Liberdade Guiando o Povo,Repressão,Protestos,Passeatas,BlogdoMesquita 8x6

Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

Repressão,Protestos,Passeatas,BlogdoMesquita
Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

Chaplin,Ditador,Estado,Fascismo,Nazismo,Blog do Mesquita

A “direita de verdade”: lições aplicadas em deformação da história

15280620895b1460891c8ba_1528062089_3x2_rt

Caminhos e Quartéis

A paralisação dos caminhoneiros em 2018 forneceu um cenário perfeito para acertar alguns ponteiros. Houve muitas discussões sobre a natureza dessa paralisação (se foi um greve ou um locaute) e a clara tentativa de captura dessa movimentação por grupos de extrema-direita que clamam por um golpe militar – eufemisticamente chamado de intervenção.

Mas eu não vou falar sobre a paralisação em si, nem sobre a emergência, cada vez mais descarada, de gente tentando dar um golpe à direita. Recomendo aos ouvintes que escutem o Anticast #339, que tem um ótima discussão sobre combustíveis e a Petrobrás no contexto nacional e internacional, obrigado ao Thales Nogueira e ao Leandro Tavares e à Jaqueline Ganzert; o Política em Transe #14, onde o Rafael Saddi fala coisas muito interessantes sobre trabalho precarizado e sobre a experiência dele junto a um dos pontos de mobilização da greve; e finalmente, o Revolushow #18 onde o Zamiliano e a Marília Moscovitch discutem questões sobre greve e locaute e discutem também o legado de repressão aos movimentos grevistas durante a ditadura.

A paralisação deixa um monte de lições sobre o Brasil e nossa atuação situação política. Sobre o declínio de valores democráticos no cenário global e sobre a miopia de certas posturas diante de uma situação que exige mais política de Estado que qualquer outra coisa.

Mas ela também abriu cisões e discussões dentro da própria direita brasileira. Discussões sobre que variavam da defesa do funcionamento da Petrobras num molde estritamente compatível com o de uma companhia privada (mais comum entre os liberais), e outros defendendo que combustíveis em alto valor oneram o empresariado e seriam ruins. No meio disso tudo a direita nacionalista a lá Enéas Carneiro quase gritando “o petróleo é nosso” tentando capturar um discurso clássico nas esquerdas.

Bolsonaro deu apoio aos grevistas e chegou a prometer indulto a eles caso fosse eleito. Mais tarde voltou atrás, mas só depois de toda alta cúpula militar enviar mensagens nas quais demonstraram não ter desejo de corresponder aos anseios dos intervencionistas. Outros candidatos à direita variaram sua opinião Alvaro Dias, Geraldo Alckmin,

E aí logo se instaurou todo tipo de discussão. Apoiar grevista é coisa que um conservador deve fazer? Intervenção militar é coisa de coletivista? Um verdadeiro direitista não deveria dar mais crédito a Pedro Parente, suas políticas de preços aos preceitos do mercado?

E aqui, eu peço que o leitor me deixe fazer uma abstração, uma especulação. Eu não gosto de especular para produzir um argumento porque é uma tática fácil e preguiçosa. No entanto, par o ponto desse específico desse texto  eu peço licença para fazê-lo, especialmente diante do que nós vamos discutir a partir de agora.

Imaginem que num futuro próximo essa massa de bolsonaristas e viúvas da ditadura consegue instaurar um regime ditatorial no Brasil. Primeiro tentam guiar tudo com um ar de normalidade e depois, em nome da superioridade moral que defendem, esses grupos cometem crimes horrendos tanto com o aval do Estado quanto à revelia dele. Anos e pilhas de cadáveres depois, a ditadura acaba, e o Brasil – ou o que restou dele – entram novamente em vias de ensaiar uma democracia.

E aí novamente temos os conservadores buscando seu lugar no discurso público, alguns deles egressos do regime ou mesmo perseguidos por ele. Nos primeiros anos os últimos produzem obras onde tentam descrever como tudo saiu do controle naquela situação…. e anos mais tarde os primeiros começam a fomentar uma ideia muito absurda (mas muito familiar para os tempos de agora): essa ditadura foi violenta porque não era guiada por princípios conservadores, ela era de esquerda.

Vejam como é simples. Para conseguir justificar seu ponto eles vão usar dados reais (por exemplo, esse apoio de políticos de direita a grevistas), o discurso nacionalista de parte da direita, o mesmo descontentamento da esquerda e da direita no Brasil com meios de comunicação.

Também vão usar muito habilmente o fato de que o guru do conservadorismo que fundamentou o golpe de estado tinha, ele próprio, sido um comunista na juventude! E que sua retórica era totalmente impregnada de discursos revolucionários sobre “organizar as massas” e várias linhas escritas contra as “elites globalistas”.

E depois disso escreverão livros dizendo que os princípios conservadores são outros: o de uma cautela com a mudança brusca, do respeito às liberdades individuais, entusiasmo pelo livre mercado, entre tantos outros.

Vocês já leram algo parecido? Pois.

Esse é o mesmo tipo de recurso retórico usado para dizer, por exemplo, que o nazisfascismo seria um movimento de esquerda, e que hoje representa a base para toda uma filosofia política do mundinho paralelo construído por uma nova direita  nos Estados Unidos e no Brasil.

Isso é algo muito fácil de fazer, especialmente quando se parte de uma posição fixa sobre o que é esquerda ou direita no mundo e na história. Eu poderia dizer que esquerda é aquela que respeita direitos civis e liberdades e falar que o camarada Stálin foi um conservador e traidor dos preceitos do verdadeiro socialismoOu que sua supressão dos dissidentes impediu que os trabalhadores voltassem a poder se organizar e que ele traiu os preceitos do marxismo leninismoOu poderia escrever um livro dizendo que ele era um centrista nacionalista, por suas alianças táticas com o conservador Churchill e o liberal Roosevelt. Há tantos fatos, que se eu for selecionar todos eles com cuidado (enfatizando e omitindo conforme a conveniência) eu posso transformar Joseph Stálin num tipo alienígena, fora do ideal de esquerda que eu ou outro descrevemos como ideal. Especialmente, como disse antes, se partir de um pressuposto qualquer sobre o que seria esquerda e direita.

E isso seria um erro, claro, porque eu acredito que o stalinismo representa um tipo de despotismo que poderia acontecer numa situação de revoluções, guerras e centralização de poder.

A direita que ascende ao poder no mundo guarda tantas similaridades com o espectro do nazifascismo que parte mandatória de seu funcionamento está na criação de uma novilíngua que permita dizer que essas ideologias derrotadas na 2a Guerra seriam uma criação da esquerda. Não interessa a essa suposta “inteligência conservadora” que os neo nazistas de Charlottesville marchem com suásticas, apoiem Donald Trump e digam defender valores conservadores.

Quando Charlottesville e outras marchas neonazistas aconteceram nos EUA, a inteligência conservadora da nova direita correu para dizer que o “nazifascimo é de esquerda”. Incapazes de explicar por que os nazifascistas defendem e apoiam o mesmo presidente que eles elogiam, outros ainda produziram uma versão ainda mais cretina: o bilionário filantropo George Soros é quem financiado a quela manifestação.

Há elementos e correntes na nova direita que querem adotar partes do projeto nazifascista (anticomunismo violento, nacionalismo étnico, ultraconservadorismo), usar as teorias da conspiração do nazifascismo (como a do marxismo cultural), quer o apoio eleitoral de mobilização dos nazifascistas (vejam como Trump sempre é incapaz de condená-los) e por isso PRECISAM desesperadamente criar uma narrativa que os separe dos regimes autoritários que iniciaram a maior guerra da história e quase destruíram, de fato, a Civilização Ocidental que tal direita diz proteger.

A fronteira e o trumpismo brasileiro

borderkids

Texto de uma coluna antiga no Viracasacas.

Donald Trump lançou sua candidatura nas primárias do partido Republicano dizendo que o México não estava mandando as melhores pessoas para os EUA. Mexicanos que cruzavam a fronteira ou permaneciam no país após o vencimento de vistos temporários eram, segundo ele, criminosos (traficantes, estupradores) e, alguns, segundo ele eram boas pessoas.

Anos antes, em 2000, Trump havia anunciado que ia concorrer às primárias do Partido Reformista, algo que havia saído de uma ala mais extremista do Partido Republicano, mais focado em nacionalismo extremo, conservadorismo cultural e outras agendas que haviam feito parte da administração Reagan mas não eram sua principal agenda. O partido havia saído dos esforços da candidatura independente de Ross Perot, que na campanha de 1992 conseguira 8% do voto popular e, dizem as más línguas, teria tirado votos do eleitorado Republicano e ajudado na eleição de Bill Clinton para a Casa Branca.

Perot tinha um discurso familiar: era um empresário bem-sucedido, conservador, anti-imigração e também contra o NAFTA que, segundo ele, sugaria os empregos dos norte-americanos em direção ao México. Dizia que a imigração ilegal estaria destruindo os Estados Unidos. O partido Reformista também tinha em suas fileiras o paleoconservador Pat Buchanan (sem parentesco com James Buchanan), que é uma das figuras centrais na guinada do conservadorismo norte-americano de volta ao nacionalismo racista. Como várias das figuras que emprestam sua expertise intelectual a essa nova classe de demagogos de direita, Buchanan integrou o mainstream conservador nos EUA – tanto que aparece brevemente como personagem na versão cinematográfica de Watchmen.

Quando Donald Trump ingressa na campanha pelas primárias do Partido Republicano ele carrega consigo Perot e Buchanan, e soma ambos a sua longa carreira como personagem de tabloides, escândalos e reality shows. Seu retorno aos holofotes depois de uma série de negócios malsucedidos tinha vindo não apenas do sucesso de O Aprendiz, mas de seu papel central numa campanha difamatória contra o então presidente Barrack Obama que, segundo Trump, não seria norte-americano e também seria secretamente um muçulmano.

Trump passou a campanha inteira demonizando muçulmanos, latinos e ativistas pelos direitos dos afro-americanos. Contra essa legião de estrangeiros que ousa tentar entrar nos Estados Unidos, prometeu construir um muro na fronteira com o México – já extremamente militarizada desde a década de 1990 – e disse que obrigaria o país vizinho a pagar os custos.

Trump congregou em torno de si uma porção de ativistas e lobistas que, nas entranhas do Partido Republicano, espalhavam alarmismo e passavam a tratar imigrantes como hordas invasoras. Steve Bannon talvez tenha se tornado a mais famosa dessas figuras, considerado o patrono do “conservadorismo cultural” que engendrou uma série de movimentos neofascistas nos Estados Unidos – acabou desligado da Casa Branca, não por sua postura política, mas pela oposição a Jared Kushner e Ivanka Trump (o genro e a filha do presidente, respectivamente).

Stephen Miller é outro desses republicanos. A atual política de separação mandatória de famílias que cruzam a fronteira foi obra dele, mesmo agora ele diz que o ultraje provocado pela decisão é uma virtude, não um problema. Para Miller, é bom que os americanos estejam pensando em imigração ao ir votar nas eleições de 2018, onde vão eleger governadores, senadores, congressistas e prefeitos.

Miller começou sua carreira como secretário de imprensa para congressistas Republicanos. Mas foi sob Jeff Sessions, então senador pelo Estado do Alabama, que ele brilhou. Teve um papel central na derrota da proposta de reforma da imigração apoiada por políticos Democratas e Republicanos da chamada Gang of Eight, escrevendo muitos dos discursos que Jeff Sessions viria a proferir contra a reforma. Miller e Sessions desenvolveriam ali o que Miller chamaria de “populismo nacional”, em contraponto ao liberalismo social, à globalização e à imigração.

Antes disso, quando estudava Ciência Política na Universidade de Duke, Miller era conhecido por suas diatribes contra estudantes latinos, chegando dizer que eles não deveriam falar outra língua que não o inglês. Enquanto denunciava movimentos de minorias étnicas e imigrantes por uma suposta pregação de “superioridade racial”, Miller integrava a União Conservadora da Universidade de Duke com ninguém mais ninguém menos que Richard Spencer – o nazista que levou um soco na cara. Ambos trabalharam para promover um debate entre Peter Laufer, um ativista por fronteiras abertas, e o jornalista Peter Brimelow. Brimelow era um ativista conservador, que naquele momento dizia se opor à imigração por motivos econômicos mas que também se tornaria uma figura central no renascimento do nacionalismo racista nos Estados Unidos. Spencer descreve que Miller e ele eram próximos quando eram estudantes mas Miller nega qualquer relação dessa natureza.

Jeff Sessions, o senador do Alabama que viria a ser o procurador geral do governo Trump, tinha sido nomeado por Reagan para o cargo de juiz do Distrito Sul do Alabama. Sessions não assumiu o cargo porque, segundo um bocado de testemunhas, não apenas demonstrava um claro viés contra afro-americanos como dizia que organizações como a NAACP (Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor) e a ACLU (União pelas Liberdades Civis Americanas) seriam “anti-americanas” e “inspiradas pelo comunismo”. Sessions acabou não assumindo o cargo, mas viria a ser Procurador Geral do Alabama (onde ia defender um modelo inconstitucional de verbas para a educação que iria beneficiar imensamente distritos ricos e majoritariamente brancos e prejudicar distritos pobres e majoritariamente negros). Entre 1997 e 2017, Sessions ocuparia a cadeira de Senador pelo Estado do Alabama.

E então nós chegamos nesse momento. A administração Trump diz que quer combater a imigração ilegal, atividade que segundo eles é culpada por todos os males que se abatem sobre os Estados Unidos – reais e imaginários. A decisão de implementar uma política de “tolerância zero” e processar criminalmente o maior número possível de adultos que cruzam a fronteira foi do uma decisão anunciada várias vezes em 2017 – inclusive a decisão de retirar as crianças de seus pais ou acompanhantes. Implementada em 28 abril desse ano pelo procurador geral Jeff Sessions, tal política vergonhosa e suas consequências se tornaram públicas e foram objeto de ultraje no mundo inteiro.

Diante disso a administração Trump disse apenas estar cumprindo a lei e, como já fez inúmeras vezes, culpou o Partido Democrata por uma política gestada e implementada no interior do poder executivo e do aparato de segurança nacional. Depois negou que a política existisse, depois disse que ela tinha sido implementada por Barack Obama. Durante a era Obama, dezenas de milhares de crianças e menores de idade foram apreendidos cruzando a fronteira desacompanhadas, ou sob a guarda de estranhos (Coyotes), e chegaram a ser detidas por até 20 dias. A maioria das pessoas que cruzam as fronteiras dos EUA hoje em dia estão fugindo de conflitos e violência em Honduras, El Salvador e outras nações da América Central. E naquela época, a 4 anos atrás, a imagem de crianças e adolescentes detidos também causou ultraje – e foi utilizada tanto pela esquerda como por conservadores, como Glenn Beck, para atacar sua administração.

As diretrizes de deportação da era Obama tornavam prioritários os casos de elementos considerados perigosos – como os tais membros de gangues. Assim que tomou posse, Trump revogou essas diretrizes abrindo caminho para as políticas que adota hoje.

Mas o trumpismo, como toda a Nova Direita, é calcado numa máquina de negação e distorção de fatos. Trump, como todo bom líder de um movimento de idiotas, deve ser louvado como autoridade moral, cujas decisões são sempre perfeitas, nem que para isso seja necessário apagar ou reescrever o passado. Se ele ameaça um conflito nuclear e mais tarde decide negociar outra solução, torna-se merecedor do Nobel da Paz. Se adota uma política desumana que separa crianças migrantes de seus pais e mais tarde volta atrás deve ser louvado como um líder benevolente que acabou com uma política vil e imoral da qual sua administração seria incapaz.

Quando Trump compara migrantes a animais, ou diz que eles infestam os Estados Unidos, que fariam parte de um plano sinistro do Partido Democrata para garantir eleitorado, basta dizer que não foi bem assim… ele estava falando da gangue MS-13 que hoje aterroriza El Salvador. Ele perdeu o voto popular? É culpa dos supostos ilegais que votaram. Sua cerimônia de posse estava vazia? É mentira da mídia fake news.

E aqui surge a criatura mais peculiar em toda essa história: o trumpista brasileiro. Mestre no contorcionismo, essa criatura vai endossar toda e qualquer narrativa da Casa Branca e dos comentaristas profissionais que cercam Trump. Nesse mundo paralelo, toda a América Central está sob domínio comunista, o que explicaria os refugiados, e Trump é uma espécie de campeão contra um bloco comunista imaginário.

Esses exercícios de ficção são muito úteis: servem para esconder o que está por detrás das decisões do governo Trump e como essas políticas estão sendo desenhadas para exercer crueldade desnecessária aqueles que Donald Trump elegeu seus inimigos desde o primeiro discurso de campanha. O trumpista brasileiro, seja o comentarista conservador profissional, seja o idiota útil que acha que Trump liga pra suas convicções morais ou religiosas, é incapaz até mesmo de se comover com crianças brasileiras separadas dos pais. O problema passa a ser a infração da lei e não a penalidade obscena e desproporcional. É a mesma turma que diz que defende a família, mas assim que as forças de segurança matam uma criança em alguma favela do Rio de Janeiro, começam a difamar a vítima e dizer que ela era do tráfico – mesma estratégia que usaram contra a memória da vereadora Marielle, depois de seu assassinato.

Quando crianças são mortas em bombardeios no Oriente Médio, diga que eram terroristas, quando forem detidas nas fronteiras, lembre-se das gangues.

Não esperem nada diferente, afinal de contas já nos ensinaram que o mal é banal.

Racismo,Nazismo,Supremacia Branca,Homofobia,Jihad,Terrorismo,Direitos Humanos

O neonazista pedófilo e homofóbico preso enquanto preparava ‘jihad branca’

Racismo,Nazismo,Supremacia Branca,Homofobia,Jihad,Terrorismo,Direitos Humanos

Jack Renshaw é suspeito de integrar organização banida

Um júri britânico não conseguiu decidir se Jack Renshaw, neonazista que confessou um plano para matar uma parlamentar no Reino Unido, permaneceu como membro de um grupo terrorista que foi banido do país.Agora que chegou ao fim seu quarto e último julgamento, um processo que durou dois anos, podemos contar sua história completa.

Eles bebiam lá regularmente. Normalmente, aos sábados. Muitas vezes, durante a semana também.

O número de participantes variava – podiam ser apenas dois ou um grupo de dez.

O local era o Friar Penketh em Warrington, um pub concorrido no centro da cidade.

Friar Penketh, em Warrington
Este é o Friar Penketh, um pub movimentado no centro da cidade

Mas o papo do grupo não era sobre futebol ou trabalho -, a conversa girava em torno de temas muito mais sombrios, como o ódio aos judeus e não-brancos, a veneração ao nazismo e Adolf Hitler, e o fascínio deles com o terrorismo.

No sábado de 1º de julho de 2017, vários integrantes e ex-membros da Ação Nacional, organização neonazista banida do Reino Unido sob a lei antiterrorismo, chegaram ao pub no fim da tarde.

Pouco depois, se juntou a eles um homem de aparência jovem, cujos olhos grandes e hostis contrastavam com seu corpo franzino e tímido.

Na mesma hora, o rapaz de 22 anos começou a reclamar sobre uma investigação policial em andamento contra ele por incitar o ódio racial em seus discursos.

Jack Renshaw despertava a simpatia de seus companheiros de bar.

Jack Renshaw
Jack Renshaw em um vídeo do Partido Nacional Britânico

À medida que a noite avançava, ele revelou um plano iminente – se fosse acusado pela polícia, faria uma manifestação política matando a parlamentar Rosie Cooper.

Ele já tinha comprado um gládio – espada curta romana – para levar a cabo o assassinato.

O plano incluía fazer reféns e atrair a detetive que estava investigando seu caso para o local, exigindo falar com ela. Ele então a mataria também.

Na sequência, ele cometeria “suicídio pela polícia” (ato de induzir deliberadamente um policial a atirar em você), ao avançar na direção dos policiais armados usando um colete-bomba falso, conforme contou ao grupo.

O ataque seria um ato da “jihad branca” – termo usado pela Ação Nacional – e ele planejava gravar um vídeo em que apareceria como um mártir explicando seus motivos.

Nenhuma das pessoas ao redor da mesa contestou Renshaw – pelo contrário, duas delas chegaram até a sugerir alvos alternativos, como a então ministra do Interior do Reino Unido, Amber Rudd, e uma sinagoga.

O que nenhum deles sabia era que um dos integrantes da mesa estava passando informações secretamente para a organização antirracismo Hope not Hate.

Correndo contra o tempo

Robbie Mullen, que no passado era neonazista convicto, estava desapontado e queria abandonar o grupo.

“Eu não queria estar envolvido na morte de ninguém, ou em um grupo que estava envolvido em matar pessoas. Eu só não queria que ninguém fosse morto ou ferido”, diz ele.

Quando Mullen foi embora do pub naquela noite, Renshaw abraçou ele e disse que provavelmente não se veriam novamente.

Assustado com o que estava por acontecer, Mullen entrou em contato imediatamente com a Hope not Hate.

“Jack vai matar uma parlamentar em breve”, contou.

Jack Renshaw

O caso de Renshaw ilustra claramente os perigos da radicalização.

Ele nasceu em Lancashire, na Inglaterra, e começou a se envolver com política na adolescência – primeiro com a Liga de Defesa Inglesa e depois com o Partido Nacional Britânico (BNP), depois de conhecer seu então líder, Nick Griffin, em um evento.

Quando terminou a escola, ele cursou economia e política na Universidade Metropolitana de Manchester, mas foi convidado a se retirar por seu ativismo de extrema-direita.

Jack Renshaw - (captura de tela de vídeo do BNP)
Jack Renshaw chegou a trabalhar no Parlamento Europeu em Bruxelas

Renshaw ficou anos no BNP, aparecendo em cartazes e vídeos do partido, além de dar palestras em conferências. Trabalhou ainda no Parlamento Europeu em Bruxelas.

Ele também se envolveu em campanhas contra o aliciamento sexual de crianças.

Certa vez, perguntado sobre como descreveria sua jornada, Renshaw disse:

“Eu comecei basicamente como um civil nacionalista com, digamos, pensamentos racistas ligeiramente encobertos, e agora sou um nacional-socialista abertamente racista.”

A Ação Nacional se tornaria seu lar político.

O grupo britânico, fundado em 2013, era abertamente racista e neonazista. E foi banido em dezembro de 2016, após uma investigação concluir que estava exaltando ilegalmente o terrorismo.

A Ação Nacional havia usado, inclusive, uma conta oficial no Twitter para comemorar o assassinato da parlamentar Jo Cox, em junho de 2016, por um supremacista branco.

Robbie Mullen, na época funcionário de um armazém em Runcorn, Cheshire, havia se juntado ao grupo após se converter à política extremista.

Ele chegou a pesquisar outras organizações, mas foi seduzido pelas ideias da Ação Nacional, cujos membros se vestiam de preto em manifestações e usavam as redes sociais para promover suas atividades.

Robbie MullenDireito de imagem HOPE NOT HATE
Robbie Mullen, que já foi um neonazista convicto, se desiludiu e deixou a Ação Nacional

Mullen, hoje com 25 anos, disse à BBC que foi atraído inicialmente pela “imagem” do grupo e porque seus membros tinham mais ou menos a sua idade, “enquanto a extrema-direita tradicional era formada por velhos que bebiam em pubs”.

Mullen, assim como Renshaw, que era porta-voz da Ação Nacional, se tornou uma figura proeminente no grupo, ajudando a organizar atividades no noroeste da Inglaterra.

‘Parasitas’

Renshaw parecia se deleitar com a crueldade da ideologia do grupo.

Seus perfis nas redes sociais se converteram em uma corrente vil de ódio e teorias de conspiração maliciosas, com o povo judeu sendo alvo frequente de ataques.

Mas foram dois discursos antissemitas que ele fez em nome da Ação Nacional que o levariam à ruína.

Durante uma manifestação na orla de Blackpool em março de 2016, Renshaw disse que os judeus eram “parasitas” e que a Grã-Bretanha havia escolhido o lado errado na Segunda Guerra Mundial, em vez de lutar ao lado dos nazistas que estavam implementando a “solução final”.

Em um discurso em Yorkshire um mês antes, ele dissera que Adolf Hitler estava “certo em muitos sentidos”, mas errado quando “mostrou misericórdia em relação a pessoas que não mereciam misericórdia”.

Renshaw afirmou que o povo judeu deveria ser “erradicado”.

Jack Renshaw em vídeo de propaganda da Ação Nacional
IA polícia investigou Jack Renshaw por suposto assédio sexual de menores

Ele foi preso na casa da mãe em Blackpool em janeiro de 2017, acusado de incitar ódio racial.

Seus celulares e outros itens pessoais foram apreendidos.

Mas seus discursos não eram os únicos alvos de investigação.

Renshaw, o pedófilo

Renshaw, ativista contra a exploração sexual infantil, era secretamente um pedófilo que aliciava meninos para sexo.

Por quase um ano, ele usou um perfil falso no Facebook para atrair dois garotos que tinham entre 13 e 15 anos na época.

Apesar de não conhecer os adolescentes, ele ofereceu dinheiro a eles em troca de sexo e pediu fotos íntimas. A polícia foi avisada depois que um parente viu as trocas de mensagens no telefone de um dos meninos.

Os detetives identificaram que as mensagens haviam sido enviadas do endereço de Blackpool ocupado por Jack Renshaw.

Quando foi preso pela primeira vez em janeiro, ele foi interrogado apenas sobre os discursos, antes de ser libertado sob fiança – mas as investigações continuaram.

Uma das investigadoras, Victoria Henderson, foi encarregada de manter contato com o suspeito e também participou do inquérito sobre crimes sexuais.

Em maio daquele ano, Renshaw foi preso novamente e interrogado sobre o aliciamento de menores.

Ele deve ter percebido que sua farsa estava chegando ao fim.

Mais tarde, Henderson disse que Renshaw ficou “chocado e chateado” e “visivelmente pálido, chorando muito”.

Ele negou ter assediado os meninos, apesar de as evidências terem sido encontradas em seu próprio celular.

O suspeito, que tinha um histórico de fazer declarações homofóbicas, afirmou a Henderson que ainda era virgem, não acreditava em sexo fora do casamento e que seu gosto por pornografia era “bastante tradicional” e “conservador”.

Embora tenha admitido ter buscado pornografia gay na internet “por curiosidade”, ele negou ser homossexual e disse que as relações entre pessoas do mesmo sexo eram “antinaturais”.

Dois dias após ser libertado sob fiança, Renshaw procurou por Henderson no Facebook.

Ela havia se tornado um alvo.

O que a polícia não sabia é que Renshaw já havia começado a planejar um ataque à parlamentar Rosie Cooper, o que seria um crime político. E agora tinha resolvido assassinar também Henderson, o que seria um ato de vingança pessoal.

No início daquele mês, ele havia pesquisado sobre a parlamentar na internet e feito a seguinte pergunta ao Google: “Quanto tempo leva para morrer após cortar a jugular?”

Rosie Cooper
Rosie Cooper, a parlamentar do distrito de West Lancashire que Renshaw queria matar

Em 7 de junho, ele comprou um gládio na internet – que, segundo a descrição do fabricante, oferecia “48 centímetros de um poder perfurante e cortante sem precedentes” – e pagou para ser entregue no dia seguinte.

Assim que recebeu, compartilhou uma imagem da arma com os membros do grupo usando o Telegram, aplicativo de mensagens criptografado.

Mas os planos de Renshaw foram frustrados por causa de Robbie Mullen.

Robbie Mullen

A essa altura, Mullen estava se comunicando secretamente com a Hope not Hate.

Após estabelecerem contato na primavera de 2017, Mullen contou que os membros da Ação Nacional não se separaram, apesar de o grupo ter sido banido.

Ele informou que eles continuavam a se encontrar, malhavam juntos na academia e se comunicavam via aplicativos de mensagens criptografadas.

As atividades públicas do grupo – como o site e as manifestações – haviam acabado, mas segundo ele, o núcleo permanecia.

O fascínio de longa data da Ação Nacional pelo terrorismo virou, então, parte central do seu propósito, e seus integrantes começaram a planejar uma guerra racial, conforme contou Mullen à BBC.

Depois que Renshaw revelou seus planos violentos no pub em 1º de julho de 2017, Mullen falou com seu contato, Matthew Collins, diretor de pesquisa da Hope not Hate.

Collins, que estava de férias na época, se lembra do momento em que foi informado de que Renshaw “ia matar uma parlamentar de forma iminente, imediatamente”.

Treino de boxe - (vídeo de propaganda política da Ação Nacional)
Jack Renshaw aparecia em diversos vídeos de propaganda política da Ação Nacional

Ele se lembra de ter perguntado a Mullen: “Como imediatamente?” e ele disse: “Vai acontecer em breve”. E essa história horrível e inimaginável se desenrolou.

No dia seguinte, a Hope not Hate enviou uma mensagem para Rosie Cooper alertando a parlamentar sobre o risco que corria.

Ela avisou a polícia e de repente se viu no centro de uma investigação contra o terrorismo – apenas um ano após o assassinato de sua colega Jo Cox.

Enquanto isso acontecia, Renshaw estava sendo interrogado em Lancashire – novamente por Henderson – sobre a suspeita de aliciamento de menores. Em paralelo, foi acusado de incitar o ódio racial nos dois discursos.

Ele foi libertado sob fiança, e naquela noite publicou uma série de mensagens no Facebook que indicavam seu estado de espírito.

Gládio
Os policiais encontraram o gládio no alto de um armário

“Estou passando meu tempo com a família… Tudo vai acabar em breve.”

Em outra postagem, ele escreveu: “Eu vou rir por último, mas pode não ser por muito tempo”.

Os detetives da polícia antiterrorismo tentaram às pressas localizar Renshaw, mas ele não estava no endereço que informou quando foi liberado sob fiança.

Enquanto faziam buscas na casa do tio dele, descobriram o gládio que ele havia comprado escondido no alto de um armário.

Machete
Fotos feitas pela polícia do gládio comprado por Renshaw

Renshaw acabou sendo encontrado e preso sob a acusação de fazer ameaças de morte.

No dia seguinte, ele compareceu perante um tribunal por causa da acusação de incitação ao ódio racial e a promotoria foi contra conceder fiança.

Renshaw estava, então, fora das ruas.

Robbie Mullen, por outro lado, continuou convivendo com o restante do grupo.

Nenhum deles sabia que ele tinha sido o informante que denunciou o plano de ataque.

Havia ainda a preocupação de que o próprio Mullen pudesse ser processado por ter se tornado membro da Ação Nacional.

Robbie Mullen
Robbie Mullen recebeu ameaças de morte e precisou se esconder por um tempo

A imunidade precisava ser concedida a ele, e a polícia tinha de avaliar se as provas que ele havia apresentado poderiam ser usadas em um tribunal.

No outono de 2017, seis pessoas que estavam bebendo no Friar Penketh na noite em que Renshaw revelou seu plano foram presas.

Duas delas, incluindo o líder do grupo, Christopher Lythgoe, foram condenadas por pertencerem à Ação Nacional. Um homem foi absolvido da mesma acusação. Dois júris foram incapazes de decidir se os outros suspeitos – inclusive Renshaw – haviam permanecido no grupo após o mesmo ter sido banido.

Mullen, que havia recusado participar do programa de proteção a testemunhas, recebeu ameaças de morte.

No meio da noite, a Hope not Hate levou ele às pressas até um lugar seguro – e desde então ele foi impedido de voltar para casa ou ao trabalho.

Julgamentos

Renshaw acabou enfrentando quatro julgamentos nos últimos 14 meses.

Em janeiro de 2018, em Preston Crown Court, ele foi condenado por duas acusações de incitação ao ódio racial em discursos – a pena foi de três anos de prisão.

Em junho, no mesmo tribunal, ele foi considerado culpado por quatro acusações de incitar menores à atividade sexual – o que resultou em mais 18 meses de cadeia.

O caso só pode ser relatado agora que seu julgamento final foi concluído.

No banco dos réus em Preston, ele pareceu envergonhado quando os vídeos do interrogatório da polícia com as duas vítimas, conduzido por Henderson, foram exibidos.

Jack Renshaw - (foto da rede social de Renshaw)
Os jurados não conseguiram decidir se Jack Renshaw permaneceu como membro da Ação Nacional

Aliciamento de menores

A um dos meninos, Renshaw havia pedido fotos de conteúdo sexual explícito e tentou seduzi-lo para ter relações sexuais, oferecendo dinheiro, drogas e pizza:

“Uma noite. 10 mil. Eu e você.”

“Eu temi pela minha vida”, disse o jovem a Henderson.

O outro garoto contou que Renshaw o bombardeava com mensagens diárias.

Na época do Natal, ele enviou uma imagem com alguns presentes e disse que o menino poderia tê-los em troca de fotos íntimas.

Renshaw chegou a enviar fotos impróprias dele próprio para o jovem.

Quando o adolescente chamou Renshaw de “pedófilo sujo”, ele respondeu dizendo “tinha ficado excitado”, recordou a vítima.

Durante seu terceiro julgamento – no Tribunal Central Criminal, conhecido como Old Bailey, no verão de 2018 -, Renshaw se mostrou mais aberto e sem vergonha de seus planos.

Na primeira manhã do julgamento, ele repentinamente se declarou culpado de planejar o assassinato da parlamentar Rosie Cooper e de ameaçar matar a detetive Henderson.

Mas negou ser membro do grupo Ação Nacional.

Quando foi chamado para apresentar provas, ele disse que Rosie Cooper foi escolhida como seu alvo porque “era uma parlamentar local” e “a melhor representante do Estado”.

“Eu queria mandar uma mensagem ao Estado”, disse ele ao tribunal.

Ele explicou que o plano era “aparecer em um de seus eventos sociais” e depois “cortar” sua jugular com o gládio.

Renshaw, que nega o Holocausto, afirmou perante a corte que queria que todo o povo judeu morresse e expressou suas crenças neonazistas de forma arrogante, mas na defensiva, afirmando ser imune aos horrores que tais ideias geraram.

A postura arrogante não condizia com sua verdadeira posição: um pedófilo condenado e suposto terrorista que passaria muitos anos na prisão.

Os membros do júri não conseguiram decidir, no entanto, se ele havia continuado como membro da Ação Nacional.

Mullen, que foi testemunha em ambos os casos em Londres, agora deve começar vida nova.

“Eu vivo mês a mês – não penso muito no futuro”, desabafa.

Mas ele sabe que as coisas nunca serão como antes.

Mullen consente em voz baixa quando perguntado se entende que provavelmente salvou vidas, incluindo a de uma parlamentar.

Todavia, ele ainda não tem certeza sobre o que o levou a começar a passar informações secretamente para a Hope not Hate, organização para a qual trabalha agora.

“Me perguntaram isso duas vezes no tribunal. Eu realmente não sei”, diz ele.

Ele afirma, no entanto, que diante de todos os planos violentos que ouviu precisava tomar uma atitude.

“Eu sabia que se pudesse fazer algo para detê-lo, então eu tinha de fazer.”

Ditadura,Extrema Direita,Feminismo,Racismo,Xenofobia

A extrema direita venceu

Ditadura,Extrema Direita,Feminismo,Racismo,XenofobiaEM 2016, em uma escola secundarista de uma favela de Porto Alegre, Lucia Scalco e eu nos deparamos com dezenas de meninos fãs do “mito”. Por muito tempo, só conseguíamos enxergar esse fato, que dominava nossa análise.

Isso, em grande medida, prejudicava dar a devida atenção a meninas como Maria Rita, de 17 anos, única filha mulher de um soldado bolsonarista. Ela discutia cotidianamente com seu pai e irmão e, em 2018, já havia conseguido convencer a mãe que “eles não tinham argumentos, apenas raiva de tudo”.

A antropóloga Claudia Fonseca, nos anos 1980, chamava as mulheres de periferia de “mulheres valentes”: líderes comunitárias, mães e trabalhadoras – mas não necessariamente feministas. O que nós encontramos em 2016, quando nos permitimos olhar as coisas sob lentes diferentes, foi que as filhas das valentes agora se denominavam feministas, enfrentavam o poder patriarcal com argumentos sólidos, dados e conhecimento aprofundado de política. E melhor: elas eram em maior número do que os “minions”.

Talvez o que nos esteja faltando para começar 2019 é conseguir deslocar o foco exclusivo no círculo vicioso das manchetes trágicas e no aumento do autoritarismo para valorizar as grandes conquistas que mudaram uma geração inteira, e que produzirá impactos sociais e institucionais profundos daqui a alguns anos.

O reacionarismo é também uma reação à explosão do feminismo, do antirracismo e da luta LGBTs.
A crise de 2007/2008 propiciou a explosão de uma primavera de ocupações e protestos em massa no mundo todo. Muito é dito sobre o quanto essas manifestações causaram a ascensão da extrema direita. Menos atenção tem sido dada, entretanto, ao fato de que existiram outros desdobramentos possíveis dessas manifestações. Tanto o Occupy nos Estados Unidos quanto as Jornadas de Junho de 2013, por exemplo, também foram marcos do fortalecimento de uma nova subjetividade política que busca, na ação microscópica da ação direta, o afeto radical, a imaginação e a horizontalidade.

Quem sabe invertemos as lentes de análise? O reacionarismo emergente também pode ser entendido, entre muitos outros fatores, como uma reação à explosão do feminismo, do antirracismo e da luta dos grupos LGBTs, que sempre se organizaram no Brasil, mas que, nos últimos anos, atingiram uma capilaridade inédita — e perturbadora, para muitos.

Há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder e a temer.
Impulsionada pelo contágio das novas mídias digitais, emergiu a quarta onda feminista no mundo todo –especialmente no Sul global (veja abaixo alguns exemplos) –, que é orgânica, emergiu de baixo para cima e cada vez mais reinventa localmente os sentidos do movimento global #metoo. A onda internacional perpassa todas as gerações, mas é entre as adolescentes que desponta seu caráter mais profundo no sentido de ruptura da estrutura social: há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder e a temer.

Diz o cântico das marchas feministas que a “América Latina vai ser toda feminista”. Neste ano, as universidades chilenas, por exemplo, foram ocupadas contra o assédio sexual. Na Argentina, filhas do movimento #niunamenos, as pibas (ativistas jovens) comandaram as vigílias durante a votação do aborto no Senado. Atualmente, meninas de 12, 13 anos já vão para a escola com o lenço verde, que simboliza a luta pelo aborto legal.

A cena feminista asiática está em plena ebulição. Na Coreia do Sul, as “irmãs de Seul” marcharam contra o abuso sexual e a misoginia. Na China, depois da prisão de cinco ativistas, o feminismo tem explodido em todo o país, e as jovens fazem performances criativas, como ocupar os banheiros masculinos, contra o machismo e o autoritarismo.

O mesmo ocorre em diversos países africanos. A juventude secundarista e universitária de Moçambique fundou o Movfemme, o Movimento das Jovens Feministas. Sob forte repressão, elas organizam eventos menores, como rodas de conversa em torno de uma fogueira para falar de sexualidade e direitos das mulheres.

Furando a bolha institucional
Lúcia Scalco e eu percebemos o rastro da primavera feminista de 2015 e das ocupações secundaristas de 2016 na periferia de Porto Alegre. Nós fazemos pesquisa lá há dez anos e percebemos que a intensidade e a capilaridade do feminismo entre as adolescentes era inédita. Existe toda uma nova geração de feministas, e elas foram fundamentais na contenção do crescimento de Bolsonaro no bairro em que moram. Muito antes de existir o movimento #elenão, elas já enfrentavam seus pais, irmãos e companheiros e, assim, mudavam o voto de suas mães e avós, que tradicionalmente seguiam o voto dos maridos.

O grupo Mulheres Unidas contra Bolsonaro reuniu em poucos dias 4 milhões de mulheres no Facebook e o movimento #elenão foi a explosão disso tudo, constituindo-se também um grande momento de politização de mulheres. O backlash (contra-ataque) não veio apenas dos bolsonaristas, mas também de alguns intelectuais de esquerda que, direta ou indiretamente, responsabilizaram as mulheres pelo crescimento de Bolsonaro na última semana no primeiro turno, desprezando as muitas variáveis políticas que levaram àquele cenário – argumento já refutado em artigo acadêmico de Daniela Mussi e Alvaro Bianchi.

Essa onda feminista relativamente espontânea já começa a furar e renovar a bolha institucional, elegendo mulheres no Brasil e nos Estados Unidos.

Enquanto a direita tradicional derreteu nessas eleições, e o PSL cresceu de forma fenomenal na extrema direita, o PSOL também elegeu Aurea Carolina, Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna, Talíria Petrone como deputadas federais; e a Rede elegeu Joênia Wapichana, a primeira indígena eleita no país. Além, é claro, das vitórias da Bancada Ativista, de Monica Francisco, Erica Malunguinho, Luciana Genro, entre outras, em nível estadual.

Primeiros frutos das sementes de Marielle Franco, essas mulheres jovens possuem com forte vínculo com o ativismo e com a realidade popular. Essa nova bancada feminista não procurou surfar na onda de Junho de 2013 ou da Primavera Feminista de 2015 simplesmente – elas vêm organicamente das ruas e das lutas.

Nos Estados Unidos, as eleições do chamado “midterm” surpreendeu e derrotou Trump no Congresso, tendo significativo número de recorde de mulheres eleitas, como as democratas Rashida Tlaib e Iham Omar (as primeiras islâmicas da eleitas), Deb Haaland e Sharice Davids (as primeiras indígenas eleitas), Ayanna Pressley (a primeira negra eleita por Massachussets) e Alexandria Ocasio-Cortez, a mais jovem deputada já eleita.

Não basta apenas ocupar a política como também mudar o jeito de fazê-la.
Ocasio-Cortez tem sido um caso exemplar da renovação política. Mulher, mãe e latina do Bronx, ela encarna as lutas das minorias ao mesmo tempo em que resgata uma linguagem dos laços de amor da família e comunidade. Ela também produz um discurso mais universalista que dialoga diretamente com os anseios da classe trabalhadora constantemente usurpada: emprego, segurança, sistema de saúde e educação. Em suma, ao falar do amor e das dificuldades da vida cotidiana, ela atinge temas básicos que tocam no âmago dos anseios populares – temas que, apesar de básicos, têm sido deixados de lado pela grande narrativa da esquerda brasileira.

As diferenças de contexto norte-americano e brasileiro são enormes, evidentemente. Mas, em comum, essas mulheres encarnam um radicalismo necessário, conectado a uma ética e estética do século 21. Fazendo forte uso das redes sociais, por meio de stories do Instagram, essas mulheres transformam a política outrora hostil, inacessível e corrupta em algo atraente, palpável e transparente. São mulheres de carne e osso que fazem política olho no olho não apenas em época de eleição. Afinal, não basta apenas ocupar a política como também mudar o jeito de fazê-la.

Podemos, então, dizer que a configuração política de hoje extrapola as análises convencionais da polarização entre esquerda e direita, mas aponta para a existência de dupla divisão de ideologia e posicionalidade, ou seja, de um lado situa-se o tipo ideal do homem branco de direita e, de outro lado, a mulher negra/lésbica/trans/pobre.

Quando o desespero bater sob o governo autoritário e misógino de Jair Bolsonaro, é importante olhar adiante e lembrar que muita energia está vindo de baixo, a qual, aos poucos, vai atingir os andares de cima. É uma questão de tempo: as adolescentes feministas irão crescer, e o mundo institucional terá que mudar para recebê-las.

Nossas conquistas em nível global são extraordinárias, mas muitos não irão te contar isso. A onda feminista dará força para resistir. Tenho confiança que muitas e renovadas versões do #elenão serão reeditadas, e miram não apenas derrubar os projetos de Bolsonaro, mas principalmente servir de espaço para a politização de mulheres. Mesmo derrotadas, somos vencedoras.
Rosana Pinheiro-Machado/TheIntercept

O fascismo por ele mesmo: Benito Mussolini

Em entrevista concedida em 1932, questionado sobre se um ditador poderia ser amado, Mussolini disse: ‘Pode. Desde que as massas também o temam. O povo adora homens fortes. O povo é como uma mulher.’

Benito Mussolini (1883-1945), o ditador italiano, nasceu na província de Romagna. Cedo, tornou-se jornalista e responsável por uma publicação socialista, o Avanti. Depois de servir na Primeira Guerra Mundial, fundou um semanário de direita, o Popolo d’Italia, e passou a dirigir o agrupamento dos Fascisti. Em 1921, foi eleito para o Parlamento e fundou o Partido Nacional Fascista. No ano seguinte, liderou os chamados camisas-negras na grande Marcha sobre Roma, que levou o rei Vittorio Emmanuel III a convidá-lo para formar o governo italiano. Em 1928, “II Duce”, como era conhecido, aboliu o Parlamento e, em 1929, decretou o Vaticano um Estado independente da Itália.

Em 1940, a Itália do Duce alinhou-se à Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Teria início aí sua decadência política. As tropas italianas foram derrotadas na Grécia e no norte da África. Sua popularidade despencava à medida que perdia as batalhas. O rei o depôs e mandou aprisioná-lo. Liberado pelos alemães, Mussolini foi capturado pelos partisans, morto a tiros e exposto em praça pública nas cidades de Como e Milão.

Emil Ludwig (1881-1948), biógrafo e jornalista alemão, era filho de Hermann Cohn, professor de oftalmologia. Formado em direito pela Universidade de Heildelberg, depois da Primeira Guerra tornou-se representante de diversos periódicos dos países aliados à República de Weimar.

A entrevista “teve lugar no Palazzo di Venezia, em Roma, entre 23 de março e 4 de abril de 1932, com encontros diários de quase uma hora”. Os dois homens falaram em italiano. Ludwig traduziu a conversa para o alemão e Mussolini checou os originais nessa língua. “Não havia secretário dele na sala tomando notas, ele não pediu revisão dos originais. Tratava-se apenas de uma questão de confiança mútua”, disse o jornalista.

Alguém havia me presenteado com a édition de luxe de Maquiavel, que a organização editorial do Estado fascista dedicou, com excesso de lisonjas, ao Duce. Mesmo assim, é sem dúvida melhor que um governo ditatorial reconheça as próprias dívidas para com o instrutor dos ditadores do que agir secretamente de acordo com suas teorias, utilizando, entretanto, o termo maquiavélico como abusivo. Quando Frederico, o Grande, ainda era príncipe, escreveu o moralizante O anti-Maquiavel. Mais tarde, ele se tornou mais direto, governando abertamente de acordo com os princípios de Maquiavel.

“O senhor se familiarizou desde cedo com O Príncipe de Maquiavel?”, perguntei a Mussolini. “Meu pai costumava ler o livro em voz alta à noite, enquanto nos aquecíamos perto do fogo da ferraria e bebíamos o vin ordinaire produzido no nosso próprio vinhedo. O livro me impressionou muito. Quando, aos 40 anos, li Maquiavel outra vez, o efeito foi reforçado.”

“É estranho”, eu disse, “como um homem como Maquiavel teve seu trabalho reconhecido em uma certa época, depois foi esquecido e agora é ressuscitado. Parece existir uma variação periódica.”

“O que o senhor disse é, com toda certeza, verdadeiro em se tratando de nações. Elas têm primaveras e invernos. Com o tempo, elas passam.”

“Como as estações na vida nacional se repetem, nunca fiquei muito alarmado com o inverno que domina a Alemanha no momento”, eu disse. “Há mais de cem anos, quando a Alemanha passou por maus momentos, Goethe ridicularizou aqueles que falaram da nossa decadência. O senhor já estudou qualquer um dos personagens importantes da nossa vida política?”

“Bismarck”, respondeu de imediato. “Do ponto de vista dos acontecimentos políticos, ele foi o homem mais importante do seu século. Nunca pensei nele meramente como a figura cômica com três fios de cabelos na cabeça e passos pesados. O livro escrito pelo senhor confirmou a minha impressão do quanto ele era versátil e complexo. Na Alemanha, as pessoas estão bem informadas sobre Cavour?”

“Não muito”, respondi. “Elas sabem muito mais sobre Mazzini. Há pouco tempo, li uma carta de Mazzini para Carlo Alberto, escrita, acho eu, em 1831 ou 1832; a súplica de um poeta a um príncipe. O senhor concorda com o fato de Carlo Alberto ter dado ordens para a prisão de Mazzini caso este cruzasse a fronteira?”

“A carta”, disse Mussolini, “é um dos documentos mais esplêndidos já escritos. A personalidade de Carlo Alberto ainda não se tornou muito clara para nós italianos. Seu diário foi publicado há pouco tempo e é bastante esclarecedor sobre a sua psicologia. É claro que, no início, ele inclinou-se para o lado dos liberais. Quando em 1832 – não, em 1833 –, o governo sardo sentenciou Mazzini à morte in contumaciam, tal fato ocorreu em uma situação política peculiar.”

A resposta pareceu-me tão cautelosa que, na minha determinação persistente, mas inconfessa, de comparar o presente ao passado, achei necessário falar com maior clareza.

“Naqueles dias, A Jovem Itália era publicado ilegalmente. O senhor não acha que esses periódicos surgem sob qualquer censura? O senhor teria prendido Mazzini?”

“Claro que não”, respondeu. “Se um homem tem ideias, que venha a mim e nós vamos discuti-las. Mas, quando Mazzini escreveu aquela carta, ele estava mais tomado pelos sentimentos do que pela razão. Naquela época, o Piemonte tinha apenas quatro milhões de habitantes e era impossível que formasse uma frente contra a poderosa Áustria com seus trinta milhões.”

“Bem, Mazzini foi preso”, recomecei. “Logo depois, Garibaldi foi sentenciado à morte. Duas gerações depois, o senhor foi preso. Não deveríamos concluir que um governante deve pensar duas vezes antes de punir seus adversários políticos?”

“O senhor quer dizer que nós não pensamos duas vezes aqui na Itália?”, perguntou com certa veemência.

“O senhor reintroduziu a pena de morte.”

“Há pena de morte em todos os países civilizados; na Alemanha, assim como na França e na Inglaterra.”

“Ainda assim, foi na Itália”, insisti, “na mente de Beccaria, que a ideia da abolição da pena de morte surgiu. Por que o senhor a reviveu?”

“Porque li Beccaria”, respondeu Mussolini sem ironia. Continuou com a maior seriedade: “O que Beccaria escreveu é o oposto do que a maioria das pessoas acredita. Além disso, depois que a pena de morte foi abolida na Itália, houve um terrível aumento no número de crimes graves. Se comparado à Inglaterra, o total na Itália era de cinco para um. Nesse assunto, leve em consideração apenas a questão social. Não foi Santo Tomás que disse que seria melhor decepar um braço gangrenado para que o resto do corpo pudesse ser salvo?

De qualquer forma, procedo com a maior cautela. Apenas os casos de assassinato excepcionalmente brutal e confesso são punidos com a pena de morte. Há pouco tempo, dois malandros violentaram e assassinaram um jovem. Os dois foram condenados à morte. Acompanhei o julgamento com muita atenção. No último momento, a dúvida tornou-se persistente. Um dos acusados era um criminoso comum que havia confessado seu crime; o outro, um homem bem mais jovem, havia se declarado inocente, e não havia nenhuma acusação anterior contra ele. Seis horas antes da execução, suspendi a sentença do mais novo.”

“O senhor poderia colocar esse fato no capítulo Vantagens de uma ditadura”, disse. A resposta dele foi rápida e feita em tom de zombaria:

“A alternativa é uma máquina estatal que funcione sem que ninguém tenha o poder de pará-la.”

“O senhor gostaria de abandonar esse assunto controvertido e falar sobre Napoleão?”

“Continue.”

“Apesar da nossa conversa anterior, não sei se o senhor o considera um modelo ou um aviso.”

Ele reclinou-se na cadeira sombrio e disse em tom comedido:

“Um aviso. Nunca tive em Napoleão um exemplo, já que não posso ser comparado a ele em nenhum aspecto. As atividades dele diferiam muito das minhas. Ele acabou com uma revolução enquanto eu comecei uma. A história da vida de Napoleão me fez perceber erros que não são fáceis de evitar.” Mussolini enumerou-os com os dedos: “O nepotismo. Uma disputa com o papado. A falta de compreensão da vida financeira e econômica. Ele não via nada além do aumento dos títulos públicos após as suas vitórias.”

“O que determinou o seu fracasso? Os especialistas dizem que ele naufragou ao chocar-se contra os ingleses.”

“Isso é bobagem”, respondeu Mussolini. “Napoleão fracassou, como o senhor mesmo disse, por causa das contradições da sua personalidade. No final, isso é o que leva um homem à ruína. Ele queria usar a coroa imperial! Queria fundar uma dinastia! Como primeiro-cônsul, estava no auge da própria grandeza. O declínio teve início com o estabelecimento do império. Beethoven estava certo quando retirou a dedicatória da Eroica. Foi o uso da coroa que envolveu o corso em contínuas guerras. Compare-o a Cromwell. Este teve uma ideia esplêndida: poder supremo sobre o Estado sem guerra!”

Tinha levado Mussolini a um tema de importância extraordinária. “Pode então haver imperialismo sem império?”

“Há meia dúzia de tipos diferentes de império. Não há necessidade dos brasões do império. Na verdade, eles são perigosos. Quanto mais vasto for o império, mais ele perderá sua energia orgânica. Apesar de tudo, a tendência ao imperialismo é uma das inclinações básicas da natureza humana, uma expressão do desejo de poder. Hoje, vemos o imperialismo do dólar. Há também o imperialismo religioso e o artístico. De qualquer forma, eles são indícios da energia vital humana. Enquanto um homem viver, ele será um imperialista. Quando morrer, o imperialismo estará terminado para ele.”

Nesse momento, Mussolini pareceu extraordinariamente napoleônico, lembrando-me a gravura de Lefèvre de 1815. Então a tensão de seus traços foi relaxada e, em tom mais tranquilo, ele continuou: “É claro que todo império tem seu apogeu. Como ele é sempre a criação de um homem excepcional, carrega dentro de si a semente da própria decadência. Como tudo que é excepcional, ele tem elementos efêmeros. Pode durar um ou dois séculos, ou menos de dez anos. O desejo de poder.”

“Ele só pode ser levado adiante por meio da guerra?”, perguntei.

“Não”, respondeu. “Não há dúvidas sobre isso.” Ele se tornou um tanto didático. “Os tronos precisam de guerras para se manter, mas as ditaduras às vezes podem sobreviver sem elas. O poder sobre uma nação é o resultado de inúmeros elementos, e eles não são apenas militares. Ainda assim, devo admitir que, até agora, na opinião geral, a posição de uma nação dependeu da sua força militar. As pessoas consideram a capacidade para a guerra como a síntese de todas as energias nacionais.”

“Até o momento”, interrompi. “Mas e de agora em diante?”

“De agora em diante?”, reiterou com ceticismo. “É verdade que a capacidade para a guerra não é mais um critério seguro de poder. Em relação ao futuro, portanto, existe a necessidade de algum tipo de autoridade internacional. Pelo menos, da unificação de um continente. Agora que a unidade dos Estados foi atingida, será feita uma tentativa de unificação do continente. Mas no que se refere à Europa, isso será muito difícil, já que cada nação tem suas próprias características, costumes, símbolos e língua. Para cada nação, uma certa porcentagem dessas características (digamos, x por cento) permanece imutável, e isso induz à resistência a qualquer tipo de fusão. Nos Estados Unidos, sem dúvida, as coisas são mais fáceis. Há 48 Estados, de mesma língua e história muito breve, que podem manter a união.”

“Mas, com certeza”, interrompi, “cada nação possui y por cento de características que são puramente europeias.”

“Essas características ficam de fora do poder de cada nação. Napoleão queria estabelecer a unidade na Europa. A unificação da Europa era sua principal ambição. Hoje em dia, essa unificação talvez tenha se tornado possível, mas mesmo naquela época, ela só era possível no plano ideal, como Carlos Magno ou Charles V tentaram fazer do oceano Atlântico aos Urais.”

“Ou, talvez, só até o Vístula?” “É, talvez, só até o Vístula.”

“A sua ideia é que essa Europa poderia ficar sob a liderança fascista?”

“O que é liderança?”, objetou. “Aqui na Itália, o nosso fascismo é o que é. Talvez ele tenha alguns elementos que outros países possam adotar.”

“Sempre acho o senhor mais moderado do que a maioria dos fascistas”, eu disse. “O senhor ficaria surpreso se soubesse o que um estrangeiro é obrigado a ouvir em Roma. Talvez tenha ocorrido a mesma coisa no auge da carreira de Napoleão. A propósito, o senhor poderia me explicar por que o imperador nunca se uniu à sua própria capital, Paris, por que se limitou ao noivado, sem com ela contrair casamento?”

Mussolini sorriu e começou a responder em francês:

“Ses manières n’étaient pas très parisiennes. Talvez houvesse uma violenta tensão sobre ele. Além disso, ele tinha muitos adversários. Os jacobinos se colocaram contra ele porque ele esmagou a revolução, aqueles que eram voltados para a religião, por causa de sua disputa com o papado. Só as pessoas comuns gostavam dele. Eles tinham muita comida durante o governo de Napoleão e se impressionam mais com a fama do que aqueles que pertencem às classes educadas. O senhor não deve esquecer que a fama não é uma questão de lógica, mas de sentimento.”

“O senhor fala de Napoleão com simpatia! Parece que o seu respeito por ele não diminuiu durante o seu próprio controle do poder, o que o tornou capaz de compreender a situação dele a partir da experiência pessoal.”

“Pelo contrário, meu respeito por ele aumentou.”

“Quando ainda era um jovem general, ele disse que sempre se sentia tentado a ocupar um trono vazio. O que o senhor acha disso?”

Mussolini arregalou os olhos, como sempre faz quando se torna irônico, mas, ao mesmo tempo, sorriu.

“Desde o tempo em que Napoleão era imperador”, disse, “os tronos se tornaram bem menos tentadores.”

“É verdade”, respondi. “Ninguém quer ser rei hoje em dia. Quando, há algum tempo, disse ao rei Fuad do Egito: ‘Os reis devem ser amados, mas os ditadores, temidos’, ele exclamou: ‘Como eu queria ser um ditador!’ A história tem registros de algum usurpador que tenha sido amado?”

Mussolini, cujas mudanças de expressão sempre são um prenúncio das respostas (a não ser que ele queira esconder seus pensamentos), ficou sério mais uma vez. A expressão de energia constante foi relaxada, o que fez com que ele parecesse mais jovem do que costuma aparentar. Após uma pausa, e mesmo assim com hesitação, ele continuou:

“Talvez Júlio César. O assassinato de César foi uma desgraça para a humanidade”, e acrescentou em voz baixa: “Adoro César. Ele era único na maneira de combinar a força de vontade de um guerreiro com a genialidade de um filósofo. No fundo, ele era um filósofo que via tudo sub specie eternitatis. É verdade que ele tinha paixão pela fama, mas a ambição não o isolou da humanidade.”

“Então, apesar de tudo, um ditador pode ser amado?”

“Pode”, respondeu Mussolini com determinação renovada. “Desde que as massas também o temam. O povo adora homens fortes. O povo é como uma mulher.”

“Nos meus estudos sobre as grandes carreiras”, comecei, “sempre me preocupei em anotar um aspecto em particular do comportamento dos homens que deixaram o círculo em que cresceram: como se comportaram, por um lado, nas relações com os velhos amigos e, por outro, na solidão que a nova posição impôs aos mesmos. É aí que se revela a personalidade, ou parte dela. O que o homem faz em um conflito como esse entre a bondade humana e a autoridade? Não é natural que ele vá de um extremo a outro? Diga o que acontece quando um dos seus camaradas entra nessa sala! Como o senhor muda sem retomar uma das velhas discussões? Uma vez, o senhor escreveu (e essa é uma boa frase): ‘Somos fortes porque não temos amigos’.”

Quando se sentou à minha frente, Mussolini não fez nenhum gesto ou movimento, mas havia algo incomum, quase infantil, na expressão dele que me revelou que o assunto que eu havia abordado causara-lhe profunda agitação. Quando, por fim, ele respondeu, ficou claro que as suas palavras eram mais frias do que os seus sentimentos, e que ele não estava revelando todas as suas emoções e pensamentos.

“Não posso ter amigos. Não tenho amigos. Primeiro, por causa do meu temperamento, segundo, por causa da minha visão dos seres humanos. É por isso que evito tanto a intimidade quanto as discussões. Se um velho amigo me procura, o encontro é constrangedor para ambos e não dura muito. Só à distância acompanho as carreiras dos meus antigos camaradas.”

“O que acontece quando aqueles que foram amigos tornam-se adversários e o caluniam?”, perguntei, relembrando minhas experiências pessoais. “Qual dos seus velhos amigos permaneceu mais fiel ao senhor? Há algum antigo amigo cujo ataque violento ainda constrange o senhor?”

Ele permaneceu imóvel.

“Se aqueles que um dia foram meus amigos tornaram-se inimigos, o que me interessa saber é se são inimigos na vida pública. Se forem, eu os combato. Se não forem, eles não me interessam. Quando alguns antigos colaboradores me atacaram na imprensa, declarando que eu havia me apropriado de dinheiro pertencente a Fiume, isso, é claro, aumentou minha misantropia. Os meus amigos mais fiéis, eu guardo no fundo do coração, mas, em geral, eles mantêm distância. Justamente porque são leais! São pessoas que não buscam lucro ou ascensão e que, apenas em raras ocasiões, me fazem rápidas visitas.”

“O senhor confiaria a sua vida a eles ou a qualquer outro?”, perguntei. “O senhor tornou alguns deles membros do Gran Consiglio?”

“Três, e apenas por três anos”, disse ele secamente.

“Sendo essa a sua posição, sou levado a perguntar quando o senhor sentiu-se mais solitário. Foi na juventude, como no caso de D’Annunzio, quando estava fora em contato direto com os camaradas de partido, ou hoje em dia?”

“Hoje em dia”, respondeu sem um momento de hesitação. “Mas”, continuou após uma pausa, “mesmo no início, ninguém exercia qualquer influência sobre mim. Basicamente, eu sempre fui sozinho. Além disso, agora, embora não esteja preso, sou um prisioneiro de qualquer forma.”

“Como o senhor pode dizer isso?”, perguntei com considerável agitação. “Ninguém no mundo tem menos razões para fazer uma declaração dessas!”

“Por quê?”, perguntou, tendo a atenção concentrada na minha agitação.

“Porque ninguém no mundo pode agir com tanta liberdade quanto o senhor!”, continuei. Ele fez um gesto conciliatório e respondeu:

“Por favor, não pense que eu estou inclinando a lutar contra o meu destino. Ainda assim, até certo ponto, defendo o que acabo de dizer. O contato com assuntos comuns, uma vida espontânea no meio da multidão – para mim, na minha posição, essas coisas são proibidas.”

“O senhor só precisa sair para um passeio!”

“Eu teria que usar uma máscara”, respondeu. “Uma vez, quando, sem máscara seguia pela via Tritone, fui rapidamente cercado por uma multidão de trezentas pessoas, por isso não consegui dar um passo. Mas não acho minha solidão maçante.”

“Se a solidão lhe agrada”, eu disse, “como o senhor pode suportar os vários rostos que tem que ver aqui todo dia?”

“Percebendo apenas o que eles me dizem. Não deixo que entrem em contato com o meu interior. Não me emociono mais com eles do que com esta mesa e os papéis que estão sobre ela. No meio deles, conservo minha solidão intocada.”

“Nesse caso”, eu disse, “o senhor não tem medo de perder o equilíbrio mental? O senhor lembra como César, quando retornava de uma vitória no Fórum, trazia com ele na biga um escravo, cuja função era lembrá-lo continuamente da nulidade de todas as coisas?”

“Claro que lembro. O rapaz tinha de lembrar o imperador do fato de que ele era um homem e não um deus. Mas, hoje em dia, esse tipo de coisa é desnecessário. Da minha parte, de qual- quer maneira, nunca tive nenhuma inclinação para imaginar-me um deus, sempre tive profunda consciência de que sou apenas um mortal, com todas as fraquezas e paixões da mortalidade.”

Ele falou com óbvia emoção e depois continuou em tom mais calmo:

“O senhor está sempre preocupado com o perigo que pode resultar da falta de oposição. Esse perigo seria real se vivêssemos tempos tranquilos. Mas, hoje em dia, a oposição é representada pelos problemas que têm de ser resolvidos, pelos problemas econômicos e morais que sempre pedem uma solução. Isso é o suficiente para não permitir que um governante durma! Além disso, criei uma oposição dentro de mim mesmo!”

“Parece que estou ouvindo Lord Byron”, eu disse.

“Com frequência eu leio tanto Byron quanto Leopardi. E quando me canso dos seres humanos, eu viajo. Se pudesse fazer tudo o que quisesse, eu estaria sempre no mar. Quando isso é impossível, contento-me com os animais. A atividade mental deles se aproxima da humana, e, mesmo assim, eles não querem nada de nós: os cavalos, os cães e o meu favorito, o gato. Ou, então, eu observo os animais selvagens. Eles personificam as forças básicas da natureza!”

Essa confissão me pareceu tão misantrópica que perguntei a Mussolini se ele achava que um governante precisava se inspirar no desprezo pela humanidade e não nos sentimentos generosos.

“Pelo contrário”, disse enfático. “Uma pessoa precisa de 99% de generosidade e apenas 1% de desprezo.”

Partindo dele, a declaração me surpreendeu e, para certificar-me de ter entendido bem, perguntei-lhe mais uma vez: “O senhor realmente acha, então, que os seres humanos merecem mais compreensão do que desprezo?”

Ele olhou-me com sua habitual expressão inescrutável e disse em voz baixa: “Mais compreensão e compaixão, muito mais compaixão.”

Essa declaração lembrou-me que, quando lia os discursos de Mussolini, fui surpreendido várias vezes pelo que parecia ser uma exibição de altruísmo. Por que ele, o condottiere, se referia com tanta insistência aos interesses da comunidade? Fui levado a perguntar-lhe:

“Repetidas vezes, em frases excessivamente graciosas, o senhor declarou que um aperfeiçoamento da sua própria personalidade era a meta da sua vida, dizendo: ‘Quero fazer da minha vida uma obra-prima’, ou ‘Quero tornar minha vida muito eficiente’. Algumas vezes, o senhor citou a máxima de Nietzsche: ‘Viva perigosamente!’ Como pode então um homem de natureza tão orgulhosa escrever: ‘Minha principal meta é a promoção do interesse público’? Não existe, aí, uma contradição?”

Ele ficou impassível.

“Não vejo nenhuma contradição”, respondeu. “É perfeitamente lógico. O interesse da comunidade é um assunto comovente. Estando a serviço dele, enriqueço minha própria vida.”

Fui pego de surpresa e não pude encontrar uma resposta efetiva, mas citei as próprias palavras do ditador: “Sempre tive uma perspectiva altruísta da vida.”

“Sem dúvida”, disse ele. “Ninguém pode isolar-se da humanidade. Aí temos algo de concreto – a humanidade da raça a qual pertenço.”

“A raça latina”, interrompi, “nela incluem-se os franceses.”

“Já declarei, ao longo de uma destas conversas, que não existe uma raça pura! A crença de que ela existe é uma ilusão da mente, um sentimento. Mas essa crença deixa de existir só por ser uma ilusão?”

“Sendo assim”, eu disse, “um homem pode escolher a raça a que deseja pertencer.” “Claro.”

“Bem, escolhi ser mediterrâneo e, nesse ponto, tenho um aliado formidável em Nietzsche.” O nome despertou na mente de Mussolini uma associação e, em alemão ele citou uma das declarações mais orgulhosas de Nietzsche: “Pareço esforçar-me para ser feliz? Eu me esforço no interesse do meu trabalho!”

Chamei a atenção para o fato de que aquela ideia, na verdade, se originara de Goethe e perguntei se ele concordava com a opinião de Goethe de que o caráter é moldado pelos revezes do destino.

Ele concordou com a cabeça: “Devo o que sou às crises que tive que superar e às dificuldades que tive que vencer. Portanto, todos devem correr riscos.”

“Por isso o senhor põe em jogo o seu trabalho e a si, correndo riscos desnecessários.”

“A vida tem seu preço”, respondeu. “Não se pode viver sem correr riscos. Hoje mesmo participei de uma luta mais uma vez.”

“Se a sua visão fosse coerente, o senhor não tentaria se proteger”, eu disse. “Eu não tento”, respondeu.

“O quê!”, exclamei. “O senhor não reconhece que várias vezes algum dos seus inimigos arrisca a própria vida na esperança de privá-lo da sua?”

“Eu entendo aonde o senhor está querendo chegar. Também sei dos rumores que correm. Dizem que sou vigiado por mil policiais e que toda noite durmo em um lugar diferente. Na realidade, durmo toda noite na Villa Torlonia e dirijo ou ando a cavalo quando e para onde quiser. Se tivesse de pensar constantemente na minha própria segurança, me sentiria humilhado.”

“Diga-me”, falei para concluir, “qual a importância da fama na sua vida? Não é essa a motivação mais forte para um governante? A fama não é a única maneira de escapar da morte? Ela não é a sua principal meta desde que o senhor era um menino? Todo o seu trabalho não é movido pelo desejo de se tornar famoso?”

Mussolini permaneceu imperturbável.

“A fama não me atraía quando eu era menino”, disse, “e não concordo que o desejo de se tornar famoso seja a mais forte das motivações. No que se refere à morte, o senhor tem razão; existe um certo consolo em saber que não se está completamente morto quando se é famoso. Mas meu trabalho nunca foi exclusivamente direcionado pelo desejo da fama. A imortalidade é garantida pela fama.” Ele fez um gesto largo em direção a um futuro remoto e incontrolável e acrescentou:

“Mas ela vem – mais tarde.”

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 135 e 143.
OperaMundi

Bebê espantado,Blog do Mesquita

É Froidi – Drops & Picles

Da série “Meu ofício é incomodar”
Cadê o Queiroz?
Quem matou Mariele?
Cadê o esfaqueador?
Só chamando o Herculano QuintanilhaBola de Cristal,Blog do Mesquita,O Astro

Imagina você entrando nessa Catedral em Campinas e o padre com uma 12 do lado da Bíblia?
Uma mistura de Gunslinger com Priest!

Armas,Igreja,Blog do Mesquita

Fotografias,Animais,Cavalos,Blog do Mesquita 3


Vamos fazer as contas?
Fernanda Montenegro é atriz desde antes de 1951, e a Lei Rouanet foi criada em 1991.
Em 1991, ela já era um ícone da dramaturgia no país e conhecida mundialmente.
Como ela só ficou famosa por quê “mama” na Lei Rouanet?
A NASA precisa estudar os devotos da “famiglia”.


Chega!
Ela tem um livro: Jesus no pé de goiaba! Dá pra acreditar?
“Eu vi Jesus no pé de goiaba”, diz Damares Alves, futura ministra de Bolsonaro.


Ministra-pastora propõe relativizar o estupro, humanizar o estuprador e punir a mulher tonando o aborto crime hediondo. Uma inacreditável peça de violência contra a mulher em três atosFreira,Terror,Blog do Mesquita


Ontem foi o Dia Mundial do Palhaço, mas aqui no Bananil, o dia durará, no mínimo quatro anos.

Se abrir a porta para maluco, ninguém a fechará mais.
Reunião dessa turma dos parafuso solto. Olhem só o futuro ministro da Ciência e Tecnologia participando das reuniões do Gabinete de Transição do novo(?) governo, vestido de astronauta.Bolsonaro, Astronauta

O mais triste, desesperador, é que ainda tem muito espaço para piorar.
“Vamos tratar meninas como princesas e meninos como príncipes”, diz futura ministra –
A pastora Damares Alves defendeu o que chamou de uma contrarrevolução cultural. Cuma? Hahahaha.


Inacreditável: Alberto Fraga – bancada da bala, não se reelegeu e é “cliente” da Lava Jato – acaba de culpar a Rede Globo pelo atentado ocorrido em Campinas, em que um homem abriu fogo na catedral, matou quatro e cometeu suicídio. “Esse tipo de atitude deve-se à repercussão da Rede Globo de casos isolados dos EUA sendo repercutidos aqui”. “Quiuspa”!Brasil,Política,Humor


A xenofobia, a rejeição da pluralidade, a mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior e a construção de bodes expiatórios se transformaram em tendência mundial. É preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos extremistas. Também é necessário fortalecer a coesão coletiva


Fabrício Queiroz,Motorista,Bolsonaro


O Junior, “parça” do motorista desaparecido, Filhinho disse que ia invadir a Venezuela. Será que ele mantém a promessa? Se só com a Venezuela sozinha já não iria conseguir, imagine agora com a Rússia. Vai que é sua, Bozinho!Aviões,Bombardeiros,Rússia,Venezuela,Bolsonaro


Mais um.
Ricardo Salles gastou R$ 260 mil para propaganda eleitoral antecipada, diz MP
Procuradoria acusa novo ministro do Ambiente de abuso de poder econômico na eleição
Ricardo Salles gastou R$ 260 mil para propaganda eleitoral antecipada, diz MPBolsonaro,Brasil,COAF,Corrupção


Mudança no mundo das histórias infantis: sai “João e o Pé de Feijão”, entra “Jesus e o Pé de Goiaba”.
Mas é bom tomar cuidado. Depois de ouvir a versão contada pela tia Damares, a criança fica uma semana sem dormir.



Não escapa ninguém. Só tem ladrão. Tudo com rabo preso apontando o rabo preso dos outros.
PSC, PT e PSOL aparecem em relatório do Coaf.


Tem que ser interditada. Na frente da tia da goiabeira, Paschoal é um modelo de sanidade e equilíbrio emocional.

O garotinho do filme “Sexto Sentido”
– Eu acho que vejo gente morta!
Ministra do Bozó:
– Fica quieto moleque, eu vejo Jesus na goiabeira o tempo e, nem por isso fico dando bandeira, fica quieto senão internam a gente!

Meu pé de Laranja, Laranja.

Alguma notícia de como funciona o Programa Minha Laranja Minha Vida?
PF fazendo buscas nas casas dos envolvidos? Um Plantão da Globo mostrando PowerPoint? Algo?Laranjas,Corrupção,Lavagem de dinheiro,Blog do Mesquita
Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,Extermínio

Biografia de Hitler lembra como uma democracia vira ditadura

Talento de ator, força como orador de massa, esperteza política são algumas das características pessoais que explicam o “caso Hitler”, diz biógrafo. Mas não eximem os alemães da culpa pelo Holocausto.

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioFoto de Adolf Hitler
Características pessoais de Adolf Hitler foram essenciais para sua ascensão e queda

A cultura alemã da memória está sob ataque dos populistas de direita. Eles querem o fim da abordagem autocrítica da era nacional-socialista, declarando-a um mero interlúdio numa história, de resto, gloriosa. Exemplo disso foi a declaração do presidente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), Alexander Gauland, minimizando Adolf Hitler e os nazistas como um “cocô de passarinho em nossa história mais do que milenar”.

Para o historiador e jornalista Volker Ullrich, declarações como essa são perigosas do ponto de vista histórico-político: “Quem pratica esse tipo de manipulação eufemística da história deve saber que está balançando os fundamentos da república”, condena Ullrich, que acaba de publicar o segundo e último volume de sua biografia de Hitler.

Ele apresenta o “caso Hitler” como um exemplo cautelar, demonstrativo da rapidez com que a democracia pode ser desmontada e de quão fina é a camada separando a civilização da barbárie.

Já em seu primeiro volume, lançado em 2013, sobre os anos anteriores à eclosão da Segunda Guerra Mundial, Ullrich colocara a pessoa do ditador no centro de sua análise – na contramão da tendência predominante na pesquisa sobre o nazismo, há anos concentrada de forma crescente nas condições estruturais que levaram à ascensão e domínio nacional-socialista.

O historiador não deixa essas questões de fora, mas ao mesmo tempo enfatiza as características pessoais de Hitler que fizeram dele um “Führer” tão atraente para tantos alemães: seu talento de ator, sua força como orador de massa e organizador, assim como a esperteza em adaptar-se rapidamente a mudanças na situação política.

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioNazistas tomam o poder no Reichstag de Berlim, em 30/01/1933

Hitler como pessoa

Nas 894 páginas do segundo volume, Adolf Hitler – Die Jahre des Untergangs 1939-1945 (literalmente: Os anos da queda), o biógrafo prossegue de forma consequente, sobretudo na avaliação do papel do líder nazista como supremo senhor da guerra e no Holocausto.

Sua tese é que se, por um lado, o assassinato dos judeus europeus não teria sido possível sem milhares de ajudantes, ele tampouco o seria sem a pessoa do ditador nascido na Áustria. Já na radicalização da política para com os judeus até 1939, ele detinha o controle sobre a sequência das ações, como última instância – um padrão que se repetiu nos tempos de guerra.

Ullrich mostra que o genocídio não foi precedido apenas pela declaração geral de intenção de Hitler pelo extermínio sistemático dos judeus europeus: em diversos casos foi necessária sua aprovação pessoal – fosse para obrigar os semitas a portar a estrela de Davi ou para deportá-los do território do Reich.

Foi no papel de supremo senhor da guerra que vieram à tona os déficits pessoais do ditador, acredita Ullrich. Entre eles, não só a propensão a subestimar o adversário, como a muito mais grave tendência de apostar tudo numa carta só.

Hitler reagiu com acessos de ira e ódio às derrotas no front oriental, achando que sabia tudo melhor e punindo também pessoalmente os membros do comando supremo da Wehrmacht. Contrariando o costume até então, nas reuniões estratégicas ele não dava mais a mão a nenhum dos presentes, e durante um tempo deixou de participar do almoço e jantar coletivos.

O autonomeado “Feldherr” (comandante de campo) possivelmente se envergonhava diante dos militares de carreira, supõe Ullrich: “Ele permanecia longe do alto escalão não só por seu ressentimento para com os militares, mas também por não mais poder se apresentar diante deles na pose superior de comandante-gênio.”

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioAdolf Hitler e outros oficiais nazistas participam de congresso do Partido Nazista em 1936
Oficiais nazistas participam de congresso do Partido Nacional-Socialista em 1936. A dír., Hilter

Sem desculpas para os alemães

Nascido em 1943, o historiador e jornalista Volker Ullrich dirigiu de 1990 a 2009 a seção “Livro político” no semanário hamburguês Die Zeit. Por sua atuação como publicista recebeu, entre outros, o Prêmio Alfred Kerr de 1992.

Para sua apresentação sobre Hitler, erudita e de leitura fluente, o autor pesquisou numerosos documentos de arquivo. Com essa avaliação pessoal, contudo, ele não deixa nenhuma brecha para desculpas – nem para os generais, que depois de 1945 tentaram minimizar a própria participação na catástrofe moral e militar, apontando para Hitler.

E tampouco para os alemães, em si, que após o Holocausto pretenderam de nada saber: “Desse modo, procede que apenas alguns poucos alemães sabiam tudo sobre a ‘solução final’, mas também eram muito poucos os que não sabiam de nada.”Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioDW

FBI: Crimes de ódio nos EUA crescem e atingem principalmente negros e judeus

Comportamento,Racismo,Negros,Judeus,AméricaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image caption

No mês passado, 11 pessoas foram mortas no ataque mais letal contra judeus na história dos EUA
O número de casos classificados pelo FBI como crimes de ódio nos Estados Unidos cresceram 17% em 2017, na comparação com 2016. De acordo com os dados da polícia federal americana, é o terceiro ano consecutivo em que há aumento neste tipo de incidente, definido por ser motivado por preconceito.

Órgãos oficiais registraram 7.175 crimes de ódio no ano passado, contra 6.121 em 2016. O aumento destes crimes é atribuído em parte à adição de cerca de mil departamentos de polícia que passaram a registrar esses incidentes.

Por que este professor americano sustenta que é mito o discurso de que armas são eficazes para defesa pessoal.

O relatório constatou que o crescimento de casos afetou especialmente negros e judeus.

Dos ataques registrados em 2017, aqueles motivados por questões raciais (um total de 4.131) concentram-se em incidentes envolvendo vítimas negras (2.013).

Comportamento,Racismo,Negros,Judeus,América

O procurador-geral interino dos EUA, Matthew Whitaker, caracterizou o relatório como um “apelo à ação” e condenou os crimes como “violações desprezíveis de nossos valores centrais como americanos”.Comportamento,Racismo,Negros,Judeus,América

O que mais o relatório mostra?
Segundo o relatório, 59,6% dos incidentes foram motivados por preconceito contra raça, etnia ou ascendência.

Crimes de ódio religioso constituíram 20,6% dos ataques; aqueles contra orientação sexual representaram 15,8%.

O FBI define crimes de ódio como uma “ofensa criminal contra uma pessoa ou propriedade motivada, no todo ou em parte, por um preconceito contra uma raça, religião, deficiência, orientação sexual, etnia, gênero ou identidade de gênero”.

Os dados de 2017 apontam que 5 mil ataques registrados foram feitos por meio de intimidação ou agressão.

Cerca de 3 mil tinham como alvo propriedades, o que inclui vandalismo e roubo.

Crimes de ódio contra judeus tiveram um aumento de 37% em relação a 2016.

A publicação vem um mês depois que 11 judeus foram mortos por um atirador que invadiu uma sinagoga em Pittsburgh, fazendo deste o ataque mais mortífero contra judeus na história dos EUA. O suspeito foi acusado de dezenas de crimes de ódio.

Crimes contra afroamericanos tiveram um aumento de 16%.

Comportamento,Racismo,Negros,Judeus,AméricaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image caption

Cartaz em protesto nos EUA pede união de pessoas com origens étnicas diferentes na defesa dos direitos humanos

Como foram as reações aos dados?
Defensores dos direitos civis dizem que os números são subestimados, já que muitas vítimas optam por não apresentar denúncias; além disso, estas organizações apontam que muitas corporações não mantêm estatísticas precisas ou confiáveis.

Jonathan Greenblatt, da Liga Judaica Antidifamação, disse que o relatório “acrescenta evidências de que mais deve ser feito para enfrentar o clima divisivo do ódio na América.”

“Isso começa com líderes de todas as esferas da vida e de todos os setores da sociedade condenando vigorosamente o antissemitismo, o fanatismo e o ódio sempre que ele ocorre”.

A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) classificou os dados como “estarrecedores” e apontou que eles deveriam exigir “atenção total do Congresso”.

Racismo em Harvard?

Governo dos EUA diz ver racismo em seleção de alunos asiáticos em Harvard

Reprodução
Alunos acusam entidade de racismo no momento de seleção (Wikicommons/Reprodução)

Departamento de Justiça norte-americano concorda que alunos sofreram discriminação racial em processos de admissão da universidade. 

 

Justiça dos Estados Unidos apresentou nesta quinta-feira (30/08) uma declaração em que diz ver discriminação racial de estudantes asiáticos em processos de admissão da Universidade de Harvard. O texto cita uma ação movida pelos alunos. 

De acordo com o documento, a instituição de ensino “não conseguiu demonstrar que não discrimina ilegalmente os americanos asiáticos”. O processo, apresentado por estudantes e organizações de origem asiática sediadas no país, argumenta que a administração da entidade agiu intencionalmente com distinção racial, fato que viola a da Lei de Direitos Civis de 1964. 

O Procurador Geral dos EUA, Jeff Sessions, disse que “nenhum norte-americano deve ter a admissão negada por sua raça”. Ainda, a Suprema Corte diz que “permite faculdades e universidades considerem a raça nas decisões de admissão, mas afirma que isso deve ser feito de maneira restrita para promover a diversidade e deve ser limitado no tempo”. 

No texto, o órgão também acusa Harvard de adotar avaliações subjetivas no momento de avaliação de candidatos, alegando que há uma “avaliação pessoal” em que se leva em conta se o aluno é uma “boa pessoa” e suas “qualidades humanas”. Em resposta, a universidade admite que, em média, classifica candidatos asiáticos abaixo nesta categoria em comparação a concorrentes de outras origens.

O texto do Departamento de Justiça também fala em “evidências substanciais” que demonstram que comitês acadêmicos oficiais “monitoram e manipulam a composição racial das classes que entram” e classifica o fato como inconstitucional e “equilíbrio racial”. 

Histórico de acusações 

O início das acusações no caso de racismo contra Harvard começou em 2014, quando organizações sem fins lucrativos apresentaram denúncias de discriminação ao Tribunal Federal de Boston. Desde então, a “avaliação pessoal” é o tema que mais ganha atenção por parte do Departamento de Justiça. 

A categoria, afirmou o órgão desde então, reforça o estereótipo racial e é ilegal, já que prejudica alunos no acesso a programas de ensino do país.
ÓperaMundi