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“Denúncia contra Glenn Greenwald é aventura arbitrária”

Em entrevista, especialista em direito constitucional aponta afronta à liberdade de imprensa e ao devido processo legal na denúncia do MPF contra jornalista do Intercept, acusado de conluio com hackers.    

Glenn Greenwald“Glenn e o Intercept estão cobrindo um tema de interesse público, e a Constituição assegura o sigilo da fonte”, diz especialista

Mais do que ameaçar a liberdade de imprensa, a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept, é uma tentativa de criminalização da atividade jornalística, na opinião do professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Daniel Sarmento, especialista em direito constitucional. Em entrevista à DW Brasil, ele associa o caso a um contexto mais amplo de crise democrática no Brasil.

“É triste ver o Ministério Público Federal fazendo esse papel. Aliás, foi o mesmo procurador que denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por ter denunciado o ministro Sergio Moro, chegando a pedir sua destituição do cargo, outra ação absurda”, diz.

“São casos que mostram o quadro de degradação das instituições do país. Infelizmente, a qualidade da nossa proteção à liberdade de imprensa está se deteriorando”, opina.

DW: Glenn Greenwald não era investigado pela Justiça nem havia sido indiciado pela Polícia Federal, que afirmou não ter encontrado evidências de crimes cometidos pelo jornalista. Mesmo assim, ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal. Trata-se de uma ação arbitrária?

Daniel Sarmento: Eu vejo dessa forma. Em primeiro lugar, há uma ameaça à liberdade de imprensa. O Glenn e o Intercept estão cobrindo um tema com enorme interesse público. A Constituição assegura o sigilo da fonte, e a denúncia coloca uma ameaça sob a cabeça de jornalistas investigativos, que ousam noticiar o que desagrada às autoridades. O caso tem várias singularidades. Uma delas é o fato de não estar sendo sequer investigado. Outra é o claro descumprimento de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), proferida pelo ministro Gilmar Mendes, que vedou qualquer tipo de responsabilização do Glenn pela recepção, obtenção ou transmissão de informações publicadas em veículos de imprensa. É uma clara afronta à Constituição, especialmente à liberdade de imprensa e às regras do devido processo legal, que exigem a abertura de investigação e a oportunidade para que o investigado dê sua versão antes da denúncia.

Tendo em vista o envolvimento de figuras públicas nas mensagens vazadas para o Intercept, que limites a Constituição estabelece para a a atuação jornalística?

O Intercept não poderia, por exemplo, encomendar uma gravação ilícita, ou associar-se à prática de interceptação telefônica. Agora, no momento em que o site recebe o material, tem o direito de publicá-lo, pois a população tem o direito de conhecer o conteúdo. Não tem uma disposição clara na Constituição sobre esse ponto. Mas o standard importante é o relevo público e a importância das informações para a sociedade.

A Suprema Corte dos EUA julgou um caso muito parecido, que envolveu o jornal Washington Post, pela publicação dos Pentagon Papers, documentação relativa a irregularidades do governo estadunidense na Guerra do Vietnã. Uma fonte obteve o material e vazou para o jornal, que publicou o conteúdo, apesar da tentativa do governo de impedir a publicação. O tribunal decidiu a favor do jornal, da liberdade de imprensa e do direito da sociedade à informação. É um dos grandes precedentes no Direito global sobre essa matéria, que se aplica perfeitamente à atuação do Intercept.

Além de apontar a interceptação de comunicações e invasão de dispositivo informático, a denúncia do MPF acusa o jornalista de associação criminosa. Pode-se falar em uma tentativa de criminalização da atividade jornalística?

Claramente. É triste ver o Ministério Público Federal fazendo esse papel. Aliás, foi o mesmo procurador que denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por ter denunciado o ministro Sergio Moro, chegando a pedir sua destituição do cargo, outra ação absurda. São casos que mostram o quadro de degradação das instituições do país. Infelizmente, a qualidade da nossa proteção à liberdade de imprensa está se deteriorando. É importante que as próprias instituições de Estado percebam isso na hora de decidir, e que não se permita a continuidade dessa aventura arbitrária contra o Glenn Greenwald.

O caso evidencia um desvio de função do MPF?

O MPF age em nome da sociedade. Embora seja parte, não pode estar do lado incondicional do governo ou possíveis vítimas de crimes, e deve fazer uma avaliação pautada no Direito. Claramente não foi o caso. Li a denúncia, que contém a transcrição de um diálogo do Glenn que serviu de base para a ação. É preciso ter muita criatividade para extrair dali um estímulo ao crime ou associação à prática do crime. É evidente que não foi isso.

Há precedentes de iniciativas tão agressivas contra a liberdade de imprensa no período democrático mais recente?

Em primeiro lugar, tenho confiança de que o Poder Judiciário não vai embarcar nisso. A gente tem tido decisões muito ruins, mas que, em geral, têm sido revertidas. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) reformou uma decisão do presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) que autorizou a apreensão de revistas que traziam um beijo gay. Houve também uma decisão muito equivocada do Supremo que censurou a revista Crusoé por uma matéria contrária ao tribunal, com reação muito negativa, que levou o ministro ao voltar atrás. Nem sempre o Judiciário acerta.

Neste mês, um caso no TJ-RJ levou à censura judicial de um blog. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) pediu para entrar no processo como amicus curiae contra a censura, e o desembargador não só manteve a censura, como negou o pedido da ABI e condenou a entidade por litigância de má fé. Ou seja, censurou a própria ABI. Com muita frequência, o Judiciário brasileiro falha nessa matéria. O caso do Glenn é muito grave, e espero que não falhe desta vez.

São casos isolados ou se encaixam em um contexto mais amplo de cerceamento de liberdades?

Infelizmente, a segunda opção. É um caso extremo. Quase todas as pessoas razoáveis vão concordar que é algo com que não se pode transigir. Mas não acho que seja um ato isolado. A gente vive um momento de crise democrática no Brasil, com muitas instituições do Estado participando de sua formação. Eu tenho visto duas leituras bastante distintas da situação brasileira, e nenhuma das duas está totalmente certa, a meu ver.

Uma diz que as instituições estão funcionando e conseguindo conter os arroubos autoritários do governo. Outra, que não somos mais uma democracia. Algumas das instituições estão funcionando razoavelmente bem, mas muitas delas estão contaminadas. A polícia está matando mais, a atuação dos órgãos de fiscalização ambiental está muito pior, e aumentou a discriminação na sociedade. Acredito também que os críticos do governo estejam se sentindo mais ameaçados. São impactos reais, e as instituições não bastam para contê-los integralmente.

Na matéria indígena, o presidente da República disse que não ia demarcar nem um centímetro de terra indígena e tirou, inicialmente, a atribuição da Funai e passou para o Ministério da Agricultura. Após alguma hesitação, o Supremo derrubou isso. O governo, então, esvaziou totalmente a Funai, colocou um ruralista na presidência e proibiu a autarquia de pagar diárias para os funcionários que vão para áreas não demarcadas. Nos últimos dias, houve uma decisão escandalosa que sustava o fornecimento de cestas básicas para os povos indígenas que não estejam em áreas demarcadas, tirando o direito à subsistência. O Supremo vai por um caminho, e o governo esvazia por outro lado. Não é possível barrar os retrocessos só com algumas instituições. Agora, eu concordo que o Brasil ainda não virou uma Turquia, uma Hungria. Ainda temos um parlamento que freia excessos do governo, um Poder Judiciário que freia alguns excessos e atos democráticos. Não é o cenário em que está tudo normal, pois vivemos, de fato, uma crise democrática, mas também não é o cenário em que o Brasil já virou uma ditadura.
WD

Jornal,Blog do Mesquita,Mídia

Como morre um jornal local?

Se para os grandes veículos de comunicação é um desafio permanente fazer um bom jornalismo e manter o equilíbrio econômico-financeiro diante do impacto das transformações tecnológicas que afetam os processos de produção e difusão da notícia, para os jornais locais esse desafio é ainda maior.

Os efeitos desse cenário de convergência midiática e de crise econômica acentuam-se na queda de circulação e de assinantes e na redistribuição das verbas publicitárias, que tendem a migrar com o leitor para outras plataformas. São fatores decisivos para a viabilidade financeira das empresas de mídia, principalmente nas cidades de pequeno e médio porte, cuja economia patina, sem crescimento real.

Não conheço as causas que levaram à decisão de encerramento das atividades do jornal Comércio do Jahu — uma notícia avassaladora —, mas é preciso lançar um olhar sobre alguns aspectos para compreender o panorama atual e o papel da imprensa, que não é o de oferecer tão somente um produto de consumo diário, mas uma prestação de serviço aos cidadãos, imprescindível numa sociedade democrática.

Os ventos neoliberais que sopram de novo sobre o país chegam, na verdade, como o bafio de uma velha política que se transveste de nova — trazem promessas enganosas com o ímpeto reformista que, na prática, passa por cima de direitos e destrói o arcabouço constitucional de nosso incipiente estado de bem-estar social.

A hegemonia da ideologia capitalista não admite contestação, uma vez que transforma a capacidade humana de duvidar em simples falta de convicção — e a quem falta convicção ou adesão voluntária e acrítica está vedada a entrada no paraíso das promessas (nem sempre ou quase nunca atingíveis) de consumo. Esgarçam-se nesse processo as relações de solidariedade de classe e de cooperação em favor da ferocidade do individualismo exacerbado.

É preciso dizer que na esteira da desmedida produção capitalista em sua lógica de rentabilidade a curto prazo está posta a financeirização das economias, do capital que reproduz a si mesmo, sem fronteiras ou barreiras, impondo sua temporalidade, que é a do mercado, e atravessando o próprio Estado.

O Estado cede sua capacidade de gerir, de fomentar a economia e garantir direitos e serviços básicos, como educação, saúde, transportes, aposentadoria etc., tornados mercadorias. A exemplo do canto da sereia da reforma previdenciária que entrega a seguridade social ao mercado, sob a justificativa deficitária das contas (tornadas sigilosas pelo governo) e um iminente colapso do sistema.

Não é conveniente aos arautos reformistas revelar, no entanto, que os juros e amortizações da dívida pública consomem mais de 42% do orçamento da União, conforme dados de 2018, enquanto a Previdência Social ficou em 22,69%, sendo que desse montante a Desvinculação da Receita da União (DRU) permitiu remanejar verbas para outras áreas, inclusive pagamento dos juros.

Uma dívida que o governo contrai em forma de empréstimo por meio do Banco Central para “enxugamento” dos recursos que os bancos (coitados!) não põem no mercado, que não financiam as atividades econômicas devido às altas taxas de juros que inviabilizam as (não tão livres) iniciativas privadas. Ao contrário do que se pensa, esses “empréstimos” não se transformam em investimentos, não aquecem a economia nem geram empregos, tampouco voltam reinvestidos em serviços públicos de qualidade.

E a quem está se perguntando qual a relação que esses aspectos têm com o papel da imprensa ou com a questão do Comércio do Jahu, basta juntar os pontos para se ter ideia do contexto de transformações, dificuldades, pressões e cerceamentos a que todos estamos submetidos.

Se o capitalismo, em suas formas de reprodução e dominação, atravessa Estados, por que não nos atravessaria? É o próprio campo onde agimos e somos “regidos” (em menor ou maior grau) por suas demandas e temporalidade.

Uma temporalidade marcada pela aceleração contemporânea e que se põe em conflito com a temporalidade política das democracias, confiscados o “espaço da experiência” e o “horizonte de expectativas”, passado e futuro dos indivíduos. E isso impossibilita a construção de uma memória representável, o que é um risco para as sociedades e para o próprio exercício democrático.

A imprensa não escapa da razão mercadológica e dessas contradições, mas não deixa de ser a arena onde os embates sociais se dão. De sua pluralidade de vozes depende a liberdade democrática, especialmente nesse momento de disseminação de “verdades alternativas”, de mesquinhez intelectual, de maniqueísmos e popularismo vulgar. É preciso encontrar novos caminhos e modelos de negócios, com reflexão e profundidade, diante de tantos desafios.

De qualquer forma, abre-se uma lacuna com o encerramento das atividades do Comércio do Jahu, que deixa de reportar a história imediata, mas não de ser o repositório dos últimos 110 anos de história de nossa cidade.

Bolsonaro e a autoverdade

Jair Bolsonaro é recepcionado em Salvador  Jair Bolsonaro é recepcionado em Salvador U.MARCELINO REUTERS

Como a valorização do ato de dizer, mais do que o conteúdo do que se diz, vai impactar a eleição no Brasil.

A pós-verdade se tornou nos últimos anos um conceito importante para compreender o mundo atual. Mas talvez seja necessário pensar também no que podemos chamar de “autoverdade”. Algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo “dizer tudo” da internet. E que é expressa nas redes sociais pela palavra “lacrou”.

O valor dessa verdade não está na sua ligação com os fatos. Nem seu apagamento está na produção de mentiras ou notícias falsas (“fake news”). Essa é uma relação que já não opera no mundo da autoverdade. O valor da autoverdade está em outro lugar e obedece a uma lógica distinta. O valor não está na verdade em si, como não estaria na mentira em si. Não está no que é dito. Ou está muito menos no que é dito.

Assim, a questão da autoverdade também não está na substituição de verdades ancoradas nos fatos por mentiras produzidas para falsificar a realidade. No fenômeno da pós-verdade, as mentiras que falsificam a realidade passam elas mesmas a produzir realidades, como a eleição de Donald Trump ou a aprovação do Brexit. A autoverdade se articula com esse fenômeno, mas segue uma outra lógica.

O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no ato de dizer

O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no fato de dizer. “Dizer tudo” é o único fato que importa. Ou, pelo menos, é o fato que mais importa. É esse deslocamento de onde está o valor, do conteúdo do que é dito para o ato de dizer, que também pode nos ajudar a compreender a ressonância de personagens como Jair Bolsonaro e, claro, (sempre), Donald Trump. E como não são eles e outros assemelhados o problema, mas sim o fenômeno que vai muito além deles e do qual são apenas os exemplos mais mal acabados.

Uma pesquisa de junho do Datafolha mostrou, mais uma vez, que a maioria das pessoas que declaram voto em Jair Bolsonaro (PSL) são jovens: seu eleitorado se concentra principalmente na faixa dos 16 aos 34 anos. O capitão do exército também lidera as intenções de voto entre os mais ricos e os mais escolarizados do país. O candidato de extrema-direita está em primeiro lugar na disputa presidencial de outubro. Isso num cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com Lula, Bolsonaro cai para o segundo lugar. Mas Lula, como sabemos, está preso e impedido de se manifestar num dos mais controversos episódios da história recente do Brasil, um país hoje assinalado pela politização da justiça.

Em pesquisa recém divulgada, a professora Esther Solano entrevistou pessoas na cidade de São Paulo para compreender o crescimento das novas direitas e especialmente da extrema-direita mais antidemocrática, representada por Jair Bolsonaro. Os selecionados cobrem um amplo espectro de posição econômica, de emprego, de idade e de gênero. Solano é professora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. Ela tem se destacado como uma das principais estudiosas do perfil dos participantes dos protestos no Brasil desde 2013, quando foi uma das poucas a escutar os adeptos da tática black bloc em profundidade.

A pesquisa, financiada pela Fundação Friedrich Ebert, é ótima, importante e deve ser lida na íntegra. Aqui, me limito a reproduzir um trecho que ajuda a iluminar a questão que apresento nessa coluna:

“Ele (Bolsonaro) é um mito porque fala o que pensa e não está nem aí”, diz estudante de 15 anos

“No começo da roda de conversa com os alunos de São Miguel Paulista, assistimos a um vídeo com as frases mais polêmicas de Bolsonaro. No final do vídeo, muitos alunos estavam rindo e aplaudindo. Por quê? Porque ele é legal, porque ele é um mito, porque ele é engraçado, porque ele fala o que pensa e não está nem aí. Com mais de cinco milhões de seguidores no Facebook, o fato é que Bolsonaro representa uma direita que se comunica com os jovens, uma direita que alguns jovens identificam como rebelde, como contraponto ao sistema, como uma proposta diferente e que tem coragem de peitar os caras de Brasília e dizer o que tem de ser dito. Ele é foda.

O uso das redes sociais, a utilização de vídeos curtos e apelativos, o meme como ferramenta de comunicação, a figura heroica e juvenil do ‘mito ’Bolsonaro, falas irreverentes e até ridículas, falas fortes, destrutivas, contra todos, são aspectos que atraem os jovens. Se, nos anos 70, ser rebelde era ser de esquerda, agora, para muitos destes jovens, é votar nesta nova direita que se apresenta de uma forma cool, disfarçando seu discurso de ódio em formas de memes e de vídeos divertidos: O Bolsomito é divertido, o resto dos políticos não.

Na roda de conversa na escola de São Miguel Paulista, na Zona Leste, a mais precarizada de São Paulo, os alunos negam que Bolsonaro faça a difusão de um discurso de ódio. Mas valorizam a sua coragem de dizer coisas fortes. Um garoto de 16 anos resumiu: “Ele não tem discurso de ódio. Tá só expondo a opinião dele, falando a verdade”.

A opinião de Bolsonaro, ou a “verdade” de Bolsonaro, que circula em vídeos de “lacração” do “Bolsomito”, é chamar uma deputada de “vagabunda” e dizer que não a estupraria porque ela não merece, por considerá-la “muito feia”; a afirmação de que sua filha, caçula de cinco homens, é resultado de uma “fraquejada”; a declaração de que seus filhos não namorariam uma negra ou virariam gays porque foram “muito bem educados”. E, claro, sua performance na votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT).

Ao declarar seu voto pelo afastamento da presidente eleita, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O herói de Bolsonaro, hoje estampado em camisetas de seus apoiadores, é um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar, um sádico que chegou a levar crianças pequenas para ver as mães torturadas, cobertas de hematomas, urinadas, vomitadas e nuas, como forma de pressioná-las. Sobram ainda declarações racistas de Bolsonaro contra índios e quilombolas.

“Ele (Bolsonaro) não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”, diz uma mulher

Uma das entrevistadas por Esther Solano assim justifica as falas de seu escolhido: “É que ele tem esse jeito tosco, bruto de falar, militar mesmo. Mas ele não quis dizer essas coisas. Às vezes exagera, não pensa porque vai no impulso, porque é muito honesto, muito sincero e não mede as palavras como outros políticos, sempre pensando no politicamente correto, no que a imprensa vai falar. Ele não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”.

Na minha própria escuta de pessoas nas periferias de São Paulo e na região do Xingu, no Pará, em diferentes classes sociais e faixas etárias, escuto seguidamente uma variação destas frases: “Ele é honesto porque ele diz o que pensa” ou “Ele não tem medo de dizer a verdade”. Quando questiono o conteúdo do que Bolsonaro pensa, a “verdade” de Bolsonaro, em geral aparece um sorriso divertido, meio carinhoso, meio cúmplice: “Ele é meio exagerado, mas porque é um sincerão”.

Assim, Bolsonaro não seria homofóbico ou misógino ou mesmo racista para aqueles que aderem a ele, mas um “homem de bem” exercendo a “liberdade de expressão”. Estes são os adjetivos que aparecem com frequência colados ao candidato de extrema-direita por seus eleitores: “sincero”, “verdadeiro”, “autêntico”, “honesto” e “politicamente incorreto” (este último também como um elogio).

Embora o conteúdo do que Bolsonaro diz obviamente influencia no apoio do seu eleitorado, me parece que ele é mais beneficiado pelo fenômeno que aqui estou chamando de autoverdade. O ato de dizer “tudo” e o como diz o que diz parece ser mais importante do que o conteúdo. A estética é decodificada como ética. Ou colocada no mesmo lugar. E este não é um dado qualquer.

Por isso também é possível se desconectar do conteúdo real de suas falas, como fazem tantos de seus eleitores. E por isso é tão difícil que a sua desconstrução, por meio do conteúdo, tenha efeito sobre os seus eleitores. Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre, que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade.

A lógica em que a imprensa opera, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa

Simples assim. Complexo demais. A lógica em que a imprensa opera, quando faz jornalismo sério, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa. Esse é um dado bastante trágico, na medida em que os instrumentos disponíveis para expor verdades que mereçam esse nome, para iluminar fatos que de fato existem, passam a girar em falso.

Se Bolsonaro participar dos debates ao vivo durante a campanha eleitoral, para uma parcela significativa do eleitorado brasileiro o que vai prevalecer é a estética marcada pelo “dizer tudo” e dizer tudo lacrando. Também por isso Ciro Gomes (PDT), por sua própria personalidade mais agressiva e sua falta de freio na língua, é visto por uma parcela preocupada com a ascensão de Bolsonaro como o mais capaz de enfrentá-lo.

Se esse quadro permanecer, a disputa entre testosteronas infláveis – e inflamáveis – será mais importante do que o conteúdo na eleição brasileira, porque mesmo quem tem conteúdo terá que deixá-lo em segundo plano para ganhar a disputa da dramaturgia. Mais um degrau escada abaixo na apoteótica descida do país rumo à irrelevância.

Se este não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, no Brasil há uma particularidade que parece impactar de forma decisiva a autoverdade. Essa particularidade é o crescimento das igrejas evangélicas fundamentalistas e sua narrativa do mundo a partir de uma leitura propositalmente tosca da Bíblia. A retórica do bem contra o mal atravessa fenômenos como a “bolsonarização do país”.

A autoverdade atravessa o discurso religioso fundamentalista como conceito e como estética

Embora os pastores fundamentalistas exaltem a perseguição do “povo de Deus”, a prática mostra exatamente o contrário, ao perseguirem os LGBTQs, as mulheres e, em alguns casos de racismo, os negros. Mas a prática são os fatos, e os fatos não importam. O que importa é a retórica e a forma. A autoverdade atravessa o discurso fundamentalista como conceito e como estética. O milagre da transmutação aqui é justamente fazer com que a estética seja convertida em ética.

Formados nessa narrativa, uma geração de brasileiros é capaz de ler ou assistir a uma reportagem da imprensa mostrando verdades que Bolsonaro gostaria que não subissem à superfície não pelo seu conteúdo, mas pela ótica da perseguição. O conteúdo não importa quando quem questiona o inquestionável é automaticamente um inimigo, capaz de usar qualquer “mentira” para atacar um “homem de bem”. Afinal, as imagens de malas de dinheiro (de dízimo, no caso) foram inauguradas por alguns pastores neopentecostais, muito antes do que pela investigação da Lava Jato, e mesmo assim suas igrejas não pararam de crescer. Bolsonaro torna-se o “perseguido” na luta do bem contra o mal, o que faz todo o sentido para quem é bombardeado por uma visão maniqueísta do mundo.

Produtos de entretenimento como as novelas e os filmes supostamente bíblicos de uma rede de TV como a Record, por exemplo, colaboram para formatar um determinado olhar sobre a dinâmica da vida. Se alguém só vê o mundo de um mesmo modo, não consegue mais ver de outro. Não há mais interpretação, a decodificação passa a ser por reflexo.

Este é o mecanismo que tem se alastrado no Brasil. E que é imensamente beneficiado pela tragédia educacional brasileira. Não é por acaso que a escola pública, já tão desvalorizada e desprestigiada, esteja sofrendo o brutal ataque representado pelo movimento político e ideológico nomeado como “Escola Sem Partido”. O pensamento múltiplo e o debate das ideias são os principais instrumentos para devolver importância aos fatos e ao conteúdo, assim como recolocar a questão da verdade.

Não é um risco que os protagonistas das novas direitas queiram correr. No jogo das aparências, seu truque é sempre o mesmo: fazer um movimento ideológico afirmando que é para combater a ideologia, agir politicamente mas afirmar-se antipolítico, apoiar partidos de direita dizendo-se apartidários. Esse mascaramento só funciona se aquele a quem a mensagem se destina abdicar do pensamento em favor da fé.

A adesão à política pela fé é a grande sacada dos protagonistas da articulação religiosa-militarista que disputa o Brasil deste momento

A retórica supostamente bíblica está educando aqueles que não estão sendo educados. Como produto de entretenimento, as novelas e filmes se articulam com os programas policialescos sensacionalistas da TV, muitas vezes na mesma rede de TV, e os ampliam. Já existe uma geração formada tanto na desumanização dos mais pobres e dos negros, tratados como coisas que podem levar bala nas imagens desse tipo de programa, quanto na adesão à política pela fé, a grande sacada dos atuais protagonistas da articulação religiosa-militarista que figuras como Bolsonaro representam.

A personificação, a valorização do indivíduo, do “Um” que é só ele, jamais um+um, garante que personagens como Bolsonaro e até mesmo Sergio Moro possam encarnar como “O Um”. “O Um” contra o mal, ungido pelas “pessoas de bem”, dispostas a linchar quem estiver no caminho. Afinal, se a luta é do bem contra o mal, tudo não só é permitido como abençoado.

Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais perigoso: a “religiosização” da política

Não há nada mais perigoso numa eleição do que o eleitor que acredita ser “um instrumento de Deus”, absolvido previamente por todos os seus atos, mesmo que eles sejam sórdidos ou até criminosos. Como a lei que vale não é a terrena, laica, mas ditada diretamente do alto e, com frequência, diretamente ao indivíduo, tudo é permitido quando supostamente “Deus estaria agindo”. Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais destruidor: a “religiosização” da política. E ela tem como primeiro efeito a política da antipolítica.

Figuras como Bolsonaro se beneficiam da crise econômica, do crescimento da violência e da produção de medo, sim. Mas sua força vem de uma população treinada para aderir pela fé ao que não diz respeito à fé. Por isso é possível até mesmo fazer política e se dizer apolítico. Se o imperativo é crer, a adesão já está garantida não importa o conteúdo do discurso, desde que a dramaturgia garanta entretenimento, espetáculo. Embora pareçam desacreditar de quase tudo em suas manifestações na internet, ninguém se iluda. Uma parte significativa do eleitorado brasileiro é formada por crentes. E ser crente hoje no Brasil tem um sentido e um alcance muito mais amplo do que em qualquer momento da história do país.

A autoverdade desloca o poder para a verdade do um, destruindo a essência da política como mediadora do desejo de muitos. Se o valor está no ato de dizer e não no conteúdo do que é dito, não há como perceber que não há nenhuma verdade no que é dito. Bolsonaro não está dizendo a verdade quando estimula o ódio aos gays, mas sendo homofóbico. Não está dizendo a verdade quando agride negros, mas sendo racista. Não está dizendo a verdade quando diz que não vai estuprar uma mulher porque ela é feia, mas incitando a violência contra as mulheres e sendo misógino. Há nome na língua para tudo isso e também artigos no Código Penal.

Os jovens da periferia que aplaudem Bolsonaro precisam perceber que o discurso da meritocracia é a sacanagem que os cimenta no lugar do qual gostariam de sair

Muitos daqueles que o aplaudem, especialmente os jovens nas periferias, não percebem que o discurso da meritocracia proclamado pela extrema-direita que Bolsonaro representa é justamente a sacanagem que os mantêm no lugar cimentado do qual gostariam de sair. Não existe meritocracia, ascensão apenas por méritos próprios, sem partir de bases minimamente igualitárias.

Jair Bolsonaro é a encarnação de um fenômeno muito maior do que ele, do qual ele se aproveita. Tanto quanto Donald Trump, em nível global. A tragédia é que eles possivelmente sejam só os primeiros.

O desafio imposto tanto pela pós-verdade como pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade

O desafio imposto tanto pela pós-verdade quanto pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade. Não faremos isso sem tomar partido por escola de qualidade para todos, apoiando aqueles que lutam por isso de maneira muito mais contundente do que fazemos hoje, assim como pressionando por políticas públicas e investimento, e questionando fortemente os candidatos para além da retórica fácil. Nem faremos isso sem a recuperação do sentido de comunidade, o que implica a reapropriação do espaço público para a convivência entre os diferentes, assim como a retomada da cidade. Temos que voltar a conviver com o corpo presente, compartilhando os espaços mesmo e – principalmente – quando as opiniões divergem. Temos que resgatar o hábito tão humano de conversar. E conversar em todas as oportunidades possíveis.

E isso não amanhã. Ontem. A verdade do momento é que estamos ferrados. Outra verdade é que, ainda assim, precisamos nos mover. Juntos. Não por esperança, um luxo que já não temos. Mas por imperativo ético.
Eliane Brum

A longa história das notícias falsas

Utilização política das mentiras começou muito antes das redes sociais, e a construção de outras realidades era uma constante na Grécia antiga

Soldados alemães durante a quarta batalha de Ypres, em outubro de 1918.
Soldados alemães durante a quarta batalha de Ypres, em outubro de 1918. PAUL THOMPSON GETTY IMAGES

A primeira vítima da guerra é a verdade, afirma um velho ditado jornalístico. Embora o mais correto fosse dizer que a verdade é vítima recorrente em qualquer sociedade organizada, porque a mentira política é uma arte tão velha quanto a civilização. A verdade é um conceito fugidio na metafísica e mutante nas ciências – uma nova descoberta pode anular o que se dava como certo –, mas no dia-a-dia o assunto é bem diferente: há coisas que aconteceram, e outras que não; mas os fatos, reais ou inventados, influenciam a nossa percepção e opinião.

Desde a Antiguidade, verdade e mentira se misturaram muitíssimas vezes, e essas realidades falsas influenciaram nosso presente. Assim já escreveu o grande historiador francês Paul Veyne em seu ensaio Os Gregos Acreditavam em Seus Mitos? (Unesp): “Os homens não encontram a verdade, a constroem, como constroem sua história”.

Chegados a este ponto, convém fazer uma distinção entre notícias falsas e propaganda: ambas crescem e se multiplicam no mesmo ecossistema, mas não são exatamente iguais. A propaganda procura convencer, ser eficaz, e para isso pode recorrer a todo tipo de instrumento, da arte e do cinema aos pasquins e redes sociais. As notícias falsas, um dos ramos da propaganda, são diferentes: procuram enganar, criar outra realidade. A preocupação com a perpetuação desses equívocos e com os mecanismos que os criam e multiplicam não é nova: Réflexions d’Un Historien Sur les Fausses Nouvelles de la Guerre, (“reflexões de um historiador sobre a notícias falsas das guerra”, Allia, 2012) é o título de um pequeno e influente ensaio que Marc Bloch publicou originalmente… em 1921.

Esse historiador, assassinado pelos nazistas em 1944, foi um dos mais influentes do século XX. Impulsionou a Escola dos Anais, que mudou o foco da pesquisa do passado para a vida cotidiana, e retornou das trincheiras da Primeira Guerra Mundial alucinado com a importância que as notícias falsas haviam tido. Isso o levou a refletir sobre sua origem e difusão, num texto que poderia ter sido escrito na era do Brexit, de Vladimir Putin e de Donald Trump, nestes tempos das redes sociais e de mensagens virais. “As notícias falsas mobilizaram as massas. As notícias falsas, em todas as suas formas, encheram a vida da humanidade. Como nascem? De que elementos extraem sua substância? Como se propagam e crescem?”, escreve, para afirmar um pouco mais adiante: “Um erro só se propaga e se amplifica, só ganha vida com uma condição: encontrar um caldo de cultivo favorável na sociedade onde se expande. Nele, de forma inconsciente, os homens expressam seus preconceitos, seus ódios, seus temores, todas as suas emoções”. Em outras palavras, as notícias falsas necessitam de gente que queira acreditar nelas.

Mudar a história

O século XX e o que já vivemos do XXI são a era das mentiras em massa. Três dos grandes conflitos em que os Estados Unidos se meteram neste período começaram com invenções: a guerra de Cuba (1898), com a manipulação dos jornais; a guerra do Vietnã (1955-1975), com o incidente do golfo de Tonkin, e a invasão do Iraque de 2003, com as inexistentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein. “A guerra contra a Espanha [em 1898] foi obra de Hearst e de Pulitzer”, escreveu o repórter Manuel Leguineche em seu ensaio sobre o nascimento do jornalismo sensacionalista, Yo Pondré la Guerra (“eu porei a guerra”, El País Aguilar). “Foi sua grande oportunidade de mudar a história, de criar uma psicose de guerra, de fabricá-la, por meio de sensacionalismo, tiragem, circulação milionária, venda maciça, chute no estômago do leitor”.

Ao mesmo tempo em que surgiam os jornais de circulação maciça, nascia também um certo ceticismo em relação a eles. Era como se alguns se empenhassem em demonstrar que a verdade estava em outro lugar. Essa desconfiança se prolonga até nossos dias, com aqueles que acreditam erroneamente que a imprensa conta mentiras, e que as redes sociais oferecem verdades. Com o telégrafo, chegou a possibilidade de enviar rapidamente histórias através de longas distâncias; com o linotipo foi possível imprimir maciçamente; e com os novos meios de transporte essas publicações puderam ser distribuídas em numerosos lugares. Mas nesse mesmo momento, no final do século XIX, surgiu a desconfiança quanto àquilo que contavam, a mesma que nutre agora os que procuram essa outra verdade no Facebook, que para alguns é a única janela para o mundo. É muito significativa, nesse sentido, uma cena de Um Estudo em Vermelho, o primeiro romance de Sherlock Holmes, publicado em 1887, em que o detetive e Watson repassam os diferentes jornais – The Daily TelegraphDaily NewsStandard – e todos contam uma versão falsa do crime que estão investigando, impulsionada por motivos políticos: uns culpam os europeus, outros os estrangeiros, ou os liberais. Nenhum cita uma pista confiável.

Uma das grandes tragédias do século XX, as matanças maciças promovidas pelos grandes totalitarismos, conseguiu se esconder detrás de notícias falsas. As ditaduras nazista e soviética não só fabricaram falsidades tremendas como também foram capazes de construir outra realidade, em que o verdadeiro e o falso eram elementos acessórios. Como apontou o escritor francês Emmanuel Carrère, “na URSS não se aboliu a propriedade privada, aboliu-se a realidade”. Agora pode parecer quase incrível que enquanto Stálin assassinava e deportava milhões de pessoas a bondade do socialismo se mantinha como um dogma em grandes setores do Ocidente. Muita gente achou, de boa ou má fé, que a realidade era, nesse caso, uma notícia falseada. Assim explicava o historiador Tony Judt em Pensando o Século XX (Objetiva): “Os que entenderam corretamente o século tiveram que imaginar um mundo para o qual não existiam precedentes. Tiveram que supor que essa situação insólita e claramente absurda estava acontecendo na realidade, em vez de dar como certo, como todos os demais, que era grotescamente inimaginável”.

Mensageiros do desastre

A historiadora francesa Annette Becker estudou a influência que a propaganda da Primeira Guerra Mundial teve sobre a Segunda. As notícias falsas difundidas contra os alemães entre 1914 e 1918, quando eram acusados de todo tipo de brutalidades com fins propagandísticos, tiveram um efeito negativo na percepção das atrocidades que foram efetivamente cometidas entre 1939 e 1945, sobretudo em relação ao Holocausto. Um exemplo disso foi a descrença que recaiu sobre os primeiros agentes poloneses que trouxeram a notícia do extermínio de judeus por parte dos nazistas. Em seu livro Messagers du Désastre(“mensageiros do desastre”, Fayard), que acaba de sair na França, Becker relata a história do Jan Karski, um herói polonês que arriscou a vida para levar a notícia do Holocausto a Londres. Não acreditaram nele quando informou aos aliados sobre o que ocorria. Um alto oficial britânico lhe explicou: “Senhor, durante a Primeira Guerra Mundial difundimos a propaganda de que soldados alemães esmagavam crianças belgas contra os muros. Acredito que fizemos bem. Isso nos ajudou a debilitar o moral do inimigo, a aumentar o ódio contra os alemães. Precisamos de relatos como o seu”. Karski acrescentou: “Notava-se claramente que ele não acreditava em mim”. De novo, uma notícia verdadeira era percebida como falsa.

Mas as regras que Marc Bloch intuiu há um século – que as notícias falsas precisam de uma sociedade disposta a acreditar nelas – começaram a ser aplicadas muito antes da era da comunicação de massas, já desde os criadores do pensamento histórico, primeiro Heródoto e depois Tucídides. “A democracia ateniense tem uma espécie de momento institucional, de marco crucial, que na verdade foi uma genial construção narrativa”, afirma o helenista Óscar Martínez, professor de grego, presidente da delegação de Madri da Sociedade Espanhola de Estudos Clássicos e autor de roes que Miran a los Ojos de los Dioses(“heróis que olham nos olhos dos deuses”, Edaf).

“Trata-se do elogio dos tiranicidas Harmódio e Aristógito, que são mostrados como os fundadores heroicos da democracia, já que assassinaram o tirano de Atenas. Mas quando Heródoto e Tucídides narram este episódio, se vê claramente que há coisas que não batem: não mataram o tirano, e sim o seu irmão, e a tirania durou quatro anos. E deixam expresso que as causas do magnicídio foram mais um assunto pessoal, inclusive amoroso”, prossegue Martínez. Com a vontade de investigar – a palavra que Heródoto emprega é historie – nasceu a luta contra as notícias falsas.

Na antiga Roma, os governantes estavam muito conscientes da importância da informação e de como era essencial adaptá-la às suas necessidades políticas, independentemente da realidade. “Em Roma, as notícias se transmitiam fundamentalmente através das imagens”, explica o pesquisador Néstor F. Marqués, que publicou recentemente Un Año en la Antigua Roma: La Vida Cotidiana de los Romanos a Través de su Calendario (Espasa). “Nem todo mundo sabia ler ou escrever, por isso a informação visual era muito importante. A forma mais rápida de difundir a chegada de um novo imperador era cunhar moedas com sua cara”, prossegue. E aí Marqués encontra um exemplo típico de notícia falsa: “O imperador Septímio Severo, nascido em Leptis Magna e que nada tinha a ver com seu antecessor, o malogrado Cômodo, para legitimar seu poder decidiu espalhar a ideia de que ele próprio era o irmão perdido de Cômodo, filho ilegítimo de Marco Aurélio, e por isso a pessoa mais adequada para ocupar o cargo. Nas primeiras moedas que cunhou, se fez retratar com traços muito parecidos com os de Marco Aurélio”.

Profanação de um crucifixo (‘Família de Hereges Açoitando um Crucifixo’), de Francisco Rizi.
Profanação de um crucifixo (‘Família de Hereges Açoitando um Crucifixo’), de Francisco Rizi. MUSEO NACIONAL DEL PRADO
Notícias e jograis

Também na Idade Média as notícias se propagavam com surpreendente eficácia, embora as condições materiais não acompanhassem o movimento informativo. Claude Gauvard, professora emérita da Sorbonne, investigou as formas de transmissão de informação nesse período: “Um cavalo podia percorrer 30 quilômetros por dia, mas o tempo que se levava para transmitir uma informação podia se acelerar dependendo do interesse da notícia”, conta por e-mail. As ordens mendicantes tinham um papel importante na disseminação de informações, assim como os jograis, os peregrinos e os vagabundos, porque todos eles percorriam grandes distâncias. As cidades também tinham correios organizados e selos para lacrar mensagens e tentar certificar a veracidade das correspondências. Graças a tudo isto, a circulação de boatos era intensa e politicamente relevante. Gauvard cita como exemplo de fake news clássica da era medieval a história do rei, conde ou senhor que desaparece na batalha e reaparece muito depois, idoso e transformado.

Um dos motivos para a construção de notícias falsas naquele período era tentar justificar atos que, de outra forma, seriam intoleráveis, como o magnicídio. “O duque de Borgonha, depois de encarregar em 1407 o assassinato do duque de Orleans, levou a cabo uma campanha epistolar: dirigiu-se às cidades do reino, aos príncipes, à Igreja, até ao Papa. Nessas cartas, argumentava que o duque de Orleans era um tirano que tentou assassinar a família real”, diz Gauvard, acrescentando que houve muitos outros casos de campanhas certeiras de desinformação, que chegaram inclusive a afetar Joana d’Arc. Mas a historiadora acredita que o exemplo mais claro para demonstrar a importância das mentiras são as caças às bruxas e as calúnias contra os judeus, autênticas campanhas de desinformação com resultados catastróficos. “Podem ter sido movimentos populares, mas foram manipulados pelas autoridades”, afirma.

Em um livro recém-lançado, Crimen e Ilusión. El Arte de la Verdad en el Siglo de Oro (Marcial Pons), Felipe Pereda, professor de arte espanhola na Universidade Harvard, estudou a fundo outro escandaloso e apaixonante caso em que a construção de uma notícia falsa teve implicações políticas. Ocorreu na Madri do século XVII, e é um exemplo claro de perseguição antissemita. “Em 1632 ocorreu um auto de fé em que foram queimados quatro marranos (judeus convertidos) portugueses, e outros foram enviados às galés. Todos eles eram acusados de terem profanado um crucifixo dois anos antes. As autoridades sustentavam que o objeto teria resistido a ser queimado e que inclusive teria falado com essas pessoas. Aquele foi um dos grandes escândalos do primeiro Governo do conde-duque de Olivares, acusado de favorecer os banqueiros marranos em detrimento dos genoveses”, explica Pereda.

A perseguição na rua das Infantas, onde viviam aqueles judeus, teve motivações políticas. Como explica o investigador do antissemitismo na Espanha Uriel Macías, o eco daquele caso foi tamanho que Calderón de la Barca escreveu uma obra, El Nuevo Palacio del Retiro, e Quevedo redigiu um furioso panfleto antissemita, Execración Contra los Judíos. Em 1650, Quevedo também publicou La Isla de los Monopantos, uma obra em que pela primeira vez se fala de um complô universal judaico para dominar o mundo, teoria que seria explorada a fundo pelos Protocolos dos Sábios do Sião, uma das grandes falsificações da história, que encontrou ampla difusão no começo do século XX. Historicamente o antissemitismo foi um terreno fértil para plantar mentiras.

A Inquisição se aproveitava dele e ao mesmo tempo o estimulava. “Na imensa maioria das lendas antissemitas é facilmente identificável como as mentiras são forjadas”, diz Macías, relatando que, depois do auto de fé de 1632, foram convocados concursos literários sobre o tema, e a Inquisição distribuiu panfletos anticristãos, supostamente escritos por judeus, que tinham sido integralmente falsificados para agitar e convencer o povo. Aquele processo contra os marranos não só se baseou em provas inventadas como também foi um arremedo jurídico: a única testemunha era uma criança menor de 10 anos, com graves problemas cognitivos, algo teoricamente inaceitável pela Inquisição, que violou suas próprias normas.

As casas dos judeus foram destruídas, e em seu lugar foi construído o convento dos Capuchinos da Paciência de Cristo, com uma capela situada exatamente no mesmo espaço onde ocorreu o sacrilégio imaginário. Ali foram instaladas quatro pinturas enormes, feitas por Francisco Rizi, Francisco Camilo, Andrés de Vargas e Francisco Hernández. “Os quadros reconstroem com documentadíssimo cuidado a cena do crime, descrevem os detalhes dos fatos, identificam cada um de seus protagonistas e, o que é mais importante, transformam os espectadores em testemunhas dos acontecimentos”, escreve Pereda em seu ensaio. O ponto de vista é o da única testemunha da profanação. Três dos quadros se encontram no acervo do Museu do Prado, já que a capela foi destruída no século XIX. Não foram necessárias naquela época as redes sociais para construir do zero a mentira perfeita, para criar uma realidade incontestável, embora falsa.

Outro exemplo da eficácia da Inquisição na disseminação de histórias falsas é o caso do Santo Menino da Guarda, ocorrido em Toledo. Vários judeus e convertidos foram acusados de assassinar um menino que nunca existiu (e que, apesar disso, continua sendo venerado atualmente). Politicamente esse fato inventado em 1490 teve um impacto formidável: foi um dos pretextos para a expulsão dos judeus em 1492. “Nunca ninguém deu pela falta de menino nenhum, nem se encontrou qualquer corpo”, conta a historiadora Mercedes García-Arenal, do Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC). “Mas montou-se um processo com confissões sob tortura, e vários judeus e judeus convertidos foram queimados. Este fato serviu para sossegar as vozes rebeladas contra a Inquisição e para decretar a expulsão dos judeus.”

Os dividendos políticos das notícias falsas são elevados, e já era assim bem antes da Internet, mas elas sempre necessitaram de um bom caldo de cultivo. As mentiras que se espalham e convencem as massas não surgiram com as redes sociais.
GUILLERMO ALTARES

 

Como os jornais e as redes sociais atuaram na retomada do poder pela direita

O jornalismo no Brasil é controlado por empresas familiares.

SObre a servidão moderna,blog do Mesquita

Empresa familiar

 É o que afirma a pesquisa Monitoramento da Propriedade da Mídia (Media Ownership Monitor ou MOM), realizada em conjunto com as ONGs brasileiras Intervozes e Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

De acordo com a publicação, 50% da mídia brasileira é controlada por cinco famílias e se “somados o grupo Estado, do jornal O Estado de S.Paulo; o grupo Abril, da revista Veja; e o grupo Editorial Sempre Editora, do jornal O Tempo, são oito famílias controlando 32 dos 50 maiores veículos, ou 64% da lista.”. (LIMA, José Antônio, 2017).

Tais famílias são também oligarcas em outros setores importantes da nossa sociedade, como bancos, igrejas e faculdades.

“Além de controlar as empresas de comunicação, os proprietários da mídia no Brasil mantêm fundações privadas que oferecem serviços educacionais e empresas no setor de educação. São ativos nos setores financeiro, de agronegócios, imobiliário, de energia e de saúde / empresas farmacêuticas. (…)

A família Macedo, que controla o grupo Record e a Igreja Universal do Reino de Deus, também domina um partido político, o Partido Republicano Brasileiro (PRB), que conta com um ministro no governo federal, um senador, 24 deputados federais, 37 deputados estaduais, 106 prefeitos e 1.619 vereadores. “ (FRONTEIRAS, 2017)

Coronelismo eletrônico

A pesquisa também revelou que apesar da expressa proibição de que políticos controlem empresas de mídia presente na nossa Constituição Federal, “32 deputados federais e oito senadores controlam meios de comunicação, ainda que não sejam seus proprietários formais.” (FRONTEIRAS, 2017).

“Na maioria dos casos, no entanto, os laços entre políticos e meios de comunicação de massa são forjados por meio de estruturas de rede e acordos comerciais em que grandes radiodifusores nacionais sublicenciam sua marca e seu conteúdo para empresas no nível estadual. Esses afiliados atuam como redistribuidores, mas, mais importante, são um veículo de co-propriedade para homens (muito raramente mulheres) poderosos em seus estados e municípios. Em vários estados, as afiliadas das grandes redes são controladas por empresas que representam diretamente políticos ou famílias com uma tradição política, geralmente proprietárias de empresas em mais de um setor da mídia. Como reproduz a concentração da propriedade da terra no Brasil, esse fenômeno é definido, por pesquisadores, como coronelismo eletrônico.” (FRONTEIRAS, 2017).

Coronelismo eletrônico foi o termo cunhado por teóricos da área de comunicação social a fim de caracterizar o uso político dos meios de comunicação por grupos familiares das elites políticas locais ou regionais.

É certo que esse coronelismo eletrônico está alinhado com ideais conservadores de direita. Segundo levantamento realizado pelo projeto Donos da Mídia, que cruzou informações da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), entre os anos 1987 e 2008, “O DEM é o partido que possui o maior número de políticos ligados a empresas de comunicação com 58 parlamentares ou 21,4%; em seguida vem o PMDB com 48 políticos ou 17,71%; em terceiro lugar aparece o PSDB 43 políticos ou 15,87%.” (HAILER, 2015).

O think tank e as fake news

O Partido dos Trabalhadores (PT) governou o Brasil por 13 anos seguidos. Luiz Inácio Lula da Silva elegeu-se duas vezes Presidente da República Federativa do Brasil e governou de 1º de janeiro de 2003 até 31 de dezembro de 2010. Dilma Vana Rousseff iniciou seu mandato em 1º de janeiro de 2011 até o famigerado impeachment em 31 de agosto de 2016.

Durante esse período tivemos uma invasão de organizações estrangeiras ultraliberais no Brasil, em especial a Atlas Network (1), que, de acordo com o seu site oficial, tem parceria com oitenta e duas instituições na América Latina e Caribe, sendo treze apenas no Brasil. O Estado com maior número de parceiros é São Paulo, são cinco ao todo: Instituto de Formação de Líderes, Instituto Liberal de São Paulo, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, Centro Mackenzie de Liberdade Econômica e o Students for Liberty Brasil. O Rio de Janeiro conta com três: Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista, Instituto Liberal e Instituto Millenium. A capital mineira, Belo Horizonte, com dois: Estudantes Pela Liberdade e Instituto de Formação de Líderes. Porto Alegre, também dois: Instituto de Estudos Empresariais e Instituto Liberdade. E o último fica em Vitória (ES): Instituto Líderes do Amanhã.

“ (…) em 2006, foi lançado oficialmente o principal think tank da direita no Brasil, o Instituto Millenium. Armínio Fraga (escolhido para ser ministro da Fazenda de Aécio Neves se ele vencesse as eleições) é sua figura mais conhecida no campo econômico. Seus mantenedores são a Gerdau, a editora Abril e a Pottencial Seguradora, uma das empresas de Salim Mattar, dono da locadora de veículos Localiza. A Suzano, o Bank of America Merrill Lynch e o grupo Évora (dos irmãos Ling) também são parceiros. William Ling participou da fundação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) em 1984, que, formado por jovens líderes empresariais, organiza o Fórum (2) desde a primeira edição; seu irmão, Wiston Ling, é fundador do Instituto Liberdade do Rio Grande do Sul; o filho, Anthony Ling, é ligado ao grupo Estudantes pela Liberdade, que criou o MBL. O empresário do grupo Ultra, Hélio Beltrão, também está entre os fundadores do Millenium, embora tenha o próprio instituto, o Mises Brasil.” (AMARAL, 2015).

Com a popularização da Internet e dos smartphones essas organizações encontraram nas redes sociais o veículo perfeito para propagar seus ideais políticos, através das chamadas fake news. “Levantamento realizado por pesquisadores do Instituto da Internet da Universidade de Oxford mostra que grupos conservadores de extrema direita são os maiores responsáveis pela disseminação de notícias falsas (“fake news”) nas redes sociais.” (RAM e BLOOD, 2018).
O propósito dessas fake news de extrema direita é que grupos ultraliberais divulguem suas teorias, travestidas de notícias, de forma mais ampla, não mais segmentada, alcançando um maior número de pessoas nas redes sociais.
“Antes um território quase exclusivo das esquerdas, as redes sociais têm sido invadidas por uma série de páginas consideradas de direita. Mais que isso, a direita está conseguindo algo que parecia improvável há alguns anos: impor a sua narrativa, não apenas para uma audiência de mais idade, mas também para os mais jovens.” (FUCS, 2017).
Atualmente, o Facebook é a maior rede social do mundo e a mais utilizada entre os brasileiros. De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia 2015, “Entre as redes sociais e os programas de trocas de mensagens instantâneas mais usadas (1º + 2º + 3º lugares), estão o Facebook (83%), o Whatsapp (58%), o Youtube (17%), (…).” (SECOM, 2014).
A maioria desses usuários está em busca de noticias. “76% das pessoas acessam a internet todos os dias, (…). Eles estão em busca, principalmente, de informações (67%) — sejam elas notícias sobre temas diversos ou informações de um modo geral.” (Secom, 2014). O problema é que o conteúdo dessas notícias é muitas vezes falso.

“As notícias falsas tornaram-se a erva daninha que ganhou terreno fértil na era digital. Imitam o estilo jornalístico, mas sem o menor compromisso com a realidade. Ao contrário. São criadas a partir de personagens conhecidos mas com suas falas distorcidas, ou inventadas, para confundir leitores, e amplificar sentimentos de rejeição ao alvo escolhido. Assim, as fake news têm colaborado para piorar a qualidade da política e das relações sociais mundo afora.” (EL PAÍS, 2017).
As notícias falsas tornam-se virais porque os internautas não checam a informação antes de compartilhá-la.
“Estudo realizado pela agência Advice Comunicação Corporativa, por meio do aplicativo BonusQuest, em novembro do ano passado, indicou que 78% dos brasileiros se informam pelas redes sociais. Destes, 42% admitem já ter compartilhado notícias falsas e só 39% checam com frequência as notícias antes de difundi-las.” (GOMES e PEREIRA, 2017)

Hoje, golpes de estado são arquitetados com táticas em manipulação da opinião pública por meio digital.

“Os bots utilizados para a manipulação política também são ferramentas eficazes para fortalecer a propaganda on-line e as campanhas de ódio. Uma pessoa, ou um pequeno grupo de pessoas, pode usar um exército de robôs políticos no Twitter para dar a ilusão de um consenso de grande escala”, afirma a equipe da Oxford. E concluem: “A propaganda informática é agora uma das ferramentas mais poderosas contra a democracia” e é por isso que as plataformas digitais “precisam ser significativamente redesenhadas para que a democracia sobreviva às redes sociais”. (SALAS, 2017).

O lawfare no jornalismo

lawfare, uso da lei para fins políticos, está para o jornalismo impresso assim como as fake news estão para as redes sociais.

Com a Operação Lava Jato, o coronelismo eletrônico encontrou sua arma política. De acordo com o site do Ministério Público Federal “A Lava Jato começou em 2009 com a investigação de crimes de lavagem de recursos relacionados ao ex-deputado federal José Janene, em Londrina, no Paraná.” Mas atualmente está intimamente relacionada a um processo de criminalização do PT e principalmente do ex-presidente Lula. “Levantamento realizado pela empresa Ipsos, especialista em pesquisa de mercado, aponta que o PT é o partido mais associado à corrupção no âmbito da Operação Lava Jato.” (Ferraz, 2017).

De acordo com John Comaroff, especialista em lawfare e professor na Universidade Harvard, a “Operação Lava Jato viola a lei para criar “presunção de culpa” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. O antropólogo ainda “defende a substituição do juiz Sergio Moro para dirimir questionamentos sobre sua isenção nas ações que pesam contra o petista.” E explica que “’Ao vazar conversas privadas, mesmo que envolvam 20 pessoas, se Lula está entre elas, você sabe que é dele que a mídia falará. Isso é ‘lawfare’. Você manipula a lei e cria uma presunção de culpa’” (BILENKY, 2016).

Sem esquecer-se do jogo político, “Comaroff relacionou as denúncias contra Lula ao impeachment de Dilma, que também ‘causou uma grande discussão sobre sua legitimidade, não procedimental, mas política’”. E levantou uma importante questão: “’Quem se beneficia dos ataques contra Lula também é objeto de reflexão, internacionalmente. Não estou julgando, mas há muito questionamento em torno especialmente do papel do Judiciário nesse caso, que parece muito ansioso por condená-lo’”. (BILENKY, 2016).

Veículos do jornalismo tradicional, como Folha de São Paulo, O Globo e Estado de São Paulo deram uma cobertura bastante espetacularizada do impeachment e da Lava Jato, aproximando-se de um jornalismo marrom de propagação de boatos, sem provas e com uso de fontes anônimas.

Textos como “Deus salve a Rainha!” do jornalista Noblat do O Globo traziam trechos como: “Um dia, Dilma não gostou da arrumação dos seus vestidos. E numa explosão de cólera, jogou cabides em Jane. Que, sem se intimidar, jogou cabides nela.” (NOBLAT, 2015).

Estudo realizado pela jornalista Cileide Alves, especializada em política e mestre em História pela Universidade Federal de Goiás, compara os editoriais dos três maiores jornais do país: Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo nas crises de 1964, 1992 e 2016. Neste trabalho utilizaremos o recorte do impeachment de 2016, apenas.

De acordo com o levantamento, o jornal Estadão publicou 83 editoriais e foi o mais duro contra o governo Dilma, Lula e o PT. O jornal publicou editoriais como:

“O asceta de Guaranhuns, em que diz ser ‘notável o atrevimento com que o personagem [Lula], que ficou rico na política, se apresenta como monopolista das mais pristinas virtudes’. (21/1/16). Repete o ataque em 29 de janeiro: ‘Lula sempre foi conhecido pela liberalidade e indulgência com que trata questões éticas’ e em A farsa desmontada (2/2/16), ao dizer que Lula não é o homem honesto que dizia ser. Usa e abusa de expressões como sandices, demagógicos, populistas, truculência, lulopetismo, bolivarianismo, falta de vergonha e histérica (se referindo à presidente). Escreveu que Lula e Dilma vivem “aos berros”. Referiu-se aos militantes petistas e de movimentos sociais pró-governo como “tigrada”; acusou o governo de tentar um “golpe de Estado” com a nomeação de Lula para ministro-chefe da Casa Civil e Dilma de promover uma ‘guerra ao Estado de Direito’ por se dizer vítima de um golpe. Nem de longe a posição editorial do Estadão lembra os cuidados e preocupações de 1992”. (IMPRENSA, 2016).

A jornalista continua e afirma que O GLOBO publicou 29 editoriais e

“Foi igualmente duro na escolha dos adjetivos e no tom dos ataques. Usou bastante as expressões lulopetismo, sempre em tom pejorativo, e bolivarianismo, para definir ideologicamente o governo e o PT. Em 25 de janeiro, afirmou que o governo realizava o ‘projeto de equiparar o Brasil à Venezuela’. Escreveu que ‘impeachment não é golpe’ em mais de um editorial. Lendo esses textos, impossível não lembrar o esforço do Estadão em 1964 para explicar que ‘revolução não era golpe’. Disse que ‘vale-tudo empurra Dilma e Lula para a ilegalidade’ e que a presidente fala de um ‘país imaginário’. (IMPRENSA, 2016).

Por fim analisou os editoriais do jornal Folha de S.Paulo

“A Folha de S.Paulo foi o único dos três que teve uma postura mais próxima da de 1992. Como há 24 anos, também publicou com antecedência um editorial na capa, dizendo que ‘não lhe restará (a Dilma), caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente o cargo que ocupa’ (Última chance, 13/9/15). Em outras palavras defendeu a renúncia como fizera com Collor. E o fez em uma segunda vez em Nem Dilma nem Temer (02/04/16) quando pediu a renúncia da presidente e do vice-presidente Michel Temer. Ao longo do período pesquisado, a Folha, que publica dois editoriais diários, fez duras críticas ao governo e seus aliados em 23 textos.” (IMPRENSA, 2016).

Considerações Finais

Percebe-se que as empresas de comunicação visam o lucro e a defesa dos interesses políticos e econômicos dos seus donos. Sendo assim, o jornalismo vira uma arma política de manipulação da opinião pública.

Conclui-se que, além das fake news, o próprio jornalismo impresso foi propagador de discursos de ódio, contribuindo para o impeachment e para o atual clima de hostilidade e rivalidade política na sociedade brasileira.

Nota-se a importância e oportunidade do tema, aqui apresentado, para outros estudos, inclusive sobre a cobertura da mídia nas próximas eleições de 2018.

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Mirela Araújo Filgueiras é graduada em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade de Fortaleza – Unifor (2007) e Especialização em Teorias da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará – UFC (2009). Tem experiência nas áreas de webjornalismo, assessoria, rádio e televisão. Estuda as relações entre cibercultura e jornalismo.

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NOTAS

1. “Atlas Network (nome fantasia da Atlas Economic Research Foundation desde 2013) é uma espécie de meta think tank, especializada em fomentar a criação de outras organizações liberalistas no mundo, com recursos obtidos com fundações parceiras nos Estados Unidos e/ou canalizados dos think tanks empresariais locais para a formação de jovens líderes, principalmente na América Latina e Europa oriental.” (AMARAL, 2015)

2. 28ª edição do Fórum da Liberdade ocorrido na PUC-RS em 2015, que teve como convidado Alejandro Chafuen, Presidente da Atlas Network.Além de nomes reconhecidos na mídia como da direita no Brasil: Senador Ronaldo Caiado (DEM/GO), o jornalista William Waack (ex-Globo) e Rodrigo Constantino (presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Liberal e ex-blogueiro da revista Veja ex-colunista do jornal O Globo), dentre outros.

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REFERÊNCIAS

AMARAL, Marina. A nova roupa da direita. . Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/politica/a-nova-roupa-da-direita-4795.html>. Acesso em: 22 ago.2017.

BILENKY, Thais. Professor de Harvard vê ‘presunção de culpa’ contra Lula na Lava Jato. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/11/1829175-professor-de-harvard-ve-presuncao-de-culpa-contra-lula-na-lava-jato.shtml>. Acesso em: 21 ago.2017.

FERRAZ, Adriana. PT é o partido mais associado à Lava Jato, diz pesquisa. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,pt-e-o-partido-mais-associado-a-lava-jato-diz-pesquisa,70001872025>. Acesso em: 16 mar. 2017.

FRONTEIRAS, Repórteres sem. Oligopólios de mídia controlados por poucas famílias. A Repórteres sem Fronteiras e o Intervozes lançam o Monitoramento da Propriedade da Mídia no Brasil. Disponível em: <https://rsf.org/pt/noticia/oligopolios-de-midia-controlados-por-poucas-familias-reporteres-sem-fronteiras-e-o-intervozes-lancam>. Acesso em: 16 mar. 2018.

FUCS, José. Estado de São Paulo. A ‘máquina’ barulhenta da direita na internet. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,a-maquina-barulhenta-da-direita-na-internet,70001714254>. Acesso em: 21 ago.2017.

GOMES, Rodrigo e PEREIRA, Tiago. Divulgação de notícias falsas nas redes sociais pode ter consequências graves. Disponível em: <http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/127/divulgacao-de-noticias-falsas-nas-redes-sociais-pode-ter-consequencias-graves>. Acesso em: 21 ago.2017.

HAILER, Marcelo. Coronelismo eletrônico: partidos contra a regulação da mídia são os campeões de concessão em rádio e tv. Disponível em: <https://www.revistaforum.com.br/digital/179/coronelismo-eletronico-partidos-contra-regulacao-da-midia-sao-os-campeoes-de-concessao-em-radio-e-tv/. Acesso em: 16 mar. 2018.

IMPRENSA, Observatório da. Jornais apoiam o impeachment de Dilma? Disponível em: < http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/jornais-apoiam-o-impeachment-de-dilma/>. Acesso em: 16 mar. 2017.

Noblat, Ricardo. Deus salve a Rainha! Disponível em: <http://noblat.oglobo.globo.com/meus-textos/noticia/2015/04/deus-salve-rainha.html>. Acesso em: 16 mar. 2018.
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RAM, Aliya e BLOOD, David. Ultradireita lidera ‘fake news’ nas redes. Disponível em: <http://www.valor.com.br/internacional/5311355/ultradireita-lidera-fake-news-nas-redes>. Acesso em: 16 mar. 2017.
SALAS, Javier. O obscuro uso do Facebook e do Twitter como armas de manipulação política. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/19/tecnologia/1508426945_013246.html>. Acesso em: 21 ago.2017.
SECOM, Secretaria de Comunicação Social. Presidência da República. Pesquisa brasileira de mídia 2015 : hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. Brasília: Secom, 2014. Disponível em: < http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2015.pdf>. Acesso em: 21 ago.2017.

Mirela Araújo Filgueiras

Possui graduação em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade de Fortaleza – Unifor (2007) e Especialização em Teorias da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará – UFC (2009). Tem experiência nas áreas de webjornalismo, assessoria, rádio e televisão. Estuda as relações entre cibercultura e jornalismo.

Fatos & Fotos

Crime é um grande negócio

Em meu entendimento, e escrevo sobre isso desde a Escuderia Le Coq e Lúcio Flávio – os novos, aos livros – há muitos anos. O Estado perdeu a batalha contra o crime. Não vejo como recuperar o controle do Estado, principalmente porque, quem controla o crime organizado, está acima da lei; por detenção absoluta poder político e econômico. A violência institucional alimenta os discurso de vertentes diversas e opostas, e tal e qual as guerras militares, proporciona verbas astronômicas a seus mentores. E quando falo sobre lucros, não me refiro tão somente ao produto obtido diretamente com o ato em si, mas peço que imaginem toda a cadeia, sem trocadilhos, econômica “envovildada “nesse combate – de construções de presídios à alimentação da população carcerária; de advogados à fabricas de veículos adaptados para tal; da indústria armamentista à empregos, salários, equipamentos… façam as conexões, e constatarão que a lista é astronômica. O mínimo controle efetivo sobre a criminalidade, promove uma enxurrada de verbas, que sofrem os devidos desvios no ralo da corrupção. Tal e qual a seca no nordeste, se a água jorrar, secarão os votos eleitorais. Sem a criminalidade generalizada, crime deixará de ser um grande “negócio”, macabro, para os que estão no topo da pirâmide. E, o básico: não há oferta sem demanda. Ensina a mais primária das teorias econômicas.

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Torna-se minimamente oportuno, discutir-se a prisão perpétua e castração química para pedófilos.
“Tio-avô é preso suspeito de estuprar menina de apenas sete anos no DF. Segundo a Polícia Militar, ele fugiu para se esconder na casa de um irmão, no Guará, mas acabou detido e levado à delegacia.”

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Redação coercitiva?
Em sigilo, José Paulo Preto Alckmin prestou depoimento por escrito ao STJ. Em Sampa, ninguém mexe com o PSDB.
Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei. Depoimento de Alckmin, o Santo, ao STJ não tem Globo News, nem sequer presença. Vai por carta mesmo. A lei é para todos dona Carmínima? “Mêrmu”?
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O Bananil não passa de uma aberração midiática.
Em 2016, a PF fez buscas no triplex do Guarujá e contratou um chaveiro para abrir o apartamento.
O Jornal Nacional entrevistou o chaveiro.
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Com o STFdoPSDB até o talo.
Transmissão do julgamento de Aécio Neves: o recado da assessoria de imprensa do STF, em caixa alta: “NÃO está autorizada a transmissão ao vivo/tempo real, por internet ou pela TV, de imagens e áudio das sessões de julgamentos das Turmas do STF”.
 
 

Frustradas, revistas ficam sem a foto de Lula preso em suas capas

O que resta de uma história quando todos os recursos para manter a atenção foram desperdiçados?*

O que sobra de uma narrativa quando seu ápice chega, mas o suspense se esticou tanto que se esgarçou? O resultado são ecos, gritos dispersos, fragmentos de uma trama cujo arremate não foi nem sombra do que se prometeu até então. Fica o anticlímax, a frustração, o enfado. É isso que se pode conferir nas capas das principais revistas semanais de informação do país neste final de semana, logo após a decisão que sacramentou o destino do ex-presidente Luis Inacio Lula da Silva.

Condenado em duas instâncias judiciais, com negativas de habeas corpus e outros recursos e apelações, o fim da história seria a prisão, o início do cumprimento de uma pena de doze anos e um mês. Popular, controverso, carismático, falastrão, contraditório, amado e odiado, Lula é o maior personagem político do Brasil desde Getúlio Vargas. Sua origem e trajetória pessoal são lembradas e enaltecidas por jornalistas, especialistas e historiadores dentro e fora do país. Nada na vida dele parece ser comum, tudo parece ser superlativo ou extraordinário. É desses que transcendem fronteiras, confundem sentimentos, abalam estruturas e desafiam quem se destina a escolher palavras para descrevê-los.

Isto ÉVeja e Época acompanham o personagem Lula há décadas e a julgar por algumas das capas nos últimos anos, poderíamos esperar uma carnificina midiática nas bancas neste final de semana. Após a derrota no Supremo Tribunal Federal e um ágil mandado de prisão expedido, todas as cabeças se voltaram para os relógios numa contagem regressiva que apontava para um lance espetacular às 17 horas da sexta, 6 de abril. Quando o ex-presidente vai ser preso? Onde? Como? Teremos imagens? Será ao vivo? Vai ter streaming nas redes sociais? Como se sabe, Lula não aceitou a deferência do juiz da 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba, frustrando muita gente, inclusive jornalistas que fechariam as edições das revistas semanais. Sem fotos do ex-presidente se apresentando aos policiais federais, sem imagens que poderiam ser exploradas para humilhar Lula e saciar a malta raivosa que pede sua cabeça, as revistas tiveram que apelar a outros recursos gráficos. Veja veio com uma edição especial sem chamada de texto e com um desenho mostrando o rosto de Lula atrás de grades. Isto É aplicou uma sombra do ex-presidente atrás de grades e a chamada: “Lula Preso — Tremei, políticos corruptos, a sua hora também vai chegar. A esperança venceu a corrupção e, agora, a sociedade espera que Lula puxe a fila dos poderosos condenados à cadeia”. Época apontou os holofotes para o caso Marielle Franco e não trouxe nenhuma palavra sobre Lula…

A erosão do mito em Veja

Uma rápida olhada nas capas de Veja e Isto É mostra como Lula foi do céu ao inferno em poucos anos. Em 29 de outubro de 2014, Veja veio com uma capa em fundo preto mesclando os rostos de Dilma Rousseff e Lula da Silva e a chamada “Eles sabiam de tudo”. Em 29 de julho de 2015, a revista decretava: “A vez dele”. Em 9 de março de 2016, a mesma publicação trouxe “Lula e a Lei”, com o depoimento a partir de sua condução coercitiva. Na semana seguinte, 16 de março, vestiu a cabeça do ex-presidente com serpentes em alusão típica à mitológica Medusa sobre o título “O desespero da jararaca”. Em 21 de setembro do mesmo ano, a cabeça de Lula virou polêmica capa de Veja, agora derretendo e praticamente decepada. Na edição de 26 de abril de 2017, uma foto do político aparece rasgada com um lacônico “Acabou”. Em 19 de julho, Lula aparece preocupado, sustentando o rosto, carimbado com “Culpado”. Em 24 de janeiro deste ano, a revista reúne na capa o ex-presidente e seus algozes do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e a chamada “Lula a um passo do abismo”. Uma semana depois, Veja une duas fotos e força a comparação histórica: Lula, fichado pelo DOPS em 1980, e ele, na atualidade, com uma placa de condenado. “O que falta para Lula ser preso”, promete a revista.

Com uma narrativa como essa, o desfecho natural seria colocar-lhe algemas, vesti-lo com uniforme de presidiário e trancafiá-lo numa jaula. Era o esperado para este final de semana, mas não deu…

De Homem do Ano a sabotador do Brasil

Nas capas de Isto É, a trajetória vitoriosa de Lula despenca em poucos anos. Se na edição de 9 de dezembro de 2009, ele era “o brasileiro do ano” e se em 15 de fevereiro de 2012 era um “mito que se renova”, em 29 de abril de 2016, o ex-presidente e Dilma Rousseff foram tachados de “sabotadores do Brasil”. O “Crepúsculo do Lulismo” foi vaticinado em 15 de abril de 2015, e o “cerco a Lula” em 9 de setembro de 2016. Em 12 de maio de 2017, Isto É afirmaria que o político “Não é inocente”, e em 23 de junho do mesmo ano, faria clara alusão ao Poderoso Chefão dos cinemas com a chamada “A hora da condenação de Lula”. Em 14 de julho de 2017, Isto É perguntou: “Você votaria em um condenado para presidente?” Na edição de 19 de janeiro de 2018 ainda estava em dúvida: “Por que ninguém consegue prendê-lo?” E uma semana depois, tinha todas as certezas do mundo e decretaria: “O cara acabou!”.

Mais uma vez, pode se ver que os narradores foram alimentando uma história de deterioração rápida de um personagem, transformando o herói num monstro, tornando o símbolo de esperança numa figura abjeta, repugnante, cujo desfecho só pode ser um: sua ruína. Era o resultado esperado, imaginado, trabalhado nas capas da revista Isto É. A fotografia do mito algemado e abatido, que poderia colocar um ponto final em sua biografia, não veio…

Essa apoteose foi frustrada porque Lula não executou os movimentos esperados, impondo um novo roteiro às autoridades policiais, à mídia e ao Brasil. Sua presença no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo atraiu uma multidão, dificultando o acesso da polícia e de jornalistas, e vários meios de comunicação recorreram a helicópteros para captar imagens. A negociação para sua entrega fez com que as redações tivessem que reprogramar suas edições (o que é comum no jornalismo), mas também gerou episódios inusitados como a transmissão em tempo real de uma missa-comício e uma explosão na audiência de canais alternativos como Mídia Ninja e TVT, emissora ligada à CUT, desconhecida da maioria do público. Mais uma vez, Lula não só dominou o noticiário, como o pautou, desarmando as certezas dos analistas que se escandalizavam com a insurgência do político. Emissoras tiveram que recorrer a drones e a poderosa Globo reproduziu imagens da TVT. Ao mesmo tempo, as redes sociais faziam circular imagens épicas de Lula cercado por populares, sendo carregado por mãos anônimas, abastecendo a elétrica e caótica indústria de memes.

Contrariando a lógica, uma das imagens que mais circulou no sábado não foi a da prisão de Lula, mas a dele cercado pela multidão numa espécie de abraço coletivo. O flagrante foi feito por um jovem fotógrafo, Francisco Proner Filho, e que saiu até no The Guardian. Uma iconografia muito diferente da esperada pelos narradores do cadafalso de Luis Inácio.

Na noite do sábado (7), após momentos de ansiedade e tensão, Lula cumpriu o mandado judicial. Helicópteros das emissoras de TV, do céu como abutres, seguiram o comboio, fazendo engolir em seco seus apoiadores e fazendo salivar os que rangiam os dentes.

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Rogério Christofoletti é professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS.

As engrenagens da desinformação

Medo e hipocrisia minam combate às fake newsFake News,Blog do Mesquita,Mídia,Imprensa

Publicado originalmente pelo objETHOS.

Não é mais novidade para ninguém que a guerra contra as notícias falsas se converteu na principal preocupação do meio jornalístico. Em todas as partes, surgem iniciativas para checagem de dados e para desmentir declarações e números falsos. Pela primeira vez em muito tempo, a discussão deixou de ser um novo modelo de negóciou um revolucionário software, e os profissionais e as organizações passaram a debater rigor na apuração, verificação de versões e técnicas para qualificarem suas notícias. Por conta disso, cheguei a dizer que as fake news não eram uma notícia tão ruim para o jornalismo, pois nos obrigaram a pensar nossas próprias práticas. Mas passados poucos meses desse diagnóstico, vejo que o combate às notícias falsas corre riscos sérios e eles vêm justamente de quem menos se esperaria, aqueles que declararam guerra às fake news. Dois fatores primordiais contribuem para isso: alguma hesitação em enfrentar o problema e doses generosas de hipocrisia e marketing a envolver certas iniciativas.

Levantamento recente do Duke Reporter’s Lab mapeou 149 empreendimentos de checagem de dados no planeta. Mais de 70% deles estão na América do Norte e na Europa, e só os Estados Unidos contam com 47 projetos do tipo. O Brasil é o segundo país no mundo com mais checadores: 8 iniciativas entre as 15 detectadas na América do Sul. Essa posição privilegiada pode ser resultado de diversos fatores que vão do senso de oportunidade comercial de seus líderes à preocupação genuína sobre a crescente influência ilegítima de bots espalhadores de notícias falsas no debate público. No ano passado, uma pesquisa da GlobeScan já apontava o Brasil como o país mais preocupado com as fake news. O cenário se deteriorou ainda mais nos últimos meses, a ponto de a tradicional pesquisa da Edelman sobre confiança apontar que 75% dos brasileiros temem que as fake news sejam usadas como “armas”. Em um ano, a confiança na mídia local caiu 5 pontos, conforme o estudo, e quase metade dos ouvidos disse não saber em que empresas do setor confiar. Dos 28 países pesquisados, a mídia está em território de desconfiança em 22.

Receio e timidez

Reagir a uma paisagem hostil como esta é necessário e urgente. Iniciativas como Aos Fatos e Lupa têm se mostrado cada vez mais visíveis à medida que oferecem ao público os resultados de suas checagens. É um trabalho importante, útil e procurado, criando terreno fértil para iniciativas regionais, como a recente campanha de financiamento coletivo para aimplantação do Filtro, no Rio Grande do Sul. A exemplo de outras tantas, é um projeto bem-intencionado, com profissionais comprometidos e com nítido interesse público – fazer verificações durante a campanha eleitoral – mas sem base financeira que venha a sustentá-la de forma perene. Essa vulnerabilidade atinge a medula do projeto, pois é determinante para sua criação. Se os recursos projetados não forem arrecadados, o Filtro pode simplesmente não funcionar.

No estado vizinho, outra boa iniciativa surgiu no grupo NSC, que assumiu as operações da RBS em Santa Catarina. O Prova Real se explica como “uma iniciativa de fact-checking e debunking”, o que significa que verifica fatos e faz desmentidos, adotando “metodologia certificada para comparar os ditos com os fatos e classificar quanto ao nível de veracidade”. Segundo a página especialmente criada para o projeto (bastante didática!), “o objetivo é promover a informação correta, e não criar rótulos ou manchar reputações. O Prova Real checa o grau de veracidade de declarações públicas e publicadas, notícias falsas e imagens. Também checa o cumprimento de leis e contratos”. A equipe de jornalistas responsável pelas verificações foi treinada pela Agência Lupa, conta com manual próprio e a iniciativa vai abastecer veículos impressos, online, de rádio e de TV do Grupo NSC, o que é bastante promissor.

Apesar desses esforços, dois detalhes fragilizam a iniciativa, a meu ver. Os conteúdos checados são classificados conforme quatro etiquetas: Exato, Não é Bem Assim, É Chute, Não Fecha. Perceba que o Prova Real não carimba que uma notícia é falsa ou mentirosa, por exemplo. Não se trata apenas de nomenclatura. Um projeto que assume a função de desmentir ou desmascarar dados ou declarações não pode medir palavras quando a informação não condiz com o que foi verificado. Afirmar que um conteúdo é falso é necessário para, diante do público, separar o joio do trigo, e o Prova Real não faz isso, impedido pelas próprias etiquetas que criou e segue.

O serviço de checagem do Washington Post tem uma escala de um a quatro pinóquios para classificar o grau de falsidade dos conteúdos!

Outro fator que reduz o ímpeto da iniciativa é que, ao final das checagens, o Prova Real reproduz o contraponto de quem foi checado. Assim, a última palavra não fica com a equipe checadora, mas com a fonte cuja declaração foi questionada. Foi assim quando o projeto foi apurar fala do governador Eduardo Pinho Moreira sobre número de tornozeleiras eletrônicas em Santa Catarina. Após verificar que a informação “não fechava” – era falsa, portanto! -, o Prova Real publicou no final da checagem “o que diz o governo do estado”. Resumo da ópera: mesmo tendo falado coisas distantes da verdade, o governador ficou com a palavra final. Isso se deu em outras tantas oportunidades, e os veículos da NSC simplesmente abriram mão de atuarem como agentes de certificação das informações corretas, respaldados por suas próprias equipes de checagem.

A meu ver, o Prova Real incorre em dois erros: não afirma com todas as letras que um conteúdo é falso e renuncia à condição de agente certificador da informação. Com isso, expõe desnecessariamente seus profissionais, e não necessariamente separa o que é real e o que não é…

Hesitações como essa reduzem o poder de fogo dos fact-checking. Mas não só.

Em 27 de março, o concorrente Notícias do Dia publicou o editorial “Informação confiável” em que reafirmava seu “pacto” com leitores e assinantes “como antídoto para a propagação das fake news”. Na mesma edição, passou a publicar uma série de três reportagens sobre motivação e prejuízos com as notícias falsas, sobre o papel dos usuários nas redes sociais, e com dicas de como identificar material impostor e como verificar sua autenticidade.

Mostrar como as engrenagens da desinformação funcionam é muito importante e esse gesto alimenta o que os especialistas chamam de media literacy, a educação para um consumo crítico da mídia. Mas, convenhamos, não basta produzir reportagens e escrever editoriais para reduzir as notícias falsas. Se os próprios veículos convencionais contribuem para espalhar mentiras – a exemplo da Folha de S.Paulo no caso Marielle Franco, criticado pela ombudsman do jornal), jornalistas e meios precisam fazer mais para combater as fake news. As redações têm as condições objetivas para evitar publicações falsas e para aprimorar a qualidade de suas notícias à medida que adotam procedimentos mais rigorosos e cuidadosos.

Só piora!

Se estamos mesmo em guerra contra as notícias falsas, hesitação, receio, medo ou bom-mocismo não vão nos ajudar a vencê-las. As dificuldades são muitas para quem quer soterrar informações errôneas e fazer prevalecer as que têm correspondência com fatos e dados.

Notem que a própria noção de fake news é complicada, e vem sendo revista por quem se dedica a pensar sobre o assunto. Claire Wardle, do First Draft, critica a expressão, dizendo que ela não dá conta da variedade e complexidade do fenômeno: não são apenas notícias falsas, há paródias e outras formas de manipulação. Por isso, ela aponta para o que chama de “ecossistema de desinformação”.

O jornalista britânico James Ball, autor de “Post-Truth: how bullshit conquered the world” (Pós-verdade: como a besteira conquistou o mundo), evita a expressão “fake news” e adota “bullshit”, que poderíamos traduzir como besteira, bobagem, e que sinaliza para algo além das mentiras e boatos. Segundo Ball, não são apenas os políticos a espalharem o lixo por aí. Velha mídia, nova mídia, empresas especializadas em produzir material enganoso, redes sociais, plataformas digitais, pessoas comuns, todos ajudam a borrar as fronteiras entre verdadeiro e falso. E serviços de checagem de dados, sozinhos, não solucionarão a questão.

Em regiões mais organizadas, normativas estão sendo pensadas. No início de março, a Comissão Europeia publicou um relatório que encomendou a especialistas para orientar seus países sobre o tema. Não se trata apenas de um diagnóstico do problema, mas também de princípios para ajudar os formuladores de políticas a propor leis e incentivar boas práticas.

Embora haja iniciativas que até automatizem as checagens, o cenário bem distópico. Em levantamento de Aos Fatos, leitores até desconfiam das notícias recebidas por WhatsApp, mas não verificam suas autenticidades, e as coisas só tendem a piorar, já que têm surgido técnicas muitíssimo sofisticadas para manipular áudios e vídeos. A situação é tão complicada que até mesmo o Tribunal Superior Eleitorial – preocupado com as fake news nas eleições deste ano – embarcou em notícia falsa para justificar que está preocupado em combater as tais notícias falsas, conforme conta o jornalista Leonardo Sakamoto.

1º de abril

No momento em que escrevo essas linhas, esbarro numa peça publicitária da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) que mais parece deboche. “Verdade seja dita: a mentira não merece nem mais um dia”, brada retumbante o anúncio que continua: “Nesses tempos de tantas notícias falsas com trânsito livre pela internet, mentira deixou de ser coisa de um dia e virou companheira de todas as horas. Mas, para azar dela, continuamos aqui. Dedicados, diariamente, a estragar essa festa”…

Por alguns segundos, a ANJ esquece que seus associados também estão na internet – nas versões online dos jornais impressos – e que eles também contribuem para um ambiente de confusão informativa. Basta acessar qualquer site jornalístico e ver que, no entorno das notícias, também figuram “links recomendados”, “links patrocinados” e anúncios que emulam a linguagem jornalística. Ora, esses conteúdos são publicidades (mal) disfarçadas, que vendem soluções mágicas para problemas de saúde, que apelam para os instintos mais básicos dos leitores e que só sobrevivem se fertilizarem um ambiente de conteúdos viralizantes. Para sintetizar: as notícias falsas e suas variantes de desinformação contaminaram tanto o ecossistema informativo que são estruturantes de seu modelo de negócio.

Neste sentido, eu vejo com muita desconfiança quando iniciativas de fact-checking ou de promoção de qualidade jornalística são patrocinadas por gigantes da tecnologia, como Facebook e Google. Faz parte do modelo de negócio dessas plataformas gerar, impulsionar e fazer circular os conteúdos com alto potencial viralizante, não importando se eles são verdadeiros, ambíguos ou falsos. Quantos mais cliques, melhor. Quanto mais reações e compartilhamentos, maior o alcance desses materiais, mais pessoas terão acessado seus conteúdos, e a grande roda estará girando, distribuindo centavos aqui e ali.

Veja o caso do projeto Credibilidade. Ele é uma coalizão de empresas jornalísticas para enfrentar o problema da queda de confiança na mídia de forma prática, fomentando discussões nas organizações e formulando práticas e ferramentas que possam ser usadas por seus membros. Capítulo brasileiro do projeto Trust, iniciado na Universidade de Santa Clara nos Estados Unidos, o Credibilidade tem entre seus parceiros nomes de peso como a Folha de S.Paulo e O Globo, e conta com patrocínio de ninguém menos que… Google! É muito importante que os veículos brasileiros estejam juntos e empenhados em aperfeiçoar suas práticas, produtos e serviços, mas por que tal iniciativa precisa ser dependente de recursos de uma corporação de tecnologia que vive à base do tráfego de dados? Por que jornais, revistas e demais meios não investem seu próprio capital para redesenhar seus procedimentos, já que os resultados de tais mudanças irão incidir diretamente em seus negócios? É como se uma rede de supermercados topasse financiar um plano de saúde para as vacas dos pecuaristas de uma região. Com a medida, o leite e o queijo ficariam melhores, mas os criadores conseguiriam vender seus produtos para outros supermercados além da rede patrocinadora?

Trust e seu capítulo brasileiro Credibilidade não são os únicos a padecerem desse mal. O Cross Check, iniciativa da First Draft, que fez um ótimo trabalho de checagem nas eleições francesas do ano passado, é patrocinado pelo Google News Lab! Aliás, o projeto está sendo gestado no Brasil, mas enfrenta dificuldades internas para se impor…

Mas é claro que, no livre mercado, Google pode investir seus milhões onde bem quiser e talvez haja até justificativas de sua responsabilidade pela sanidade do meio digital. Mas por que empresas de mídia não colocam suas fichas nesse jogo também? E mais grave: ao aceitarem uma ajudinha dessas empresas de tecnologia, não ficam dependentes de sua boa vontade de financiamento? Reféns do capital high-tech, conseguirão os veículos de mídia ter independência editorial para cobrir esse setor com rigor e compromisso? Por acaso, você já viu alguma checagem de dados desses veículos sobre Google ou Facebook?

Sejamos francos: plataformas como Facebook e Google não querem acabar com as fake news. Se quisessem, estimulariam conteúdos de qualidade em detrimento de falsidades, mas não fazem isso porque fake news e bizarrices são mais virais que matérias jornalísticas ou informativas. Se quisessem acabar com as fake news, as plataformas restringiriam a dispersão indiscriminada e mudariam seus próprios modelos de negócio, abrindo mão das vantagens financeiras vindas da publicidade mentirosa, da confusão, das manipulações e apelações. Em outras palavras: elas se beneficiam com as besteiras, com a desinformação.

A mesma hipocrisia que sustenta a campanha da ANJ embasa os movimentos das gigantes de tecnologia na cruzada contra as fake news. Não passa de discurso, de estratégia de marketing, de slogans e verbas dispendidas para serem apresentadas em seus balanços sociais. É investimento em imagem tão somente.

A declarada guerra contra as notícias falsas exige mais de profissionais e organizações jornalísticas. Se quiserem mesmo se contrapor ao ecossistema de desinformação, precisarão capacitar equipes, aprimorar procedimentos de apuração, contratar jornalistas especializados, e desenvolver ferramentas e sistemas próprios para desmentir e desmascarar falsidades. Precisarão assumir o protagonismo de certificação dos fatos, refinando seus critérios editoriais e investindo maciçamente em coberturas de qualidade. Não poderão terceirizar suas funções mais básicas de verificação e checagem. Terão que afastar o medo, o marketing e a hipocrisia, e eleger a coragem e o compromisso com o público para produzir jornalismo de qualidade nítida e cristalina. É só a credibilidade do sistema jornalístico que está em jogo. Só.

É preciso arregaçar as mangas e avançar para além do que já foi oferecido. Sim, ontem, foi o dia da mentira, e embora isso desagrade à ANJ, está longe de ser o último.

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Rogério Christofoletti é professor da UFSC e pesquisador do objETHOS.

Traficante é substantivo pra pobre

O crime no Brasil não ocorre somente porque ele cresceu na sociedade, nas ruas, nas favelas, e sim porque ele, o crime, capturou parte dos aparelhos do Estado que deveriam cuidar da segurança pública. A mídia contribui com a manipulação da “Novilíngua.”


Branca, bem vestida, classe média, não é estampada nas manchetes com “traficante”. Isso fica pro “Zé Povin” fichado nas favelas. Manchete do G1:
“Com maconha” dentro da mala, jovem é detida na Dutra, em Itatiaia, RJ.” Perceberam a ausência da palavra traficante?
Pois é! Agora vejam aí na foto os pacotes na mala da dondoca.
Se isso não for tráfico o Sarney é escritor.

Crise na Imprensa: Guerra perdida

Jornais,tecnologia,Blog do MesquitaQual o peso de vencer uma batalha se a guerra está sendo perdida?

Veículos de imprensa decidiram bater de frente contra Google e Facebook. Para aproximar a relação, os gigantes do Vale do Silício chegaram a sinalizar com parcerias, mas alteração nos algoritmos vai deixar a vida dos noticiários ainda mais difícil.

O faturamento das empresas jornalísticas despencou do patamar dos US$ 90 bilhões para cerca de US$ 50 bilhões nos últimos dez anos, de acordo com um estudo elaborado pela empresa de publicidade GroupM. Enquanto isso, Google e Facebook, juntos, faturaram US$ 117,1 bilhões em publicidade digital em 2017.

O número é mais do que o dobro do registrado há cinco anos, segundo a consultoria PwC. Mas o que poderia ser um visto como um feito para as duas companhias de tecnologia foi a gota d’água para grande parte das empresas de mídia.

Mesmo antes do fim de 2017, a organização News Media Alliance — que reúne quase 2 mil empresas de mídia de EUA e Canadá, incluindo jornais como The Washington PostThe Wall Street Journal e The New York Times — foi ao Congresso americano pleitear uma autorização para negociar diretamente com Google e Facebook. A alegação era que os dois gigantes do Vale do Silício usam e distribuem o conteúdo de qualidade criado pelas companhias de mídia, sem qualquer contrapartida.

Coincidência ou não, a pressão provocada pelo grupo que representa as publicações teve reflexos. Após a reclamação, as duas empresas californianas anunciaram uma série de medidas que, de alguma forma, até poderiam estar sendo preparadas para a implementação, mas, naquele momento, serviram como um contra-ataque às críticas dos veículos de imprensa. A primeira delas foi tomada pelo Google ao acabar com a política do “primeiro clique grátis”.

Conhecido pela expressão inglesa first click free, desde 2005, o Google exigia que sites de notícias disponibilizassem um determinado número de artigos grátis aos leitores que chegassem ao portal dos veículos através do buscador do Google. Isso permitia, por exemplo, acesso ao conteúdo, mesmo em sites cuja cobrança por leitura estivesse em vigor, o chamado paywall de notícias. Mas, aos poucos, as queixas foram aumentando, até que a empresa de Cupertino encerrou a prática no ano passado. Sendo assim, ponto para a mídia online.

Combate às fake news para valorizar a imprensa

E os motivos para os jornais e revistas comemorarem não pararam por aí. Em agosto, a empresa do americano Mark Zuckerberg convidou os veículos para fazer o upload de suas logomarcas para que usuários identificassem, logo no link, a origem da informação. A estratégia visava combater fake news, que tanto colocaram o Facebook em cheque pela postura passiva que teve durante as eleições americanas, em 2016, quando uma enxurrada de informação falsa circulou na News Feed de usuários. Paralelamente, a empresa também resolveu desenvolver algoritmos para reconhecer notícias compartilhadas por robôs — artifício muito utilizado na viralização de fake news — para facilitar a exclusão de conteúdo falso.

O Google também entrou para o time de combate às notícias mentirosas. Resolveu criar um selo para indicar publicações confiáveis e mudou as regras para evitar que sites propagadores de boatos continuassem a lucrar com o AdSense — o serviço de publicidade da empresa.

Da euforia à depressão: os jornais perdem um de seus maiores canais de distribuição

Nas redações mundo afora, o estreitamento da parceria de Google e Facebook com os veículos de mídia era motivo de empolgação, uma vez que jornais e revistas vinham ganhando uma “batalha” importante contra as “gigantes do Vale”. Só que tudo começou a voltar à estaca zero no final de outubro. Argumentando que se tratava de um teste, o Facebook decidiu fazer uma alteração nos algoritmos de quem usava a rede social na Bolívia, Guatemala, Eslováquia, Sérvia, Sri Lanka e Camboja. Nos seis países, na News Feed tradicional sobraram apenas posts de amigos e familiares, além de anúncios.

A consequência disso foi uma queda brutal no alcance orgânico das fanpages de marcas e, claro, de veículos de imprensa. O impacto pode ser sentido na queda do engajamento de usuários em relação às notícias e, consequentemente, no tráfego vindo da rede social para os sites de cada veículo.

Para ilustrar isso, o jornalista eslovaco Filip Struhárik postou um gráfico no qual mostra interações em 60 fanpages da Eslováquia antes e depois da atualização. Os dados evidenciam que as páginas tiveram quatro vezes menos interações (comentários, curtidas e compartilhamentos) após a mudança.

Gráfico mostra interações em 60 fanpages da Eslováquia antes e depois da atualização. (Fonte e crédito: CrowdTangle/Filip Struhárik)

Questionado por Struhárik, o chefe de News Feed do Facebook, Adam Mosseri, respondeu, na época, que a mudança era apenas um teste e que não havia planos de lançar a novidade em outros países. O problema é que o teste passou para a fase 2: a implementação — e no mundo. A alegação para tal atitude, segundo especialistas, é que foi uma tentativa de combate ao fenômeno das notícias falsas.

Não é difícil prever que, com as mudanças promovidas por Zuckerberg, os jornais já perderam, no caso dos primeiros seis países, e vão perder, no mundo, um dos principais canais de distribuição de notícias. A partir de agora, captar a audiência presente na rede social não só ficará cada vez mais difícil, como também mais custoso, pois será preciso pagar por impulsionamentos para levar notícias às timelines dos leitores. E, caso não haja investimento para isso, os mais de 2 bilhões de usuários vão ter menos informação de qualidade na rede social.

Censura do Google?

Já o Google, segundo um relatório publicado, em outubro, pela World Socialist Web Site (WSWS) — um site de notícias com viés socialista — tornou mais difícil encontrar sites de esquerda no buscador mais famoso do mundo. A mudança ocorreu depois de uma alteração nos algoritmos da empresa americana, que visava combater as fake news. Só que a alteração — sob o conhecimento da companhia ou não —, ao mesmo tempo, tornou menos relevante o conteúdo de sites menores de esquerda que falavam, por exemplo, sobre temas progressistas, ações anti-guerra e direitos humanos. Segundo a WSWS, os índices de busca no Google tiveram um declínio de mais de 60% após a mudança.

A empresa se defendeu alegando que o principal objetivo da mudança era permitir que a companhia tivesse um controle maior na identificação de conteúdos “questionáveis”. Neste caso, os jornais e revistas mais conhecidos e acessados passaram ilesos às alterações promovidas pelo Google, mas o exemplo escancara o quanto uma empresa consegue ditar o ritmo do tráfego mundial sem fazer esforço.

Em meados do ano passado, Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e do Fórum Mundial de Editores, declarou que entre 40% a 50% dos usuários consomem informação digital a partir do duopólio Google-Facebook. O número é alto e incomoda qualquer veículo. O caminho para reverter isso é sinuoso, seja criando modelos de assinaturas mais atraentes, seja desenvolvendo qualquer outra estratégia que ajude o jornalismo a ficar mais independente das redes. O tempo urge, já que, apesar de batalhas vencidas, a “guerra” parece cada vez mais perdida.

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Renan França é jornalista, e foi repórter de O Globo e das revistas Exame e Veja Rio