Outlet de propaganda chinesa pagou US $ 19 milhões a jornais por publicidade

Um dos principais meios de propaganda da China pagou aos jornais americanos quase US $ 19 milhões por despesas de publicidade e impressão nos últimos quatro anos, de acordo com documentos arquivados no Departamento de Justiça.

Nicolas Asfouri – Pool/Getty Images

O China Daily, um jornal em inglês controlado pelo Partido Comunista Chinês, pagou mais de US $ 4,6 milhões ao The Washington Post e quase US $ 6 milhões ao The Wall Street Journal desde novembro de 2016, mostram os registros.

Ambos os jornais publicaram suplementos pagos que o China Daily produz chamados “China Watch”. As inserções foram projetadas para parecerem com artigos de notícias reais, embora muitas vezes contenham uma opinião pró-Pequim sobre os eventos de notícias contemporâneos.

Uma publicação de setembro de 2018 divulgou uma iniciativa promovida pelo presidente chinês Xi Jinping com a manchete: “Cinturão e Rota se alinham com os países africanos”. A mesma publicação publicou uma matéria intitulada “Tarifas para cobrar pedágio nos compradores de casas nos EUA”, que afirmavam que as tarifas dos EUA sobre madeira chinesa aumentariam o custo de construção de casas nos Estados Unidos.

O China Daily também pagou pela publicidade em vários outros jornais: The New York Times (US $ 50.000), Política Externa (US $ 240.000), The Des Moines Register (US $ 34.600) e CQ-Roll Call (US $ 76.000).

Gastou um total de US $ 11.002.628 em publicidade nos jornais dos EUA e outros US $ 265.822 em publicidade no Twitter.

O China Daily também pagou mais de 7,6 milhões de dólares a jornais e empresas de impressão por seus jornais para os leitores dos EUA, mostra o arquivo do Departamento de Justiça.

Estações da PBS que receberam milhões em fundos federais firmaram parceria com agente estrangeiro chinês em filme pró-Pequim.

O Los Angeles Times, o Seattle Times, o Atlanta Journal-Constitution, o Chicago Tribune, o Houston Chronicle e o Boston Globe estão todos listados como clientes do China Daily. A agência chinesa pagou ao Los Angeles Times US $ 657.523 por serviços de impressão, segundo os registros da FARA.

Uma mulher usando uma máscara é vista após um retrato do presidente chinês Xi Jinping em Xangai (REUTERS / Aly Song)

O Departamento de Justiça exige há anos que o China Daily divulgue suas atividades semestralmente sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA). O arquivo mais recente, enviado pelo China Daily em 1º de junho, é o primeiro a incluir detalhadamente os pagamentos aos meios de comunicação americanos. O canal divulgou essas despesas para o período entre novembro de 2016 e abril de 2020.

Não está claro se o China Daily enviou os arquivos mais detalhados sob pressão do Departamento de Justiça ou por conta própria.

Grupos pró-democracia há muito tempo alertam sobre as tentativas do governo chinês de fazer propaganda através dos meios de comunicação americanos. A Freedom House e a Hoover Institution chamaram a atenção para as inserções pagas do China Daily em relatórios sobre os esforços do governo chinês para influenciar a mídia.

O China Daily e outras fábricas de propaganda controladas por Pequim estão sob intenso escrutínio em meio à pandemia de coronavírus. Autoridades do governo chinês tentaram desviar a culpa pela disseminação do vírus para os Estados Unidos e outras nações ocidentais. Muitos dos veículos controlados pelo regime, incluindo o China Daily, ecoaram os argumentos dos líderes comunistas.

O China Daily diminuiu seus gastos com publicidade nos últimos meses, mostram os registros. O China Daily pagou pela última vez ao Washington Post por publicidade em dezembro de 2019. Seus pagamentos ao The Wall Street Journal foram menos da metade do seu valor médio desde fevereiro de 2020, mostram os documentos.

Fonte: Chuck Ross/Dayly Caller

‘Ativismo de marca’ e protestos contra o racismo: como saber se as empresas praticam o que dizem

À medida que as manifestações públicas de indignação após o assassinato de George Floyd, um homem negro, cresciam nos EUA, várias empresas levantaram a voz ao lado dos manifestantes.

O movimento Black Lives Matter luta contra a violência policial contra negros nos EUA – Direito de imagem GETTY IMAGES

Houve declarações de apoio e promessas de doações ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam) e grupos de direitos civis por parte de uma ampla gama de empresas de variados setores, de finanças e alimentos a moda e entretenimento.

Mas algumas das marcas estão sendo acusadas de hipocrisia.

Essas empresas estão genuinamente envolvidas na causa antirracista ou estão apenas tentando lucrar em cima do movimento?

Conheça o ‘ativismo de marca’

As empresas têm adotado cada vez mais o que é conhecido como “ativismo de marca”, adotando uma posição sobre questões sociais, ambientais ou políticas.

A tendência é impulsionada pelo comportamento do consumidor. Mais e mais pessoas esperam que as empresas contribuam positivamente para a sociedade.

Uma pesquisa de 2018 em 35 países mostrou que 64% dos consumidores recompensariam empresas que consideram engajadas em algum tipo de ativismo.

“Portanto, não é de surpreender que tenhamos visto muitas empresas se posicionarem publicamente depois do que aconteceu com George Floyd”, diz Pepper Miller, consultora de diversidade de Chicago, nos EUA, à BBC.

“Nas ruas, a resposta também foi significativa. Houve até protestos na Finlândia. É difícil para as empresas ignorarem isso.”

No entanto, Miller, que aconselha as empresas a trabalharem e pesquisarem mais para entender os consumidores negros há mais de 20 anos, tem suas dúvidas sobre a mais recente onda de “ativismo de marca”.

Negros no comando

No caso do apoio corporativo ao Black Lives Matter, ela diz que, embora muitas empresas tenham adotado rapidamente a hashtag do movimento em redes sociais, elas não parecem demonstrar o mesmo entusiasmo em seu quadro de diretores.

A especialista em marketing Pepper Miller (ao centro) diz que as empresas precisam ter atitudes compatíveis com seu discurso
Direito de imagem COURTESY OF PEPPER MILLER

Em 2020, apenas quatro das 500 maiores empresas americanas tinham um diretor-executivo negro.

“As empresas precisam fazer planos de longo prazo para inclusão social e igualdade racial que sejam mais do que apenas dizer que eles ‘apoiam pessoas negras'”, diz Miller.

“Mas a experiência mostra, no entanto, que prática não funciona assim. A maioria das iniciativas é pontual.”

A questão sobre a falta de diversidade nos quadros de diretores atingiu até marcas grandes como a Nike.

Em 2018, a Nike lançou uma forte campanha com o astro do futebol americano Colin Kaepernick.

Kaepernick havia sido afastado da NFL (Liga Nacional de Futebol dos EUA) depois de se ajoelhar, em protesto contra a violência policial, durante o hino nacional em uma partida em 2016.

Desde então, o gesto foi reproduzido por muitos, incluindo políticos, mas na época custou ao jogador o seu contrato com o time dos San Francisco 49ers.

A Nike, no entanto, o contratou para ser um dos rostos da sua campanha de 30º aniversário. A empresa enfrentou protestos e ameaças de boicotes, mas também recebeu muitos elogios — e viu um aumento nas vendas, indicando que a ação com o jogador foi bem vista pelos consumidores.

Mas logo as atenções se voltaram para a diversidade dentro da empresa. Em 2019, menos de 10% de seus 3.000 vice-presidentes ao redor do mundo eram negros.

“No último ano, nós ampliamos nossos próprios esforços e medidas de responsabilidade nas áreas de diversidade, inclusão e pertencimento para criar um ambiente que atraia uma força da trabalho mais diversa”, disse o diretor-executivo da Nike, John Donahue, no dia 5 de junho.

A Nike colheu benefícios de sua campanha com Colin Kaepernick, mas foi questionada por suas políticas internas de diversidade
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A empresa também prometeu investir 40 milhões de dólares nos próximos quatro anos para apoiar a comunidade negra nos Estados Unidos.

“O racismo sistêmico e os eventos que ocorreram nos Estados Unidos nas últimas semanas servem como um lembrete urgente da mudança contínua necessária em nossa sociedade”, acrescentou Donahue.

Pesquise quantos negros trabalham na empresa

Os ativistas estão pedindo que todas as empresas “assumam” o quão diversas elas são.

Sharon Chuter, uma ex-executiva nigeriana da indústria da beleza e fundadora da marca doméstica Uoma, lançou a campanha “Pull Up or Shut Up” (algo como “levante ou cale a boca”, em tradução livre). É um desafio para as marcas de beleza divulgarem o número de negros que trabalham para elas no nível executivo e para pedir ao público para não comprar das empresas que se recusam a fazê-lo.

A página do Instagram da campanha está cheia de posts de empresas que divulgam essas informações.

Apenas 4 das 500 maiores empresas americanas tem um CEO negro
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A hashtag #PullUpOrShutUp foi adotada por influenciadores como o youtuber Jackie Aina.

“Como sabemos, existem muitas marcas que adoram ganhar dinheiro com a cultura negra, a música negra, a estética negra, mas ficam caladas quando se trata de falar sobre questões e lutas negras em nossa comunidade”, disse Aina em um vídeo no Instagram, publicado no início de junho, com mais de 1,7 milhão de visualizações até o momento.

‘Vote com sua carteira’

A famosa ativista Brea Baker adverte as empresas que campanhas em redes sociais não são suficientes e que “os consumidores estão prestando atenção”.

A publicação antirracismo da empresa francesa de cosméticos L’Oreal no Instagram foi criticada, por exemplo. Os comentários das pessoas se referiram à sua decisão de despedir a transgênero e modelo negra Munroe Bergdorf em 2017.

Bergdorf criticou os violentos protestos nacionalistas brancos na cidade americana de Charlottesville, dizendo: “Honestamente, não tenho mais energia para falar sobre a violência racial dos brancos. Sim, TODOS os brancos”.

A ativistas Brea Baker diz que as empresas não podem fazer apenas o mínimo
Direito de imagem COURTSEY OF BREA BAKER

Na época, a L’Oreal disse que seus comentários estavam “em desacordo” com os valores da empresa e ela foi dispensada.

Mas, em 9 de junho, L’Oreal e Bergdorf publicaram uma “publicação conjunta” no Instagram anunciando que a modelo havia sido contratada como consultora para questões de diversidade e que a empresa havia prometido doações para instituições de caridade que trabalham com jovens transexuais e minorias.

No post, a presidente da L’Oreal, Delphine Viguier, pediu desculpas à modelo.

“Eis o que ouvi de Munroe Bergdorf: há três anos, Munroe se sentiu silenciada por uma marca, a L’Oréal Paris, que tinha o poder de ampliar sua voz. Lamento a falta de diálogo e apoio que a empresa mostrou a Munroe ao longo do tempo. Deveríamos também ter feito mais para criar uma conversa sobre mudanças, como estamos fazendo agora.”

Baker diz que, enquanto algumas empresas estão respondendo à pressão “com o mínimo de postagens nas redes sociais”, os consumidores estão observando as que “estão fazendo jus ao momento doando grandes quantias de dinheiro, elevando os recursos antirracistas e ecoando os chamados ao ativismo”.

Em exemplo famoso de como as pessoas podem responsabilizar marcas que são consideradas prejudiciais a certas causas ocorreu quando o Uber lucrou com o protesto de taxistas de Nova York contra a proibição do presidente Donald Trump da entrada de cidadãos de vários países de maioria muçulmana no país, em 2017.

A empresa se desculpou publicamente e negou ter feito esforços para prejudicar a greve, mas em pouco mais de dois dias 200 mil pessoas excluíram suas contas do Uber. A empresa rival Lyft superou-a pela primeira vez em downloads de aplicativos.

“O consumidor quer marcas que se preocupam com uma série de questões, incluindo direitos humanos e aquecimento global”, explica Adam Stones, estrategista de comunicação de Amsterdã. “Mas as empresas precisam praticar o que pregam ou sua mensagem será vista como desrespeitosa”.

Stones está convencido de que os profissionais de marketing e as empresas não devem subestimar como os consumidores levando em consideração questões maiores quando estão comprando.

“As pessoas não são ingênuas. Uma empresa que tentar ganhar sua confiança sem a intenção de mudar de fato será descoberta pelos clientes e até pelos investidores”, alerta o especialista.

Os clientes gostam de negócios que buscam um “propósito” além do lucro, investindo em benefícios sociais, comunitários e ambientais.

Um relatório da consultoria Korn Ferry mostrou que as empresas que adotam essa filosofia viram suas vendas aumentarem a taxas quatro vezes maiores do que os concorrentes entre 2011 e 2015.

Essas empresas são conhecidas como “empresas-B”. Existem até certificações formais, como a certificação Fair Trade (Comércio Justo), que verifica diversos quesitos, incluindo a diversidade.

“As marcas estão sendo pressionadas a ser uma força do bem e algumas realmente foram bem-sucedidas”, diz Adam Stones. “As empresas-B são um tipo diferente de organização, necessário para agregar valor à sociedade”.

Mais de 3.200 empresas em 71 países e mais de 150 indústrias são “empresas-B certificadas”, que são legalmente obrigadas a pensar além do lucro.

A lista, que agrupa empresas por países, cidades e setores, está disponível gratuitamente online.

Empresas menores com um “perfil disruptivo” formam a maioria das empresas-B. Mas existem algumas empresas maiores assumindo a filosofia do “propósito e lucro”.

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Consumidores cada vez mais querem políticas responsáveis das empresas
A Ben & Jerry’s, fabricante americana de sorvetes, não apenas manteve a certificação de “empresa-B” que obteve no ano anterior, mas também teve um aumento em sua “pontuação de impacto” – uma medida de engajamento ético realizado por terceiros.

A empresa causou alvoroço durante os protestos após o assassinato de George Floyd, emitindo uma declaração forte denunciando a “cultura da supremacia branca” na América.

Não é a primeira vez que Ben & Jerry’s se posiciona. Eles têm um histórico de “ativismo de marca” que inclui apoio ao casamento gay e até mesmo um sabor “anti-Trump” chamado Pecan Resist.

A fabricante de sorvete Ben & Jerry’s tem um longo histórico de ativismo social
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Várias empresas anunciaram contribuições substanciais para causas antirracismo nos últimos dias – a Disney anunciou uma doação de 5 milhões de dólares e o Facebook prometeu outros 10 milhões, entre outros.

Mas essas doações nem sempre são suficientes se outras ações da empresa passam uma mensagem ambígua.

A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), uma das principais organizações de direitos civis da América, publica regularmente um relatório sobre como os membros do Congresso dos EUA votaram em questões de justiça racial.

Em 2 de junho, um relatório publicado no boletim Public Information mostrou que várias empresas que mencionaram o movimento Black Lives Matter também doaram centenas de milhares de dólares a legisladores que receberam as notas mais baixas da NAACP.

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O Uber perdeu milhares de consumidores que consideraram que a empresa havia boicotado um protesto anti-Trump em Nova York
“Sim, queremos ver as empresas financiando causas contra a injustiça social”, diz Nupol Kiazolu, ativista de 19 anos do movimento Black Lives Matter em Nova York. “Mas também queremos que essas empresas pressionem os representantes democraticamente eleitos a adotar políticas que resultem em mudanças reais, não dando dinheiro aos políticos que não estão nos ajudando, apesar de terem sido eleitos para representar o povo”.

Kiazolu é muito clara em sua mensagem aos consumidores: “A geração Z está levando as empresas a falar. Mas isso é apenas um primeiro passo. Também podemos quebrar vocês”, acrescenta ela.

Sherri Williams, professora assistente de Raça e Mídia da Universidade Americana de Washington, pergunta: “Quão genuíno é esse desejo de mudança?”

“Muitos desses problemas enfrentados pelos afro-americanos ocorrem há décadas e essas empresas costumam ficar caladas”, diz ela. “Algumas dessas empresas têm mais postagens sobre negros do que negros trabalhando para eles. As pessoas estão percebendo isso.”

Embora os protestos possam fracassar, ativistas como Brea Baker acreditam que houve uma mudança radical.

“As pessoas farão com que seja diferente. Quando as pessoas exigem das corporações e dos que estão no poder um padrão mais alto, estabelecem um novo patamar.”

Filipe Martins e a rede de mentiras agonizam: um tuiteiro nocauteou a grana de sites de fake news

Uma reportagem do El País revelou como um perfil no Twitter virou a grande pedra no sapato da extrema direita americana. Com o nome de Sleeping Giants, o perfil criado em 2016 expôs ao escracho público as marcas que anunciavam em sites de fake news.

Filipi Martins e Steve Bannon – Reprodução: Twitter/Filipe G. Martins

O perfil informava ao público os nomes das empresas e compartilhava as capturas de tela dos anúncios nas suas redes oficiais. A tática foi um sucesso, e as empresas se viram obrigadas a anunciar publicamente o bloqueio dos anúncios.

O Breitbart News é um site de extrema direita famoso por inventar histórias contra adversários de Trump. Durante a eleição presidencial, o site publicou a história de que a então candidata Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia e promovia orgias sexuais com crianças no porão de uma pizzaria. Após a ação do Sleeping Giants, o site viu ir embora mais de 4,5 mil anunciantes — um golpe que significou uma perda de mais de 8 milhões de euros. Steve Bannon, o guru da extrema direita internacional, era o proprietário do site e, à época, chamou o Sleeping Giants de “a pior coisa que há”. Como se sabe, Bannon é o homem por trás da engenharia de desinformação dos extremistas de direita no mundo inteiro. As mentiras que ajudaram a eleger Trump foram uma inspiração para o surgimento das mamadeiras de piroca que ajudaram a eleger Bolsonaro.

Um estudante que desenvolve pesquisas sobre fake news leu essa reportagem do El País e decidiu criar a versão brasileira do Sleeping Giants. Em apenas quatro dias, o perfil ultrapassou a marca de 200 mil seguidores e virou um movimento coletivo contra a propagação de mentiras. Para se ter uma ideia do sucesso brasileiro, o perfil americano juntou 270 mil seguidores em quatro anos. As marcas passaram a ser cobradas e quase todas empresas anunciaram o fim dos anúncios em sites que disseminam mentiras. O sucesso da tática enfureceu as hostes bolsonaristas, que imediatamente partiram para o contra-ataque.

Um dos que lideraram a manada foi Filipe Martins, esse projeto sorocabano de Steve Bannon. Ele é o bolsonarista mais próximo do americano e foi o responsável por aplicar o seu know-how de mentiras no Brasil. O jovem de 31 anos é, junto de Carlos Bolsonaro, um dos arquitetos por trás do “gabinete do ódio”, conhecido oficialmente como Assessoria Especial da Presidência. Nomeado por indicação de Olavo de Carvalho, Martins também é o responsável por fazer o meio de campo entre o governo e as milícias virtuais bolsonaristas: youtubers, blogueiros e sites de notícias falsas. É ele quem organiza o ódio bolsonarista e municia a militância com conteúdo.

O assessor especial provocou o criador do Sleeping Giants americano, Matt Rivitz, que causou aquele prejuízo milionário ao seu guru americano. É que no fantástico mundo olavista de Martins parece óbvio que há “forças globalistas” por trás da versão brasileira. O aprendiz de Steve Bannon chamou de “censura” e “prática totalitária” uma ação feita por livre iniciativa das pessoas que protestaram e das empresas privadas que optaram por retirar os anúncios. Onde está a turma do ultraliberalismo sem freio nessas horas? Cadê seu deus livre mercado agora?

O Sleeping Giants brasileiro começou focando nos anunciantes do site Jornal da Cidade Online, que já foi alvo de processos por publicação de mentiras e está sendo investigado pela CPMI das Fake News. O relatório da comissão afirma que há “indícios da prática de condutas ilegais de José Pinheiro Tolentino Filho por meio de seu projeto de comunicação Jornal da Cidade Online”. O site já teve que pagar 150 mil em indenização para o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, pela publicação de uma mentira sobre ele. Não é uma coincidência o fato dessa mentira ter sido publicada justamente na época em que Santa Cruz protagonizou um bate-boca público com Bolsonaro.

Assim como a maioria de sites e blogs ligados ao bolsonarismo, o Jornal da Cidade Online consegue faturar com anúncios através do Adsense, um serviço da Google que os distribui automaticamente para sites assinantes. Nesse formato, as empresas não escolhem para quais sites irão seus anúncios. É o algoritmo do Google que os distribui nos sites. Ao serem expostas como patrocinadoras de sites que publicam mentiras, as grandes marcas imediatamente se posicionaram.

Sleeping Giants Brasil
Oii @DellnoBrasil, tudo bem? Realmente seus notebooks são incríveis, só não acho legal divulga-los em site famoso por espalhar Fake News e atacar constantemente a democracia. Pls considere bloquear✊🏽#SleepingGiantsBrasil@DellnoBrasil
Assim que recebemos essa informação, solicitamos a retirada dos anúncios automáticos. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas.

Oii @ClaroBrasil, tudo bem? Realmente é muito mega hein mas não acho legal encontrar esse anúncio em uma postagem que chama o @felipeneto de “imbecil,lixo, ícone da canalhice e verme”. Por isso pedimos: PLS BLOQUEIE!✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@ClaroBrasil
Olá! Nós não compactuamos com a disseminação de notícias falsas, temos o compromisso ético com a transparência da informação. Por isso, todos os nossos anúncios automáticos estão passando por monitoramento, em conjunto com as plataformas parceiras, que distribuem tais conteúdos.

Oii @iFood, tudo bem? Realmente o app quebra um galho na hora de pedir um @McDonalds_BR quando bate aquela fominha, mas acreditamos que eles não gostariam de saber que seu lanche está ajudando a financiar um site divulgador de Fake News! ✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@McDonalds_BR
Nosso time já retirou do ar nossa mídia vinculada a esse site e a qualquer outro que compactue com notícias falsas. Obrigado!

@fastshop @fastshop_sac vocês também tem anuncio lá, vamos tomar providências?

@fastshop
Informamos que não temos vínculos com nenhum portal jornalístico. Estamos analisando os anúncios com nosso nome e removendo das plataformas que anunciam de forma automática através de sites de busca. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas. Agradecemos por nos avisar.

Philips BrasilSegundo levantamento do UOL, o Jornal da Cidade Online contava com 903 anunciantes. Durante pouco mais de um ano, todas essas empresas fizeram juntas 1.987 anúncios diferentes no site. O maior anunciante foi o Banco do Brasil que, ao ser confrontado no Twitter, também informou que retiraria os anúncios:

Oii @BancodoBrasil, tudo bem? Realmente é bom ter a facilidade de usar um app em tempo de pandemia, mas não precisava anuncia-lo em um site conhecido por espalhar Fake News e que é contra o isolamento social. Pls considere bloquear!✊🏽#SleepingGiantsBrasil

@BancodoBrasil
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Foi aí que o gabinete do ódio pegou fogo. Filipe Martins e Carlos Bolsonaro acionaram a rede virtual bolsonarista, que reagiu em peso junto com políticos e outros expoentes da extrema direita. A deputada bolsonarista Carla Zambelli, doPSL paulista, e o chefe da Secom, Fábio Wajngarten, também foram escalados para repudiar o episódio. Wajngarten, que cuida das verbas publicitárias do governo, disse que o governo irá “contornar a situação”e garantir a “defesa da liberdade de expressão”. Afirmou ainda ter certeza que o Jornal Cidade Online “faz um trabalho seríssimo”.

Para os padrões de seriedade de Wjangarten, que é investigado pelos crimes de corrupção, peculato e advocacia administrativa, a análise faz sentido. O Jornal da Cidade Online é um veículo tão sério que alguns de seus repórteres e colunistas não existem. O site publicava textos assinados por repórteres com identidades falsas para poder atacar ministros do STF e adversários políticos de Bolsonaro. O site também está sendo processado por atacar desembargadores do Rio de Janeiro e o ministro Gilmar Mendes com ofensas e mentiras usando esses perfis falsos.

Leandro Ruschel
@leandroruschel
Caro @jairbolsonaro e @secomvc , há um banco estatal discriminando site jornalístico, com inclinação conservadora, seguindo mera denúncia sem provas de perfil anônimo, aparentemente ligado à esquerda. É preciso rever essa decisão. https://twitter.com/BancodoBrasil/status/1263126286484082691 … Banco do Brasil
@BancodoBrasil
Respondendo a @slpng_giants_pt
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Logo após o resmungo de Carluxo no Twitter, o Banco do Brasil, cujo gerente executivo de Marketing e Comunicação é filho do vice-presidente da República, voltou atrás da decisão e manteve os anúncios no site de fake news. Ou seja, um vereador carioca, lotado não oficialmente no gabinete do ódio, interferiu na política de anúncios de uma estatal. O filho do presidente da República conseguiu manter as verbas públicas que irrigam um site que defende o bolsonarismo espalhando fake news. É o dinheiro do povo brasileiro sendo usado para financiar a rede de mentiras que sustenta o governo.

Parece que finalmente estamos tomando um bom caminho para combater a máquina de propaganda fascistoide do bolsonarismo. A tática de constranger marcas que apoiam iniciativas se mostrou importante e eficaz, mas o Google, que gerencia a maior partes dos anúncios na internet, também deve ser cobrado. É ela quem controla o algoritmo que ajuda a financiar esses sites. Em novembro do ano passado, o Intercept revelou como o Google ofereceu treinamentos grátis para ensinar blogueiros bolsonaristas e antipetistas a faturarem com Adsense. Muitos desses blogueiros eram notórios criadores de fake news. Não adianta a empresa lavar as mãos.

O criador do Sleeping Giants brasileiro pretende se manter no anonimato porque viu o criador da tática sofrendo sérias ameaças de morte nos EUA. Mexer com a extrema direita é sempre perigoso. E, quando seu núcleo central mantém ligações políticas e financeiras com as milícias, todo cuidado é pouco.

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Governo pede liberação da publicidade infantil e Conanda reage

Medida é critica também por pesquisadores, que destacam poder simbólico do incentivo ao consumo

A liberação da publicidade direcionada a crianças voltou ao debate público no Brasil. O pontapé para o retorno da discussão veio do governo federal, que solicitou, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, uma revisão da norma que veta a publicidade infantil e o uso de personagens infantis em anúncios comerciais.

O pedido foi encaminhado ao Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) por meio de uma nota técnica assinada pelo diretor de Formação, Desenvolvimento e Fortalecimento da Família, Paulo Tominaga, em março deste ano. Em abril, após ser oficialmente notificado, o colegiado emitiu, em resposta ao Ministério, um documento que se contrapõe à manifestação da pasta.

Na exposição de motivos, o Conanda sublinha que a Resolução nº 163, que proíbe conteúdos publicitários dirigidos a crianças e foi editada pelo colegiado em 2014, está respaldada pelo artigo 227 da Constituição Federal. O dispositivo prevê que os direitos de crianças e adolescentes devem ser promovidos e protegidos pelo Estado, pela família e pela sociedade.

A colocação rebate um dos argumentos utilizados pelo governo na nota técnica, segundo a qual essa competência seria exclusivamente da família, não cabendo a intervenção do poder público.

“Nessa questão do direcionamento de publicidade não é diferente: tanto o Estado quanto a família e a sociedade têm responsabilidade para colocar a criança a salvo desse tipo de assédio mercadológico. Então, nós entendemos ser uma constatação equivocada [a do Ministério] e que não observa a nossa Carta Magna”, afirma o coordenador de relações governamentais do Instituto Alana, Renato Godoy.

A entidade, que atua há mais de dez anos no tema, é uma das representantes da sociedade civil que têm assento no Conanda.

O posicionamento do Conselho também está alinhado com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que veda qualquer tipo de exploração desse público. O Conanda afirma que a publicidade dirigida ao segmento costuma violar a norma ao desrespeitar a condição de desenvolvimento de crianças e adolescentes e estimular problemas como o consumismo, a erotização precoce, os transtornos alimentares e comportamentais, entre outros.

Renato Godoy salienta que a orientação também se apoia no Código de Defesa do Consumidor (CDC). A legislação veta publicidade enganosa ou abusiva, o que inclui as que se aproveitam do pouco discernimento da criança para vender produtos ou práticas de consumo. Por esse motivo, as campanhas publicitárias somente podem ser dirigidas aos pais.

O entendimento tem jurisprudência consolidada no Brasil. Em 2016, por exemplo, a publicidade infantil foi considerada ilegal pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento de uma ação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que questionava uma campanha para promoção de panetones.

Os produtos vinham acompanhados de relógios de um personagem infantil e, por isso, tinham apelo mercadológico direcionado a crianças. Na ocasião, a empresa foi condenada a pagar R$ 300 mil de indenização.

“Reflexão crítica”

Outro argumento utilizado pelo governo no pedido de revisão da norma é o de que seria fundamental as crianças aprenderem a lidar com a publicidade e desenvolverem uma “reflexão crítica sobre a vida essas influências externas”.

Renato Godoy sublinha que o entendimento do ministério vai de encontro ao conhecimento já consagrado por especialistas do Brasil e do mundo de que o consumo de publicidade na infância é prejudicial ao desenvolvimento.

“Nós entendemos ser um sofisma, uma afirmação que não condiz com a realidade. Não há qualquer evidência empírica desse benefício de a criança entrar em contato com a publicidade. Ao contrário, temos inúmeras evidências de que a exposição delas à publicidade e aos estímulos consumistas traz uma série de consequências negativas pro desenvolvimento biopsicossocial. Publicidade não é educação”, sustenta o coordenador.

Pesquisas

A professora Inês Vitorino, vice-coordenadora do Laboratório de Pesquisa da Relação Infância, Juventude e Mídia da Universidade Federal do Ceará (LabGrim/UFC), também contrapõe as premissas apresentadas pelo governo.

Ela destaca que, ao questionar a norma que proíbe a publicidade infantil, o ministério deixou de observar as diferentes pesquisas que versam sobre o tema, incluindo as que foram financiadas pelo próprio Estado brasileiro. Entre elas, está um estudo financiado pelo Ministério da Justiça em 2014 para averiguar os impactos do consumo da publicidade por crianças de 9 a 11 anos.

Coordenada pelo LabGrim, a pesquisa entrevistou moradores de todas as regiões do país e identificou que os anúncios chegavam a provocar, por exemplo, conflitos entre pais e filhos; competição e violência entre crianças; sentimentos de frustração, tristeza e ira; além de desejo de consumo ligado a uma necessidade de aceitação entre grupos sociais.

“A publicidade, com muita perspicácia, dentro de uma lógica mercadológica, vende a essa criança que o produto vai trazer a alegria, a amizade de um colega, o amor e o reconhecimento das pessoas por ela e que ela precisa ter mais, mais e mais. É uma abordagem que desvirtua inteiramente o processo formativo”, analisa Inês Vitorino.

O estudo traz, entre diferentes orientações, a necessidade de atuação do Estado no que se refere ao acesso de crianças e adolescentes à comunicação de mercado. A vice-coordenadora do LabGrim ressalta que a intervenção estatal nessa área tem referência mundial.

“Ao nível internacional, a maior parte dos países considerados democráticos tem processos de regulamentação muito fortes em relação à publicidade, alguns mais, outro menos, porque isso depende de disputas de interesse de mercado nessas várias sociedades. Cada país encontrou seu caminho, suas formas de lidar com essa situação”, afirma.

Na região do Quebec, no Canadá, por exemplo, campanhas dessa natureza foram proibidas desde os anos 1980, em um processo que venceu o lobby de fabricantes de brinquedos e da indústria alimentícia. Países como Argentina, Inglaterra, França, Alemanha e Suécia também impõem restrições à publicidade infantil, com base no indicativo científico de que a prática tem efeitos danosos no desenvolvimento das crianças.

Diante disso, Inês Vitorino afirma que, além de dar um passo para trás, o Brasil tende a se colocar na retaguarda do mundo democrático caso decida banir a norma que proíbe a publicidade infantil.

“Eu pergunto: a quem serve essa lógica? É à lógica da criança ou à do mercado publicitário? É extremamente importante que a sociedade brasileira esteja atenta aos riscos que significam retirar a proteção legal que a criança hoje tem em relação ao direcionamento de publicidade pra ela”, defende a professora.

Ministério

O Brasil de Fato procurou ouvir o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos a respeito do tema e também especificamente sobre o posicionamento oficial emitido pelo Conanda, mas não houve retorno da assessoria de imprensa da instituição.