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Óleo na Amazônia; Como limpar?

Galo Rodriguez usa seu facão para cavar um buraco perto do pequeno riacho em sua fazenda no nordeste do Equador, na beira da floresta amazônica. Enquanto ele escava, não há nada incomum para ser visto – mas quando ele atinge 32 cm abaixo da superfície, o solo libera um cheiro distinto e pungente de gasolina.

Mais da metade de seus 35 hectares de terra é floresta primária, enquanto o restante é cana de açúcar ou pequenas árvores. Mas onde ele cava é desprovido de árvores ou plantações. É coberto apenas por grama. Esta área costumava ser sufocada em óleo depois que um oleoduto próximo vazava. O óleo encheu seu riacho, matou todos os peixes e contaminou a única fonte de água doce que ele usou para o gado.

O petróleo ficou aqui por 10 anos antes que a empresa responsável pelo oleoduto chegasse para limpá-lo, em 2016. Rodrigo diz que assistiu enquanto eles coletavam de 12 a 15.000 metros cúbicos de óleo em sua propriedade, mas eles não remediam o solo . Hoje, no riacho ao lado dele, ainda podem ser vistas na água faixas azuis e verdes de resíduo de óleo.

“Por 10 ou 11 anos, essa área não produziu nada. Nós a abandonamos ”, diz o fazendeiro. “Agora planejamos plantar goiabas e chaya.”

Rodriguez é um dos dezenas de agricultores no norte do Equador aprendendo a usar plantas para tentar eliminar a contaminação por óleo de sua terra. Esse processo, conhecido como biorremediação, usa organismos vivos como plantas, fungos e micróbios para decompor os poluentes, incluindo o petróleo bruto.

Existem várias maneiras de isso acontecer, mas a maior parte do trabalho duro para decompor o petróleo ocorre abaixo do solo, onde os microorganismos estão concentrados em torno das raízes das plantas e mineralizam, ou decompõem, os componentes brutos, facilitando a absorção das plantas. . Alguns contaminantes podem ser absorvidos diretamente pela planta e armazenados em seus rebentos e raízes, ou podem ser evaporados através das folhas.

O curso que Rodriguez participa é chamado de “Guardiões do Solo”, uma introdução à biorremediação baseada em permacultura para comunidades de baixa renda, fundada pela residente local e pesquisadora independente, Lexie Gropper.

O petróleo contaminou o solo na propriedade de Galo Rodriguez em Lago Agrio, Equador, por muitos anos (Crédito: Kimberley Brown)

Gropper realiza essas oficinas uma vez por mês, quando visita três comunidades nas províncias amazônicas de Sucumbíos e Orellana que foram algumas das mais afetadas por derramamentos de petróleo e despejo de petróleo ao longo dos anos. Essas comunidades são baseadas em Shushufindi, Sacha e Lago Agrio, onde ela vive há seis anos.

A floresta tropical do norte da Amazônia, no Equador, sofreu forte contaminação por petróleo desde que foram descobertos campos de petróleo ricos aqui na década de 1960. Uma fonte de contaminação foi a empresa de petróleo Texaco – mais tarde adquirida pela Chevron – que despejou bilhões de galões de resíduos de petróleo na floresta amazônica, a maioria dos quais entrou em poços ao ar livre e sem revestimento no solo. Em 1993, milhares de membros da comunidade entraram com uma ação contra a empresa, dizendo que ela não realizou nenhuma limpeza adequada e que suas instalações de perfuração continuaram contaminando a área e exigiram que pagassem pela reparação.

A empresa de petróleo admitiu liberar o lixo, mas disse que limpou sua parte da contaminação e foi legalmente liberada de todas as responsabilidades futuras. Mais recentemente, um tribunal de Haia julgou a favor da Chevron. Isso se transformou em uma das mais complexas e mais duradouras batalhas legais ambientais da história.

Poços e derramamentos de óleo sem vigilância contaminaram fontes de água doce e causam terríveis impactos na vida aquática local, nos ecossistemas e na saúde humana.
Ambientalistas se referiram à contaminação de petróleo na região como Chernobyl da Amazônia. Os moradores dizem que os dutos pertencentes a outras empresas continuam vazando e vazando pelo menos uma vez por semana. Alguns são esclarecidos rapidamente, mas outros são deixados por períodos prolongados. Esses poços e derramamentos de óleo sem vigilância contaminaram as fontes de água doce e têm um impacto terrível na vida aquática local, nos ecossistemas e na saúde humana, de acordo com os moradores e vários estudos na região.

Gropper, que vive no Lago Agrio há seis anos, iniciou seu curso piloto em janeiro para ajudar os agricultores locais e as comunidades indígenas a tomar pequenos passos para enfrentar esses contaminantes.

“Faz mais de 50 anos, e não há um dia em que esses buracos não estejam nos afetando”, diz Gropper, “o objetivo deste curso introdutório é reconhecer muitas coisas primeiro, reconhecer a necessidade disso. autonomia e reconhecer a necessidade dessa força e apoio comunitário, que já está acontecendo ”.

Elsa Maria Rios Jumbo cultiva uma série de culturas, incluindo goiabas, em sua área de um hectare fora do Lago Agrio (Crédito: Kimberley Brown)

O foco na permacultura em seu curso também foi deliberado, diz Gropper, que diz que é muito mais do que apenas se concentrar na diversidade da agricultura. Ela define permacultura como uma “mentalidade ou uma maneira de ver o mundo”, que se concentra em entender e se envolver com o ecossistema local e em trabalhar em comunidade.

Em um workshop em Lago Agrio, em fevereiro, o especialista em solo e consultor de horticultura de Chicago, Nance Klehm, conversou com um grupo de cerca de 50 membros da comunidade e mostrou-lhes como identificar e se envolver com diferentes tipos de solo. Ela pediu aos participantes que analisassem várias amostras de solo, de locais contaminados, plantações de café e banana, e descrevessem sua cor, cheiro, textura e qualquer tipo de associação emocional ou mental que eles trouxessem para eles.

O objetivo final é criar um ecossistema de plantas e culturas nativas que possam ser cultivadas de forma sustentável enquanto também limpam o óleo.

“Estou tentando convencer as pessoas a se envolverem com certas sutis complexidades da natureza”, diz Klehm, acrescentando que isso ajudará as pessoas a identificar como um contaminante se move pelo solo e com que rapidez. É a diferença entre a argila, que retém os contaminantes como uma piscina ou a areia, que permite que ela escorra e tudo mais.

Para Klehm e Gropper, os próximos passos na remediação envolverão testes de laboratório do nível de acidez (pH) no solo. Eles planejam desenvolver uma biblioteca de plantas locais que possam ser experimentadas no processo de biorremediação. O objetivo final é criar um ecossistema de plantas e culturas nativas que possam ser cultivadas de forma sustentável enquanto também limpam o óleo.

Mas a biorremediação não é algo que foi extensivamente testado ou documentado na região, principalmente usando plantas. Vários estudos identificaram micróbios, bactérias e fungos locais como remediadores eficazes em vários contextos. Isso incluiu bactérias nativas (incluindo espécies de Streptomyces e Bacillus) que foram eficazes na quebra de óleo de bancas de uma usina termelétrica na cidade de Cuenca, no sul. Outro estudo da floresta amazônica identificou um fungo nativo (Geomyces) que poderia ser usado para remediar o petróleo bruto, usando amostras de solo do campo de petróleo do Lago Agrio.

Laura Scalvenzi, biotecnóloga da Universidade Estadual da Amazônia do Equador, em Puyo, e coautora deste estudo, diz que é surpreendente que não haja mais pesquisas sobre biorremediação no Equador. “É um país produtor de petróleo”, diz ela. “Essa deve ser uma área da ciência muito mais desenvolvida.” A quantidade de contaminação de petróleo bruto na floresta tropical é esmagadora, acrescenta ela, o que torna os estudos aqui mais complexos, e faltam recursos do governo ou de empresas de petróleo para realizar esses estudos.

Scalvenzi trabalha com biorremediação no país há cinco anos, com foco em micróbios e fungos na Amazônia. Ela e seus colegas começam os testes localizando microorganismos no próprio solo contaminado e isolando-os. Se eles moram lá naturalmente, é mais provável que eles tenham o metabolismo que lhes permite degradar o óleo. Klehm e Gropper têm aplicado a mesma tática às plantas, dizendo que aquelas que continuam a crescer em torno dos poços de petróleo na floresta fornecem pistas importantes.

“Eles resistem [ao petróleo bruto] ou na verdade o usam como fonte de alimento. Portanto, se eles o usam como fonte de alimento, significa que estão decompondo-o em seus elementos básicos para absorvê-lo como nutrientes “, diz Gropper, o que significa que eles já estão fazendo o trabalho pesado.

Alguma poluição do petróleo é esclarecida rapidamente, como esta piscina no campo de Parahuaco em Succumbios, norte do Equador (Crédito: Donald Moncayo / UDAPT)

A biorremediação como método para quebrar a contaminação por óleo não é nova. Derramamentos de óleo geralmente não são notícia diária, mas ocorrem regularmente em todo o mundo. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) diz que houve 137 derramamentos de óleo no país em 2018, o que equivale a cerca de 11 por mês. O Conselho Nacional de Energia do Canadá diz que seus oleodutos derramaram em média 7.945 toneladas (1.084 barris) de petróleo por ano entre 2011 e 2014, enquanto a Agência Espacial Europeia estima que 4,5 milhões de toneladas de petróleo são derramadas no oceano todos os anos.

Biólogos e engenheiros ambientais trabalham há muito tempo em métodos alternativos de limpeza, como a biorremediação. Muito foi escrito sobre a capacidade dos fungos de decompor os contaminantes do petróleo e absorver metais pesados. Estudos em todo o Canadá descobriram que os salgueiros são eficazes na quebra de contaminantes de óleos orgânicos. Outros estudos descobriram que o álamo, com suas longas raízes, é eficaz na correção e filtragem de águas subterrâneas contaminadas, enquanto os girassóis absorvem tudo, desde o chumbo ao cádmio e zinco, em ambientes controlados.

Mas biólogos e engenheiros ambientais concordam que é enganoso dizer que qualquer tipo de planta funciona melhor para biorremediar solos após o derramamento de óleo. A eficácia da planta sempre depende de vários fatores, como clima local, tipo de solo, tipo de contaminação por óleo, quanto tempo a contaminação existe e quanto está presente.

Em ambos os casos, é essencial trabalhar com plantas locais, diz Nelson Marmiroli, professor de biotecnologia ambiental da Universidade de Parma, na Itália. A introdução de uma espécie estrangeira corre o risco de se tornar um incômodo como espécie invasora, ou pode simplesmente ser incapaz de se adaptar ao ambiente local e morrer.

Marmiroli estuda e trabalha com biorremediação há 40 anos e diz que “provou ser eficaz em várias instâncias, tanto para contaminações no solo quanto na água”. Em um antigo local de refinaria de petróleo perto de Nápoles, onde ele foi encarregado de limpar após derramamentos, Marmiroli descreve o processo de escavar toneladas de solo contaminado e colocá-lo em grandes pilhas sob uma lona, ​​onde pode ser protegido contra padrões climáticos inesperados .

Aqui, eles injetaram microorganismos extras, como bactérias nativas encontradas no mesmo solo, para ajudar a quebrar os contaminantes de maneira mais rápida e eficaz. Essas parcelas de solo foram reviradas continuamente para permitir a entrada de ar e oxidar o solo, e foram monitoradas de perto durante todo o processo de biorremediação, antes de serem recolocadas na refinaria. Outro método, diz Marmiroli, seria aplicar fertilizante no local contaminado que alimentaria os microorganismos já presentes no solo.

A pipeline runs in front of a house on the highway east of Lago Agrio. Locals say oil leaks from pipelines in the region are a common occurrence (Credit: Kimberley Brown)

Pretty much all bioremediation works by “microbial consortium”, says Steve Rock, environmental engineer at the Environmental Protection Agency’s National Risk Management Research Laboratory in the US. Everything from fungi and macroinvertebrates (like worms) to plants often work better together than by themselves, he added.

“So the art of phyto- and bioremediation is figuring out which pieces are missing and adding that,” says Rock. At the well-known Exxon Valdez oil spill off the coast of Alaska in 1989, for example, the company struggled to clean it up until scientists realised a missing nutrient in the surrounding environment was nitrogen. When they added fertiliser containing nitrogen, “the oil degraded fairly naturally”, adds Rock.

Of course, like any clean-up method for heavy pollutants, bioremediation has its limitations. The sites often require a lot of space for the plants to grow, which is harder for oil leaks in towns, cities or anywhere close to buildings, highways and railroad tracks. It also requires a lot of time for nature to do its work, which is not ideal for areas that require a fast clean.

Marmiroli says bioremediation is still “much more friendly and environmentally sustainable” compared with industrial clean-up methods. The most effective industrial method is soil washing, he says, which involves collecting the contaminated soil, putting it into a large machine that uses a variety of chemicals to extract the contaminant, then putting the soil back into place. Not only is this method very expensive, he says, but the cleaning chemicals also degrade the nutrients and microorganisms in the soil, and leaves you with the problem of having to dispose of the extracted contaminant.

To speed up or improve bioremediation, Marmiroli says he prefers to experiment with other natural methods like fertilisers or biochar, “because this is accessible to anybody,” he says. “It’s sustainable technology.”

Derramamentos de óleo, como este em 2008 na província de Napo, no Equador, podem deixar uma marca clara no solo (Crédito: Getty Images)

Métodos de biorremediação em larga escala também foram aplicados no Equador. Miguel Angel Gualoto, professor de engenharia ambiental da Universidade das Américas em Quito, ajudou a projetar e supervisionar várias iniciativas de biorremediação no nordeste da Amazônia.

Um projeto do Ministério do Meio Ambiente do Equador envolveu a limpeza de um derramamento de óleo ocorrido na década de 1980. Quase 30 anos depois, o projeto começou com a escavação do solo contaminado e o mudou para uma área próxima, onde poderia ser oxidado e tratado, como o trabalho de Marmiroli. Aqui eles infundiram com os fungos e bactérias que ocorrem naturalmente encontrados no solo próximo, bem como o composto, antes de colocá-lo de volta no lugar.

Foi um processo grande e minucioso – uma equipe de 13 pessoas trabalhou por 11 meses nas duras condições da floresta tropical para limpar apenas uma poça de petróleo. No total, o projeto custou mais de US $ 2 milhões.

Antes de o trabalho ser concluído, Gualoto diz que sua equipe encontrou quase 80 outros poços de petróleo e derramamentos, a maioria deles enterrada por uma fina camada de vegetação. Eles nunca voltaram a abordar esses locais, dizendo que ninguém está interessado em financiar a biorremediação, pois a lavagem industrial do solo é mais lucrativa. Plantas e micróbios, por outro lado, não geram lucro para ninguém e, portanto, “não são bem vistos”, diz ele.

Gualoto diz que projetos como a iniciativa de permacultura de Gropper trabalharão para remediar solos contaminados, se e quando os poços de petróleo puderem ser erradicados. “Se você colocar uma planta em uma poça de óleo, nada acontecerá”, diz ele.

Gropper reconhece as limitações da permacultura contra esses poços de petróleo e diz que é necessário muito mais para chegar à raiz do problema. “Não devemos estar nessa situação, pois precisamos remediar nossas próprias terras”, diz Gropper. Mas, através de seu projeto de permacultura, ela pretende “identificar o que podemos fazer no nível da família e da comunidade”.

De fato, as razões pelas quais a população local está se voltando para a permacultura são muitas e variadas. Elsa Maria Rios Jumbo, outra participante do curso de permacultura, diz que começou a prática porque acreditava que isso lhe daria mais controle sobre sua própria saúde. Rios, que sobreviveu à leucemia há alguns anos, cultiva 12 tipos de plantas medicinais, oito tipos de orquídeas, 38 tipos de frutas e possui uma pequena horta em um terreno de um hectare com o marido.

Mas Rios também está ciente de que os dois vizinhos de ambos os lados têm poços de petróleo em seus quintais. Ela se pergunta se as piscinas transbordam durante fortes chuvas ou se infiltram no solo. Ela acredita que aprender sobre permacultura e biorremediação a ajudará a se preparar melhor para essas ameaças, diz ela. “Vamos colocar em prática o que aprendemos, e isso é bom para mim, minha família e toda a comunidade”, diz Rios em meio às goiabeiras no seu quintal. “Nós precisamos começar de algum lugar.”

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Bolsas de Valores: Ações globais mergulham na crise financeira

Esse filme já passou em 1929.

E em 1987. Mas o liberalismo não está nem aí.

O papel pintado, ficção jurídica, continua roubando os incautos que veneram o deus mercado.

Ações em todo o mundo estão enfrentando seu pior dia desde a crise financeira, com as dramáticas quedas que levaram ao dia de “Segunda-Feira Negra”.

Os principais índices financeiros nos EUA fecharam em queda de mais de 7%, enquanto o índice das principais ações de Londres encerrou o dia quase 8% menor.

Quedas semelhantes ocorreram na Europa e na Ásia, uma vez que a disputa entre a Rússia e a Arábia Saudita viu os preços do petróleo caírem.

As ações já estavam se recuperando do medo do impacto do coronavírus.

Analistas descreveram a reação do mercado como “carnificina total”.

Nos EUA, os principais índices de ações caíram tão acentuadamente no início das negociações, que a compra e venda de ações foi interrompida por 15 minutos, quando um chamado “disjuntor”, destinado a conter as vendas em pânico, entrou em vigor.

O Dow Jones Industrial Average caiu mais de 2.000 pontos, ou 7,8%, a maior queda de todos os tempos no comércio intradiário. O S&P 500 caiu 7,6%, enquanto o Nasdaq caiu cerca de 7,3%.

As quedas em Londres varreram cerca de £ 125 bilhões do valor das principais empresas do Reino Unido.As quedas no Reino Unido e nos EUA foram refletidas por quedas semelhantes na Europa, com os principais índices do mercado de ações na França, Alemanha e Espanha fechando mais de 7%.

“Há um cenário de pânico no mercado agora”, disse Andrew Lo, professor de finanças da Sloan School of Management do MIT. “As coisas vão piorar antes de melhorar.”

Litígios na produção de petróleo
As dramáticas quedas foram desencadeadas por uma briga entre a Arábia Saudita e a Rússia sobre a produção de petróleo.

A Arábia Saudita disse que reduziria os preços e bombearia mais petróleo, provocando temores de uma guerra de preços. Isso ocorreu depois que a Rússia rejeitou uma proposta dos exportadores de petróleo de cortar a oferta para lidar com a menor demanda devido ao surto de coronavírus.

Analistas disseram que a Arábia Saudita estava “flexionando seus músculos” para proteger sua posição no mercado de petróleo.

Na segunda-feira, o preço do Brent, referência internacional em petróleo, caiu quase um terço em sua maior queda desde a Guerra do Golfo em 1991, antes de se recuperar levemente para negociar 20% menos.

O preço do petróleo já havia caído acentuadamente este ano quando o coronavírus começou a se espalhar internacionalmente, com a demanda por combustível caindo.

Decisão “surpreendente”
Essas condições tornam a decisão da Arábia Saudita de aumentar a produção “extremamente surpreendente”, disse Stewart Glickman, analista de patrimônio de energia da CFRA Research.

“Esta não é a primeira vez que tivemos um choque no mercado de petróleo, mas é a primeira vez que me lembro que você teve um choque de oferta e demanda ao mesmo tempo”, disse ele.

“A loucura que você está vendo nos preços do petróleo hoje e em empresas relacionadas ao petróleo e gás é um reflexo disso bastante sem precedentes”.

Nos EUA e no Reino Unido, as empresas de petróleo lideraram as quedas do mercado, com as ações da Shell, BP e Chevron em queda de cerca de 15% ou mais. A Premier Oil viu suas ações mais da metade em valor.

Em Frankfurt e Paris, os bancos foram os mais atingidos, enquanto o rublo russo caiu cerca de 8% para o nível mais fraco desde 2016.

No Brasil, as fortes quedas no comércio da manhã também provocaram uma pausa temporária, com as ações terminando o dia em queda de 12%.

No início, os mercados asiáticos também caíram acentuadamente, com o índice Nikkei 225 do Japão caindo 5%, enquanto o ASX 200 da Austrália caiu 7,3% – sua maior queda diária desde 2008.

Na China, o Shanghai Composite de referência caiu 3%, enquanto em Hong Kong, o índice Hang Seng caiu 4,2%.Em outros lugares dos mercados, o preço do ouro atingiu a alta de sete anos em um ponto, sendo negociado a US $ 1.700 por onça. O ouro é frequentemente visto como um ativo desejável em tempos de incerteza.

E, em um momento histórico, a demanda por títulos de referência do governo do Reino Unido para vencimentos de dois, três, quatro, seis e sete anos elevou os preços tão altos que os rendimentos – ou a taxa de retorno dos títulos – se tornaram brevemente negativos para o mercado. primeira vez. Um rendimento negativo significa que os investidores perderão dinheiro com a manutenção do título.

Por que eu deveria me importar se as bolsas de valores caem?
A reação inicial de muitas pessoas aos “mercados” é que elas não são diretamente afetadas, porque não investem dinheiro.

No entanto, existem milhões de pessoas com uma pensão – privada ou através do trabalho – que verão suas economias (conhecidas como pensão de contribuição definida) investidas pelos planos de pensão. O valor do seu pote de poupança é influenciado pelo desempenho desses investimentos.

Portanto, grandes aumentos ou quedas podem afetar sua aposentadoria, mas o conselho é lembrar que a economia de aposentadoria, como qualquer investimento, geralmente é uma aposta de longo prazo.

‘Poker político’
Em uma reunião com o embaixador russo na segunda-feira, o Departamento do Tesouro dos EUA disse que “enfatizou a importância de mercados de energia organizados”.

Embora no passado as pessoas tenham respondido aos preços mais baixos do petróleo com planos de viagem e outros gastos, o coronavírus provavelmente reduzirá essa resposta, disse Beth Ann Bovino, economista-chefe da S&P Global Ratings nos EUA.

E economistas disseram que, se o declínio nos preços do petróleo continuar, é provável que tenham efeitos econômicos de longo alcance. Isso poderia aumentar o risco nos mercados de dívida ou prejudicar o investimento no setor de energia, que desempenha um papel econômico importante em muitas partes dos EUA.

Com a incerteza sobre a economia impulsionada por perguntas sobre o surto de coronavírus, os líderes têm “uma janela limitada de oportunidade para conter o pânico”, acrescentou Lo.

“Podemos pedir ao público que seja tão confiante quanto desejamos, mas isso não vai restaurar a confiança, a menos que eles vejam um progresso real”, disse ele.

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A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO QUER COMPRAR OS JOVENS QUE LUTAM PELO CLIMA

O CEO da BP, Bob Dudley, à esquerda, e o economista-chefe Spencer Dale falam durante uma sessão no One Young World Summit, em Londres, em 23 de outubro de 2019. Imagem: Facundo Arrizabalaga/EPA-EFE/Shutterstock

NO MESMO DIA em que a ativista climática Greta Thunberg, 16 anos, fez um discurso emocionante na Cúpula de Ação Climática das Nações Unidas em setembro, no qual criticou os representantes por “roubar meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias”, os arquitetos da crise climática receberam participantes jovens selecionados da cúpula para jantar.

CEOs de empresas de combustíveis fósseis, como a BP, Royal Dutch Shell e Equinor da Noruega estavam participando do encontro anual da Iniciativa Climática de Petróleo e Gás em Nova York, a OGCI, que incluiu líderes do setor que afirmam estar comprometidos em tomar ações “práticas” sobre as mudanças climáticas. Na agenda do almoço estava “explorar opções de engajamento de longo prazo” com jovens nos quais a indústria podia confiar. A Student Energy, uma organização sem fins lucrativos com sede em Alberta, perto da região de extração de areia betuminosa do Canadá, ajudou a organizar o evento, que incluiu tempo para que os estudantes interrogassem os CEOs sobre sua inação na mudança climática.

As perguntas dos estudantes podem ter sido difíceis, mas o evento foi ótimo para a indústria de combustíveis fósseis. Longe estão os dias em que os CEOs questionavam abertamente a existência das mudanças climáticas. Hoje, os líderes do setor estão fingindo uma sensação de urgência climática, enquanto levam adiante propostas de ação que permitirão às empresas continuar colhendo produtos emissores de carbono no futuro. Submeter-se a um grupo de estudantes céticos foi uma oportunidade para os executivos de petróleo e gás aumentarem sua credibilidade em uma época em que muitos jovens ativistas só interagiam com eles se cartazes e piquetes estivessem envolvidos.

Jovens ativistas dizem que estão vendo mais desse uso dos jovens à medida que o movimento climático global da juventude ganha impulso, inclusive na conferência anual da ONU sobre o clima, conhecida como COP 25, realizada em Madri no início de dezembro. Com a “juventude” se tornando sinônimo de ação climática, empresas e políticos estão usando cada vez mais os jovens para mostrarem uma postura séria sobre o clima.

“Existe um perigoso uso simbólico da juventude em benefício de uma imagem pública.”

“O uso da juventude nas campanhas está se tornando cada vez mais evidente”, disse Eilidh Robb, 24 anos, membro da Youth Climate Coalition do Reino Unido, que se envolveu em pressionar a ONU a adotar uma política de conflito de interesses que impeça que representantes da indústria de combustíveis fósseis exerçam influência na COP. “Existe um verdadeiro perigoso uso simbólico da juventude em benefício de uma imagem pública”.

O encontro da OGCI foi um exemplo particularmente flagrante de disso. A OGCI forneceu financiamento à Student Energy, e a diretora de negócios da OGCI, Rhea Hamilton, faz parte do conselho de administração do grupo. Entre os “parceiros” listados no relatório anual de 2018 da Student Energy estão a Royal Dutch Shell e a Suncor, um dos maiores produtores de areia betuminosa do Canadá. As empresas de combustíveis fósseis têm repetidamente financiado a conferência anual da organização.

Embora os líderes da Student Energy muitas vezes ecoem os pontos de discussão de ativistas como Thunberg, os membros do grupo – uma rede que alega incluir 40 mil jovens – são em grande parte pessoas que desejam trabalhar no setor de energia.

A Student Energy está entre os grupos de jovens com status de observador na COP 25, o que significa que seus membros podem ter acesso a espaços de negociação, conversar com as partes envolvidas e participar de eventos. Espera-se que sua presença nas negociações internacionais da ONU sobre o clima cresça. O relatório de 2018 da Student Energy observou que o grupo havia visto um aumento de 73% nos seus comitês filiados em atividade. No próximo ano, a BP se comprometeu a enviar 50 representantes da Student Energy para a COP26. O financiamento dobraria o tamanho da delegação usual do grupo, de acordo com um comunicado da BP. Em um espaço de conferência que serve como um campo de batalha de ideias sobre como lidar com a crise climática, a BP aparentemente vê a presença da Student Energy como benéfica para a corporação.

Mas os financiadores da Student Energy, algumas das empresas com maior responsabilidade na crise climática, não mostram sinais de desaceleração. O portfólio de produção da Suncor, que inclui principalmente a extração de areia betuminosa, é a que mais consome carbono entre as 100 maiores empresas de combustíveis fósseis do mundo, e a empresa pressionou por novos oleodutos que permitiriam continuar aumentando a produção. A Shell, a 11ª maior emissora de gases de efeito estufa do mundo entre as empresas de petróleo e gás, deve aumentar sua produção de combustíveis fósseis em 38% até 2030. A BP, a 14ª maior emissora, aumentará a produção em 20%.

As projeções das empresas são contrárias às medidas que os cientistas afirmam serem necessárias para cumprir a meta da ONU de reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 45% até 2030. O objetivo da COP é avançar em direção a esse objetivo.

Adler disse ao Intercept que a Student Energy participou do evento da OGCI para desafiar o setor de petróleo e gás cara a cara. Ela disse que a organização segue princípios rígidos de parceria que impedem os financiadores de exercer influência sobre as atividades do grupo. Uma grande proporção dos membros da organização deseja trabalhar no setor de energias renováveis, não em uma empresa de combustíveis fósseis, acrescentou ela, e no próximo ano eles estarão diversificando significativamente suas fontes de financiamento. Quanto ao financiamento da BP para a COP26, Adler disse que a Student Energy não aceitou oficialmente o dinheiro. “Estamos verificando o que isso é de fato, as implicações disso e se eles são o parceiro certo.”

Para Taylor Billings, porta-voz da organização sem fins lucrativos Corporate Accountability, não é surpresa que o setor esteja buscando um movimento juvenil para colaborar. Como ela disse, “se as zebras estivessem liderando a marcha, as empresas de combustíveis fósseis e os governos do norte do mundo estariam escalando os muros para entrar no zoológico”.

Juventude nas Nações Unidas

A ONU fez pouco para eliminar as oportunidades de uso da juventude como massa de manobra em suas conferências. Desde 2015, o órgão governamental internacional realiza anualmente o Concurso Global de Vídeos Juvenis, no qual os participantes enviam curtas-metragens destacando as ações climáticas. O prêmio deste ano: uma viagem com tudo pago para a COP 25.

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Jovens representantes do SustainUS durante uma ação na COP 25 em 4 de dezembro de 2019. O grupo tem sido uma voz importante dos jovens contra a influência corporativa nas discussões sobre o clima.
Foto: Cortesia de David Tong

Mas, ao lado de várias agências da ONU que patrocinam o projeto, estava a Fundação BNP Paribas, financiada por um banco que gastou mais de 50 bilhões de dólares em investimentos em combustíveis fósseis entre 2016 e 2018. Em resposta, 29 organizações climáticas que trabalham com jovens enviaram uma carta aos organizadores da ONU no projeto.

“Esse tipo de captura corporativa de uma iniciativa de empoderamento dos jovens não é apenas decepcionante, mas também criminosa”, dizia a carta, observando que o BNP Paribas é o quinto maior financiador de combustíveis fósseis da Europa. As organizações pediram à ONU que “imediatamente encerre sua parceria com o BNP Paribas para garantir que o envolvimento dos jovens permaneça livre da influência de grandes poluidores e financiadores”.

“Não sejam responsáveis pela corrupção de nossa coragem e ação”, pediram os autores.

A ONU desconsiderou a carta. “Compartilhamos suas opiniões sobre a necessidade de descarbonizar o mundo e, para esse fim, também descarbonizamos portfólios de investimentos de instituições financeiras o mais rápido possível”, disse Niclas Svenningsen, gerente de Ação Global do Clima da ONU. No entanto, ele acrescentou: “Acreditamos que também é importante abrir o diálogo e ver como as partes interessadas de diferentes setores estão fazendo a transição de seus modelos de negócios.”

Para muitos, foi uma resposta típica. Quando se trata da captura indevida dos jovens, “o maior e mais flagrante exemplo são as Nações Unidas”, disse Jonathan Palash-Mizner, co-coordenador de 17 anos da Extinction Rebellion Youth US, que está na COP 25. Ele disse que os espaços para jovens na ONU costumam parecer uma “mesa das crianças”, com os participantes com pouco poder de decisão.

Enquanto isso, “você entra em qualquer negociação e todo negociador invocará Greta Thunberg”, disse Sarah Dobson, 23 anos, membro da Youth Climate Coalition do Reino Unido. “É vergonhoso porque eles não farão jus a essa visão.”

Youth strikers to stage sit-in at un climate talks during the Conference of the Parties to the United Nations Framework Convention on Climate Change -COP25 on day 6, in December 6, 2019 in Madrid, Spain. (Photo by Rita Franca/NurPhoto via Getty Images)

Jovens grevistas protestam durante a COP25, em 6 de dezembro de 2019.
Foto: Rita Franca/NurPhoto via Getty Images

Dobson está envolvida em um esforço juvenil de longa data para expulsar conflitos de interesse da COP. O braço oficial da juventude da ONU, a YOUNGO, impede que seus comitês locais façam parcerias com empresas “que estão em conflito com os interesses dos jovens”. O grupo pressionou por anos por uma política que manteria qualquer um que trabalhasse para uma empresa de combustíveis fósseis fora das futuras conferências climáticas e exigiria divulgação de reuniões entre a indústria de combustíveis fósseis e os países em negociação ou funcionários da ONU.

Eles apontam para a Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde para o Controle do Tabaco, que afirma que as partes “precisam estar alertas a qualquer esforço da indústria do tabaco para minar ou subverter os esforços de controle do tabaco” e devem proteger o acordo de “interesses comerciais e outros na indústria do tabaco”.

A YOUNGO voltou a defender uma política de conflito de interesses em uma reunião da ONU em junho, onde foram discutidas a logística da COP – mas com os EUA, a União Europeia e outros representantes globais do hemisfério norte que rejeitando a ideia, eles perderam.

“Políticos e CEOs estão fazendo parecer que uma ação real está acontecendo quando, na verdade, quase nada está sendo feito além de contabilidade inteligente e relações públicas criativas.”

Assim, quando a COP 25 começou em Madri no início de dezembro, uma série de representantes da indústria de combustíveis fósseis percorreu os corredores ao lado dos negociadores que decidirão o formato do mais importante acordo internacional sobre o clima. Os líderes da BP, Shell, Total e Suncor receberam credenciamento para participar da conferência por meio da International Emissions Trading Association, líder do setor, que tem status de observadora. Outras delegações convidaram representantes da Chevron, Petrobrás e outras empresas de combustíveis fósseis. Enquanto isso, entre os patrocinadores da COP 25 estava a empresa de serviços públicos Endesa, o maior emissor de carbono da Espanha.

A indústria de combustíveis fósseis tentou obstruir um forte acordo climático desde que a ONU começou a negociar a questão nos anos 90. Este ano, as associações comerciais da indústria intervieram mais em uma seção do acordo conhecida como Artigo 6, que inclui regras para esquemas de comércio de emissões. No geral, os sistemas internacionais de comércio de carbono falharam em reduzir significativamente as emissões onde foram implementadas. Ao invés de simplesmente forçar cortes por meio de regulamentações, os mercados permitem que as empresas invistam em projetos de compensação climática que, em muitos casos, mostraram ter pouco impacto climático real.

A forma dos mercados fará uma enorme diferença em quanto a indústria de combustíveis fósseis terá que pagar. Na COP, como Dobson colocou, “as empresas estão literalmente em todo lugar”.

Empresas de combustíveis fósseis #FazemOFuturo

A uso da juventude em causas se proliferou além dos encontros climáticos da ONU.

Robb mencionou a reunião do primeiro-ministro canadense Justin Trudeau com Thunberg em setembro, realizada antes de participar de uma marcha das Sextas-feiras Pelo Futuro liderada por jovens, onde foi criticado pelos canadenses que o rotularam de criminoso climático. Trudeau se esforçou muito para se mostrar sério sobre o clima, mas no ano passado seu governo comprou o oleoduto Trans Mountain proposto por Kinder Morgan, um projeto-chave altamente contestado e intensivo em carbono para manter rentável o setor de areia betuminosa do Canadá.

Canadian Prime Minister Justin Trudeau speaks Swedish environmental activist Greta Thunberg in Montreal on Friday, Sept. 27, 2019. (Ryan Remiorz/The Canadian Press via AP)

O primeiro-ministro canadense Justin Trudeau fala com a ativista ambiental sueca Greta Thunberg em Montreal, em 27 de setembro de 2019.
Foto: Ryan Remiorz/Imprensa canadense via AP

Obviamente, os exemplos mais perturbadores do uso dos jovens como massa de manobra envolvem a indústria de combustíveis fósseis. Este ano, a BP patrocinou a conferência anual One Young World, às vezes chamada de “Davos Jovem”, e pagou para que 30 estudantes focados em questões de energia de baixo carbono pudessem participar do evento. No evento de outubro, o CEO da BP e seu economista-chefe se revezaram no palco. “Mas espere, sou economista-chefe da BP, uma das maiores empresas de petróleo e gás do mundo. O que a BP está fazendo aqui? Não somos parte do problema? Na verdade, eu realmente acredito que não somos”, disse o economista Spencer Dale. “Empresas como a BP podem ser, e realmente precisam ser, parte da solução.”

A Shell lançou uma campanha intitulada #MaketheFuture (#FaçaOFuturo), sugerindo que está construindo um futuro melhor em vez de destruí-lo. A campanha promove a Shell como uma impulsionadora da tecnologia de baixa emissão de carbono e apresenta imagens de jovens, bem como publicações nas redes sociais sobre o financiamento da empresa para programas de engenharia e ciências para jovens.

Até a CO2 Coalition da extrema direita, financiada pelo dinheiro dos combustíveis fósseis dos irmãos Koch e liderada por ex-conselheiros de Trump que afirmam que as emissões de CO2 são boas para a Terra, está tentando recrutar jovens. Depois de se esforçar para atrair apoio de jovens funcionários republicanos, o grupo teria procurado estudantes nos campi de faculdades na tentativa de “alcançá-los um pouco mais cedo”.

“Eles têm dinheiro praticamente infinito para gastar e tentar mudar o círculo eleitoral mais resistente à sua agenda”, disse Julian Brave NoiseCat, 26 anos, e vice-presidente do think tank progressista Data for Progress.

Adler disse que, até recentemente, era apenas a indústria de combustíveis fósseis que demonstrava interesse em financiar a programação do grupo. “A realidade é que havia bem poucos tipos de organizações interessadas na juventude até cerca de um ano atrás”, disse.

Quando a COP 25 terminou, com questões-chave não resolvidas, Thunberg foi nomeado Pessoa do Ano da revista Time. Em um discurso na ONU no mesmo dia, ela fez referência à maneira como empresas e políticos cooptaram suas palavras. “Essas frases são tudo em que as pessoas se concentram. Eles não se lembram dos fatos, das próprias razões pelas quais digo essas coisas em primeiro lugar”, disse ela. “Eu ainda acredito que o maior perigo não é a inação – o perigo real é quando políticos e CEOs estão fazendo parecer que uma ação real está acontecendo quando, de fato, quase nada está sendo feito além de contabilidade inteligente e relações públicas criativas”.

O que está em jogo, disse Dobson, é a diluição de um movimento juvenil vigoroso. “As empresas captam nossas imagens, pegam os símbolos de nosso movimento e as usam para validar suas próprias atividades, desrespeitando completamente o esforço que colocamos na construção desse movimento popular”, disse ela. “Isso dá a ilusão de que os jovens venderam seus valores para apoiar as atividades de negócios horríveis”.

Tradução: Maíra Santos

Guerras,Blog do Mesquita 01

EUA X Irã: o que originou a rivalidade de décadas entre os dois países

O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES

Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali Khomeini
O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES
Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali KhomeiniDireito de imagem GETTY IMAGES
O aiatolá Khomeini se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edificio

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosDireito de imagem GETTY IMAGES
Em 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.

 se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edifício

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosEm 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.
ViaBBC

Oceanos,Poluição,Brasil,Nordeste,Óleo,Praias,Petróleo,Crimes Ambientais,BlogdoMesquita

A Maldição do Ouro Negro

Praia do Baixio, foz do Rio Inhambupe Município de Esplanada, Bahia. Foto: cedida cordialmente por Rosalvo de Oliveira Junior.

Existem pessoas que não acreditam na sorte. No mundo acadêmico, essa palavra sempre vem acompanhada de careta ou nariz torcido. Aos mais céticos sobre poder do acaso, existe uma história que gosto de contar. A história do petróleo.

Tudo começou durante a consolidação da vida no planeta Terra ainda primitivo, quando o mar estava transbordando de pequenos seres que se multiplicavam em um ritmo alucinante, mas também morriam muito rápido e, assim, afundavam até o leito do oceano, onde eram enterrados por sedimentos de argila antes mesmo de se decomporem. Agora imaginem quantos microrganismos são necessários, nesse processo, para formarem um galão de petróleo bruto?

No entanto, não basta enterrar uma quantidade absurda de organismos para que isso ocorra. É necessário que os falecidos seres estejam abaixo de mais de 2 mil metros de sedimentos para o processo começar, o que leva milhões de anos de movimentações do leito marinho, além da existência de certos tipos específicos de sedimentos que não são tão comuns.

A partir desse ponto, precisamos de condições muito específicas de calor e pressão para cozinhar esse material orgânico que vai se liquefazer e escoar por entre as fissuras e os poros das rochas.   E nada disso será suficiente se toda essa matéria orgânica não encontrar um grande reservatório entre as rochas que depois é lacrado por uma camada de sal ou xisto a quilômetros abaixo da superfície.

Mas existem lugares do planeta em que o óleo simplesmente aflora por entre o solo, principalmente no Oriente Médio, onde há registros da utilização do petróleo que remontam a 4.000 a.C. Os povos da Mesopotâmia, do Egito, da Pérsia e da Judeia já utilizavam seus derivados para pavimentação de estradas, calafetação de grandes construções, aquecimento e iluminação de casas, bem como lubrificantes e até laxativo. Os chineses já perfuravam poços, usando hastes de bambu, no mínimo em 347 a.C., ou seja, muito antes do primeiro poço perfurado nos EUA pelo aclamado Edwin Drake – que acabou ficando com a fama de inventar a indústria petrolífera em 1859 e iniciar uma nova era de industrialização, quando as pessoas do mundo ocidental ainda caçavam baleias para manterem suas lamparinas acesas enquanto liam estarrecidos “A Origem das espécies” de Charles Darwin, que havia sido publicado naquele mesmo ano.

A Febre do Ouro Negro

O petróleo bruto é constituído por diferentes hidrocarbonetos (compostos formados por carbono e hidrogênio) e pequenas quantidades de enxofre e nitrogênio.   Depois de extraído do solo e transportado para refinarias, ele é aquecido para que sejam separados os diversos componentes com pontos de ebulição distintos. A cada ponto do processo, surgem os chamados compostos petroquímicos, que são matéria prima para uma variedade infinita de produtos como fluídos de limpeza, pesticidas, fibras sintéticas usadas em roupas, tintas, medicamentos e o material polimérico que trouxe inúmeras facilidades à vida moderna e tornou-se fonte de um enorme problema ambiental: o plástico.

Enfeites de plástico invadem as casas nessas época do ano – alguns itens não duram uma temporada. Foto: Gualter Pedrini.

Geralmente, associamos o petróleo apenas a combustíveis para os mais diversos maquinários, do cortador de grama ao transatlântico.  Mas hoje, a nossa vida está fundamentada na posse de bens quase sempre fabricados a partir de polímeros derivados do petróleo, incluindo peças de carros elétricos, bicicletas e turbinas eólicas.

Com tantas finalidades, o consumo mundial de petróleo tem aumentado rapidamente desde 1950. Em 2010,  se contabilizava um consumo anual de 34 bilhões de barris – sendo que um barril contém 159 litros de petróleo – que, se colocados lado a lado, se estenderiam por cerca de 31 milhões de quilômetros. O suficiente para ir à Lua e voltar cerca de 40 vezes..

O petróleo é a forma mais amplamente utilizada de energia comercial. Junto com o gás natural e o carvão, representa mais de 80% da fonte de energia utilizada em todo mundo. São os chamados combustíveis fósseis, pois todos os três possuem origem da decomposição de compostos orgânicos antigos (fóssil).

Em 2019, a da demanda global de petróleo ainda sobe vertiginosamente, com destaque para o Oriente Médio, EUA, países da Ásia e China. Em paralelo, a oferta tem apresentado alta, com a expectativa de crescimento da extração financiada por países como EUA, Brasil, Noruega, Rússia, Canadá, Cazaquistão e Austrália. Novas tecnologias como a perfuração em águas profundas e o fracking, também conhecido como fraturamento hidráulico, permitiu a extração de petróleo e gás natural em lugares e em condições inimagináveis há 20 anos.

Mas esse padrão de consumo financiado por um constante incremento da exploração pode estar com seus dias contados. Fato é que o planeta Terra contém um suprimento finito de petróleo. Algum dia o fluxo de óleo cru atingirá seu ponto máximo, e a partir daí passará a diminuir. Alguns estudos no começo dos anos 2000 afirmavam que seria em 2016, outros apontam para 2040 e existem aqueles que dizem que já estamos vivenciando o pico. Seja como for, não sabemos se estamos próximos do limite.

Transito em São Paulo – Sábado pela manhã. Foto: Gualter Peldrini.

A dependência econômica mascarada de liberdade

Em um passado não tão distante, no começo da década de 1970, os EUA viviam uma economia totalmente dependente do petróleo, mas os poços texanos começavam a secar. Em 1973, os líderes árabes impuseram um embargo aos norte americanos, em retaliação ao apoio dado ao Estado de Israel naquele mesmo ano. Com a lei da oferta e da demanda, os postos tiveram que elevar o preço da gasolina e filas quilométricas de charmosos cadilacs esperando por reabastecimento impuseram uma dura lição ao país sobre a fragilidade da economia embasada em combustíveis fósseis.

Em 1978, a Revolução Iraniana comprometeu novamente as exportações de petróleo, promovendo a segunda crise naquela década. A nova alta dos preços incentivou o governo americano a buscar novas alternativas. Energia renovável? Não. A busca e exploração de novas jazidas no Alasca, no México e no mar do Norte.

A cada nova descoberta, o preço destes combustíveis cai ao ponto das grandes indústrias frearem a extração por um ou dois anos apenas para esperar a alta dos preços e voltar a explorar em maior intensidade. Tivemos algumas outras crises de fornecimento protagonizadas por países como Venezuela, Nigéria e Iraque, mas nada que tenha alterado o crescimento, ano após ano, da demanda dentro dos EUA, que segue como principal consumidor mundial, referente a um quarto do petróleo do planeta (algo em torno de 11 litros diários por pessoa), embora tenha apenas 5% da população mundial. O imposto médio sobre a gasolina é 5 vezes menor do que é praticado no Brasil, com um galão de gasolina custando menos que uma garrafa d’água, o que leva a maioria dos americanos a não se darem o trabalho de economizar.

Devemos reconhecer que a sorte do nosso planeta mudou drasticamente a partir do momento em que redescobrimos como extrair o ouro negro que emana de dentro da terra. Da extração ao consumo final, os combustíveis de origem fóssil resultam em vários impactos ambientais, como destruição do solo, emissões de gases do efeito estufa, poluição da água e ameaças à biodiversidade.

Se antes a justificativa para se abater focas e baleias era a extração de óleo para gerar luz e calor, hoje a busca por combustíveis fósseis não só mata incontáveis seres marinhos, como também destrói montanhas, rios e mares. Mais que uma ironia, os próprios combustíveis fósseis possibilitaram avanços científicos que acabaram nos mostrando que o nosso futuro depende da rápida substituição da nossa matriz energética.

Existe luz no fim do túnel?

Mesmo com tudo que já foi escrito sobre mudanças climáticas, o desafio realmente se resume ao triste fato de que os combustíveis fósseis são extremamente úteis, valiosos e importantes geopoliticamente, no entanto, combater o aquecimento global implicaria deixar a maior parte do petróleo sem ser extraída. Embora muitas vezes ouçamos mais sobre tecnologia verde, níveis de consumo ou crescimento populacional, deixar o combustível no subsolo é o cerne da questão. Afinal, para o clima global, não importa quantidade de energia renovável ou nuclear que usamos, nem a eficiência de nossos carros e nossas casas, nem quantas pessoas existem no planeta ou como administramos a economia. Para o clima, só importa o quanto de CO² estamos emitindo.

Se desistíssemos de todas as novas minas e jazidas com as quais as empresas estão gastando bilhões tentando acessar para novas extrações e apenas queimássemos as reservas de petróleo, carvão e gás que já foram descobertas até então, mesmo assim, as emissões atuais já consistiriam em quase 3 toneladas de dióxido de carbono. Ninguém pode dizer exatamente o quanto de aquecimento global isso causa, mas provavelmente já basta para arruinar todos os acordos mundiais do clima feitos até agora.

Nos últimos anos, os defensores da energia limpa estão cada vez mais empolgados com a queda dos preços da energia solar e eólica, na esperança de impulsionar uma revolução energética. Mas nada disso freou as emissões mundiais de CO².

Emissões de CO2 desde 1850 (vermelho); crescimento exponencial (azul); cortes para atingir a meta climática (pontilhada).

Graça às políticas e tecnologias verdes, as emissões vêm diminuindo na Europa, nos EUA e em muitos outros países. Turbinas eólicas e painéis solares são cada vez mais comuns, não apenas no ocidente, mas também na China, que hoje figura como uma dos maiores produtoras de placas solares. Então, por que a curva de emissão carbono não está mostrando nenhuma melhora?

Alguns podem querer culpar a crescente população. Porém, a velocidade do crescimento populacional caiu intensamente desde a década de 1960 e não acompanha há tempos o crescimento das emissões mundiais de carbono, que por sua vez não se abalou nem com o Protocolo de Kyoto, nem com as conferências do clima promovidas pela ONU. Por alguma razão, reduzir as emissões de carbono tem sido até agora como apertar um balão: os ganhos obtidos em um local foram cancelados por aumentos em outros lugares.

Para entender o que está errado, é necessário analisar o crescimento exponencial do consumo de combustíveis fosseis. Podemos comparar com a dívida do cartão de crédito de uma pessoa física, que cresce de forma parecida, pois os juros são aplicados em cima de mais juros. Nesse sentido, as emissões de carbono seguem a mesma tendência acelerada, impulsionada por um tipo semelhante de retroalimentação em loop, que está cancelando aparentes ganhos das medidas verdes.

A Revolução Industrial, que desencadeou o início da grande interferência do homem no clima do planeta, foi impulsionada por esse processo. O motor a vapor nos permitiu drenar as minas de carvão, fornecendo acesso a mais minério, o qual poderia alimentar mais motores a vapor, capazes de extrair ainda mais carvão. Isso nos levou a desenvolver novas tecnologias e materiais que eventualmente ajudaram na exploração do petróleo. Porém, o petróleo não substituiu o carvão, ele nos ajudou a extraí-lo de forma mais eficaz e propiciou o desenvolvimento de novas tecnologias, as quais estimularam a demanda de energia em geral. Portanto, o uso de carvão também aumentou o uso de petróleo, por sua vez, aumentou à medida que gás, energia nuclear e hidrelétrica entraram em operação, ajudando a era digital e que trouxe tecnologias mais avançadas capazes de abrir reservas de combustíveis fósseis em lugares antes inexploráveis.

De fato, embora nossos governos agora subsidiem fontes de energia limpa e incentivem a redução do consumo de energia, eles paradoxalmente continuam a prejudicar essas medidas ao extraírem o máximo possível de petróleo, carvão e gás do subsolo. Lembremos do caso dos EUA de Obama, que se orgulhava de que as emissões americanas estavam caindo devido aos padrões crescentes de eficiência automotiva e à substituição do gás de carvão por fontes mais limpas. No entanto, os americanos aumentaram a exportação de carvão para outros países como a China, que por sua vez o utiliza para produzir produtos para os mercados dos EUA.

Cobra caninana faz reconhecimento em carvoaria ilegal em área de Mata Atlântica.

Outro exemplo é a Austrália, no mesmo ano, que, por um lado, introduziu um imposto sobre o carbono e, por outro, começou a debater planos para uma série de “mega-minas”, as quais aumentariam enormemente suas exportações de carvão, ajudando a criar confiança entre as empresas que planejavam nada menos que 1.200 novas usinas de carvão. Até o Reino Unido, com suas metas de emissões mundiais, oferece incentivos fiscais para incentivar a exploração de petróleo e gás, o que tem aumentado sua pegada de carbono total. E não é só isso. Embora raramente seja comentado, a Grã-Bretanha, junto com outras nações supostamente verdes como a Alemanha, regularmente pedem à Arábia Saudita e aos outros países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) para que produzam mais petróleo e, assim, promovam uma queda nos preços, impulsionando suas economias.

O mundo parece ignorar o fato de que já existe muito mais combustível acessível do que pode ser queimado com segurança. Os gestores de fundos de pensão e outros investidores estão permitindo que as empresas de combustíveis fósseis gastem perto de US$ 1 milhão por ano para encontrar e explorar ainda mais reservas. Se e quando emergirmos dessa insanidade, a bolha de carbono estourará e esses investimentos serão tão tóxicos quanto o óleo que ainda invade a costa brasileira neste exato momento.

Como mudar esse quadro? Desde 2016, economistas e professores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) publicaram inúmeros trabalhos que provam que as reduções de custos em tecnologia, impulsionados pelos combustíveis fósseis nos levarão a continuar usando todo o petróleo, gás e carvão que pudermos, a menos que os governos criem novos impostos sobre as emissões de carbono.

“Se não adotarmos novas políticas, não deixaremos combustíveis fósseis no solo”, diz Christopher Knittel, economista de energia da MIT Sloan School of Management. “Precisamos de uma política como um imposto sobre carbono e colocar mais dinheiro em fontes renováveis”.

Para taxar as emissões de carbono, precisamos aceitar que quase tudo que envolva combustíveis fósseis para ser produzido ou utilizado precise ter seu valor de venda dez vezes maior do que é praticado atualmente. Principalmente se você mora nos EUA ou na China. Com um barril de petróleo custando US$ 40,00, fica difícil vender um carro elétrico com custos de US$ 325 quilowatt-hora, apenas para manter a bateria.  Por mais que se invista em novas tecnologias e fontes de energia renováveis, não tem como competir com a gasolina custando US$ 0,60 o litro nos EUA, onde o governo atualmente se nega até a discutir sobre mudanças climáticas. Resumindo, para diminuir as emissões de carbono, a gasolina precisa ficar muito mais cara para que as alternativas ecológicas se tornem viáveis e rentáveis.

Como último exemplo, vamos recordar dois momentos distintos que passamos em nosso País. Em maio de 2018, o Brasil parou diante da greve dos caminhoneiros que contestavam os constantes reajustes no valor dos combustíveis. Um ano e meio depois, ficamos estarrecidos com a nossa vulnerabilidade e o despreparo do nosso governo diante de toneladas de óleo cru que invadiram o litoral brasileiro. Infelizmente, estes dois fatos estão interligados e correlaciona-los é tão urgente quanto entender e aceitar que as mudanças são necessárias e que serão muito dolorosas e demandarão coragem que nenhum líder, de qualquer nação ou império jamais imaginou exercer. Muito menos nos dias atuais.


Gualter Pedrini
Professor Universitário, fotógrafo e mergulhador desde 1995. Fundador do Projeto Antrópica, que ajuda a divulgar ONGs e pesquisa científica em prol dos oceanos.


Referências para esse texto e leitura complementar1-       Sally M. Benson, John Deutch. Advancing Enhanced Oil Recovery as a Sequestration Asset. Joule, 2018; 2 (8): 1386 DOI: 10.1016/j.joule.2018.07.026

2-       Jones et al. Total amounts of oil produced over the history of the industry. International Journal of Oil Gas and Coal Technology, 2009; 2 (2): 199 DOI: 10.1504/IJOGCT.2009.024887

3-       Lakatos et al. Global oil demand and role of chemical EOR methods in the 21st century. International Journal of Oil Gas and Coal Technology, 2008; 1 (1/2): 46 DOI: 10.1504/IJOGCT.2008.016731

4-       McGlade, C., Ekins, P. The geographical distribution of fossil fuels unused when limiting global warming to 2 °C. Nature 517, 187–190 (2015) doi:10.1038/nature14016

5-       Covert, Thomas, Michael Greenstone, and Christopher R. Knittel. “Will We Ever Stop Using Fossil Fuels?” Journal of Economic Perspectives 30, no. 1 (February 2016): 117-138. © 2016 American Economic Association As Published http://dx.doi.org/10.1257/jep.30.1.117

6-       R B Jackson, P Friedlingstein, R M Andrew, J G Canadell, C Le Quéré, G P Peters. Persistent fossil fuel growth threatens the Paris Agreement and planetary health. Environmental Research Letters, 2019; 14 (12): 121001 DOI: 10.1088/1748-9326/ab57b3

7-       RB Jackson, C Le Quéré, RM Andrew, JG Canadell, JI Korsbakken, Z Liu, GP Peters e B Zheng. O crescimento global da energia está superando a descarbonização . Cartas de Pesquisa Ambiental , 2018 DOI: 10.1088 / 1748-9326 / af303

 

 

Meio Ambiente,Oceanos,Vida Selvagem,Fauna,Flora,Crimes Ambientais,Petróleo,Óleo,Blog do Mesquita 01

O que se descobriu até agora sobre o óleo no Nordeste

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Mancha de óleo na praia de Peroba, Alagoas

Enquanto o petróleo avança pelo litoral brasileiro e já pode chegar ao Sudeste, investigação se concentra em navio grego como provável origem do desastre. Entenda o que foi divulgado até agora e a extensão dos danos.

Desde o final de agosto, praias do Nordeste brasileiro vêm sendo atingidas por manchas de petróleo. Segundo uma ampla investigação da Polícia Federal, em parceria com a Marinha e outras instituições, o responsável é um navio de bandeira grega, que fugiu sem alertar sobre o vazamento, e o óleo é venezuelano.

O principal suspeito

O navio de bandeira grega Bouboulina é o principal suspeito de ser o responsável pelo vazamento do óleo nas praias do Nordeste, segundo afirmaram procuradores da República em representação encaminhada à Justiça Federal.

O Bouboulina atracou na Venezuela em 15 de julho, ficou ali por três dias, e continuou viagem rumo a Cingapura, pelo Atlântico, vindo a aportar apenas na África do Sul. Foi no trajeto que ocorreu o vazamento

Segundo os investigadores, há fortes indícios de que a empresa Delta Tankers, o comandante do navio e tripulação deixaram de comunicar às autoridades competentes sobre o vazamento no Atlântico.

A Grécia é líder global em transporte de petróleo, com 24% do mercado mundial, segundo relatório da agência das Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento.

O Ministério Público Federal (MPF) afirmou, em comunicado, que a embarcação investigada pela PF ficou quatro dias retida nos Estados Unidos devido a “incorreções de procedimentos operacionais no sistema de separação de água e óleo para descarga do mar”.

O marco zero

Os investigadores da PF dizem terem conseguido achar a localização da mancha inicial de petróleo em águas internacionais, a aproximadamente 700 quilômetros da costa brasileira.

A partir da localização da mancha inicial – o derramamento teria ocorrido entre os dias 28 e 29 de julho – foi possível identificar o único navio petroleiro que navegou pela área suspeita.

Por meio do uso de técnicas de geointeligência e cálculos oceanográficos regressivos, chegou-se então ao navio de bandeira grega.

Selo venezuelano

A Marinha disse ainda que o óleo coletado nas praias do litoral nordestino foi submetido a análises em laboratórios que comprovaram ser originário de campos petrolíferos da Venezuela.

Estudos feitos pela Petrobras e pela Universidade Federal da Bahia já haviam apontado que o óleo que chegou à costa do Nordeste foi produzido na Venezuela.

Extensão dos danos

O último boletim do Ibama, da quinta-feira última, indica que 286 locais em 98 cidades do Nordeste foram atingidos pelas manchas de óleo.

Um terço das mais de 280 localidades atingidas chegaram a ser limpas, mas viram a poluição retornar ao menos uma vez. Ao todo, 83 praias e outras localidades tiveram a reincidência da contaminação, segundo um levantamento do portal G1.

O Instituto de Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) diz que o óleo pode chegar aos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. O órgão foi acionado pelo comitê de crise do governo federal e atua para detectar movimentação do óleo no mar.

Um relatório entregue na sexta-feira ao comitê de crise aponta que as manchas podem estar “represadas” em alto mar e sendo arrastadas por correntes marítimas, podendo se mover ainda por bastante tempo e chegar ao Sudeste, especificamente ao Espírito Santo e ao norte do Rio de Janeiro. A possibilidade de que as manchas avancem ainda mais em direção ao sul é tratada como remota, dadas as características geográficas da região, que oferecem uma espécie de proteção natural.

Risco para Abrolhos

As manchas de óleo de origem desconhecida que atingem o litoral do Nordeste começaram a aparecer na região de Abrolhos, que abriga o arquipélago homônimo, no sul da Bahia, e a maior biodiversidade marinha de todo o Atlântico Sul. Especialistas preveem uma catástrofe ambiental se o óleo chegar em grande quantidade até ali.

A ONG Conservação Internacional relata ter encontrado óleo, nesta semana, em Canavieiras, Belmonte e Santa Cruz de Cabrália, na região de Abrolhos, que engloba o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e compreende os ecossistemas marinhos e costeiros entre a foz do Rio Jequitinhonha, em Canavieiras (BA), e do Rio Doce, em Linhares (ES), além dos bancos marinhos de Abrolhos e de Royal Charlotte.

Criado em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos abriga as cinco ilhas do arquipélago e ainda não foi atingido pelas manchas de óleo. A área é rica em corais e o principal berçário de baleias jubarte da costa brasileira. O turismo e a pesca na região são fonte de renda para cerca de 100 mil pessoas.

Limpeza

No auge da crise, críticos apontaram que a população, os municípios e os estados das regiões afetadas estavam basicamente tendo que limpar sozinhos as praias, recifes e manguezais atingidos pelas manchas de óleo.

Segundo a Marinha, os estados de Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba estão com todas as suas praias limpas, e os esforços estão agora concentrados na limpeza de cinco praias de Alagoas (Maragogi, Japaratinga, Barra de São Miguel, Feliz Deserto e Coruripe) e de uma na Bahia (Moreré).

Até esta semana, haviam sido retiradas mais de 2 mil toneladas de resíduos de óleo das praias no Nordeste. No total, foram empregados mais de 3.100 militares, 19 navios e três helicópteros da Marinha, além de 5 mil militares do Exército e seis aeronaves da Força Aérea Brasileira.

Eles se somam a 140 servidores do Ibama, 40 do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e 440 funcionários da Petrobras, além de funcionários de órgãos estaduais e municipais.

Com o governo Bolsonaro criticado pela demora e falta de ações efetivas para conter o desastre ambiental no Nordeste, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles,chegou a insinuar, sem provas, que o Greenpeace, uma das principais ONGs ambientais do mundo, seria responsável pela situação.

Outra hipótese

A Marinha contesta categoricamente um estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que sugeriu que as manchas de petróleo podem ter origem em um grande vazamento abaixo da superfície do mar.

Um pesquisador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), vinculado à Ufal, apontou a identificação de um “enorme vazamento de óleo, em formato de meia lua, com 55 quilômetros de extensão e 6 quilômetros de largura, a uma distância de 54 quilômetros da costa do Nordeste”.

De acordo com a assessoria de imprensa da Marinha, não há tal registro de mancha de óleo na região ao sul da Bahia. Para a Marinha, a imagem de satélite pode ter mostrado uma nuvem espessa.

RPR/dw/ots

Meio Ambiente,Oceanos,Vida Selvagem,Fauna,Flora,Crimes Ambientais,Petróleo,Óleo,Blog do Mesquita 01

“Ouro negro”, capital do mal!

Ambiente,Oceanos,Crimes Ambientais,Brasil,Petróleo,Meio Ambiente,Ecologia,Fauna,Blog do Mesquita 01A Petrobras financiou um Plano de Contingências a óleo no litoral e bacias hidrográficas, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, e com participação de 11 universidades, que elaboraram um trabalho de nove volumes, denso, minucioso,detalhado. Para quê, afinal?

Como é de praxe acontecer no Brasil, estudos, pesquisas, relatórios e tais, têm servido mesmo é como instrumento burocrático para alimentar sistemas ineficientes, de faz de conta, sem aplicação do que se recomenda, sem focos em objetivos inteligentes de prevenção, planejamento, fiscalização.

Tais relatórios, documentos, sistematizações de informações, com gráficos, fotos e capas duras caras e estilisticamente trabalhadas, servem, e muito bem, ao que nomeio, em minha pesquisa de trabalho acadêmico, como ” …Discurso Marketeiro Insustentável (Greenwashing) “. Estão a servir ao fluxo perverso de captação de recursos, que vão alimentar esse ciclo, criminoso, de não fazer, não aplicar, não colocar em funcionamento, o que estudos, pesquisas, reportagens… comprovam como importantes, necessários e urgentes.

Senão, vejamos, se o tal Plano de Contenção de Òleo ( será quanto custou? ainda estou a investigar) estivesse em prática, na ativa mesmo, valorizando as justificativas como investimento, como instrumento de prevenção, esse óleo ai,que começou a ser notícia, desde o mês de Agosto, já não estaria contido, desde a sua origem? No entanto, estamos quase no final de Outubro, e os estragos, os prejuízos à vida, se agigantam.
Esses recursos gastos com o tal plano, não poderia, não deveria, estar a serviço de evitar, de causar, de impedir um desastre socioambiental, como esse? E não adianta vir notícias sobre cálculos de perdas incalculáveis, sem fim em efeitos devastadores, para a vida e seus entornos, interdependentes, sedentos de cuidados, de compromisso, de cumprimento de deveres.

Os diversos ambientes onde o óleo chega é devastador, e pra sempre! Poderia ser momento, fato, de grande alerta para o que a Ciência vem mostrando sobre as necessidade de se potencializar outras fontes de energia, limpas e abundantes, tão amplamente divulgadas, e até já acessadas, mundo afora.

E daí, quem dera, quem sabe, darmos um salto civilizatório, definitiva e inteligentemente, entendermos o mal devastador que o tal do “ouro negro” fez com a vida, e seus ambientes sedentos de alternativas para o bem-viver! Enquanto isso, a população, como formiguinhas operárias, sem estrutura para conter a velocidade e o volume do óleo pegajoso, trabalha duro, em arranjos domésticos, pra tentar cobrir ausências, negligências das superestruturas vinculadas ao “ouro negro”, como capital do mal!

* Liliana Peixinho – Jornalista, ativista, colaboradora de diversas mídias socioambientais, autora do trabalho de pesquisa acadêmica e de campo minado em desafios cotidianos

Marinha diz que óleo no Nordeste pode ter origem em navio irregular

Almirante afirma que investigações miram também 30 embarcações regulares de dez diferentes países. Segundo ele, não há indícios de envolvimento do governo venezuelano no vazamento que castiga praias brasileiras.Meio Ambiente,Óleo,Prais,Nordeste,Crimes Ambientais,BlogdoMesquitaMancha de óleo em uma praia de Pernambuco

O comandante da Marinha do Brasil, almirante Ilques Barbosa Júnior, disse nesta terça-feira (22/10) que as investigações sobre a origem do óleo que atinge a costa do Nordeste miram cerca de 30 navios regulares, de dez países diferentes, que passaram perto da costa brasileira.

A investigação inicial lidava com cerca de mil embarcações. “Nós saímos de mil navios para 30 navios”, afirmou Barbosa, após reunião com o presidente em exercício, Hamilton Mourão, no Palácio do Planalto.

Mas, segundo o comandante, a maior probabilidade é que o vazamento tenha partido de um navio irregular, um “dark ship”. “O mais provável é um dark ship ou um navio que teve um incidente e, infelizmente, não progrediu a informação como deveria”, disse, explicando que, por convenção internacional, todo incidente de navegação deve ser informado pelo comandante responsável.

Um dark ship é um navio que transporta uma carga que não pode ser comercializada, muitas vezes por causa de sanções contra algum país. Ao navegar, ele busca linhas de comunicação marítimas pouco frequentadas para evitar ser interceptado e não alimenta seu sistema de identificação, muitas vezes desligando o transponder. “Ele procura as sombras. E essa navegação às sombras produz essa dificuldade de detecção”, disse o almirante Barbosa.

Ainda segundo o comandante, a quantidade de óleo que já chegou à costa brasileira é muito menor do que a capacidade dos navios investigados, em torno de 300 mil toneladas. Até esta segunda-feira, haviam sido recolhidas 900 toneladas de resíduos de óleo cru nas praias do Nordeste.

Para Barbosa, é muito pouco provável que o vazamento tenha acontecido durante uma transferência de óleo em alto mar.

“A transferência é uma atividade marinheira de extremo risco. Isso, fazer em mar aberto, onde o mar pode estar em situação adversa, ou pode ficar em situação adversa ao longo do trabalho, não é uma atividade que os armadores, proprietários de navios, recomendariam. Não seria uma atitude de comandante responsável, muito menos dos armadores”, explicou.

O comandante da Marinha informou que as apurações correm em sigilo e que não há data para a conclusão dos trabalhos. “As investigações prosseguem e só terminarão no dia em que nós localizarmos quem agrediu a nossa pátria. Isso é importante deixar sublinhado. Se demorar 200 anos, vamos fixar 200 anos nisso, até achar [os responsáveis]”, afirmou Barbosa.

Por fim, o almirante disse que não há indícios de que as manchas de óleo que atingem o Nordeste tenham sido provocadas pelo governo ou pela indústria venezuelana. “O que se sabe pelos cientistas é que o petróleo é de origem venezuelana. Não quer dizer que houve, em algum momento, envolvimento de qualquer setor responsável, tanto privado quanto público, da Venezuela nesse assunto.”

JPS/abr/ots

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Manchas de óleo atingem todos os estados do Nordeste

Em Sergipe, manchas misteriosas forçam governo a decretar estado de emergência, e ameaçam turismo e área de reprodução de tartarugas. Origem do óleo é desconhecida, mas não faltam teorias e boatos.    

Mancha de óleo numa praia da Orla de Atalaia, em Aracaju, SEMancha de óleo numa praia da Orla de Atalaia, em Aracaju, SE

Apesar do tempo ensolarado, muitos moradores de Aracaju abriram mão de passar o fim de semana na praia, pois nos últimos dias manchas de óleo poluíram as praias da Orla de Atalaia. Antes de chegar à capital sergipana, as manchas misteriosas haviam contaminado praias do Maranhão até Alagoas. E no fim de semana atingiram também praias da Bahia, afetando, assim, todos os nove estados da região Nordeste.

“Mais manchas pretas chegando à areia”, alertava o pescador amador Marcos, no domingo de manhã, os banhistas em Atalaia. Durante o sábado, equipes do Ibama e da cidade de Aracaju haviam limpado a praia dos aglomerados viscosos, mas com a marés vieram novas manchas.

“Tenho 52 anos e moro aqui há décadas, mas nunca vi um histórico desse. A gente já viu algumas bolhas de petróleo que vem das perfurações. Mas desta natureza, nunca tinha visto isso aqui”, explica Marcos, em referência às inúmeras plataformas marítimas de petróleo que marcam o horizonte de Aracaju.

Durante todo o domingo, cerca de 150 funcionários limparam as praias da Orla de Atalaia. “É um evento nacional, e a gente sabia que ia chegar à costa sergipana”, afirmou Paulo Amilcar, superintendente do Ibama em Sergipe e coordenador de operações locais, em entrevista à DW Brasil.

Desde o início de setembro, manchas de óleo apareceram em mais de 100 praias do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. De helicóptero, o Ibama monitorou as manchas e projetou sua trajetória rumo ao sul.

“Desde 24 de setembro, quando as primeiras manchas apareceram em Sergipe, o Ibama estava monitorando a situação no estado”, segundo Amilcar. “Mas na quinta-feira [03/10], o negócio saiu do controle completamente. Praias que estavam limpas ficaram sujas em todo o litoral. Agora, não tem previsibilidade. E se continuar como está, teremos que decretar situação de emergência no estado.”

Apenas poucas horas depois da entrevista de Amilcar à DW, o governo sergipano declarou o estado de emergência. Atualmente, Sergipe é considerado o estado mais afetado pelas misteriosas manchas de petróleo.

O óleo tem causado estragos no litoral sergipano. Na noite de quinta para sexta-feira, a maré poluiu a costa norte do estado, afetando em particular as praias da Reserva Biológica Santa Isabel, no município de Pirambu, cerca de 50 quilômetros ao norte de Aracaju. A região, que vive basicamente do turismo, amanheceu com as praias repletas de manchas de petróleo.

Em 30 anos, nunca houve nada parecido, segundo Adaílton, proprietário de um quiosque na praia de Pirambu, que estava coberta com pequenas manchas de óleo. A poluição misteriosa tem afugentado a clientela, reclama: “Não tem como não afetar. As pessoas pisam na areia, e depois esse negócio não sai do pé.” Nos últimos dias, o volume de negócios de seu quiosque caiu pela metade. “Os clientes me ligam para desfazer a reserva. E vão para outras praias. É prejuízo mesmo.” Ele não conseguirá sobreviver financeiramente muito tempo essa situação, comenta.

Com pás, funcionários trabalham na limpeza de pedaços de óleo na praia de Pirambu, no litoral do SergipeCom pás, funcionários trabalham na limpeza de pedaços de óleo na praia de Pirambu, no litoral norte do Sergipe

O pescador Sivaldo também tem motivos para reclamar: “As pessoas não comem o peixe assim. Se veem que tem óleo, não comem. Tem que soltar o bicho, se ainda estiver vivo”, disse. Normalmente, Sivaldo costuma pescar em mar aberto. Mas desde que o mar está repleto de manchas de óleo, tem puxado a rede de pesca pelas ondas na praia. Mas agora a rede de pesca também está suja de petróleo. “Nunca vi um negócio destes na minha vida.”

Em perigo estão também as tartarugas na Reserva Biológica Santa Isabel, em Pirambu. Com sede no local, o Projeto Tamar monitora mais de 50 quilômetros de litoral até a foz do Rio São Francisco. As manchas chegaram justamente no período reprodutivo das tartarugas-olivas, as menores entre as tartarugas marinhas no Brasil. No domingo, o Projeto Tamar comunicou que suspendeu a soltura dos filhotes em Pirambu.

Com a chegada das manchas mais para o sul do litoral nordestino, outras áreas reprodutivas das tartarugas são afetadas. No sábado, funcionários do Projeto Tamar em Mangue Seco – a primeira praia baiana na divisa com Sergipe – encontraram o primeiro espécime morto devido ao óleo.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a Aracaju nesta segunda-feira para acompanhar de perto a situação. No sábado, o presidente Jair Bolsonaro determinou que o Ministério da Justiça, por meio da Polícia Federal (PF) e o Ministério da Defesa, por meio da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, investiguem as manchas, junto com técnicos do Ministério do Meio Ambiente, ou seja, o Ibama e o ICMBio.

Bolsonaro sinalizou urgência: ele quer ver resultados em 48 horas. A repentina pressa do governo surpreende, pois durante todo um mês ele não fez nada. E, assim, a boataria está a todo vapor. A Petrobras informou ter analisado o óleo e descartado que provenha de suas operações. Mas, devido às inúmeras plataformas da empresa no litoral sergipano, a associação com as perfurações no alto-mar aparentam ser inevitáveis.

Há quem suspeite de uma ligação com o acidente na refinaria Abreu e Lima, localizada no município de Ipujuca, ao sul de Recife. No fim de agosto, um vazamento atingiu uma área de 4,5 hectares e causou a morte de animais e danos ambientais. Segundo a Petrobras, contudo, o óleo vazado não atingiu o mar. Além disso, o óleo que vazou da refinaria seria mais leve que o encontrado nas praias.

Adriano Pires, sócio fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), também descartou uma conexão entre o vazamento em Abreu e Lima e as manchas nas praias. “Isso foi em agosto, há muito tempo”, disse o economista em entrevista à DW.

Segundo Pires, a substância apresenta propriedades típicas do petróleo venezuelano, mas ele diz não acreditar num acidente numa plataforma venezuelana, pois nesse caso as costas mais ao norte da América do Sul teriam sido poluídas.

No entanto o petróleo pode ter vazado de um navio petroleiro de passagem na movimentada rota entre o sul do Caribe e a Ásia, que corre ao longo da costa do Nordeste. “Um navio voltando de uma exportação venezuelana limpou o tanque na área e despejou a carga no oceano antes de carregar a próxima. Sendo assim, o navio estaria voltando para a Venezuela”, é uma das possíveis explicações, de acordo com Pires.

Na praia em Aracaju, o pescador amador Marcos afirmou acreditar numa explicação semelhante. “Não é petróleo novo. Isso provavelmente é de limpeza de navios. Pois o petróleo, quando novo, é oleoso. Ele não é um plástico, como este que está chegando aqui”, analisa, amassando um punhado da substância viscosa.