Ministério da Saúde ignorou recomendação de trazer seringas por avião e trouxe por navio

Secretaria Executiva da pasta, comandada pelo oficial do Exército Élcio Franco, ignorou o alerta feito por parecer dos técnicos da Pasta e optou pela entrega da seringas por navio, em vez de avião.

O Ministério da Saúde não seguiu as orientações de técnicos da própria Pasta sobre a necessidade do Brasil adquirir seringas com entrega por frete aéreo para assegurar os insumos necessários à vacinação contra a Covid-19. A secretaria executiva do ministério, controlada pelo oficial do Exército Élcio Franco, ignorou o alerta e optou que a entrega fosse feita por via marítima, “mesmo cientes das diferenças quanto ao tempo de entrega”. Nesta quarta-feira (13), o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o Brasil não possui seringas suficientes para iniciar a vacinação.

Segundo reportagem do jornal O Globo a previsão é que as primeiras seringas entregues por via marítima, de 1,9 milhão de unidades, chegassem no dia 25 de janeiro. Um segundo lote seria entregue somente em março. Caso o material fosse transportado por via aérea, 20 milhões de seringas teriam sido entregues em dezembro do ano passado. O alerta sobre a diferença nos prazos foi comunicado  pela Organização Panamericana da Saúde (Opas) ao Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do ministério, em setembro de 2020. 

‘”[…] Os fornecedores cotados poderão iniciar as entregas de 20 milhões de unidades em dezembro de 2020, 17.256 milhões de unidades em janeiro de 2021 e 2.744 milhões de unidades em fevereiro de 2021 no valor total de US$ 4.679.406,76 (quatro milhões, seiscentos e setenta e nove mil, quatrocentos e seis dólares e setenta e seis centavos), já inclusos preços de produto, frete, seguro e taxa administrativa da Organização. Isto posto, este Departamento se posiciona favorável à continuidade desta aquisição, considerando o risco de não entrega das seringas pelo mercado nacional até dezembro 2020″’, destaca um trecho do documento, segundo a reportagem.

Ministério da Saúde pressiona Manaus a usar cloroquina contra COVID-19

Método chamado de ‘tratamento precoce’ não é recomendado pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)

Medicamentos sem comprovação científica, como ivermectina cloroquina, estão sendo indicados pelo Ministério da Saúde para o chamado “tratamento precoce” contra o novo coronavírus, mesmo com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) contestando esse tipo de tratamento. A Prefeitura de Manaus, capital do Amazonas, foi quem recebeu a “indicação”.

A informação é da Folha de São Paulo. A pasta ainda pediu autorização para fiscalizar as Unidades Básicas de Saúde como forma de “encorajar” esse tipo de tratamento.

A ideia da visita, que seria iniciada nesta segunda-feira (12/01), é de “que seja difundido e adotado o tratamento precoce como forma de diminuir o número de internamentos e óbitos decorrentes da doença”.
“Aproveitamos a oportunidade para ressaltar a comprovação científica sobre o papel das medicações antivirais orientadas pelo Ministério da Saúde, tornando, dessa forma, inadmissível, diante da gravidade da situação de saúde em Manaus a não adoção da referida orientação”, continua documento enviado à Prefeitura de Manaus, mesmo sem comprovação de autoridades científicas.
Segundo dados divulgados nessa segunda-feira (11/01) pelo Ministério da Saúde, o Brasil tem 8,13 milhões de casos de COVID-19, com 203,5 mil mortes.

Amazonas está vivendo as consequências das aglomerações em festas de fim de ano, alerta imunologista

Nos últimos 14 dias, o Amazonas viu alta de 72% nas contaminações e 80% nas mortes causadas pela covid-19 no estado.

De acordo com o ministro, entre as iniciativas estão a reorganização do atendimento nos postos de saúde e hospitais, o recrutamento de profissionais de saúde e a abertura de leitos de UTI. Além dessas medidas, informou que haverá envio de equipamentos, insumos e medicamentos. O evento foi realizado no Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques.

“Minha posição aqui é de apoio. Eu sou o apoio, vou apoiá-los com minhas equipes, com tudo que vocês precisarem. E com o conhecimento que adquirimos ao longo do último ano”, disse Pazuello.
O ministro participou da entrega de dez leitos de UTI e 118 leitos clínicos no Hospital Universitário Getúlio Vargas, em Manaus.

Para o especialista em bioquímica e imunologia, Marco Antonio Stephano, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), a ajuda do governo federal ao Amazonas é positiva, mas não deve suprir totalmente as necessidades do estado neste momento.

“Não é suficiente porque os casos estão muito mais altos do que isso. Essa alta é uma consequência das festas. Passamos nove dias do fim das festas de Ano Novo e nós estamos vendo os casos subirem”, afirmou à agência de noticias Sputnik Brasil.

Em todo o Amazonas, os hospitais tanto da rede pública quanto da rede privada encontram-se com mais de 90% dos leitos ocupados, sejam normais ou de UTI.

Para Pazuello, o sistema de saúde amazonense precisa focar em diminuir a entrada de outras doenças nos hospitais. “Precisam ser tomadas medidas para diminuir a entrada nos hospitais de outras doenças, acidentes, assaltos e tiroteios. Nós temos que tentar diminuir a entrada [dessas outras doenças], porque a entrada da covid-19 a gente não domina”, disse o ministro.

Segundo Stephano, a fala do ministro é correta e o estado precisa suspender as cirurgias eletivas.

“Uma vez que as UTIs estão lotadas, você não vai fazer uma cirurgia que pode dar errado e que corre o risco de ter que colocar um paciente em UTI sem ter vaga para ele. Você acaba provocando duas mortes: a da pessoa com covid-19 e a da pessoa que está passando por uma cirurgia eletiva”, explicou.

‘Aplicativo não deve substituir médico’

Durante o evento, o Ministério da Saúde lançou o aplicativo TrateCov, ferramenta que vai implantar um novo método científico para detectar casos de covid-19 nos postos de saúde.

Sem dar muitos detalhes, o governo federal informou que o aplicativo vai utilizar “um protocolo clínico para fazer um diagnóstico rápido da doença”. Manaus será a primeira cidade brasileira a testar o TrateCov.

Stephano alertou que a novidade pode ser uma importante ferramenta para passar informações corretas aos pacientes, mas que não deve substituir a consulta médica.

“Em função dos sintomas que estão sendo apresentados, você pode ter uma perspectiva se deve procurar um médico ou não, mas um aplicativo não substitui um médico”, comentou.

Para o professor da USP, o TrateCov pode ter efeito de tranquilizar um paciente ao passar as informações corretas sobre a doença.

“O aplicativo, o atendimento e as informações tranquilizam o paciente. Isso vale a pena. Você ter com quem entrar em contato, com quem conversar, alguém que vai te passar a informação correta. Existe muita informação falsa, existe muita fake news”, disse.

‘Manaus deve abrir covas coletivas para as vítimas da covid-19’
Entre abril e junho, o maior cemitério público de Manaus teve caixões enterrados, empilhados e em valas comuns por conta do colapso do sistema funerário causado pelo novo coronavírus. Na época, o número de mortes ficou 108% acima da média histórica.

Manaus registrou 130 enterros apenas no último sábado (9). O recorde foi no dia 26 de abril, quando 140 pessoas foram sepultadas.

O imunologista lembrou que muitas estruturas que foram montadas provisoriamente no Amazonas durante o primeiro pico da covid-19 no estado acabaram sendo desmontadas, mas podem ser instaladas novamente.

“Manaus tem condições de abrir covas coletivas como já abriu no passado — começar a fazer isso tudo novamente. O que vai acontecer são enterros rápidos, sem velório, só com a família”, disse.

O prefeito de Manaus (AM), David Almeida (Avante), decretou na semana passada estado de emergência na cidade por 180 dias para tentar conter o aumento do número de casos de covid-19.

Apesar da recente alta no número de sepultamentos, Marco Antonio Stephano acredita que o sistema funerário do estado não vai entrar em colapso total novamente.

“Colapso total [no sistema funerário] eu não acredito que vá acontecer, porque isso consegue ser revertido de uma forma mais rápida. Mas você vai ter que implantar câmaras frigoríficas para manter esses cadáveres, até que seja feita a liberação do corpo, o diagnóstico correto, e tudo isso”, analisou.

O secretário Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) de Manaus, Sabá Reis, em entrevista ao portal G1, afirmou nessa segunda-feira (11) que a cidade não vai ter enterros em valas comuns e anunciou a construção de mais 22 mil lóculos, estruturas verticais popularmente conhecidas como “gavetas”, nos cemitérios da cidade. (com agência Sputnik Brasil)

América Latina reage à alta da covid-19, mas Brasil segue inerte

Janeiro trouxe uma escalada de novos casos de covid-19 na América Latina.

Ainda não está claro se este é o início de uma segunda onda ou um agravamento da primeira após algumas semanas de trégua. Enquanto a região espera a chegada das primeiras doses da vacina —só Argentina, México, Chile e Costa Rica iniciaram campanhas de imunização—, a solução à disposição continua sendo a quarentena.

Os Governos, no entanto, terão que enfrentar a resistência social a novos confinamentos. Federico Rivas Molina e Sonia Corona contam como Buenos Aires estuda um “toque de recolher sanitário” e a Cidade do México fechou atividades não essenciais diante do aumento do número de leitos de UTI ocupados, mas nada fez o Brasil. Apesar dos números em alta e do atraso na vacinação, a maioria das autoridades brasileiras segue inerte.

Nos Estados Unidos, a jornada desta quarta-feira se adivinha wagneriana. Um grupo de senadores e congressistas republicanos planeja torpedear a certificação do democrata Joe Biden como vencedor das eleições presidenciais, prevista para ocorrer em uma sessão bicameral no Capitólio. A investida não tem perspectiva de se traduzir em nada mais do que uma manifestação da polarização.

Trump manteve o clima de tensão no ar, desta vez mirando seu número dois, o vice-presidente Mike Pence, que deve presidir a cerimônia. O nova-iorquino pediu que Pence use seu posto para impedir a confirmação de Biden, algo que não pode fazer.

Enquanto Trump se dedica a manobras sem efeito, o Estado da Geórgia define a margem de manobra que Biden terá sobre o Senado. O democrata já avançou com a vitória de Raphael Warnock em uma das duas vagas — o pastor evangélico fez história ao se tornar o primeiro senador negro a ser eleito neste Estado sulista. Se o outro candidato democrata vencer, o Senado ficará formado por 50 republicanos e 50 democratas (incluindo dois independentes), mas a próxima vice-presidenta, Kamala Harris, exercerá o voto decisivo nos casos de empate.

Em Brasília, o único tema é a sucessão no comando do Congresso, especialmente na Câmara dos Deputados. Com o objetivo de conter Jair Bolsonaro, a esquerda se aliou ao candidato do atual presidente, Rodrigo Maia, o deputado Baleia Rossi, um dos articuladores do impeachment de Dilma em 2016, contra o candidato do Planalto, Arhur Lira, explica Afonso Benites. Baleia Rossi formaliza nesta quarta sua candidatura. Para o cientista político Cláudio Couto, o apoio representa a tentativa de manter os Poderes independentes. “É uma aliança visando estabelecer a independência do Legislativo, ainda mais diante dos arroubos autoritários do Bolsonaro. Se ele se comportou até aqui dessa forma tendo o Congresso independente, imagina se não o tivesse”, avalia.

E a Rússia deu adeus a George Blake ao som do hino nacional e com as salvas da guarda nacional de honra. O legendário espião britânico, que trabalhou para a União Soviética na época culminante da Guerra Fria, antes de ser descoberto, condenado e de protagonizar uma fuga cinematográfica em 1966, recebeu na quarta-feira uma despedida notável. De Moscou, María R. Sahuquillo escreve sobre a morte do mítico agente duplo marca o ocaso de uma época de espionagem em que o fator humano era decisivo.

Apple remove aplicativo que promove festas secretas durante a pandemia de covid-19

O aplicativo Vybe Together afirma que organiza festas secretas todos os fins de semana

Um aplicativo americano que promovia festas privadas durante a pandemia de covid-19 foi removido da Apple App Store, loja de aplicativos da empresa de tecnologia.

O Vybe Together se autodenomina uma “comunidade privada para encontrar, participar e hospedar festas”.

Um vídeo recente em sua conta na rede social TikTok afirmava que a ferramenta organizava festas privadas todos os fins de semana.

Embora sua conta na plataforma, assim como seu próprio site, tenham sido retirados, a empresa promete retornar às atividades.

“A App Store nos derrubou! Nós voltaremos! Siga para se manter atualizado!”, afirmou a empresa na descrição de sua conta no Instagram.
Como funciona
Os usuários do aplicativo precisavam enviar um perfil para aprovação, incluindo o identificador do Instagram, bem como fotos “festejando”, relatou o portal de notícias The Verge.

Uma vez ativado, os usuários poderiam se inscrever para participar de festas. E sua participação seria aprovada pelos organizadores.

Os candidatos aprovados recebem um endereço apenas duas horas antes do evento.

Um representante do aplicativo disse ao The Verge que a ferramenta tinha alguns milhares de usuários.

“Algumas pessoas terríveis criaram um aplicativo para encontrar e promover grandes festas secretas e inseguras e estão usando o TikTok para comercializá-lo para milhões de pessoas”, tuitou o repórter do New York Times Taylor Lorenz, compartilhando imagens de um vídeo promocional do aplicativo divulgado no TikTok.

O vídeo mostrava pessoas dançando e anunciava uma festa de Ano Novo em Nova York.

Mas em Nova York as reuniões internas e externas são limitadas a 10 pessoas, e os bares e restaurantes estão fechados.

TikTok removeu este vídeo que anunciava uma festa de Ano Novo em Nova York

O TikTok disse que a conta foi removida por violar as diretrizes da comunidade. O perfil tinha apenas 139 seguidores e três vídeos.

No entanto, uma página em seu site, agora removido, afirmava: “Estamos cientes de que a covid é um grande problema de saúde… Fazer festas em grande escala é muito perigoso. É por isso que não apoiamos isso.”

“Mas Vybe é um meio-termo, sem grandes festas, mas pequenas reuniões. Poderíamos estar vivendo, pelo menos um pouco durante esses tempos, com Vybe.”

O que se sabe sobre a nova variante do coronavírus que levou a novo lockdown na Inglaterra

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A Inglaterra implementou novas restrições após descoberta de variente do coronavírus

Autoridades da União Europeia (UE) estão discutindo uma resposta conjunta a uma nova variante do Sars-CoV-2 que é mais infecciosa e foi detectada no Reino Unido.

Mais de 40 países já fecharam suas fronteiras com o país até o momento, por receio da disseminação da nova variante.

Um aumento de casos de coronavírus no sudeste e leste inglês, incluindo Londres, está ligado à disseminação desta nova variante — embora ela já seja encontrada em todo o país, de acordo com o governo britânico.

Isso fez com que o primeiro-ministro Boris Johnson anunciasse medidas mais rígidas de isolamento para 20 milhões de pessoas na Inglaterra e em todo o País de Gales.

A nova variante, surgida após mutações, se tornou a forma mais comum do vírus em algumas partes da Inglaterra em questão de meses. O governo britânico diz que há motivos para acreditar que ela seja bem mais contaminante, possivelmente 70% mais transmissível.

O estudo dessa nova forma do coronavírus ainda está em um estágio inicial, contém grandes incertezas e uma longa lista de perguntas sem resposta.

Os vírus sofrem mutações o tempo todo e é vital entender se essas mutações estão ou não mudando o comportamento do vírus e alterando a doença. Essa variante específica está causando preocupação por três motivos principais:

• Ela está substituindo rapidamente outras versões do vírus

• Ela possui mutações que afetam partes do vírus que são provavelmente importantes

• Já se verificou em laboratório que algumas dessas mutações podem aumentar a capacidade do vírus de infectar células do corpo.

Tudo isso constrói um cenário preocupante, mas ainda não há certeza. Novas cepas podem se tornar mais comuns simplesmente por estarem no lugar certo na hora certa — como a cidade de Londres, que tinha poucas restrições até recentemente.

“Experimentos de laboratório são necessários, mas é desejável esperar semanas ou meses para ver os resultados e tomar medidas para limitar a propagação? Provavelmente não nessas circunstâncias”, diz Nick Loman, professor do Instituto de Microbiologia e Infecção da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, que defende as restrições para tentar conter essa versão do vírus.

Quão rápido ela está se espalhando?

Essa cepa foi detectada pela primeira vez em setembro. Em novembro, cerca de um quarto dos casos em Londres eram causados por essa nova variante, aumentando para quase dois terços dos casos em meados de dezembro.

Pesquisadores têm calculado a dispersão de diferentes variantes na tentativa de estabelecer o quão infecciosas elas são. Mas separar o que é devido ao comportamento das pessoas e o que é devido ao vírus é difícil.

O dado citado pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, é que a variante pode ser até 70% mais transmissível — é um dado que havia aparecido em apresentação do pesquisador Erik Volz, do Imperial College de Londres, na sexta-feira.

Durante a palestra, ele disse: “É realmente muito cedo para dizer… Mas pelo que vimos até agora, está crescendo muito rapidamente, está crescendo mais rápido do que [uma variante anterior] jamais cresceu. É importante ficar de olho.”

Não há um número “certeiro” de quão mais infecciosa pode ser essa variante. Números muito mais altos e muito mais baixos do que 70% estão aparecendo em pesquisas ainda não publicadas integralmente.

Inclusive ainda há dúvidas se essa versão é realmente mais infecciosa.

“A quantidade de evidências em domínio público é inadequada para chegar a conclusões firmes sobre se o vírus realmente aumentou sua transmissibilidade”, diz o virologista Jonathan Ball, professor da Universidade de Nottingham.

Ao se replicar, os vírus geram mutações ou erros na sequência dos compostos representados pelas letras ‘a’, ‘g’, ‘c’, ‘u’

Como ela surgiu e se espalhou?

Acredita-se que a variante surgiu em um paciente no Reino Unido ou foi importada de um país com menor capacidade de monitorar as mutações do coronavírus.

Atualmente, ela pode ser encontrada em todo o Reino Unido, exceto na Irlanda do Norte, e está fortemente concentrada em Londres, sudeste e leste da Inglaterra. Os casos em outras partes do país não parecem ter decolado.

Dados da Nextstrain, que monitora os códigos genéticos das amostras virais em todo o mundo, sugerem que casos com essa variante na Dinamarca e na Austrália vieram do Reino Unido. A Holanda também relatou casos.

Uma variante semelhante que surgiu na África do Sul compartilha algumas das mesmas mutações, mas parece não estar relacionada a esta.

Isso já aconteceu antes?

Sim. O vírus que foi detectado pela primeira vez em Wuhan, China, não é o mesmo que você encontrará na maioria dos cantos do mundo.

A mutação D614G surgiu na Europa em fevereiro e se tornou a forma globalmente dominante do vírus. Outra, chamada A222V, se espalhou pela Europa e estava ligada às férias de verão na Espanha.

O que sabemos sobre as novas mutações?
Uma análise inicial da nova variante foi publicada e identifica 17 alterações potencialmente importantes.

Houve mudanças na proteína spike — que é a “chave” que o vírus usa para abrir a porta de entrada nas células do nosso corpo e sequestrá-las. A mutação N501 altera a parte mais importante do spike, conhecida como “domínio de ligação ao receptor”. É aqui que o spike faz o primeiro contato com a superfície das células do nosso corpo. Quaisquer alterações que tornem mais fácil a entrada do vírus provavelmente serão uma vantagem para o patógeno.

“Parece ser uma adaptação importante”, disse Loman.

A outra mutação — batizada de H69/V70 — apareceu algumas vezes antes, incluindo nos visons infectados na Dinamarca.

A preocupação era que os anticorpos do sangue daqueles que sobreviveram ao novo coronavírus fossem menos eficazes na defesa contra a nova variante do vírus. Mais uma vez, serão necessários mais estudos de laboratório para realmente entender o que está acontecendo.

O trabalho de Ravi Gupta, professor da Universidade de Cambridge, sugeriu em laboratório que essa mutação aumenta em duas vezes a capacidade do vírus de infectar células.

“Estamos preocupados, a maioria dos cientistas está preocupada”, diz Gupta.

Isso torna a infecção mais mortal?

Ainda não há evidências de que a variante seja mais mortal, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, mas governos e pesquisadores estão monitorando a questão.

Em uma entrevista coletiva posterior à fala de Ghebreyesus, Michael Ryan, diretor do programa de emergências da OMS, afirmou que a nova variante não representa uma situação “fora de controle”, pois a taxa de reprodução do vírus já foi bem maior em outros momentos da pandemia. Entretanto, ele reconheceu que as medidas preventivas decididas pelos países em resposta à cepa encontrada no Reino Unido são “prudentes”.

No momento, apenas ser mais transmissível já seria suficiente para a variante causar problemas nos hospitais. Se pessoas forem infectadas mais rapidamente, mais pessoas vão precisar de tratamento hospitalar em menos tempo.

Com a chegada das vacinas, o coronavírus sofrerá uma pressão natural para mutar a fim de infectar pessoas imunizadas, como ocorre com a gripe

As vacinas funcionarão contra a nova variante?
Acredita-se que sim, pelo menos por enquanto.

Mutações na proteína spike levantam perguntas porque as três principais vacinas — Pfizer, Moderna e Oxford — treinam o sistema imunológico para atacar a proteína spike.

No entanto, o corpo aprende a atacar várias partes dessa proteína. É por isso que as autoridades de saúde continuam convencidas de que a vacina funcionará contra essa nova variante.

“Mas se deixarmos essa variante se espalhar e sofrer mais mutações, isso pode se tornar preocupante”, diz Gupta. “Este vírus está potencialmente em vias de se tornar resistente à vacina, ele deu os primeiros passos nesse sentido.”

O vírus consegue se tornar resistente à vacina quando, ao mudar de formato, se esquiva dos efeitos da imunização e continua a infectar as pessoas.

O coronavírus evoluiu em animais e passou a infectar os humanos há cerca de um ano. Desde então, tem passado por quase duas mutações por mês — entre uma amostra colhida hoje e as primeiras da cidade chinesa de Wuhan há cerca de 25 mutações.

Ao longo de sua trajetória, o coronavírus ainda está “testando” diferentes combinações de mutações para infectar humanos de maneira adequada. Já vimos isso acontecer antes: o surgimento e o domínio global de outra variante (G614) é visto por muitos como o momento em que o vírus aprimorou sua capacidade de se espalhar.

Mas logo a vacinação em massa colocará um tipo diferente de pressão sobre o vírus, porque ele terá que mudar para infectar as pessoas que foram imunizadas. Se isso impulsionar a evolução do vírus, talvez tenhamos de atualizar regularmente as vacinas, como fazemos anualmente com a gripe sazonal, para manter o ritmo.

Segundo Anderson Brito, virologista do departamento de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, “os coronavírus evoluem principalmente por substituições de nucleotídeos” e “não fazem rearranjos genômicos como o vírus da gripe”.

“Mas, e as vacinas? Provavelmente serão efetivas por mais de um ano”, escreveu em seu perfil no Twitter.

‘Não temos nada a esconder’: cientista estrela de Wuhan convida OMS para visitar laboratório no centro de polêmica por origem de coronavírus

Virologista chinesa Shi Zhengali aceitou visita da OMS a seu laboratório GETTY IMAGES

A cientista Shi Zhengli disse à BBC estar disposta a abrir as portas do polêmico laboratório na cidade chinesa de Wuhan para descartar as alegações de que foi lá que o coronavírus foi criado.

A declaração ocorre quando uma equipe da Organização Mundial da Saúde (OMS) se prepara para viajar a Wuhan em janeiro para fazer pesquisas sobre as origens do vírus SARS-CoV-2.

O remoto distrito de Tongguan, na província de Yunnan, sudoeste da China, é, na melhor das hipóteses, de difícil acesso. Quando tentamos visitá-lo recentemente, não conseguimos.

Policiais à paisana e em carros não identificados nos seguiram por quilômetros ao longo de estradas estreitas e acidentadas, parando quando parávamos e nos acompanhando quando fomos forçados a dar meia-volta.

Encontramos obstáculos em nosso caminho, incluindo um caminhão “quebrado”, que os moradores confirmaram ter sido colocado do outro lado da estrada alguns minutos antes de nossa chegada.

E nos deparamos com postos de controle onde homens não identificados nos disseram que seu trabalho era nos manter distantes dali.

À primeira vista, tudo isso pode parecer um esforço desproporcional dado o nosso destino pretendido, uma mina de cobre abandonada e indefinida onde, em 2012, seis trabalhadores sucumbiram a uma doença misteriosa que acabou ceifando a vida de três deles.

Mas a pandemia de covid-19 deu um novo significado a essa tragédia, que quase certamente teria sido amplamente esquecida.

Essas três mortes estão agora no centro de uma grande controvérsia científica sobre as origens do vírus e a questão de saber se ele veio da natureza ou de um laboratório.

E as tentativas das autoridades chinesas de nos impedir de chegar ao local são um sinal de como estão se empenhando para controlar a narrativa.

BBC encontrou estradas “bloqueadas” na China.

Estudo de campo

Por mais de uma década, as colinas cobertas de selva de Yunnan e os sistemas de cavernas dentro delas têm sido o foco de um gigantesco estudo de campo científico.

O estudo foi conduzido pela professora Shi Zhengli, do Instituto de Virologia de Wuhan (IVW).

A professora Shi foi elogiada internacionalmente por sua descoberta de que a doença conhecida como SARS, que matou mais de 700 pessoas em 2003, foi causada por um vírus que provavelmente veio de uma espécie de morcego em uma caverna de Yunnan.

Desde então, a professora Shi, conhecida como a “Mulher-morcego da China”, tem estado na vanguarda de um projeto para tentar prever e prevenir novos surtos desse tipo.

Ao capturar morcegos, retirar amostras de fezes deles e, em seguida, levar essas amostras para o laboratório em Wuhan, a 1,6 mil quilômetros de distância, a equipe por trás do projeto identificou centenas de novos coronavírus em morcegos.

Mas o fato de Wuhan agora abrigar o principal centro de pesquisa de coronavírus do mundo, bem como ser a primeira cidade atingida por um surto de uma nova e mortal pandemia, alimentou as suspeitas de que esses dois elementos pudessem estar conectados.

‘Boas-vindas’

O governo chinês, o IVW e a professora Shi rejeitaram fortemente a acusação de que o vírus chamado de SARS-CoV2 causador da covid-19 tenha saído do laboratório de Wuhan.

Mas com a chegada de cientistas indicados pela OMS para visitar Wuhan em janeiro para uma investigação sobre a origem da pandemia, a professora Shi, que pouco falou com a imprensa, respondeu a uma série de perguntas da BBC por email.

“Entrei em contato com os especialistas da OMS duas vezes”, escreveu ela, quando questionada se uma investigação poderia ajudar a descartar um vazamento de laboratório e acabar com as especulações. “Expressei pessoal e claramente que gostaria de recebê-los em uma visita ao IVW”, disse.

Questionada se isso incluiria uma investigação formal com acesso aos registros de laboratório do IVW e dados experimentais, ela afirmou: “Aceitaria pessoamente qualquer forma de visita baseada em um processo aberto, transparente, confiável e de diálogo razoável. Mas o plano específico não é minha decisão.”

Posteriormente, a BBC recebeu uma ligação da assessoria de imprensa do IVW, dizendo que a professora Shi estava falando a título pessoal e que suas respostas não haviam sido aprovadas pelo IVW.

A BBC rejeitou o pedido de enviar uma cópia desta reportagem com antecedência.

‘Teoria da conspiração’

Muitos cientistas acreditam que o cenário mais provável é que o SARS-Cov-2 saltou naturalmente dos morcegos para os humanos, possivelmente através de uma espécie intermediária.

E apesar da oferta da professora Shi, por enquanto parece haver pouca chance de que a OMS investigue a teoria de que o vírus saiu do laboratório.

GETTY IMAGES – Mercado de Huanan, em Wuhan, foi associado aos primeiros casos de coronavírus

Os termos de referência de pesquisa da OMS não mencionam a teoria e alguns membros da equipe de 10 pessoas praticamente a descartaram.

Peter Daszak, zoólogo britânico, foi escolhido como parte da equipe devido ao seu papel de liderança em um projeto internacional multimilionário para colher amostras de vírus selvagens.

Esse projeto envolveu uma estreita colaboração com a professora Shi Zhengli em sua amostragem em massa de morcegos na China, e Daszak já havia se referido à teoria de fuga de laboratório como uma “teoria da conspiração” e como “um absurdo absoluto”.

“Ainda não vi nenhuma evidência de vazamento de laboratório ou envolvimento de laboratório neste surto”, disse ele.

“Tenho visto evidências substanciais de que esses são fenômenos naturais causados pela invasão humana no habitat da vida selvagem, que é claramente observada no sudeste da Ásia.”

Quando questionado sobre ter acesso ao laboratório de Wuhan para descartar a teoria do vazamento de laboratório, ele diz: “Não é meu trabalho fazer isso.”

“A OMS negociou os termos de referência e dizem que vamos seguir as evidências e é isso que temos que fazer”, acrescentou.

O foco da investigação será um mercado em Wuhan que era conhecido pelo comércio de animais selvagens e estava relacionado a uma série de casos iniciais, embora as autoridades chinesas pareçam ter descartado esse mercado como fonte do vírus.

Daszak diz que a equipe da OMS “examinará esses grupos de casos, examinará os contatos, verá de onde vieram os animais do mercado e verá aonde isso nos leva”.

Relação com vírus RaTG13

A morte dos três trabalhadores de Tongguan após a exposição em um poço de extração cheio de morcegos levantou suspeitas de que eles tivessem sucumbido a um tipo de coronavírus transmitido por esse animal.

Foi exatamente o tipo de “derramamento” – passagem – de animal para humano que estava levando o IVW a colher mostras de morcegos em Yunnan.

GETTY IMAGES – China impôs fortes restrições a Wuhan para deter o vírus

Não é de se surpreender que, após essas mortes, os cientistas do IVW começaram a coletar amostras de morcegos na mina de Tongguan, fazendo várias visitas nos três anos seguintes e detectando 293 coronavírus.

Mas, além de um pequeno artigo, muito pouco foi publicado sobre os vírus que coletaram nessas viagens.

Em janeiro deste ano, a professora Shi Zhengli se tornou uma das primeiras pessoas no mundo a sequenciar a SARS-Cov-2, que já se espalhava rapidamente pelas ruas e casas de sua cidade.

Ele então comparou a longa sequência de letras que representam o código genético único do vírus com o extenso registro de outros vírus coletados e armazenados ao longo dos anos.

E descobriu que o banco de dados continha o parente mais próximo conhecido do SARS CoV-2: o RaTG13.

O RaTG13 é um vírus cujo nome deriva do morcego do qual foi extraído (Rhinolophus affinis, Ra), do local onde foi encontrado (Tongguan, TG) e do ano em que foi identificado, 2013.

Sete anos depois de ser encontrado naquela mina, RaTG13 estava prestes a se tornar um dos assuntos científicos mais polêmicos de nosso tempo.

Possibilidade descartada

Houve muitos casos bem documentados de vírus escapando de laboratórios.

O primeiro vírus da SARS, por exemplo, vazou duas vezes do Instituto Nacional de Virologia de Pequim em 2004, muito depois de o surto ter sido controlado.

GETTY IMAGES – Médicos e cientistas lutaram para conter pandemia em Wuhan

A prática de manipular geneticamente os vírus também não é nova, permitindo aos cientistas torná-los mais infecciosos ou mortais, para que possam avaliar a ameaça e, talvez, desenvolver tratamentos ou vacinas.

E desde o momento em que foi isolado e sequenciado, os cientistas ficaram surpresos com a notável capacidade do SARS-Cov-2 de infectar humanos.

A possibilidade de adquirir essa habilidade como resultado da manipulação em um laboratório foi levada a sério o suficiente para que um grupo influente de cientistas internacionais a investigassem.

O RaTG13 desempenha um papel importante no que se tornou o artigo definitivo que exclui a possibilidade de um vazamento de laboratório.

Publicado em março na revista Nature Medicine, ele sugere que, se houvesse um vazamento, a professora Shi Zhengli teria encontrado uma correspondência muito mais próxima em seu banco de dados do que o RaTG13.

Embora o RaTG13 seja o parente mais próximo conhecido, com 96,2% de similaridade, ainda está muito longe para ter sido manipulado e transformado em SARS-Cov-2.

Era provável que o SARS-Cov-2, concluíram os autores, teria ganhado sua eficiência única por meio de um longo período de circulação não detectado em humanos ou animais de um vírus precursor natural e mais brando que eventualmente evoluiu para o potente e mortal identificado pela primeira vez em Wuhan em 2019.

No entanto, alguns cientistas estão começando a se perguntar onde estão os reservatórios de uma infecção natural anterior.

Busca por vírus precursores

Daniel Lucey é médico e professor de doenças infecciosas no Georgetown Medical Center em Washington DC e um veterano de muitas pandemias: SARS na China, Ebola na África, Zika no Brasil.

Daniel Lucey diz acreditar que SARS-CoV-2 provavelmente surgiu naturalmente, mas não quer descartar outras possibilidades

Ele tem certeza de que a China já realizou pesquisas extensas por evidências de vírus precursores em amostras humanas armazenadas em hospitais e em populações de animais.

“Eles têm a habilidade, os recursos e a motivação, então é claro que fizeram estudos com animais e humanos”, diz ele.

Encontrar a fonte de um surto é vital, acrescenta Lucey, não apenas para uma compreensão científica mais ampla, mas também para evitar que ele ressurja.

“Devíamos pesquisar até encontrar. Acho que pode ser encontrado e acho muito possível que já tenha sido encontrado”, diz. “Mas então surge a pergunta, por que não foi revelado?”

Lucey diz acreditar que o SARS-Cov-2 provavelmente surgiu naturalmente, mas não quer descartar outras possibilidades.

“Então, aqui estamos, 12, 13 meses após o primeiro caso reconhecido de covid-19 e não encontramos a origem animal”, diz ele. “Então, para mim, é mais um motivo para investigar explicações alternativas.”

Um laboratório chinês poderia ter um vírus geneticamente mais próximo do SARS-Cov-2? E eles nos diriam agora se o fizessem? “Nem tudo o que é feito é publicado”, diz Lucey.

Legenda da foto,Peter Daszak diz não ter visto nenhuma evidência de que o que aconteceu foi um vazamento de um laboratório

Essa é uma pergunta que fiz a Peter Daszak, membro da equipe da OMS para o estudo das origens do vírus.

“Trabalho com o IVW há uma década ou mais”, diz ele. “Conheço algumas pessoas de lá muito bem e tenho visitado os laboratórios com frequência, encontrando-me e jantando com eles por 15 anos.”

“Estou trabalhando na China com meus olhos bem abertos e estou quebrando minha cabeça no tempo em busca do menor indício de algo estranho. E eu nunca vi isso”, acrescenta.

Quando questionado se essas amizades e relações de financiamento com o IVW representavam um conflito de interesses por seu papel na investigação, ele diz: “Nossos documentos estão arquivados; tudo está à vista de todos”.

“Isso me torna uma das pessoas no planeta que mais sabe sobre as origens desses coronavírus de morcegos na China”, acrescenta, sobre sua colaboração com o IVW.

A China pode ter fornecido apenas dados limitados sobre sua busca pela origem do SARS-Cov-2, mas começou a promover uma teoria própria.

Com base em alguns estudos inconclusivos de cientistas europeus, sugerindo que a covid-19 pode ter circulado antes do que se pensava, a propaganda estatal está repleta de histórias que sugerem que o vírus não começou na China.

“Não temos nada a esconder”

Na ausência de dados adequados, é provável que as especulações aumentem, muitas das quais centradas no RaTG13 e suas origens em um poço de mineração Tongguan.

Desde a morte dos mineiros em Tongguan, os cientistas do IVW detectaram pelo menos 293 coronavírus

Artigos acadêmicos antigos foram desenterrados online e parecem diferir das declarações do IVW sobre mineiros doentes, incluindo uma tese de um estudante da Universidade do Hospital de Kunming.

“Acabei de baixar a tese de mestrado do aluno da Universidade do Hospital Kunming e li”, diz a professora Shi à BBC.

“A narrativa não faz sentido”, assinala. “A conclusão não é baseada em evidências ou lógica. Mas os teóricos da conspiração a usam para duvidar de mim. Se você fosse eu, o que faria?”, questiona.

A professora Shi também enfrentou dúvidas sobre por que o banco de dados de vírus online público IVW foi repentinamente retirado do ar.

Shi explica à BBC que o site do IVW e o trabalho da equipe e e-mails pessoais foram hackeados.

Por causa disso, diz ela, o banco de dados foi retirado do ar por motivos de segurança.

“Todos os resultados de nossas pesquisas são publicados em periódicos ingleses na forma de artigos”, destaca. “As sequências de vírus também são armazenadas no banco de dados GenBank (gerenciado pelos EUA). É completamente transparente. Não temos nada a esconder”, completa.

Mais obstáculos ao longo do caminho

Há perguntas importantes a serem feitas no interior de Yunnan, não apenas por cientistas, mas também por jornalistas.

Após uma década de amostragem e experimentação com vírus coletados de morcegos, sabemos agora que em 2013 foi descoberto o ancestral mais próximo conhecido de uma ameaça futura que ceifaria mais de 1 milhão de vidas e devastaria a economia global.

No entanto, o IVW, de acordo com informações publicadas, não fez nada com ele, exceto sequenciá-lo e inseri-lo em um banco de dados.

Isso deveria questionar a própria premissa em que se baseia a cara, e alguns diriam arriscada, amostragem em massa de vírus selvagens?

“Dizer que não fizemos o suficiente é absolutamente correto”, diz Peter Daszak à BBC. “Dizer que falhamos não é justo. O que deveríamos ter feito é trabalhar dez vezes com esses vírus.”

Tanto Daszak quanto a professora Shi insistem que a pesquisa sobre prevenção de pandemias é um trabalho vital e urgente.

“Nossa pesquisa é voltada para o futuro e é difícil para os não profissionais entenderem”, escreve Shi por e-mail. “Diante dos inúmeros microorganismos que existem na natureza, os humanos são muito pequenos”.

A OMS promete uma investigação de “mente aberta” sobre as origens do novo coronavírus, mas o governo chinês não está interessado em perguntas, pelo menos não de jornalistas.

Depois de deixar Tongguan, a equipe da BBC tentou dirigir algumas horas ao norte até a caverna onde a professora Shi realizou sua pesquisa inovadora sobre a SARS quase uma década atrás.

Ainda sendo seguidos por vários carros sem identificação, batemos em outro obstáculo e fomos informados de que não havia como passar por ele.

Algumas horas depois, descobrimos que o tráfego local havia sido desviado para uma estrada de terra que contornava o obstáculo, mas quando tentamos usar o mesmo caminho, encontramos outro carro “quebrado” em nosso caminho.

Ficamos presos em um campo por mais de uma hora, antes de sermos finalmente forçados a ir para o aeroporto.

Coronavírus na Antártica: base de pesquisa chilena relata 36 casos de covid-19

O coronavírus atingiu o continente Antártico, que até agora estava livre do covid-19.

O exército chileno registrou 36 casos na segunda-feira em sua estação de pesquisa Bernardo O’Higgins, na Península Antártica.

Os 36, dos quais 26 são militares e 10 trabalhadores da manutenção, foram evacuados para o Chile.

A notícia significa que agora todos os continentes registraram casos de covid-19.

O anúncio vem poucos dias depois que a Marinha do Chile confirmou três casos no navio Sargento Aldea, que havia levado suprimentos e pessoal para a estação de pesquisas.

O navio chegou à estação de pesquisa em 27 de novembro e navegou de volta ao Chile em 10 de dezembro.

Os três tripulantes deram positivo no retorno à base naval chilena em Talcahuano, no sul do país.
A Marinha do Chile disse que todos os que embarcaram na viagem à Antártica fizeram testes moleculares e que todos os resultados foram negativos.

Sexto país mais afetado

A estação de pesquisa Bernardo O’Higgins é uma das quatro bases permanentes que o Chile tem na Antártica e é operada pelo exército.

A representação chilena na Antártica toma medidas de prevenção do coronavírus desde março, como distanciamento social, uso de máscaras e suspensão das atividades.
Além disso, no final daquele mês, o pessoal que trabalhava temporariamente nas bases saiu.
Até esta terça-feira, o Chile era o sexto país da América Latina mais afetado pelo covid-19, com mais de 589.000 casos confirmados de coronavírus.

O Serviço Antártico Britânico anunciou em agosto que estava reduzindo sua investigação no pólo sul devido ao coronavírus.

Bolsonaro parece ter raiva dos mortos pela covid-19, afirma Mandetta


Mandetta considera gestão do governo desastrosa no combate à pandemia – Marcello Casal Jr./ABrMarcello Casal Jr./ABr

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta deu nota 3, de 0 a 10, para o governo Bolsonaro ao avaliar a condução do Executivo no enfrentamento da pandemia de covid-19. Em entrevista ao jornal O Globo, Mandetta disse que o presidente tem atuação desastrosa na crise, que demonstra mais apreço pela economia do que pela vida das pessoas e parece ter raiva dos brasileiros que perderam a vida para o vírus.

“O número de mortes fala por si. Ele (Bolsonaro) teve uma condução desastrosa. A desautorização do ministro em público, ‘manda quem pode e obedece quem tem juízo’; o ‘e daí?’; ‘não sou coveiro’; ‘gripezinha’; ‘está no final’. Está no final nada.

Se teve alguma coisa digna de nota eu não saberia te citar. Nós conseguimos ativar a indústria brasileira de respiradores, foi uma coisa que conseguimos fazer quando eu estava lá, conseguimos abrir 15 mil leitos de UTI, que é uma coisa positiva.

Agora, eles deixaram 7 milhões de kits no almoxarifado. O governo federal deixou as pessoas à própria sorte. Não vi nem sequer se solidarizar com quem perdeu um membro da família. É quase como se tivessem raiva das pessoas que morreram. Quem morreu é culpado.”

Para Mandetta, Bolsonaro militarizou o Ministério da Saúde e abriu uma crise tripla: “de prevenção, atendimento e vacina”. O ex-ministro considera que o titular da pasta, o general Eduardo Pazuello, não conhece nada da área.

“Ele falou várias vezes que entre a saúde e a economia, ele ia ficar com a economia. E a população começou a construir as suas linhas de defesa sem contar com a liderança da figura maior do governo. Vimos o Ministério da Saúde falando uma coisa e ele falando outra.

Ele começou a criticar todo e qualquer prefeito e governador que fizesse qualquer coisa para diminuir a velocidade de transmissão para não carregar o sistema de saúde, que era o principal problema da doença. Depois ele me troca, coloca um médico. É impossível para um médico com base científica fazer política de governo, firmar uma recomendação, uma prescrição médica.

Aí ele põe um militar para oferecer ordem. Faz uma intervenção militar na Saúde, mas um militar não tem a menor noção do que é Saúde. A gente passa a ter um governo federal que sai completamente do enfrentamento da Saúde e com o argumento de que o problema era de logística. Nunca foi, o problema era de Saúde pública, muito mais complexo do que carregar caixa para lá e para cá. E agora tem uma crise tripla, de prevenção, atendimento e vacina.

Mandetta, que foi demitido após confrontar o presidente ainda no início da pandemia, admite que esperava que o vírus não se propagaria de forma tão acelerada.

“Gostaria muito de ter tido melhor percepção, porque quando a China apresentou a doença, eles apresentaram como um vírus pesado, que se você identificasse a pessoa e bloqueasse os contatos dela, ele parava (de disseminar). A gente se preparou com essas informações para um vírus lento. Somente quando ele entrou na Itália, que fez aquele estrago no sistema italiano, e foi fazendo estrago na Inglaterra, na Espanha e se mostrou extremamente capaz de transmitir, é que vimos que estávamos diante de um vírus extremamente competente. Se eu soubesse que era um vírus tão competente em termos de transmissão, teria feito um sobredimensionament

Sem vacina, sem seringa, sem agulha e sem rumo

“Sem uma ação coordenada de todo o país, envolvendo medidas sincronizadas de isolamento social, bloqueio sanitário das rodovias e uma campanha nacional de vacinação, o Brasil não conseguirá derrotar a covid-19.” Miguel Nicolelis

Dezenas de pessoas caminham no centro de São Paulo no dia 18 de dezembro.SEBASTIAO MOREIRA / EFE

Apesar de assemelhar-se a um refrão de sucesso de carnavais passados, o título da minha última coluna de 2020 certamente não tem qualquer ambição de servir como inspiração para alguma futura marchinha carnavalesca. Pelo contrário, ao tentar reproduzir o estilo literário predileto do último astrofísico-poeta da humanidade, o persa Omar Khayan, que viveu entre os séculos XI e XII, esta quadra sem rima rica tem como propósito expor, de forma nua e crua, a situação trágica vivida pelo Brasil, depois de nove meses de uma pandemia que nunca esteve sob controle das autoridades governamentais e que ameaça atingir níveis ainda maiores de casos e óbitos nas próximas semanas.

Além dos quatro itens, que fazem parte da “Lista dos Sem”, como a batizei, eu poderia continuar enumerando outras várias razões que transformaram o Brasil num verdadeiro navio à deriva, uma nau “Sem capitão”; um barco gigantesco que, “Sem comando”, se contenta em vagar às cegas num vasto oceano viral, à mercê de ventos e correntes fatais, que ameaçam conduzir este nosso Titanic tupiniquim, depois da maior crise sanitária da nossa história, para dentro de um redemoinho que pode culminar na maior catástrofe socioeconômica jamais vivida abaixo da linha do equador.

O meu alarme decorre de uma simples análise de risco do cenário atual. Por exemplo, apesar de inúmeros avisos prévios, mesmo antes das festas de final e ano, o Brasil já sofre com uma nova explosão de casos e óbitos de covid-19. Esta escalada de casos, gerada pelo afrouxamento das medidas de isolamento social, abertura desenfreada do comércio e pelas aglomerações eleitorais, desencadeou uma segunda onda de superlotação hospitalar em todo país, com algumas capitais atingindo taxas de ocupação de leitos de UTI acima de 90%. Sem qualquer plano de comunicação de massa para alertar a população sobre os riscos que, em razão das aglomerações geradas no período das festas de final de ano, esta nação enfrentará uma explosão ainda maior de casos e óbitos, como ocorrido no período após o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos, quando o “Sem governo” ―ou seria (des)governo?― abandonou sua população à própria sorte. Não é à toa, portanto, que boa parte do país hoje se orienta através do último boato de Whatsapp a viralizar nas redes sociais. Acima de tudo, entre outros crimes lesa-pátria cometidos em 2020, há uma total falta de informações confiáveis e recomendações apropriadas para orientar a população em como proceder para se proteger contra o coronavírus, antes da chegada de uma vacina eficaz e segura.

Mas os absurdos não param aí. No país do “Sem a menor ideia”, técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU), depois de minuciosa auditoria, concluíram que não existe planejamento estratégico minimamente aceitável para a distribuição de equipamentos de proteção, kits de testes, bem como de seringas e agulhas, e de vacinas ―até mesmo porque ninguém sabe qual ou quais serão usadas― para todo o território nacional. Se tudo isso não fosse o suficiente para gerar alarme em Pindorama, mesmo depois de vários países terem proibido todos os voos, de passageiros e de carga, oriundos do Reino Unido, para evitar a propagação de uma nova cepa mais contagiosa de SARS-CoV- 2, que provocou o estabelecimento de novo lockdown na Inglaterra, o espaço aéreo brasileiro continua aberto, e nossos aeroportos continuam não checando os passageiros, permitindo desta forma que diariamente novos casos de viajantes infectados possam entrar no Brasil, sem qualquer tipo de controle sanitário.

Diante desta situação dantesca, o Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste publicou na última sexta-feira o seu Boletim de número 13. Nele, além da análise minuciosa da situação atual e futura de cada um dos Estados nordestinos, o comitê fez uma série de recomendações emergenciais para os nove governadores da região. Dentre elas, a mais urgente é a que os governadores nordestinos levem a seus colegas de todo o Brasil a proposta de criar, em caráter emergencial, uma Comissão Nacional de Vacinação, formada pelos principais especialistas na área, para atuar de forma independente do Ministério da Saúde e do Governo federal e criar um Plano Nacional de Imunização efetivo e seguro, a ser implementado em todo território nacional, através da ação conjunta de todos os Estados brasileiros. Esta proposta traz à luz do dia a verdade que ficou escondida em baixo do tapete durante todo o ano de 2020: sem uma ação coordenada de todo o país, envolvendo medidas sincronizadas de isolamento social, bloqueio sanitário das rodovias em todas as regiões do país, e uma campanha nacional de vacinação, o Brasil não conseguirá derrotar a covid-19 nem a curto prazo, nem a médio prazo. E o custo desta omissão será épico, em termos de centenas de milhares de vidas perdidas.

Depois de quase 200.000 mortes, não há mais nenhum tempo a perder se a sociedade brasileira deseja realmente evitar que no Natal de 2021 tenhamos mais de meio milhão de mortos como consequência daquela que já entrou para a história brasileira como a pandemia dos “Sem Noção”.

Miguel Nicolelis é um dos nomes com maior destaque na ciência brasileira nas últimas décadas devido ao trabalho no campo da neurologia, com pesquisas sobre a recuperação de movimentos em pacientes com deficiências motoras. Para a abertura da Copa de 2014, desenvolveu um exoesqueleto capaz de fazer um jovem paraplégico desferir o chute inicial do torneio. Incluiu recentemente à sua lista de atividades a participação no comitê científico criado pelos governadores do Nordeste para estudar a pandemia da covid-19. Twitter: @MiguelNicolelis