até que parque levar as crianças no recreio. Young também criou uma lista de verificação de limpeza – as famílias se revezam na arrumação – e providenciou para que os almoços fossem entregues por um serviço de refeições infantis chamado Yumble. “Eu sou um pouco O.C.D.”, ela reconheceu.

O custo de tudo, incluindo os almoços e o salário de Toussant, foi de pouco menos de vinte mil dólares por aluno no ano. É mais barato do que o ensino em algumas escolas particulares – e mais barato do que o programa pós-escola onde a filha mais velha dos Young costumava fazer seu aprendizado remoto – mas mais do que a maioria das famílias pode pagar, um fato do qual todos os pais do grupo pareciam bem cientes. Young disse que eles falaram muito sobre as injustiças do aprendizado em pod e inicialmente procuraram incluir uma criança cujos pais não podiam pagar, em uma espécie de mini bolsa de estudos. “Tínhamos até uma família alinhada”, disse-me Young, mas eles acabaram dizendo que precisavam fazer outros planos. Portanto, embora o grupo tenha alcançado diversidade racial, a diversidade socioeconômica permaneceu fora de alcance. “Basicamente, criamos nossa própria escola particular, porque era necessário”, disse Robinson. “É horrível”, disse Young. “Se houvesse uma maneira de propagar mais uma divisão socioeconômica nesta cidade, é esta.”

Visitei recentemente em uma terça-feira de manhã. O pequeno apartamento parecia um refúgio da cidade sitiada. Toussant estava sentado em uma mesa estreita na cozinha, preparando o plano de aula do dia, enquanto “Blue Train” de John Coltrane tocava em um alto-falante. Antes de cobiçado, Toussant estava em busca de um emprego de professor líder. “Percebi que esta é a minha oportunidade”, disse ela sobre o módulo de aprendizagem. “Pode não ser em uma escola tradicional, mas é o mesmo conceito.”

Às 9h, as crianças entraram. (Eles estão sendo identificados por pseudônimos.) Um menino chamado Eastwood chegou, vestindo calças militares e uma camisa do Homem-Aranha. Ele abraçou seu pai, Ekow N. Yankah, um professor de direito, na porta. “Quem te ama mais do que papai?” Yankah perguntou.

“Ninguém!” Eastwood, que agora tem cinco anos, disse, antes de correr para pendurar sua mochila.

O marido de Robinson deixou sua filha, Titania, que usava uma saia rosa e uma faixa com pompons rosa nela. “Oi, Srta. T.”, disse ela a Toussant.

Um menino chamado Zachary apareceu atrás dela. “Deu muito trabalho!” ele engasgou.

“O que?” Perguntou Toussant.

“Caminhando para a escola!”

Toussant escaneou as testas das crianças com um termômetro infravermelho – de acordo com o protocolo do pod – e empurrou-as para as pequenas mesas de trabalho. “Quatro minutos até que tenhamos que entrar no Zoom!” ela gorjeou. Todas as seis crianças do grupo ainda estão matriculadas em escolas públicas e frequentam aulas presenciais alguns dias por semana, em horários diferentes. Naquele dia, Toussant estava facilitando várias sessões de Zoom. Ela ajudou Titania, Zachary e o filho de Young, Sky, a colocar fones de ouvido e se posicionar na frente de seus tablets. “A parte divertida é memorizar todas as senhas do computador e todas as senhas para entrar nas reuniões do Zoom”, disse Toussant. Os professores apareceram nas telas dos tablets, lendo livros ilustrados e segurando calendários. As crianças se mexiam, gesticulavam e ocasionalmente gritavam respostas às perguntas.

Duas crianças não tiveram sessões matinais de Zoom: Daisy, porque ela frequenta uma escola diferente das outras (P.S. 3), e Eastwood, que está no pré-jardim de infância. Toussant deu a eles planilhas manuscritas para mantê-los ocupados. “Que carta vamos praticar hoje?” ela perguntou. Eastwood disse que eles estavam praticando a letra “S”.

“Eu sei a palavra com S”, anunciou Daisy.

Eastwood deu uma risadinha. “Eu só conheço a palavra com D”, disse ele.

Zachary ergueu os olhos da tela com interesse. Toussant os calou. “Vamos ficar quietos”, disse ela. “Temos amigos ao nosso lado nas reuniões do Zoom!” Ela disse a eles para fazerem suas planilhas na academia.

Quando as crianças não estão usando o Zoom, Toussant as instrui, seguindo um currículo que ela mesma criou. (De acordo com O’Connor, muitos líderes de pod foram encarregados de criar currículos, com pouca orientação das escolas.) Ela liderou várias discussões sobre raça, lendo livros de classe como “Don’t Touch My Hair!”, De Sharee Miller e “Mixed Me!”, De Taye Diggs, sobre um menino que tem pais mestiços. As crianças estão ansiosas para explorar suas semelhanças e diferenças. Durante uma discussão, Toussant lembrou que Eastwood colocou a mão ao lado de outro aluno, Jiva, e disse: “Você é moreno como eu.” E então Daisy foi até a Sky e disse: “Acho que ambas somos brancas.” Eles falaram sobre os diferentes países de seus pais – Jamaica, Gana, Paquistão – e a importância de Kamala Harris se tornar “a primeira mulher morena” a servir como vice-presidente. “Eles estavam tão interessados ​​nisso”, disse Toussant.

Na frente acadêmica, Toussant encontrou jogos e atividades que ajudariam as crianças a praticar as habilidades que estavam aprendendo na escola em seus dias “on”. O jardim de infância é quando a maioria das crianças começa a aprender a ler. Toussant pede às crianças que brinquem de Go Fish e Hangman para praticar palavras à vista – palavras comuns, como “o”, “e” e “gosto”, que eles precisam reconhecer à primeira vista, em vez de sondá-las. Mas sua atividade favorita é um jogo de perguntas chamado Math Jeopardy, no qual eles praticam adição, subtração e geometria simples. (Toussant também instituiu testes de ortografia às sextas-feiras, uma prática usada por seus próprios professores do ensino fundamental.)

Quando visitei, Toussant tinha três exercícios planejados: um jogo fonético que envolvia jogar dados e soletrar palavras, outro exercício de caligrafia e uma planilha de matemática que usava cubos de contagem. Mas ela aprendeu a não tentar nada muito ambicioso após as sessões matinais de Zoom. “Eles estão apenas ricocheteando nas paredes”, disse ela. Em vez disso, ela deu às crianças trinta minutos de Choice Time, para relaxar. A Titânia escolheu o artesanato, fazendo bolsas com papel de construção e joias de plástico. Daisy e Sky brincaram com Magna-Tiles. Zachary e Eastwood balançaram nas cordas do ginásio. “Estou fingindo que o chão é lava”, explicou Eastwood.

Às 11 horas, eles tiveram uma reunião matinal. Os alunos se sentaram no tapete do alfabeto, e Toussant estava em um quadro branco, segurando um ponteiro. “Bom dia, West 4th Pod!” ela anunciou. Eles gritaram, em uníssono: “Bom dia, Srta. T.!” Eles revisaram a programação do dia e então chegou a hora de um ritual chamado Círculo da Comunidade. “Qualquer coisa que eles quiserem falar, nós conversaremos sobre isso”, ela explicou. “Eles podem compartilhar coisas e fazer perguntas.”

Crianças de quatro e cinco anos são mais sofisticadas do que imaginamos, Toussant disse: “Eles querem saber tudo”. Além de raça, eles abordaram tópicos como eleições presidenciais, casamento entre pessoas do mesmo sexo e seus corpos. Ajuda saber que os pais do pod têm a mente aberta. “Eles querem que seus filhos tenham essas conversas”, disse ela.

Naquele dia, eles estavam preocupados com tópicos menos importantes. Eastwood fez um anúncio. “Hoje é o aniversário do meu irmão”, disse ele. “Minha mãe o deixou abrir um presente cedo esta manhã.” Houve uma discussão sobre o presente e sobre uma festa de aniversário que Sky faria no casulo. “Vamos comer uma piñata!” ele disse. Para meu benefício, Toussant direcionou a discussão para o aprendizado de pod. “Por que estamos em um pod?” ela perguntou.

“Por causa do coronavírus!” as crianças disseram, em uníssono.

Eles conversaram sobre as diferenças entre a escola e a escola regular. “Estamos na casa de alguém”, disse Titânia. “Também é um grupo menor.” As crianças concordaram que estavam aprendendo mais no pod do que antes.

Existem algumas desvantagens. “Sinto falta do playground”, disse Eastwood.

“Não consigo sair mais por causa do vírus”, queixou-se Daisy. Titânia disse: “Sinto falta de estar em grandes grupos, porque tínhamos mais amigos”. Ela falou sobre as outras crianças com quem costumava brincar na escola, antes da pandemia.

Eu senti uma pontada. Essas crianças tiveram sorte, mas ainda estavam sob pressão. Depois que a novidade e a empolgação se dissiparam, o pod learning passou a ser passado dia após dia em um minúsculo apartamento, com cinco outras crianças.

Neste ponto, várias crianças estavam se contorcendo no chão. Toussant anunciou: “Ok, amigos, vamos nos levantar por um minuto, porque seus corpos estão um pouco bambos.” Ela tocou “ABC”, do Jackson 5, e eles tiveram uma breve sessão de dança.

Há uma coisa com a qual todos parecem concordar sobre este ano letivo: quando acabar, a lacuna entre ricos e pobres, já enorme na cidade de Nova York, terá se tornado um abismo. O’Connor tem rastreado famílias de baixa renda em projetos de pesquisa anteriores e, em geral, ela disse, o quadro educacional é sombrio. Algumas crianças estão cuidando de irmãos mais novos enquanto tentam fazer seu próprio aprendizado remoto. “No ano passado, algumas crianças não conseguiam nem mesmo usar o controle remoto”, disse ela – o que significa que seu crescimento acadêmico provavelmente foi atrofiado.

Enquanto isso, sob a tutela de Toussant, as crianças do West 4º Pod superaram seus colegas. Eles começaram a ler, de acordo com Toussant, vários meses antes do previsto. Eastwood, a criança em idade pré-escolar, está ainda mais à frente. (Robinson disse sobre sua filha: “Não tínhamos certeza de que ela aprenderia a ler este ano. Em vez disso, ela está voltando para casa e tentando ensinar sua irmãzinha a ler.”) Algo semelhante aconteceu com matemática. Young disse, sobre seu filho de cinco anos, Sky, “Ele está fazendo matemática no nível do meu segundo ano.” Quando as crianças estavam começando a resolver “problemas de história” de primeira série – exercícios aritméticos que envolvem a leitura de um cenário e, em seguida, a resolução de um problema de matemática – Toussant começou a se conter em alguns tipos de ensino de matemática, por temer que as crianças ficaria entediado quando voltassem para a escola regular. (Os pais mais tarde pediram a ela, após uma votação, para continuar.) A experiência fez de Toussant um entusiasta do aprendizado em pequenos grupos. “Essas seis crianças são agora o meu propósito todos os dias, “Ela me disse.” Ser capaz de lidar com eles em um ambiente tão íntimo, onde você pode se concentrar nas necessidades individuais de cada um – eu gostaria que isso fosse algo que todos os pais pudessem fazer por seus filhos.”

Nem todos os pods de aprendizagem tiveram tanto sucesso. “Já ouvi muitas histórias de pesadelos de meus amigos”, disse Robinson. “É basicamente como estar em um conselho cooperativo. E, como todo mundo em Nova York sabe, isso pode ser uma dor de cabeça.” Muitos pods se desfizeram devido a divergências sobre segurança ambiciosa ou conflitos de personalidade entre pais, professores e alunos. O’Connor descreveu um pod que se desfez porque os pais sentiram que uma criança estava monopolizando a atenção do professor. “Em um ambiente maior, com 25 crianças e vários professores, isso provavelmente não teria acontecido”, disse ela. A virtude dos pods de aprendizagem também é sua falha: com menos pessoas envolvidas, isso coloca mais pressão nos relacionamentos individuais.

Poderia haver uma maneira de dividir a diferença? Elise Capella, professora de psicologia em N.Y.U. que estuda desenvolvimento e educação infantil, me disse: “Sei que muitas pessoas estão fazendo a pergunta e se. E se pudéssemos fazer isso de uma forma mais justa? E tem pods de aprendizagem que foram distribuídos para todas as crianças de quatro a dez anos, e não apenas para algum subgrupo de famílias de renda média ou alta? ” É possível imaginar pods de aprendizagem se tornando como um jantar na calçada – um experimento que dura. O’Connor, no entanto, estava cético: “Acho que isso requer um grau de envolvimento dos pais que a maioria das pessoas não consegue”, disse ela. Em vez disso, ela disse: “Seria ótimo se pudéssemos pegar um pouco do que funcionou tão bem para esses pods e pensar em como isso pode se traduzir de volta no sistema de educação pública”. Pode haver implicações em como consideramos questões como tamanho da sala de aula, participação dos pais, aprendizagem fora da sala de aula e permitir que as pessoas se dividam em grupos de afinidade menores. Ela imaginou trainees de escolas de professores trabalhando com grupos de alunos. “Você pode encontrar maneiras de criar microambientes nessas salas de aula maiores.”

Robinson também disse que, por melhor que o West 4th Pod tenha sido para sua família, ela não quer que o experimento se arraste por mais tempo do que o absolutamente necessário. “Isso só vai criar mais desigualdade”, disse ela. “E isso não é bom para ninguém.”

Mas, mesmo que os pods não sejam permanentes, eles parecem destinados a continuar por pelo menos um pouco mais de tempo: o aprendizado remoto provavelmente persistirá até o final do ano letivo. Ainda assim, as famílias do West 4th Pod continuaram a fazer lobby por mudanças no P.S. 41. Recentemente, eles formaram um Comitê oficial de Excelência e Inclusão em Diversidade e começaram a recrutar outros pais da escola. A escola, por sua vez, está dando muitos dos passos que o grupo pediu, desde o treinamento dos funcionários até a revisão do currículo para torná-lo mais inclusivo. A vida pode ser mais fácil em um pod, disse Robinson, mas isso é porque não é o mundo real. “É um mundo falso que criamos”, disse ela, “porque o mundo real é disfuncional. Não podemos deixar nossos filhos crescerem pensando que a vida é sempre assim. Tipo, ‘Você só vai estar cercado por pessoas que te amam, e você não vai ter nenhum conflito, porque, mesmo que você tivesse seus pais são amigos e eles vão consertar isso para você. ’”

 

Coronavírus: “O Brasil está se tornando uma ameaça à saúde pública global”

O Brasil é o segundo país do mundo com o maior número de mortes por coronavírus. Foto EPA

As mortes diárias por coronavírus no Brasil ultrapassam 2.000, tornando-se o segundo país com maior número de mortes por essa causa, depois dos Estados Unidos.

O epidemiologista Pedro Hallal, que atua no sul do estado do Rio Grande do Sul, fala de uma situação de transbordamento que implica um perigo que se estende além das fronteiras do gigante sul-americano.

“21% de todas as mortes que ocorreram no mundo ontem por causa do covid-19 ocorreram no Brasil, um país que tem apenas 2,7% da população mundial. Então, isso é enorme. Tornando-se uma ameaça para o público global saúde”, disse Hallal à BBC.

Na quarta-feira, 10 de março, o país registrou 79.876 novas infecções confirmadas, o terceiro maior número em um único dia, enquanto o número total de mortes relacionadas ao covid-19 chegou a 270.656, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.

Isso significa que o Brasil tem uma taxa de 128 mortes por 100 mil habitantes, o que o coloca em 11º lugar entre os 20 países mais afetados do mundo. As taxas mais altas estão na República Tcheca com 208 mortes por 100.000 pessoas e no Reino Unido com 188 mortes por 100.000 pessoas, de acordo com relatórios da Universidade Johns Hopkins.

Crise em hospitais
Margareth Dalholm, médica e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, centro de pesquisa científica localizado no Rio de Janeiro), descreveu a situação como “o pior momento da pandemia no Brasil”.

Reuters

Muitos centros de saúde estão sobrecarregados com o alto número de hospitalizações.

Em todo o Brasil, as unidades de terapia intensiva (UTI) estão com mais de 80% de sua capacidade, segundo a Fiocruz. E em 15 capitais as UTIs estão com mais de 90% de sua capacidade, inclusive no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A imprensa do país afirma que a capital, Brasília, atingiu a capacidade máxima das UTIs, enquanto duas cidades, Porto Alegre e Campo Grande, ultrapassaram essa capacidade.

Em seu relatório, a Fiocruz alertou que os números apontam para “sobrecarga e até mesmo colapso dos sistemas de saúde”.

Hallal garante que seu estado (Rio Grande do Sul) está sobrecarregado. “Aqui no sul do Brasil a situação está ficando muito ruim, estamos com mais de 100% de ocupação em unidades de terapia intensiva”, disse ele à BBC.

Ele também observou que as pessoas se sentiram “abandonadas pelo governo federal”.

“Os políticos demoraram muito para agir”, disse Adilson Menezes, de 40 anos, à agência de notícias AFP em frente a um hospital em São Paulo. “Os pobres estão pagando por isso”, disse Menezes, referindo-se ao estado de quase colapso do sistema público de saúde do Brasil.

A questão da liderança
Análise de Katy Watson, correspondente da BBC América do Sul

O Brasil enfrenta sua maior crise desde o início da pandemia, mas ainda assim, parece que as pessoas estão tentando ignorá-la.

Veja São Paulo, por exemplo. Embora as lojas não essenciais tenham sido fechadas nas últimas semanas, não há “bloqueio” para falar, nenhuma restrição sobre quem as pessoas podem se encontrar e as escolas permaneceram abertas (embora com menos capacidade).

As pessoas aqui estão tomando suas próprias decisões sobre como ficar seguras e certamente não existe esse medo como vimos nesta época, há um ano, quando todos estavam se trancando, inclusive os brasileiros.

Um ano depois, e mesmo em meio a estatísticas terríveis que continuam a aumentar, a narrativa de Jair Bolsonaro foi comprada por muitos: desconfiança da vacina CoronaVac chinesa e críticas ao fechamento de restaurantes e empresas.

Enquanto isso, os cientistas estão clamando cada vez mais por uma liderança nacional para impedir o colapso de todo o sistema de saúde nas próximas semanas.

O que está por trás da onda de infecções?
O aumento de casos nos últimos dias foi atribuído à disseminação de uma variante altamente contagiosa do vírus, chamada P1, que se acredita ter se originado na cidade amazônica de Manaus.

A nova variante do coronavírus, detectada pela primeira vez no Brasil, levou ao aumento das mortes naquele país.

Dados preliminares sugerem que a variante P1 pode ser até duas vezes mais transmissível do que a versão original do vírus.

Indicam também que a nova variante pode escapar da imunidade derivada de ter sofrido a versão original do coronavírus: a probabilidade de reinfecção está entre 25% e 60%.

Na semana passada, o Instituto Fiocruz disse que o P1 era apenas uma das diversas variantes que geram preocupação, que passaram a ser dominantes em seis dos oito estados estudados por aquela instituição.

A diretora da Organização Pan-Americana da Saúde, Carissa Etienne, disse que a situação no Brasil lembra a ameaça de ressurgimento. “As áreas mais afetadas pelo vírus no passado permanecem vulneráveis ​​à infecção hoje”, disse ele.

Hallal, por sua vez, reconhece o desafio colocado pela nova variante, mas garante que o problema vai além.

“Sabemos que a nova variante é mais transmissível e temos evidências emergentes de que pode ser um pouco mais agressivo que o vírus original, mas nem tudo tem a ver com a variante. Como cientista, devo dizer: é verão em esta parte do mundo. O sul do mundo e as pessoas aqui no Ano Novo participaram de grandes encontros em todos os lugares, então a variante está tornando mais difícil, mas não é apenas a variante “, diz ele.

Em alguns hospitais, os pacientes precisam ser atendidos em quartos improvisados.

O especialista ressalta que atualmente existem algumas medidas para restringir a circulação de pessoas, mas provavelmente não serão suficientes para conter as infecções.

“Precisamos aliar isso a uma campanha de vacinação acelerada e não estamos vendo. Precisamos de atenção imediata da indústria farmacêutica, de outros governos do mundo porque se não começarmos a vacinar a população aqui, muito em breve, isso vai virar uma tragédia. massiva “, avisa.

Um “laboratório natural”
Análise por Smitha Mundasad, Correspondente de Saúde da BBC

Os cientistas temem que o Brasil tenha quase se tornado um “laboratório natural”, onde as pessoas podem ver o que acontece quando o coronavírus passa relativamente despercebido.

Alguns alertam que o país é agora um terreno fértil para novas variantes do vírus, desimpedido por um efetivo distanciamento social e alimentado pela escassez de vacinas.

Isso porque quanto mais tempo um vírus circula em um país, maior é a probabilidade de sofrer mutação, nesse caso dando origem à variante P1.

Especialistas mundiais estão pedindo um plano que inclua vacinação rápida, bloqueios e medidas rígidas de distanciamento social para controlar a situação.

A preocupação é que a variante P1 seja uma ameaça iminente ao progresso feito na região e no resto do mundo.

Em geral, as vacinas atuais ainda são eficazes contra a variante, mas podem ser menos eficazes do que contra as versões anteriores do vírus para o qual foram projetadas.

Os estudos estão em andamento, mas os especialistas ganharão uma compreensão mais sólida de como essas vacinas P1 funcionam à medida que continuam a monitorar as pessoas que foram vacinadas no mundo real.

Os cientistas estão confiantes de que, se necessário, as vacinas podem ser modificadas com bastante rapidez para trabalhar contra novas variantes.

Como o governo reagiu?
O presidente Jair Bolsonaro minimizou os riscos apresentados pelo vírus desde o início da pandemia.

Ele também se opôs às medidas de quarentena tomadas em nível regional, argumentando que os danos à economia seriam piores do que os efeitos do próprio vírus.

Bolsonaro rejeita as críticas sobre sua forma de lidar com a pandemia.

Nesta quarta-feira, o ex-presidente e líder da oposição Luiz Inácio Lula da Silva criticou as decisões “estúpidas” do presidente Bolsonaro e disse ter recomendado que os cidadãos fossem vacinados. “Muitas mortes poderiam ter sido evitadas”, disse ele.

Bolsonaro, que no início da semana disse aos cidadãos para “pararem de choramingar”, rejeitou as críticas de Lula, dizendo que seu governo fez o suficiente para combater a doença.

Já João Doria, ex-aliado do Bolsonaro e agora rival político, chamou o presidente de “maluco”.

A posição do presidente sobre a pandemia também foi alvo de severas críticas fora das fronteiras do Brasil.

Dia Internacional da Mulher – Minha Homenagem: Como mulheres brasileiras se desdobram na pandemia

Ainda mais sobrecarregadas por afazeres domésticos e cuidados com os filhos do que antes da crise, mulheres de diferentes classes sociais buscam meios de garantir sustento e manter produtividade no trabalho.

Quase 1,5 milhão de famílias já foram auxiliadas pelo projeto Mães da Favela, da Cufa, desde o início da pandemia

Se a realidade de muitas mulheres brasileiras já era de um acúmulo de responsabilidades, com trabalho fora, afazeres domésticos e cuidados com filhos, a pandemia só aumentou essas dificuldades. Com escolas fechadas, mães precisaram também se tornar “professoras”, auxiliando no ensino remoto. Devido ao medo de contágio pelo coronavírus, elas contam também que os cuidados com a limpeza e a lavagem de roupas aumentaram. E muitas passaram a ver a subsistência de suas famílias ameaçada.

Moradora da favela de Paraisópolis, em São Paulo, Vanessa Macedo da Silva teve que encontrar uma maneira de complementar a renda familiar nestes tempos de crise. Mãe de duas filhas, uma menina de 13 anos e outra de 11 meses, ela conta que já estava desempregada quando a covid-19 chegou ao Brasil, e agora orgulha-se de dizer que se tornou empreendedora durante a pandemia.

Quando sua filha mais nova nasceu, em abril do ano passado, palavras como lockdown, quarentena, isolamento social e ensino remoto já estavam incorporadas ao vocabulário. Com a crise, seu marido foi afastado do trabalho.

“As coisas começaram a ficar difíceis, a gente passou a se privar de algumas coisas”, conta ela. “O pai da minha filha mais velha não podia mais colaborar com a pensão dela, porque também ficou desempregado. Meu marido ia ao mercado e trazia só as coisas mais necessárias.”Moradora de Paraisópolis, Vanessa Macedo da Silva, mãe de duas filhas, teve que se virar para complementar a renda durante a pandemia

Ela passou a contar com a ajuda do projeto Mães da Favela, da Central Única das Favelas (Cufa). E também do colégio onde sua filha adolescente estuda, como bolsista, que começou a destinar a ela uma cesta básica mensal. “A gente dividia tudo com meus pais, já que meu pai, pedreiro, também perdeu o emprego”, relata.

Vanessa conta que a correria doméstica ficou cada vez maior. Dividia-se entre os cuidados com a filha recém-nascida, as eventuais ajudas ao estudo da filha de 13 anos e a limpeza de tudo. Um balde com água sanitária passou a ficar na entrada da casa, para desinfetar tudo o que entrasse. E toda a roupa era lavada sempre que alguém vinha da rua — aumentou muito o trabalho. “Também comecei a limpar várias vezes por dia as maçanetas da porta”, diz.

No meio disso tudo, ela arrumou um tempinho para assistir a cursos on-line. Decidiu que iria ter um negócio próprio. “Aí comecei a fazer geladinhos”, conta. “Passei a vender pelo WhatsApp, fazendo as entregas com todos os cuidados. Com o dinheiro, dá para comprar fraldas, pagar uma continha.”

“A mãe da favela se preocupa com o que o filho vai comer”

Com cestas básicas no valor de R$ 120 viabilizadas por meio de doações financeiras, o projeto Mães da Favela já beneficiou quase 1,5 milhão de famílias desde o início da pandemia. Segundo Cláudia Rafael de Oliveira, vice-presidente da Cufa, a perda de renda dos moradores dessas comunidades pobres é decorrente do fato de que a maior parte dessas mulheres trabalha ou trabalhava como empregadas domésticas.

“E esse setor foi muito afetado por conta do isolamento social, fazendo com que muitas delas ficassem sem renda”, diz. “Muitas mulheres, mães, também precisaram ficar em casa por conta de seus filhos, que antes eram cuidados e alimentados nas creches, que também fecharam. Com a perda financeira, essas crianças também estão passando necessidade, não têm fralda, não têm alimentação básica.”

Cláudia atenta para o fato de que enquanto a preocupação da classe média é com o fato de os filhos estarem vendo muita televisão e exercitando-se menos, “a mãe da favela se preocupa com o que o filho vai comer ou não naquele dia”.

Moradora da favela Jardim Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, a ambulante Aparecida Vieira da Silva afirma que “ter comida na mesa é uma bênção de Deus”. O marido ficou desempregado por conta da pandemia. Ela tem dificuldade para vender seus produtos.

“A renda caiu muito. Deixamos de comer bem, e minhas contas, de água e de luz, estão todas atrasadas”, diz. Mãe de dois filhos — de 8 e 21 anos —, ela conta que o mais novo ficou sem estudar durante metade do ano passado. Para o ensino remoto, Aparecida emprestava o celular ao menino.  “Meu telefone quebrou, e ele ficou o resto do ano sem aulas”, conta.

Sobrecarga, estresse e depressão

De acordo com uma pesquisa realizada no ano passado pelas organizações Gênero e Número e Sempreviva Organização Feminista, 50% das entrevistadas disseram que passaram a se responsabilizar pelo cuidado de mais alguém depois do advento da covid-19. Quarenta e um por cento das mulheres afirmaram que o trabalho aumentou, e 40% das entrevistadas disseram que o sustento da casa ficou em risco.

Essa sobrecarga tem impactos na saúde. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), publicada mês passado, as mulheres são as que mais sofreram durante a pandemia — foram entrevistados 3 mil voluntárias. Dentre as participantes do sexo feminino, 40,5% apresentaram sintomas de depressão, 34,9%, de ansiedade e 37,3% de estresse.

Cientistas mulheres e o machismo estrutural

O impacto da covid-19 na sobrecarga de trabalho das mulheres não se restringe às classes sociais mais baixas. Criadora do projeto de pesquisa Parent in Science, a bióloga Fernanda Staniscuaski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) já vivenciava o fato de que a ascensão acadêmica das mulheres é mais difícil do que dos homens. E a pandemia escancarou essa situação.

“Nossos resultados mostram aquilo que sabemos desde sempre. As mulheres são as encarregadas e sobrecarregadas do cuidado. Seja da casa, dos filhos, dos idosos. Cuidar é tido em nossa sociedade como algo feminino. Na pandemia, o cuidado tomou o centro das nossas vidas. E isso impactou a produtividade das cientistas mulheres muito mais do que a dos homens”, diz.

“Com mais demandas em casa, as mulheres estão submetendo menos artigos e conseguindo cumprir menos prazos para pedidos de bolsas, financiamento, etc. Para as docentes, isto terá um impacto negativo muito grande na sua competitividade nos próximos anos”, comenta.“A pandemia impactou a produtividade das cientistas mulheres muito mais do que a dos homens”, diz a bióloga Fernanda Staniscuaski.

Pessoalmente, sua rotina também foi muito prejudicada. “Mudou tudo. Temos três filhos, meu marido também é docente pesquisador. Então tivemos que nos reorganizar para dar contas das demandas urgentes de trabalho e as urgentes de casa, como o ensino remoto dos filhos. Eles precisam de assistência em tempo integral”, conta.

“Conseguimos trabalhar apenas algumas horas por dia — e de madrugada. Muito complicado. Está tudo atrasado, sempre. Mas temos muito privilégios quando pensamos na situação da população do Brasil como um todo. Então, agora, é fazer o que dá dentro da nossa realidade”, afirma.

Professora da Faculdade de Ciências da Saúde do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, a fisioterapeuta Louisiana Carolina Ferreira de Meireles Moraes concorda.

“A pandemia piorou algo que já existia antes, que é o machismo estrutural, com a mulher acabando responsável pelo cuidado dos filhos e da casa. Agora o home office é a minha realidade e a da maioria das minhas colegas professoras e pesquisadoras. Mas além do trabalho acadêmico que já é super pesado, temos que lidar com a carga de trabalho doméstico e criação dos filhos que estão sem escola há um ano. Tem sido muito tenso”, conta.

Mãe de uma filha de 1 ano e meio, ela conta que tem feito um revezamento com o marido para os cuidados com a menina. Mesmo assim, não consegue dormir mais do que 5 horas por noite e está com artigos acadêmicos atrasados.

A geógrafa Talita Rondam Herechuk, professora da rede pública de ensino em Porto Alegre, vive sozinha com o filho de 6 anos e também se vê mais sobrecarregada do que nunca.

“A maternidade é vista como uma ‘opção’ individual, e geralmente a sobrecarga de trabalho recai sobre as mulheres, que são majoritariamente as responsáveis pelas atividades de cuidado dos filhos e demais membros da família”, diz.

“A pandemia, na minha opinião, veio visibilizar a inexistência de suporte institucional, social, político, econômico na vida acadêmica das mães cientistas e intensificou a sobrecarga de trabalho sobre nós”, afirma ela, que é doutoranda na UFRGS.

“[Desde que começou a pandemia] todos os dias eu desisto do doutorado e todos os dias eu volto a insistir”, resume ela. “Quantas outras mulheres mães que são pesquisadoras no Brasil estão na mesma condição de sobrecarga, colocando em risco a sua saúde mental e física e a de outros para ‘dar conta’ de coisas que deveriam estar sendo gerenciadas ou resolvidas pelo poder público neste momento da pandemia?”, questiona.

“Sinto como se eu fosse uma equilibrista de pratos. Tipo aquelas que vemos no circo. No entanto, sinto que estou equilibrando a vida, e os pratos são muitos pesados. Não quero perdê-los, mas as estratégias individuais estão escassas e necessitamos com urgência de estratégias coletivas de amparo às mães, não só as que são pesquisadoras, mas todas as mães brasileiras”, afirma.

Com dados da DW