Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog doMesquita 11

Naomi Ayala – Breve – Poesia

Breve
Naomi Ayala

Aqui a fome morre –
no canto, atrás das redes,
– Como se a morte fosse rápida,
rápida como uma bala.

Aqui morre a esperança, morre –
debaixo da árvore em janeiro,
na sua bolsa de gelo,
nas ruas agredidas,
engolindo sons de sirenes –

malditas ambulâncias

– Nos becos escondidos,
nas casas sem saídas,
na pestilência dos edifícios.

A esperança morre
como uma criança morre
– como morrem
todas as crianças

Morrem como o teto perfurado sobre a cama
no ciclone de tiroteios.

Eles morrem como a raiva –
como se a morte fosse breve,

breve como a vida,
breve como um sonho,

ou uma bala, sim.

Gravura de Masha Shishova

Poesia,BlogdoMesquita 02

Eugênio de Andrade – …em lugar de sol, nevoeiro dentro de si

Ver Claro
Eugênio de Andrade

Toda a poesia é luminosa,
até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

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Marco Antonio Campos – Os poetas modernos

Os poetas modernos
Marco Antonio Campos

E o que ficou das experimentações,
da “grande estreia da modernidade”,
do “confronto com a página em branco”,
da pirueta rítmica e do
contra-ângulo da palavra,
de ultraístas e pássaros concretos,
de surrealizantes com sonhos de
náufrago em vez de terra firme,
quantos versos te revelaram um mundo,
quantos versos ficaram no teu coração,
diz-me, quantos versos ficaram no teu coração.

Brecht – Nunca diga não

Nunca
Bertold Brecht

Nunca digam: isso é natural!
Diante dos acontecimentos diários
Numa época em que reina a confusão
Em que escorre o sangue,
Em que se ordena a desordem,
Em que o arbitrário tem força d lei,
Em que a humanidade se desumaniza,
Nunca digam: isso é natural!

arte digital/colagem José Mesquita

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Paul Éluard – A noite

A noite
Paul Eluard

Teu olhar faz a volta do meu coração,
Uma roda de dança e de doçura,
Auréola do tempo, berço noturno e seguro,
E se não sei mais o que tenho vivido
É porque teus olhos nem sempre me enxergaram.

Folhas do dia e musgo do rocio,
Caniços do vento, sorrisos perfumados,
Asas que cobrem o mundo de luz,
Barcos carregados de céu e mar,
Caçadores de ruídos e fontes de cores.

Aromas nascidos de uma ninhada de auroras
Que sempre jaz sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos puros
E o meu sangue todo flui nos olhares deles.

Mark Strand – A história toda – Poesia

A história toda
Mark Strand


Como isso foi ter acontecido desse jeito
Eu não estou certo, mas você
Está sentado perto de mim,
Pensando em suas próprias coisas
Quando de repente eu vejo
Chamas pela janela.

Eu te cutuquei e disse,
“Aquilo é um incêndio. E além disso,
Nós não podemos fazer nada a respeito,
Porque nós estamos nesse trem, entende?
Você me dirigiu um olhar esquisito
Como se eu tivesse falado demais.

Mas é que você não sabe que eu possa
ter uma paixão por incêndios,
E viajo de trem para ficar
Livre de ter que cria-los.
É possível que os trens
Possam acender o amor pelo fogo.

Eu poderia até suspeitar
Que você é um bombeiro
Disfarçado. E, novamente,
Eu poderia estar enganado. Talvez
Você seja aquele
Que ame um bom fogo. Quem sabe?

Talvez você esteja em outro lugar,
Decidindo que sem um lugar
Para ir você não devesse
Pegar um trem. E eu,
Olhando para minha própria face na janela
Talvez tenha mentido a respeito das chamas.

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Eugênio de Andrade – Procuro-te

Procuro-te
Eugênio de Andrade

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Pintura de Paul Klee, 1932

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Fátima Lima – Tirania – Poesia

Tirania
Fátima Lima

Antes onde era noite se fez um dia
E o que veio depois ninguém sabia
Apenas a luz fraca
A janela vazia
Apenas os recortes
De uma velha tirania
Agora….
Surge um véu na memória
E a desculpa é a mesma:
Recomece a estória…
Mas no fundo dos olhos
Uma cor pardacenta
Me delata a intenção
Do meu tempo inverter
Do meu reino tomar…
E tentar dominar outra vez!

Foto:Bone-Chilling